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MELGAÇO, DO MONTE À RIBEIRA

História e narrativas duma terra raiana

MELGAÇO, DO MONTE À RIBEIRA

História e narrativas duma terra raiana

MÁRIO

melgaçodomonteàribeira, 02.11.13

 

 

ALDOMAR RODRIGUES SOARES

(MÁRIO)

 

 

Aldomar Rodrigues Soares nasceu em 10 de Setembro de 1913, filho de Luís Cândido Soares e de Emília dos Prazeres. Ele o registou em «A voz de Melgaço» de 15 de Setembro de 1953 com esta singeleza jornalística:

 

«Evidentemente para os meus pacientes leitores o primeiro dos títulos desta carta pouco ou nada poderá dizer. Para mim, porém, ele diz muito, diz tudo; porquanto foi em 10 de Setembro de 1913, que, pelas 3 horas, no lugar de Cerdedo, desta freguesia, numa casa de morada que ora pertence à s.ra Rosalina Cândido Ribeiro, eu vi a luz pela vez primeira».

 

As primeiras letras aprendeu-as na escola do Pombal com o prof. José Caetano Gomes, transitando, em seguida, para a escola da Vila, regida pela professora D. Ana Cândida de Magalhães Barros, e desta para a escola de Rouças, do Prof. Rodolfo Augusto Esteves, que o propôs a exame de instrução primária em1925. Apar com o ensino oficial, recebeu ensino particular, ministrado por Agostinho Fernandes de Barros.

Em Janeiro de 1930 emigrou para a vizinha Galiza e, no mesmo ano, em 8 de Agosto emigrou para a França, fixando-se em Toulouse.

Em 5 de Agosto de 1935 regressa a Portugal. A permanência no estrangeiro facultou-lhe o conhecimento das línguas espanhola e francesa.

Já, de novo, em Portugal, e antes do Serviço Militar, estava em Lisboa, tendo completado o 2º ano e fez o curso de inglês.

Curiosa esta nota musical: em 1928 e 1929 foi discípulo do Mestre Manuel Rodrigo de Morais, o grande artista que, como regente da Banda dos Bombeiros Voluntários de Melgaço, levou o nome da sua terra e o fulgor da arte a muitas vilas e cidades do país.

Em chegando a idade do Serviço Militar, assentou praça na Escola Prática de Engenharia, em Tancos, em 3 de Março de 1936, tendo feito vários cursos. Passando à disponibilidade, alistou-se na PSP de Lisboa em 4 de Fevereiro de 1941, e foi colocado em Alcântara como intérprete.

Em 16 de Dezembro de 1946 doença grave feriu-o e, tão grave, que lhe causou surdez total e paralisia do flanco direito.

Não obstante os tratamentos efectuados em hospitais abalizados como Curry Cabral (Rego) e o dos Capuchos não recuperou.

Em 7 de Julho de 1947 foi demitido da PSP sem qualquer garantia financeira, não obstante os 3 anos de serviço militar e 5 de actividade naquela Corporação.

Regressou a Melgaço, sua terra natal, onde, felizmente, os muitos amigos o ajudaram a viver e a sofrer as agruras de que fora vítima involuntária.

Casou com Aurora Augusta Domingues em 25 de Novembro de 1943 na cidade de Lisboa, e do casal houve dois filhos: Carlos Alberto Doares e Maria Luísa Domingues Soares.

Faleceu em 7 de Setembro de 1962 na sua residência de Prado.

A vida de Aldomar Rodrigues Soares foi de trabalho, de sofrimento e incertezas.

Observando-a atentamente e em confronto com a obra intelectual que nos legou através de «A Voz de Melgaço» sentimos respeito profundo por esse homem que soube preencher a sua vida com um amor apaixonado à cultura, mormente no que respeita à sua terra natal.

 

Um exemplo:

 

«ZINONA»

 

José Maria Alves, sobrenomeado o «Zinona», filho de João António Alves e de Maria Teresa Lourenço, nasceu, na Vila de Melgaço, em 1871, e aqui casou, em 12-4-1910, com Belmira dos Prazeres Pires, de 38 anos, filha de José Joaquim Pires e de Florinda Vitória Lourenço; portanto, primos co-irmãos, já que ambos eram netos de José Maria Lourenço e de Josefa Antónia Gonçalves.

Tal como seu pai autor dos portões do cemitério municipal e outros trabalhos o «Zinona» foi um serralheiro competente, e o que mais espanta é como ele conseguia fazer obras tão perfeitas e bem acabadas com tão poucas e deficientes ferramentas que possuía…

No mister, ajudava-o seu cunhado Manuel, o «Néné». Este era semi-imbecil, o que o não impedia ou até talvez por isso… de ir todos os anos de abalada a Braga, gozar o S. João. Ia a pedibus calcantibus, comia e pernoitava onde e como podia e de igual modo regressava a penates, para, assim, não encetar o pé-de-meia angariado nos giros da pedincha; e tanto antes da ida como depois do regresso, invariável e frequentemente dizia ele: quem nam bai a Braga nam bê nada!

Apesar da sua semi-imbecilidade, era um filósofo este «Néné»…

Voltando ao nosso «Zizona», este, além de competente artífice, era também um finório. A este propósito, lembro-me muito bem de quando o falecido Simão Luís de Sousa Araújo lhe encomendou os portões para a sua vivenda na Rua Velha, vivenda hoje pertencente a Manuel José Domingues (Mareco). Justaram a obra ao quilo… contrato que ao Simão, à primeira vista, se lhe afigurou ser um verdadeiro negócio da China… Não contou, porém, com a esperteza de Mestre «Zizona», e aqui é que ele havia de ser levado.

Efectivamente, o «Zinona», para a obra em questão, além de empregar ferro da maior bitola que lhe foi possível, ornou-a exuberantemente com aplicações o mais pesadas que pode conseguir; e o resultado foi que uma vez a mesma obra concluída quase não havia em Melgaço balança capaz de a pesar… O Simão, apesar de só ter um olho, achou-a pesada em demasia, mas pagou. Era, pois, um finório Mestre «Zinona»…

Viveu e faleceu na casa que foi sua – o prédio que faz gaveto com a Rua Direita e com o Largo do Município ou Praça do Pelourinho – em 3-4-1941, tendo havido do seu casamento três filhos, dos quais apenas lhe sobreviveu um: a Leonídia. Como, porém, extra-matrimónio, gerou em Lucrécia Augusto da Costa Velho um ranchinho de bastardos, estes lhe tem assegurada posteridade por largos anos…

 

 

P. JÚLIO VAZ APRESENTA: MÁRIO

Autor: P. Júlio Vaz

Edição: autor

1996