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MELGAÇO, DO MONTE À RIBEIRA

História e narrativas duma terra raiana

MELGAÇO, DO MONTE À RIBEIRA

História e narrativas duma terra raiana

O SISTEMA DEFENSIVO DA VILA DE MELGAÇO

29.06.13, melgaçodomonteàribeira

 

 

CARLOS A. BROCHADO DE ALMEIDA

 

Doutorado em Arqueologia e Pré-História pela Faculdade de Letras da Universidade do Porto, especialidade de Arqueologia e Património. Professor da Faculdade de Letras da Universidade do Porto; lecciona ainda na Licenciatura em Turismo do ISMAI.

 

Tem desenvolvido nas últimas décadas uma intensa actividade no campo da arqueologia em associação com a museologia no âmbito do Departamento de Ciências e Técnicas de Património da Faculdade de Letras da Universidade do Porto.

Além de dirigir o Museu dos Terceiro de Ponte de Lima, a sua actividade museológica está plasmada num vasto labor organizativo de exposições nesse âmbito…

 

 

O SISTEMA DEFENSIVO DA VILA DE MELGAÇO

dos castelos da reconquista

ao sistema abaluartado

 

Autor: Carlos Alberto Brochado de Almeida

            Professor Auxiliar da F.L.U.P.

 

Edição e Propriedade: CÂMARA MUNICIPAL DE MELGAÇO

 

2002

 

UN CAN NA PENEDA

25.06.13, melgaçodomonteàribeira

 

Peneda – 1913

 

 

A ROMERIA DE NOSA SEÑORA DA PENEDA

 

 

   O dia 6 de agosto erguinme moi cedo para facer a romeria de Nosa Señora da Peneda, camiñando a través das poulas, das gramas, das gándaras; pólos cotos onde pacen, ceibes, as vacas piscas.

   Ía eu na compaña dos meus pais e mais duns cantos da miña aldeã de Casardeita, incluído o abade, aos que, axiña, se xuntaron outros camiñantes de Leirado que levaban a mesma rota. Estabamos moi ledos todos nós. Eu gozaba aquelas vacacións escolares como nunca gozara outras.

   Chegados ao santuario, após de longas horas de duro andar, instalámonos nunhas leiriñas de aló para pasarmos o día e sentirlles cantar o vira ás voces delgadas da raia, que parece que se che espetan na alma.

   A mamai fora ás misas e o papai presentoume dous señores. Un era baixote de barbicha arroxada, careca, que vestía uniforme e resultou ser o Capitán da Guarda Fiscal de Melgaço. O outro, mais mozo, ollos claros e prominentes, alto e de bigote ralo, chamábase João de Sousa Mendes; foime fulminantemente simpático e puxémonos a ligar unha improvisada conversa sobre o saudosismo. Desempeñaba, este segundo señor, as funcións de profesor de Primaria en Castro Laboreiro.

   Pois ben, cando Sousa Mendes se inclinaba para deixar no riacho a folla de bacallau de mollo para o xantar, mentres asobiaba ledamente a Marcha Turca de Mozart, foi agredido por un animal enorme. Un can negro coma o demo que o trabou na gorxa e o deixou morto instantáneo sen que ningún dos presentes fose capaz de lle facer separar as queixadas. Só se detivo o bruto, que era da raza enxebre daquelas serras, cando o Capitán o abateu a tiros da sua arma regulamentar.

   Pouco antes do ataque e de tan terribel morte, o infortunado Profesor, ledamente sorprendido polas miñas afeccións literarias, tan excepcionais ou escasas nos países da raia, entregárame, cun sorriso tímido que lle suliñaba a pouca espesura do bigote, un manuscrito narrativo intitulado O Castelo das poulas, que tirou ao efecto dun peto do seu casaco. Comprobei, na altura, que o Profesor ía moi perfumado. Tales papeis son os que repruducín anteriormente de modo literal, ainda que lixeiramente modificado o texto pola transcripcíon galega.

