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MELGAÇO, DO MONTE À RIBEIRA

História e narrativas duma terra raiana

MELGAÇO, DO MONTE À RIBEIRA

História e narrativas duma terra raiana

101 LUGARES PARA TER MEDO EM PORTUGAL

29.03.14, melgaçodomonteàribeira

 

MELGAÇO TEM MEDO DOS LOBOS

 

 

   Naqueles recuados tempos em que não havia luz em lugar nenhum e o mais pequeno rumorejo da natureza à noite fazia os homens arfar de medo, era também um tempo em que a comida não abundava nem entre os homens nem entre os animais. Por isso, não era estranho que grandes alcateias de lobos descessem às aldeias, à procura de qualquer coisa que lhes enchesse a barriga. As gentes tinham-lhes medo e não raramente contavam histórias à lareira sobre pessoas e rebanhos que tinham sido dramaticamente devorados pelas feras.

   A um desses locais o povo dá o curioso, mas não despropositado, nome de «Botas de Cubalhão». Fica entre as aldeias de Lamas de Mouro e Cubalhão, perto de Melgaço, numa encosta onde não existe mais nada além de uma pequena encruzilhada. Mas conta-se que nessa encruzilhada existe um lobo, capaz de engolir todo e qualquer homem que se aproxime dele pela calada da noite, seja novo ou velho, fraco ou forte. E tudo isto porque o povo se fartou de encontrar naqueles caminhos escuros e inóspitos, botas, sapatos, pedaços de vestuário e até bocados de pés, que deram nome ao lugar e muitos motivos à imaginação.

   Resta contar a história do tio Agostinho, que se diz ter sido o homem mais valente do povoado…

   Há alguns anos, quando se soube que tinham aparecido mais umas botas e uns bocados dilacerados de pernas, o tio Agostinho avançou resoluto com uma solução para o problema: «Desta vez é que é! Vou dar cabo desse maldito lobo de uma vez por todas!»

   Muitos tentaram avisá-lo de que aquilo era uma grande loucura, um ato suicida mascarado de bravura, pois a morte era mais que certa. Outros, porém, achavam que o tio Agostinho sozinho não teria grandes hipóteses e, como era uma figura muito prezada por toda a aldeia, ofereceram-se para o acompanhar. Mas Agostinho não queria ouvir mais conselhos. Depois de beber um par de canecas de vinho licoroso, pôs-se a caminho da encruzilhada e lá ficou à espera do lobo com um pau na mão.

   As suas preces foram ouvidas. Pouco tempo depois, viu um lobo a caminhar lentamente na sua direção. Era inesperadamente grande, de pelo denso e cerdoso. Os seus olhos verdes cor de esmeralda reluziam no escuro com tanta intensidade que o tio Agostinho até pensou que tinha bebido de mais. Mais estranho ainda: olhavam-no fixamente mas sem qualquer sinal de raiva assassina. Agostinho, desconfortável e nervoso, levantou o pau, em posição de defesa, ora rodando à direita ora à esquerda, para não ser surpreendido por nenhum dos lados. O lobo amainou o passo, estudando-o.

   Agostinho tentou logo desferir-lhe um golpe, mas o raio do bicho esquivou-se e, com descaramento inaudito, agarrou-lhe o pau com o rabo! O aldeão voltou a tentar, com outro pau que apanhara na berma, mas o bicho esquivava-se sempre. O pobre homem já estava a ficar cansado de ser toureado por aquele estranho lobo, de olhar gélido como a neve caída no chão em seu redor. Lutou durante uma noite inteira o homem, sempre na tentativa de lhe acertar e, claro, de safar a própria pele! Em vão, pois com o raiar do Sol o tio Agostinho sentia as forças esvaírem-se e sabia que, mais cedo ou mais tarde, iria soçobrar. Então aí, o lobo poderia comê-lo a seu bel-prazer…

