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MELGAÇO, DO MONTE À RIBEIRA

História e narrativas duma terra raiana

MELGAÇO, DO MONTE À RIBEIRA

História e narrativas duma terra raiana

UM ABADE MUITO OBSERVADOR

25.04.15, melgaçodomonteàribeira

Igreja de Lamas de Mouro - Pormenor

 

OS LIMITES DA FREGUESIA DE LAMAS DE MOURO

 

(…)

Com a petição inicial foi apresentada outra prova adicional que, mesmo não sendo um título jurídico de limites, se revela de extraordinária relevância para a boa decisão da justa judicial. Trata-se de um assento de óbito, datado de 26 de Abril de 1791, de uma defunta que apareceu no monte de Medoira e foi mandada enterrar no adro da igreja da freguesia de Lamas de Mouro. Vale a pena deixar aqui publicado na íntegra esse singelo registo paroquial:

 

“Aos vinte e seis dias do mez de Abril de mil e setecentos e noventa e hum appareceo no sitio chamado da Medoira monte que he dos lemites desta freguezia huma deffunta cujo nome e naturalidade se ignora, o traje era de pobre, suposto não trazia saco, nem esmollas, trazia vestido hum jubam preto, hum manteo a que chamam de riscadilha, hum abantal de Saragoça parda, teria a mesma deffunta sassenta annos de idade e duas unhas da mam esquerda extraordinariamente cumpridas redondas e grossas. E depois de feito o exame que em semelhantes cazos se custuma fazer pelas justiças foi conduzida ao Adro desta Igreja, e por se lhe nam achar Rosario nem Escapulario foi sepultada no mesmo Adro aos vinte e oito dias do mez e anno supra. E para que conste faço este assigno em Sam Joam de Lamas era ut supra.

O abbade, Antonio da Cunha Alvarez

 

 

Os Limites da Freguesia de Lamas de Mouro e os Caminhos da (in)Justiça

José Domingues

Novembro 2014

p. 134

 

Retirado de:

www.academia.edu/9978638/Os_Limites_da_Freguesia_de_Lamas_de_Mouro_e_os_Caminhos_da_in_Justiça

 

LIMITES DE CASTRO LABOREIRO

18.04.15, melgaçodomonteàribeira

Ameijoeira, marco n° 51

 

                                                                              CADERNO ARRAIANO

 

MONTES LABOREIRO

 

PALMILHANDO UMA RAIA CARREGADA DE SÉCULOS

 

Américo Rodrigues e José Domingues

 

                                                               “Dos hermanos siameses unidos por la

                                                       espalda que non se han visto la cara”  

 

1754, JUNHO, 16 A DEZEMBRO, 03 – CASTRO LABOREIRO

 

Tombo da comenda de Santa Maria de Castro Laboreiro, de que é comendador Aires de Saldanha de Albuquerque Matos e Noronha.

 

IAN/TT – Mesa da Consciência e Ordens, Secretaria das Arrematações e Tombo das Comendas, Castro Laboreiro, livro153.

 

“(…)” Lemites com a freguezia de Enterime reyno de Galiza

Acharam elle Doutor juiz do tombo e louvados que por demarcaçaens antiguas existentes e observadas começava a limitar esta commenda com a freguezia de Entrime reyno de Galiza pela dita Fecha do malho todo pelo ribeiro dos Barcos asima athé o Freyxeiro e a ponte (…) que dahy ariba das pedras encavalgadas direito ao Outeyro Longo e dahy direito ao Carreyro do Busto de Conde direitto a lagea preta e dahy direito ao esteyro que parece homem hindo direito a Salgueiro de Cadella Moura da Fulgueria Ruiva direito à lapa das Chedas e dahy direito ao Outeyro de Correynhos donde vay lemitando dereito ao alto do Pedroço e dahy direito ao Outeyro do Fisgueiro e dahy vay agoa abayxo direito ao Porto de Sepos Albos onde começa a lemitar com a freguezia de Sam Gens concelho de Lubeira.

