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MELGAÇO, DO MONTE À RIBEIRA

História e narrativas duma terra raiana

MELGAÇO, DO MONTE À RIBEIRA

História e narrativas duma terra raiana

O ENTERRO DO ESTUDANTE IV

05.03.13, melgaçodomonteàribeira

 

 

Logo começou a lição:

— O dinheiro está no bolso dos outros. Os outros querem o nosso dinheiro. Nós temos que ganhar para ficar com o dinheiro dos outros.

O professor sabia do assunto, os alunos eram aplicados e não demorou nada que, num conceituado restaurante da cidade, à uma hora da manhã, cinco senhores, rapazes da aldeia, encomendassem o seu bife, bebessem a sua caneca de cerveja, gorjeta ao empregado e toca a ir dormir porque a cidade não dá para mais e a nota está a chegar ao fim.

Depressa o Bicho passou de professor a mais um dentro do grupo e, também os resultados do jogo diminuíram. Menos restaurante, mais tasca; troca-se a ceia, pela coxa de frango e tigela de tinto no Bar Januário da Rua de S. Marcos, como complemento da dieta imposta pela D. Maria.

A fartura, tal como diz o nosso povo, geralmente dá em fome. E, para quem pagava para comer, qual janela, qual porta fechada, para chegar ao objectivo, ou seja, ao frigorifico da D. Maria, toda a arma servia.

Grupo reunido, depois de três ou quatro noites em que a jogatina mal dava para cigarros, comprados avulso, e às tigelas nem tínhamos acesso, decidimos que quem paga come e esperar pelo dia seguinte era mais uma noite de barriga vazia.

Democraticamente foi decidido que no dia X,o mais cedo possivel, depois de encontrada a hora do ataque, era irreversível o assalto final à casa forte da megera que nos chupava até ao tutano. 

Chegar a casa, depois das voltas na cidade, entrar e devorar tudo o que estivesse à mão de semear e logo se veria, porque o outro dia até é outro dia, com mais problemas para resolver, com mais cigarros para fumar, tigelas e cervejas para beber.

Nessa noite todos pensámos no estômago cheio de nada e nos petiscos da D. Maria para o magarefe. Qual ataque de D. Nuno! Acabar com o mouro na primeira investida era a táctica a seguir.

Abre-se a porta, saco de fruta no fim e no frigorífico … nada!

Até amanhã que hoje não temos nada.

Foi como limpar o cu a meninos, não fosse o Padeiro lembrar-se que a carne que estava congelada dava uns óptimos bifes. Realmente, acalmar um físico daqueles era trabalho, não para quatro, antes para um regimento.

Claro está que a operação não passou despercebida e D. Maria pensou “casa roubada, trancas à porta”.

O jogo foi dando umas notas. Os pregos no prato às duas da manhã, umas moelas no snack-bar e, por vezes, umas coxas de frango e tigelas a acompanhar, equilibravam o edifício em ruínas que era a relação entre as refeições em casa e aquelas quatro barrigas na flor da idade ávidas de mantença, mas nem sempre o “amigo” estava disposto a colaborar.

 

(continua)


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