Saltar para: Posts [1], Pesquisa [2]

MELGAÇO, DO MONTE À RIBEIRA

História e narrativas duma terra raiana

MELGAÇO, DO MONTE À RIBEIRA

História e narrativas duma terra raiana

AINDA O JULGAMENTO DO LILI

melgaçodomonteàribeira, 02.06.20

14 b - Câmara - trinual à esquerda r-c.jpg

tribunal no r/c esquerdo. no topo o antigo escudo de melgaço

UM LUGAR ONDE NADA ACONTECIA

XIV

A venda da penicilina sem autorização já não era mais crime contra a economia nacional, mas continuava controlada. Outros medicamentos mais evoluídos já tinham aparecido.

A Estreptomicina era agora o antibiótico mais usado para combater a tuberculose pulmonar. Mas o processo criminal contra o Lili perdurava, pois tratou-se de denúncia sobre contrabando. Nova sessão foi marcada para inquirição de testemunhas.

Oito horas da noite ia iniciar-se a sessão. As janelas que davam para a Feira Nova foram abertas de par em par, mesmo assim o calor era sufocante. Havia excesso de gente no plenário, tinham colocado bancos suplementares mas não chegaram, tinha gente em pé. O fim do verão tornava insuportável o ambiente no salão de audiências. O burburinho cessou quando o Juiz tomou o seu lugar. O Lili, metido na sua roupa nova como se fosse para uma festa, estava em pé, com um sorriso apalermado, intimamente vaidoso por ser o alvo das atenções. Era vaidoso a esse ponto.

Foi chamado para depor o José Félix. Nada sabia sobre a penicilina, disse, mas podia dar informações sobre procedimentos do indiciado. Contou que em determinado dia o Lili entrou no café Melgacense, sua propriedade, e dirigindo-se ao balcão vitrina pediu que lhe mostrassem alguns tipos de queijo. Das três qualidades que lhe exibiram fez questão de provar, um deles ainda por encetar. O funcionário, julgando que fosse comprar grande quantidade deu-lhe as provas. Com aquele seu jeito afectado, meticuloso, saboreou com calma as provas e após reflectir decidiu: “deste aqui, pese-me cem gramas”. Houve riso geral no plenário. A rapaziada que estava assistindo ficou perplexa. Entreolhavam-se e faziam gestos de espanto, por não entenderem o que se estava passando ali. O que estava sendo dito nada tinha a ver com o assunto do julgamento, que de resto era de domínio público aquela maneira de ser do Lili, que passara a incorporar-se no folclore da terra.

Outra testemunha informou, no depoimento, que na sua farmácia, o Lili adicionava goma-arábica em algumas fórmulas que manipulava. Novo assomo de perplexidade tomou conta da assistência, era sabido que tal adição de goma fazia parte de determinadas fórmulas.

Começou a tornar-se nítido na cabeça das pessoas que a única finalidade daquele julgamento era desmoralizar o Lili. Procurar saber se alguém vendia penicilina no contrabando, não interessava. Convinha preservar os figurões.

 

Publicado em A Voz de Melgaço

 

                                                               Manuel Igrejas

 

 

 

IGREJA DE SANTA MARIA MADALENA EM CHAVIÃES - MELGAÇO

melgaçodomonteàribeira, 30.05.20

70 a2 - igreja sª mª madalena - chaviães colec

 igreja de chaviães - colecção património de melgaço cmm

 

AS PINTURAS MURAIS DA IGREJA PAROQUIAL DE CHAVIÃES

Os Reis Magos e as interpretações ao longo dos tempos

A propósito da comemoração dos 500 anos da atribuição da Foral novo à vila de Melgaço, efectuada por D. Manuel I a 3 de Novembro de 1513 – a efeméride cumpriu a 3 de Novembro de 2013 cinco séculos de história – o município melgacense realizou algumas iniciativas de análise histórica ao período quinhentista.

A 3 de Agosto de 2013, inserida no programa da Festa da Cultura, a autarquia promoveu uma palestra relativa ao Foral, proferida pelo professor José Marques (que já transcrevemos em edições anteriores); mas também uma apresentação do valor histórico das pinturas murais de gosto manuelino existentes na Igreja Paroquial de Chaviães, tendo como oradora a professora auxiliar do Departamento de História da Universidade do Minho e Investigadora do CITCEM, Paula Bessa.

