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MELGAÇO, DO MONTE À RIBEIRA

História e narrativas duma terra raiana

MELGAÇO, DO MONTE À RIBEIRA

História e narrativas duma terra raiana

MELGAÇO E CELANOVA NUM ABRAÇO A PEPE VELO

melgaçodomonteàribeira, 16.11.19

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HOMENAXE A PEPE VELO

 

O PROFESSOR AMÉRICO RODRIGUEZ É O AUTOR DUNHA COLABORACIÓN PUBLICADA NO BOLETIM CULTURAL DE MELGAÇO TITULADO “ REFUGIADOS E GUERRILHEIROS ANTIFRANQUISTAS EM CASTRO LABOREIRO (1936-1943)”, NA QUE DEBULLA MIGALLEIRAMENTE AS VICISITUDES DE MOITOS GALEGOS QUE FUXIRON DO TERROR DO FASCISMO NO ANO DE 1936.

 

POR XOSÉ GLEZ.|REDONDELA|28/10/2019

 

O Ribeiro, Alagoa, Portos, Eiras ou na Seara, branda do Bico, foron algunhas das aldeas e lugares de Castro Laboreiro foron escenarios escollidos para residiren temporalmente mentres non procuraban unha saida cara o exilio.

Por Crecente, nunha batela, pasou a Melgaço tamén Pepe Velo, despois de estar choído durante moitos meses nun agocho en Moreiras, Celanova. As vicisitudes que tivo de pasar ata chegar ao Peço, onde atopou o amparo dun amigo no hotel Vila de Ranhada, son recreadas por Anton Piñeiro nun relato de próxima publicación co título “As augas do mañá” no que conta esas peripecias ata chegar a Lisboa.

Na capital portuguesa foi detido pola PIDE e safouse de ser entregue ás autoridades franquistas grazas á intervención do novelista venezolano Rómulo Gallegos, amigo seu, que por aquel entón era presidente do pais. Por esa mediación o Consulado venezolano en Lisboa expedíulle un Pasaporte de Emerxencia (núm. 67/48) ”de acordo coas instrucións recibidas do Ministerio de Relacións Exteriores de Venezuela”. Así foi como Pepe Velo puido chegar ao porto de Guarya semanas despois, onde vivíu deica xaneiro de 1961.

Na capital venezolana Pepe Velo dedicouse ao ensino e desempeñou cargos relevantes na colectividade galega, ao tempo que desenvoveu unha frenética actividade política que coroou coa creación do DRIL (Directorio Revolucionário Ibérico de Liberación), que o 21 de xaneiro de 1961 protagonizou a gran xesta heróica do secuestro do buque “Santa María” da “Compañia Colonial de Navegación” portugues. El foi o que deseñou a estratexia e dirixíu o secuestro, como recoñece a prensa internacional daqueles días.

Cómpre dicir que Pepe Velo fora militante das Mocidades Galeguistas en Celanova. Pero a súa radicalización política levouno a colaborar con instancias próximas ao Partido Comunista, concretamente na coordinación da guerrilla no sur de Galicia. Por mor deste compromiso foi deito, torturado e confinado ao cárcere de A Coruña. Aproveitando unha liberdade condicional foxe e refúxiase, como dixemos, en Moreiras…

Pepe Velo era un coñecido da miña casa familiar. Nas sobremesas falábase del. Meu pai construíulle o mobiliario para a academia que tivo, primeiro no barrio das Travesas e logo na rúa Carral, de Vigo. Pero amais diso, entregáballe periodicamente a súa avinza para a loita clandestina.

Pasados os anos, cando me iniciei na militancia nacionalista, o exemplo de Pepe Velo tíveno sempre presente. Perguntáballes aos vellos galeguistas e comunistas sobre el, e non atopei máis ca viscelaridade nas súas respostas. Para eles Pepe Velo era un tolo e un terrorista. En desacordo com tales despropósitos escribínlle ao seu curmán e amigo meu, Carlos Velo, o nosso gran cineasta que vivía no exilio mexicano que me facilitase información sobre el. A resposta foi inmediata (16 de decembro de 1985): “Amigo Pepe: Ei che mando algúns papeis do gran Pepe Velo e o teléfono de seu fillo, Victor Velo, que vive en Sao Paulo. Chámao da miña parte”. Dito e feito. Ao pouco Victor envioume unha morea de documentos inéditos de seu pai. Con eles publicamos un suplemento de catro páxinas no Faro de Vigo, reconstruíndo o vizoso perfil dun republicano galego que foi capaz de poñer en solfa ás ditaduras española e portuguesa durante os días que durou e secuestro do Santa María.

