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MELGAÇO, DO MONTE À RIBEIRA

História e narrativas duma terra raiana

MELGAÇO, DO MONTE À RIBEIRA

História e narrativas duma terra raiana

MELGAÇO, GUERRA DA RESTAURAÇÃO 1642

melgaçodomonteàribeira, 07.09.13

 

 

CASA DE SEZIM

 

 

  Ares pesados, a terra sufocada, assombrada aqui e além por relâmpagos. Escaramuças, sortidas, entradas « a parecerem mais de bandoleiros que de soldados ». Gente sem disciplina, sem comando, a rastejar pelas veredas, a fugir com os despojos. Chicotes a zunirem, a estalar nas costas dos mais temerosos, a obrigá-los a combater. Do outro lado da raia, impiedosas mãos de oficiais, tomadas de fúria, estrangulam soldados apavorados a recusarem o combate. Terras da fronteira, aldeias cobertas de colmo e paz, a saque, a arderem inocentes!

   A Guerra. O horror da Guerra. Pior ainda é verem os castelhanos a entrarem, a Pátria mais uma vez a correr perigo. Vamos! Marchemos com a Companhia de Ordenanças de Frei Pedro Cirne de Sousa. Entre os fidalgos vai também o Capitão Dionísio do Amaral Barbosa, já experimentado em vários rebates, filho mais novo de Gregório do Amaral. Avante! Sempre a direito, rumo ao Castelo de Lindoso. Prestes, a cumprir a ordem: juntar-se aos de Braga, entrar pela Galiza.

  Na iminência daquele monte, o inimigo! Avistam-se 200 homens; tem mosquetes, arcabuzes e outras armas. Pelo vale, junto ao Lima, avançam mais 400. Portugueses são só 70. Não se hesita, escala-se o monte. Ataca-se como « leões os peitos descobertos ».

    — « Atirai inimigos, que lá vos imos buscar! Atirai! ».

   A primeira carga. Desbaratam-se as trincheiras castelhanas. No encalço, as forças de Guimarães. Mais um reencontro, continuam a fugir. Vamos! Pela Galiza adentro, a marchar a saquear seis lugares, a espalhar o medo. Nesta entrada « q se fez por Castro Laboreiro foi Dionísio do Amaral dos primeiros que se empenhou com os inimigos e ajudou a por fogo em vários lugares com tão particular valor que se lhe atribuiu grande parte do bom sucesso desta empreza ».

    Duas léguas acima de Melgaço, fica Lamas de Mouro, « terra da Galiza » já tomada pelos portugueses. Para reforçar a defesa: a hoste vimaranense, duas companhias pagas, outros soldados. Queimam o reduto, esperam com balas, pólvora e cordas o adversário que não chega. Agora o objectivo é Padrenda, entre Porto de Cavaleiros e Ponte das Várzeas, bem guarnecida pelo exército castelhano. Entram os portugueses pela Portela do Homem, por Lindoso, avançam de Melgaço. Atacam. Há quem fuja, há quem roube, há quem combata com valentia. Vencemos. Fazem-se prisioneiros. Ardem as vilas de Lobios e Compostela. « Tomam-se assim num só dia nove redutos rompendo ao inimigo dentro dos seus mesmos quartéis e fortificações ». Dionísio do Amaral « cumpre como devia ».

    A desalojar os galegos passa-se em escaramuças o ano de 1642.

 

Retirado de:

Velhas Casas – Casa de Sezim

Maria Adelaide Pereira de Moraes

Guimarães: Arquivo Municipal Alfredo Pimenta

1985

 

www.csarmento.uminho.pt

 

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