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MELGAÇO, DO MONTE À RIBEIRA

História e narrativas duma terra raiana

MELGAÇO, DO MONTE À RIBEIRA

História e narrativas duma terra raiana

REVOLTA MARIA DA FONTE EM MELGAÇO

melgaçodomonteàribeira, 09.11.13

 

Melgaço, anos 80

 

ASSÉDIO À PRAÇA DE MELGAÇO

 

«A culpa é do Costa Cabral!» – gritavam todos. Até certo ponto foi. António Bernardo da Costa Cabral (1803-1889) fora nomeado ministro do reino pela rainha D. Maria II e quis mostrar obra. Então, faz publicar o novo Código Administrativo, em 1842-1843. O Parlamento, também ele entusiasmado com essa dinâmica, aprova três leis que o ministro tenta pôr em prática: a lei da saúde (proibia os enterramentos dentro da igreja); a lei da contribuição da repartição (obrigava à declaração dos haveres e dos rendimentos de cada pessoa); e finalmente a lei das estradas (impunha aos homens válidos quatro dias de trabalho anuais gratuitos). Os seus inimigos, sobretudo os adeptos de D. Miguel, exilado desde 1834, aproveitaram estas três leis, impopulares, para derrubarem o governo. Em Março de 1846, em Fonte Arcada, Póvoa do Lanhoso, os populares não deixaram que se enterrasse um cadáver no adro da igreja. Começou a revolução chamada de Maria da Fonte. Melgaço não ficou imune aos acontecimentos. Existem poucos documentos sobre o caso, mas sabe-se que o assédio teve a ver com o enterramento dos defuntos fora das igrejas. Até finais do séc. XIX os aldeões, e até os moradores das vilas pequenas, pensavam que sepultar os mortos fora do lugar sagrado era o mesmo que enviar a alma do defunto para o inferno. Por cauda disso o país esteve a ferro e fogo durante décadas. Quase todas as freguesias de Melgaço reagiram mal às leis que permitiam a criação de cemitérios. Em1846 a luta do povo melgacense ultrapassou o âmbito da freguesia: os habitantes uniram-se, provavelmente chefiados pelos miguelistas, e tentaram invadir a Vila. O objectivo seria destruir toda a papelada das repartições públicas e exigir o fim dessa lei. Penso que não teriam armas de fogo. Não sei quantos atacantes morreram, ou ficaram feridos, só sei que Domingos Gonçalves, casado com Marinha Carriça, da Varziela, Castro Laboreiro, foi abatido pelos defensores da praça a 29/4/1846, e sepultado na igreja de Fiães.

 

 Retirado de: Dicionário Enciclopédico de Melgaço

                      Volume II

                      Autor: Joaquim A. Rocha

                      Edição do autor

                      2010

                      pp. 33-34


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