Pepe Velo profíaba no ideal dunha Iberia unida. A sua vída dedicáraa a soñar maneiras novidosas e decisivas para a consecución dos seus obxectivos, que non puido ver realizados porque morreu no exilio en 1972 aos 54 anos.

Agora chegoulle o tempo dos recoñecementos. Xa hai dous anos colocamos unha placa conmemorativa no edificio onde vivira en Vigo. O dia 6 de decembro, en Melgaço, descubrirase un monolito dedicado a súa memoria. En xaneiro, no parque das trigueirizas de Celanova, colucaremos o seu busto en bronce. Dúas homenaxes promividas pola Fundación L. Peña Novo e a Asociaçión de Amigos do Couto Mixto coas colaboracións dos concellos de Celanova e Melgaço, e tamén da Secretaría Xeral de Política Linguística.

 

Enlace á noticia:http://www.galiciaconfidencial.com/noticia/107666-homenaxe-pepe-velo

 

Este texto foi enviado ao blog pelo seu autor, Xosé Glez.

 

 

A CRUZ DE PENAGACHE - VERSÃO 3

melgaçodomonteàribeira, 09.11.19

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(continuação)

 

3

 

As gentes do Louriçal, outro lugar também raiano mas um pouco mais distante, têm a sua própria versão da cruz e também esta é relatada como fruto da mais pura verdade, embora ninguém a possa confirmar. Aconteceu em pleno inverno, já mais noite do que dia, quando um grupo de contrabandistas foi surpreendido por uma trovoada inesperada, mas temível, até porque naquela parte do planalto não há árvores e as pessoas temem atrair os raios. Chovia copiosamente água e neve à mistura e os relâmpagos sucediam-se ininterruptamente, o ribombar dos trovões mesmo por cima deles. Os três companheiros conheciam a lapa nos cotos de Penagache e apressaram-se a acolher-se no local, embora não muito confiantes, podia ser reduto de alguma fera. Também não sabiam exatamente onde ficava a entrada da gruta, mas, nem de propósito, o clarão de um relâmpago guiou-os para lá. Continuou a tempestade e eles deixaram-se ficar, mas o frio tomava-lhes conta do corpo e da alma, ensopados que estavam e sem possibilidade de acender uma simples fogueira para se aquecerem e espantarem o desconforto e a escuridão. Fome não tinham nem teriam, até porque um deles tinha o bornal cheio de pastas de chocolate encomendadas pela tendeira. O cansaço foi mais forte do que o frio e acabaram por adormecer. Devem ter passado algumas horas e quando já estavam todos acordados estranharam a falta de luz, já devia ser dia. Procuraram adaptação ao espaço e ao tempo, mas a desorientação era total, acabando por descobrir que a entrada da gruta estava completamente tapada por neve, por isso lhes não chegava a luz do dia. Estavam enregelados, um tremia como varas verdes, ardia em febre, os outros dois mal conseguiam mexer os dedos das mãos e dos pés. Não servia de nada gritar por socorro, este nunca lhes chegaria, mesmo que dessem o alerta da sua falta e os fossem procurar ao monte, jamais os encontrariam naquele buraco. Perderam a noção do tempo e acabaram por desistir de alcançar a saída, sem forças para lutar pela vida. Acabaram por ser encontrados pelos cães de caça que participaram nas buscas alguns dias mais tarde: uma cadela muito boa que servia de pisteira e conhecia as tocas todas do planalto não saiu da entrada da gruta enquanto os homens não abriram uma entrada. Um dos rapazes estava morto, os outros dois completamente gelados e perto de perder a vida, os dedos das mãos negros e inertes. A um tiveram de lhe cortar três da mão direita e o outro perdeu um bocado do nariz. Salvaram-se por pouco. A cruz será, pois, a homenagem ao que não resistiu.

