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MELGAÇO, DO MONTE À RIBEIRA

História e narrativas duma terra raiana

MELGAÇO, DO MONTE À RIBEIRA

História e narrativas duma terra raiana

FRAGMENTOS DE VIDAS RAIANAS 2

melgaçodomonteàribeira, 22.02.20

 

Media mais de um metro e oitenta – era conhecido pelo Manel Grande –, tinha uns ossos ricamente cobertos e uma grande e oblonga cabeça, cujo cabelo, sempre bem rapadinho, deixava sobressair umas orelhas colossais e descoladas. Durante o ano, fosse qual fosse o tempo, uma camisola interior de alças e uma camisa branca de nylon eram a única vestimenta que lhe cobria o tronco; as mangas sempre arregaçadas desvelavam umas veias bem irrigadas; os dois primeiros botões desapertados auspiciavam um peito firme e imberbe. Barrigudo, conformemente à maioria dos campónios da sua idade, caminhava de maneira ronceira e inabalável, com aparente pena, o que não deixava dúvidas sobre a massa bruta que era.

Imbróglios, aborrecimentos eram as coisas que ele menos procurava. Era um luxo que não se podia permitir. Primeiro, por serem termos que não faziam parte do seu temperamento deferente e pacato; segundo, e antes de tudo, por não estar documentado.

No dia, já longínquo, que, com a mulher, passara o regato e se estabelecera em terra alheia, fizera a promessa de nunca indispor ou prejudicar os seus anfitriões, facto que,  fortuitamente, podia colocá-lo em situação embaraçosa. Viera para Espanha trabalhar e não aventurar-se, fosse no que fosse. Sempre respeitara a liberdade dos próximos e acreditava que cada qual era o julgador absoluto e imparcial dos seus actos e, consequentemente, o único imputável. Nunca se incomodara com a vida dos outros, detestava que se imiscuissem na dele e jamais tentara ilibar-se das suas responsabilidades, ainda que fossem meras futilidades. Até aquela data, felizmente, não tivera quaisquer desarmonias ou mal-entendidos notáveis com os seus semelhantes.

Honesto e trabalhador como poucos, os maiores lavradores da região rivalizavam para lograr os seus serviços durante as temporadas de azáfama. Nunca estivera um dia inactivo sem que fosse por vontade sua.

Havia muitíssimos anos que vivia na Frieira:  vinte, vinte e três, vinte e cinco. Talvez mais, talvez menos... Já não sabia, nem queria saber. Cada vez que retrocedia no tempo, o seu espírito era invadido de imediato por remembranças excruciantes.

Menosprezava a servidão, a vileza a que tivera de se sujeitar na terra natal. Tinha sido o preço a pagar para comer umas batatas insossas que nem com um fio de azeite podia condimentar, falta de meios.

A lembrança – ainda que momentânea – destes tempos obrigava-o a cerrar os punhos com força e a ranger os dentes. Era uma reacção convulsiva, de incomensurável asco. O senhorio para o qual trabalhara, pessoa despicienda que vira poucas vezes, nem a mão se dignava apertar-lhe, como se fosse um ser sarnento, uma besta. Fora um capítulo horrível da aurora da sua vida, uma submissão cobarde, abjecta que, hoje, o enojava e indignava visceralmente por ter sido tão adinâmico.

Apesar da miséria, da repugnância de que era alvo, renunciar ao único, mas mais belo pedaço de terra onde viera ao mundo, aos colegas de infância e de adolescência, tão miseráveis como ele, fora um rasgo ardente. Chegou a outra terra, mais pobre do que a sua, com outra gente, visivelmente inospitaleira; mas, como a sociabilidade e a sensibilidade são os fusíveis do nosso destino, a sua visão foi-se agudizando e o rasgo, passo a passo, colmatou-se.

O Manel, depois de dar o salto, fora contemplado com a lógica suspicácia habitual das pessoas que se desconhecem; fora, nem mais nem menos, acolhido como qualquer forasteiro que chega a uma aldeia. Graças ao seu carácter expansivo e à sua exemplaridade, não precisara de temporizar muito para se integrar, o considerassem e aceitassem quase como se tivesse vindo ao mundo ali.

Desde o dia que, apreensivo e desconsiderando os imprevisivos percalços, resolvera  saltar o regato, não podia dizer que a sua vida fosse tão ingrata. Não era por aí além, nem pensar, mas era certamente bem mais luminosa e copiosa do que a que até ali suportara. Continuava a ser o homem cândido que vendia a sua pujante força braçal aos agricultores, aos proprietários das melhores terras, mas ganhava para apaziguar a fome e ainda lhe sobrava. Só por olharem para ele com decência e humanismo, já se sentia realizado, embora soubesse que também era apreciado por ser uma pessoa laboriosa e prestadia.

Não deplorava, de modo nenhum, a decisão dilacerante que tivera de tomar. E, hoje, se por ventura a conjuntura o forçasse, não teria a menor hesitação em voltar a fazê-lo noutras direcções. Ficara a saber que todo ser, onde quer que tenha nascido, corre atrás das mesmas imprescindibilidades fulcrais. Para ele, o essencial era ter um pouco a fim de viver em harmonia com os demais. Não tinha inveja de ninguém, não, nem dos ricos para os quais trabalhava. «O que já tem muito e mais quer nunca será rico nem feliz. Rico e feliz é aquele a quem basta o que têm. Como eu», alegava.

O sol, cansado, do qual dois terços já se tinham ofuscado a oeste, por detrás dos montes da margem direita, arrojava os últimos clarões. Ainda que langorosos, galvanizavam poeticamente os primeiros cem metros do  percurso internacional das águas do Minho que dali se descortinavam.

Nas janelas das casas esboroadas pelas duas margens do rio, já se apercebiam algumas luzes. Frouxas e pálidas, anunciavam o fim do dia de trabalho e, para quase todos, o começo da vida caseira. Para esta gente, como para toda a desta condição, onde quer que se estivesse, o tempo livre era tão escasso como algumas iguarias em cima da mesa.

O Manel era dos últimos a chegar à casa.

Deixou-se ficar inerte uns segundos e coçou energicamente a traseira do crânio com a boina sebosa; depois, ajustou-a de novo na cabeça e olhou para um e outro lado do tabuleiro da ponte, como quem quer persuadir-se de alguma coisa. Com as costas da mão polposa, limpou umas gotas de suor que lhe atapetavam a testa. «Raio de calor!», queixou-se, de modo falacioso. A transpiração obstinada que, àquela hora e naquele momento, ressumbrava da parte superior do seu rosto não era originada pela temperatura ambiental, mas pela forte sensação de estresse que o assolava.

Como hoje, cada vez que se avizinhava o momento fatídico de traspassar a ponte, reproduzia, incondicionalmente, as mesmas invectivas, as mesmas gesticulações, as mesmas pantomimas. Esta iniciativa transtornava-o psiquicamente, engendrando-lhe distúrbios físicos. Homem de uma robustez extraordinária, temia, no entanto, mais este instante do que a própria morte: as mãos tremiam-lhe, o coração latejava-lhe e um pânico potente submergia-o, intrincando-lhe a respiração. Uma autêntica paranóia. Cuspiu para o chão, nauseado, e grunhiu a meia voz: «Rio do caralho!» O Manel sofria de acrofobia severa.

Continua.

AO AMIGO QUE ME PEDIU INFORMAÇÃO SOBRE FOTOGRAFIAS, NÃO TENHO FORMA DE ATENDER AO SEU PEDIDO. LAMENTO. NÃO RESPONDI AO E-MAIL PORQUE PERDI O ENDEREÇO.