   Con todo, conservo, melenconicamente, o orixinal en português por se algún esprito cursidoso quixese contrastar. Escuso decer que o luctuoso feito diu moito que falar no estraño triángulo cuxos vértices se sitúan en Celanova, Montalegre e os Arcos de Valdevez.

 

(Castelo)

 

Retirado de:

 

Revista Arraianos

 

http://www.arraianos.com/Arraianos%20n1%208-2004%20Web.pdf

 

O LINHO NOS CANTARES DE MELGAÇO

22.06.13, melgaçodomonteàribeira

 

 Festa da Cultura - Melgaço

 

O LINHO NOS CANTARES E NA ETNOGRAFIA REGIONAL

 

Por: Guilherme Felgueiras

 

 

Tenho uma roca de pau de figueira,

Diz minha mãe qu’eu sou fiadeira.

Diz meu pai: - «Casar, casar!»

Diz minha mãe que não hai que le dar.

 

Diz meu pai: «um carneirinho.»

Diz minha mãe que está bravinho.

Diz meu pai: «Amansaremo-lo».

Diz minha mãe: «Assim le faremos!»

 

VARIANTE:

 

- Tenho uma roca de pau de figueira;

Diz minha mãe que não sou fiandeira;

Diz meu pai: «Casar, casar!»

Diz minha mãe que não tem que me dar.

Diz meu pai, que me dá uma cabra,

Diz minha mãe, qu’ela que é brava.

Diz meu pai que a amansaremos;

Toca, gaiteiro, que nós dançaremos!

 

 

Nossa Senhora m’ajude,

Ela me queira ajudar,

A espiar a minha roca

E a torná-l’a a carregar.

 

Retirado de:

 

http://gib.cm-viana-castelo.pt/documentos/20080807142933.pdf

 

TEATRO DE REVISTA EM MELGAÇO

18.06.13, melgaçodomonteàribeira

 

 

OS MODESTOS

 

 

    No palco do Cine Pelicano, para o qual o pincel do melgacense João Barbeitos Lourenço com facilidade e felicidade pintou três cenas, estrearam-se Os Modestos conforme estava anunciado, levando à cena uma espectaculosa revista local e um pequeno quadro emocionante. Apresentou-os ao público o Sr. Padre Manuel Lourenço, digno abade de Fiães, que encontrou e em poucas e compreensivas palavras soube concentrar e transmitir a beleza do espectáculo. É para nós gratíssimo aplaudir a transfiguração dessas raparigas do campo e desses artistas de artesanato local, que no palco souberam pisar e dizer como não pisa nem diz muita gente de mais teres e instrução. Gratíssimo é também recolher dentro das quatro paredes em que se confina hoje minha vida, o eco agradável dos aplausos tributados por toda uma povoação ao velho amigo Vasco da Gama Almeida, que num ramo difícil do teatro como é a revista, soube frizar críticas oportunas sem ferir susceptibilidades de ninguém e do seu coração conseguiu arrancar pedaços, que por vezes foram vistos nas tábuas do palco a viver momentos de grande intensidade dramática.

    Com estes ecos se juntaram uns outros, de louvor também, às senhoras D. Maria Teresa Alves Carabel, Maria Amélia Esteves Reis e Armanda Rodrigues que, muito embora as deixemos entrincheiradas atrás da sua modéstia louvável, foram pelo seu gesto e esforçada cooperação quem assegurou pelo sentido da vista dos espectadores o êxito de esta tão louvável iniciativa. Embora todo o corpo cénico desempenhasse airosamente os seus papéis e portanto cada figura da companhia concorresse com a sua quota parte para grande êxito dessas duas noites de glória, mandava a justiça destacar neste momento o trabalho dos actores e actrizes mais salientes, mas como estamos em Melgaço e eu não pertenço ao elenco, dispenso-me de representar agora o papel da Discórdia nas bodas de Tétis e Pelén lançando para o palco outra maçã de oiro o letreiro – Para o melhor actor. E como a música do Prof. A. Costa, outro melgacense, agradou e caiu no ouvido, recebam toda a companhia e seus empresários parabéns com muitos obrigados pelo bilhete oferecido.

