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MELGAÇO, DO MONTE À RIBEIRA

História e narrativas duma terra raiana

MELGAÇO, DO MONTE À RIBEIRA

História e narrativas duma terra raiana

MELGAÇO DÉCADA DE 60 DO SÉC. XX

28.02.15, melgaçodomonteàribeira

Antigo Hospital da Misericórdia de Melgaço

 

PELO HOSPITAL

 

(A VOZ DE MELGAÇO, 01.09.1964)

 

Ainda não é desta vez que podemos dar a todos os nossos amigos a boa nova de termos recebido o anteprojecto das obras do novo hospital e é pena. Há quase dois anos que o esperamos e ainda não nos foi apresentado.

Certamente que o trabalho será muito, lá pelas Repartições, mas a nós é que nos causa sérias dificuldades. Estamos parados e numa obra destas, custa e custa muito. Não é para isso que estamos aqui.

Mas enfim, a vida é o que é, e é assim que temos de a levar. Continuaremos a instar pela entrega do anteprojecto e, entretanto, vamos trabalhando o que pudermos.

 

Continuam as obras na sala do banco, pois tal como estava, era já uma vergonha para todos nós. Custa-nos muito, repetimos, fazer despesas numa casa que breve havemos de deixar, mas há coisas que urge adaptar, sem demora.

Continuam também a registar-se na secretaria do Hospital, casos que nos desgostam bastante, com a apresentação de atestados.

Abusa-se muito de atestados para pobres.

Há dias, uma senhora trazia um desses documentos. Teve de averiguar-se e soube-se que o doente podia pagar a quantia indicada. Pois a boa da senhora respondeu-nos depois: — Olhe que se precisarem de 200 contos ainda os tenho!

Uma outra veio nas mesmas condições. Apurou-se que não era verdade o que nos dizia. O pai podia pagar e, graças a Deus, muito bem. E pagou. Mas isto faz pena! Somos também de opinião que estas casas deviam trabalhar com outro sistema, que a nós que temos de lançar a mão à caridade, de anos a anos, nos penaliza. Precisávamos de maiores subsídios de Lisboa. Mas a vida corre assim e, com estas despesas de África, não vemos, para já, novas soluções.  É assim que infelizmente temos de trabalhar. Incompreendidos tantas vezes! – Mas é mesmo assim. No ano passado, gastou a Santa Casa uns quinhentos contos (falamos assim para aqueles que não estão familiarizados com números) e de Lisboa só nos vieram oitenta e oito contos!

Do Governo Civil de Viana, 12 contos, e o resto, os 400 contos, tivemos de consegui-los por cá. Mas quem nos dera que esta Casa pudesse trabalhar de graça. Que ao menos, que os nossos irmãos pobres não paguem.

Devemos muito, muito, às Juntas, e bem sabemos como este trabalho de atestados lhes é dos mais penosos. Mas nós precisamos, todos, de maior compreensão.

As despesas são muitas e, por vezes, incomportáveis. Se não há seriedade entre nós, tudo se pode perder.

 

Ainda não nos foi autorizada a passagem da Igreja do Convento para a Comissão Fabriqueira da Vila, como já se pediu; a falta de documentos obriga-nos a rever um pouco mais os nossos arquivos sobre dados, de que, nada que nos consta, possuímos. Mas estamos em negociações.

Em Eiró, no Lar de S. José, temos 17 pessoas, a viver por conta da Santa Casa e, para já, não tem havido problemas de maior, graças a Deus.

Tanto há a fazer nestas Casas e tanto nos custa ir devagar…

Têm vindo alguns dos nossos amigos a férias e têm-se lembrado de nós, com os seus donativos. Quem dera que todos assim o fizessem… Valeu?

 

O movimento, neste mês, foi como segue: Consultas, 375; curativos, 392; injecções, 533; peq. cirurgias, 40; grandes cirurgias, 4; diatermias, 4; raios ultravioletas, 5; análises, 14; radiografias, 21; radioscopia, 7; bebés, 9; entradas, 39; saídas, 34; ambulâncias, 6.