Ilídio Sousa

 

 

ARCHIVO HISTORICO DE PORTUGAL I

melgaçodomonteàribeira, 15.02.20

 

48 a2 - antigo escudo da vila, desaparecido.jpg

antigo brasão de melgaço

ARCHIVO HISTORICO DE PORTUGAL

MELGAÇO

Fica esta villa na província do Minho, e pertence ao arcebispado de Braga.

É praça de guerra, cabeça de comarca e dista 430 kilometros de Lisboa e 72 ao noroeste de Braga.

A origem de Melgaço perde-se na penumbra da história. Sabe-se que é povoação antiquíssima, mas ignora-se quando e por quem foi fundada. Querem uns que a sua fundação fosse devida aos luzitanos, outros que ella fosse obra dos romanos. Não há vestígios de espécie alguma que dêem qualquer idéa do que foi esta povoação na sua primeira idade. Nenhum monumento, nenhuma revelação archeologica tem aparecido a fazer luz n’esta obscuridade de origem.

Que existia no tempo da dominação árabe é incontestável, porem já a esse tempo era Melgaço antiquíssima povoação, visto ter D. Affonso Henriques encontrado ali uma grande fortaleza inteiramente arruinada.

Era este castello denominado castello do Minho, e foi com certeza construído pelos árabes. Em volta d’elle apinhavam-se alguns casebres, talvez construídos com o fim de acolherem os seus habitantes á protecção do forte, pois que n’aquelles tempos não havia segurança longe d’esses colossos de pedra, que continham em respeito os aventureiros.

Qual a importância que tivesse esta villa não é dado, pois, saber-se positivamente. No entanto, o facto de n’ella terem os árabes edificado uma fortaleza, prova que não era destituída de consideração dos seus possuidores.

No tempo de D. Affonso Henriques achava-se, porém em misérrimas circumstancia, e abandonada pelos seus habitantes. Não são também conhecidas as razões que levaram os mouros a essa emigração. Talvez possa explicar-se o facto pela guerra acérrima que os christãos lhes moviam. O audacioso e aguerrido filho do conde D. Henrique encontrando a terra deserta, mandou-a povoar por christãos e reedificar-lhe o castello, em 1170.

Em 1197 o prior do mosteiro de frades crúzios, D. Pedro Pires, mandou á sua custa edificar a fortaleza e a torre.

Era este prior muito abastado de fortuna e dedicado ao engrandecimento do paiz. O mosteiro a que pertencia era o de Longosvales.

Em 21 de Julho de 1181 deu D. Affonso Henriques o primeiro foral a Melgaço e fez doação da aldeia de Chaviães aos seus moradores.

D’este foral trata o sapientíssimo historiador Alexandre Herculano na sua História de Portugal, vol. IV, pag. 114. Referindo-se ás garantias e liberdades que usofruiam alguns concelhos, escreve o imortal auctor do Eurico: Quanto, porém, ás liberdades mais importantes, eis o que lemos no foral de Melgaço concedido por Affonso I em 1181:

«O vigário d’elrei seja um morador da villa. Se alguém o ferir ou matar, pague cem soldos de multa, como de outro qualquer homem.»

«O que quizer ser vizinho, vindo morar convosco, pague um soldo, seis dinheiros para os juízes da villa, e seis para o senhor da terra.»

«Se algum mercador vier com estofos, venha o fardo por atacado e não a retalho, salvo sendo na feira, e se assim o não fizer, pague trinta soldos que se dividirão entre o meu vigário, e os juízes de vossa villa».

«Se alguns homens travarem lucta e se arrepelarem (per capillos se traxerint) dentro da villa, quer seja em concelho reunido, quer na egreja, a ninguém deem satisfação disso senão a si mesmos, se quizerem fazel-o, etc.»

«Se, porém, algum dos dous recusar a reparação, e o outro der querela por intervenção do vigário, execute-se o que sentenciarem os juízes da villa, dando-se metade (da condemnação) ao espancado e metade ao vigário.»

«Se entre vós o vizinho matar seu vizinho, venha a justiça da villa com o vigário d’elrei á porta do homicida e peçam-lhe um penhor: dado este, peçam-lhe um fiador por cinco soldos: dado o fiador, restituam-lhe o penhor dentro de nove dias: passados os nove dias, venham as dictas justiças e vigário, e exijam do criminoso cem soldos pelo homicídio. Se, porém, não o acharem na terra, o fiador pague cinco soldos, e o homicídio recaia sobre a casa e prédios ruraes do auzente, e ninguém mais lhe faça mal senão os seus inimigos.»

Isto quer dizer que a vingança ficaria aos parentes do morto pelo direito de revindicta, sem que a justiça interviesse n’isso, tendo tirado os cem soldos de multa por execução nos bens do criminoso.

El-rei D. Affonso III lhe deu outro foral em Braga, a 29 de abril de 1258.

Tratando d’este segundo foral, diz ainda o imortal Alexandre Herculano em uma nota da sua História, que se encontra a pag. 169, que ali se estabelecia que os moradores da villa fossem 350, devendo pagar 350 morabitinos de direitos reaes. D’este foral, transcreve o mesmo auctor:

«Mandae-me immediatamente um cavalleiro português, que me faça menagem do castello de Melgaço, tal que possa ter e defender o dito castello e fazer delle direito.»

Estes foraes são escriptos em latim bárbaro, e encontram-se no archivo da Torre do Tombo, na gaveta especial de foraes antigos.

Pertenceu esta villa á caza dos Braganças, e pelos duques eram dados todos os offícios.

De Melgaço são oriundas várias famílias nobres de Portugal, taes como os marquezes de Niza, condessa da Ribeira, barão de Proença-a-Velha, Castros Pittas, de Caminha, e outras ilustres famílias, mais ou menos aparentadas com o antigo senhor de Lapella, morgado de Covas, Gaspar de Castro Caldas.

Se Melgaço não é conhecida na sua origem, se não tem a illustral-a nem columnas nem templos, preciosas relíquias da civilisação pagã, a sua história desde os tempos em que foi povoada pelos christãos é insufficientemente honesta e heroica para lhe grangear títulos de nobreza.

De quantas vezes a pátria precisou do seu auxílio, de lá correram valentes e  intrépidos patriotas, affrontando perigos, determinando-se bravamente a todos os sacrifícios. Nas longas e successivas guerras com Castella os melgacenses souberam sempre honrar a sua terra e a lusitana bandeira.  

E não só os homens como também as filhas de Melgaço são heroicas e arrojadas na defeza da integridade do território pátrio. Exemplos teem dado dos seus nobillísimos sentimentos, e d’este vamos fazer a narração de um, que de per si basta a orgulhar as formosas e honestas mulheres d’esta briosa villa.

 

FRAGMENTOS DE VIDAS RAIANAS 1

melgaçodomonteàribeira, 08.02.20

 

Eu.JPG

30/11/1955

10/09/2018

David de Carvalho morreu há meia dúzia de meses. Eu continuo a conversar com ele todos os dias. Durante tempo, que eu não sei, lutou com a língua portuguesa, sua língua mãe (mais de metade da sua vida foi passada entre Galiza e Paris), e escreveu FRAGMENTOS DE VIDAS RAIANAS. Vários episódios já foram publicanos, mas vamos começar do zero, como naquele dia em que recebi o nº 1 da história.

Deixou-nos o seu blog, MELGAÇO, DO PASSADO E DO PRESENTE.

