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MELGAÇO, DO MONTE À RIBEIRA

História e narrativas duma terra raiana

MELGAÇO, DO MONTE À RIBEIRA

História e narrativas duma terra raiana

ECOS DOS MONTES LABOREIRO

melgaçodomonteàribeira, 19.10.13

 

 

António Domingues, comummente conhecido pela nomeada crasteja Bernardo ou Cordas, nasceu ao abrigo do coto do Outeiro, Castro Laboreiro, em 1938. Aí passou os primeiros anos da sua meninez. Nesses tampos os tectos de colmo serviam de agasalho a toda a vizinhança e a fome era mitigada com o pão negro de centeio e o caldo de couves. Do outro lado da raia sopravam os ventos aziagos da Guerra Civil e os seus jovens pais tiravam proveito de uma loja ou venda, onde afluíam bandos de galegos, que atravessavam a raia do Laboreiro à procura de bens e segurança que escasseavam do outro lado.

Naquele tempo, a população de Castro Laboreiro regista um dos maiores números censitários de sempre. O regime instituído do Estado Novo, aliado à 2ª Grande Guerra e a exploração do volfrâmio ou minério, nas barrocas da Seara, ajudam a fixar os trabalhadores que, antigamente, se espalhavam por Trás-os-Montes e Beiras e estacam a primeira leva de emigração para França. Os refugiados galegos que procuram amparo nas fragas e lapas do Laboreiro, vem engrossar o cômputo da população nativa. Esta mole populacional faz com que nada fique por cultivar; o labor avança pelos montes fora; os fornos estão sempre quentes e em constante azáfama, as eiras e os caminhos enchem-se de gente… as festas, as romarias e os bailes típicos são assaz concorridos e animados, alheios aos tempos conturbados e calamidades que grassam pela Europa fora.

Andava o autor nos seis anos quando se mudou para o lugar da Vila. Depois da primária em Castro e Paderne, seguiu cheio de sonhos para o Seminário da antiga Barcara Augusta, a fim de fazer os estudos para padre. Contrariamente, após o fim da Grande Guerra, a maioria dos seus conterrâneos seguiam em debandada e a salto com destino a França, numa autêntica epopeia. Como seminarista na Roma Portuguesa, demorou sete anos para perceber a falta de vocação. O movimento académico coloca-o em litígio com o regime vigente do Estado Novo e o salto para França foi a solução feliz. Aí, amadureceu e fez-se cidadão dos reinos da terra.

Com a diminuição da vida laboral, o filho da terra, que nunca esqueceu as pessoas, as paisagens inolvidáveis e os rituais comunitários seculares, ou seja, sem nunca perder as feições desses tempos, aproxima-se agora com mais sabedoria e atenção, redescobre-a, e pelo próprio punho faz nascer a obra.

O livro, que hoje publica, torna-se um misto de ficção e realidade, espelha o reino maravilhoso da sua infância e adolescência e um pouco da sua vivência como adulto. Escreve-o duma forma simples, mas empenhada e ao claro do amor que os une ao terrunho que o viu nascer.

Podemos afirmar com toda a certeza que se trata de mais um documento de identidade Crasteja, que se releva no sentir do Autor, e nas tradições populares nele narradas. Identidade que se vai perdendo, porque ninguém, nem nada escapa, nem mesmo as tradições mais seculares, às unhas vorazes do mundo global e à ditadura imperativa, a partir dos centros universais da moda e do socialmente correcto.

Os textos etnográficos e filosóficos apresentados pelo António Bernardo, em suma, são um bom ponto de partida para conhecer melhor a terra que o viu nascer e o seu povo – Castro Laboreiro e os Crastejos.

 

Américo Rodrigues e José Domingues

Núcleo de Estudos e Pesquisa dos Montes Laboreiro

 

www.monteslaboreiro.com

 

 

ECOS DOS MONTES LABOREIRO

 

Autor: António Bernardo

 

Edição: do autor

 

2008