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MELGAÇO, DO MONTE À RIBEIRA

História e narrativas duma terra raiana

MELGAÇO, DO MONTE À RIBEIRA

História e narrativas duma terra raiana

O CASTELO DE MELGAÇO NO TEMPO – SÉC XII

30.11.13, melgaçodomonteàribeira

 

 

O CASTELO MEDIEVAL

 

 

   O primeiro documento a referir a povoação de Melgaço, integrante da Terra de Valadares, na tenência de Soeiro Aires, é a sua carta de foral, que lhe foi passada por Afonso I de Portugal (1143-1185) em 1183, garantindo aos seus habitantes, por solicitação dos próprios, privilégios semelhantes aos que gozavam os do feudo galego de Ribadavia.

   Guerra, Luís Figueiredo da (1926) informa que D. Pedro Pires, prior do mosteiro agostiniano de Longos Vales em Monção, irmão do arcebispo da Arquidiocese de Braga, D. Maurício Pires, por ordem de D. Afonso Henriques, fundou em 1190 (sic; outros autores referem a data de 1170) a torre de menagem de Melgaço e a sua cidadela.

   Como recompensa, o seu filho e sucessor, Sancho I de Portugal (1184-1211) em visita a Melgaço em 1191 (sic), recompensou-o com o couto do seu mosteiro.

   Em nossos dias, Brochado de Almeida endossa essa informação, com base na carta de couto concedida pelo soberano ao Mosteiro de Longos Vales, mas que a moderna crítica, apesar de algumas incertezas, tende a colocar no ano de 1199. Nela se refere que o rei coutava o dito mosteiro de “S. João de Longavares juntamente com o herdeiro D. Afonso II e os restantes filhos e filhas em remição dos seus pecados e pello amor de Deus, pella torre que Dom Pêro Periz, prior do dito mosteiro com seus frades nos fés em Melgaço” (Doc. D. Sancho I, doc. 334), (Almeida, 2002:49-50).

   A partir de então, a vila fronteiriça progrediu com rapidez, de tal forma que o primitivo castelo estaria concluído já no início do século XIII, dividindo-se os autores entre os anos de 1205 e 1212, ano em que, juntamente com outras praças vizinhas, fez frente à invasão das forças do reino de Leão (1211-1212) no contexto da disputa entre Afonso II de Portugal (1211-1223) e suas irmãs. Este soberano confirmou o foral de Melgaço em 1219. Contribuíram para esta campanha construtiva, além dos próprios habitantes e do apoio real, os recursos dos Mosteiros de Longos Vales e do Mosteiro de Fiães. Acerca do abade deste último, um dito popular à época afirmava: “Nestes reinos ninguém, depois do rei, era mais rico que o D. Abade de Fiães”. (Almeida, 2002:19)

   A primeira referência à existência de um sistema defensivo envolvente em Melgaço encontra-se num documento de 13 de Abril de 1205, no qual “o arcediago da Terra de Valadares, D. Garcia Nunes, juntamente com André Garcia faziam um acordo com o abade de Fiães relativo à posse da igreja que se edificava junto à porta da mesma vila”. Dessa leitura se depreende que a cerca já estava em construção, nomeadamente o troço a leste, voltado às actuais praça da República e rua Hermenegildo Solheiro, já contando com uma porta. Iniciada à época de D. Sancho I, os seus trabalhos foram quase concomitantes com o levantamento da torre de menagem, logo após a conclusão dos cubelos.

   A invasão leonesa (1211-1212) deixou danificados o castelo e a parte da muralha que se encontrava já feita (Pintor, 1975).

