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MELGAÇO, DO MONTE À RIBEIRA

História e narrativas duma terra raiana

MELGAÇO, DO MONTE À RIBEIRA

História e narrativas duma terra raiana

101 LUGARES PARA TER MEDO EM PORTUGAL

melgaçodomonteàribeira, 29.03.14

 

MELGAÇO TEM MEDO DOS LOBOS

 

 

   Naqueles recuados tempos em que não havia luz em lugar nenhum e o mais pequeno rumorejo da natureza à noite fazia os homens arfar de medo, era também um tempo em que a comida não abundava nem entre os homens nem entre os animais. Por isso, não era estranho que grandes alcateias de lobos descessem às aldeias, à procura de qualquer coisa que lhes enchesse a barriga. As gentes tinham-lhes medo e não raramente contavam histórias à lareira sobre pessoas e rebanhos que tinham sido dramaticamente devorados pelas feras.

   A um desses locais o povo dá o curioso, mas não despropositado, nome de «Botas de Cubalhão». Fica entre as aldeias de Lamas de Mouro e Cubalhão, perto de Melgaço, numa encosta onde não existe mais nada além de uma pequena encruzilhada. Mas conta-se que nessa encruzilhada existe um lobo, capaz de engolir todo e qualquer homem que se aproxime dele pela calada da noite, seja novo ou velho, fraco ou forte. E tudo isto porque o povo se fartou de encontrar naqueles caminhos escuros e inóspitos, botas, sapatos, pedaços de vestuário e até bocados de pés, que deram nome ao lugar e muitos motivos à imaginação.

   Resta contar a história do tio Agostinho, que se diz ter sido o homem mais valente do povoado…

   Há alguns anos, quando se soube que tinham aparecido mais umas botas e uns bocados dilacerados de pernas, o tio Agostinho avançou resoluto com uma solução para o problema: «Desta vez é que é! Vou dar cabo desse maldito lobo de uma vez por todas!»

   Muitos tentaram avisá-lo de que aquilo era uma grande loucura, um ato suicida mascarado de bravura, pois a morte era mais que certa. Outros, porém, achavam que o tio Agostinho sozinho não teria grandes hipóteses e, como era uma figura muito prezada por toda a aldeia, ofereceram-se para o acompanhar. Mas Agostinho não queria ouvir mais conselhos. Depois de beber um par de canecas de vinho licoroso, pôs-se a caminho da encruzilhada e lá ficou à espera do lobo com um pau na mão.

   As suas preces foram ouvidas. Pouco tempo depois, viu um lobo a caminhar lentamente na sua direção. Era inesperadamente grande, de pelo denso e cerdoso. Os seus olhos verdes cor de esmeralda reluziam no escuro com tanta intensidade que o tio Agostinho até pensou que tinha bebido de mais. Mais estranho ainda: olhavam-no fixamente mas sem qualquer sinal de raiva assassina. Agostinho, desconfortável e nervoso, levantou o pau, em posição de defesa, ora rodando à direita ora à esquerda, para não ser surpreendido por nenhum dos lados. O lobo amainou o passo, estudando-o.

   Agostinho tentou logo desferir-lhe um golpe, mas o raio do bicho esquivou-se e, com descaramento inaudito, agarrou-lhe o pau com o rabo! O aldeão voltou a tentar, com outro pau que apanhara na berma, mas o bicho esquivava-se sempre. O pobre homem já estava a ficar cansado de ser toureado por aquele estranho lobo, de olhar gélido como a neve caída no chão em seu redor. Lutou durante uma noite inteira o homem, sempre na tentativa de lhe acertar e, claro, de safar a própria pele! Em vão, pois com o raiar do Sol o tio Agostinho sentia as forças esvaírem-se e sabia que, mais cedo ou mais tarde, iria soçobrar. Então aí, o lobo poderia comê-lo a seu bel-prazer…

   Na aldeia, os habitantes desesperavam por notícias. Um dos amigos de Agostinho resolveu então pôr-se a caminho da encruzilhada, para acabar de vez com aquele sofrimento e antes que o desgraçado se deixasse comer. Pegou noutro pau e numa tocha com lume e subiu a serra. Quando lá chegou, vendo o amigo em apuros, atacou o bicho por outro lado. Este, finalmente, tombou. Mas mal o seu corpo felpudo se afundou na neve, com os dentes afiados a sulcarem o chão e o bafo ainda quente, apareceu quase instantaneamente outro lobo, ainda maior que o anterior. Os dois corajosos aldeões estremeceram e começaram a recuar, de fininho, apesar de o lobo enorme não parecer ter vontade de os atacar. Seguiu-os apenas, serra abaixo, como que empurrando-os de volta à aldeia. Cada vez que os homens se atreviam a olhar para trás, o lobo rosnava baixinho, os seus olhos tremeluziam e estugava o passo. Os homens, perdidinhos de medo, não tinham outro remédio senão acelerar. Só quando se começaram a avistar as primeiras casas de Cubalhão é que o lobo parou e deixou os homens seguirem livremente o caminho de regresso a casa. Já estes só sentiram o sangue a correr-lhes quente e célere nas veias quando tiveram a certeza de que já não estavam na terra dos lobos!...

 

 

101 LUGARES PARA TER MEDO EM PORTUGAL

Vanessa Fidalgo

Edição: A Esfera dos Livros

2013

pp. 37-39