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MELGAÇO, DO MONTE À RIBEIRA

História e narrativas duma terra raiana

MELGAÇO, DO MONTE À RIBEIRA

História e narrativas duma terra raiana

SC MELGACENSE: É HORA DE HONRAR A HISTÓRIA

melgaçodomonteàribeira, 04.06.13

 

 

MELGAÇO E O FUTEBOL

 

 

    Decidi-me a pesquisar o futebol por estas bandas, exactamente por Melgaço ser o concelho mais a norte do País. E também por só 3 das suas equipas – e duas delas não passando as 2 presenças – terem estado no futebol oficial*, em quase 100 anos de competição.

    Mas descobri coisas peculiares. Vou aqui partilhar esse saber, se para tanto me chegar a verve.

    A segunda década do século passado, já nos vai dando notícias do futebol por aqui. Não que houvesse alguma equipa filiada, que isso só iria acontecer em 1973, quando o Melgacense se filiou, teve um campo novo, e passou a jogar nos distritais. Fez até o seu primeiro jogo em Valença, e perdeu por 4 a 2. Jogava-se uma Taça de Preparação.

    Mas isto é o arranque do futebol oficial. E nos anos que antecederam esta data? Não houve futebol?

    Houve, variado e emotivo. Jogava-se então no campo do Monte de Prado, local de baldios requestados (a Igreja e a Autoridade Administrativa discutem a sua gestão). Mas o campo ficava longe, e os jornais locais, reflectindo a opinião generalizada, empenham-se na construção de um novo. Incentivam a Câmara a tomar, e fazem-se planos. Muitos planos. Levantamentos topográficos até, como se relata na Voz ou no Notícias. De Melgaço. Mas o campo nunca se faria. Neste entretanto surgem novos clubes e criam-se algumas rivalidades. Terão sido sadias, pois os jornais não dão conta de atritos.

    Como atrás disse, o primeiro clube a surgir é o Sport Melgacense. 1925 é a data da sua criação. Sem dúvidas, como atesta o Notícias local. Inactivo logo depois de ser criado, eis que ressurge no início dos anos 30. Logo após, teria a companhia do Atlético Melgacense, da União Artística e do Grupo Desportivo Os Leões.

    Mas os tempos eram difíceis, as estradas muito más, e as solicitações para manter os clubes (a sede era nestas alturas local indispensável para juntar os sócios e fazer receita com bailes e bares) depressa levavam à sua inactividade. Foi o que aconteceu logo nos finais da década.

    Haveria de voltar o futebol em meados de 40, e logo com 5 equipas:

    - Sporting de Melgaço, Vitoriosos, Comercial, Rápido e Os Unidos. Foram tempos de muita actividade, e intenso movimento no Monte de Prado, mas voltou a inactividade no princípio dos anos 50.

    Foi o cimento para o novo e definitivo ressurgimento do Sport Clube Melgacense, que ainda hoje passeia as suas cores pelos campos nacionais.

    Mas nos quase 100 anos que o futebol leva por aqui, apenas 3 equipas do concelho estiveram no futebol oficial. E duas delas fizeram-no de forma efémera. Mas vamos começar pelo princípio.

    Foi o precioso auxílio de 2 jornais da terra, o Notícias e A Voz de Melgaço, que nos guiaram nesta viagem pela história. Tudo começa em 1921, quando se começa a publicar o Notícias de Melgaço.

    A edição de 8 de Março de 1925, abre aquilo que parece ser o princípio do futebol por estas bandas. E já era um Sport Clube Melgacense o protagonista. Diz o jornal: “Vão começar as obras do campo destinado ao futebol, no lugar do Arrochal, onde antigamente se faziam as feiras de gado”.

    Nascia o futebol em Melgaço. Pelo menos é isso que o jornal diz, acrescentando ainda que “todo o material necessário, quer para as obras, quer para o jogo, já foi comprado”.

    Embora não se diga onde, logo a 12 de Abril se anuncia que o Melgacense venceu por 5 a 0 o S. Gregório FC. E logo a 16 de Abril se volta a jogar com os mesmos de S. Gregório. Desta vez o resultado foi de 2 a 1.