E por hoje é tudo.

 

                                                                                     Pe. Carlos

 

Padre Carlos Vaz: Uma vida de Serviço

Edição: Carlos Nuno Salgado Vaz

Coordenadores: Carlos Nuno Salgado Vaz

                           Júlio Nepomuceno Vaz

Braga

Julho 2010

pp. 543,544

 

FRÁGEIS ELOS

21.02.15, melgaçodomonteàribeira

 

À primeira vista parece fácil escrever a história de uma família, mas à medida que se vão conseguindo nomes, datas, e outros dados considerados importantes, verifica-se que não existem facilidades de espécie alguma. Pelo contrário, os obstáculos vão surgindo, e os pontos de interrogação nascem aqui e ali, como a lembrar-nos de que muitas coisas do passado ficarão para sempre soterradas e esquecidas.

No entanto, e apesar das enormes despesas, é gratificante ir a pouco e pouco descobrindo, quase desbravando, as nossas raízes.

Em Portugal, devido à anarquia, desleixo, e até desprezo pelos documentos antigos e, quando existem, ao seu difícil acesso, quase se torna impossível investigar para além do século XIX! Os arquivos distritais estão em fase de organização, a informática está a dar os seus primeiros passos nesta área, os arquivos municipais praticamente não existem! Atrevem-se a alvitrar que este tipo de trabalho não passa de um capricho de quem nada tem para fazer, uma brincadeira de curioso! Claro que não se trata disso. A família teve ao longo dos séculos um papel assaz importante. Era dentro do seu seio que os jovens se educavam e cresciam; era ela que defendia os seus membros e os apoiava em situações difíceis. A sociedade do século XX – devido em parte à entrada da mulher no mundo do trabalho e ao aparecimento de grandes cidades (onde ninguém conhece ninguém) – desprezou os laços familiares, o elo que ligava um parente a outro parente.

Neste século da indústria, do petróleo, dos automóveis e aviões, do computador e da energia atómica, cada qual tem de valer por si: rico ou pobre, doente ou com saúde, não pode mais contar com a estrutura familiar, porque esta já não existe como tal! O egoísmo e o salve-se quem puder é a norma hoje em dia.

Não escrevi esta história com a intenção de me tornar conhecido ou apreciado; escrevia-a porque quis dar a todos os familiares a ideia exacta do seu parentesco, destruindo, quanto possível, fantasias e laços inexistentes. Quis também homenagear os nossos ancestrais, aqueles que nos trouxeram a este mundo.

 

Frágeis Elos (Uma História Familiar)

 

Joaquim A. Rocha

 

Edição do Autor

 

1997

 

UM AUTO-ÓMNIBUS EM 1912

14.02.15, melgaçodomonteàribeira

Auto Melgaço

 

AUTO MELGAÇO

 

Empresa de transporte de passageiros criada a 24/5/1912 por Cícero Cândido Solheiro (1878-1947), um dos maiores empreendedores que Melgaço conheceu. A garagem era na Corredoura, Prado, e o seu 1º motorista foi Emídio Augusto Castro. O “auto-ómnibus”, «Berliet» de 22 HP, com lotação para 20 passageiros e capacidade para 600 kg de bagagens, chegara a Melgaço a 5/5/1912. Fazia carreira diária entre Melgaço e Valença, com serviço combinado com o caminho de ferro. (Nota: Os passageiros que partissem de Melgaço poderiam também embarcar no Rio do Porto, em frente à Loja Nova, onde havia paragem. O ómnibus, no regresso, iria a S. Gregório, quando o número de passageiros não fosse inferior a cinco, custando cada passagem mais 500 réis, não pagando pela bagagem mais do que até Melgaço (Vila). Logo que a estação de Lapela abrisse, o serviço seria feito a todos os comboios, havendo grandes alterações no horário e preços de passagem, com vantagens para o público (Melgaço, (10/5/1913. C.C.S.). Quando os hotéis do Peso abriam, reforçava a sua frota, contratando novos motoristas. A fim de tornar mais conhecida a sua empresa promovia passeios gratuitos, como aquele que efectuou a 16/5/1913, a Vigo. As relações de trabalho por vezes eram conflituosas. O “Correio de Melgaço” publica, a 26/4/1913, o seguinte anúncio: «Cícero Solheiro, proprietário do Auto-Melgaço, declara para os devidos efeitos que despediu dos seus serviços de chauffer o empregado, D. Manuel Ròbinos, em virtude duma local publicada no “Jornal de Melgaço” 980, com a epígrafe «Um automóvel que se precipita». Pela mesma altura (1913) publicava-se no CM «A Empresa Sousa & Irmão abriu ao público (…) a carreira diária para aquela estância (Águas do Peso), sendo a partida desta Vila às 10 h… Aos domingos e dias de tribunal só virá um cavalo de sela fazer a carreira». Os animais ainda se aguentaram uns anos na estrada, mas os automóveis acabaram por vencer. Como o comboio chegou a Monção em 1915, a partir daí a carreira diária era efectuada entre Melgaço (partida 11 h) e aquela Vila (regresso 16.30).