   Sob o reinado de Sancho II de Portugal (1223-1248), a partir de 1245 iniciou-se uma segunda etapa de fortificação da vila, que corresponde ao pano sul. Neste ano, um documento regista o acordo entre o abade João de Fiães, os juízes João Pires de Caveiras e Miguel Fernandes e o concelho de Melgaço por cujos termos o abade se comprometia a construir 18 barças (cerca de33 metros) do muro e a reparar esse troço sempre que ele caísse, a expensas dos frades, obedecendo ao modelo que fosse escolhido pelo concelho; o abade tinha ainda a obrigação de erguer uma torre, possivelmente no castelo. Em contrapartida, tinha a obrigação de indicar um cavaleiro fidalgo, natural do reino e de boa reputação, para ser investido como alcaide.

   Afonso III de Portugal (1248-1279) ao conceder à vila, em 1258, um terceiro foral, determinou que o alcaide fosse de nomeação régia e que não poderia ser negada a entrada ao nobre encarregado da governação da Terra de Valadares, disposições que não agradaram à população uma vez que essas disposições vinham alterar uma deliberação de Afonso Henriques. Diante dos protestos, o soberano revogou o foral novo e restaurou o de D. Afonso Henriques com ligeiras modificações de carácter económico. Ao ordenar a conclusão da obra da cerca à custa de erário régio, tem lugar a terceira e última etapa construtiva da defesa da vila, e que corresponde a todo o pano oriental e setentrional. Esses trabalhos estariam concluídos já no reinado de Dinis I de Portugal (1279-1325). Aqui se rasga a chamada “Porta de Baixo”, e se encontra uma inscrição epigráfica, em caracteres unciais, com data de 1301 (1263 da era cristã) onde se registam as entidades do responsável pelos trabalhos, o alcaide Martinho Gonçalves, e o seu construtor, o Mestre de Pedraria Fernando. Desde1261 aautoridade militar do castelo passara para o alcaide, e a manutenção e a guarda do mesmo para a responsabilidade dos homens-bons do burgo. Sob o reinado de D. Dinis, os moradores de São Salvador de Sabadim, no julgado de Valdevez, informaram aos inquiridores que haviam ido em anúduva a Melgaço. Registe-se que, à época, iam em anúduva a Melgaço ainda as povoações de São Tiago de Penso, Santa Comba de Felgueiras, São João de Sá, Santa Eulália de Sá, São Pedro de Mou, Riba de Mouro, Come de Rodami, São Julião de Badim, São Martinho de Alvaredo e o Mosteiro de São Salvador de Paderne, todas do julgado de Valadares.

   Em 1361 o trânsito entre Portugal e a Galiza deveria ser feito, obrigatoriamente, por Melgaço, dado revelador da sua importância, à época.

   Fernando I de Portugal (1367-1383) também contribuiu para a defesa de Melgaço, como registado na crónica de Fernão Lopes “(…) e isso mandouhos de muros e torre e cavas darredor”. Este fosso não era conhecido até à intervenção arqueológica levada a cabo na praça da República em nossos dias.

   Segundo Brochado de Almeida, “tudo aponta para que, completo o circuito defensivo do burgo de Melgaço, este fosse provido de uma barbacã (…) construída junto da muralha, sobre os rochedos previamente aplanados para se poder fazer um caminho que levasse até às portas de acesso ao castelo e à vila (…). Tecnicamente pode-se defender que em Melgaço havia duas barbacãs: a do castelo e a da vila. A mais antiga é contemporânea da construção do castelo, mas a inclusão do burgo no plano defensivo do lugar havia de inutilizar uma parte do seu traçado e a alterar o seu circuito inicial”. A segunda, que contornava a cerca da vila, já se encontrava muito danificada na época de Duarte de Armas e actualmente apenas subsiste um troço a norte.

   A alcaidaria-mor de Melgaço, durante a primeira dinastia esteve em mãos dos Gomes de Abreu, pois Lourenço Gomes de Abreu, embaixador de Afonso IV de Portugal (1325-1357) no reino de Aragão, foi alcaide-mor de Melgaço e de Laboreiro e o seu filho, Vasco Gomes de Abreu, ao tempo de Pedro I de Portugal (1357-1367) obteve também a alcaidaria de Lapela tendo, no reinado de D. Fernando I concluído as obras defensivas da foz do rio Gadanha.