 

Publicado em Notícias de Melgaço de 25/10/1959

 

Obras Completas: Augusto César Esteves

Nas páginas do Notícias de Melgaço

Volume I Tomo I

Edição Câmara Municipal de Melgaço

2003

pp. 106-107

 

O MOSTEIRO DE FIÃES

15.06.13, melgaçodomonteàribeira

 

 

Quando, em Março de 1981, estava prestes a terminar o ano beneditino, dedicado à comemoração do XV Centenário do Nascimento de S. Bento – acertadamente denominado Patriarca dos Monges do Ocidente e Pai da Europa –, além de termos apresentado uma comunicação ao « I Colóquio sobre Monacato Gallego », intitulada O estado dos mosteiros beneditinos na Arquidiocese da Braga no século XV, escrevemos também três longos artigos, publicados em « A Voz de Melgaço », de 1 e 15 de Março e 15 de Junho, sobre o Mosteiro de Fiães, que, tendo abraçado a Regra de S. Bento, por meados do século XII, algumas décadas depois, aderiu à sua variante cisterciense.

Com estes artigos pretendíamos chamar a atenção dos melgacenses para a extraordinária personalidade e obra de S. Bento e para a importância desta instituição monástica na história do nosso concelho e de todo o Alto-Minho.

Cerca de três anos depois, em 28 de Maio de 1984, passou o 150º aniversário da assinatura do decreto régio da extinção das Ordens Religiosas masculinas, preparado pelo Ministro da Justiça e Secretário de Estado dos Negócios Eclesiásticos, Joaquim António de Aguiar, encerrando-se, então, o longo ciclo de quase setecentos anos de vida documentada deste Mosteiro, geralmente desconhecida não só das gentes de Fiães, mas também dos numerosos visitantes deste monumento nacional.

Em 1834, não era a primeira vez que o Mosteiro de Fiães enfrentava a sentença de morte, pois já, em 1775, tinha sido extinto pelo Marquês de Pombal, vindo, no entanto, a ser restaurado nos primórdios do reinado de D. Maria I, mais exactamente em 1777. Sobre este assunto fizemos uma exposição na Biblioteca Municipal de Melgaço, em 17 de Agosto de 1984, subordinada ao título O Mosteiro de Fiães, da primeira à segunda extinção.

Consideramos, por isso, oportuno e útil ampliar as notas anteriormente publicadas, acrescentando-lhes alguns dos elementos relativos aos últimos decénios de vida e à fase de extinção definitiva desta comunidade, revelados pela primeira vez, em Melgaço, colocando, deste modo, ao alcance do público dados suficientes que lhe permitam vislumbrar o que este Mosteiro ainda era, em 1834, e melhor poder aquilatar da intensa acção demolidora, desde então, contra ele desencadeada, a que só escapou a igreja por ser paroquial.

Este pequeno estudo, que, apesar da sua simplicidade, deveria ter sido publicado, há muito, não podia continuar na gaveta por mais tempo, até porque, neste ano de 1990, está a celebrar-se por toda a Europa Ocidental, nos Estados Unidos e na Polónia, o IX Centenário do Nascimento de S. Bernardo, e a ele queremos associar-nos, proporcionando ao público interessado alguma informação acessível, não só acerca deste extraordinário Abade Reformador e grande Doutor Mariano, mas também sobre a sua grandiosa obra, de que o mosteiro de Fiães é parte integrante.

Neste opúsculo, os romeiros e turistas, que subirem até ao Mosteiro de Santa Maria de Fiães, encontrarão um conjunto de informações documentadas, susceptíveis de responderem a muitas das interrogações que, por certo, implícita ou explicitamente não deixarão de formular sobre ele, desvendando-lhes um pouco da rica história desta comunidade de monges brancos e ajudando-os a compreenderem e amarem o que ainda resta deste antigo cenóbio. Esclarecemos, entretanto, que neste breve estudo privilegiámos os aspectos institucionais, praticamente, desconhecidos.

