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MELGAÇO, DO MONTE À RIBEIRA

História e narrativas duma terra raiana

MELGAÇO, DO MONTE À RIBEIRA

História e narrativas duma terra raiana

BANDA DE MUSICA DOS B V M

melgaçodomonteàribeira, 05.03.13

 

 

Pois, foi ainda à sombra dos lauréis daquele acontecimento glorioso para os Bombeiros de Melgaço ocorrido seis anos antes, que a corporação melgacense se apresentou na Convenção na Vila de Valença. Era um domingo frio e chuvoso, clareava o dia. Os briosos Bombeiros vinham chegando impecavelmente vestidos com seu fardamento de cotim cinzento, bem lavado e passado, o dolman apertado até ao pescoço com botões de metal dourado, sapatos pretos engraxados. No quartel apanhavam os cinturões com as machadinhas, e o capacete. Como eram bonitos aqueles capacetes de metal dourado, reluzentes, com o emblema da corporação encimado por uma águia também em metal sobreposto na frente. Do capacete descia um cordão vermelho de veludo que ia até ao cinturão. Também da platina do ombro até ao bolso do peito pendia um cordão vermelho em curva sobre o peito, e para completar a gala do fardamento luvas brancas. Que maravilha! A Banda de música com a mesma galhardia no vestir, em vez de capacetes usavam bonés. Foram em duas camionetes da carreira. Naquela época ainda não tinham o famoso carro da bomba, jóia de artesanato, por eles construído em cima do chassis do Buick modelo 1928, que o Simão Araújo doara; mas isso é outra história.

Na caravana para Valença, o Manelzinho do Augusto do Félix também foi. Disseram que era o mascote, o Lucas, o cunhado, era um dos comandantes e o Gú, o irmão, era um dos briosos bombeiros. O mascote deu-se mal na viagem; como sempre acontecia quando para mais longe ia de carro. Enjoou e vomitou várias vezes. Chegados a Valença, o Manel para se refazer das agruras da viagem ficou na casa da irmã Graziela, só à noite foi ao concerto musical. Ficou o dia todo brincando com o Manel da Graziela, quase da mesma idade, filho adoptivo e por isso sobrinho postiço do Manelzinho. Também… choveu o dia todo. A Graziela morava já algum tempo em Valença, talvez desde o casamento. Sendo uma vila de fronteira com ponte internacional de carros e caminho de ferro, era intenso o tráfego entre Valençe e Tui, Vigo e outras cidades da Galiza. A Espanha estava numa fase de “vacas gordas”. O Sabariz, marido da Graziela, era o chofer e havia convencido o sogro, o Augusto do Félix, a conseguir dinheiro emprestado para comprar um automóvel que ele iria explorar na praça de Valença que era a mina de ouro da época argumentava. O dinheiro ganho nos fretes iria saldar as parcelas e ainda sobraria muito. Sogro apenas seria o fiador. E assim foi! Não sendo abastado e não tendo outros rendimentos que os do seu trabalho de alfaiate, apenas a sua comprovada honorabilidade lhe bastou para conseguir vinte contos a altos juros, do Zé Borne, um dos pioneiros emigrantes na França.

Comprou o Sabariz um Pontiac, novo em folha o mais moderno modelo dos automóveis americanos que existiam e foi radicar-se em Valença. As agonias que o Augusto do Félix passou para pagar as letras do empréstimo, não vêm ao caso, basta dizer que por ter de adiar as parcelas principais, só de juros pagou o dobro do empréstimo. Deixa para lá!... Mas Valença era toda festa naquele domingo chuvoso. Os Bombeiros de Melgaço no desfile e não sei mais o que, não fizeram lá grande figura, mas a Banda de Música, sim senhores, que figuraça. O Mestre Morais não abria mão da disciplina, militar que fora, fazia questão que fosse cumprida nos mínimos detalhes, além da capacidade musical que transmitia aos executantes, autênticos virtuosos. O Mestre Morais além de emérito regente e disciplinador, entre vários instrumentos tocava violino.

Pois a Banda Musical dos Bombeiros Voluntários de Melgaço, não obstante o mau tempo, à hora marcada, iniciou o desfile atacando um dos seus famosos ordinários. Fizesse calorão ou chovesse picaretas, na hora estipulada fazia-se presente, já fora assim em Braga, noutra memorável participação. À noite, no salão de espectáculos, a Música de Melgaço demonstrou toda a sua classe erudita. Mimoseou a plateia numerosa com um magistral concerto sinfónico onde incluiu a suite do 1812. Essa performance do Mestre Morais e seus pupilos foi aplaudida e comentada nos jornais da região.

O povo de Melgaço mais uma vez ficou orgulhoso e feliz. O tema das conversas durante muito tempo passou a ser a Banda de Música e de uma maneira tão apaixonada que em alguns sujeitos virou fanatismo, como o Flórido que sempre que se emborrachava, e isso acontecia todo o fim de semana, desandava a cantarolar as árias, ordinários, valsas e todo o repertório da Música. E a gente miúda, a canalha, participava do delírio musical regionalista reinante.

O Manelzinho trouxera de Valença uma corneta de lata e um tambor comprados em Vigo. Coisa bonita e de verdade, nunca em Melgaço uma criança da classe dele tivera aquilo. A corneta emitia através de uma palheta bonito som que podia ser modulado com os dedos nos buraquinhos. O tambor, com duas batéculas rufava ou marcava o compasso marcial igual aos soldados. Tão valioso era aquele brinquedo que as pessoas da família não deixavam o rapaz levá-los para a rua. Mas um dia o Manel condicionou a sua ida à horta com a mãe a levar os instrumentos. E levou.

 

 

Manuel Félix Igrejas

 

Rio de Janeiro

 

Public. em A Voz de Melgaço