   Na aldeia, os habitantes desesperavam por notícias. Um dos amigos de Agostinho resolveu então pôr-se a caminho da encruzilhada, para acabar de vez com aquele sofrimento e antes que o desgraçado se deixasse comer. Pegou noutro pau e numa tocha com lume e subiu a serra. Quando lá chegou, vendo o amigo em apuros, atacou o bicho por outro lado. Este, finalmente, tombou. Mas mal o seu corpo felpudo se afundou na neve, com os dentes afiados a sulcarem o chão e o bafo ainda quente, apareceu quase instantaneamente outro lobo, ainda maior que o anterior. Os dois corajosos aldeões estremeceram e começaram a recuar, de fininho, apesar de o lobo enorme não parecer ter vontade de os atacar. Seguiu-os apenas, serra abaixo, como que empurrando-os de volta à aldeia. Cada vez que os homens se atreviam a olhar para trás, o lobo rosnava baixinho, os seus olhos tremeluziam e estugava o passo. Os homens, perdidinhos de medo, não tinham outro remédio senão acelerar. Só quando se começaram a avistar as primeiras casas de Cubalhão é que o lobo parou e deixou os homens seguirem livremente o caminho de regresso a casa. Já estes só sentiram o sangue a correr-lhes quente e célere nas veias quando tiveram a certeza de que já não estavam na terra dos lobos!...

 

 

101 LUGARES PARA TER MEDO EM PORTUGAL

Vanessa Fidalgo

Edição: A Esfera dos Livros

2013

pp. 37-39

 

AFOGADOS NO MINHO

22.03.14, melgaçodomonteàribeira

 

Foto colecção particular de iasousa

 

 

RIBEIRO, António. Nasceu a 31/3/1942. No Notícias de Melgaço 1323, de 5/7/1959, lê-se a triste notícia: « O Minho cobrou o seu foro. No rio Minho e na área da freguesia de Alvaredo, pelas 8 horas da manhã de um para dois do corrente mês de Julho, seis rapazes resolveram fazer uma viagem à vizinha Galiza e vá de se meterem todos juntos numa pequena e frágil batela e de remar para a margem espanhola. Mas quer fosse por excesso de carga, quer por esta se deslocar, a meio do rio a batela voltou-se e nas poucas águas do rio desapareceram três dos improvisados marinheiros, conseguindo salvar-se outros três. Os infelizes afogados eram todos daquela freguesia e solteiros, novos ainda e de vida prometedora na sua frente. Chamavam-se os infelizes Carlos Manuel Ribeiro, de 24 anos, António Ribeiro, de 17, irmãos, e Luís Esteves, de 18 anos, lavradores. Os seus cadáveres ainda não apareceram… » Seus corpos foram recuperados dias depois: o do Luís a 4/7; os outros dois no domingo seguinte. Estão sepultados no cemitério de Alvaredo, havendo contudo um desfasamento entre a notícia do jornal e a placa, pois nesta consta que faleceram a 29/6/1959! Por causa deste caso e de outros é que se pensou em construir uma ponte. No Notícias de Melgaço 1374, de 9/10/60, lemos com um certo assombro: - A ponte Peso-Arbo « … há tanto tempo desejada… » O professor Rodrigues, então presidente da Câmara Municipal de Melgaço, deslocou-se a Arbo a 23/9/1960 a fim de conversar sobre esse assunto com os alcaides de Arbo e Creciente. Os três foram falar com o Dr. Amândio Tavares, magnífico reitor da Universidade do Porto, que ali se encontrava em gozo de férias. Agradeceram-lhe os esforços que tinha despendido para que a construção dessa ponte fosse uma realidade e manifestaram-lhe o seu apoio. O Dr. Amândio estava casado em Arbo, e apercebendo-se do perigo que era atravessar o rio, iniciou uma luta, inglória, pois o dinheiro necessário para a obre não chovia do céu (ainda não tínhamos aderido à UE); por outro lado, o governo não estava interessado em “ligações” com o país vizinho (amigos, amigos, ligações à parte). Em reunião da Câmara Municipal de Melgaço de 20/10/60 ainda foi lido um ofício da Direcção de Urbanização de Viana, fazendo várias perguntas com o fim de informar o ministro do Interior sobre o pedido da construção de uma ponte internacional em São Marcos, Peso. A partir daí julgo que nunca mais se falou no assunto. Como se sabe essa obra concretizar-se-ia muito mais tarde, no novo regime político. Muitas vidas foram poupadas desde então.