Um abraço meu irmão, até um dia!

Ilídio

 

 Fragmentos de vidas raianas - 1978/1981

Pouco faltava para ser noite quando o Manel emergiu da floresta. Essencialmente povoada de pinheiros e eucalíptos, toldava a maior parte da encosta íngreme do monte. De modo despreocupado, empreendeu a descida do sinuoso caminho que findava na extremidade direita da ponte da Frieira. Esta superestrutura recente, sobranceira ao rio Minho, unia dois lugares galegos homónimos que pertenciam a concelhos e províncias diferentes.

Ambas províncias confrontavam com Cevide, o lugar luso mais hiperbóreo. A da margem direita, a Província de Pontevedra, estava separada dele pelo rio Minho; a da margem esquerda, a Província de Ourense, pelo rio Trancoso, um simples arroio.

O nome adequado das duas aldeias era A Frieira, mas todos proferiam e escreviam Frieira. Até nos epígrafes da estação do caminho de ferro.

Daquele lado da ponte, num discreto remanso retirado da estrada cerca de dois metros, havia uma casinhola de metal laminado. Durante o dia, e a qualquer hora, a probabilidade de nela se encontrarem dois guardas civis era inconstante, mas depois de se implantar o lusco-fusco, a possibilidade convertia-se numa asserção. O verde azeitona original das placas do abrigo – o mesmo que o do uniforme dos ocupantes –, apesar da persistente inclemência do tempo que o fora carcomendo, ainda preponderava. Um jipe Land Rover, igualmente verde, apenas mais escuro, estacionado em frente daquela guarita, denunciava a presença evidente dos guardas fronteiriços.

Vistoriavam os veículos e os respectivos ocupantes em busca de contrabando e de eventuais emigrantes clandestinos que experimentavam, por todos os meios, atingir os países europeus onde o emprego pululava. Observavam e vigiavam, em paralelo, a escada férrea situada diante do tugúrio, necessariamente utilizada por todos aqueles que, vindos da margem esquerda, tinham de ir apanhar o comboio à estação. Os passageiros procedentes de Madrid, de Barcelona e, mormente, de Irun – País Vasco –, que ali se apeavam, eram alvo do maior reparo. Fotos dos principais membros operacionais da ETA e do GRAPO decoravam uma das paredes do casebre.

Aquele espaço restrito era o ponto mais decisivo, mais problemático e mais delicado, que determinava a vida e, por conseguinte, os recursos de muitos habitantes da margem ourensana do rio Minho, assim como dos das beiras do rio Trancoso.

Naquela região, onde as terras galaico-minhotas se entestavam, o contrabando – como em qualquer outra zona fronteiriça do mundo – era um afazer intrínseco, arraigado, filho da raia. Fazia de tal maneira parte da vida das pessoas que acabara por ciselar e normalizar as suas exigências, as suas obrigações, as suas asperezas e, em geral, a sua existência. Exceptuando um período quase industrial, principiado com a Guerra Civil Espanhola e finalizado com a capitulação dos Alemães, podia dizer-se que o contrabando, embora considerável, se transformara, ao longo dos anos, num contrabando artesanal, familiar, de necessidade e facilidade. Grande parte dos raianos extirpava diariamente uns dolorosos dividendos mais do que indispensáveis do petate – contrabando.

A partir de 1965, e quase durante uma dezena de anos, a construção da barragem – inaugurada em 1970 – e, depois, da ponte, com tudo o que vai de par, atraíra uma infinidade de pessoas heterogéneas para aqueles povoados; fizera daquelas e de mais algumas aldeolas vizinhas uns centros de comércio, consentindo aos nativos ganhar uns inesperados duros – antiga moeda espanhola de 5 pesetas. Esta profusão alastrou-se, sendo gratificante para muitos portugueses da raia, especialmente para os argutos comerciantes.

Dos consideráveis trabalhadores recrutados para a ocasião, um grande número – os menos qualificados – tinha vindo do outro lado. Foi desta maneira que muitos portugueses esbarraram com a sua alma gémea, fundaram uma família e abraçaram outra terra que, para alguns, não era mais do que o prolongamento da deles.

A ponte e o posto de controlo foram inaugurados conjuntamente.

A consumação destas obras – gigantescas para a região – pusera, inevitável e definitivamente, fim ao eldorado de vários anos de convivialidade, de partilhas e de saudável fartura. Os raianos, sem outra opção, voltaram, pois, a engalfinhar-se nos retrospectivos e corriqueiros negócios que, durante os anos de exuberância, tinham gerido ao ralenti, relegado para um plano secundário ou, muito simplesmente, esquecido.

Instintivamente, o Manel constatou que o Land Rover dos guardas civis não estava ali. Era-lhe igual visto não ter nenhum motivo para revelar o mais pequeno receio ou, ainda que fosse, se precaver das autoridades locais. Neste aspecto sentia mesmo uma deliberada displicência que muito o orgulhecia.

O contrabando nunca fora um capricho, uma fidedigna preocupação ou uma fonte de dinheiro para ele. Ajudava ocasionalmente um africano a atravessar o regato que passava ao lado da sua casa, quando este, em regra geral no inverno, se tornava difícil e pernicioso de transpor. No sítio mais acessível, que distava uns passos da foz, a corrente já se tinha mostrado capciosa, traiçoeira, e até fatal, para alguns aventureiros, aos quais o imenso desespero e sofrimento impulsaram a desafiá-la incautamente. Mas ele conhecia-lhe umas falhas, uns vaus...

Desde as bandas de Portelinha, a torrente do riacho ia engrossando com a água das chuvas ou o derretimento das nevadas; auxiliada pelo desnivelamento do solo, roborava gradualmente, activando-se com pertinácia durante os últimos metros, para se aliviar com estrondo no rio Minho. 

Mas era mais por solidariedade do que pela remuneração, embora o gesto nunca o deixasse indiferente, que o Manel corria o risco de transgredir. Não ignorava que a desesperança podia, de maneira imponderada, perturbar a razão e conduzir as pessoas mais sensíveis ou carenciadas por caminhos desvastadores. Por esta razão, na medida do possível, esforçava-se por fazer o que podia para alijar as angústias dos que, do outro lado do ragato, por vezes, imploravam que lhes estendesse a mão.

Os guardas civis estavam ao corrente da sua prática efémera – tudo era trivial num lugar daqueles –, mas nunca lhe tinham manifestado qualquer contrariedade ou desagrado pelo facto. Compreendia muito bem que quem era pago para combater e sancionar infracções não podia tolerá-las. Achava que era uma elementar questão de sobriedade e de deferência. Não, não os desaprovava, sempre tinham sido bastante afáveis e benevolentes para com ele.

 

Continua.

 

MELGAÇO, 21 DE MARÇO DE 1829

melgaçodomonteàribeira, 01.02.20

10 c2 - r minho estrada fiães.jpg

 

UM CRIME EM MELGAÇO NO SÉCULO XIX

 

Fevereiro de 1828. D. Miguel, irmão de D. Pedro IV, assume a regência do reino e jura a Carta Constitucional. Em Março do mesmo ano dissolve o parlamento; em 3 de Maio convoca as Cortes. Estas, restauram o regime tradicionalista, isto é, proclamam D. Miguel rei absoluto.

Os liberais não gostaram; organizam a oposição. É a guerra civil! Acaba em 1834, depois da derrota dos miguelistas. O rei parte para Viena de Áustria e nunca mais põe os pés em território nacional.