O “valioso e notável” conjunto de pinturas murais da Igreja de Chaviães é apontado pela investigadora como sendo das primeiras décadas de Quinhentos, portanto, contemporâneas deste período de Foral novo. Encobertas por camadas de reboco, foi no decurso de obras realizadas no interior daquele templo, há poucos anos, que as pinturas foram descobertas, tendo o pároco de então, Manoel Batista Calçada Pombal (actual presidente da Câmara de Melgaço), defendido a sua preservação e recuperação de um registo de valor histórico.

A análise da professora Paula Bessa indica que “só falta proceder ao seu restauro por técnicos especializados”, que revela uma boa conservação das pinturas, apesar “do aspecto velado que lhes dá a disposição de sais”, como refere neste estudo.

A pintura que ilustramos na imagem, referente aos Reis Magos, merece atente análise da investigadora, que indaga sobre “que razões poderão ter levado os paroquianos de Chaviães a mandarem figurar esta cena num local visível do portal principal da igreja e também da porta sul?”

Segundo o estudo, a figuração, que alude a um episódio importante da infância de Jesus, “o momento em que é reconhecido por gentios como Rei dos Judeus”, era também mote de uma das festas do calendário litúrgico. No entanto, os Reis Magos eram também invocados como protectores de peregrinos e viajantes.

As singularidades desta representação prendem-se com algumas “liberdades” tomadas, nomeadamente por ilustrar os Reis Magos de forma diferente daquilo que era então considerado. A análise de Paula Bessa dá-nos conta dessas diferenças: “Nos séculos XV e XVI, Gaspar é geralmente representado como jovem e imberbe, Baltazar como um homem maduro e, usualmente, negro, representando a África, e Melchior como um velho calvo e de longa barba branca”.

Alheio às “convenções” geralmente seguidas ou livre para interpretar, o autor mudou a fisionomia dos Reis Magos: “Melchior e Gaspar parecem da mesma idade madura, ambos com barba, e é Melchior que é representado como negro” esclarece o estudo.

As irregularidades desta passagem Bíblica estendem-se até à “Adoração dos Magos”: “O prolongamento da cena pela parede do arco triunfal, separando a representação de Baltazar da legenda que o identifica e que fora colocada na parede da nave, a colocação estranha da sua coroa que, em vez de deposta no chão, em sinal de humildade para com a Mãe de Jesus, aparece numa posição elevada”.

As conclusões do estudo apresentado pela investigadora Paula Bessa poderão ser consultadas em publicação alusiva aos 500 anos do Foral de Melgaço, a publicar.

 

Em A Voz de Melgaço

Texto e fotos de João Martinho e Gabriel Cristiano.

 

 

TEATRO É EM VÍDEO. NÓS FICAMOS EM CASA

 

 

 

MENDIGOS E VAGABUNDOS NO CONCELHO DE MELGAÇO

melgaçodomonteàribeira, 26.05.20

166 - 2 Arte Pintura António Ramalho Mendigo 1896

antónio ramalho - mendigo - 1896

 

ENTRE A POBREZA E A MARGINALIDADE: MENDIGOS E VAGABUNDOS NO ALTO MINHO DE OITOCENTOS

Alexandra Esteves

Segundo o número 8, do artigo 249.º, do ( …) Código Administrativo de 1842, competia aos administradores dos concelhos o exercício da vigilância e polícia sobre os mendigos e vadios. Em 1869, o governador civil do distrito de Viana do Castelo recordava que nenhum mendigo podia esmolar no respectivo concelho de residência sem estar munido de licença. Determinava ainda que só poderia ser concedida permissão para mendigar aos indivíduos naturais do concelho, ou que nele residissem há mais de dois anos, e desde que fossem reconhecidamente pobres e estivessem  impossibilitados de trabalhar. A indigência, a idade e a residência dos peticionários tinham que ser comprovadas pelos párocos e regedores, ao passo que a incapacidade física ou mental devia ser atestada por documento médico. Considere-se, a propósito, o requerimento para pedir esmola, formulado por João Manuel Esteves e confirmado pelo regedor da freguesia de Castro Laboreiro:

 