 

 

Dicionário Enciclopédico de Melgaço

Volume I

Joaquim A. Rocha

Edição do autor

2009

p. 339

 

CAPELA DA SENHORA DA ORADA – II

15.03.14, melgaçodomonteàribeira

 

Pormenor da Capela da Orada

 

 

RECONSTRUÇÃO

 

 

   Disseminados por toda a igreja de Nossa Senhora da Orada deixaram os lapicidas certos elementos informativos acerca de esta casa de oração. No aparelho regular e enfileirado das paredes não ficou pedra sem carregar com a sua assinatura: uma pequenina sigla, gracioso símbolo para afirmar o seu trabalho.

   E numa das pedras aparelhadas da testeira do ocidente, do lado direito do pórtico principal e à altura dos olhos de qualquer homem, gravaram a buril um convite à leitura, uma abreviada inscrição: «Prior monachorum de fenalibus istam ecclesiam fundavit».

   No interior da igreja, junto da porta lateral do sul, em algarismos romanos insculpiram também uma data – M CC L XXX III.

   Ora os conventos de frades beneditinos – e Fiães nesse tempo observava a regra de São Bento – eram governados superiormente por um Dom Abade. Mas como este não podia atender pessoalmente a todas as exigências conventuais, a Ordem impunha-lhe vários colaboradores e um deles e o principal era o Prior, com atribuições latas quase um “acter ego” do Dom Abade. Aquele letreiro exterior refere-se a esta entidade claustral, pois revela ter sido um prior do Convento o fundador da Igreja.

   Era então D. Abade do convento de Fiães Frei João que, precisamente em 1245 comprou em Eiró uma vinha à senhora Elvira Petri de Rouças. E era a graça do Prior, Petro Aries, pois tendo intervindo como testemunha num documento de compra e venda, também feito em 1245 e conservado a folhas 55º do célebre Livro das Datas, seu nome e cargo declinaram: «Petro arie, priore ipsius monasterii.»

   E aquela outra inscrição no interior da capela, marcando a Era de César; fixa também o ano do nascimento de Jesus Cristo; aqueles algarismos romanos – 1283 – correspondem ao ano de 1245.

   A dificuldade está agora em seguir as obras da construção, a par e passo da sua feitura. A construção de quase todas as igrejas começa pela capela mor, ensinou o P.e Manuel de Aguiar Barreiro, hoje prestigioso Cónego da Sé Primacial de Braga.

   E conforme esta lição, se aqueles algarismos romanos estivessem em qualquer pedra da abside, isso significaria terem por ali principiado as obras em 1245. No sítio onde se encontra a pedra carregada com a inscrição dos algarismos há-de afirmar terem iniciado ou terem concluído as do corpo da igreja naquele ano. Não gosto de adivinhas e no entanto vou pela hipótese do acabamento, porque a indicação daquela era é o fim lógico do Conto do Pedreiro. E tal é ele:

   Certo dia encarregaram-me de fazer esta obra. Ergui a capela mor; principiei o corpo da igreja pelo lado norte; fiz em seguida a testeira e declarei quem me encarregou de fazer a igreja. Agora cheguei ao fim do trabalho e corre o ano de 1245. Nestas pedras que o sol há-de calcinar no decorrer de séculos, deixei eu ficar toda a minha alma de artista e de crente.

   Nos dois corpos da fachada principal, separados pelo ressalto de simples cornija modilhonada, a ocupar todo o espaço entre os botaréus dos ângulos, esculturei as arquivoltas da porta reentrante, quase em ogiva, assentando-as em três colunas de cada lado.

