Saltar para: Post [1], Pesquisa e Arquivos [2]

MELGAÇO, DO MONTE À RIBEIRA

História e narrativas duma terra raiana

MELGAÇO, DO MONTE À RIBEIRA

História e narrativas duma terra raiana

O ENTERRO DO ESTUDANTE I

05.03.13, melgaçodomonteàribeira

 

Arco da Porta Nova - Braga

 

 

De repente a cidade começou a encher. Não da mesma forma que as moças da minha terra, uns meses depois da apanha do milho, mas tal qual um furacão que leva à frente o que nos é mais querido e nos enche dos destroços que o seu gozo deixou.

Cinco, dez, quinze mil? Quem sabe … Desde veteranos a caloiros, havia de tudo e se uns pensavam nas praxes de iniciação na escola, outros havia para quem a descoberta de bons tascos, petisquinho a preceito, preço de estudante e cara bonita a servir era fundamental. Estes eram os novos estudantes “velhos” que desde pequenos saborearam a histórica cidade estudantil sem nunca lá terem posto os pés.

Houve, é claro, uma visita colectiva da província, para os papás baterem palmas ao “botinhas” e continuarem a fazer as suas vidas sossegadas; porque o homenzinho não brincava, e os putos a ficarem meio-surdos com as máquinas infernais que desde o tempo dos afonsinos eram prenúncio de desgraça, apesar dos terroristas serem pretos drogados e bêbados e nada mais. Outras houveram que o bom prior levou a cabo e mais não serviram do que aguçar o apetite para quem queria ver tudo menos tanques da primeira guerra e igrejas que não faltavam lá na terrinha.

E a cegada do Primeiro de Dezembro? Quem é que não tinha ouvido as estórias do dia da Independência, em que os próprios cívicos ficavam em casa para a malta poder comemorar?

A cidade era o mundo, para quem tinha saído, não debaixo das saias da mãe mas, do cinto do pai.

E na cidade caíram aqueles quatro, não do Céu, mas da terrinha!

Trocar as voltas aos velhos, GNR, GF ou Guarda Civil, era treta. Estudos eram a profissão, a cidade não poderia sequer ser um desafio. Estava conquistada à partida.

Afinal, os resultados escolares, as célebres notas, só apareciam de três em três meses. Mas, como notas com notas se pagam, havia também as que o pai largava para comida, dormida e roupa lavada. E as outras? Se não saíssem da terra também não cairiam das árvores e bolso roto não dava. E se necessário é alimentar o corpo, descurar o espírito é altamente criminoso. Tem que se encontrar o ponto de equilíbrio, ponto de mira como dizem os caçadores. Mas adiante, vamos aos quatro:

— O Fininho que, como o nome indica, além de pele sobre o osso, só tinha orelhas.

— O Pequeno, porque a mãe natureza o dotou de 1,5 m e viv’ó velho.

— O Louro que, apesar de filho da serra e mãe contrabandista, assim nasceu.

— O Padeiro, que outra profissão a seu pai não foi conhecida.

 

(continua)