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MELGAÇO, DO MONTE À RIBEIRA

História e narrativas duma terra raiana

MELGAÇO, DO MONTE À RIBEIRA

História e narrativas duma terra raiana

JOGA-SE EM MELGAÇO

28.03.15, melgaçodomonteàribeira

Sueca

 

Fui a Melgaço, p’la serra,

e ia morrendo de pasmo;

nos Cafés da nossa terra

joga-se com entusiasmo.

 

Joga empregado, patrão,

o rico, pobre, maltês;

comerciante, artesão

aristocrata, burguês.

 

Cabo, sargento, tenente,

alfaiate, meirinho;

tudo joga, minha gente,

a cerveja ou alvarinho.

 

Não sei se acreditais,

‘té eu entrei na jogança;

o meu parceiro Morais,

pra jogar veio de França.

 

No meu tempo de moçito,

jogava no escondidinho;

o sumo e o pirolito

substituíam o vinho.

 

Agora, joga-se ali,

na saleta principal;

e a bebida sorri,

borbulhando em espiral.

 

Joga-se em Prado, Paderne,

em Cubalhão, Remoães;

em todo o lado se joga,

em Lamas e Chaviães.

 

Um pedaço de alcatifa

cobre a mesa de jogar;

não sei se saiu na rifa,

ou se foi ganho ao bilhar.

 

A senhora da limpeza,

quando o chão vai aspirar,

aproveita e limpa a mesa,

prò jogo continuar.

 

E é tanta a emoção,

tanta punhada ali dada,

que até se ouve em Monção

a enorme barulhada.

 

Joga-se copas e burro,

também vai uma bisquinha;

inventam-se novos jogos,

mas a sueca é rainha.

 

Fala-se já em campeonato,

numa tournée sem destino;

querem subir ao estrelato,

tornar Melgaço um casino.

 

Quando chegar o Agosto,

não se admirem de nada;

Melgaço não terá rosto,

perdeu-o numa jogada.

 

Joaquim Rocha

 

O NASCIMENTO DO MITO IGNES NEGRA - IV

25.03.15, melgaçodomonteàribeira

Batalha de Aljubarrota

 

(continuação)

 

Compunha-se a casa da soberana de nobres senhoras que El-Rei puzera ao seu serviço. A ella pertenciam: como aia e camareira-mor D. Beatriz Gonçalves de Moura viúva de Vasco Fernandez Coutinho, senhor de Liumil, e como damas a filha d’esta Teresa Vasques Coutinho, viúva do filho do Conde D. Gonçalo, e, portanto, cunhada de Leonor Teles; a irmã d’aquella, Leonor Vasques, que depois casou com D. Fernando, que chamaram de Bragança, filho do Infante D. João; D. Beringeira Nunes Pereira, prima do Condestável e filha de Ruy Pereira, que morrera na peleja das naos ante Lisboa; e ainda outras que formavam um luzido batalhão volante, n’esse cortejo que ia assistir ao mais typico episódio d’aquella época.

D.João I preparava-o adrede para mostrar à Rainha como se assediava uma praça, e para exhibir perante a sua Corte, a valentia dos homens d’armas, que vinham consolidando a independência do Reino.

Era uma genuína galanteria de guerreiro medieval, esse desejo de fazer assistir a fina flor da Corte feminina ao rude embate dos seus besteiros contra a fortaleza rebelde. E era ao mesmo tempo um poderoso incitamento para a hoste, esse torneio revelador da arte, da destreza, e do valor com que se pelejava.

Era também uma vistosa parada de forças combatentes perante os olhares mulheris, o mais aguilhoante estímulo da cavallaria gloriosa.

Era, finalmente, uma ala de namorados de nova espécie, batalhando em frente de suas damas.

Era, em resumo, uma phantasia de heroe!

Marchou a numerosa comitiva de Braga para Monsão, onde D. Filippa foi acampar, indo logo a seguir ao mosteiro de Santa Maria de Fiães, perto de Melgaço. Acompanhavam-n’a João das Regras – o Doutor, João Affonso de Santarém, e ainda outros lettrados e jurisperitos, mais exercitados no manejo das Pandectas e das Instituías, que no brandir das espadas e dos arremeções.

Corria o mêz de Janeiro de 1388. As chuvas tinham ensopado os campos. A payzagem minhota, tão festiva de cambiantes durante o verão, com os seus soutos de castanheiros florentes; com as suas videiras de enforcado enroscando-se nos troncos e ensombrando os pateos das habitações; com os fetos de franjas recortadas, adornando as sebes; com as heras e musgos revestindo os penedos graníticos; com o velludo esmaraldino das nogueiras, e as folhas bicolores das tílias opulentas; com a pradaria clara rindo alegremente na voluptuosidade das regas abundantes; toda essa symphonia de verde, executada a grande orchestra, sob a regência de um sol brilhante, que vivifica o torrão; que se reflecte nas lantejoulas de feldspatho e mica, que atapetam os caminhos como pó de diamantes, e que dá a essa região o jeito de um sorriso da natureza; essa payzagem apresentava n’aquella quadra do anno a physionomia rabugenta de uma creança amuada.

O inverno ia rigoroso. As chuvas tinham engrossado as levadas e avolumado os regatos, difficultando a marcha da hoste guerreira, e os movimentos da comitiva real. Por isso o séquito prosseguia lentamente, mas sem desfallecimento.

O tropear dos cavalos e dos machos sobre o lagedo da estreita estrada romana, que segue de Monsão a Remoães, e d’ali à aldeiazinha do Prado, galgando os rios com a ponte do Mouro e a ponte da Folia (duas relíquias de eras já idas), que as urzes e as heras enfeitavam com garridice; o vozear dos homens de armas; as exclamações e gritos femininos; e as pragas rouquenhas dos moços bagageiros e condutores de equipagens, alvoraçavam as pessoas do campo.