 

                                                                                           Olinda Carvalho

 

Publicado em A Voz de Melgaço

Março 2015

 

A CRUZ DE PENAGACHE - VERSÃO 2

melgaçodomonteàribeira, 02.11.19

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monte de penagache por teresalaloba

 

(continuação)

 

2

 

Outra versão que corre lá pelo mesmo pueblo raiano e que já devia ter história bem antes da existência da cruz, por isso será do domínio da fantasia, acha o narrador, tem a ver com a existência de uma gruta debaixo dos cotos de Penagache. Todos os avós contavam que ali, como noutros lugares semelhantes, se encontrava escondido um grande tesouro. As moedas de ouro e prata, as pedras preciosas e as joias eram tantas que uma pessoa sozinha não seria capaz de os tirar de lá, por isso a procura do tesouro seria uma tarefa de equipa. Uma noite, saíram três amigos que se davam como irmãos para tentarem a sua sorte na gruta. Não lhes faltava ousadia, mas a noite sempre arrefece o ânimo, tanta coisa pode sair das sombras, tantas almas penadas escolhem os lugares mais recônditos para cobrarem pelos seus pecados, o melhor era manterem-se bem juntos, até porque a lanterna alumiava pouco e a fraca luz faz fraca a forte gente.

Ter-se-ão introduzido na gruta de que conheciam a entrada e os perigos associados ao seu interior, o que terão encontrado ninguém o sabe ao certo, mas o que foi do domínio público foi a desavença ocorrida lá mesmo, nas entranhas da terra, debaixo dos cotos de Penagache. Dois dos pesquisadores do tesouro agarraram-se ao mesmo cordão, cada um puxando para seu lado no fito de levar a melhor sobre o outro. Uma rajada de vento, surgida sem se perceber como, apagou a lanterna e deixou-os na maior escuridão. Enquanto os dois que se gladiavam pela corrente de ouro continuavam a sua peleja, o terceiro, borrado de medo, conseguiu alcançar a entrada da gruta e saiu à procura do céu estrelado e do luar. Respirando a plenos pulmões, aproveitou para exortar os outros a pararem, mas não deu conta de mais nada, não via, não ouvia, ninguém dava qualquer sinal. A solidão era tão pesada como o medo do escuro que o fizera abandonar a cova, pelo que meteu os pés ao caminho e correu para casa, tropeçando aqui, caindo, levantando-se, retomando o regresso ao convívio dos seus. No dia seguinte foi à procura dos amigos, mas não estavam em casa. E no outro também não. Só quando a ausência se tornou intrigante é que teve coragem de contar a façanha em que se tinham metido. Meia dúzia de homens empreenderam a caminhada até aos cotos de Penagache, o rapaz com eles para os orientar na entrada da lapa. Deram com os dois caídos no chão, um com uma navalha espetada na garganta, o outro com a cabeça empapada em sangue, parecia ter batido numa pedra e ali ficara. O primeiro estava morto, o segundo moribundo, quase inaudíveis as palavras que conseguia balbuciar.

Do tesouro não havia sinal e não fora a dor verdadeira que emanava do sobrevivente daquela aventura ninguém acreditaria nele. Ainda houve quem quisesse culpá-lo da morte dos dois amigos, mas o estado de catatonia em que ficou, incapaz de dizer coisa com coisa, autoflagelando-se e sem sentido de orientação livraram-no da justiça. A família dos finados para dignificar o lugar de partida de almas arrancadas ao corpo contrariando a lei natural da vida.

 

(continua)

 

A CRUZ DE PENAGACHE - VERSÃO 1

melgaçodomonteàribeira, 26.10.19

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davidexordos - pt.wikiloc.com

 

A CRUZ DE PENAGACHE

(uma história, três versões)

 

1

 