Nesse intuito, dividimos o presente estudo em duas partes. Na primeira, procurámos traçar uma panorâmica histórica desta instituição, desde os seus primórdios documentados, isto é, desde os meados do século XII, até à primeira extinção, provocada pelo Marquês de Pombal, na segunda metade do século XVIII, preenchendo a segunda parte com os aspectos mais salientes, relativos à mencionada primeira extinção, com as circunstâncias em que se concretizou a exclaustração de 1834 e, finalmente, com a descrição de alguns aspectos inerentes ao património e rendas desta comunidade.

O que aqui fica são apenas algumas notas dispersas, convém frisá-lo. Mas se, apesar disso, de algum modo, conseguirmos sensibilizar o público leitor para a importância dos objectivos acima expostos, sertir-nos-emos, deveras, compensado por este serviço cultural prestado à Comunidade.

 

O MOSTEIRO DE FIÃES

(Notas para a sua história)

 

Autor: José Marques

 

Edição: do autor

 

Braga, 1990

 

IDADE DO BRONZE NO CONCELHO DE MELGAÇO

11.06.13, melgaçodomonteàribeira

 

EXISTE UM NÚCLEO MUSEOLÓGICO EM MELGAÇO?

 

 

   É notória a falta de sínteses sobre a pré-história do Norte de Portugal, mormente no tocante à Idade do Bronze. Excepção feita à dissertação de doutoramento do Doutor Vítor de Oliveira Jorge que apenas aflora, como é óbvio, o Alto Minho, dois trabalhos nos serviram de base para estas linhas: o de Savory, publicado em 1951 na Revista de Guimarães e o de Philine Kalb apresentado em 1979 ao I Seminário de Arqueologia do Noroeste Peninsular.

   Destes, o primeiro é um repositório de locais e achados do chamado Bronze Atlântico em toda a Península, enquanto o segundo, polémico mas profundo, vem pôr sérios problemas que bem merecem uma cuidada atenção por parte dos pré-historiadores portugueses.

   Dado que, como atrás foi dito, é nossa intenção elaborar um ponto da situação e não apresentar conclusões sólidas, vejamos quais os principais achados da Idade do Bronze conhecidos no Alto Minho.

 

Esconderijo da Carpinteira

 

Bouça da Carpinteira – S. Paio – Melgaço;

5 machados de talão, duplo anel e dupla canedura;

2 com cabeço de fundição;

Sem vestígios visíveis de uso;

Depositados nos Museus Soares dos Reis e de Belém.

Bibl.:Portugália, II, 1945, pg. 475

 

Achados de Viçosa

 

Monte da Viçosa – Roussas – Melgaço;

1 machado de alvado, uma ponta de lança;

Machado com um só anel;

Ponta de lança fragmentada na parte do alvado.

Bibl.:Studium Generale, IX, 1961, pgs. 94-99

 

Retirado de:

Elementos para o Estudo da Idade do Bronze no Alto Minho

 

Por: José Augusto Maia Marques

 

http://ler.letras.up.pt/uploads/ficheiros/7917.pdf

 

 

E SE AS PEÇAS REGRESSASSEM A CASA?

 

 

   O hábito, no séc. XIX, de os próprios arqueólogos trocarem entre si, ou entre as instituições museológicas a que estavam ligados, peças arqueológicas, é igualmente responsável pela sua dispersão, como sucede, por exemplo, com os materiais do depósito de Espite (Ourém) (Veiga, 1981), uns pertencentes ao Museu Santos Rocha, outros ao Museu Nacional de Arqueologia; ou o de Carpinteira (Melgaço) (Fortes, 1905-1908b), cujas peças se encontram distribuídas pelo Museu Municipal de Viana do Castelo, Museu Nacional de Soares dos Reis e Museu Nacional de Arqueologia.