Aqui e além deparavam-se n’uma volta do caminho povoações ou casas isoladas.

E do fundo escuro dos estreitos postigos, perfurados nos rústicos tugúrios de pedra cinzenta, debruçavam-se bustos de mulheres com olhar curioso. De sobre os muros, cabeças hirsutas de camponezes olhavam embasbacados os comboieiros de munições, e pasmavam para as hacaneas em que cavalgavam as donas, as aias, as creadas e as crystaleiras. Dos cancellos surgiam garotos a misturarem-se na comitiva, mendigando sobejos dos farnéis, emquanto bandos de gallinhas e de patos fugiam espavoridos da perseguição da soldadesca, que dissimuladamente tentava deitar-lhes a mão, na expectativa de uma ceia restauradora.

E a extensa comitiva coleando pelos caminhos do valle, deixava à esquerda os montes levemente ondulados de Galliza, e começando a subir a encosta, que vae a Prado, avistava já a senhoril Melgaço com a sua torre tão nobre a destacar-se sobre o verde escuro dos pinheiros de Rouças.

A rainha com a sua Corte, contornando Melgaço, foi aposentar-se no opulento mosteiro de Fiães, onde os oitenta monges benedictinos, com o Dom Abbade à frente, a vieram receber fidalgamente na avenida que conduzia à portaria do convento.

El-Rei D. João I, ficou com as suas mil e quinhentas lanças, afora a gente de pé, no campo a nordeste de Melgaço, onde logo ordenou que se assentasse o arraial.

Armaram-se as tendas em que pousaram, além do soberano, o Prior do Hospital, D. Álvaro Gonçalves Camello; D. Pedro de Castro, que havia pouco abraçara a causa de Portugal; João Fernandes Pacheco, (filho de Diogo Lopes, assassino de D. Ignez), de quem Mem Rodrigues dizia ter as qualidades de Lancelote do Lago, e muitos outros capitães e senhores.

Tudo se preparou para a arremetida.

Melgaço, dentro das fortes muralhas em que D. Diniz envolvera a quadrada torre afonsina, era defendida por Álvaro Pães de Souto Maior, e Diogo Preto Eximeno, que tinham trezentos homens de armas e muitos peões.

Além de gente de guerra era a pequena villa povoada por moradores pacíficos, cujas famílias habitavam as casinholas de granito, com pequenas escadas exteriores, de poucos degraus, e um varandim, que formavam junto à parte interna das muralhas estreitos arruamentos.

Entre as famílias que n’esse fim do século XIV se acoitavam n’aquelles habitáculos, havia a de uma portugueza a quem, por se ter bandeado com os castelhanos, tinham dado a alcunha da Arrenegada.

Era esforçada. Era o que o povo chama uma refilona e, como todos os renegados, odiava figadalmente os seus antigos compatriotas.

Fervia-lhe o sangue em cachão com o presencear, do alto das muralhas, os preparativos do campo portuguez. Ardia em fúria e ânsia de arremeter ella própria. E não foi extranha aos primeiros lançamentos de trons contra os nossos.

Assistiu também inquieta e fervilhante às primeiras escaramuças, rejubilando logo que viu que, com uma setta, fora ferido Pêro Lourenço de Távora, um portuguez do arraial. Era uma verdadeira virago, mais aguerrida que muitos dos seus camaradas castelhanos.

Durante nove dias houve tiroteio sendo lançadas contra o arraial sessenta pedras de trons, ao que do lado português foi correspondido, não havendo grandes damnos de parte a parte.

Resolveu-se então El-Rei a mandar armar em cima da ponte da villa, um engenho, com que os sitiantes arremessavam muitos projectos que destruíram algumas casas e caramanchões de Melgaço.

 

(continua)

 

A ANGELINA DA PONTEPEDRINHA

21.03.15, melgaçodomonteàribeira

Na Rua de Baixo

 

O ANTIGAMENTE

 

Na Pontepedrinha, lugar um pouco mais elevado que o regato na subida para o Monte de Prado (antigo campo de futebol), ficava a casa do Castro e Angelina, casal com muitos filhos. Embora algo isolada, a casa, sempre havia por ali muitas mulheres que iam do Mascanho e das Carvalhiças lavar a roupa no regato, e todas as tardes as conversas eram animadas comentando a vida alheia. Era a Angelina muito popular por ser bastante activa e muito faladeira. Era conhecida como a Angelina da Ponte Pedrinha a maior mentirosa das redondezas. Não inventava casos ou dava respostas ofensivas. Era de espírito alegre, galhofeira, que as outras pessoas tomavam como bazófia sempre que ela se engrandecia como mais abastada que as outras criaturas. Tinha solução para tudo no seu imaginário. Era uma humorista nata sem saber mas as outras pessoas não lhe reconheciam essa qualidade. Na época de crise passava ela e a família as necessidades que todos passavam, mas não se dava por achada. Na frente das outras pessoas, recomendava aos filhos que fossem jantar ou cear pois tinham sardinhas e bifes no forno, porém havia só uma sardinha para cada dois filhos. Gabava-se de grandes conhecimentos com pessoas gradas e amizades, alardeando sempre que a conversa permitia ser parente do rei da Bélgica.