Os mais antigos falam dela como de algo quase imaterial, inacessível, mas com uma presença na memória que a passagem do tempo não diminui. Poucos a viram, mas o que testemunharam e sobretudo ouviram não dá para esquecer os arrepios que o desconhecido provoca quando algo inexplicável se nos impõe e lembra a fragilidade de que somos feitos, como a vida é um presente que nos dão mas também nos podem tirar, sem respeito nenhum pela condição de filhos de Deus, que a todos cria da mesma maneira, iguais. Os mais novos, desafiando a distância e os maus caminhos, singram, planalto fora, nas motas que o dinheiro e a vaidade de parecer, de ter o que os outros têm, e se possível ainda melhor (a inveja é um mal geral), chegam lá e detêm-se a espiolhar tudo, com um vagar que os anciãos não tinham. Não têm fardos à espera para fazer chegar a um qualquer destino, do lado de lá ou de cá da raia, os negócios que por ali ainda se fazem estão facilitados e têm subtilezas que afastam os que têm alguns escrúpulos. Também não têm afazeres no eido, o ócio é nos dias que correm a ocupação principal de uma juventude mais ou menos letrada que vive a expensas da família até terem cabelos brancos.

Pelo registo na pedra que a encima, 1911 ou 1912, o escriba fala de ouvido, não há ninguém para dar testemunho nem da sua construção nem do porquê da mesma. Os mais antigos do lugar mais próximo do lado espanhol contam, esvaziada a chávena do café e a copa da aguardente, que ali mataram um português, um ajuste de contas para lavar a honra de uma irmã iludida e enganada. Não era muito comum, mas acontecia portugueses e galegos conviverem nos montes quando guardavam o gado e os rapazes frequentarem os bailes e festarolas de um e outro lado da fronteira. Um rapaz do Souto e uma rapariga de Santo Amaro conheceram-se numa romaria e os encontros passaram de ocasionais a procurados. A moça tomou-se de amores, pensou que era correspondida e o que tinha de acontecer aconteceu. Algum tempo decorrido tornou-se o namoro evidente, a rapariga não conseguia esconder a proeminência progressiva do ventre. Instada pelos irmãos a denunciar o oportunista, quis ela remediar, avisando o namorado que urgia assumir a sua responsabilidade. Aparentemente, o amor não o consumia e não estava pronto para ser homem, perdida a honra da moça, perdia ele a sua, abandonando-a, não estava sozinha no mundo, tinha muitos irmãos para a ajudarem a criar o filho.

Os três irmãos uniram-se para cobrar a desfeita, até um garoto ainda menor de idade tomou parte no desforço. Observaram as idas e vindas do bandalho pelos caminhos da serra e uma noite surpreenderam-no nas pedras de Penagache. A probabilidade de encontrarem alguém era mais do que mínima e, sem testemunhas, fizeram-no pagar a sua dívida com o bem mais precioso que tinha: a vida. Deixaram o corpo exposto ao tempo, sem qualquer resquício de respeito, abandonado no lugar onde foi encontrado em adiantado estado de decomposição. Foi identificado pela roupa e pelo anel que usava no dedo mindinho da mão direita. A família, amargurada por uma vida ceifada tão antes de tempo, mandou fazer uma cruz no alto da pedra na base da qual o tinham encontrado. Das razões que o teriam levado àquele fim não queriam saber, ou sabiam e calavam-se para não dar mais força às vozes viperinas do povo.

 

O DEPUTADO DE MELGAÇO EM CAMILO CASTELO BRANCO

melgaçodomonteàribeira, 19.10.19

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O CARRASCO DE VICTOR HUGO JOSÉ ALVES

 

CAMILO CASTELLO BRANCO

 

Eram negros côr da noite

Uns olhos negros que eu vi…

 

O sujeito que assim fallava, dava ares de deputado do norte, papa-fina, calaceiro de damas sertanejas, gallo de aldêa vezado a cacarejar finezas; mas bem creado e de fama na sua comarca, e talvez mais adiante, como pessoa perigosa para senhoras frageis ao dom da palavra.

O outro, que vislumbrava esperteza e garbo de lisboeta, sorrindo desdenhoso á linguagem do amigo um tanto rançosa das galanices do Clarimundo, fallou d’esta arte:

- Esta menina, aqui onde a vês, tem, segundo consta, sangue real nas veias. Se eu fosse príncipe, fazia-lhe os meus cumprimentos, e pedia-lhe um osculo.

