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MELGAÇO, DO MONTE À RIBEIRA

História e narrativas duma terra raiana

MELGAÇO, DO MONTE À RIBEIRA

História e narrativas duma terra raiana

AS MULHERES DE VIRTUDES

melgaçodomonteàribeira, 04.03.13

 

 

Ao vento uivante não escapa frincha para entrar e faz redopios dançantes com o fumo de bosta a arder que a urze já acabou há muito! O nevão foi rijo e o comer para os animais não sobeja. Lacrimejante devido ao fumo da lareira onde coze um caldo de farinha e uma folha de couve meia comida pelo gelo, Adelina deita contas à vida.

O Manel está p'ras Franças, esteve na matança e só volta p'ras sementeiras não manda dinheiro há dois meses, dos filhos, do Toino sabe que junta do Nelo já sabe menos. E que falta ela sente naqueles dias passados recolhida no casebre que partilha, pode-se dizer, com as duas vacas da família. Nem uma noticia pelos vizinhos, uma folha escrita que daria ao prior p'ra ler.

Pegou na roca e começou a fiar, uma capa nova que esta já precisa de descanso.

Com a Primavera há que levar o rebenho p'ra branda, onde há pasto e o ar é mais fresco. A mudança não custa que os haveres são poucos.

Mas as preocupações são muitas, de França nem tidas nem achadas, nem o Zé do Ribeiro que trabalha no mesmo cjhantier não sabe nada q'eles se mudaram. Já falara qu'a Ti Zefa dos Poldros e a unica coisa que ela lhe deu foi p'ras dores de barriga cada vez mais fortes:

— Toma duas vezes por dia q'isso passa, são só nervos.

Adelina nota que à sua passagem se sussurra e ai coitadinha... ao fim da missa é assaltada pelo molherio sedento de mexericos.

Tem é qu'ir á bruxa... coitadinha tanto tempo sem notícias... o melhor é ir á bruxa... as terras p'ra trabalhar... á bruxa...

O sono no catre de madeira foi agitado... a bruxa... a bruxa... Levantou-se ainda madrugada, acendeu o lume e foi olhar-se no espelho. E s'ele tiver outra? Comeu uma côdea de pão e pôs-se a caminho da casa da Ti Zefa.

— Entra mulher que parece que viste o demónio!

— Antes visse... Ó Ti Zefa, e s'ele tem outra na França e os filhos num querem dizer?

 — E como queres tu qu'eu saiba mulher de Deus, eu curo males num sou adbinha! Vai á bruxa se queres saber.

Adelina não tarda a saber que há um taxista na vila que a leva direitinha á bruxa mas primeiro há que passar no banco que a bruxa é na Galiza. Com dinheiro na saca vai direita ao Fifi por informação do homem do banco, e convidada a entrar senta-se atrás e diz ao que vai.

— Á bruxa á Galiza?...

— Tenho com que pagar se é esse o problema.

— Não, não, é que é um bocado tarde e já não a encontro em casa, tenho que a procurar...                 

E assim começou uma amena cavaqueira onde Adelina desafiou os seus temores, identificação esperanças e outras coisas que a conversa proporciona. E o Fifi que já tinha levado a mulher do capador da aldeia ao lado da dela e ficou fina...

— Se ficou... quem a viu toda tolhidinha...

— Olhe, senhora Adelina, vamos parar aqui a comer qualquer coisa que já são horas.

Taberna modesta mas de bons cheiros, Fifi sentou Adelina numa mesa do canto mais afastado e foi encomendar o jantar - já sou conhecido! Quando Fifi voltou trazia atrás a empregada com pratos fumegantes.

— Bá a comer todo qu'inda ai mais.

E Fifi atirou-se a um cozido galego como se fora a sua ultima refeição. Adelina de olhos baixos mal tocava na comida apesar dos incentivos do Fifi.

— Coma senhora Adelina, qu'eu inda num trouxe ninguem que num fosse curado p'ra casa.

Meia hora depois Fifi pára o carro na berma da estrada e desaparece por um carreiro coberto por uma latada de uvas. Adelina torce o lenço e reza, funga, pensa nos seus e na vida que a espera se ficar só.Tempo infinito quando Fifi regressa.

— A canalha foi chamá-la, anda a sachar milho, já não demora. Senhora Adelina acalme-se, são só uns minutos.

— Ai senhor Fifi é esta alição que não me larga... apertasse-me o coração...

— Num se aflija, Dona Maruxa aí vem.

Sem uma palavra seguiram em fila até uma poprta que já fora azul, encravada no meio de grossas pedras. Fifi despede-se com um até logo, fico no carro e enquanto elas entram contornou a casa e abriu a porta da adega..

Adelina entrou numa saleta pequena com uma mesa ao centro e duas cadeiras. Num canto um altar com Cristo crucificado, outros santos menores e cartões, cartas e outros papéis. Dona Maruxa sdentando-se e fazendo sinal a Adelina para fazer o mesmo, apontou o altar.

— São Graças recebidas.

E de seguida passou a uma lengalenga, com Sinal da Cruz e outras bençãos. Quando parou, pegou nas mãos de Idalina, benzeu-as e recomeçou a ladainha. Começou a falar, sempre com o olhar longe da visitante a cabeça a rodar e um ar que Adelina nunca tinha visto. E começou a falar... e Adelina ouvia de boca aberta aquela mulher a relatar todos os seus problemas... até os de França.