   Se é linda a entrada do templo; se está proporcionada à fachada; se a fresta cimeira, reentrante também, de colunelos e arquivolta ornamentada de cabeças de cravo lhe dá realce e se no cimo sobressai a cruz terminal, sei-o eu e há-de dize-lo a posteridade.

   Se com simples ornatos deixei ficar muitos modilhões da cornija, outros transformei em pregadores da doutrina de Cristo.

   – Só Deus é Deus e todos os louvores lhe são devidos, lá está o músico a dize-lo.

   – Deus é uno, mas também é trino, afirmam-no as três pinhas reunidas no mesmo galho.

   – Ide à Eucaristia! Significa-o a cabeça do animal com o bolo na boca. E como este é o maior milagre de Cristo, repisa o ensinamento a pipa sem a sapa.

   – Exerçam a caridade, proclama-o o pelicano ferindo o peito.

   – Mas fujam dos vícios e nomeadamente da luxúria e da gula, gritam-no dois modilhões.

   – Lá estão simbolizadas a Eternidade e a Virgem Mãe de Deus e dum modo especial como esta doutrina vem nos Evangelhos e é ensinada pelos bispos e pelos Abades de Fiães.

   Tudo isto fiz com certa elegância, mas a todos os trabalhos sobreponho o tímpano da porta setentrional.

   Não é nenhuma obra de arte aberta e filigranada, que o duro granito o não permitiu; é contudo uma peça interessante, onde mais cresceu e se evidenciou o meu sentimento artístico; um mimo, onde o simbolismo é mais profundo e a lição mais viva; uma prenda rica dada aos frades de Fiães pelo meu coração agradecido. Assim eles a interpretem:

   – Quem come da árvore da vida não morre. Vigiai e orai, ó vós outros, quer sigais a vida activa, quer a contemplativa.

   Esta igreja fala à alma do crente em todos os sítios: é um livro aberto. No futuro há-de ser lido, como o eu li agora.

   O conto do mestre lapicida acabou.

   Mas se já existia na Orada em 1218 uma igreja que ainda estava de pé em 1240 e até chegou a ser um kermitologium ou eremitério para os frades de Fiães, essa igreja primitiva desapareceu depois de 1240, quer a arruinasse o tempo, quer aqueles frades, por pobre ou não representar para eles qualquer interesse de maior, a demolissem. No seu lugar mandaram construir a actual. Esta é, pois, uma reconstrução da primitiva e data de 1245.

 

(Publicado em Notícias de Melgaço entre 3/6/1956 e 22/7/1956)

 

 

Obras Completas

Augusto César Esteves

Volume 1  tomo 2

Edição Câmara Municipal de Melgaço

2002

pp. 427-429

 

CAPELA DA SENHORA DA ORADA – I

08.03.14, melgaçodomonteàribeira

 

Capela de Nossa Senhora da Orada

 

 

A PRIMITIVA IGREJA

 

 

   A meio da encosta dum monte sobranceiro ao Rio Minho, nos subúrbios da vila de Melgaço; ali onde a velha estrada romana tomava fôlego para trepar às alturas de São Gregório e, no cabo de Portugal, perdido o alento, descer para beijar as águas do Várzeas; ali onde a natureza, trajando quase sempre galas, convida o viandante ao descanso a fim de na retina de seus olhos levar a saudade do sítio; ali onde o homem gostosamente se deixa embevecer pelos mil encantos criados pelo vistoso tapete a seus pés dia a dia estendido por Deus, grande quadro pictural onde um fio de água ou uma corrente caudalosa passa, no fundo, com reflexos de prata e deixa as margens vestidas de terras de cultivo e de montes escalvados a mostrarem a sua nudez vegetativa ou a farta cabeleira demonstrativa da pujança da terra mãe, ali erguia-se, já nos tempos anteriores à nacionalidade talvez, um templo em honra de Nossa Senhora da Orada.