Quando alguma das suas amigas se queixava de percalços financeiros superados a duras penas, reclamava: “és muito burra, se tivesses falado comigo tinha-te arranjado um bom empréstimo com fulano (dizia o nome de conhecido capitalista da terra)”. Sempre tinha solução fácil para assuntos já resolvidos através dos seus grandes conhecimentos. Quando o assunto requeria solução noutra terra, geralmente alguma cidade, se tivessem recorrido a ela teria preparado uma roupa nova para ir falar com o senhor fulano. Os preparativos compreendiam uma saia nova, blusa, vestido ou sapatos, nunca se apresentaria de maneira vulgar ante seus amigos importantes, dizia.

Certa tarde, no meio de um grupo de pessoas, uma mulher lamentava-se da contrariedade que o seu homem teve com a Repartição de Finanças por uma décima atrasada. A Angelina não teve meias medidas, num rompante bazofiou: “Ó rapariga, se tivesses falado comigo era só fazer meia dúzia de camisolas de dormir e ir a Lisboa falar com o Salazar.” A Maria do Umberto, garotinha, perguntou: “Ó tia Angelina, camisolas? Você ia dormir com o Salazar?”

Nesse dia ela embatucou e desconversou.

 

Rio, Agosto de 2012

 

 M. Igrejas

 

Publicado em: A Voz de Melgaço

 

O NASCIMENTO DO MITO IGNES NEGRA - III

18.03.15, melgaçodomonteàribeira

Casamento de D. João e D. Filipa 

 

(continuação)

 

O rancho conturbado caminhava silenciosamente, sob a opressão de agourentos presságios.

Chegaram ao paço do Curval. Ali o estado do Rei não era de molde a tranquillizar, ou desfazer cuidados.

Quando a Rainha e o Duque seu pae viram o enfermo, vencido pela febre «tão fraco e sem esforço, ficaram nojosos e tristes».

Os cirurgiões interrogados temiam que a prostração em que a quentura deixara o Rei o levasse em pouco. Ouvindo isto, a desditosa Rainha, atormentada e exhausta com a violência da jornada e das commoções, sentiu que alguma coisa se despedaçava dentro de si… e moveu uma creança.

Com este parto prematuro e desastrado, iam-se todas as alegres esperanças, desmoronava-se o edifício da sua felicidade sonhada, e… (cousa rara na vida) da sua felicidade realizada.

Via-se sósinha, casada de pouco em terra estranha, fallecer-lhe logo assim tudo o que a fortuna lhe trouxera – e bem se tinha por mal aventurada entre as mulheres do mundo –. Chorava, pedindo à morte que a levasse primeiro.

Na câmara próxima, onde os lamentos da Rainha, por serem energicamente suffocados, não chegavam, o Rei, cônscio do seu estado, tomava providências.

Mandava chamar o Condestável, agora ausente no Alem-tejo. Fazia testamento. E dispunha-se a morrer perdoando a alguns fidalgos que mandara, tempos antes, encarcerar.

Era solemne o momento. A Rainha, receosa de que a morte lhe roubasse o marido, como lhe roubara o filho, levantou-se e, embora gravemente combalida, arrastou-se até ao quarto onde o Rei agonizava.

Não sabia reter as lágrimas. A voz embargava-se-lhe na garganta. Olhava-o, sem articular uma palavra, tomada d’aquella ânsia com que nas occasiões decisivas tentamos arpoar um vislumbre de esperança.

Comtudo os olhos do Rei, semi-cerrados, e a sua respiração offegante não permittiam illusão!...

Então aquella mulher, a quem o destino parecia ter talhado uma tão radiante missão, sentiu-se miseravelmente infeliz, e cahiu junto à cama do moribundo n’uma convulsão de choro, implorando a protecção de Deus e da Virgem Maria.

Assim se conservou largo tempo…

Pelas janellas entreabertas ouvia-se de quando em vez o carpir do povo, sempre exhuberante nas manifestações do seu sentir. Os lamentos da multidão, impressionada com os presumíveis sinistros casavam-se com as preces roufenhas dos sacerdotes, e com os soluços da Rainha.

Sentia-se o destino da Nação suspenso por um fio…

A autonomia de Portugal dependia de um alente d’aquelle homem, estendido n’um catre estreito, junto do qual o vulto de D. Filippa continuava rezando…

Passaram horas…

Como se a mysteriosa acção das preces, e o esforço super-humano d’aquelle coração de mulher posto n’um só affecto, operassem mais eficazmente que as drogas ministradas pelos physicos, o arquejar do robusto arcabouço foi-se tranquilizando, os olhos começaram a descerrar-se, e o enfermo entrou a renascer para a vida…

Estava salvo D. João I!

Foi do Curval convalescer a Coimbra, onde a Rainha também se libertou do pezadelo que lhe opprimira o ânimo. Recomeçou para os dois o idyllio interrompido.

De breve dura, porém, havia de ser o repouso, nem D. João I era homem que se deixasse ficar em lazer descuidado, quando tantos negócios lhe sollicitavam a atenção.

Cumpria despachar o sogro que começava a ser um estorvo sério, e cuja empreza ia perdendo probabilidades de êxito. Cumpria reunir Cortes para a resolução de alguns negócios de Estado. Cumpria caminhar sobre Melgaço, única praça que no Minho ainda conservava voz por Castella.

Foi resolvido partir logo, de Coimbra para o Porto, onde El-Rei e a Rainha, que o acompanhava, despediram o Duque de Lancastre e a sua reduzida hoste, que, em seis galés, numa clara manhã de fins de Setembro largou da foz em fora, para Bayonna, então ingleza.

Desembaraçado assim do hóspede, e aviados outros assumptos, que se antolhavam urgentes, dirigiu-se D. João I para Braga a reunir as Cortes.

Foi durante ellas que D. Nuno Álvares Pereira, o Condestável, teve notícia da morte da sua mulher. Correu ao Porto onde ella fallecera, fez-lhe exéquias solemnes, mandou a filhinha para Lisboa à guarda da avó – Iria Gonçalves – e, arrumadas assim as cousas domésticas, voltou para Braga onde o reclamava o interesse do Estado, verdadeiro fulcro do seu espírito.