Estávamos em plena guerra fratricida; por todo o país D. Miguel perseguia incansavelmente os liberais; estes defendiam-se como podiam e sabiam. D. Pedro, vendo que as coisas não se resolviam, abdica em 1831, a favor de seu filho, a coroa do Brasil e dirige-se a França e Inglaterra em busca de auxílio, a fim de reconquistar o trono português para sua filha D. Maria da Glória (mais tarde D. Maria II).

Melgaço vivia dias agitados. Tomás das Quingostas aterrorizava toda a gente. Ninguém sentia segura nem a vida, nem a fazenda. Com a sua temível quadrilha matava e roubava com o maior desplante. A lei era ele. Por onde passava, deixava rastos de sangue e amargura. Uma das suas vítimas mortais foi o jovem João Vicente. Rapaz pouco dado a bens materiais e a folguedos, tencionava seguir, logo que as condições o permitissem, a carreira clerical. Só a sua mãe conhecia o segredo. Em 17 de Março de 1829 esta faz-lhe saber que tudo está pronto para ele poder assim concretizar seu sonho.

Enquanto não ingressa no Seminário vai tentando não se envolver em conflitos ideológicos ou bélicos. Ajuda na administração da Casa e de vez em quando visita as pesqueiras que a família possui no rio Minho, fiscalizando também a faina dos pescadores. Nesse ano as lampreias, os sáveis e os salmões saíam em abundância. Era, sem dúvida, um bom ano.

João Vicente tinha a estima de toda a gente de Melgaço. A sua índole calma e generosa granjeava-lhe amizades e respeito. Parecia que a sua vida decorria sempre assim: ajudando quem dele precisasse, materialmente ou com a sua palavra amiga e sábia.

No entanto, o seu destino já estava traçado. A morte estava próxima.

Naquela noite fatídica de 21 de Março de 1829, noite chuvosa, trilha o caminho que o leva ao rio. Parecia até um fantasma com a croça sobre o seu corpo miúdo. Não se vê um palmo à frente do nariz, mas como ele conhecia bem o caminho não havia qualquer problema. A croça não lhe servia de muito com a chuva.

Chega perto das pesqueiras, ouve o barulho amigo das águas e com seus olhos habituados à escuridão, perscruta-as. As redes lá estão. Tudo em ordem.

Na tarde do mesmo dia um grupo de homens, à cabeça Tomás das Quingostas, combinava um assalto a uma aldeia galega. Tinham lá gente da mesma laia que com eles colaboravam e desse modo esperavam roubar o suficiente para uns longos dias. Depois de tudo combinado até ao pormenor, foram lentamente descendo o monte em direcção ao rio. Aguardariam ali o sinal e depois atravessariam na batela que estava escondida sob umas espessas ramagens. Esperaram, esperaram, e nada de sinal. Pensaram então que algo se tinha passado com os seus amigos galegos. Outro dia seria. Tomás disse aos seus homens que se dispersassem. Com ele ficaram Caetano Paulo e o Pitães. Virando-se para eles diz-lhes: - Não regressaremos de mãos vazias! Vamos às pesqueiras ver se tem peixe. Arranjaremos depois alguém que nos faça a ceia.

Conhecedores das margens do Minho, avançam afoitamente, sem cautelas especiais.

João apercebe-se do movimento e das vozes e pergunta: - Quem vem lá?!

O Tomás, astuto como uma raposa, responde-lhe: - Gente de bem e de paz!

O rapaz, confiante e contente por ter companhia, aproxima-se deles sem qualquer receio.

O monstro, logo que vislumbra a silhueta esguia aponta-lhe o “bacamarte” e dispara sem hesitar. Um segundo depois os restantes facínoras descarregam as suas armas num corpo cambaleante. Pum! Pum!

O som dos disparos ecoou ao longo do rio durante momentos; depois, um silêncio pesado ficou a pairar no ar.

A besta aproximou-se do cadáver e com as suas botas de militar virou-o, confirmando assim a sua morte. Cruel, como abutre que era, disse aos outros: - Agora temos o caminho livre, vamos ao trabalho!

A justiça, depois de avisada, foi ao local do crime. Junto ao corpo perfurado pelas balas assassinas encontrava-se a croça toda ensanguentada.

Já neste século, um poeta anónimo, escrevia estes versos acerca do Tomás das Quingostas:

 

                                  Homem de muitas matanças,

                                  na guerra civil andou;

                                  herói das extravagâncias

                                  vidas sem conto ceifou!

 

                                  Mais dum século decorreu

                                  sobre a morte do malvado;

                                  que, por ironia, morreu

                                  sob as balas dum soldado!

 

Fonte: Melgaço e as Lutas Civis, 1º volume, Augusto César Esteves, páginas 87 a 92.

Saudações amigas a todos os melgacenses.

 

                                                           

 

   Joaquim A. Rocha

Publicado em: A VOZ DE MELGAÇO

 

Joaquim A. Rocha edita o blog Melgaço, minha terra

 

MELGACENSES MEDALHADOS POR D. LUÍS I

melgaçodomonteàribeira, 25.01.20

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O INCÊNDIO DO 2º CARTÓRIO

Muitas vezes contava meu saudoso avô Florêncio Soares, ou Florêncio Soares Pinto, ou ainda Florêncio Soares da Costa Pinto que com todos estes apelidos anda ele em numerosos papéis oficiais apelidos que, aliás, embora por ter nascido, na Vila, em 1847, dos amores de Maria Angélica Soares (Pata) com Manuel Ventura da Costa Pinto, que viveu e morreu na casa fronteira ao Hospital, hoje pertencente ao sr. Ezequiel Augusto do Vale, por a ter comprado a António Luís Fernandes ou a seus herdeiros, mas dizia eu que muitas vezes contava meu saudoso avô que o incêndio do 2º Cartório, ocorrido ao cair da tarde de 10 de Fevereiro de 1874, foi uma coisa pavorosa.

Este prédio, que era construção recente e, então, um dos melhores da Vila, ficava situado, extra-muros, ali na Rua do Rio do Porto que ainda assim se não chamava contíguo ao de José Cândido Gomes de Abreu e em cujo primeiro piso estava instalado o 2º Cartório e parece que também o Registo Criminal, a cargo do escrivão Vieira: João augusto Novais Vieira. Pois foi aqui que, do meio da papelada, súbita e violentamente, o fogo irrompeu devorando num ápice livros, registos, processos, etc., etc., e entre estes últimos o processo de partilhas dos herdeiros da Quinta da Cordeira, que correra pelo Cartório do escrivão Fonseca: Gaspar Eduardo Lopes da Fonseca.

No rés-do-chão do prédio sinistrado, estava a «Loja dos Pinheiros», dos irmãos Luís Manuel, de Prado, e de Manuel Joaquim Pinheiro, de Paços, que, auxiliados por numerosos populares, ainda conseguiram salvar muitas mercadorias sendo certo que muitas outras se perderam. Ao lado, na loja de José Cândido, passava-se a mesma coisa: ia-se pondo tudo na rua…

Quem sabia contar isto na ponta da unha, era o filho daquele negociante Manuel Luís Pinheiro, o saudoso João Luís Pinheiro; mas quem o contava melhor e com mais riqueza de pormenor, era o referido meu avô o que de resto não era favor nenhum, porquanto foi um dos bravos destemidos que, com desprezo pela própria vida, temerariamente treparam para o telhado da casa de Gomes de Abreu e aqui, indiferentes às chamas que lhes lambiam os rostos e lhes crestavam as barbas, a golpes de serra e machado saparam e de tal modo se houveram que conseguiram que o fogo se não propagasse ao prédio que com tanto denodo defendiam; o que lhes valeu boa recompensa daquele generoso proprietário e, dias depois, serem agraciados por D. Luís I com medalha de prata. Além de meu avô, um destes bravos foi José Dias, de ao pé da Igreja, nascido em Arganil, em 1840, Já viúvo de Maria Florinda Teixeira, e talvez ainda não pensasse contrair segundas núpcias com Maria Joaquina de Sousa, filha do sacristão da igreja da Vila, Caetano Celestino de Sousa e de sua mulher Francisca Luísa Gonçalves, como de facto veio a contrair, em 27-7-1884.

