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MELGAÇO, DO MONTE À RIBEIRA

História e narrativas duma terra raiana

MELGAÇO, DO MONTE À RIBEIRA

História e narrativas duma terra raiana

O ENTERRO DO ESTUDANTE II

05.03.13, melgaçodomonteàribeira

 

 

Como eles se encontraram não sei. A intuição de que tanto se fala agora era por mim desconhecida na altura, mas reza a história que a páginas tantas estavam juntos, quais três mosqueteiros, num 1º.andar que não faz parte da memória da cidade, porque poucos conheceram a verdade nua, dura e cega dos dramas vividos nesse recanto citadino, administrado pela Sr.ª. Maria.

A casa estava situada na parte nobre da cidade, empedrado à nossa moda, com bons passeios para garantir chegada certa a casa em noite mais agitada, etílicamente falando, obelisco no meio que, de tão importante, não deixou recordação e o quartel da polícia mesmo ao lado.

Ah, que saudades da D. Maria!

Glória a vós que morreis de fome para a D. Maria encher um poucochinho mais!

Eram 120 kg devidamente distribuídos por pescoço, mamas, braços e pernas. O resto, se existia, desaparecia naquela confusão de banhas. Mãos e pés foram coisa que nunca se viu. A eterna bata azul e branca aos quadradinhos, o amante, magarefe de profissão, que só aparecia em público às quartas-feiras para comer o almoço. Se não assustavam criancinhas pelo menos impunham muito respeito. E no meio de tudo isto havia a filha!

A filha, a filha …! Mocetona de dezassete ou dezoito anos que só foi vista três ou quatro vezes. Porquê? Quem poderá saber? Eu não, que não sou adivinho.

A verdade é que nunca vi quatro tigres tão sossegados em frente de uma fêmea, sem rosnar entre eles ou olhares de lado.

Ela de tímida deveria ter pouco, se pensarmos nos olhares furtivos que por todos dividia; mas o peso materno, conjugado com a carranca do magarefe não devia ser alheios ao seu comportamento.

Para o Fininho e o Louro ficarem no mesmo quarto bastou um olhar. As reguadas na Escola Primária, uvas tão apetecidas no campo do vizinho, maçãs de comer e chorar por mais, até as cenouras do prior vieram à baila nesse instante. Era toda a amizade duma vida, o que aquele olhar encerrava. Novos velhos no meio da turba estudantil.

A D. Maria tinha reservado dois divãs e um guarda-fatos, mais uma arca, da qual desconhecíamos o conteúdo por estar sempre fechada, para os nossos aposentos. Colocar em sítio estratégico o amplificador e a guitarra eléctrica, o gira-discos à mão de semear, fazer contas à hora do jantar… Para primeiro dia era bom de mais! Porque o quarto era independente do resto da casa!

Fazer contas de cabeça não era difícil, como se lia na cara de cada um, quanto aos projectos futuros em relação à filha da D. Maria.

O Pequeno teve direito a um quarto adequado à sua estatura e o Padeiro teve a mesma sorte, mas para albergar 1,80 m e 90 kg de peso … Só a cama enchia o quarto.

Logo no primeiro jantar os olhares eram chispas, todos a culpar todos pela escolha efectuada. A fome era demais para ser verdade e para acabar com a maldita a única solução era comer fora, porque em cidade de estudante tasca, melhor ou pior, é coisa que não falta.

 

(continua)


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