   Pelo menos recolhida foi nas crónicas monásticas esta tradição, que também dá a igrejola em ruínas no tempo de D. Afonso Henriques e por ele reconstruída.

   Não se pode negar uma certa probabilidade a esta na parte referente ao primeiro rei português, tanto mais quanto é certo Orada ser reguengo e portanto propriedade de el-rei.

   Que o sítio pertencia à série de reguengos di-lo abertamente a Inquirição de 1258 e até conta como ele foi usurpado ao património real e dado a um Convento, sem ao menos o Vigarius da terra ter escrito no Rol o consagrado – « Perdit Dominus Rex illud » – , E assim o Senhor Rei perdeu o prédio:

   « … Item, disseram que Dom Suerio Ayras tinha a Terra da mão de el-rei Dom Afonso 1º, e filou um homem no mosteiro de Fiães e enforcou-o, e por isso filou esse sobredito Suerio Ayras Santa Maria da Orada, que era reguenga de el-rei, e deu-a ao Mosteiro de Fiães.

   Item, veio o rei Dom Sancho I a Melgaço e filou Santa Maria da Orada para si, e deu a Fiães por ela Figueiredo e cem maravedis; e ora têm, os frades de Fiães, essa Santa Maria e Figueiredo, e não sabem por que os têm. »

   O rei não teria conhecimento da espoliação nem tão pouco, em dias da sua vida, haveria dado aos frades de Fiães a Orada, julgar-se-á lendo este velhíssimo documento de 1173, confirmado por D. Afonso Henriques, o seguinte: « … pro remedio anime mea atque remissione omnium peccatorum meorum. vobis domno iohanni abbati de fenalis, atque universis successoribus vestris dono atque concedo totum quod in presentiarum habeo ab illa vite de melgazo usque ad terminum de chavianes quomodo claudit per cotarum, et inde usque ad minium.»

   E julgar-se-á assim porquanto o objecto da doação pode considerar-se um largo trato de terreno, com sesmarias e devesas, decerto, onde não faltaria a caça, nem as árvores, os matos e até os casais.

   O Cótaro e o Rio Minho, em pontos opostos, o afirmam; mas nos limites traçados por el-rei não é lícito incluir a Orada, a igreja ou o reguengo, já que neles se não fala e são hoje indeterminados por desconhecidos os primeiros pontos da referência indicados.

   … ab illa vite de melgazo…        … desde aquela vinha de Melgaço…

   Mas qual vinha? Onde estava situada a tal vinha de Melgaço? - … usque ao terminum de Chavianes…

   Mas onde começava e terminava o termo de Chaviães em 1173?

   Um documento deste género deve ser considerado irrelevante por quantos o queiram incluir entre os referentes à Orada, pensar-se-á. Mas, não é assim; porque o documento de Figueiredo, outorgado por Sancho I ao D. Abade de Fiães em 1189 contradiz tal conclusão, pois nele se lê: « Ego Santius dei gratia portugalie Rex una cum filio meo domno alfonso, et ceteris filiis. et filiabus meis. vobis domno iohanni abbati de fenalis, et fratribus vestris tam presentibus quam futuris de illis quatuor casalibus et demidio que habuimus in villa que vocant figueiredo Damus igitur vobis hoc quatuor casalis el demidium per remissione pecattorum nostrorum et per hereditate sancte marie da erada quam pater meus Rex domnus Alfonsus vobis dedit et nos dedimus eam poplatoribus de melgazo… »

   Ora se D. Sancho I deu aos frades de Fiães os quatro casais e meio de Figueiredo pela remissão dos seus pecados e pela herdade de Santa Maria da Orada que o meu pai, o Senhor Rei D. Afonso, vos deu, aquele velho documento refere-se ao reguengo da Orada e daí esta convicção: D. Afonso Henriques teve conhecimento da espoliação feita pelo seu Rico Homem e confirmou-a quando o julgou oportuno.