Deste pavoroso incêndio, ficaram apenas as paredes de pé, calcinadas e bastante abaladas, procedendo-se em seguida a um inquérito para averiguar as causas do sinistro e concluindo-se que o mesmo foi casual.

Pois seria casual, seria… mas se é certo que estes incêndios de repartições uma que outra vez são obra do acaso, também não é menos certo que na maior parte das vezes são obra de… «ajuste de contas». A dúvida fica…

P. Júlio Vaz Apresenta Mário

P. Júlio Vaz

Edição do autor

1996

pp. 34, 35

 

UM LENÇOL NO CASTELO DE MELGAÇO

melgaçodomonteàribeira, 18.01.20

24 b2 - castanheiro castro.JPG

 

LUGAR DAS CHEDAS

O lugar das Chedas fica situado na freguesia de Cristóval, na encosta da serra da Aguieira, entre o monte baldio das terças e os cotos da Atabaia, limitado pelo antigo caminho que fazia ligação entre as Lamas da Aveleira e Fiães. Uma zona com bastante arvoredo, onde predomina o carvalho, o vido e a giesta, e existem ainda alguns anelhos de feno.

Desde criança sempre ouvi dizer que naquele local tinha morado gente.

Segundo me contou o sr. António Marques, conhecido pelo Tónio “Trinta”, ao lado da sua propriedade existem ainda as paredes de uma casa paupérrima.

Como conheço o local, no dia 9 de Julho de 2001, pus os pés ao caminho, fui ver umas propriedades pertenças da família nas Terças e na Ameixeira. Andei mais um pouco e desloquei-me ao local indicado pelo Tónio “Trinta”.

Com bastante dificuldade, devido à densa vegetação, mas lá consegui encontrar o local da dita casa, para tirar algumas fotografias que confirmam e testemunham a existência das paredes de uma casa bastante antiga.

As paredes da dita casa encontram-se do lado direito da carrelheira de acesso ao anelho de feno do Tónio “Trinta”, numa tapada que pertence à família do falecido José do Val, conhecido por Zé “Palhaço”.

Pelo que o avô do Tónio “Trinta” lhe contava, essa casa foi utilizada pelo salteador Tomaz das Quingostas, Capitão da quadrilha do Alto Minho.

Dado se tratar de um local isolado e afastado das populações, era o local ideal para o dito Capitão reunir com a sua quadrilha e planear os assaltos a fazer naquelas redondezas.

Contou-me ainda que um dia o Tomaz Codeço de seu verdadeiro nome foi à casa do avô do Tónio “Trinta” para lhe comprar uma junta de bois. O velho homem disse que não vendia, claro, sabia que não lhos ia pagar.

Mas de nada lhe valeu, o Tomaz disse: «Compre outros que estes são meus» e lá lhe levou os bois, contra a força não há resistência, ninguém se opunha ao poderoso Capitão da Quadrilha de Salteadores.

Passados uns dias, Tomaz Codeço foi a casa do dito senhor, levar-lhe o dinheiro dos bois.

O senhor olha para o dinheiro, viu-o cheio de zebro e disse: “este dinheiro é falso”. O Capitão disse-lhe: “Há seu burro, passe-o pelo cabelo da cabeça, limpe e verá que é verdadeiro”. O senhor fez o que o capitão lhe ordenou. Na verdade, o dinheiro era verdadeiro.

O capitão Tomaz diz ao senhor: “Não precisa dizer-me que é verdadeiro, esses pesos são de prata e ainda ontem à noite estavam na casa do padre de Monte Redondo”.

O dinheiro com que o Tomaz Quingostas tinha pago os bois era proveniente do último assalto praticado pela quadrilha do capitão.

Dado tratar-se de quem era, o avô do Tónio “Trinta” tinha pensado: “lá se vão os meus boizinhos, não vou receber dinheiro nenhum”. Mas não, o capitão cumpriu a palavra: “compre outros bois que estes são meus”. O pobre do homem só Deus sabe quanto sofreu, enquanto não recebeu o dinheiro.

Os ladrões por vezes também têm boas acções, e esta foi uma delas.

Como digo, em princípio, as pessoas antigas vão rareando e os mais novos pouco ou nada ligam, e estas coisas vão-se perdendo com o tempo.

Isto é verdade, passou-se comigo, há cerca de 40 anos ouvi várias histórias sobre o Tomaz das Quingostas e não passei cartuxo, como se costuma dizer. Hoje não penso assim, acho que devemos preservar e ouvir com atenção aquilo que os mais velhos nos dizem.

Estava a conversar com um senhor de Alvaredo, chamado Joaquim Basteiro e conhecido por Joaquim “Torno”, à porta da sua casa no Maninho em Alvaredo e passou uma rapariga e ele disse: “Aquela se fosse no tempo do Tomaz das Quingostas o pai tinha que levar-lha a casa, dele”. Não liguei ao que o sr. Joaquim “Torno” queria dizer com aquilo.

Quando há tempos conversei com o António “Trinta” sobre o Tomaz das Quingostas, depois de me ter contado as histórias que já contei, disse-me: “Olha Zé, além do que já te disse sobre esse homem, vou-te dizer uma coisa que não te havia de dizer. Se tinhas uma filha boa, se ta mandasse levar a casa, tinhas que levar-lha, ou senão eras linchado, também ouvi isto ao meu avô”.

Pensei um pouco, olhei para ele e disse-lhe: “Já não és o primeiro a dizer-me isto”. De repente, veio-me à minha mente aquilo que o Joaquim “Torno” me queria dizer há cerca de 40 anos atrás e eu não prestei a devida atenção.

Sobre este testemunho aos leitores não é difícil adivinhar qual a intenção do Tomaz das Quingostas. Sem comentários, não tenho palavras para comentar este acto deste salteador.

Não posso confirmar nem desmentir, pelo que ouvi e li, este homem monstruoso trazia o povo do Alto Minho aterrorizado.

No entanto, havia quem dizia que roubava aos ricos para dar aos pobres. Isto passou-se entre finais do século XVIII e o primeiro quartel do século XIX. Será que nessa altura já era financiado algum grupo político ou terrorista?

Uma coisa é certa, segundo afirmam, quando saía a tropa para o prender, alguém subia ao castelo de Melgaço e dependurava um lençol, de maneira a ser visto das Quingostas. Era sinal para ele fugir que as forças da ordem o iam prender.

Certamente que havia algum agente infiltrado nas forças da ordem, que protegia o capitão da quadrilha de malfeitores do Alto Minho.

Acerca deste assunto, os leitores que o desejarem, podem encontrar na Casa da Cultura literatura escrita pelo Dr. Augusto Esteves, com mais pormenores, sobre o referido capitão de quadrilha do Alto Minho “Tomaz Codeço”.