“Diz João Manoel Esteves solteiro da Villa de Castro Laboreiro da Comarca de Melgaço que achando-se já de idade de sessenta anos, e sem meios alguns de subsistência como mostra pelos documentos juntos, do Reverendo Parocho, e do Administrador do Concelho, e alem disso sem vista por cauza das cataratas, e lezo do corpo da parte direita de hum ataque que sofreu do estupor já há mais de quatro annos, durante os quaes tem sido socorrido por hum seu irmão, porque do contrario já teria sido vitima da morte: hé neste estado miserável que o supplicante implora a benovolência de V. EX. a fim de que todas as juntas de Parochia do Districto concorrão com hum subsidio; bem como todos os thezoureiros das Misericórdias e confrarias segundo suas forças  para a conservação de seus dias; pois por esta graça o supplicante não cessara de rogar a deus pela conservação de V. EX.ª”.

 

Através de editais afixados nas freguesias, mencionando os documentos a apresentar, os mendigos eram convocados para comparecerem na administração do concelho. Na ocasião, deviam estar presentes os regedores, para conferiram a sua identidade, e os médicos, para analisarem o seu estado de saúde. Concluído o processo de triagem, os que fossem considerados aptos para trabalhar tinham que assinar uma declaração onde se comprometiam a abandonar a mendicidade e procurar uma ocupação. Se fossem encontrados a mendigar sem causa superveniente e sem licença, eram entregues ao poder judicial para serem punidos na conformidade da lei.

 

INTERCONEXÕES

Revista de Ciências Sociais

Vol. 1  N.º 1

 

http://academia.edu

 

 

FRAGMENTOS DE VIDAS RAIANAS 8

melgaçodomonteàribeira, 22.05.20

 

Apesar disso, com as parcas recompensas da lavoura, os magros teres e uns trapicheos – negócios ilegais – circunstanciais, a existência jocosa desta população era visiva.

A gente aceitava a vida rotineira, estóica, compassada pela carrinha que, de manhã, lhe trazia peixe fresco de Vigo; pelo tempo, que era o decisor invariável da viveza e dos encargos colectivos; e pelos crebros comboios que faziam ou não uma transitória paragem no povoado.

O prestigioso e sumptuoso Expreso Rías Bajas que unia a Ciudad Olívica – Vigo – à capital do Reino – Madrid –, e ali apitava por volta das onze da noite, deixava-os impressionados, atónitos. Cópia do famigerado Orient Express, fora fornido, como outros, pela Compagnie Internacionale des Wagons-Lit, depois da sociedade belga que criara o ilustre comboio cessara toda exploração como operadora ferroviária em 1971.

Através das vastas e lustrosas vitrinas do vagão-restaurante, enxergavam os viajantes endinheirados diante de pantagruélicos e refinados pratos. Este espectáculo mirífico e, ao mesmo tempo, fantasmagórico – possível devido à morosidade da locomotiva, compelida pela sinuosidade da linha – pasmava-os e devolvia-lhes a modicidade e a inanidade com as quais se debatiam

Para a prosperidade das aldeias e os seus moradores, a estação era capital, era o seu âmago; a linha Vigo-Orense, o sendeiro para as deslocações inevitáveis. O comboio constituía a única alternativa para os poucos jovens que ainda havia nos lugares redondezes de ambas margens, e cujo futuro dependia dele. Os colegiais utilizavam-no para ir a Ribadávia onde se situavam os colégios mais acercados; os que faziam estudos superiores apanhavam-no à sexta e ao domingo à tardinha para regressar a Santiago de Compostela, depois de um fim-de-semana entre os seus.

Da orla esquerda, distinguia-se um belo, harmonioso e sólido casarão burguês. O contraste com as casas das aldeias das duas ribas era espectacular. Os que se dirigiam para a estação ficavam uns instantes admirativos diante daquele solar, apesar de já o terem visto,. O considerável terraço e as colossais galerias envidraçadas, face ao rio, ofereciam uma vista fantástica sobre o Minho, e Portugal. Mais abaixo, na parte traseira, uma serração inteiramente mecanizada era imperceptível. Nela trabalhava perto de uma dezena de homens. Mensalmente, despachavam vários vagões abarrotados de pranchas, vigas, traves, troncos e outras madeiras para toda a Espanha. O caminho-de-ferro, ao qual estava subordinada, configurava a sua artéria indispensável.