 

Lemite com a freguezia de Sam Gens reyno de Galiza

Acharam outro sim elle Doutor Juiz do tombo e louvados que do dito Porto de Sepos Albos se continuava a devizam dos lemites desta comenda com a freguezia de Sam Gens reyno de Galiza agoa ariba dereito ao lugar chamado caza de Antella e dahy dereito ao marco de Antella que devide os ditos lemites e arraya e pela parte da Galiza tem várias letras galegas e portuguezas pela parte de Portugal e se custuma vezitar o dito marco de annos em annos assim pelas justiças desta villa como pelas de Lubeira com quem lemita esta comenda e reyno e do dito marco vay direito as lageas da Caveraxa onde está huma cruz por diviza e dahy vay direito onde havia hum marco antiguo e de prezente existem humas cruzes por demarcaçam mais segura e estável e dahy agoa abayxo pela corga acho que das Lamas dos Porto Carnnes e dahy vay continuando pelo alto da Cabeça da meda direito a Cruz da Mourisca onde acaba de limitar com a dita freguezia e começa com o concelho de Bande na maneyra seguinte

 

Lemite com o concelho de Bande do reyno de Galiza

Acharam outro sim que da dita Cruz da Mourisca começa a devidir esta comenda com o concelho de Bande e vay devedindo dereito ao marco dos Brincadores que devide os ditos lemites e dahy vay direito ao Cotto do Ferro onde acaba de devidir com o dito concelho de Bande e começa com a freguezia de Banguezes.

 

Lemite com a freguezia de Banguezes reyno de Galiza

Acharam que do dito cotto do Ferro entrava a dividir esta comenda com a freguezia de Banguezes e dahy hia devidindo direito ao marco da Portella de Pao onde começava a partir com a freguezia de Santa Maria de Leyrado o que tudo acchou elle Doutor Juiz do tombo ser verdade assim pelo tombo velho como por custume antiguo de que o enformou algumas pessoas enteligentes e estas (…) os mesmos louvados debayxo do seu juramento que recebido tinham e que outro sim por custume munto antiguo vinhão os moradores de Entrime a rogo e lemites desta comenda fazer huma vizita em cada hum anno e da mesma sorte hiam também os deste concelho vizitar a mesma arraya e lemites assim com também faziam com os de Lubeira no marco raya e lemites com que confrontam com esta comenda na forma que já asima debayxo do juramento que recebido tinham declararam e de tudo mandou elle Doutor Juiz do tombo fazer declaraçam de terminaçam de marcos e confrontaçam que mandou se enformaçe inviolavelmente e que se metessem em tombo e asignou com os ditos louvados e eu que do referido dou féé Joachim de Castro Araújo escrivam orphaos que o escrevy // Atouguia // do louvado Manoel Domingues hum signal // Sebastiam Domingues.

(…)

 

Lemite das freguezias de Leirados e Monte Redondo

E logo em o mesmo dia e anno atrás declarado neste citio do marco da Portella do Pau onde eu escrivam fui vindo com elle Doutor Juiz do tombo e louvados a estes mandou elle Doutor Juiz do tombo fossem continuando na demarcaçam desta comenda e acharam que o dito marco da portella de Pau hia lemitando dereito à lagea Cruzada e dahi começa a lemitar com a freguezia de Monte Redondo dereito ao marco de Rocadas onde acaba de dividir com a dita freguezia e começa a partir com as dos Crespos pela maneira seguinte.

 

Lemite com a freguezia de Crespos

Acharam mais que o dito marco das Racadas começava a lemitar esta freguezia e comenda com a freguezia de Crespos hindo dereito à Pedra Ruiva e dahi dereito à Portella de Carrainhos onde estam cruzes e letras com humas lages por diviza e dahi direito ao Porto de Gontim onde acaba de dividir esta comenda com a freguezia de Crespos reino de Galiza e começa com a de Alcovaça de Portugal com a maneira seguinte.

 

Lemites com a freguezia de Alcobaça que he couto de Fiaens de Portugal

Acharam mais elle Doutor Juiz do tombo e louvados que começava a dividir esta comenda com Alcobaça couto de Fiaens do dito Porto ou Poça de Gontim direito ao Outeiro de Carquejal e dahi partindo direito ao couto de Razil onde estam cruzes e divizoens e dahi direito ao Outeiro do Melleiro do Razil e dahii a Outeiro das Cancellas água abaixo direito ao Porto do Malho e dahi direito ao Porto dos Cavaleiros que he o mesmo que Porto dos Asnos por outro nome onde começou a lemitar com a freguezia de Lamas termo de Valadares e no dito Porto se completa o circuito desta comenda com as freguezias confinantes na forma que atrás fica declarado e que a referida demarcaçam estava na dita forma bem e fielmente feita e que assim a conhecem elles louvados desde que se entendem e por tradiçam dos seus passados e consta do tombo velho à cuja face se fez este também e logo pelo mesmo procurador desta comenda foi dito nam prejudicar o seu constituinte nem aos moradores desta comarca a demarcaçam e devizam feita cujo protesto mandou elle Doutor Juiz do tombo tomar deixando-lhe salvo todo o direito para em todo o tempo se ajudarem delle de que de tudo mandou fazer este termo que asignou com os louvados e procurador do comendador e eu que de todo o referido dou féé Joachim de Castro Araújo escrivam do tombo que o escrevi // Atouguia // Manoel Machado de Araújo // Manoel Domingues // do louvado Sebastiam Domingues hum signal. (…)”