 

Melgaço, Minha Terra – Minha Gente

Histórias de um Marinheiro

José Joaquim da Ribeira

Edição: Câmara Municipal de Melgaço

             José Joaquim da Ribeira

2006

pp.73-75

l

ANTIFRANQUISTAS EM CASTRO LABOREIRO E MELGAÇO

melgaçodomonteàribeira, 11.01.20

P1090625 Américo Rodrigues e unha testemuña da v

    américo rodrigues e uma testemunha da vida arraiana em melgaço na época das ditaduras

 

REFUGIADOS E GUERRILHEIROS ANTIFRANQUISTAS EM CASTRO LABOREIRO (1936 – 1943)

 

 Américo Rodrigues (1)

Castro Laboreiro, 25.05.2017

 

A freguesia montanhosa é rodeada a norte, nascente e sudeste pela Galiza – várias comarcas – perfazendo a raia seca entre Minho e Lima, traçada desde o marco 2 ao 53. No sul da freguesia, a fronteira é riscada pelo rio Laboreiro, desde Mareco ao sul do Ribeiro de Baixo. Pela sua situação geográfica, nos anos trinta, o contrabando era a principal indústria local. Em 1936 existiam três postos de Guarda Fiscal (GF): Portelinha (saída da freguesia em direcção a Melgaço), Vila (central) e Ameijoeira, junto ao marco 52 e 53. Fora da freguesia, bem perto, o posto de Alcobaça.

Nos anos 70, nas inverneiras, os caminhos eram empedrados e a luz era de candeia. À época, minha avó materna tinha teto de colmo. Era normal os vizinhos juntarem-se à troula (2) para matar o tempo invernal nas noites mais longas. Depois da ceia castreja (3), os contos nos escanos, junto ao lume, eram para todos os gostos. Ocupavam o palco brilhantes narradoras, nascidas nos primórdios do século XX. O guião histórico e cultural era sempre riquíssimo. É verdade, nestas terras altas, discorrendo sobre assuntos do terrunho, as mulheres sempre foram mais sábias que os homens, condenados desde tenra idade às agruras da emigração. A guerra civil de Espanha (1936-1939) por vezes vinha à baila. Os “roxos” (4), sem saber na verdade quem eram, os falangistas ou Francisco Franco, que tinha o nome do meu avô paterno – Francisco Rodrigues falecido numa pedreira de Paris em 1933 -, começaram a fazer parte do meu léxico.

Os dois esconderijos de refugiados mais próximos do lugar do Barreiro, a Gruta dos Refugiados do Piorneiro (na verdade dois sítios), e a Lapa da Ponte Cimeira, em frente ao monte da Fraga, eram referências obrigatórias. Alguns vizinhos, principalmente rapazes novos, tinham levado comida aos galegos que estiveram nesses locais. No Piorneiro estiveram homens fortemente armados. Chegaram a fazer um carro de vacas para particular. Quem não faltava também, nesses passos nostálgicos, eram os escapados que acolheu a vizinha da minha criação, Isabel Domingues, a tia Carvalha, também Valenciana, no Barreiro e em Queimadelo, lugar onde a tia Monteira também os recebia. Estes desesperados muitas vezes ajudavam na economia do lar, com víveres ou dinheiro. Contribuir com trabalho braçal era raro pela excessiva mão de obra (5) existente naquele período e pela pobreza dos sítios.

Eu imaginava a gabada beleza da professora Eudosia Lorenzo Diz, “a Maestra”, denunciada de forma covarde e aprisionada a 17 de maio de 1938, juntamente com os seus progenitores, pelo chefe da Polícia de Vigilância e Defesa do Estado (PVDE, de 1933 a 1945) do Peso, acompanhado de guardas do Posto de Portelinha, no lugar do Rodeiro, onde  ensinara as primeiras letras às crianças que a procuraram, na casa de António Domingos Rendeiro.

Salvou-se milagrosamente e rumou a Marrocos, via Lisboa, em 10 de agosto de 1938. Tinha chegado a Castro Laboreiro em 20 de julho de 1936.

Rosaura Rodriguez Rodriguez, refugiada, apesar da jovialidade, já tinha quase 80 anos, morava numa casinha feita pelos vizinhos no lugar de Açureira, a 200 metros da minha escola primária de inverno. Era de Bouzadrago, aldeia galega que dista poucos quilómetros. Optara por ficar para sempre no lado português. Desaparecida a loja permanente do tio Bernardo no lugar, quando os vizinhos subiam às Brandas esta mulher, aparentemente singela, ficava sozinha, rodeada de carvalheiras durante muitos meses. Sem medo algum, dava que cismar aos mais novos, era uma vida de mistério e coragem.

Fascinou-me sempre o episódio da morte violenta do guarda fiscal na taberna da Macheta, Vila de Castro Laboreiro. É verdade que fui educado a desconfiar de guardas mas, seria correcto os contadores da tragédia não condenarem o crime de forma inequívoca? O atirador teve poiso em Várzea Travessa, Barreiro (casa da tia Carvalha) e Ribeiro de Cima, suspeitava-se que era um oficial importante da aviação, apresentava-se de forma impecável, fato e gabardina, muito educado, tinha escola, diziam os castrejos que com ele privaram. Era conhecido por Manolo, o Dente de Ouro. Depois do trágico acidente foi confrontado pelas autoridades no Ribeiro de Cima. O perfil, desaparecer sem deixar rasto, e o acontecimento brutal e decisivo que colocou as autoridades definitivamente no encalço dos refugiados, ficou para sempre na memória da freguesia.

Os galegos que prenderam no Bago de Baixo foram fuzilados. A guarda cercou o lugar e foram encontrados na côrte das vacas na casa dos Negritos. Estavam na moreia do estrume (6), roçado no monte e destinado à cama dos animais. Usaram estacas de ferro para os procurar e fazê-los sair.

Júlio Medela, refugiado da Lobeira casou no lugar de Formarigo, os filhos frequentaram a escola e os bailes casadoiros com os nossos pais.

Contavam-se fatias de assaltos violentos a lojas galegas nos anos 40, realizados por alguns escapados. Os atracadores usavam armas de guerra. O Rizo e Enrique, o Médico, eram nomes famosos.

Na minha criação, estas e outras referências a nomes, profissões, locais e episódios, ainda abundavam por toda a freguesia.

A Guerra Civil de Espanha de alguma maneira fez parte da minha meninice. Há muito que o tema me fascina, anda na minha cabeça, algumas vezes pensei em escrever sobre o assunto, mas tinha algum receio, porque me faltavam dados e, principalmente não valorava convenientemente a temática.

 

(1) Docente de informática. Administrador de Sistemas Informáticos.

Áreas de formação (Universidade do Minho): Informática, Matemática e Educação.

Co-Fundador do Núcleo de Estudos e Pesquisa Montes Laboreiro.

(2) Serão nocturno de convívio.

(3) Jantar.

(4) Alguém politicamente das esquerdas.

(5) Centenas de homens que emigravam normalmente para Espanha e França estavam junto à família.

(6) Em Castro, mato constituído de tojos, carqueijas, etc.