Negócio do Estado era também por certo e de alta importância para D. João I, essa viuvez de Nun’Alvares.

Grande conchavador de casamentos, até mesmo sem audiência prévia dos interessados, El-Rei resolveu logo, de accôrdo com a Rainha, casar o seu Condestável com D. Beatriz de Castro, filha do conde D. Álvaro Pires, «uma donzella assaz formosa e bem filha d’algo!» Próxima parente da linda Ignez, collo de garça, possuía por ventura o mesmo poder de encanto, que seduzira El-Rei D. Pedro. Este viúvo, porém, era pouco susceptível de se deixar captivar com graças femininas.

Avesso por índole ao tracto conjugal, não lhe soffria também o ânimo independente aquella imposição de um consórcio, assim improvisado.

Resistiu bisonhamente – ao Rei com uma simples negativa; à Rainha, pela qual professava um respeitoso affecto, respondeu esquivamente: «Para offerecer a D. Beatriz os braços, era preciso que estivessem desarmados e não convém ainda largar a espada.»

Excusa de guerreiro! Sentir de monge!

Desobrigado assim, e livre da teia em que podia ser enleado, levantou voo para entre Tejo e Guadiana, onde a fronteira estava ameaçada.

D. João I conhecia o seu irmão de armas. Era inútil insistir, podendo até qualquer teima provocar alguma d’aquellas desavenças, que entre os dois às vezes surgiam.

D. Beatriz, se acaso edificara n’aquelle terreno o castello da sua felicidade, viu-o desfeito em névoa, antes mesmo de o habitar. E continuou, (até que ao deante levou outro destino) a ser ornamento na Corte de D. Filippa, acompanhando-a como as outras na jornada que logo El-Rei emprehendeu sobre Melgaço, e onde por certo foi das que mais aplaudiram a aventura da aguerrida Ignez Negra, que logo vamos presencear.

 

(continua)

 

VIDA NO CAMPO - II

14.03.15, melgaçodomonteàribeira

Álvaro Domingues

 

(continuação)

 

Mais tarde, porém, a sua rotina fotográfica desviou-se das morfologias e taxionomia do povoamento e de outras ferramentas de análise geográfica, que no entanto nunca deixou de estudar, como demonstra o livro Políticas Urbanas II que editou, com Nuno Portas e João Cabral, na Gulbenkian, em 2011, depois de um estudo semelhante e com os mesmos parceiros de 2004. E não faltam ensaios e conferências no seu currículo académico, hoje exercido na Faculdade de Arquitetura do Porto. O olhar de Álvaro Domingues, porém, virou-se para essa fronteira cada vez mais ténue entre o rural e o urbano, entre o campo e a cidade. Aos poucos, os seus artigos encheram-se de imagens que documentavam uma profunda “hibridez”, sendo essa, na sua visão, uma das principais marcas que caraterizam Portugal. De início, não adotou nenhum método, nem sentiu a obrigação de percorrer Portugal de lés-a-lés. Apenas ligou o “radar”, essa atenção pessoal e transmissível que nos liga ao mundo, e esperou que a realidade inundasse a sua máquina fotográfica. Em suma: deixou-se surpreender. E as surpresas foram muitas, em particular aquelas que punham em causa o “discurso oficial” da geografia e revelavam as “nossas compreensões”.

Em a Rua da Estrada, o 1º volume desta tetralogia e ponto de partida para uma curta-metragem homónima de Graça Castanheira (ainda em rodagem), Álvaro Domingues mapeou o modo estatisticamente mais comum de urbanização: a estrada. “Essa coisa mal-amada pela mesma razão de muitas outras coisas cuja identidade era flutuante, não encontrando estabilidade por aquilo que é, mas sim pelo que deixou se ser ou ainda não é”, descreve. “Quando as estradas eram estradas, não havia os problemas que hoje há. Estradas eram estradas, boas ou más, e ligavam povoações, vilas e cidades. À beira da estrada havia fontes para matar a sede de animais e pessoas; havia miradouros, valetas e sombras para descanso e merendas”.

Mas o que a sua objetiva fixava era muito diferente: “A rua da estrada perdeu quase toda a poética e a estética da lonjura e evasão. Já não é o traço do asfalto que se acomoda à morfologia da paisagem, as subidas gloriosas, os altos com vistas de perder a respiração, o serpentear ao longo de um vale ou um traço que se funde no horizonte de uma planície”. Pelo contrário, como sublinha, apoiando-se em conceitos que foi buscar não só à Geografia, mas também ao Urbanismo, à Antropologia, e à Sociologia, “a estrada-rua mistura tudo num conflito permanente, camiões e peões, carros e autocarros, motorizadas e patins em linha, cruzamentos com outras estradas. Rápida de mais para quem lá vive, lenta e congestionada para quem lá passa. Um desassossego que não se resolve com passadeiras, semáforos, multas, rotundas e outros truques de acalmia de tráfego”.

Neste trajeto, o que mais despertou a sua atenção foram as edificações que cresciam ao correr da via pública, respondendo às necessidades humanas, num emaranhado de estilos, atividades agrícolas, industriais e sociais. Percurso semelhante será feito no 3º volume da tetralogia, intitulada Volta a Portugal, e que tem como ponto de partida as míticas caravanas de ciclismo e as paisagens que então se revelavam na comunicação, radicalmente transformadas nos últimos anos, como as planícies da Amareleja, em pleno Alentejo, que atualmente acolhem a mais alta tecnologia na área dos painéis solares. O último tomo abordará, por seu turno, esse “buracos negros ou túneis do tempo a que chama-mos auto-estradas”, como diz a brincar. Terá como título Entre nós: de auto-estrada.