 

Retirado de:

www.academia.edu/6875499/_Montes_Laboreiro_Palmilhando_uma_raia_carregada_de_séculos_

 

PARAÍSO EM MELGAÇO

11.04.15, melgaçodomonteàribeira

Galvão, Melgaço

 

RUA DA ESTRADA DO PARAÍSO

 

PARA os que pensam que a Rua da Estrada é um inferno, lhes diria que é o seu contrário e que não é difícil provar tal facto de tão visível e argumentada que está a existência do paraíso, decorado interior e exteriormente e equipado com mobiliário de jardim como lhe compete. As portas do paraíso teriam que dar para a Rua da Estrada que é coisa que vai a todo o lado e não tem portagens como as vias mais rápidas.

Depois de terem provado do fruto da árvore do conhecimento do bem e do mal, Adão e Eva foram expulsos, como se sabe. Ei-los, no entanto, sentados à porta, já completamente calçados, vestidos e penteados de caracolitos, razoavelmente refeitos dos seus desentendimentos com o Todopoderoso. Em todo o caso, o querubim disfarçado de anjinho papudo, deve ter a espada de fogo guardada debaixo da túnica, não se lembrem eles de voltar a entrar. Da fartura do éden e da paz que reinava entre as bichezas que o habitavam, vislumbra-se daqui a fertilidade de uma galinha no choco e uma águia em sã e branca convivência. Confere.

Como é Paraíso, a Rua da Estrada organizou-se como nunca: ele é passeios, rampas, baias de estacionamento, passadeiras, iluminação, bandeiras, petúnias em vasos e tiras relvadas, separação de faixas de entrada e saída de veículos, caixotes verdes para o lixo e o que mais se poderia ver ao longe se não fosse a curva.

 

Por Álvaro Domingues autor de A Rua da Estrada

 

Retirado de:

Correio do Porto

memórias de um mundo à parte

 

www.correiodoporto.pt/rua-da-estrada/rua-da-estrada-do-paraíso

 

O NASCIMENTO DO MITO IGNES NEGRA - VI

08.04.15, melgaçodomonteàribeira

Foto da CMM

 

(continuação)

 

A comitiva da Rainha continuava a sua marcha descendente.

O caminho agora começava a estreitar-se entre muros e sebes avivadas de silvados e plantas agrestes, e tão apertado que mal cabiam a dous, sendo diffícil a passagem quando de frente encontravam um boisinho barrosão de hastes enormes, ou as récuas de mulas que levavam provisões ao convento. Esse corredor serpenteante (quasi escadaria) de mais de meia légua, desembocava abruptamente no acampamento. N’este o Rei que logo veio receber a Rainha, começou explicando o modo de arremetter, e como se realizaria a escaramuça entre as duas mulheres.

Na Corte dos Valois, perto de três séculos depois, em plena Renascença, os combates singulares, antigo julgamento de Deus, tornaram-se solemnidades quasi festivas, que chegariam ao apogeu de brilho, no célebre torneio em que Jarnac, o favorito da Duquesa d’Etampes, o pomposo Chataignerie, defensor de Diana de Poitiérs, na liça rutilante de St. Germain, sob os olhares do Rei, da nobreza, e de todas as summidades de França.

Aqui, porém, n’esse final do século XIV, e n’este canto da Península, as escaramuças, perante uma corte mais guerreira que polida, mais austera que licensiosa, se não tinham o esplendor das cerimónias thetraes que deslumbram, não eram menos impressivas, ou menos importantes os seus resultados.

Pelo contrário. Na Corte de Henrique II digladiavam-se dois adversários para liquidarem uma intriga de alcova.

No arraial de D. João I batiam-se duas mulheres, disputando a honra de dous exércitos, empenhados em fixar a fronteira do Reino.