    Mas já então era no Monte de Prado que se jogava. Di-lo o jornal de 20 de Abril, quando anuncia para esse campo um jogo com os vizinhos espanhóis do Fortuna Arboense. A edição de 3 de Maio desse ano, é um profuso relato do jogo, dos jogadores, dirigentes, e das diligências para aprontar o recinto. Não ficam dúvidas de onde o futebol se fez, e quem o fez.

    Iniciava-se assim uma intensa e apimentada competição com os vizinhos. Isso mesmo ressalta da carta que o SC Valenciano faz publicar no citado jornal. Invocando algumas incidências em jogo anterior, desafia os de Melgaço para um jogo em campo neutro e regulamentar. Em Monção. Mas desafia ainda o Melgacense a filiar-se na Associação de Futebol, e não recorrer a jogadores espanhóis, que foi o que fez, acusam aqueles, no último jogo. Fervia o futebol por aqui!

    Mas o jornal fecha portas em 1926, e só voltaria em 1929. Até 1933 não daria quaisquer novas sobre futebol, pelo que se deduz que este tenha hibernado entretanto.

    Mas haveria de regressar em 1934. Escreve o NM de 6 de Maio que os rapazes do futebol têm em curso uma recolha de dádivas para reparar o campo no Monte de Prado, e também para equipamento desportivo. E o jornalista remata dizendo-se também do Sport Clube Melgacense. Mas é erro. Seria o Sport Clube Melgacense que voltava à vida. Sem dúvida que tem mais de sete como os gatos.

    Em Junho já se joga, em Espanha, onde o Sport empata. São frequentes os jogos, que o jornal relata, e em Julho no Monte de Prado o jogo com os espanhóis meteu invasão e tudo! Eram quentinhos os jogos por esta altura. Segue então o futebol em Melgaço, tendo sempre como embaixador principal, e desde os anos 20, o Sport Clube Melgacense. Na história consta 1925 como ano de nascimento. Nunca seria filiado até aos anos 70, e seria também então que se tornaria oficial, ao legalizar-se, mas a sua vivência é um facto, mesmo com alguns períodos de inactividade. Hoje, está perto dos 100 anos!

    Mas neste percurso de futebóis, vão aparecendo algumas equipas, dedicadas também ao jogo, mas todas não filiadas, e portanto sem actividade regular. Mas foram períodos de diversidade, e alguns até com várias equipas em simultâneo. Os anos finais de 40 foram disso exemplo.

    Mas fica aqui ainda uma citação aos palcos de jogo. Desde sempre se jogou no Monte de Prado. Hoje tem até um excelente Centro de Estágios, na vizinhança de um Hotel que lhe serve de apoio. Foi um regresso às origens, para quem fez um desvio de1973 a 2001, que foi o período de utilização do campo municipal Dr. Sidónio Soares de Sousa, que hoje é zona residencial.

 

*Foram elas o Grupo Desportivo de Penso, que jogou a 2ª divisão 1976/77, e que teve na falta de campo uma das razões do seu abandono. Também a União Desportiva de Paderne, velhinha dos anos 50, também tentou o futebol a sério. 1977 e 1978 viu as suas cores agitarem-se nestes palcos do distrito, mas o seu campo, que chegou a começar a construir-se na antiga feira do gado não chegou ao fim, e assim também o futebol a sério morreu. No seu lugar construiu-se um excelente Lar de Repouso.

 

    Fica aqui então, uma abordagem desta realidade futebolística, não sem antes citar o blogue “Foz do Rio Trancoso” (hoje, Melgaço, do Monte à Ribeira) onde se publica uma crónica do Rio de Janeiro, por quem conheceu bem esta realidade. Manuel Félix Igrejas é quem assina a crónica, e outros seus familiares, por certo, também encontrei citados ao longo dos anos em que “viajei” por Melgaço, no comboio dos seus jornais.

 

Retirado de:

 

Futebol Saudade

 

http://futebolsaudade-vitor.blogspot.pt

 

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