 

Dicionário Enciclopédico de Melgaço II

Joaquim A. Rocha

Edição do autor

201O

p. 41

 

AUTO DA LADINA VI - FIM

07.02.15, melgaçodomonteàribeira

Noite de luar - Alameda 

 

 

(Narrador – batendo palmas e rindo)

 

                                        A Ladina, furiosa,

                                        grita de pronto ao juiz:

 

(Ladina – com um olhar sobrenatural)

 

                                        A voz dele é ardilosa,

                                        inventa tudo o que diz!

 

(Narrador – convincente)

 

                                        Impõe-se o juiz, ‘raivado:

 

(Juiz – olhando a ré com ferocidade)

 

                                        Cale-se mulher cruel.

                                        Nesse corpo do diabo,

                                        Estou a ver – só tem fel!

 

(Narrador – dando um pulo no ar)

                          

                                        Então a Ladina salta,

                                        como uma gata assanhada.

                                        E fala, em voz bem alta:

 

(Ladina – com um sorriso zombeteiro e estranho)

 

                                        Agora já vejo a jogada…

                                        o juiz também está feito;

                                        tem vil parte na fatia!

 

(Narrador – chamando a atenção de todos)

 

                                        Ouçam o escrivão Melancia.

 

(Escrivão – deveras zangado)

 

                                        C’os diabos! N’há respeito.

                                        Estamos num tribunal,

                                        ou numa taberna imunda?

                                        Confesso: nunca vi tal,

                                        Nunca vi tal barafunda!

 

(Ladina – dirigindo-se exclusivamente ao juiz)

 

                                        Toma cuidado, juiz,

                                        pela boca o peixe morre;

                                        é o povo quem o diz…

                                        vê bem como o vento corre!

 

                                        Não te quero fazer mal,

                                        mas não me irrites a pele;

                                        há bonito animal

                                        que letal veneno expele!

 

                                        Aquele tecto é duro,

                                        mais do que a tua sentença;

                                        por todos os deuses juro,

                                        que o provo sem detença.

 

(Narrador – com os cabelos revoltos)

 

                                        O juiz… quer adiado,

                                        o julgamento infernal;

                                        já é tarde! O coitado

                                        foi lançado ao vendaval!

 

(Agir, em cena, de acordo com esta situação; o Narrador continua)

 

                                        A sala parece um ringue,

                                        os socos dão-se a rodos;

                                        em linguagem bilingue,

                                        todos ofendem a todos!

 

                                        A ambulância é chamada,

                                        leva f’ridos ao hospital;

 

(Vozes populares)

 

                                        Isto… é pura cegada,

                                        é mesmo do carnaval!

 

 

(Narrador – já completamente exausto)

 

                                        Eis a grã-judiciária,

                                        P’ra resolver a questão.

 

(Agente da judiciária – apaontando para Ladina)

 

                                        Vai p’ra penitenciária,

                                        não há outra solução!