N’essa manhã do começo de Março em que a Arrenegada sahiu pelo postigo da fortaleza, para vir defrontar-se com a sua competidora Ignez Negra, todos de um lado e outro se dispuzeram a presencear o espectáculo d’esta pugna de nova espécie, a que deram foros de combate, e que a chronica regista com a designação honrosa de escaramuça entre duas mulheres bravas. Bravas no sentido de valorosas, e bravas na acepção de ferinas.

Os de dentro subiam aos parapeitos das cortinas e bastiões, debruçando-se curiosos. Os do arraial formavam círculo em volta das luctadoras, saudando com vozearia carinhosa Ignez Negra a portugueza, e enchendo de vaias e apupos a desnaturada castelã.

As almas também tem sexo, como os corpos. Assim se aclaram, quando a natureza as troca, tantos casos inexplicáveis, tantas anomalias flagrantes – homens mulherengos, mulheres viragos.

Nos corpos d’estas duas moravam almas de luctadoras valentes, herdadas talvez dos seus avoengos; dos que em eras remotas haviam ajudado a expulsar da Penínsulas as raças invasoras.

Foi logo impetuoso o primeiro embate das justadoras. Com fúria, com sanha, com rancor atiraram-se uma à outra sem mais armas que as unhas, com que reciprocamente rasgavam as carnes, e os dentes com que se esfacellavam. Atropellando-se, arrancando os cabellos, afogando-se nos fortes braços nervosos, derrubando-se alternadamente na lucta; ensanguentadas, esfarrapadas, e rugindo como feras prolongaram durante minutos a encarniçada peleja.

Davam mais a impressão de dous monstruosos animaes enovellados em trapos, cabellos e sangue, que de duas mulheres humanamente construídas.

O drama começava a abalar o ânimo ainda dos menos susceptíveis de soffrer comoções, quando a Arrenegada, ou porque tivesse menos elasticidade nos músculos que Ignez Negra, ou porque o espírito dos que renegam crenças e opiniões é sempre menos resistente, entrou a fraquejar, cahindo logo desfallecida.

Então Ignez, que a suplantara, foi gloriosamente levada em triumpho e saudada com aclamações, ao som de trombetas e charamelas festivas.

Alguns escritores, seduzidos pela ideia de attribuir a este episódio o resultado da empreza, outros copiando aquelles (o que é pecha vulgar em quem não se dá grande trabalho nas investigações), affirmam ter sido decisiva para a entrega do castello a pugna entre as duas mulheres.

Phantazias!

A verdade é que, se este duelo animou e exccitou a coragem dos portuguezes, foi só d’ahi a horas, na manhã de segunda-feira, três de Março, que a praça se rendeu pela acção dos nossos guerreiros e poder dos engenhos.

Conta-o Fernão Lopes fazendo-nos assistir ao movimento da bastida sobre as suas rodas, avançando dezoito braças; depois à escalada dos que «se chegavam tanto à Villa que punham um pé no muro outro na escada», atirando-se, primeiro que todos, o Prior do Hospital.

A peleja foi feroz. Dez homens no mais alto estrado levavam pedras de mão que arremessavam aos de dentro, (como agora se arremessam granadas) emquanto outros se atiravam ao muro com grossos paos.

De cima choviam pedras e fachos incendiados de mistura com impreccações e insultos, «desmesuradas palavras» que assanhavam o ânimo de D. João I.

Por isso, o Rei assomado e iracundo, quando os de dentro, reconhecendo a própria inferioridade, pediam novamente tréguas, recusou qualquer avença e resolveu continuar o assédio à viva força. Então João Rodrigues de Sá, o das Galés – voz sensata – alvitrou que era de boa política acceitar a capitulação. D. João I, brutalmente, retorquiu:

- «Quem medo houver não vá na escada.»

Subiu uma onda de sangue às faces do guerreiro, que tinha ainda frescas as quinze cicatrizes de feridas, que recebera quando foi do ataque das Galés da Ribeira de Lisboa. E ressentido respondeu:

- «Eu, Senhor, não sei se dizeis vós isso por mim, mas cuido que nunca me vós a mim por tal conheceste.»

E o Rei, cahindo em si, pois que n’elle estes assomos de cólera eram logo dominados pela força da razão, emendou:

- «Nem eu não o digo por vós. Mas digo-o, por que os hei já por tomados.»