- E eu dois – ajuntou o deputado dos Arcos ou de Melgaço – (de Melgaço é que era, se bem me lembro); mas, prescindindo dos ósculos – continuou mais requebrado – limito as minhas ambiçoens a pedir-lhe que me tome medida do pescoço afim de saber-se quaes colleirinhos hei de comprar. Vou sentir o avelludado das suas allabastrinas, mãos de princeza…

  1. Maria José, durante as pungentes facécias dos mal-fadados, não erguêra do balcão os olhos carregados de lagrimas. Mal-fadados lhes chamei; porque Damião Ravasco, em quanto elles fallavam, trincava e comia a pedaços um charuto, ao mesmo tempo que, fervendo em ira, e agitando machinalmente os braços, parecia dar-lhes alôr para uma pega mortal.

E os dois faceiras decerto não attentaram nos olhos assanhados do mulato, nem dariam significação funesta áquelles tregeitos, se os vissem.

O deputado, entretanto, como a luveira não respondesse ao pedido, aliás honesto, de lhe medir o pescoço, insistiu abemolando a rogativa com um sorriso de ironica meiguice:

- Então o meu anjo não se humanisa até á humanidade de me tomar a medida do pescoço?

- Meço-lh’o eu – disse Ravasco, abarbando-se com o sujeito.

E, proferido o serviçal offerecimento, recurvou-lhe os dedos da mão direita na garganta, sacudiu-o de encontro á hombreira da porta, e d’ahi, tangido pelo impulso de uma valente pescoçada com um sonoro ponta-pé, tombou-o á rua. Consummado o feito, voltou-se para o outro, que se quedava immovel, fulminado, empedrenido talvez por sua justa indignação, e disse-lhe:

- Vossê tambem ha de ter o beijo que pediu.

E o mesmo foi convidal-o com trez tapa-olhos á mão tente, cascados de tal guisa que, ao terceiro, o sujeito mordia o macadam dos fortes colhidos de sobresalto, resvalando os dous degraus que o separavam do seu infausto amigo.

Cobriu-se de profunda amargura o aspeito de Damião Ravasco, ao ver que os dous freguezes de colleirinhos, depois de se escovarem reciprocamente com os lenços, e de trocarem entre si palavras mysteriosas, calcurriaram-se embora com apparencias de sãos e escorreitos.

 

O Carrasco de Victor Hugo José Alves

Camilo Castello Branco

Porto Livraria Chardron

de Lello&Irmão, editores

1902

 

Ler EBook:

 

http://www.gutenberg.org/files/30176/30176-h/30176-h.htm

 

OS NOSSOS MORTOS

melgaçodomonteàribeira, 12.10.19

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mãe do sr. amadeu abílio lopes e banda dos b.v.m

 

OS NOSSOS MORTOS

 

É sempre doloroso falar daqueles que partiram, mas as notícias que tem sido dadas nos jornais da terra acerca dos que morrem são por norma curtas, demasiado sucintas para aqueles que, como eu, gostam de saber mais alguma coisa sobre essas pessoas, nossos conterrâneos. Não se trata de curiosidade, de mera estatística, mas também de sentimento. Nós, os que saímos de Melgaço, nunca esquecemos o nosso berço, nem as suas gentes. Sentimos a sua falta, sua cumplicidade, por vezes até o seu mau feitio!

Em A Voz de Melgaço de Outubro findo (11/10/2013) falou-se de Amadeu Abílio Lopes, mais conhecido por “Bicho Fino”, alcunha que a sua própria mãe lhe pôs, por achar que era esperto, vivaço. Diz-se aí que morreu em Abril de 2013, com 99 anos de idade. Acontece que ele nasceu no lugar de Cortinhal, Chaviães, a 13/3/1913, pelo que se a minha máquina de calcular não me trai ele faleceu com 100 anos feitos e não com 99 anos. Outra coisa que se diz no jornal é que «cedeu a sua parte como accionista, mais de 70% à Câmara Municipal.» Se a memória não me falha, eu li na altura (1997) que eram 68,8/%. A diferença não é significativa, mas o seu a seu dono.