Era pertença da família Alves Gomes. O genitor, natural de Ponte de Lima, casara com uma espanhola, mas tanto ele como os numerosos filhos eram conhecidos pelos Branquinho. O contrabando fez dele um homem fértil. Várias casas e terrenos disseminados pela zona, serviam-lhe de entreposto para tudo o que contrabandeava. Excluindo o chefe da estação, só ele usufruía de telefone. Apesar da sua influência e dos seus conhecimentos, teve de se refugiar uns tempos em Cevide – onde começara a negociar antes de se instaurar do outro lado – por ter sido objecto de delação. Alojou-se na casa onde vivera, meio degradada. Dali, com um cúmplice, coordenava o seu business sem ser molestado. Para controlar os guardas fiscais com mais facilidade, comprou o moinho junto do Trancoso, a dois passos do posto.  Intencionara fazer umas obras de conforto na moradia, mas não teve tempo: o obstáculo que o compulsara a espaçar-se dos seus fora revogado. Reinstalou-se no casarão da Frieira, de onde pilotou os negócios até falecer.

A família Branquinho fora a mais virente e basta da Frieira da margem direita do Minho. Graças ao pé-de-meia amealhado pelo Alves Gomes, os filhos puderam reciclar-se um pouco por toda a Galiza. Só o mais novo, o Carlos, prorrogou o business que enriquecera a dinastia Branquinho: o contrabando. O seu terreno era o lugarejo de Pousa, em frente da freguesia de Chaviães, por onde circulavam os artigos postulados pelos fregueses portugueses. O petate, dificilmente levado às costas por uma rampa até à beira-rio, era, em seguida, transportado para o lado português numa batela que fazia um vaivém infindável durante a noite.

Todas as casas que fizeram parte do esquema concebido por Alves Gomes para o exercício da ramboia – contrabando – foram-se deteriorando progressivamente, até se transformarem em ruínas. A algumas apenas se lobrigavam partes, tanta era a vegetação bravia e daninha que as cobria.

 

 

Oficialmente, a tienda do Manolo estava aberta em permanência e sem excepção das oito às vinte horas quando o sol se deitava mais cedo – de Outubro a Março –, e até às vinte e duas horas quando o sol arredava mais tarde – o resto do ano. No entanto, os horários eram flexíveis, raramente respeitados; o fecho era decidido pelo número de clientes e pelas obrigações do matute – contrabando.

Como acontece ordinariamente nas mais pequenas aldeias ou lugares, a sua loja era o local crucial onde tudo o que ocorria, se fazia, se dizia, se sabia ou se pensava na aldeia da margem esquerda era propagado, discutido, comentado e reiterado pela aldeia homónima da banda direita do Minho.

Na loja, ao lado do café, o Manolo vendia um pouco de tudo: géneros alimentícios, louças, recordações, roupas, tintas, panelas, ferramentas, produtos e alfaias agrícolas, e tudo o que reivindicasse o pescador mais intratável e cerimonioso.

Era dono dum autêntico minimercado bastante rentável, que lhe permitia uma vida planturosa e livre de dificuldades factuais. Porém, os proveitos mais roborativos tirava-os do contrabando.

No seu negócio coexistiam pessoas que tinham trabalhos variegados e, visto o leque de produtos que propunha, as razões de lá encontrarem o que era urgente não faltavam. Os consumidores provinham de todo lado e formavam uma clientela fixa e leal.

O escudo, sobreavaliado – não andava longe das duas pesetas –, tornava um grande número de vitualhas muito mais acessíveis em Espanha. Aos sábados, domingos e feriados, mas especialmente aos sábados, naquela região fronteiriça o escudo e os portugueses eram os patrões das lojas, dos cafés e das limitadas boutiques

Regra geral, quando o tempo estava bom, já o Manolo tinha o café e a loja abertos antes das oito. A Rosa, a criada portuguesa, era a primeira a madrugar a fim de passar a esfregona no chão do café e da loja; o patrão, o segundo, cerca de meia hora mais tarde.

 

Continua.