Não se pense, contudo, que este trabalho de cartografia tem na sua essência um olhar exterior, como aqueles estudos sobre a música pimba ou as festas populares, mais assentes na paródia do que na compreensão. Ao contrário de muita opinião pública, Álvaro Domingues não adjetiva esta malha urbana e rural de “caótica” ou “feia”, fruto de uma construção civil desenfreada (que reconhece haver) ou de uma corrupção tentacular (que diz existir em todas as sociedades). “Não podemos dar como explicação o que precisa de ser explicado”, afirma. “Estamos perante realidades complexas e para as compreender precisamos de novos instrumentos. Somos uma sociedade pós-moderna que nunca chegou a ser moderna, uma economia pós-industrial sem nunca ter sido industrial. Temos um discurso de país rico quando na realidade não o somos”.

Talvez seja mais correto afirmar, como sugere, que “Portugal é o país mais exótico do mundo”, fazendo jus à sua condição de semi-periferia, segundo a conceção de Boaventura de Sousa Santos. E, para Álvaro Domingues, há nele beleza suficiente para “não termos problemas de autoestima”. Basta deixar cair as imagens mitificadas e renovarmos o olhar e o saber. É com essa intenção que está a trabalhar num novo conceito, o de Paisagens Transgénicas, que enunciou pela primeira vez na coletânia de ensaios Arquitetura em Lugares Comuns, também uma edição da Dafne, como a A Rua da Estrada e Vida no Campo. Um termo que criou para “ultrapassar enviesamentos, bloqueamentos e ilusões de conhecimento em torno dos conceitos vagos de paisagem – paradoxalmente considerados claros e classificáveis em taxinomias estáveis –, tentando diminuir o ruído de fundo e a cacofonia existente, para melhor perceber o que de facto é mais importante no mal-estar social que se exprime no discurso e nas representações sobre a paisagem tornada assunto e bem público, e elemento de identidade e distinção face aos processos acelerados da globalização-massificação e do sentimento de perda de identidade”. O mundo é composto de mudança. A paisagem também.

 

Texto publicado no JL 1081, de 7 de Março de 2012

 

Retirado de: A Volta do Parafuso

 

http://voltaparafuso.blogspot.pt/2012_03_01_archive.html

 

O NASCIMENTO DO MITO IGNES NEGRA - II

11.03.15, melgaçodomonteàribeira

 

(continuação)

 

Era esse punhado de heroes, cujos ânimos abrigavam não só as qualidades brutaes e violentas, que levavam à victória, mas as delicadas dedicações e devotas amizades promtas para o sacrificio, que fazia exclamar o Duque de Lancastre quando presenceava as suas façanhas:

- «Oh! que bom Portugal!»

- «Oh! que bons portuguezes!»

Quando, terminada aquella campanha, no fim do mez de Julho, El Rei vinha com a sua hoste de Guimarães pelo Porto em direitura a Coimbra, onde então estava a Rainha, ao chegar ao Curval, pequeno povoado a meio caminho das duas cidades, sentiu-se accomettido de doença.

Dor da quentura, diagnosticaram os physicos, consultados sobre o caso. (Que a doença parecia grave – acrescentavam; que já tinham caído enfermos muitos dos homens de armas, com a mesma moléstia, causada talvez pelos excessivos calores da estação; e que era conveniente avisar a Rainha.)

Partiu logo, a galope, uma estafeta sem parar até Coimbra, onde, de visita a sua filha, se achava também o Duque de Lancastre. O mensageiro subiu à Alcáçova, peneirou nas abobadas que levam à sala dos archeiros, e, ofegante encarregou-se do penoso recado.

Logo foi grande, e tão ruidoso, o borborinho nos Paços de Coimbra, que chegou aos aposentos de D. Filippa surprehendendo-a dolorosamente.

Longe de ser, como a alguns se tem affigurado, uma mulher fria, fleugmática, pedaço de gelo importado de Inglaterra, que o sol da nossa terra não logrou derreter: longe de ser apenas uma creatura de dever, forja geradora de altos infantes, e rígida disciplinadora de corte, a loura ingleza que tão grande missão veiu cumprir no mundo, era amorável, e ternamente devotada ao marido, que ella sentia “tão concordável ao seu desejo”.

Demonstram-n’o, além das palavras dos chronistas (talvez sujeitas a reservas) o que é mais e o que é melhor, alguns factos que revelam a sua índole carinhosa e meiga, a sua alma toda entregue ao homem a quem, além de tudo, a ligava um sentimento de gratidão, pela preferência que lhe dera sobre sua irmã D. Catharina, mais nova, talvez mais formosa, e com direitos, por sua mãe, a um throno – o throno de Castella.

Bem sabia ella que o Rei não a escolhera por amor, pois D. João I, entendendo que pretender esse throno para si, seria um perigo para Portugal, optara pela solução mais convinhável à sua politica.

Entretanto era certo ter sido ella a eleita. E as mulheres nunca são indiferentes a uma preferência. Além d’isso, o coração não carece de razões para se decidir.

Gosta-se, porque se gosta!

E porque a loura Rainha recém casada adorava o marido, apenas o soube doente determinou partir.

Não attendeu a pedidos, exhortações, e súplicas para que desistisse de commetter tamanha imprudência.

O verão corria abrasador e doentio (diziam-lhe). Os caminhos eram ásperos, e as mulas facilmente tropeçariam nos córregos pedregosos dos montes até ao Curval. Uma queda desastrosa podia ameaçar, e até destruir a esperança de um herdeiro, que se ia annunciando propiciamente. A nada cedeu.