   Não fala, na verdade, nenhum destes documentos na igrejola da Orada, mas tal exclusão nada representa, porque o rei dando o todo, deu a parte e se tal redacção permitiu é porque nenhuma circunstância de momento impunha ao velho rei de Portugal qualquer referência expressa e forçosa à igreja.

   Mas seja como for a realidade, a existência da igreja nos dois primeiros reinados pode ser posta em dúvida. Não assim no imediato, porque é inegável a sua existência no tempo de D. Afonso II. Afirma-o um documento de 1218: « Ego frater Didacus didaci dei inspiratione dictus Abbos de fenalibus una cum Conventu ejusdem tibi Fernando martini facimus concambiam de media de una orta de vinea in loco qui vocatur sancto facundo in radice fontis et nos recepimus de te aliam circa ecclesiam Sancte Marie de herada… »

   Reafirma-o este de 1220: « judicibus delegatis causa inter monasterium de feanes ex una parte. et burgenses de melgatio ex altera super hemitagio sancte marie de Erade et suis terminis… »

   Confirma a informação de ambos um de Maio de 1240: « quod ego Johannes petri quod nomine bosco, et uxor mea Marina johannis pro remedio animarum nostrarum facimus cartam donationis et firmitudinis tibi abbati Martino et conventui eiusdem loci sancte Marie de fenalibus de nostra hereditate quam habemus videlicet unam vineam circa ecclesiam sancte Marie de erada sub carreira... »

   E corrobora os dizeres de todos três este do mesmo ano: « … quod ego petrus fernandi quod nomine nigro et uxor mea maior silvestri. pro remedium animarum nostrarum facimus cartam donationis et firmitudinis de duabus ortis qui sunt iuxta ecclesiam sancte marie de herada… »

   E, assim, se não fica de pé a tradição recolhida pelas velhas crónicas monásticas, comprovado está e fica ter existido na Orada antes de 1245 uma capela levantada em honra de Santa Maria da Orada, erecta, para nós os pecadores de hoje, sob a invocação de Nossa Senhora da Orada – palavra assim ortografada já no processo da Inquirição de 1258.

 

Obras Completas

Augusto César Esteves

Volume I  tomo 2

Edição Câmara Municipal de Melgaço

2002

pp. 425-427

 

O CASTELO DE MELGAÇO NO TEMPO – SÉC XX

01.03.14, melgaçodomonteàribeira

 

Ruínas Arqueológicas da Praça da República

 

DO SÉCULO XX AOS NOSSOS DIAS

 

 

   O castelo encontra-se classificado como Monumento Nacional pelo Decreto de 16 de Junho de 1910, publicado no Diário do Governo nº 136 de 23 de Junho de 1910. A muralha, pelo Decreto nº 11.454, publicado no Diário do Governo, Série I, nº 35 de 19 de Fevereiro de 1926. A ZEP (castelo e cerca) foi definida por Portaria publicada no Diário do Governo, II Série nº 105, de 9 de Maio de 1949.

   Em 1910, quando da classificação do castelo, este encontrava-se em avançado estado de ruína e, da cerca, já pouco restava.

   Entre 10 de Outubro de 1914 e 3 de Abril de 1916, efectuou-se escritura de compra do que restava da fortificação da vila para demolir, incluindo a Porta de Baixo com a inscrição medieval, a título de alargamento e aformoseamento da vila. Desse modo, a 14 de Outubro de 1914, procedeu-se à demolição da cerca desde a Porta de Cima, a que ligava com a couraça nova, para a Porta de Baixo, vendendo-se a pedra. Em 1916 a Câmara cedeu oito carros de pedra da muralha por troca de um pedaço de terreno pertencente a D. Maria da Nazareth Esteves dos Santos Lima, para o município abrir uma servidão junto à estrada de Prado a Paderne, no sítio de Cortinhas.

