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MELGAÇO, DO MONTE À RIBEIRA

História e narrativas duma terra raiana

MELGAÇO, DO MONTE À RIBEIRA

História e narrativas duma terra raiana

« O AUGUSTO PARTIU DE MELGAÇO E AS RUAS FICARAM DESERTAS… »

melgaçodomonteàribeira, 28.05.13

 

 

AUGUSTO CAÇOLAS

 

 

Filho de Isabel do Nascimento Fernandes. Nasceu na Vila de Melgaço a 16/2/1914, tinha a sua mãe apenas dezasseis anos de idade! Devido a uma grave doença que teve, quando era miúdo, o seu cérebro não evoluiu como o das outras crianças normais. O seu corpo sim: cresceu, e muito – era um latagão! É provável que não tenha frequentado a escola primária. Embora a sua doença não permitisse um diálogo brilhante, uma conversa com princípio, meio e fim, não se pode afirmar que fosse parvo. No entanto, António Eduardo Igrejas, emigrante no Brasil, tinha outra opinião: « … Cerinha e Amadeu Rato, que (…) eram os “moldadores” da mente vazia do Augusto Caçolas. (…) cientificamente, era classificado de “retardado mental”, totalmente incapaz de distinguir emoções: quer boas, quer más. »

(MH 5 de Abril/95). Andava aos recados, os mais simples, e cumpria-os sempre. As pessoas devam-lhe alguma comida, que ele devorava, apesar de em casa não lhe faltar nada. O se estômago era igual ao do leão – insaciável! Nunca ninguém o viu zangado. “Bicas” tomava sempre que alguém lhe pagasse: « Augusto, anda tomar um cafezinho. » « Muito obrigado, bebo, bebo. » A sua mãe, até à sua morte, a 11/3/1984, tratou-o sempre com muito carinho. Tinha outros filhos, do sexo feminino, mas aquele era especial, precisava mais da sua atenção. Era muito engraçado, o Augusto. Quando ia fazer algum recado, a certa distância, por exemplo levar o correio ao colégio da Barronda, em Prado, fingia que punha o motor do automóvel a trabalhar, arrancava em grande velocidade, imitando o barulho do carro, buzinava, as suas mãos pareciam ir ao volante, e depois fazia travagens incríveis! Toda a gente se ria. Dava o recado, sem se esquecer de nada, entregava o que tinha a entregar, e regressava novamente ao “carro”. Uma vez, na ponte do Rio do Porto, um brincalhão, não pensando nas consequências que do acto adviriam, pede-lhe que faça marcha atrás. Augusto, convencido de que era o melhor automobilista do universo, faz a dita marcha atrás e cai da ponte. Chamaram de imediato os bombeiros, que o levaram ao hospital da Misericórdia, onde foi tratado. Por incrível que pareça, passado uns dias já andava a conduzir o seu veículo imaginário. Tinha um vozeirão! Nas procissões de velas a sua voz sobrepunha-se a todas as outras. Escreveu Manuel Igrejas: « Por falar em cantar: quem o fazia muitíssimo bem, com possante voz de barítono, era o Augusto… Era afinado, … ia do barítono ao baixo profundo. » (Ver VM 1009, de 15/6/1994; VM 1010, de 1/7/1994). No dia de Ramos, o seu era o maior – até impressionava! Depois da morte da progenitora foi internado no Lar da Santa Casa, onde faleceu a 18/10/1990. Agora anda no espaço a conduzir os automóveis dos anjinhos. Aquando da sua morte, escreveu Fabiano da Costa: « …era a maior figura típica da nossa terra, onde todas as pessoas o consideravam como homem de bem. » (VM 927 de 1/1/1990). E mais à frente: « Era duma simplicidade ingénua. Quantas vezes perguntava ao sr. Hermenegildo Solheiro, de Galvão, quando é que o piano tinha os pianinhos, para os trazer para casa dele. » Ver também o artigo publicado na VM 928, de 15/11/1990, p. 3: « O Augusto partiu de Melgaço e as ruas ficaram desertas… »

 

Dicionário Enciclopédico de Melgaço II

Joaquim A. Rocha

Edição do autor

2010

Pág. 39

 

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