   No contexto da crise (1383-1385), a vila e seu castelo seguiram a tendência do norte do país, mantendo o partido de Beatriz de Portugal. Em Março de 1388 reedificou-se uma torre, abrindo duas janelas no último piso convertido em habitação, e reforçou-se o seu sistema defensivo. Em Julho do mesmo ano foi assediada por forças portuguesas sob o comando de João I de Portugal (1385-1433), tendo o seu governador, o alcaide castelhano Álvaro Pais de Sotto Mayor, auxiliado por Diogo Preto Eximeno, se defendido denodadamente por 52 dias, ao fim dos quais veio a cair. O soberano, agastado com a tenaz resistência da praça, não lhe concedeu as honras da guerra. Gil Bordão, criado particular do soberano, e que tomou parte nos assaltos, recordou em seu testamento os excessos cometidos à época e, para se penitenciar, legou os seus bens à malataria (lazareto) que fundara na vila de Monção, de onde era natural. Nesta operação uma das primeiras medidas que o soberano tomou foi mandar atulhar o fosso que circundava exteriormente a alguns metros da barbacã a vila e o castelo, pelo menos do lado nascente. Após a conquista, o soberano entregou a sua alcaidaria a João Rodrigues de Sá, o “Sá das Galés”, seu camareiro-mor. Posteriormente Diogo Gonçalves de Castro obteve de D. João I os governos de Melgaço e de Laboreiro, que continuou nos Castros, de Fornelos.

   Em 1391, devido à localização da vila no extremo norte do reino, despovoada e bastante arruinadas as suas defesas, o soberano concedeu-lhe regalias aos feirantes.

   No reinado de Afonso V de Portugal (1438-1481) o alcaide-mor de Melgaço e de Laboreiro, Martinho de Castro, sob queixa de agravar os moradores daqueles lugares foi chamado à Corte, e não mais voltou a exercer esses cargos. (O autor refere a data de 1449 para este episódio embora a propósito do Castelo de Laboreiro, o refira como tendo ocorrido em 1441). Em 1460 o soberano doou os castelos de Melgaço e Laboreiro ao marquês de Vila Viçosa, filho do duque de Bragança.

   Sob o reinado de João II de Portugal (1481-1495) foi erguida uma couraça, estrutura com a função de garantir a aproximação segura a um ponto de abastecimento de água. Destacada da barbacã, era rematada por uma torre semicircular, com porta a sul, para defender a entrada leste da vila e resguardar um poço importante para o abastecimento da praça. Duarte de Armas, que a representa na sua obra, descreve-a como “Couraça nova” sem que tenha sido possível documentar a anterior. Ela sofreu modificações no século XVII, conforme identificado nas modernas escavações arqueológicas.

   Em 1492 Melgaço era um dos cinco únicos lugares da fronteira portuguesa facultados para ingresso dos judeus expulsos de Espanha (sefarditas).

   No século XVI foi construído um novo remate na torre, com matacães e ameias como pode ser apreciado na representação de Duarte de Armas.

   Sob o reinado de Manuel I de Portugal (1495-1521), as alcaidarias de Melgaço e Castro Laboreiro estavam a cargo de Lopes Gomes de Abreu que, por ordem régia, fez bastantes obras nas fortificações desta região (1500). Neste período as defesas da vila e seu castelo encontram-se figuradas por Duarte de Armas (“Livro das Fortalezas”, c. 1509).

