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MELGAÇO, DO MONTE À RIBEIRA

História e narrativas duma terra raiana

MELGAÇO, DO MONTE À RIBEIRA

História e narrativas duma terra raiana

ASSOCIAÇÃO HUMANITÁRIA DOS BOMBEIROS VOLUNTÁRIOS DE MELGAÇO

melgaçodomonteàribeira, 05.03.13

 

 

Um dia aconteceu uma nova e sensacional brincadeira que tumultuou aquela pacata localidade. Tinha acontecido semanas antes um grande evento que agitara todo o Alto-Minho. Haviam-se reunido em Valença, em convenção, representações das corporações de Bombeiros Voluntários de toda a região. A corporação dos Bombeiros de Melgaço, claro que também esteve presente, e com destaque principalmente pela sua famosíssima Banda de Musica. Os Bombeiros de Melgaço, aliás, Associação Humanitária dos Bombeiros Voluntários de Melgaço, denominação pomposa e bem representativa do carácter daquele povo simples e bondoso, foi fundada em 1927 ou 1929, em condições precárias e material rudimentar, por inspiração do jovem advogado melgacense, Dr. Augusto César Esteves. De quando a ida a Valença tinha o seu quartel instalado no rés-do-chão daquele casarão do Rio do Porto de Cima, na estrada nacional.

Pois os Bombeiros de Melgaço naquela época gozavam de um prestígio jamais alcançado por instituições congéneres na região, quiçá de todo o País. Acontecera do outro lado do Rio Minho, ali na Galiza, bem em frente à Vila de Melgaço o mais trágico e pavoroso acidente de caminho de ferro de que havia noticia.

O comboio expresso “Madrid-Vigo” descarrilou num trecho bem perto do rio que naquela época corria bem cheio e caudaloso. O acidente foi presenciado por muita gente porquanto a passagem daquele expresso era motivo de admiração, pelas suas linhas, alta velocidade e pelo silvo grave do seu apito. Pois, naquela manhã ensolarada, sem mais nem menos, nem saber porquê, o transvia galego saltou dos trilhos, escorregou, barrando abaixo aos trambolhões e parte dele enfiou-se no rio. Quase na mesma hora o sino da Igreja Matriz da Vila de Melgaço tocou a rebate, como sempre fazia quando havia sinistros. Quem primeiro chegasse à Igreja, apanhava na loja do Zé Pequeno, em frente, a chave da porta lateral, que estava ali para isso, e tocavam o sino a rebate com badaladas apressadas e nervosas conclamando os bombeiros e o povo.

Foi assim no dia do descarrilamento. Os elementos acorreram ao quartel para se munirem dos capacetes, cinturões, cordas e machadinhas… naquele dia a Vila ficou vazia. Bombeiros e povo, de cambalhota, Carvalhiças e Mascanho abaixo, em poucos minutos transpuseram a distância coberta de mato e pedregulhos, no mais sensacional corta-mato da história daquela gente. Era pavoroso o espectáculo: homens, mulheres e crianças, passageiros do comboio, debatiam-se, quase em agonia, nas águas do rio, outros presos nas ferragens, imploravam a ajuda Divina como ultimo socorro. A gente de Melgaço, brava, humanitária, desprendida, desdobrava-se em esforços. A nado e em pequenas batelas, atravessaram o rio e sem se importarem com a guarda-fiscal ou os carabineiros que lhes perguntassem pelo salvo-conduto. Foi uma jornada épica!

Aquela mesma gente portuguesa que trezentos anos antes expulsara aqueles mesmos espanhóis que queriam ficar com a sua Vila, agora, desinteressadamente os socorria, impelidos pelo sentimento da solidariedade.

Quando ao fim do dia chegaram os socorros das povoações espanholas, inclusive das grandes cidades, Vigo e Ourense, já os Bombeiros de Melgaço tinham controlado toda a situação. Os feridos mais graves haviam sido encaminhados para as modestas instalações do Hospital da Misericórdia. Bagagens e objectos foram tirados do rio e do meio do mato e entregues a seus donos. Aquele povo humilde, a maior parte dele bastante pobre, nem um só instante pensou em apoderar-se do que quer que fosse. Um cidadão, cambista, pelo que se soube depois, lamuriava-se pela sua grande desgraça: não se importava com os arranhões e escoriações que sofreu, mas com a sua maleta que caíra ao rio, onde estava toda a sua fortuna. No mesmo instante o Zé Breguês procurava o dono da maleta que tirara do fundo do rio, cheia de pesetas e duros de prata. Entregou-a intacta.

Apenas um objecto foi levado como troféu: o relógio do expresso, com o vidro quebrado, a caixa de metal amassada, orgulhosamente exposto na viga principal do tecto do novo quartel, agora nos baixos da Câmara Municipal, com a inscrição: “Recordação do descarrilamento do Expresso Madrid-Vigo, 12 de Outubro de 1930”.

O desempenho dos Bombeiros de Melgaço foi louvado e comentado em todos os jornais de Portugal e Espanha. Aquele povo encheu-se de orgulho, não pelo que fizeram mas porque o mundo tomou consciência que eles existiam. Foi então que o governo de Lisboa atentou que aquela nesga de terra, encravada na Galiza, também era Portugal. Mandaram um instrutor, pessoa competente, ministrar técnicas de salvamento e ataque a sinistros. Mandaram algum material e o povo quotizou-se adquirindo uma grande e pesada bomba, montada sobre rodas de carroça, duas, um cabeçalho de madeira para ser puxado a braços ou por animais, e também por grandes varais que movimentados no ritmo de sobe e desce, provocavam a aspiração da água e a expeliam forte, pelas mangueiras, também tocadas a braços.

Foi um grande orgulho aquele melhoramento que, como reconhecimento e demonstração de fé, baptizaram a bomba, escrevendo em cima da bonita pintura vermelha com frisos pretos e dourados: NOSSA SENHORA DA ORADA, a virgem sua madrinha, padroeira do concelho de Melgaço.

 

Manuel Félix Igrejas

 

Rio de Janeiro

 

Public. em A Voz de Melgaço