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MELGAÇO, DO MONTE À RIBEIRA

História e narrativas duma terra raiana

MELGAÇO, DO MONTE À RIBEIRA

História e narrativas duma terra raiana

LADINA I

melgaçodomonteàribeira, 05.03.13

 

Melgaço

 

 

Ladina!

Se na altura tivesse cabeça para as definir, como hoje, não arranjaria outro termo. Ladina!

E é bonito. Cheira-me a raposa matreira em liberdade … à terra onde nasci …

Mas nesse tempo eu não passava de um ganapo, filho de funcionário público, a quem a curiosidade não matava, mas chegou para me atirar para esta vida de andarilho da qual não me consigo safar.

Apresento-me: um sem eira nem beira, com poiso fixo num terceiro andar, detective de profissão e IRS em dia, come em pé por falta de “croas”, porque a kapital e ou o “capital” é bom para os outros. Profissão destas, sem amigos na “bófia”, não dá. E amigos eu tenho, felizmente nenhum herdado da tropa que não fiz, porque para Angola e em força nunca deu de comer a ninguém. Chamar chuis caceteiros a todos eles era ofensa a alguns a quem aperto os ossos. Amigos nos copos e na profissão.

O não conhecer África e ter o atrevimento de falar de uma terra que não conheci, perdoem-me os que lá se encheram … Aos feridos e estropiados da guerra de certeza que lhes saco um sorriso e àqueles que, roupa só a que a tropa dava e tratar das santas couvinhas era tudo, de certeza que me insultam. - Atão não era o país que estava em causa? Mas voltemos à minha vida de bófia  privado e vadio. Aqui começou a borrasca porque depois da bonança…

De curiosidade de puto a pseudo detective mais tarde, a experiência arranjada por entre milho, couves e vinhas e a corridinha do dia-a-dia na grande cidade, não foi um passo, foi um sonho. Sonho! Maldito, diga-se, que isto de andar dias, semanas e meses atrás de bruta fabiana de trinta e dois anos de idade, 90-55-89, e de quem o senhor director de cinquenta e cinco, barriga proeminente, não só desconfia, mas quer gozar os prazeres proibidos de saber o corno que é, não só gasto solas como atiro com a cabeça para outro lado, ao ponto de não saber se satisfaço o cliente que entra com as “lecas”, ou se é o gozo de descobrir até aonde elas chegam.

E pensar que os descontos para a segurança social ainda vão parar ao bolso de outro parceiro e, na volta, a “massa” paga não chega para os curativos, se a coisa azeda! Bom, foi a vida que escolhi. Será que escolhi? A curiosidade, o meter o bedelho em tudo, o chico esperto da vila, atiraram-me para isto? Verdade seja dita que tudo começou de pequeno.

Andava eu todo vaidoso com botas de cabedal que o velho tinha comprado em dia de festa, boné de flanela e óculos de sol que o avô, músico nas horas livres, latoeiro de profissão, com um manancial de namoradas a quem servia e se servia na pequena oficina, entre pingos de estanho e uns canecos para a próxima vindima, distraidamente esquecera. O meu espírito detectivesco já me tinha levado a coleccionar informações do mais alto valor, desde capoeiras sem guarda, até uvas de mesa a mais de cem metros da casa do caseiro.

No rol das confidenciais tinha, em carteira, a identidade de dois marmanjos que entravam a horas pouco recomendáveis em casa de moças já entradotas e sem namorado conhecido. Sabia a melhor maneira de dar a volta aos matraquilhos sem a patroa desconfiar que a moeda de cinco paus que ía para trocar em moedas de dez tostões era sempre a mesma. Obrigado general que, além de libertares a França, contribuíste para os nossos campeonatos com a “peça” de dois francos. Mas isso não chegava para apaziguar a minha paz de espírito. Queria mais e mais mas não sabia o que havia para descobrir.

O Cinema da terra deu-me a solução. Quinta-feira à noite, acompanhado da mamã, cumpriu-se o ritual: bilhete não se pagava; lugar cativo no balcão central; no écran Hitchcok “amanda-me” com Psico. Se o “Botas” soubesse teria caído da cadeira mais cedo…

 

(continua)