 

 

CASTRO LABOREIRO E O FORAL DE AFONSO HENRIQUES

melgaçodomonteàribeira, 19.05.20

856 b Sans titre f.bmp

De todos é sobejamente conhecida a personalidade guerreira do primeiro Afonso, que, na ânsia desmedida de consolidação da autonomia e alargamento dos limites do Condado Portucalense herdado de seu pai, rebelou-se contra a própria mãe, teve os mouros do sul a ferro e fogo e aguentou acesas escaramuças com os nossos vizinhos galegos – S. Mamede, Cerneja, Valdevez, Ourique, Santarém, Lisboa, Alcácer, Galiza…

Numa das suas inconstantes investidas contra Galiza conquistou às armas de Leão o castelo de Castro Laboreiro, como consta da carta de couto outorgada à abadessa do mosteiro de Paderne, Elvira Sarracine. O monarca concede o dito couto ao cenóbio em compensação do tributo de dez éguas com suas crias, trinta moios de vinho, um cavalo avaliado em quinhentos soldos e cem moedas de ouro, que a dita abadessa lhe tinha prestado durante o assédio da fortaleza.

À data deste monumento – 16 de Abril de 1141 – já o castelo de Laboreiro sofria novamente por Portugal e tudo leva a crer que foi efémero o estear da bandeira alheia na sua torre de menagem, pois, se é verídica a indução do ilustre investigador, tenente-coronel Augusto Botelho da Costa Veiga, a perda de Castro Laboreiro derivou de uma contra-ofensiva galega lançada por Fernando Eanes, no Inverno de 1140,, durante a ausência temporária de Afonso Henriques.

Se o relato desta carta de couto é demasiado seco na apresentação das operações aguerridas em volta do baluarte dos montes Laboreiro, é o único, e outros documentos se não conhecem. Existe, no entanto, um, menos comentado, que poderia ser da maior utilidade para aclarar o intrincado da questão, se não estivesse hoje praticamente delido pela erosão dos séculos. Trata-se de um documento epigráfico que, durante séculos a fio, integrou os muros robustos do castelo. De acordo com a leitura que lhe dá o incansável magistrado Luís Figueiredo da Guerra, testificaria a sua conquista ainda no decurso do ano 1140, ajustando-lhe o monarca Conquistador avultadas obras de restauro no ano de 1145, completadas pelo seu filho – D. Sancho I:

“D. Afonso Henriques conquistou em 1140 o castelo aos espanhóis, reparando-o em 1145, mas D. Sancho I completou a obra, como memora a inscrição que lá existe”

Na ânsia de ver de perto esse monumento, contactei o P. Aníbal Rodrigues, pároco de Castro Laboreiro, que me indicou uma pedra no adro da igreja paroquial, supostamente a referida epígrafe ou parte dela, que, segundo informação do mesmo, para ali foi carreada aquando das obras de restauro do castelo, levadas a cabo sob o comando da Direcção Geral dos Monumentos e Edifícios Nacionais – Zona Norte. Apesar do acesso fácil, foi-me o préstimo minguado porque não consegui identificar, com firmeza, um único caracter, apenas alguns sulcos bastante apagados parecem inculcar a veracidade e antiguidade da epígrafe.

Esta inscrição já tinha chamado a atenção de José Leite de Vasconcelos que, estando no ano de 1904 a veranear nas Águas do Peso, se dirigiu a Castro Laboreiro, não dispensando uma visita ao vetusto castelo, onde deparou com a inscrição. Também um correspondente de A Neve, individual periódico publicado em Castro Laboreiro, presta informações de algum interesse, nomeadamente, a existência de mais do que uma pedra epigrafada, a dificuldade de leitura e o seu estado de abandono do topo sul, junto da gruta natural formada pelos dois penedos que juntam as extremidades, e que o autor, erradamente, identifica com a capela de Santa Bárbara.

A conservação deste monumento deve-se ao esmero do arquitecto Roberto Leão, conforme o mesmo refere no artº 23º de um extenso relatório. De 16 de Agosto de 1981, dirigido ao Director dos Monumentos Nacionais do Norte, onde denuncia certos atropelos nas obras de restauro desta fortaleza:

“Felizmente, em 1974 foram retiradas por nós e depositadas na igreja, duas pedras e um fragmento, com inscrições históricas, do séc. XII, entregues à guarda do Pároco e onde se encontram, o que evitou serem possivelmente aplicadas em alteamento de muralhas ou partidas para enchimentos”

A verdade é que, dada a condição do documento, nenhum dos autores, à excepção de Figueiredo da Guerra, se atreveu a uma leitura ou qualquer achega. Por incrível que pareça, essa leitura parece aproximar-se bastante das deduções cronológicas de Botelho da Veiga e dos singelos factos que temos vindo a referir, nomeadamente, a atenção dispensada por D. Sancho I a Castro Laboreiro.