 

Retirado de:

Depósitos de Bronze do Território Português – Um debate em aberto

Separata de O ARQUEÓLOGO PORTUGUÊS

Lisboa, 2006

Por: Raquel Vilaça

 

ENTREVISTA A JOAQUIM A. ROCHA

08.06.13, melgaçodomonteàribeira

 

Joaquim Agostinho da Rocha

 

 

Entrevistas com Sotaques:

Joaquim Agostinho da Rocha, memória viva de Melgaço

 

 

Joaquim Agostinho da Rocha não esconde a sua imensa paixão por Melgaço. Divulgador incansável da história de uma das vilas mais antigas de Portugal, com vários livros publicados, desvenda-nos, nesta entrevista, a ponta do véu de um percurso histórico riquíssimo deste concelho do Alto Minho, que se confunde com a própria sobrevivência e consolidação de Portugal como nação independente.

 

P – Nasceu em 1944, em Cristóval, Melgaço e sei que sempre teve um fascínio pela história. Quando começou a interessar-se por temas históricos?

 

R – Desde a infância que me interesso pela história. Aos 12 anos já tinha lido o D. Quixote de La Mancha, e nunca deixei de procurar saber mais sobre a história universal, mas também sobre a história local do concelho onde nasci.

 

P – Teve um percurso profissional intenso. Pode-nos falar dele?

 

R – Tive várias actividades ao longo da vida. Depois da quarta classe, fui aprender o ofício de sapateiro e alfaiate e, aos 17 anos, abri uma oficina própria de mestre sapateiro.

Aos 20 anos fiz a tropa, durante um ano e, a partir de 1967, fui viver e trabalhar para Lisboa como técnico de contas, onde tirei o curso comercial e o curso de contabilidade. Trabalhei também como bancário, empregado de escritório, professor do ensino secundário.

 

P – Entretanto o apelo da história chamou forte por si e passa a frequentar, em horário nocturno, o curso de línguas e literaturas modernas na Faculdade de Letras de Lisboa. Como foi essa experiência?

 

R – Extremamente enriquecedora. Tinha professores que me marcaram profundamente, e que eram figuras eminentes da cultura portuguesa.

Lembro-me de António José Saraiva, que nos dizia para nos abstrairmos do mundo que nos rodeava, e para pensarmos de um modo original. Também do poeta e professor David Mourão-Ferreira, que nos recomendava que separássemos o ensino da sua faceta de poeta, porque éramos cientistas da literatura e do conhecimento. Também me recordo com saudade de Mário Dionísio, que defendia intransigentemente o rigor na linguagem, que evitássemos o desperdício e o ruído no uso da palavra.

 

P – O Sotaques Brasil/Portugal aposta no reforço das ligações entre Portugal e o Brasil. Também estudou a literatura brasileira na faculdade?

 

R – Sim. Tive o professor Gilberto Mendonça Teles, na cadeira de literatura brasileira, que era um homem muito erudito. Ensinava-nos a dissecar um poema, e a compreender as partes que o compõem. Acho que é indispensável existir uma relação próxima entre Portugal e o Brasil, até pelos laços históricos que nos unem.

 

P – Como surgiu seu interesse sobre a História de Melgaço?

 

R – Depois de escrever “Frágeis Elos (uma história familiar)”, uma genealogia da minha família, senti a necessidade de aprofundar a minha investigação sobre Melgaço. Daí resultaram várias obras publicadas como “Escritos sobre Melgaço”, “A origem de algumas famílias melgacenses” o “Dicionário Histórico de Melgaço”, bem como o livro de poemas “Os meus poemas” ou romances como “Entre mortos e feridos”, entre outras obras.

 

P – Uma História de Melgaço que é riquíssima?