 

BOLETIM CULTURAL DE MELGAÇO

Nº 10

2018

pp. 168-172

 

HOMENAGEM A PEPE VELO EM MELGAÇO

 

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 apresentação do evento

 

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 descerrar do monolito

 

P1090632 Representante Deputación de Pontevedra.J

 representante deputación de pontevedra

 

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 representante câmara municipal de melgaço

 

P1090621 Xosé González Martínez (Asociación Lo

 xosé gonzález martínez - asociación lois peña novo

 

P1090627 Antonio Piñeiro,  estudoso de Pepe Velo

 antonio piñeiro estudoso de pepe velo e traballa na casa do concello de celanova

 

P1090649 Público en xeral o día da inauguración

fotos cedidas pelo senhor xosé garcia 

 

A PÁGINA ON-LINE DA CÂMARA MUNICIPAL DE MELGAÇO, PORTAL MUNICIPAL DE MELGAÇO, NÃO DEDICOU UMA ÚNICA LETRA A ESTE EVENTO QUE FOI PATROCINADO PELA PRÓPRIA CÂMARA.

RUA DOS REMÉDIOS

melgaçodomonteàribeira, 04.01.20

1 ac 2 25 abril 115 - política de 1974 em melgaç

De facto, o esconderijo era aceitável. Emitir a um nível inferior ao pavimento da rua sem grandes hipóteses de montar a antena no exterior podia não resultar em qualidade, mas valia a pena experimentar.

A comunicação com Ponta Delgada foi importante, tendo obtido a informação que iriam ser infiltrados dois agentes do SOE que falavam espanhol… um para o norte e outro para o sul do continente, que falavam colaborar estreitamente com ele no comando das operações e composição de células. As coordenadas do terreno onde iriam ser lançados de paraquedas foram dadas pelos serviços portugueses, sendo os agentes e respetivo equipamento apoiados a norte em Castro Laboreiro pelos “argentinos” e no sul por ex-membros da PVDE e da Legião já contactados pelo agente E. Os lançamentos eram efetuados por aviões vindos das Canárias e dos Açores, onde já se encontravam os operacionais. Dependendo das condições meteorológicas estudadas pelos respetivos departamentos militares, se fossem benéficas e coincidissem com noite de lua favorável ao voo à baixa altitude do qual eram lançados as missões eram realizadas. Na véspera do lançamento a BBC emitiria a senha Das Pampas Los ejes de mi carretera interpretado por Yupanqui.

Passaram vários dias, ouvindo a emissão da BBC em português. Relatos de manobras militares, do esforço dos homens e mulheres do Reino Unido em colaborar com as vitórias de Churchill e contrainformação negra sobre os países do Eixo. Alguma música… Nada sobre Yupanqui. Eduardo sabia a ansiedade que os dias de espera provocavam nos operacionais e nos que os iriam receber no solo. Tudo dependia das condições meteorológicas. Até que Fernando Pessa depois de descrever os últimos desenvolvimentos da guerra… e agora Das Pampas Los ejes de mi carretera interpretado por Yupanqui. Oiçam esta voz maravilhosa… Até amanhã.

Estava dada a ordem. Eduardo não sabia quem eram os “argentinos” nem o agente E, mas tinha a certeza de que amanhã seriam lançados reforços no norte e sul. Estávamos no final de abril e em 2 meses estava montado o embrião da guerrilha em Portugal continental.

Entretanto em abril o Terceiro Reich no dia 6 bombardeou a cidade de Belgrado que se rendeu 6 dias depois. No Norte de África na Líbia Italiana começou a Batalha de Tobruk entre as forças das Potências do Eixo contra os Aliados maioritariamente constituídos por tropas Australianas. Erwin Rommel começou a investida do Afrika Korps. O Estado Independente da Croácia foi proclamado em 10 de abril de 1941 e foi reconhecido de imediato pela Alemanha e Itália.

Em 13 de abril o Império do Japão e a União Soviética assinaram o Pacto de Não Agressão nipónico-soviético. Perante a invasão alemã da Grécia que começou em 6 de abril o Primeiro-ministro grego Alexandros Koryzis suicidou-se no dia 18 quando Atenas ia ser ocupada. Três dias depois 230.000 soldados gregos renderam-se. O exército alemão ocupou a capital Atenas, em 27 de abril, avançando para a costa sul da Grécia anexada no dia 30 de abril com a captura de 7000 soldados das forças do Reino Unido, da Austrália e Nova Zelândia. A Grécia foi ocupada por forças militares da Alemanha, Itália e Bulgária. O Governo grego refugiou-se em Creta com o apoio de Aliados e uma feroz resistência civil.

Eduardo mantinha contactos regulares com Ponta Delgada e Londres, fornecendo informações sobre as atividades no terreno e recebendo instruções. Já o fazia de casa. A próxima e arriscada missão era a realização de duas reuniões em separado com os dois agentes SOE recentemente introduzidos em Portugal, que se deslocaram a Lisboa, uma vinda de Vila Real de Santo António e um outro do Minho, concretamente de Castro Laboreiro. Qualquer falha nestas reuniões comprometia a implementação da Resistência portuguesa. O facto de ser uma agente que chefiava a região sul não preocupava Eduardo. Tinha feito a preparação do SOE com algumas mulheres que se mostravam bem aguerridas e competentes. As reuniões seriam em dias diferentes e individualmente com cada um deles. Os locais também diferentes.

pp.193-195

 

RUA DOS REMÉDIOS

Fernando dos Santos

Edições Vieira da Silva

1ª Edição

2019

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Melgaço, do monte à ribeira à conversa com o autor

Mmr – Num livro em que a história se mistura com a ficção onde podemos situar Castro Laboreiro?  Ficção ou história?

FdS – O papel das gentes de Castro Laboreiro no apoio aos refugiados da Guerra Civil de Espanha foi bem efectiva e nada ficcional. Exaustos e perseguidos encontram aqui (contra as ordens de Salazar) o bálsamo da sobrevivência. Alguém conseguiu para eles passaportes falsos da Argentina. Por isso eram conhecidos por “argentinos”.

Mnr – Qual o contributo da gente de Castro Laboreiro na Guerra Civil Espanhola?

FdS – O povo português ajuda sempre os necessitados. Seguramente havia em Castro Laboreiro quem não visse com bons olhos os republicanos espanhóis e em contraste quem os apoiasse à revelia do status salazarista. Mas já alguém viu um natural de Castro Laboreiro recusar alimento ou guarida a quem sofre?

 

 

VASCO DE ALMEIDA, O SENHOR CULTURA DE MELGAÇO

melgaçodomonteàribeira, 28.12.19

 

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UM LUGAR ONDE NADA ACONTECIA…

 

A novena e a penicilina surtiram efeito, o Zéca do Aurélio estava fora de perigo. O júbilo foi grande entre a população! O doutor Suíça acrescera mais um ponto no seu já famoso curriculum de médico. Mais algumas semanas e o rapaz voltou às suas actividades: participar no comércio do pai e administrar o Rápido Futebol Clube de que era o presidente da directoria.

A mãe do médico, a dona Teresa Pedreira faleceu. O funeral foi muito concorrido mercê do prestígio do filho. Causou assertivas críticas a atitude do Amílcar da Lucrécia. Na hora em que o préstito passou na rua do café do Hilário ele estava jogando bilhar. Como podia fazer uma coisa daquelas? Comentava o povo. Não acompanhar o funeral da mãe de quem lhe salvara a vida? Inquirido, vendo a burrice que fez, a Amílcar desculpou-se dizendo não ter calçado apropriado, só tinha aqueles ténis brancos e achou que não ficasse bem.

O Vasco tinha escrito uma nova peça e arregimentava os elementos para a encenar. Escalava os rapazes e raparigas com reconhecido pendor artístico por já terem participado em espectáculos anteriores. Era mais uma revista satirizando os acontecimentos da vida local com diálogos e canções.