 

O FORAL DE D. AFONSO HENRIQUES A CASTRO LABOREIRO.

“ÁDITO” PARA O DEBATE.

José Domingues

Porto, 2003

http://www.academia.edu/3470740/O Foral de D. Afonso Henriques a Castro Laboreiro. Adito para o debate

jdominguesul@hotmail.com

 

BOLETIM CULTURAL DE MELGAÇO Nº 10

melgaçodomonteàribeira, 16.05.20

43 b bol. cultural.jpg

 

DO MITO À REALIDADE: CULTO E SACRALIZAÇÃO DA ÁGUA NO ENTRE DOURO E MINHO

 

CARLOS ALBERTO BROCHADO DE ALMEIDA

 AS TRAVESSIAS DO RIO MINHO

 

Na ausência de pontes as travessias do rio Minho faziam-se de barca ou então aproveitando as travessias naturais que ficaram conhecidas por vaus.

Ao longo do seu percurso inferior este rio tem, desde época romana, uma ponte em Orense, sendo que as demais são de cronologia bem recente. No tramo inferior a mais antiga é sem dúvida a Ponte Internacional de Valença que abriu ao público em 1886, porque a de Vila Nova de Cerveira, a chamada Ponte da Amizade, essa data de 2004. Depois ainda há as pontes internacionais de Valença-Tuy (1993), a de Monção-Salvaterra (1995) e a do Peso-Arbo de 1999.

Desde a antiguidade que a forma mais comum de atravessar este rio foi o barco e no caso vertente a barca mais conhecida operava entre as duas margens, precisamente, entre o Areínho (Valença) e a margem oposta em Tuy. Esta barca é seguramente anterior àquela que a Rainha D. Teresa instituiu no começo do século XII (Marques, 1991 e 1997) e operava no mesmo ponto onde havia sido a travessia da estrada romana, a Via XIX do Itinerário de Antonino. A ajuizar pela presença de um cruzeiro, atribuível ao século VXIII, localizado a uma escassa meia centena de metros do ponto de acostagem da barca, ficamos com a certeza que os viajantes procuravam junto da imagem de Cristo Crucificado pintada numa chapa cravada num  fuste de granito, o conforto de uma travessia que pretendiam segura e sob a protecção divina. Outras barcas de passagem estão documentadas, por exemplo em meados do século XVIII. Naquela altura o pároco da freguesia de Chaviães escrevia que “nesta freguezia corre muito arrebatado em tanta forma que senão passa para a Galiza em barcas, senão em huma espécie de jangada que não cabem mais que meia dúzia de pessoas e besta nenhuma. Hé desta casta de barcos de passage no distritto desta freguezia quoatro sujeitos à camera da vila de Melgaço, que bem a ser o barco e pasage da Cureia, Outeiro, Bousa e Porto Vivo, porém este hé do Reino de Galiza” (Capela, 2005, 153-155). Para além de outras, referiremos ainda a travessia que se fazia no lugar de Casais (Cristóbal) para a Galiza: “em cujo direito há hum barco no rio Minho, que faz pasage no rio Minho para Galiza” (Capela, 2005, 157-160).

Travessia sacralizada era uma outra no rio Trancoso, afluente do rio Minho. Vamos encontrá-la numas alminhas que foram levantadas junto de uma antiga ponte, hoje reconstruída, que faz a ligação entre a freguesia de Cristóbal (lugar de Cevide) e a vizinha Galiza. As alminhas cravadas na parede exterior de uma casa, que já foi o antigo posto da Guarda Fiscal, são uma bela peça escultórica do século XVIII e são o relato visível do respeito que os caminhantes tinham pela travessia de um curso de água, estreito e ravinoso, que bem podia tornar-se perigoso em tempos mais invernosos. Esta mesma ideia poderá ser colhida no padroeiro da freguesia de Cristóval, também ela separada da Galiza pelo curso do rio Trancoso.