   Em 1917 pretendeu-se acabar com este resto e se não fora o alarme lançado por António Maria Vasco de Melo Silva César de Meneses, 9º conde de Sabugosa, a que se seguiu um movimento encabeçado pelo jornalista Humberto Beça, hoje nada restaria da fortificação. Desse modo, a 5 de Dezembro de 1917 um ofício do presidente do Conselho de Arte e Arqueologia indagava à Câmara por que motivo se demoliram as muralhas da vila, sem ser ouvida a Comissão dos Monumentos. A Câmara entendeu que a suspensão dos trabalhos era contrária aos interesses do município, decidindo informar a Inspecção-Geral das Fortificações e Obras Militares para garantir os seus direitos. Como resultado, em 23 de Janeiro de 1918, um despacho do Ministério da Guerra anulou a venda de talhões. A Câmara decidiu vender o material proveniente da demolição de uma casa situada no largo do Chafariz e a pedra da muralha da couraça nova (26 de Junho de 1919); o entulho deveria ser deitado no espaço onde estavam os canastros, sobranceiro ao antigo lavadouro público (o actual jardim que ladeia o castelo); o Inspector do Conselho de Arte e Arqueologia pediu que a Câmara o informasse sobre o plano de melhoramentos do castelo.

   Em 5 de Maio de 1920 a Repartição de Turismo solicitou a constituição de uma Comissão que tivesse como objectivo a “guarda e defesa do castelo”. Nesse mesmo ano, a 24 de Novembro, tendo recebido um reforço orçamental, a Repartição de Turismo solicitou à Câmara o envio de lista das obras a empreender e o respectivo custo.

   Sem preocupação de preservação, a 25 de Fevereiro de 1925 a Câmara deliberou vender a pedra dos alicerces das muralhas da vila, desde a extremidade do quintal das senhoras Almeidas até à extremidade do quintal de Emiliano Igrejas por oito escudos cada carro. A 1 de Abril seguinte, licitou dois lotes de pedra, um de 400$00 e o outro por 600$00. A 15 de Julho subsequente, colocou novamente em praça um terceiro lote de pedra das muralhas. À época, ainda, o presidente da Junta de Freguesia da vila solicitou à Câmara o refugo de pedras das muralhas para consertar o caminho público da Pigarra. No ano seguinte (1926), José Augusto da Cunha requereu à Câmara que lhe facultasse mais 80 carros de pedra, para além dos 120 que já havia levado, a qual se encontrava à entrada da vila, no lado sul, entulhada e em monte (27 de Outubro).

   A intervenção do poder público para a preservação do que sobrou iniciou-se em 1936. Nesse ano foi formulado um pedido à Guarda Fiscal para desocupar o piso térreo da torre de menagem, onde guardava barris e havia aberto uma porta na fachada lateral direita. A Direcção Geral dos Edifícios e Monumentos Nacionais (DGEMN) iniciou no mesmo ano as obras de reparação da torre de menagem, que prosseguiram no ano seguinte (1937), substituindo-se a sua anterior feição, procedendo-se a reparação do telhado e o entaipamento da porta no piso térreo, assim como a reposição do relógio da torre. Em 1939 tiveram lugar obras de recuperação do castelo, com a lavagem das paredes, calafetagem das juntas, aparelhamento de silhares, colocação de travejamento novo em madeira e de uma porta exterior; refez-se a barbacã da porta, com reconstrução das troneiras.

   Nesse contexto, em 1942 a Direcção de Finanças cedeu à Câmara o castelo, com a condição de zelar pela sua limpeza e conservação e propôs a sua utilização como mercado de gado. Acto contínuo, um ofício do director da DGEMN protestou contra este tipo de utilização, visto o Estado proceder ao restauro dos monumentos nacionais com o intuito patriótico de os salvar da ruína. No ano seguinte (1943), um ofício da Câmara à DGEMN informou que uma das torres estava em risco de desmoronar sobre o Quartel da Guarda Fiscal (23 de Janeiro), tendo esta procedido a obras de recuperação, a cargo do empreiteiro António Domingues Esteves.

   A DGEMN nomeou Oceano Cândido de Sousa como guarda dos Monumentos de Melgaço (25 de Agosto de 1949).