 

R – Sem dúvida. O Foral de Melgaço foi concedido em 1183, por D. Afonso Henriques, o mesmo rei que mandou construir a fortaleza, que foi vital para suster as investidas dos castelhanos, nos primeiros séculos da independência de Portugal. Mas há muito mais: as várias igrejas medievais, como a igreja Matriz, o percurso do Caminho de S. Tiago pela geira romana, que passa na estrada real 23, em Melgaço, o castelo e os vestígios pré-históricos que existem em Castro Laboreiro, as Termas do Peso, e o próprio Santuário da Senhora da Peneda que, apesar de se situar geograficamente nos Arcos de Valdevez, é visto pela população local como fazendo parte de Melgaço. E também podemos falar no presente, nos museus da Emigração e do Cinema, que prestigiam a cultura da vila de Melgaço. Bem como grandes figuras vivas de Melgaço – como um dos mais eminentes historiadores medievais portugueses, o Dr. José Marques.

 

P – O mito da Inês Negra também pertence a esse património histórico?

 

R – A Inês Negra nasce de uma história contada na Crónica de D. João I de Fernão Lopes, em que se relata que, em 1387 no seguimento da crise 1383-1385, quando Melgaço era governada por um alcaide castelhano e estava cercada pelas tropas do Rei, “escaramuçaram duas mulheres bravas, uma da Vila outra do Arraial”. O Conde de Sabugosa, na obra “Neves de Antanho”, editada em 1910, assinala a Lenda da Inês Negra como um episódio patriótico com uma grande carga mítica. O triunfo da Inês Negra sobre a Arrenegada, uma portuguesa que teria lutado pelo lado castelhano, simboliza a vitória das forças portuguesas.

 

P – O ensino da História de Melgaço nas escolas do concelho é para si um imperativo?

 

R – Acho que é indispensável. Mas essa necessidade é referida há décadas: na década de 40, uma figura notável da nossa cultura, o Dr. César Augusto Esteves apontava que essa era uma prioridade. Os documentos mais importantes da nossa história estão acessíveis: por exemplo, o Foral de Melgaço está traduzido para português – um trabalho em que colaborei com dois latinistas franciscanos. Com a facilidade de acesso ás fontes, que existe na actualidade, não há razão nenhuma para que as novas gerações não tenham acesso a esta rica história que possuímos.

 

R. Marques

Sotaques Brasil/Portugal

 

www.sotaques.pt

 

SC MELGACENSE: É HORA DE HONRAR A HISTÓRIA

04.06.13, melgaçodomonteàribeira

 

 

MELGAÇO E O FUTEBOL

 

 

    Decidi-me a pesquisar o futebol por estas bandas, exactamente por Melgaço ser o concelho mais a norte do País. E também por só 3 das suas equipas – e duas delas não passando as 2 presenças – terem estado no futebol oficial*, em quase 100 anos de competição.

    Mas descobri coisas peculiares. Vou aqui partilhar esse saber, se para tanto me chegar a verve.

    A segunda década do século passado, já nos vai dando notícias do futebol por aqui. Não que houvesse alguma equipa filiada, que isso só iria acontecer em 1973, quando o Melgacense se filiou, teve um campo novo, e passou a jogar nos distritais. Fez até o seu primeiro jogo em Valença, e perdeu por 4 a 2. Jogava-se uma Taça de Preparação.

    Mas isto é o arranque do futebol oficial. E nos anos que antecederam esta data? Não houve futebol?

    Houve, variado e emotivo. Jogava-se então no campo do Monte de Prado, local de baldios requestados (a Igreja e a Autoridade Administrativa discutem a sua gestão). Mas o campo ficava longe, e os jornais locais, reflectindo a opinião generalizada, empenham-se na construção de um novo. Incentivam a Câmara a tomar, e fazem-se planos. Muitos planos. Levantamentos topográficos até, como se relata na Voz ou no Notícias. De Melgaço. Mas o campo nunca se faria. Neste entretanto surgem novos clubes e criam-se algumas rivalidades. Terão sido sadias, pois os jornais não dão conta de atritos.

    Como atrás disse, o primeiro clube a surgir é o Sport Melgacense. 1925 é a data da sua criação. Sem dúvidas, como atesta o Notícias local. Inactivo logo depois de ser criado, eis que ressurge no início dos anos 30. Logo após, teria a companhia do Atlético Melgacense, da União Artística e do Grupo Desportivo Os Leões.