Dividiam-se ainda as opiniões. Uns queriam continuar o assalto, na esperança de farta preza. Outros seguiam o alvitre razoável do ponderado Sá, com o qual o Rei conccordou afinal, enviando o Prior do Hospital a acceitar a preitezia e estipular as condições.

Foram todas aceites. Não só entregariam a villa e castello a El-Rei, mas obrigavam-se a sahir da fortaleza em gibões sem outra cousa…

Assim foi. No dia seguinte, o rapazio foi apanhar feixes de varas verdes, e cada um dos que pela porta do castello ia sahindo era, por escarneo, obrigado a empunhar um d’esses ramos.

Alguns mordiam-se de raiva pela humilhação imposta.

Houve até um escudeiro fidalgo que, fincando os joelhos em terra, pediu a El-Rei que lhe entregasse as suas armas e lhe poupasse a deshonra, ao que D. João I galhardamente accedeu.

Outros, comtudo, com riso forçado, e levemente alvar, como gracejando, tomavam o expediente de dizer aos garotos que lhes davam as hastes verdes:

- «Ai, rogo-te ora que me dês uma bem direita e boa.»

Não ficou nenhum! Quando na quinta-feira seguinte, depois de cincoenta e três dias de assalto, o castello e villa de Melgaço foram entregues a João Rodrigues de Sá, para governar; e quando El-Rei e a Rainha retiravam festivamente com a sua comitiva em direitura a Monsão, do alto da muralha, que olha para noroeste, um vulto de mulher (segundo reza a tradição local), empunhando a bandeira gloriosa das quinas, agitava com ufania esse pendão redemptor.

Era Ignez Negra a batalhadora, imagem symbólica das energias femininas, proclamando assim a victória que consolidava de vez a fronteira no extremo norte de Portugal.

Se Aljubarrota tem a illustral-a pittorescamente Brites de Almeida, a denodada padeira, e a sua lendária proeza, não é menos digno de registo, no livro de ouro da epopéa joannina das luctas da independência, o feito mais authentico e mais significativo de Ignez Negra a heroína de Melgaço.

 

(*) Ainda hoje, emquanto isto escrevemos (Agosto 1917), a villa conserva alli algumas d’essas vielas de pittoresco aspecto, e é, em parte, cintada com as veneráveis muralhas que tanto a enobrecem.

Consterna-me, porém que o município, com a deplorável mania de «modernizar», vício incorregível das nossas edilidades, umas boçaes, outras mal orientadas, está attentando criminosamente contra a magestade da sua terra, dilacerando-lhe os vestutos flancos para «fazer dinheiro» e colher materiaes destinados a um edifício público! Um tribunal, segundo me informam, que será provavelmente semelhante ao matadouro com que já se orgulha! Uma lástima! Se alguma entidade há, que possa impedir o sacrílego, acudi breve a afastar esta vergonha de Portugal!

 

NEVES DE ANTANHO

CONDE DE SABUGOSA

 

Retirado de:

 

www.archive.org/stream/nevesdeantanho00sabu/nevesdeantano00sabu_djvu.txt

 

MATILDE, A BRUXA EM MELGAÇO

04.04.15, melgaçodomonteàribeira

 

O CAVALEIRO DE OLIVENÇA

 

A vida de Matilde cruzara-se com a de Vasco no longínquo ano de 1498, quando fora condenada à morte por enforcamento, em Melgaço, sob a acusação de ser bruxa e de ter provocado a morte de uma fidalga. Mulher nova, então com uns vinte anos de idade, sempre se dedicara a mezinhas e poções, e aprendera com a avó e uma tia a distinguir as plantas e a saber as propriedades de cada uma; era uma ciência natural, mas a ignorância das pessoas julgava-a sobrenatural e, na verdade, Matilde aproveitava-se da credulidade da vizinhança; imprevidente, não se importara ao ganhar fama de bruxa. Um dia uma amiga sua, criada de fidalgos abastados, aparecera discretamente e contara-lhe que a filha de seu senhor emprenhara; estava muito desgostosa e não podia levar a gravidez avante, pois assim que se soubesse, seu pai a mataria. Trazia boas moedas e logo Matilde lhe deu as ervas apropriadas. No entanto o caso correra mal e a fidalga finara-se esvaída em sangue. A Justiça apertara com a criada e esta denunciara a amiga. O fidalgo pressionara o juiz e como este era amigo da maior rival de Matilde naquela comarca, cedeu aos pedidos da sua amante, por entre beijos e afagos, para lhe conceder o exclusivo dos negócios de bruxaria. No entanto, o corregedor trabalhava para Vasco de Melo e conseguira deter a execução até seu amigo regressar de uma viagem à Mina.

