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MELGAÇO, DO MONTE À RIBEIRA

História e narrativas duma terra raiana

MELGAÇO, DO MONTE À RIBEIRA

História e narrativas duma terra raiana

A LENDA DO FREI TECLA

07.12.13, melgaçodomonteàribeira

 

Ruínas do convento de Fiães

 

 

UMA LENDA EM “O SÉCULO”

 

 

   Passa O Século por ser um grande jornal orientador da opinião pública e precisamente por a afirmação estar baseada na verdade, não pode nem deve dar guarida nas suas colunas a invencionices destituídas do mais pequeno fundo de veracidade, de mais a mais quando pelo assunto escolhido só podem concorrer pelo descrédito das terras, da religião de Cristo ou de uma família honesta e respeitável. Neste caso está uma das lendas publicadas no seu último Concurso – a lenda do Frei Tecla, que acabam de mostrar-me. Visto merecer correctivo quem tão levianamente a escreveu, já não deixo esta mesa de trabalho sem lhe manifestar, leitores, a minha repulsa. Ora se o Convento da Senhora da Conceição, começado a levantar pelos frades capuchos nos subúrbios da vila e na segunda metade do século XVIII, nunca passou de uma casa pobre e dos pobres, pois inacabada estava a sua própria igreja aquando da extinção dos frades; se durante as invasões francesas nenhuma pessoa de tal gente pisou terras de Melgaço ou o nosso povo fugiu de suas casas – visto está faltar veracidade na encenação teatral do Tecla frade ambicioso, ladrão e assassino. Embora fronteiriço à nossa vila de Caminha se levante o monte galego de Santa Tecla, o Tecla de Melgaço nem foi galego nem foi frade. Foi português e chamou-se António Bernardo Gomes da Cunha. Nasceu na vila, e era filho de Isabel Ventura de Sousa e de António Bernardo Gomes, um dos tabliães do público, judicial e notas, a cujo ofício prestou fiança em Janeiro de 1783.

   Ora em meados desse ano o referido seu filho, António Bernardo, foi nomeado sacristão da Santa Casa local e assim se conservou aí até 1792, ano em que despediu do cargo por « se mudar para o Couto de Fiães com ocupação de professor régio ». Quanto tempo ensinou meninos, não sei; mas no vetusto convento de Santa Maria de Fiães se processaram em 1798 uns pequenos autos para seus pais lhe fazerem o património e dele consta este requerimento

 

« Rev.mo Sr. Vigário Geral

 

   Diz o reverendo António Bernardo Gomes da Cunha, paroquiano deste couto de Santa Maria de Fiães que ele suplicante se acha com licença para exercer as suas ordens, no qual exercício quer continuar; como também quer lhe conceda licença para confessar homens; por nele concorrerem os requisitos necessários – Pede a V. R.ma M R Sr. Vigário Geral se digne conceder-lhe licença para uma e outra coisa.

 

E. R. M. »

 

   Como também se data de Fiães este despacho a deferir: « Concedemos licença ao suplicante para dizer missa e confessar homens, por tempo, digo, enquanto não mandarmos o contrário. Dada em Fiães hoje, 17 de Agosto de 1801 ».

 

Frei João de Sá

                                                           Provisor

 

Ora em 1802 os mesários da Misericórdia local fizeram seu confrade o P.e António Bernardo, mas no concelho outro vestígio dele não se encontra senão em 1810, ano em que aparece a paroquiar a freguesia de Santa Tecla de Basto, a uns dois quilómetros da sede do concelho de Celorico de Basto e, como homem de boas contas, a pagar certa dívida ao capitão mor da vila e termo de Melgaço, feito herdeiro de António Lourenço dos Reis, argentário de Golães e tio da mulher do fidalgo.

   Ora o Tecla visado na tal lenda de O Século está aqui e à vista de todos. E como este clérigo foi um dos padres liberais que em 1837 principiou por comprar a Quinta de Cavaleiros aos frades bernardos de Fiães, e acabou por adquirir nos subúrbios da vila o edifício do Convento dos Capuchos e sua cerca; como foi padre que poucos meses depois saiu de Santa Tecla de Basto e foi mandado pastorear São Paio, a cujo múnus a morte o arrancou a 14 de Fevereiro de 1857, vá dos terceiros franciscanos e seus apaniguados o apanharem morto e o insultarem fazendo……. frade galego, ambicioso, ladrão e assassino – eles que, em vida do padre, nunca lograram êxito nos descabidos manejos de expansão da sua igreja à custa do arrematado ao Estado.

   O seu funeral com a assistência de mais de 33 clérigos de missa e de tudo quanto na terra havia de representável deve bastar ao articulista de O Século para não voltar a babujar ou a enxovalhar a memória deste melgacense, pois de todos bem merece respeito e consideração quem tão honrado foi pelos conterrâneos ao deixar a vida terrena; quem el-rei D. João VI por esta forma distinguiu num alvará de 2 de Outubro de 1818: « que na Santa Igreja Catedral do Porto arme Cavaleiro a António Bernardo Gomes da Cunha, Abade de Santa Tecla de Basto, a quem Mando lançar o Hábito da dita Ordem » e a quem D. Maria II assim tratou numa carta de 22 de Março de 1852:

   « Faço saber que tendo atenção às qualidades e virtudes do abade de São Paio de Melgaço, António Bernardo Gomes da Cunha, Cavaleiro da Ordem de Cristo, e aos bons serviços por ele prestados à Igreja e ao Estado, hei por bem, em remuneração de todos eles, fazer-lhe mercê de o nomear Comendador da mesma Ordem. »

   E fiquemos por aqui, que já basta para lição educativa.

 

Publicado em Notícias de Melgaço de 25/6/1961

 

Obras Completas

Augusto César Esteves

Volume I  tomo 2

Edição Câmara Municipal de Melgaço

2002

pp. 649-651

 

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