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MELGAÇO, DO MONTE À RIBEIRA

História e narrativas duma terra raiana

MELGAÇO, DO MONTE À RIBEIRA

História e narrativas duma terra raiana

LADINA II

melgaçodomonteàribeira, 05.03.13

 

 

Um crime!

Do que eu precisava era dum crime!

E, na minha terra, com uma mulher como a do filme…!

E que acabasse viva, é claro! E eu a desvendar o mistério. Do grande César a grande frustrado foi um passo. Dois, três meses depois … espiolhados os maus e os bons, hereges e beatas, nada. Absolutamente nada. Tudo limpo. Mas desistir nunca. E a glória, o grande dia, o abre-te Sésamo, surgiu:

Dia de festa na vila, o povo desceu a serra e foi desaguar nas ruas tortuosas a que chamam direitas, vestidos a preceito, com grandes samarras, alguns calçados e chapéu na cabeça. Se calhar o negócio de sabão tinha rendido bom dinheiro nessa semana. Não cheiravam a vaca, estrume, porcos e galinhas, a patos, se calhar pareciam faisões, pavões e outros bichos que tais, mais vistosos mas não sei se menos cheirosos …

Encostado a uma esquina da igreja, boné e óculos escuros, orelha arrebitada, logo dei com aqueles dois: velho de sessentas ao lado de uma morena, cabelo negro e viçoso, mamas a gritar ais e uma cinturinha … meu Deus! Nem a roupa grosseira destoava naquele corpo. O velho, bem, o velho baba-se, não sei se da idade, doença ou do calor que vem do lado. Jeito de filha não tem e, de certeza, que não me fogem. Só faltou não aparecer em casa para o almoço, porque nem na tasca, onde manducaram uma bucha, os larguei. No meio da confusão todos os gatos são pardos e ouvir conversa de outros não é difícil: 

— Eu gostava de uma menina, grande e bonita como tu.

— E se for um rapaz, com a força que tu tens? …

Uma boca babada de velho e um olhar de desprezo de rapariga! A escolha está feita. A aldeia não é longe, controlá-los não deve ser difícil. Foi, foi. Foi difícil e molhada! Até que um dia, já de autêntico desespero, atirei uma olhadela mais afoita pela vidraça suja de pó e fumo da candeia e o que vi foi de bradar aos céus. Que maravilha! Podre de boa. Só faltava tirar o saiote, mas eu não despegava os olhos daquelas mamas. Nem as melhores castanhas da terra se pareciam com o tamanho daqueles mamilos. Quando tirou o saiote, então fiquei branco, ia caindo do calhau onde estava empoleirado.

A barriga … a barriga era de trapos! Trapos tão bem enrolados que nem a nossa bola de domingo. O crime! O crime tal qual Caim o deu ao mundo. Ela vai fazer o velho … o velho está feito … - pensei.

Está, está, dias depois no hospital ele e ela de filha nos braços.

— É da idade. Com uma mulher daquelas! Devia era ter juízo … – comentavam.

E eu a correr entre a aldeia e o hospital da vila, onde tinha entrada franca devido ao funcionalismo público familiar, lá fui descobrindo uns trapos queimados no quintal e uma recém-nascida, que visita no hospital não era demorada e, na aldeia, de casa não saía. O velho “esticou”. Mas o crime não estava desvendado.

Logo a força da terra, isto é, das terras, trataram do caso, porque nisto de heranças aparecem de todo o lado com cinquenta razões qual delas a mais forte. Ao fim de umas horas larguei o meu poiso, pois nada me prendia ali.

— Já sei a quem compraste a miúda - berrou um.

— Sim. Nós sabemos que junto ao rio nasceram gémeos e agora falta um. - berrou outra.

— Daqui não levas nada, só porrada e tribunal - ajudou outra voz.

— Ficai com essas leiras de m**** que serão a vossa sepultura, pacóvios; passastes todos estes anos a lamber-lhe o cu para conseguir o que eu fiz em meses.

Ladina falhou-lhes com raiva: – Tacanhos de m**** …

Estas palavras, passado o espanto inicial e o silêncio que em casa se fizera, foram gritadas já ela corria pelo monte fora, que o caminho não era seguro com uma matilha daquelas atrás, e forquilhas e gadanhas não servem só para o amanho da terra.

Não fui eu a desvendar o crime mas não haja dúvida que eles não passavam de tacanhos, interesseiros e só descobriram aquilo que eu já sabia há muito. Fiquei quedo e mudo à espera que a bomba rebentasse, mas o certo é que nunca mais se falou no assunto.

Partilhas e festas … ele já se foi e ela desapareceu.

Pois sim! Desapareceu, mas não da minha cabeça. Não sei se por causa da falsa barriga, se das coxas leitosas ou daquelas mamas. Senhor, que mamas aquelas! De certeza que menino da minha idade, na altura, nunca pôs olho em cima.

E eu ia remoendo entre a memória e o desejo de saber onde encontrá-la. Mulher assim não desaparece de um momento para o outro. Que esteja noutra aldeia tudo bem, mas a mim não me pode fugir. Seria traição. E eu que nunca gostei da Arrenegada nem do Miguel de Vasconcelos aceitar uma coisa dessas nunca!

Mas também foi só dar tempo ao tempo. Uns anos em cima do lombo e eis que nos encontramos. Motivo: um homicídio. Admiração, nenhuma. Pois que outra coisa senão o crime nos poderia juntar?

Uma vez mais apelei ao poder familiar do funcionalismo para saber o que se passava.

— Nada … Não sei …. Está em segredo de justiça …

Grande treta de homens, nem uma abébia … e eu a pensar que tinha amigos em todo o lado, até no tribunal.

 

(continua)


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