 

Retirado de:

www.fortalezas.org

 

UM MAÇÓNICO NA VILA

23.11.13, melgaçodomonteàribeira

 

Casa das Teixeiras - rua da Calçada, Melgaço

 

 

Casa das Teixeiras

                                                            

 

   Pouco podemos apurar sobre a casa e seu primeiro proprietário. Nada sabemos acerca da misteriosa emblemática esculpida na frontaria do edifício. Custa-nos, porém, a admitir que ela tivesse apenas uma função decorativa. Esta reserva assenta no facto de sabermos que João Pires Teixeira (filho de D. Teresa Pires Teixeira, falecida na vila em 25 de Fevereiro de 1901, e irmão de António Pires Teixeira), que mandou construir o imóvel, foi maçónico no Brasil e era sobejamente conhecido como tal em Melgaço. A partir daqui, pode conjecturar-se ter ele querido representar simbolicamente na frontaria de sua casa as convicções próprias. É uma hipótese e, assim, deverá ser entendida…

   O edifício seria posteriormente vendido a Miguel Henriques Gonçalves Pereira e de 1983 a 1984 teve obras de beneficiação.

 

 

HERÁLDICA MELGACENSE

 

ASSOCIATIVA, DE DOMÍNIO E ECLESIÁSTICA

 

pp. 99 - 100

 

Maria de Jesus Domingues

Armando Barreiros Malheiro da Silva

 

Cadernos da Câmara Municipal de Melgaço nº 5

                                               

1989

 

AS ANDANÇAS DE D. LOPO DIAS DE SOUSA

16.11.13, melgaçodomonteàribeira

 

Festa da Cultura – casamento medieval


 

D. João, no Curvai do Pinheiro da Bemposta, em fins de Julho, entrada da canicula, cái com grande dôr de quentura.

A doença (soalheira, suadela, arrefecimento súbito, meio propício, pneumonia em campo?) invade o seu forte organismo com intensidade tal que o prostra, chegando a estar às portas da morte, a ponto de fazer testamento.

Para fortuna nossa não morre.

Restabelecido, ocupa-se dos negócios internos do seu reino que, agora em relativa paz, tanto carece de ordem.

Em Braga reúne Cortes, Dezembro de 1387, onde vemos D. Lopo Dias de Sousa, que, deste ano em diante, ora acompanha o rei, como soldado, ora a rainha, como seu mordomo-mór.

A guerra recomeça e em Melgaço na sua longa expugnação, toma o seu logar de chefe da sua cavalaria, tendo também o de ao lado de D. Filipa que, a convite do marido, tinha vindo ao acampamento para lhe dar o brilhante espetáculo dum assalto à praça que capitula no princípio de Março.

Do Minho partem para Lisboa, onde fica a rainha, por D. João saber que os castelhanos tinham entrado pelo Alemtejo, onde havia povoações cujos alcaides lhes eram afeitos.

 

 

Retirado de:

Três Mestres da Ordem de Cristo

Academia das Scièncias de Lisboa

Coimbra – Imprensa da Universidade

1916

 

www.archive.org

 

REVOLTA MARIA DA FONTE EM MELGAÇO

09.11.13, melgaçodomonteàribeira

 

Melgaço, anos 80

 

ASSÉDIO À PRAÇA DE MELGAÇO

 