    Mas os tempos eram difíceis, as estradas muito más, e as solicitações para manter os clubes (a sede era nestas alturas local indispensável para juntar os sócios e fazer receita com bailes e bares) depressa levavam à sua inactividade. Foi o que aconteceu logo nos finais da década.

    Haveria de voltar o futebol em meados de 40, e logo com 5 equipas:

    - Sporting de Melgaço, Vitoriosos, Comercial, Rápido e Os Unidos. Foram tempos de muita actividade, e intenso movimento no Monte de Prado, mas voltou a inactividade no princípio dos anos 50.

    Foi o cimento para o novo e definitivo ressurgimento do Sport Clube Melgacense, que ainda hoje passeia as suas cores pelos campos nacionais.

    Mas nos quase 100 anos que o futebol leva por aqui, apenas 3 equipas do concelho estiveram no futebol oficial. E duas delas fizeram-no de forma efémera. Mas vamos começar pelo princípio.

    Foi o precioso auxílio de 2 jornais da terra, o Notícias e A Voz de Melgaço, que nos guiaram nesta viagem pela história. Tudo começa em 1921, quando se começa a publicar o Notícias de Melgaço.

    A edição de 8 de Março de 1925, abre aquilo que parece ser o princípio do futebol por estas bandas. E já era um Sport Clube Melgacense o protagonista. Diz o jornal: “Vão começar as obras do campo destinado ao futebol, no lugar do Arrochal, onde antigamente se faziam as feiras de gado”.

    Nascia o futebol em Melgaço. Pelo menos é isso que o jornal diz, acrescentando ainda que “todo o material necessário, quer para as obras, quer para o jogo, já foi comprado”.

    Embora não se diga onde, logo a 12 de Abril se anuncia que o Melgacense venceu por 5 a 0 o S. Gregório FC. E logo a 16 de Abril se volta a jogar com os mesmos de S. Gregório. Desta vez o resultado foi de 2 a 1.

    Mas já então era no Monte de Prado que se jogava. Di-lo o jornal de 20 de Abril, quando anuncia para esse campo um jogo com os vizinhos espanhóis do Fortuna Arboense. A edição de 3 de Maio desse ano, é um profuso relato do jogo, dos jogadores, dirigentes, e das diligências para aprontar o recinto. Não ficam dúvidas de onde o futebol se fez, e quem o fez.

    Iniciava-se assim uma intensa e apimentada competição com os vizinhos. Isso mesmo ressalta da carta que o SC Valenciano faz publicar no citado jornal. Invocando algumas incidências em jogo anterior, desafia os de Melgaço para um jogo em campo neutro e regulamentar. Em Monção. Mas desafia ainda o Melgacense a filiar-se na Associação de Futebol, e não recorrer a jogadores espanhóis, que foi o que fez, acusam aqueles, no último jogo. Fervia o futebol por aqui!

    Mas o jornal fecha portas em 1926, e só voltaria em 1929. Até 1933 não daria quaisquer novas sobre futebol, pelo que se deduz que este tenha hibernado entretanto.

    Mas haveria de regressar em 1934. Escreve o NM de 6 de Maio que os rapazes do futebol têm em curso uma recolha de dádivas para reparar o campo no Monte de Prado, e também para equipamento desportivo. E o jornalista remata dizendo-se também do Sport Clube Melgacense. Mas é erro. Seria o Sport Clube Melgacense que voltava à vida. Sem dúvida que tem mais de sete como os gatos.

    Em Junho já se joga, em Espanha, onde o Sport empata. São frequentes os jogos, que o jornal relata, e em Julho no Monte de Prado o jogo com os espanhóis meteu invasão e tudo! Eram quentinhos os jogos por esta altura. Segue então o futebol em Melgaço, tendo sempre como embaixador principal, e desde os anos 20, o Sport Clube Melgacense. Na história consta 1925 como ano de nascimento. Nunca seria filiado até aos anos 70, e seria também então que se tornaria oficial, ao legalizar-se, mas a sua vivência é um facto, mesmo com alguns períodos de inactividade. Hoje, está perto dos 100 anos!