— Tens alguma coisa contigo que seja dele que me possas deixar?

— Num senhora, só este fio qu'era da mai dele...

— Num serve porque já foi usado por ti, tena que em trazer uma coisa só dele. Mas tem fé em Nosso Senhor que eu vou rezar por ti.

Fifi, com três tigelas no buxo dormitava sentado ao volante quando Adelina chegou. Sentou-se no banco de trás, hirta, olhos lacrimejantes.

— Atão – perguntou Fifi

— Temos que cá voltar.

— E quando, Dona Maruxa, não disse?

— Voltamos amanhã.

Fifi conduz com cautela que as estradas são más e vai divagando sobre isto e aquilo até Dona Maruxa. Que a vai ajudar isso garante ele, e...

— Ela levou-lhe dinheiro?

— Num senhor, até quis deixar o fio q'era da mai do Manel e ela num quis...

— É uma santa mulher... podia estar rica se quisesse...

A viagem continuou até perto da casa de Adelina.

— Ficamos aqui. Canto é?

— Um conto de reis... e amanhã?

— Ás sete que tenho que tratar do gado. Até manhã se Deus quiser.

— Até manhã.

Fifi assobia enquanto desce a estrada da serra em direcção á vila. Um conto, amanhã outro e sem precisar de ter pressa em fazer o telefonema para Dona Maruxa saber os males que atormentam as clientes, pode bem ir beber uma tigela ao Biqueira que o dia está ganho.

Adelina começou a rebuscar a rebuscar a roupa que Manel deixou, era tudo farrapos, até que encontrou o lenço bordado que ela lhe tinha oferecido quando ele a pediu em namoro. Só ele o tocou depois que ela lho metera no bolso da samarra já lá vão tantos anos. Sorriu contente consigo própria, a salvação estava ali. Ainda cantarolava quando foi tratar dio gado. A névoa levantava quando Fifi buzinou. Não foi preciso segunda que Adelina sorridente já afria a porta a seu lado. Os bons dias foram dados com um:

— Sim senhora, o que Dona Maruxa fez num sei mas que está com melhor cara lá isso está.

— Sinto-me melhor sim senhora senhor Fifi, olhe qu'á muito tempo qu'eu num dormia tam bem.

E a viagem decorreu já numa conversa mais aberta de quase vizinhos, nem pararam para matar o bicho. Com o aproximar da fronteira Adelina começou a ficar murcha, as certezas a tornarem-se mais fracas. Quando o carro parou junto ao carreiro, Adelina saltou lesta e dirigiu-se para a porta de Dona Maruxa que se abriu ainda ela não tinha batido.

— Buenas filha mia, anda, anda...

A saleta estava envolta num fumo suave, as velas no altar estavam acesas. Adelina pousou o lenço sobre a mesa mesmo antes que Dona Maruxa falasse. Olheram-se nos olhos e Dona Maruxa benzeu o lenço e começou a ladainha da véspera. Uma corrente de ar sacudiu a chama das velas e Dona Maruxa benzeu Adelina.

— Que o senhor te proteja fillha mia que em breve terás novas do teu homem.

Adelina levantou-se, corada, boca entreaberta, sem conseguir dizer palavra.

— Quando saíres deixa qualquer coisa no vaso á entrada, servirá para quem nada tem.

Á vista de notas de mil pesetas, separou cuidadosamente cinco notas de conto de réis que deixou escapar entre os dedos com um sorriso. O Manel e os rapazes estão bem e logo darão noticias. A viagem de volta foi num instantinho que decorreu, mesmo com a paragem em duas tabernas, uma galega a outra portuguesa para Fifi dar um recado.

Quando se levantou de manhãzinha para começar a tratar do gado Adelina soprava para afastar o ar gelado e cantarolava... e cantarolava ainda quando se enrroscou nas mantas junto ao borralho. Dias passaram... até que a Bia da Micas da mercearia apareceu afogueada – até parece que foges do Demo – e lhe entregou uma carta, uma carta com aqueles selos que ela conhecia tão bem! Abraçou e beijou Bia quase até ao sufoco e largou a correr p'ra casa do padre.

— Senhor Prior... senhor Prior... é carta senhor Prior!

Com os gritos de Adelina o padre Timóteo pousa o breviário e abre a porta da rua:

— Que se passa mulher, estás possessa? que gritaria é esta?

— Carta... carta senhor Prior e do meu Manel, eu sei, eu sei...

— Ora vamos lá ver... é do Manuel sim senhor...

— E que diz ele? os rapazes?

— Deixa-me ler porra, tem paciência que quem escreveu não escreve melhor qu'o Manuel nem os rapazes que tu teimaste que não podiam ir á escola p'ra tratar do gado...

— Que diz ele?

— Olha, estão a trabalhar noutro sitio e eles são os unicos portugueses, os outros são todos algerianos ou marrocans e só agora arranjou quem escrevesse. Já foi pôr o dinheiro que poupou na banca e espera que tu e os animais estejam bem. Os rapazes mandam-te abraços e ainda te vem dar uma mão nas sementeiras. Se demorar a escrever é porque continuam sózinhos no meio dos arabes.

As lágrimas corriam pela face de Idalina que agarrada á mão do padre a enchia de beijos. E por dentro gritava:

— Obrigada Dona Maruxa.

 

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