 

(Narrador – com aspecto de quem vem da festa)

 

                                        Transportada p’ra prisão,

                                        sob escolta apertada,

                                        vai esp’rando a ocasião,

                                        para a fuga imaginada!

 

                                        Sobre as costas leva um xaile,

                                        seu corpo, velho parece;

                                        seu olhar está num baile:

                                        tudo vê e nada esquece!

 

                                        Os guardas atentos vão,

                                        sabem que ela é p’rigosa;

                                        querem vê-la na prisão,

                                        ou mesmo na Gorongosa!

 

                                        Os rapazes vão atrás

                                        (o espectáculo querem ver)

                                        é o Zi, o Tó, o Brás…

                                        nadinha podem perder!

 

                                        Um acontecimento assim,

                                        apenas um eu conheço:

                                        o do velho Joaquim,

                                        Thomaz Joaquim Codeço.

 

                                        Homem de muitas matanças,

                                        na guerra civil andou;

                                        herói das extravagâncias,

                                        vidas sem conta ceifou!

 

                                        Mais dum século decorreu,

                                        sobre a morte do malvado;

                                        e, por ironia, morreu

                                        sob as balas dum soldado!

 

                                        Mas voltando à heroína,

                                        que nos traz tão ocupados…

                                        Ei-la, a bela Agripina,

                                        de olhos tão magoados!

 

                                        Não sei se vai chorando,

                                        mas não é costume nela;

                                        mulher de aço, mostrando

                                        rostinho de Cinderela!

 

                                        Vai magicando a maneira

                                        de fugir por esses montes;

                                        tomar banho na ribeira,

                                        beber água em puras fontes.

 

                                        Quando avista a ermidinha

                                        da Senhora da Candeia,

                                        implora: «minha santinha,

                                        livra-me da vil cadeia».

 

                                        De repente, furacão!...

                                        parecendo que ia cair,

                                        atira-se ao duro chão,

                                        para de novo subir!

 

                                        Nas mãos areia transporta,

                                        aos olhos da guarda a atira;

                                        para o verme não há porta,

                                        pelas montanhas se estira!

 

                                        Os guardas, surpreendidos,

                                        com os olhos areados,

                                        dizem não estar vencidos,

                                        apenas ludibriados!

 

 

 

(O Narrador, neste passo, interrompe. Muda de roupa e, solene, diz)

 

                                        Buscou Terras de Labreiro,

                                        com os lobos foi viver;

                                        comeu raiz do pinheiro,

                                        para à fome não morrer.

 

                                        Lutou p’la sobrevivência,

                                        tudo fez p’ra resistir;

                                        mas no auge da violência,

                                        acabou por sucumbir!!!

 

                                        Um exército de guardas

                                        por todo o lado a cercou;

                                        só se viam espingardas…

                                        e um só tiro bastou!

 

                                        Foi de raspão, numa perna,

                                        e logo Ladina tombou;

                                        par’cendo vir da cisterna

                                        o sangue fértil jorrou!

 

                                        Desta vez não resistiu,

                                        a triste sorte aceitou;

                                        sua boca não se abriu,

                                        os olhos semicerrou.

 

                                        Par’o hospital a levaram,

                                        num silêncio sepulcral;

                                        e mesmo f’rida a vigiaram

                                        como a feroz animal!

 

                                        Mais tarde a atroz Ladina,

                                        uns vinte anos apanhou;

                                        mas o juiz que a condenou,

                                        morreu de morte malina!

 

                                        Foi para Lisboa cumprir

                                        esses anos de prisão;

                                        para ensinar a mentir

                                        aos lisboetas d’então!

 

                                        Não sei se à terra voltou,

                                        se cumpriu todo esse tempo;

                                        estou certo, não chorou,

                                        por mais esse contratempo!

 

                                        Fosse qual fosse a sentença,

                                        uma coisa é mais que certa:

                                        «O crime jamais compensa»,

                                        Por isso, amigo: - alerta!

 

 

                                                           FIM

 

 

FAMÍLIA CAMBÓRIO