Vasco visitara-a no calabouço e salvara-a da morte, a troco de lhe ficar com a vida. Tinha de deixar o Minho e instalar-se no Alentejo, onde ninguém a conhecia. Tinha de se ajuntar com um homem novo, de nome Gonçalo, que era natural de Terras do Bouro. E com mais um corcunda e três anões passariam a espiar para a Coroa de Portugal, disfarçados de jograis. Matilde aceitara de bom grado a proposta.

 

pp. 26 – 27

 

Ao entrar na sala, comoveu-se ao ver Vasco de Melo vestido de bobo. Enquanto se aproximava dele recordou o momento em que ele lhe aparecera no calabouço de Melgaço, qual anjo, prometendo livrá-la da forca; reviu a sua face radiosa quando lhes dava ordens entusiasmado com o serviço a el-rei; lembrou-se dele aos solavancos na cabeça do touro em Burgos ou de espada em riste, em Mirandela, salvando-a do linchamento; e, finalmente, recordou-o agarrado à mão fria de Iamê, fazia agora um ano. E ali estava ele, fidalgo da Casa Real de Portugal, fazendo de bobo, como disfarce para poder chegar a um colaborador perdido.

 

p. 365

 

O Cavaleiro de Olivença

João Paulo Oliveira e Costa

Círculo de Leitores e Temas e Debates

2012

 

O NASCIMENTO DO MITO IGNES NEGRA - V

01.04.15, melgaçodomonteàribeira

Codex Manesse - Heinrich von Breslau

 

(continuação)

 

Ao mesmo tempo mandou que nas imediações se cortasse madeira, e se acarretassem materiaes para se construírem duas escadas e uma bastida, formidável machina de guerra sobre rodas, de temeroso effeito contra as praças fortes.

Descreve Fernão Lopes minuciosamente essa bastida, muito larga de roda a roda, e de padral a padral; com os seus três sobrados madeirados de pontões, para serem guarnecidos de homens de armas; com estrados de mui grossos caniços para se andar por cima; com escadas de alçapão e nos pontões superiores, três mil pedras de mão, que mandaram apanhar pelas regateiras. Havia também trebolhas cheias de vinagre para evitar o fogo, e seis grandes caniços forrados de carqueja, assim como vinte e quatro couros verdes de boi para guardar o fogo que viesse.

Era um rudimento do moderno tank; era o precursor d’essa machina de guerra, que nos campos da Bélgica está actualmente exercendo a sua terrível acção devastadora.

Esta de D. João I, que levou quinze dias a construir, era mais modesta e de mais acanhados recursos. Mas o seu effeito, ainda antes de manobrar, foi eficaz, pois os de dentro, que assistiam aterrados a fabricação do aparatoso engenho, apressaram-se a pedir tréguas, propondo que João Fernandes Pacheco conferenciasse com Álvaro Pães. Por mandado de El-Rei chegou-se o Pacheco à barbacã, e de dentro, encostado ao muro, falou-lhe o comissário castellão. Longo espaço de tempo durou esta conversação entre os dous guerreiros arvorados em plenipotenciários. E emquanto elles falavam, assediados e assediadores suspenderam as investidas, acudindo ao ânimo de uns, (os mais pacíficos) esperanças de uma concordância; refervendo no de outros (os mais belicosos) desejos impacientes de recomeçar a pugna. D’estes o mais irreprimível era o da Arrenegada que ardia em sanha. Sabendo que os dous chefes não se tinham accordado resolveu então provocar um combate singular, pois sabia que entre a gente do arraial se achava um contendor digno d’ella.

Era uma mulher d’aquella região a quem chamavam Ignez Negra.

Negra, por apellido da família? Talvez!

David Negro se chamava o rabi de Castella que urdiu o enredo contra D. Leonor Telles. E Affonso Pires – o Negro – era o escudeiro de Nun’Álvares na véspera de Valverde.

Famílias com o nome de Negrão e Negreiros tem havido em Portugal, pertencendo à primeira no século XVIII, o poeta da Arcádia – Almeno Sincero.