Amadeu Abílio Lopes era filho de Vitorino José Lopes, soldado da Guarda-Fiscal, e de Maria Rosa Cortes, lavradeira. Em 1927, com treze ou catorze anos de idade, no segundo ano da ditadura dos militares, emigrou para o Brasil, onde teve de trabalhar muito, e “no duro”, apesar da sua tenra idade. Depois de adulto entrou no mundo dos negócios, foi dono de uma ou duas padarias, conseguindo juntar algum cabedal.

Casou em 1942 com Ulysseia Pires, natural do Rio de Janeiro, a qual Não lhe deu filhos. Nunca se esqueceu da sua freguesia de nascimento, mandando ali construir uma vivenda, que baptizou de “Lar da Saudade”, onde passava férias quando vinha a Portugal.

Também se diz em A Voz de Melgaço que ele foi «um benfeitor» da Câmara Municipal de Melgaço. Quanto eu sei a doação não se traduziu, nos primeiros anos, num benefício para a Câmara, mas sim numa despesa, a juntar a outras. Na altura que o senhor Amadeu, juntamente com outros sócios, criou a sociedade anónima, tentava-se em Melgaço erguer uma Adega Cooperativa, a qual não foi avante por diversas razões, uma delas por falta de apoio financeiro. Há muita gente no concelho, e fora dele, que poderá falar nesse assunto melhor do que eu.

É certo que ele deu, ao longo da sua vida, algum dinheiro à Santa Casa da Misericórdia e aos Bombeiros Voluntários de Melgaço, sobretudo à sua banda de música; ninguém poderá negar isso, pois está registado na imprensa local. No entanto, ninguém pense que a entrega gratuita das acções da “Quintas de Melgaço – Agricultura e Turismo, SA” ao município foi um gesto altruísta, fundado no seu grande amor por Melgaço. Há quem afirme que teria feito bem melhor se as tivesse vendido por um preço justo a pequenos e médios produtores. Que vocação, que competência técnica e científica, tem uma Câmara Municipal para gerir uma sociedade anónima? As Câmaras Municipais que se saiba são organismos políticos, não são gestoras de empresas, sejam elas sociedades anónimas ou não. Sendo assim, perguntar-se-á: por que motivo o presidente da edilidade aceitou essa oferta? A resposta não é fácil, e até pode haver mais do que uma resposta. Quando eu era pequeno dizia-se em Melgaço que quando a esmola é grande o pobre desconfia. Pelos vistos ninguém desconfiou, e os autarcas aceitaram com agrado a dita prenda. Em troca, pois de uma permuta, e agradecidos, atribuíram à Praça José Cândido Gomes de Abreu o nome do senhor Amadeu Abílio Lopes, além da medalha de ouro do município. Tudo bem. José Cândido morrera em 1908, já estava esquecido. Quem se lembra que foi graças à sua iniciativa que se criou o hospital? No entanto, vão ficando no esquecimento, espécie de limbo, alguns melgacenses que contribuíram imenso para o prestígio do nosso concelho; mas não doaram acções de empresas, mesmo que as mesmas não valham fortunas.

Nada me move contra o senhor Amadeu Abílio Lopes, não o conheci pessoalmente, na velhice quis ser útil ao seu concelho, interveio no seu desenvolvimento, mas daí a subir ao pódio… E se a moda pega? Isto é, se no fim da sua vida qualquer empresário doa ao município a sua empresa? Talvez eu esteja a dar relevo a coisas que em si não tem grande importância, mas de facto gostaria que aqueles que foram eleitos tivessem mais em conta a opinião do povo quando se atribui o nome de uma praça, avenida, rua, a figuras mais ou menos conhecidas.

Na citada notícia de A Voz de Melgaço fala-se de Rosa, casada com Maximino Reinales: «Amadeu Abílio Lopes não tinha filhos. Criou, como se fosse sua filha, Rosa Esteves…» Fiquei admirado, pois o senhor Amadeu e esposa residiam no Brasil e a esposa do meu amigo Maximino morava e mora em Melgaço. É provável que a tenha apoiado financeiramente, que a estimasse, a tenha convidado para ir passar uns tempos com ele e a esposa ao Brasil, mas criá-la, no verdadeiro sentido da palavra, julgo que não. No entanto, se alguém souber mais do que eu sobre este assunto faça favor de me esclarecer.