    Mas neste percurso de futebóis, vão aparecendo algumas equipas, dedicadas também ao jogo, mas todas não filiadas, e portanto sem actividade regular. Mas foram períodos de diversidade, e alguns até com várias equipas em simultâneo. Os anos finais de 40 foram disso exemplo.

    Mas fica aqui ainda uma citação aos palcos de jogo. Desde sempre se jogou no Monte de Prado. Hoje tem até um excelente Centro de Estágios, na vizinhança de um Hotel que lhe serve de apoio. Foi um regresso às origens, para quem fez um desvio de1973 a 2001, que foi o período de utilização do campo municipal Dr. Sidónio Soares de Sousa, que hoje é zona residencial.

 

*Foram elas o Grupo Desportivo de Penso, que jogou a 2ª divisão 1976/77, e que teve na falta de campo uma das razões do seu abandono. Também a União Desportiva de Paderne, velhinha dos anos 50, também tentou o futebol a sério. 1977 e 1978 viu as suas cores agitarem-se nestes palcos do distrito, mas o seu campo, que chegou a começar a construir-se na antiga feira do gado não chegou ao fim, e assim também o futebol a sério morreu. No seu lugar construiu-se um excelente Lar de Repouso.

 

    Fica aqui então, uma abordagem desta realidade futebolística, não sem antes citar o blogue “Foz do Rio Trancoso” (hoje, Melgaço, do Monte à Ribeira) onde se publica uma crónica do Rio de Janeiro, por quem conheceu bem esta realidade. Manuel Félix Igrejas é quem assina a crónica, e outros seus familiares, por certo, também encontrei citados ao longo dos anos em que “viajei” por Melgaço, no comboio dos seus jornais.

 

Retirado de:

 

Futebol Saudade

 

http://futebolsaudade-vitor.blogspot.pt

 

MELGAÇO 1993

01.06.13, melgaçodomonteàribeira

 

 

    Com « Melgaço – de ontem e de hoje », completo a publicação de três documentos monográficos sobre o distrito de Viana do Castelo – o primeiro, foi dedicado ao concelho de Monção, o segundo, ao de Valença. Por fim, coube a vez ao concelho de Melgaço.

    Estas obras foram possíveis, muito particularmente as duas últimas – Valença e Melgaço – graças aos apoios das respectivas autarquias, quer materiais, quer numa colaboração mais estreita quanto ao conteúdo. Sem esse apoio, dificilmente as monografias poderiam conhecer a luz do dia.

    Por tudo isso, agradeço – na pessoa do presidente Rui Solheiro – à Câmara Municipal de Melgaço, a forma como apoiou a publicação deste trabalho.

    Ao longo da elaboração de « Melgaço – de ontem e de hoje » – outras pessoas e entidades prestaram a sua colaboração. E, no conjunto dos apoios recebidos, devo destacar, por imperativo de justiça, outras pessoas e serviços:

    – Adolfo Marques Rocha a quem fico a dever a esmagadora maioria das fotografias desta obra, muito em particular as respeitantes às 17 freguesias do interior do concelho de Melgaço. Trabalho meritório, que exigiu dedicação, conhecimento da região e respeito por Melgaço;

    – Luís do Vale pela troca de impressões sobre alguns aspectos do concelho de Melgaço. Um homem da terra, que bem a conhece e melhor a descreve.

    – Ao Centro de Documentação e Arquivo da RTP/Porto pela cedência de valiosa documentação sobre Melgaço.

    E à COMPOLITO pelo produto final desta obra – a primeira a cores dos trabalhos por mim publicados – de excepcional qualidade, onde se evidencia o alto nível profissional no sector das artes gráficas.

 

 

MELGAÇO – de ontem e de hoje

 

J. Marques Rocha

 

1993