Saltar para: Post [1], Pesquisa e Arquivos [2]

MELGAÇO, DO MONTE À RIBEIRA

História e narrativas duma terra raiana

MELGAÇO, DO MONTE À RIBEIRA

História e narrativas duma terra raiana

O ENTERRO DO ESTUDANTE III

05.03.13, melgaçodomonteàribeira

 

 

Com nota fresca no bolso, cinquenta paus mais uns trocos, porque era o primeiro dia, farejaram-se os locais já velhos conhecidos de tradição na terrinha e descobriu-se, ao fim de grandes voltas, o que passou a ser o nosso El Dourado: Coxa de frango, um pão e duas tigelas de tinto, dez paus. O tinto puxava um tanto ou quanto para o maduro mas não dava direito a reclamações.

O Louro deu o mote logo no dia da apresentação:

— Desculpe, minha senhora, mas eu não como cabelos.

A interpelada, dona e cozinheira da casa, não morreu de apoplexia, mas vermelha como um bom tomate maduro, bufou uma, bufou duas e… a sala estremeceu:

— Agora que comeu é que diz isso?

O Louro, muito calmamente, retirou o cabelo da coxa de frango e retorquiu:

— Desculpe, sou louro. Este cabelo é preto e comprido e todos os meus colegas usam cabelo curto.

Chegou-se a um consenso, veio mais uma coxa de frango para o Louro e tigelas extras para o resto da comitiva e, a partir desse dia, além de amigos, haveria sempre uma tigela amiga, quando cara nova, com dinheiro, nos acompanhasse.

Curtindo uma música e fazendo o primeiro balanço à vida estudantil, na velha cidade, sem os remoques de séculos em cima das costas, logo constatámos que, estudos à parte, tínhamos encontrado uma mina.

Uma mina! Logo no primeiro dia! Só faltava era dinheiro para a explorar. Dinheiro, dinheiro! Sempre a palavra mágica. E onde estava o dinheiro? No bolso dos outros, é claro! O problema era lá chegar. Chegar como chegam os outros, cara levantada e sem receio de mostrar o que temos, porque filhos de gente honrada somos nós.

No fim da semana, com lutas civis pelo meio, tesos e dependentes da morte lenta ou holocausto que eram as refeições da D. Maria, esfomeados até à última, apareceu, enfim, o anjo negro da sorte. Filho da cidade, mas agarrado à terrinha quanto baste, porque nove meses sempre deram lugar a mais um, o Bicho aparece em cena com o melhor dos cenários:    - Meus amigos, eu sou o melhor encenador p´ra peça que querem pôr em cena.

Com muitas horas roubadas aos estudos, dias e dias a fio, ficámos a saber como se joga à “lerpa”, se esfolam cabritos na cidade e os novos-ricos, cheios de pesetas do seu trabalho diário, no contrabando na terrinha. Uns patinhos mamados por putos!

O primeiro problema do Bicho prendia-se com o lugar para dormir. Lógico, será dizer, que entre o Louro e o Fininho desabou grande tempestade, como se não se soubesse de antemão que uma das camas seria para o Bicho! Era o único quarto independente da casa e o Bicho casado de fresco!

 

(continua)