Embora o orago seja São Martinho há que atender à origem do nome da freguesia que é uma variante de Cristovão (Cristóbal em castelhano) ou não estejamos perto da fronteira galega. De acordo com a lenda, Cristovão era um homem avantajado que passou parte da sua vida a servir viajantes e peregrinos na travessia de um rio. Até que um dia atravessou um rio, aos ombros, um menino que era afinal Jesus Cristo (Réau, 2000, 354-355). No rio Trancoso várias são as travessias para a vizinha Galiza o que nos leva a admitir a hipótese da figura do santo ter estado presente na altura da formação desta paróquia nos alvores do II milénio. Se não atente-se nas gravuras da ponte de São Gregório feitas no começo do século XX para se perceber da perigosidade com que a travessia deste rio se revestia.

pp. 158 - 159

 

BOLETIM CULTURAL

Nº 10

Edição: Câmara Municipal de Melgaço

2018

 

 

PONTAPÉ NA BOLA EM MELGAÇO

melgaçodomonteàribeira, 12.05.20

80x - Unidos de Melgaço - plantel.jpg

UM LUGAR ONDE NADA ACONTECIA

XI

O julgamento do cidadão que desflorara a rapariga menor de idade teve um desfecho imprevisto: por falta de provas concretas foi absolvido.

A tomada de depoimentos das testemunhas no caso Lili ia desenrolar-se. Por incrível que pareça, pessoas gradas ofereceram-se para depor. A rigor, o processo, agora, resumia-se à denúncia de que a Farmácia Durães vendia penicilina aos contrabandistas. Na sua inocente ignorância, o Teodorico João Fernandes, apenas reclamara do órgão competente, na condição de dono da farmácia, o não recebimento do medicamento que havia sido liberado do excesso de burocracia, mas ainda controlado.

O Rápido Futebol Club e o Unidos Futebol Club acertaram realizar o campeonato melgacense de futebol a fim de decidir de quem era a hegemonia daquele desporto, na terra. Seria de quatro desafios entre eles, representando primeira e segunda voltas. O mando de campo alternado, sendo que o campo era sempre o mesmo. O Monte de Prado, campo dos jogos, tinha as medidas oficiais, mas de terra batida, cheia de torrões e pedrinhas. Fora aberto naquele pedaço de monte, nos anos vinte, pelos rapazes de então, que iniciaram a prática daquele desporto, influenciados pelos rapazes que estudavam nas cidades e por filhos de “brasileiros” que no verão iam usufruir a terra de seus pais.

O campeonato melgacense de futebol acirrou rivalidades. A população da Vila dividira-se em dois partidos, de acordo com a simpatia, ou grau de parentesco com os jogadores.

O Unidos, por ser composto por integrantes mais jovens, levou a melhor: venceu os quatro jogos e foi proclamado campeão. Ao final de cada jogo, no regresso do campo, bastante distante, na entrada da Vila, vindo das Carvalhiças, estava postada em cima do muro da Avenida do lado da casa da Chaufera, a Dores, mulher do Abílio Costa, jogador do Unidos, que em altos brados e gestos de regateira, insultava os jogadores do Rápido. “Os Unidos têm colhões”, berrava ela. E outros impropérios. Com tais atitudes ganhou a inimizade de outras mulheres, inclusive vizinhas, ligadas ao outro grupo.

   Aconteceu, entretanto, que um filho da Dores andava febril, muito abatido, piorando dia a dia, sem que a mãe tomasse alguma providência. Uma daquelas vizinhas desafectas, reparando no estado da criança, tirou-a do colo da mãe e com o auxílio do cabo de uma colher, observou-lhe a garganta. Numa explosão de raiva, gritou: “Puta sem vergonha, esta criança está com o garrotilho. Vamos ao médico, correndo!” Salvaram a criança.

O Manuel Macarrão voltava às suas plagas, vindo de outros lugares. Empolgado com o movimento futebolístico da terra, resolveu aderir. Tinha sido razoável jogador quando mais jovem. Naquela altura, caminhando para os quarenta anos, foi recusado nos clubes existentes. Arregimentou outros quarentões e jovens que tinham sobrado dos outros grupos e fundou o Futebol Club Comercial. Adoptaram camisolas amarelas, compraram todo o material e montaram sede no térreo da casa da Duartina, a mulher do Mâncio Barbeiro, virado para a Rua Velha. O sucesso foi negativo nos desafios que realizou e finou-se o Comercial com poucos meses de idade.