Conselhos do pae que com a sua voz arrastada, mas persuasiva insistia sensatamente, rogos das damas, representações dos physicos e dos homens sisudos, tudo foi inútil para a demover.

Organizou-se prestes a caravana.

Donas, aias e camareiras, besteiros portuguezes e alguns archeiros inglezes prepararam-se sem demora para a abalada.

Com infinitas cautelas acommodaram-se as andas que haviam de transportar a Rainha, e não tardou que a cavalgada se puzesse em marcha, caminhando todos em silêncio, e ruminando cada qual pensamentos inquietadores.

A Rainha, por um phenómeno frequente nas almas alvoraçadas com a approximação da desgraça, recordava os tempos da sua ephémera felicidade. Rememorava as bodas ainda recentes, com os festejos, justas, danças e trabalhos. Revia o cortejo sahindo do Paço Episcopal do Porto, através das ruas atapetadas de verduras e cheiros. Olhava, com os olhos da alma, a figura do seu noivo, que se lhe affigurava um archanjo montado n’um cavallo branco em pannos de ouro, junto ao d’ella, que era levado de rédea pelo Arcebispo. Escutava o echo das trombetas, das pipias e das músicas, que se casavam com as acclamações da multidão em delírio.

Relembrava a sala do banquete com as mesas mui guarnecidas em volta das quaes se sentavam os bispos, os fidalgos, os burguezes do logar, donas e donzellas do Paço e da cidade. E repassava commovida na memória a scena dos prelados à luz das tochas, benzendo o leito nupcial.

Depois, era a primeira separação tão custosa ao seu affecto, mas em que o via partir são, forte, todo entregue à ância de batalhar…

E agora?...

Agora era uma onda de amargura levantada no coração pelas más novas; era o receio do que iria encontrar; era a ameaça do destino que lhe afogava a garganta; era o prognóstico de um sortilégio sinistro que lhe opprimia as entranhas, em que se estava gerando o futuro Rei de Portugal.

Duque de Lancastre, aparentando mocidade, apezar dos seus sessenta e tantos annos, ia também apprehensivo, embora desfarçasse a perturbação que lhe trazia ao ânimo tantas interrogações inquietadoras.

Até que ponto a morte provável do genro alteraria a situação, e prejudicaria o êxito das suas ambições?

Aos espíritos de todos os outros que acompanhavam a Rainha afluíam semelhantemente incertezas afflictivas.

Em alguns, (almas generosas, incondicionalmente devotadas ao Rei) dominava a angústia e o receio de o perderem, sem a mistura de outro sentimento.

Outros pesavam dentro de si, n’aquella balança de egoísmo, inseparável da natureza humana, os prós e os contras que um desenlace funesto traria às conveniências próprias. E o interesse, a principal força determinante das acções dos homens, segredava-lhes perfidamente soluções diversas para o seu proceder ulterior.

Se a creança nascesse viável, quem seria o Regente na menoridade?

Se, porém, a Rainha não desse à luz um herdeiro a quem iria de vez o governo do Reino?

Do lado de Castella redobrariam as pretensões!...

 

(continua)

 

VIDA NO CAMPO - I

07.03.15, melgaçodomonteàribeira

 

A FALSA DICTOMIA ENTRE O RURAL E O URBANO

DE

 ÁLVARO DOMINGUES

 

 

É um livro em tudo original, até na sua edição. Tem uma chancela – a Dafne – mas esteve em subscrição pública para recolher o dinheiro necessário à sua publicação. Vida no Campo de Álvaro Domingues, 52 anos, prof. da Faculdade de Arquitetura do Porto, é tão híbrido como as paisagens que descreve. Para evidenciar a fronteira cada vez mais ténue entre o rural e o urbano, o especialista em Geografia Urbana socorre-se de fotografias suas, poemas alheios, teses comuns e análises próprias. Um livro feito de retratos de um país composto de mudança.

A brincar costuma dizer: “Fui primeiro a Paris do que a Lisboa”. Poderia ser sobranceria, ou até sinal de um certo cosmopolitismo bacoco. Mas não. É apenas a sua forma de desmitificar algumas ideias feitas, enraizadas na sociedade nas últimas décadas, fruto da propaganda do Estado Novo e das idealizações turísticas do século XXI. Melgaço, onde nasceu, em 1959, “nunca foi, nem é, esse mundo remoto e desligado da terra como muitas vezes é pintado”. Dessa terra no limite norte de Portugal, lembra, partiu o primeiro autocarro semanal para Paris. E nos seus tempos de criança era tão frequente falar-se da “próxima vaca que ia parir”, como da “atualidade da Nova Caledónia”, onde morava um conterrâneo. Ao quotidiano difícil da vindima e do trabalho da lavoura, sobrepunha-se um manto diáfano de urbanidade da diáspora, animado pelas notícias da emigração e das mundividências que se cruzavam.

É precisamente essa realidade multifacetada, menos linear do que se possa supor, que Álvaro Domingues tem tentado divulgar em investigações universitárias e, agora, numa tetralogia que cruza fotografia e ensaio. Sempre com a ruralidade debaixo de olho. No conjunto, estes livros são “uma metáfora sobre a perda do Portugal Rural e um antídoto contra o mau viver pelo despovoamento e abandono, ou, noutro registo, pela profunda metamorfose que vai lavrando pelo país dos (ex)agricultores com o desaparecimento das suas práticas ancestrais, modos de vida, território e paisagens”, como o autor nos explica, citando o que escreveu na introdução do 2º volume da tetralogia, Vida no Campo, pronto para ser publicado. E acrescenta: “Esta não é uma questão menor. Como a língua ou a história, a paisagem é um poderoso marcador identitário, uma casa comum. E não há paisagens para sempre. Elas são o registo de uma sociedade que muda e, se a mudança é tanta, tão profunda e acelerada, haverá disso sinais, para além de pouco tempo e muito espaço para compreender ou digerir as marcas e formas como se vão atropelando mutuamente, ora relíquias, ora destroços”.