Gostaria de mencionar outros conterrâneos que faleceram recentemente: uma senhora de Castro Laboreiro, que já tinha 104 ou 105 anos de idade, uma bonita idade; Manuel José da Silva, da Vila de Melgaço, cuja morte e de sua filha, Maria de Fátima, nos comoveu a todos; de Leonardo Carvalho, mas não posso roubar mais espaço ao jornal, pelo que falarei deles noutra oportunidade.

Desejo a todos os melgacenses um bom Natal e que 2014 nos traga mais justiça e já agora mais algum dinheiro.

 

                                                            Joaquim Rocha

 

   NR.: Agradecemos ao Dr. Joaquim Rocha as achegas à notícia da morte do Sr. Amadeu Abílio Lopes.

   Fizemos as diligências mais que suficientes para obter mais dados, e até pedimos que escrevessem sobre ele, pois com ele, pois com ele tinham convivido bastante.

   Estranhamos o silêncio dos responsáveis da Adega de Melgaço cuja maioria das acções ele ofereceu à câmara. Pedimos que nos fornecessem uma foto do Sr. Amadeu. Insistimos no pedido, mas ficámos sem resposta.

   Da nossa parte, tudo fizemos para que, no momento da verdade, que é o da morte, primássemos pelo acolhimento e pelo sanador e retemperador perdão, eventualmente o Sr. Amadeu precisasse por parte de quem não se sentiu tão correspondido como julgava merecer.

 

                                                                                                 Carlos Nuno

 

Em, A Voz de Melgaço

MANJAR DOS REIS DO MOSTEIRO DE FIÃES

melgaçodomonteàribeira, 05.10.19

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MANJAR DOS REIS DO MOSTEIRO DE FIÃES

 

Este doce conventual, tipicamente natalício, foi criado pelos monges cistercienses do antigo Mosteiro de Fiães, situado no concelho de Melgaço, no extremo norte de Portugal.

Sendo um doce de origem conventual, não podiam faltar as gemas em abundância e a amêndoa. Trata-se de uma receita simples, que permite fazer o aproveitamento de arroz cozido, resultando num doce que é um verdadeiro manjar.

 

Ingredientes:

 

12 gemas

125 g de amêndoas moídas

125 g de arroz cozido

300 ml de água

500 g de açúcar

Raspa de limão q. b.

 

Confecção:

 

Leve o açúcar ao lume com a água e deixe ferver durante 2 minutos, até formar ponto de pasta (introduzindo uma colher, a calda corre facilmente, mas há uma pequena camada que adere).

Retire do lume e junte a amêndoa, o arroz escorrido e as gemas. Mexa bem.

Leve novamente ao lume para engrossar, mexendo sempre para não queimar.

Sirva o doce em taças ou numa travessa.

 

Se fizer esta receita, mande-nos a sua foto para o email docesregionais.mail@gmail.com e nós faremos a divulgação com a indicação da sua autoria.

 

 www.docesregionais.com/manjar-dos-reis-do.mosteiro-de-fiães/#more-7404

 

O GUERRILHEIRO EM CASTRO LABOREIRO

melgaçodomonteàribeira, 28.09.19

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INTENTO DE DETENCIÓN DE MANOLO (VICTOR GARCÍA “EL BRASILEÑO”) POR LA GUARDIA FISCAL PORTUGUESA

 

El intento de detención de Manolo (Dente de Ouro) es ya  leyenda popular.

La mayoría de gente de Pereira – Portugal, lo conocía. Aqui contamos la versión de Domingo Alonso (D.A.R.) una de las personas más próximas a los protagonistas en el territorio y personalmente.

El 2 de Mayo de 1943 por la noche, en Castro Laboreiro después de una cena conjunta en la que participaba Manolo, un guarda fiscal llamado Carlos intentó deternele. Al parecer hubo un diálogo previo:

“Señor Manolo, dese preso”.

“Déjeme en paz si no quiere tener problemas” le respondió.

El diálogo finalizó cuando, sintiéndose acosado Manolo, le disparó desde el bolso de la gabardina y le mató.

Huyó para Ribeiro de Cima, y se refugió en casa de Rosa Alves “La Africana”. Probablemente en este acidente participó también  “Enrique” (Ramón Yañez).