«A culpa é do Costa Cabral!» – gritavam todos. Até certo ponto foi. António Bernardo da Costa Cabral (1803-1889) fora nomeado ministro do reino pela rainha D. Maria II e quis mostrar obra. Então, faz publicar o novo Código Administrativo, em 1842-1843. O Parlamento, também ele entusiasmado com essa dinâmica, aprova três leis que o ministro tenta pôr em prática: a lei da saúde (proibia os enterramentos dentro da igreja); a lei da contribuição da repartição (obrigava à declaração dos haveres e dos rendimentos de cada pessoa); e finalmente a lei das estradas (impunha aos homens válidos quatro dias de trabalho anuais gratuitos). Os seus inimigos, sobretudo os adeptos de D. Miguel, exilado desde 1834, aproveitaram estas três leis, impopulares, para derrubarem o governo. Em Março de 1846, em Fonte Arcada, Póvoa do Lanhoso, os populares não deixaram que se enterrasse um cadáver no adro da igreja. Começou a revolução chamada de Maria da Fonte. Melgaço não ficou imune aos acontecimentos. Existem poucos documentos sobre o caso, mas sabe-se que o assédio teve a ver com o enterramento dos defuntos fora das igrejas. Até finais do séc. XIX os aldeões, e até os moradores das vilas pequenas, pensavam que sepultar os mortos fora do lugar sagrado era o mesmo que enviar a alma do defunto para o inferno. Por cauda disso o país esteve a ferro e fogo durante décadas. Quase todas as freguesias de Melgaço reagiram mal às leis que permitiam a criação de cemitérios. Em1846 a luta do povo melgacense ultrapassou o âmbito da freguesia: os habitantes uniram-se, provavelmente chefiados pelos miguelistas, e tentaram invadir a Vila. O objectivo seria destruir toda a papelada das repartições públicas e exigir o fim dessa lei. Penso que não teriam armas de fogo. Não sei quantos atacantes morreram, ou ficaram feridos, só sei que Domingos Gonçalves, casado com Marinha Carriça, da Varziela, Castro Laboreiro, foi abatido pelos defensores da praça a 29/4/1846, e sepultado na igreja de Fiães.

 

 Retirado de: Dicionário Enciclopédico de Melgaço

                      Volume II

                      Autor: Joaquim A. Rocha

                      Edição do autor

                      2010

                      pp. 33-34


MÁRIO

02.11.13, melgaçodomonteàribeira

 

 

ALDOMAR RODRIGUES SOARES

(MÁRIO)

 

 

Aldomar Rodrigues Soares nasceu em 10 de Setembro de 1913, filho de Luís Cândido Soares e de Emília dos Prazeres. Ele o registou em «A voz de Melgaço» de 15 de Setembro de 1953 com esta singeleza jornalística:

 

«Evidentemente para os meus pacientes leitores o primeiro dos títulos desta carta pouco ou nada poderá dizer. Para mim, porém, ele diz muito, diz tudo; porquanto foi em 10 de Setembro de 1913, que, pelas 3 horas, no lugar de Cerdedo, desta freguesia, numa casa de morada que ora pertence à s.ra Rosalina Cândido Ribeiro, eu vi a luz pela vez primeira».

 

As primeiras letras aprendeu-as na escola do Pombal com o prof. José Caetano Gomes, transitando, em seguida, para a escola da Vila, regida pela professora D. Ana Cândida de Magalhães Barros, e desta para a escola de Rouças, do Prof. Rodolfo Augusto Esteves, que o propôs a exame de instrução primária em1925. Apar com o ensino oficial, recebeu ensino particular, ministrado por Agostinho Fernandes de Barros.

Em Janeiro de 1930 emigrou para a vizinha Galiza e, no mesmo ano, em 8 de Agosto emigrou para a França, fixando-se em Toulouse.

Em 5 de Agosto de 1935 regressa a Portugal. A permanência no estrangeiro facultou-lhe o conhecimento das línguas espanhola e francesa.

Já, de novo, em Portugal, e antes do Serviço Militar, estava em Lisboa, tendo completado o 2º ano e fez o curso de inglês.

Curiosa esta nota musical: em 1928 e 1929 foi discípulo do Mestre Manuel Rodrigo de Morais, o grande artista que, como regente da Banda dos Bombeiros Voluntários de Melgaço, levou o nome da sua terra e o fulgor da arte a muitas vilas e cidades do país.

Em chegando a idade do Serviço Militar, assentou praça na Escola Prática de Engenharia, em Tancos, em 3 de Março de 1936, tendo feito vários cursos. Passando à disponibilidade, alistou-se na PSP de Lisboa em 4 de Fevereiro de 1941, e foi colocado em Alcântara como intérprete.

Em 16 de Dezembro de 1946 doença grave feriu-o e, tão grave, que lhe causou surdez total e paralisia do flanco direito.

Não obstante os tratamentos efectuados em hospitais abalizados como Curry Cabral (Rego) e o dos Capuchos não recuperou.