Zona de pasto ao lado de grandes barragens, ovelhas num bebedouro à beira de uma estrada, vivendas com lojas no piso térreo, ruínas postas à venda em grandes empresas de imobiliário, viadutos que atravessam aldeias, campos de cultura colados a áreas industriais, uma corda de roupa estendida entre dois pilares de uma estrutura rodoviária, cabos de alta tensão sobre casas e campos ou alfaias agrícolas atrás de estádios de futebol com projetos arquitetónicos premiados internacionalmente. Eis algumas das suas imagens – são cerca de trezentas em Vida no Campo – que Álvaro Domingues captou de norte a sul do país, de forma a evidenciar “a falsa dicotomia entre o rural e o urbano”. Ou, como diz: “Continuar a insistir na dualidade urbano/rural é como olhar para a sociedade e território com conceitos desfocados. A realidade é que os conceitos são apenas invenções para tornar claro o que é complicado”. Ou, como reforça: “Vida no Campo” é sobre isto tudo: mitologias do último país rural da Europa que persistem em inscrever-se no imaginário coletivo e, ao mesmo tempo, as imagens bucólicas e os destroços desse mundo perdido, variando entre calamidades e incêndios, resorts para todos os gostos com muita relva e espaço verde, turismo rural, desertificação ou, ao contrário, casas e estradas por todo o lado”.

Neste cenário, uma conclusão é óbvia: o trauma da perda de um mundo rural está longe de ser resolvido ou apaziguado. “É também disso que se trata neste jogo de espelhos onde não se percebe exatamente o que é que objetivamente se perdeu, mas muitos creem que foi o próprio paraíso, a versão bucólica e pastoral do mundo rural mais que perfeito, como Adão e Eva antes da serpente”. Álvaro Domingues não tem dúvidas. Neste caso, como na psicanálise, Freud explicaria que estamos perante o trauma ou o “mau luto” pela perda da paisagem que deixou de ser o que supostamente era. O pensamento também atormenta a paisagem.

Foi um vizinho de Melgaço, colega da Faculdade e viajante por terras das Américas, que comprou para Álvaro Domingues uma primeira máquina fotográfica, selando, sem o saber, o destino do amigo. Paga em prestações com os “primeiros dinheiros que ganhou” – começou a dar aulas quando ainda frequentava o 3º ano da licenciatura em Geografia, na Universidade do Porto – essa Nikon passou a ser uma companhia diária. Os primeiros disparos surgiram sem intenção específica, guiados apenas pelas regras do ofício e as lições de Orlando Ribeiro. “Para ler a paisagem, é preciso ganhar cota”, dizia o geógrafo aos seus alunos. E Álvaro Domingues não deixou de subir a montes e colinas, elevações e penhascos para, com o olhar distanciado, perceber não só como o homem modificou a natureza, mas como esta também o condicionou.

 

(continua)

 

O NASCIMENTO DO MITO IGNES NEGRA - I

04.03.15, melgaçodomonteàribeira

 

 

IGNEZ NEGRA

 

A HEROINA DE MELGAÇO

 

SUMMARIO

 

Loa de mel – A primeira separação – Incursões na Galliza – Morte de Ruy Mendes de Vasconcellos – Regresso a Coimbra – Doença do Rei – Partida do Duque de Lancastre – Viuvez de Nun’Alvares – Projecto de ataque a Melgaço – A corte da Rainha é convidada a assistir – As duas contendoras – Victoria de Ignez Negra.

Eram casados de pouco, quando foram obrigados a separar-se, porque as exigências da lide guerreira assim o impunham a El-Rei D. João I.

Em plenilúnio de mel, a loura Filippa de Lencastre, affectuosa e ternamente enlaçada no noivo, que a política do pae lhe outorgara, e a quem desde logo a sua alma se rendera, sentiu como que se lhe arrancassem o coração, quando ficou assim, sósinha em terra extranha.

É certo que a rodeavam donas nobres, e cuvilheiras de qualidade, mas eram todas portuguezas. É certo que a acompanhavam Prelados, dignitários, e doutores, gente de estirpe ou de consideração, mas pouco de molde a saber consolar-lhe o ânimo saudoso.

Ainda houve, no momento da partida, uma voz que parecia interpretar o seu sentimento. Era Gonçalo Mendes que exclamava:

- «Senhor! N’este Reino so hia de haver um costume de antigo tempo que o homem no anno em que casava, não havia de ir em guerra, nem ser constrangido para ella. E vós que ha tão pouco que casastes o quereis agora britar e vos ir fora do reino?»

João I, porém, não era homem que a lua de mel edulcorasse mollemente, nem que cedesse a exhortações de brandura emolliente.

Respondeu com sobrecenho: «que assim lhe cumpria por defensão da sua terra, e fazer damno a seus inimigos.»

E arredou-se do Porto, penetrando em Castella, para ajudar o sogro na sonhada conquista do throno d’aquelle reino.

Fruindo fortuna vária, mas sempre com arreganho, essa pequena hoste, ainda rutilante da glória alcançada em Aljubarrota, Atoleiros e Valverde, atravessou o rio de Maçãs, entrando em terra inimiga.

Iam os dois condestáveis – Nun’Alvares, o de Portugal – e João de Hollanda, (irmão do rei de Inglaterra) condestável do duque de Lancastre.