Personagem principal era o Vasco Almeida, reconhecido como intelectual autodidacta. Com apenas a instrução primária, adquirira, entretanto, grande bagagem cultural, através de leituras e do convívio da penitenciária com expoentes literários e científicos de oposição ao governo. Desde cedo, o Vasco mostrara-se um garoto à frente dos seus colegas. Quando moço aprendeu a dirigir automóveis e foi motorista particular de um médico na vizinha vila de Monção. De ideias políticas avançadas envolveu-se em organizações clandestinas de tendência comunista. O regime político do país titulava-se Estado Novo Corporativo, administrava não permitindo oposição, cerceando a liberdade de expressão e opinião de intelectuais que pregavam o regime democrático. A ideologia comunista que fomentara a guerra civil em Espanha, tinha seus adeptos que sorrateiramente envolviam os descontentes com a situação política de Portugal.

Com as economias que tinha mais a ajuda dos correligionários, comprou, o Vasco, um automóvel Morris, novo, e foi ser motorista de praça, autónomo. Na clandestinidade, os oposicionistas do regime tramavam uma revolução que seria comandada por Paiva Couceiro, oficial do exército, monarquista, ex-governador de Angola, exilado em Espanha. Foi o Vasco escalado para em seu carro transportar o chefe revolucionário desde a fronteira da Galiza até determinado ponto em Portugal. Na noite aprazada, certificados que a estrada estaria desguarnecida, foi empreendida a marcha “libertadora”. No concelho de Valença, decorridos alguns quilómetros em Portugal, a estrada foi bloqueada por membros da Polícia de Vigilância e Defesa do Estado, fortemente armados que abortaram a marcha dos revoltosos. O Vasco, como os demais, foi recolhido à Penitenciária do Porto. Um flagrante daqueles resumiu-se a processo sumário com vários anos de detenção.

No cárcere, foi vítima de torturas para lhe arrancarem a identidade de outros elementos e planos da organização, coisas que ele desconhecia. Os maus-tratos danificaram-lhe os dentes, afectaram-lhe a vista, passando a andar de óculos, também os pulmões foram atingidos donde resultou uma asma crónica. Emagreceu, envelhecendo prematuramente. Em contra partida, ganhou vastos conhecimentos em todas as áreas da ciência, no convívio com os outros detidos.

Aconteceu um facto inusitado que desanuviou, em parte, aquela vida de reclusão.

Uma das moças do apostolado que ministravam o conforto na prisão apareceu grávida. Era solteira e não tinha namorado. Confessou que fora o Vasco, na prisão, o co-autor daquela infelicidade. A administração do presídio submeteu o condenado a interrogatório sobre o caso. O Vasco justificou-se explicando o óbvio: ele não saíra da prisão, fora a rapariga que o visitara e ele não a forçou a nada. Acontecera naturalmente entre duas pessoas carentes, ela no vigor da sensualidade, e ele sem contacto feminino há muito tempo. Os juízes compreenderam as circunstâncias e o caso ficou por isso mesmo. A rapariga desenvolveu a gestação no seio familiar que lhe deu todo o apoio e até lhe arrumaram um namorado com quem casou mais tarde e assumindo o Vasquinho, nome dado à criança.

Expiado o tempo da condenação voltou o Vasco à liberdade, comprometendo-se a não se insurgir contra o status-quo, porém mais doutrinado em socialismo e comunismo.

A Zinda, esposa do Vasco, após o regresso deste, ao que contavam as más-línguas, provocou um aborto, com consequências funestas e faleceu.

Aquela rapariga que a ele se entregara na prisão, soube do falecimento da esposa e escreveu-lhe: propunha-se a abandonar o marido e o segundo filho, que dizia “vítima de uma contracção sexual”, e juntar-se ao Vasco. Ele não respondeu!

Os filhos mais velhos do Vasco, António e Francisco, já tinham ido procurar a própria vida; as duas raparigas, Maria Teresa e Elza, conseguiram, com o auxílio das senhoras Teixeiras, internar-se no Instituto Postigo do Sol, no Porto, onde se educaram até à maioridade e posteriormente emigraram para o Brasil.

 

                                                                           Manuel Igrejas

 

PARA TODOS OS AMIGOS QUE NOS VISITAM, UM BOM 2020

 

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foto câmara munipal de melgaço

 

27/12/19

EMIGRANTE RECONSTRÓI  ALDEIA NATAL NO GERÊS

NOTÍCIA NA SIC E EXPRESSO

EX-EMIGRANTE RECONTRÓI A ALDEIA NATAL EM CASTRO LABOREIRO

Ficamos a saber que Castro Laboreiro fica no Gerês, Lamas de Mouro deve ficar ao lado de Penela e Melgaço é uma freguesia de Mértola. Tanta ignorância de quem tem por missão informar. Tenham vergonha, sejam profissionais, senhores "jornalistas".

Ilídio Sousa, editor do blog Melgaço, do monte à ribeira

 

 

 

 

 

 

 

 

 

NÚCLEO MUSEOLÓGICO DE MELGAÇO

melgaçodomonteàribeira, 21.12.19

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ACHADOS ARQUEOLÓGICOS DE MELGAÇO CONVERTIDOS EM MUSEU

 

16.02.2001 – Por Lusa

 

Os achados arqueológicos resultantes das escavações que decorreram na Praça da República, em Melgaço, vão ser convertidos em peças de museu, numa empreitada que deverá estar concluída no início do Verão.

Segundo o chefe das escavações, Brochado de Almeida, o principal achado é um fosso medieval desconhecido em todos os registos documentais e gráficos, mas também a antiga muralha da vila, agora descoberta.

O espaço museológico a criar, cujo estudo prévio já foi aprovado pelo Instituto Português do Património Arquitectónico, resultará do restauro do fosso medieval e da muralha.

Algumas das peças arqueológicas encontradas serão também objecto de restauro e reprodução de forma a poderem ser expostas, estando ainda previsto a criação de painéis informativos e explicativos para auxiliar os visitantes a interpretar aquilo que vão observando ao passarem no espaço entre o fosso medieval e a muralha.

Durante as escavações na Praça da República de Melgaço foi encontrado um vasto espólio de cerâmica, pertencente aos séculos XVII, XVIII e XIX, estando muitos dos fragmentos em condições de restauro, além de cerca de três dezenas de moedas, de que há a destacar uma moeda de 400 réis de D. João I.

Estas escavações arqueológicas, que decorreram de Dezembro de 1999 a Maio de 2000, precederam as obras de remodelação da Praça da República, já que a câmara não quis correr o risco de ver as máquinas destruírem alguns pedaços da história do concelho. É que a Praça da República situa-se no enfiamento da couraça nova desenhada por Duarte d’Armas, que protegia o acesso ao posto de abastecimento da vila e que, posteriormente, viria a ser remodelada, por altura das obras de adaptação da fortaleza moderna.

Segundo Rui Solheiro, presidente da autarquia local, a remodelação da Praça da República, actualmente em fase de conclusão, visa aproveitar ao máximo as potencialidades do espaço como zona de estadia e encontro, acabando com o “uso desregrado” que ali se registava, “fruto da falta de elementos organizadores e caracterizadores”.

A empreitada está orçada em cerca de 100 mil contos (498 mil euros), metade dos quais será garantida pela parte pública do Projecto Especial de Urbanismo Comercial, desenvolvido no âmbito do Programa de Apoio à Modernização do Comércio (Procom).

 

Publicado no jornal Público

 

http://desporto.publico.pt/Londres2012/noticias