   Em 1951 tiveram lugar intervenções de limpeza da vegetação das muralhas e do terreno, reparação da cobertura da torre e colocação de porta de duas folhas, pelo empreiteiro Francisco Pinto Loureiro.

   Em 1960 foi feita nova reparação do telhado da torre de menagem, tendo tido lugar, no ano seguinte (1961) trabalhos de restauro e conservação.

   No ano de 1968 a comissão de festas do concelho procedeu à reparação dos danos na cobertura e pavimento da torre e escada de acesso.

   A década de 1970 assistiu à renovação do relógio da torre. Em 1971 foi feita a limpeza do castelo pelo empreiteiro José Pires Barreiros. No ano seguinte (1972), um incêndio destruiu o telhado, o soalho e as escadas de acesso à cobertura na torre de menagem. Um violento temporal destruiu quase por completo o telhado e fez ruir algumas ameias. Ainda nesse ano procedeu-se à reparação da torre pelo empreiteiro Viriato Alves Neiva, obras orçadas em 70.000$00. Procedeu-se ainda à reparação das portas da torre e da muralha. Em 1973 foram reparados os prejuízos causados pelo temporal, no montante de 44.500$00 (reposição de algumas ameias, reajustamento das cantarias deslocadas pela queda de um raio, reconstrução da cobertura, assentamento de degraus de madeira no interior da torre e construção da porta de acesso).

   Em 1981 tiveram lugar novas reparações do telhado e diversos trabalhos de conservação. No ano seguinte (1982) executou-se a limpeza de vários troços da muralha, a abertura das juntas na muralha dos lados sul e leste e o refechamento das mesmas, pela firma Marques & Marques, Lda., no montante de 400.000$00.

   Em 1991 tiveram lugar reparações na zona da torre de menagem.

   Em 1998 foi aprovada a criação de um Núcleo Museológico no espaço da torre de menagem, procedendo-se no ano seguinte (1999) à sua adaptação a essa finalidade, com a limpeza do piso térreo, deixando o afloramento rochoso à vista. Desse modo, ainda no mesmo ano, foi feita a inauguração oficial do espaço museológico (23 de Abril).

   A Câmara Municipal procedeu, no ano 2000, a campanha de prospecção arqueológica na Praça da República com o objectivo de descobrir o que restava da couraça nova, dos muros das falsas bragas e os alicerces que haviam estado dentro da tenalha, posteriormente Campo da Feira e Praça do Comércio. Abriram-se cinco valas de sondagem que deixaram a descoberto vestígios da couraça nova e de uma calçada, levando à ampliação da intervenção. Descobriu-se um largo e fundo fosso cavado no exterior da muralha do castelo e da cerca, a couraça nova e quatro níveis de calçadas e o alicerce de um dos muros da falsa braga que, no século XVII inutilizou a circulação no interior do fosso. As escavações no interior da Casa de Gaveto entre a Praça da República e a Rua Afonso Costa, permitiram ainda constatar os alicerces da tenalha.

   Até 2002 a Câmara procedeu ainda a obras de conservação e restauro e musealização do espaço, no valor de cerca de 40 mil contos, inaugurado a 21 de Agosto de 2001 pelo Ministro-adjunto António José Seguro, integrando o fosso medieval e uma pequena parte da couraça nova.

   Em Agosto de 2003 procedeu-se à renovação do Núcleo Museológico da Torre de Menagem e respectivos conteúdos.

   No ano de 2004 registou-se a aprovação da candidatura do “Plano Director das Fortalezas Transfronteiriças do Vale do Minho”, no âmbito do programa “INTERREG III”. Este visava fazer a inventariação do património edificado, avaliar o seu estado de conservação, determinar as suas patologias e posteriormente determinar estratégias específicas de actuação, tendentes à valorização, divulgação e fruição dos espaços fortificados, bem como a criação de percursos culturais e turísticos entre as povoações das duas margens do rio Minho.

 

Retirado de:

www.fortalezas.org