Na vanguarda caminhava o Prior do Hospital, D. Álvaro Gonçalves Camello, emquanto que n’uma das alas montava soberbo Martim Vasques da Cunha, que Mem Rodrigues na sua linguagem imaginadora dizia «ser tão bom como D. Galaaz» o cavalleiro da Tavola Redonda. Acompanhava-o a gente do mestrado de Christo, que levava em vez de bandeira, um grande «prumão» ou pennacho de plumas, n’uma lança de armas.

Na outra ala luzia com garbo Ruy Mendes de Vasconcellos, sempre ardido e desenvolto no acometer; Gonçalo Vasques Coutinho, «tão bom como D. Tristão», e outros mais. Era na própria consciência do bando heróico, uma corte d’esse novo – Rei Arthur, Flor de Lys – D. João I de Portugal.

Seguindo em imaginação a marcha da hoste na sua tarefa affanosa de ataque, de conquista e de rapina, assistimos maravilhados á rude e enérgica actividade d’este rei de 30 annos, ao mesmo tempo severo e lhano, audaz e cauteloso, promto, e cruel até era a reprimir, mas generoso no premiar, inexorável com os deliquentes mas afável, familiar e bom camarada com os companheiros de armas.

Verdadeiro chefe, sabia mandar.

Perfeito Rei, na missão paterna, era o protector do seu povo.

E elle lá vae montado galhardamente, vestindo com elegância, o loudel de panno de sirgo branco com a cruz de S. Jorge, incitando uns, gracejando com outros, e discutindo com Nun’Alvares a procedência na vanguarda, que este não queria ceder ao Duque de Lancastre…

Atacaram Benavente, tomaram Roales e Valdeiras, e cercaram Villa Lobos, havendo aqui e além escaramuças, e correndo-se pontas, sempre com brilho e lustre para a gente portugueza.

Desafiavam às vezes os inimigos a combates singulares: agora um creado do Condestável, Álvaro Gomes, que «sem fraldão e bem desenvolto» deu em terra com um castelhano seu contendor; logo Mamborni pelos portuguezes e o francez Ruc pelos castelhanos; aquelle levando o bacinete sem cara, este com dois calmaes e um gorjal, o que não lhe evitou ser posto fora da sella, tombando limpo no chão. Mais depois é a façanha de Ruy Mendes que, sahindo da sua tenda sem armadura, e apenas com o escudo no braço e lança na mão, dá caça aos castelhanos fazendo-os mergulhar nas águas turvas da cava. Essa imprudência valeu-lhe uma reprehensão do Rei, ao qual bem humorado e em tom de graça, o valente responde:

- «A la fé! Eu sou Rodrigo, tão bem las faço, como las digo.»

E logo adeante dá-se a escaramuça, junto a Castro Verde, d’este mesmo Ruy Mendes de Vasconcellos, que foi attingido perto do hombro por um virotão, que o feriu.

A scena é descripta tão pittorescamente pelo velho Fernão Lopes, que, para não lhe tirar o sabor, a copiamos tal como ella apparece na chronica:

«E como veiu à tenda e foi desarmado disse a aquelles que eram presentes:

- «Por certo eu sou ferido d’herva.»

E os outros dizendo que não, elle aprofiando que sim, foram-n’o dizer a El-Rei, ao qual pezou muito d’esto, e veiu logo alli por lhe tirar tal imaginação esforçando-o que não era nada, respondeu elle e disse:

- «Senhor, eu ouvi sempre dizer que aquelle que ferem com herva, que lhe formeguejam os beiços, e a mim parece que quantas formigas no mundo ha, que todas as tenho em elles.

- «Pois assim é, disse El-Rei, bebei logo da ourina, que é mui proveitosa para esto.»

Elle disse que não beberia por cousa que fosse; El-Rei afincando-o todavia, e elle dizendo que não, como mavioso senhor, com desejo de sua saúde, por lhe mostrar que não houvesse nojo, gostou da ourina e disse contra elle:

- «E como não bebereis vós do que eu bebo?»

Elle não o quiz fazer por quanto lhe dizer poderam.

El-Rei vinha-o ver cada dia duas e três vezes, e ao terceiro dia estando com elle falando, dizendo-lhe muitas razões de esforço, elle disse contra El-Rei:

- «Senhor, eu vos tenho em grande mercê vossas palavras e visitação, mas entendo que em mim não ha senão morte…»

El-Rei como ouviu isto, voltou as costas e sahiu da tenda com os olhos nadando em lágrimas… e logo esse dia fez seu acabamento, de cuja morte El-Rei e o Duque e todos os do arraial tomaram grande nojo e tristeza…»

Poderá a nota naturalista da anedota, no que se refere à pharmacopêa medieval, provocar um sorriso de leve enjoo a alguma leitora menos affeita à prática das rudes tisanas emborcadas por nossos avós.

Mas ninguém se furtará a uma enternecida admiração, sentindo a grandeza da scena.

Na barraca de campanha armada em terra inimiga jazia o bravo batalhador moribundo, padecendo horrores, com os tormentos causados pela lança que os tóxicos violentos do strophantus ou da digitallis, haviam envenenado, e conhecendo estoicamente os symptomas precursores da morte.

Junto ao catre improvisado, e de entre os companheiros de armas, destacava-se D. João I, camarada nas pelejas e nos triunfos, com as lágrimas bailando-lhe nos olhos, inquieto, ansioso, comovido a ponto de não hesitar na prova do repugnante medicamento, que preconizava como infalível.

Elle às vezes tão duro, que fazia lembrar seu justiceiro pae, n’aquelle lance deixava humanamente revelarem-se requintes de sensibilidade.

 

(continua)