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MELGAÇO, DO MONTE À RIBEIRA

História e narrativas duma terra raiana

MELGAÇO, DO MONTE À RIBEIRA

História e narrativas duma terra raiana

TEATRO POPULAR - OS SIMPLES

melgaçodomonteàribeira, 05.03.13

 

 

O cinema continuava a insuflar a imaginação da criançada mais pequena na Vila de Melgaço. Ah, as Cruzadas, que delírio chegou a provocar aquele filme. Veio inflamar o ardor patriótico e guerreiro que era insuflado na escola com a descrição das grandes batalhas e heróis da nacionalidade portuguesa. Não havia rapaz que não tivesse uma espada de pau feita por ele ou por um parente mais velho, alguns tinham até escudos feitos de tampas de tambores de gasolina. Combinaram um grande combate entre as hostes do Rei Ricardo Coração de Leão e do sarraceno Saladino, no terreiro (Praça da Republica). O Manelzinho que frequentava a casa do tio Emiliano, na avenida, e este tinha uma pequena oficina na garagem, com algumas marteladas nos dedos por falta de perícia, o rapaz fez a sua espada e um escudo com a tampa de um latão. O escudo ficou vistoso pois pintou-o de azul com um resto de tinta que encontrou, com uma cruz vermelha no centro. Quando mostrou ao Rogério o material bélico que confeccionara, este ficou seduzido. Ele não tinha produzido nada, apenas arranjara uma grande cana que era a sua lança. Convenceu o primo a desistir de ir á guerra, que era muito pequeno, que talvez o pai achasse ruim e ficasse zangado, que do outro lado tinha o Abílio da Zaulinda e outros matulões que o podiam ferir. Bastante frustrado o Manel emprestou o seu armamento ao primo com a recomendação de não o estragar. Era tudo o que o Rogério queria. O exército dos Cruzados organizou-se na avenida, nas portas da vila e em grande algazarra, pela Rua Direita, marchou em direcção ao terreiro onde o exército dos infiéis estava aguardando.

Quando os exércitos se preparavam para arremeter, um em frente do outro, apareceu o António Reis que já estava de soslaio. Era o zelador municipal incumbido de manter a ordem. Naquele tempo não existia em Melgaço guarda republicana nem polícia, nem faziam falta de tão ordeiro que era o povo, só mesmo a canalha promovia zaragatas. O António Reis, do alto da sua autoridade, desbaratou os dois exércitos ameaçando-os com bolos de palmatória na administração.

O Vasco havia regressado. Depois de uma prolongada temporada na penitenciária do Porto voltou à base e agitou a rapaziada da terra. Pelo que contavam os adultos sofrera prisão por questões ideológicas. Desde moço que tinha tendências socialistas e engajara-se em movimentos de oposição ao Estado Novo. De motorista particular de um médico de Monção tornou-se chaufer de praça naquela mesma vila com um automóvel Morris, igual àqueles que a revista Eva sorteava nas edições do Natal. Foi escalado por seus correligionários a transportar o Paiva Couceiro desde a fronteira espanhola até determinado ponto em Portugal, donde comandaria uma revolução. A polícia estava ao par e abortou a intentona cercando o carro no trajecto. Naquele tempo, quem fosse contra o governo era comunista e foi nessa condição que o Vasco foi preso.

A esposa, a Zinda, e os quatro filhos voltaram para Melgaço onde sobreviveram com a ajuda de parentes. Na penitenciária, sofreu maus-tratos e agressões que lhe abalaram a saúde. Em compensação ilustrou seu intelecto. Conviveu na prisão, com grandes intelectuais, personalidades que sofreram perseguição por seus ideais políticos. Foi grande a cultura que o Vasco adquiriu com conhecimentos nas mais variadas áreas da ciência. Cumprida a pena, de volta à terra, convocou rapazes e raparigas para organizarem um teatro.

Grupo Cénico OS SIMPLES de Melgaço, foi o nome que atribuiu à companhia.

O Pandulho, o Henrique da Duartina, o Carriço, o Ná, o Maneco do Simão, o Fernando da Cortiça, o Carlota, o Hilário da Carqueja, a Maria Guisele, a Judite da Rosa Pires, a Mega do Jacob, a Maria Pita, eram os artistas mais destacados. A canalha miúda empolgou-se com a novidade. Os que contavam até dez anos nunca tiveram conhecimento dum movimento artístico desses, na terra. Os mais espertos conseguiam assistir aos ensaios. Os primeiros espectáculos (dois ou três) compunham-se da comédia Zázá e uma revista musical da autoria do Vasco parodiando os acontecimentos e personagens da terra. Para a revista precisavam de cenários. A única pessoa com suposta capacidade para tal era o Jacob. Foi contratado para executar dois cenários. As folhas de papel dos sacos vazios de cimento, abertas e coladas umas nas outras até à extensão necessária com uma camada de cal e cola por cima, ficaram prontas para receber os desenhos e pinturas. Até este ponto e preparar as tintas (anilinas) o Jacob soube fazer, desenhar e pintar não era com ele.

Teve o expediente de reconhecer a habilidade do rapazinho, o Rogério da Lúcia (era conhecido assim mas era filho da Mariquinhas) com pendores para desenho que seria capaz de realizar a obra com a sua supervisão, e foi! Na primeira infância este artista melgacense que ainda vive e executa suas pinturas em Lisboa, realizou-se como cenógrafo. O sucesso foi grande e a garotada achou de fazer os seus teatros. O João da Felícia arregimentou uma turma lá dentro da vila onde sobressaíam, ele, a Mimi e a Esperança do Cataluna. Na Calçada, o Manel Carrapito também organizou o seu teatro com o Neca Pires, o Pachorrego, a Dinora Vilas, ele, Manel e a sobrinha, a Mia do Lucas. No espectáculo do João da Felícia levado a efeito no salão da casa que o Sr. Hilário tinha na rua da Cadeia, esquina com a rua de Baixo, em frente à casa do tio Ilídio e da casa da Rosa Na beiro (mais tarde esse salão foi a sede do Unidos Futebol Clube; pois o dito espectáculo abriu com a seguinte cena: Mimi do Catalunha, sentada numa cadeira com um livro nas mãos, fingindo ler, enquanto o João, em pé, por trás dela, recitava algo. A cena foi demorada e a Mimi, lê que lê, sem se mexer; lá do meio da plateia o Neca Pires gritou: vira a página do livro! O espectáculo organizado pelo Manel Carrapito foi na alfaiataria do pai dele. Os ingressos, nos dois teatros, foi de dois tostões.

 

Manuel Félix Igrejas

 

Rio de Janeiro

 

Public. em A Voz de Melgaço