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MELGAÇO, DO MONTE À RIBEIRA

História e narrativas duma terra raiana

MELGAÇO, DO MONTE À RIBEIRA

História e narrativas duma terra raiana

O ENTERRO DO ESTUDANTE V

05.03.13, melgaçodomonteàribeira

 

 

Crise atrás de crise e a cozinha da nossa querida anfitriã voltou a ser o alvo a atacar.

Porta da cozinha fechada, só restava, na sala do nosso descontentamento, uma garrafa, meia, de Porto.

— É nossa, gritou-se.

Quatro e meia garrafa de Porto … dez minutos depois … com cabeça quente, com cabeça fria… alguém lembrou que a garrafa tinha que ir novamente para o lugar dela, mas não podia ir vazia!

— Mija-se dentro.

O Louro, de garrafa na mão, desaparece na casa-de-banho, e quando volta, solenemente coloca a dita no seu devido lugar e todos os outros concordam, sem margem para dúvidas, que o liquido estava no mesmo nível…

Há sempre um artista onde menos se espera …

Hora de jantar foi coisa que nunca existiu naquela casa, a não ser que o Louro ou o Fininho, guitarra eléctrica e viola nas mãos, e se bateria houvesse não ficava esquecida, para lembrar a existência daquelas pobres criaturas de Deus, sempre esfomeadas, à espera de uma côdea há muito paga, sabe-se lá com que sacrifícios paternos.

Diariamente o ritual era cumprido e, com mais ou menos música, cinco minutos depois do início do concerto, dois murros na porta do quarto. Quais trombetas a saudar César! Faziam com que a sala vazia se enchesse de olhos vorazes e estômagos ávidos de todos os ossos e ossinhos, peles e carninha com que teriam de se contentar até ao dia seguinte. A menos que…

É verdade que o jogo está a dar, mas até quando?

Têm aparecido uns clientes para a perna de frango, mas até quando?

 Poderá haver um descuido da D. Maria, no frigorifico, mas até quando?

Chegou o dia em que o despertar musical da cozinheira resultou em silêncio em vez dos ansiados murros na porta.

— Apanhas com os Doors - rosnava o Louro.

— Canto Joplin que ninguém aguenta - atirava o Fininho.

O Padeiro e o Pequeno, que sempre esperaram pelos murros na porta dos outros dois, impelidos pela fomeca de sempre, atiraram-se pelo quarto adentro:

— Mas que m*rda é esta? Não pagámos já o mês? Será que o chulo teve direito a almoço e jantar à custa do que pagámos adiantado?

O barulho era infernal dentro daquele quarto. A música saída do gira-discos, do amplificador da viola, dos estômagos esfomeados, das gargantas feridas pela falta de respeito no cumprimento do horário.

— Pago, quero comer. Vou ver o que se passa - palavras do Fininho.

 

(continua)


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