Em 7 de Julho de 1947 foi demitido da PSP sem qualquer garantia financeira, não obstante os 3 anos de serviço militar e 5 de actividade naquela Corporação.

Regressou a Melgaço, sua terra natal, onde, felizmente, os muitos amigos o ajudaram a viver e a sofrer as agruras de que fora vítima involuntária.

Casou com Aurora Augusta Domingues em 25 de Novembro de 1943 na cidade de Lisboa, e do casal houve dois filhos: Carlos Alberto Doares e Maria Luísa Domingues Soares.

Faleceu em 7 de Setembro de 1962 na sua residência de Prado.

A vida de Aldomar Rodrigues Soares foi de trabalho, de sofrimento e incertezas.

Observando-a atentamente e em confronto com a obra intelectual que nos legou através de «A Voz de Melgaço» sentimos respeito profundo por esse homem que soube preencher a sua vida com um amor apaixonado à cultura, mormente no que respeita à sua terra natal.

 

Um exemplo:

 

«ZINONA»

 

José Maria Alves, sobrenomeado o «Zinona», filho de João António Alves e de Maria Teresa Lourenço, nasceu, na Vila de Melgaço, em 1871, e aqui casou, em 12-4-1910, com Belmira dos Prazeres Pires, de 38 anos, filha de José Joaquim Pires e de Florinda Vitória Lourenço; portanto, primos co-irmãos, já que ambos eram netos de José Maria Lourenço e de Josefa Antónia Gonçalves.

Tal como seu pai autor dos portões do cemitério municipal e outros trabalhos o «Zinona» foi um serralheiro competente, e o que mais espanta é como ele conseguia fazer obras tão perfeitas e bem acabadas com tão poucas e deficientes ferramentas que possuía…

No mister, ajudava-o seu cunhado Manuel, o «Néné». Este era semi-imbecil, o que o não impedia ou até talvez por isso… de ir todos os anos de abalada a Braga, gozar o S. João. Ia a pedibus calcantibus, comia e pernoitava onde e como podia e de igual modo regressava a penates, para, assim, não encetar o pé-de-meia angariado nos giros da pedincha; e tanto antes da ida como depois do regresso, invariável e frequentemente dizia ele: quem nam bai a Braga nam bê nada!

Apesar da sua semi-imbecilidade, era um filósofo este «Néné»…

Voltando ao nosso «Zizona», este, além de competente artífice, era também um finório. A este propósito, lembro-me muito bem de quando o falecido Simão Luís de Sousa Araújo lhe encomendou os portões para a sua vivenda na Rua Velha, vivenda hoje pertencente a Manuel José Domingues (Mareco). Justaram a obra ao quilo… contrato que ao Simão, à primeira vista, se lhe afigurou ser um verdadeiro negócio da China… Não contou, porém, com a esperteza de Mestre «Zizona», e aqui é que ele havia de ser levado.

Efectivamente, o «Zinona», para a obra em questão, além de empregar ferro da maior bitola que lhe foi possível, ornou-a exuberantemente com aplicações o mais pesadas que pode conseguir; e o resultado foi que uma vez a mesma obra concluída quase não havia em Melgaço balança capaz de a pesar… O Simão, apesar de só ter um olho, achou-a pesada em demasia, mas pagou. Era, pois, um finório Mestre «Zinona»…

Viveu e faleceu na casa que foi sua – o prédio que faz gaveto com a Rua Direita e com o Largo do Município ou Praça do Pelourinho – em 3-4-1941, tendo havido do seu casamento três filhos, dos quais apenas lhe sobreviveu um: a Leonídia. Como, porém, extra-matrimónio, gerou em Lucrécia Augusto da Costa Velho um ranchinho de bastardos, estes lhe tem assegurada posteridade por largos anos…

 

 

P. JÚLIO VAZ APRESENTA: MÁRIO

Autor: P. Júlio Vaz

Edição: autor

1996