Estando en Ribeiro de Cima en casa de “La Africana”, Manolo fue cercado por unos veinticinco (25) guardias fiscales. Primero salió “Enrique” por un agujero hecho en la pared de la casa, com acuerdo previo de cubrir luego la salida de Manolo. No obstante “Enrique”, al verse acosado por los guardias, huyó. Salió luego Manolo por la puerta que daba al camino y gritó a los guardias:

“Dispararé al primero que se mueva!”.

“Oh, señor Manolo. Usted no debe hacer eso” respondió el jefe de los guardias.

La situación de la casa al lado del camino y la estrechez de éste, facilitó que probablemente Manolo les pudiese apuntar com sus armas a uno o a varios de ellos. Manolo se fue alejando sin que se atreviesen a dispararle.

José (J.A.P.) transmitía la creencia popular de que los guardias le tenían miedo.

Cuando ya estaba lejos abrieron fuego. Manolo huyó para siempre.

En la zona no se supo más de él, aunque su persona y sus hechos fueron recordados durante mucho tiempo y siguen vivos en la historia del lugar.

 

Retirado de: Víctor García G. Estanillo el Brasileño

http://blocs.tinet.cat/lt/blog/victor-garcia-g.-estanillo-el-brasileno

 

A NEVE MÁ

melgaçodomonteàribeira, 21.09.19

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MORTE BRANCA

 

Naquela fria e alva madrugada,

Enfrentando a chuva e o nevoeiro

Partiram sós, de Castro Laboreiro,

Carolina e sua irmã amada.

 

Alegres, riam por tudo e por nada,

No bolso levavam algum dinheiro;

Iam comprar ali, no estrangeiro,

O bacalhau, azeite e a pescada.

 

No regresso, por terras da Galiza,

Ao entrar na alta e dura montanha,

A neve caía com insistência;

 

E no inferno o demónio giza,

Com estranho ódio, raiva e manha,

A morte da virtude, da inocência.

 

Nota: as duas irmãs ficaram soterradas na neve a 17/12/1917; a Carolina casara em Outubro desse ano.

 

OS MEUS SONETOS (E OS DO FRADE)

Joaquim A. Rocha

Edição do Autor

2013

p.128

 

 

PORTUGAL DE PERTO

melgaçodomonteàribeira, 14.09.19

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Os últimos dias da minha viagem foram de solidão invernal. Era já fim de Novembro de 2010 e poucas pessoas habitavam quer a zona da serra da Peneda quer o planalto, em Lamas de Mouro ou Castro Laboreiro. Quando alcancei o Santuário de Nossa Senhora da Peneda às cinco da tarde, vindo do Soajo, não encontrei ninguém. O hotel ao lado do Santuário fechara para remodelação. À porta da igreja, uma vaca pastava pachorrenta, só incomodada mais tarde por uma cadela que teimou em me acompanhar.

Em Lamas de Mouro e depois em Castro Laboreiro, um vento gélido fustigava a montanha e havia quem já previsse neve para o fim-de-semana seguinte. Na manhã do meu último dia de viagem, escolhi uma estrada estreita assente em território português mas virada para a Galiza para chegar a Cevide, a última etapa. Lembro-me que ainda suportei pedras de granizo e chuva muito fria. Era domingo e os altifalantes da Igreja de Cristóval emitiam indiferentes a missa para os dois lados da fronteira.

Ironia do destino, em Cevide, freguesia de São Gregório (*) e concelho de Melgaço, terminei a viagem a conversar com antigos contrabandistas, um português e outro galego, amigos de longa data. Recordaram a passagem de bananas, café e arroz ainda nos anos de 1980. O fim da actividade ditou a desertificação do local, mais uma terra marcada pela emigração. «Isto aqui morreu, aqui não há futuro…», desabafava o ex-contrabandista Manolo, em Frieira, do outro lado da fronteira. Na ponte internacional, Mário Olímpio, meu anfitrião em Cevide, apontava para o meio do rio Minho: «Estás a ver, ali mesmo no meio do rio? Ali é a linha de fronteira.»

 

(*S. Gregório não é freguesia. Cevide e S. Gregório pertencem à freguesia de Cristóval)