Ou seria antes a nossa Ignez, negra, porque a sua pelle exageradamente trigueira como a da Sulamite do Cântico dos cânticos, (nigra sum sed formosa) contrastasse com a das suas conterrâneas, quasi todas alvas, de olhos claros e cabellos aloirados, revelando a origem celta das nobres raças?

A iconografia portugueza é assaz pobre. E, se nos faltam retratos de tanta figura predominante, não é maravilha que a galeria das mulheres illustres careça de qualquer documentação acerca das feições da modesta, mas valente portugueza dos arredores de Melgaço.

Figuramol-a, porém, por artifício da imaginação, com encrespado cabello da cor do seu apellido; olhos ígneos como o seu nome de Ignez; a pelle acastanhada, adusta e curtida pelo mordente sol dos campos, na ceifa. Magra, musculosa e com farto buço a atapetar-lhe o lábio superior. Peito chato como o das amazonas. Typo levemente aciganado e plebeu, mas não destituído de encanto. E no seu todo o interesse que provoca sempre uma personalidade fortemente accentuada.

Visitando a casa onde segundo a tradição elle habitou depois da sua proeza, – a Venda da Angelina – (hoje um prédio modernizado), ou percorrendo as ruazinhas estreitas que descem até à porta de D. Affonso, encontrámos algumas moradoras ao soalheiro, que, por comparação retrospectiva, nos ajudaram a recompor uma effigie da Ignez Negra, porventura sua remota parenta. Devia ser assim como a evocamos!

Quando lhe chegou aos ouvidos o desafio da Arrenegada acceitou prazenteiramente o repto.

Entretanto El-Rei enviara à Rainha recado para que viesse. Os engenhos estavam concluídos, e quasi aplanado o caminho pelo qual se devia fazer rodar a bastida e encostál-a às muralhas.

É possível que o mensageiro anunciasse também no Mosteiro de Fiães, onde D. Filippa se achava, o desafio entre as duas mulheres de Melgaço.

E isso seria certamente escutado com curiosa attenção pelo mundo feminino que rodeava a Rainha. Ávidas deviam estar por certo as suas damas e cuvilheiras, de distracções e recreios, tão escassos n’aquella solidão.

E logo entre o mulherio quantos comentários sobre o projectado duello! Nas velhas, altos escarcéos, e motivo para ralharem de tão descomposta escaramuça. Nas novas, grande jubilação com a espectativa das comoções.

Por isso quando n’aquella manhã do princípio de Março a Rainha, com a sua Corte, se apromtou para descer de Fiães a Melgaço, eram agitadas as discussões acerca do projectado combate.

A primavera anunciava-se promettedora. O ar gelado da manhã bafejava a pelle do rosto das senhoras, que, ao montarem se embuçavam friorentas nos seus manteus e biocos.

Na descida, quasi a pique, da íngreme ladeira, que durante uma hora percorreram, caminhando pelos carreiros do monte escalvado, algumas das boas donas iam só attentas ao perigo, que offerecia o marchar hesitante dos cavallos sobre os pedregulhos das veredas agrestes.

E quando as montadas punham o pé com menos segurança, o que trazia a iminência de um tropeção, ouviam-se exclamações afflictas das mais timoratas, provocando risadas escarninhas entre as resolutas. Outras olhavam maravilhadas a paysagem deslumbrante, o panorama das extensas ondulações que formam o berço delicioso em que se espreguiça voluptuosamente o rio Minho.

Além à esquerda os montes de Pernidêllo, em cuja verdura se aninhava o conventinho de Paderne. Mais ao largo Monsão, a pátria de Deu-la-Deu. E, como a manhã era clara, lá muito ao longe, quasi se distinguia a nobre Valença. Para a direita inferiormente, e já em terra extranha, as pequenas povoações gallegas tão maneirinhas… que apetecia dal-as como brinquedo a uma creança!

A maior parte, porém, da comitiva só tinha olhos para a villa de Melgaço, alli em baixo com a sua airosa torre quadrada, que uma coroa de ameias enfeitava, e para a povoação em redor della, mettida nas faixas das muralhas defensoras, promettendo um espectáculo attrahente, quando se rendesse à força, como fêmea dominada pelo seu legítimo senhor.

Por de fora d’essa muralha estendia-se em arruamentos de tendas de campanha o arraial português, sobressaindo a barraca elegante tomada em Aljubarrota aos Castelhanos, que já servira em Ponte de Mouro para firmar a alliança ingleza. E, informe, como um animal antediluviano, destacava-se a medonha bastida, prompta para atacar.

 

(continua)