O Unidos e o Rápido continuaram carreira. Este último para esquecer os desaires dos resultados dos recentes desafios, resolveu mudar de nome, passou a intitular-se Sporting Club de Melgaço, filiou-se no Sporting Club de Portugal, em Lisboa, que estava em destaque naquele momento. Teve um brilharete nesta nova fase, principalmente quando ficou sem concorrente. O Unidos, por falta de novos elementos para substituir os que foram servir no exército, a maioria, acabou.

 

                                                                            Manuel Igrejas

 

Publicado em A Voz de Melgaço

 

 

 

 

FRAGMENTOS DE VIDAS RAIANAS 7

melgaçodomonteàribeira, 09.05.20

 

O não dito reforçava-se e acalentava-lhe, com veemência, o ardimento de um dia lhe enumerar, assanhada, o ror de vericidades que oprimia nas profundidades mais inacessíveis da alma. Esta situação abespinhava-a e erodia-lhe o psiquismo.

As tribulações das previsíveis consequências imobilizavam-lhe a menor tentação, a palavra inaudível, o menor gesto, ocasionando-lhe, nestas circunstâncias, palpitações latentes. Por enquanto, tinha de refreá-las sem piedade, custasse o que custasse. Faltava-lhe a audácia, prisioneira dos efeitos garantidos. Por vezes, asfixiavam-na tanto que tinha crises de dispneia. Estava de mãos atadas; era escrava da sua fragilidade.

Tirou a tampa a uma panela enfumarada que dormitava por cima da longeva cozinha de ferro – desvanecida havia bastante –, pegou num prato, entulhou-o de batatas, duma mão-cheia de grelos e de três módicas postas de merluza – pescada –, tudo cozido, e depositou-o diante dele sem uma palavra.

Em Espanha, o consumo pelos mais pobres deste peixe lauto e gostoso  – congelado e de pequena dimensão – derivava do seu baixo preço, causado pela possante hegemonia espanhola: depois da norueguesa, era a frota europeia que mais pescava.

Adiu-lhe um galheteiro encardido, um garfo e um bom naco de pão semiduro que cortou num cacete. Com um pudor conventual, saiu; foi ao puxado e atestou a típica caneca de cerâmica branca com tiras azuis de um vinho recendente e espumoso. O Manel acarinhava ali uma provisão de tintol em garrafões de cabaço – detestava o vinho branco –, bebida de eminente nível, confeiçoada pelos lavradores mais calejados da zona.

A cada refeição, o consuetudinário era um litro. No entanto, havia dias que, por motivos ignotos, vazava pouco mais de meia caneca. O Manel bebia por amor, pela irmandade que o soldava à pinga, à cepa. Ainda não tinha dois anos e já as sopas de vinho alegravam os seus dias.

A placidez sorumbática da casa era amordaçada pelo estribilho casmurro da água límpida do regato.

Estes ápices deprimentes iteravam-se dia sim dia não. Sem se atardar mais, a Gracinda, silente, foi-se discretamente. Subiu as escadas e acostou-se à cabeceira da cama, já desfeita, com o pequeno receptor a pilhas na mão.

Enquanto que o marido se alambazava e drenava a caneca, sobrava-lhe o tempo para lucubrar um tanto; olvidar a vida consternada e sem qualquer ambição ou finalidade que, irreparavelmente, encaixava havia um tempo desmedido.

Era a hora da radionovela, a sua baforada de nostalgia, a sua alegórica escapatória interina, o seu alcalóide biológico. Graças a estes romances diários, simples enredos, devaneava. Apesar das tramas e das manigâncias coriáceas, das inimizades, das perfídeas e das paixões insustentáveis, contrariamente à sua realidade, o desfecho era agradável, romântico. Esta escapulida mental era um reconfortante paliativo que lhe aligeirava as difíceis preocupações conjugais.

Nos dois quartos do lado, a prole, passiva fisicamente, matutava, imaginando um rumo, um caminho, uma bússola. Insubmissos, cada qual vivia no seu universo. Com a petulância arcana dos adolescentes indiferentes às inquietudes, às sombras e à atonia dos pais, eram transparentes, inexistentes. A certeza de um dia enveredarem por um trilho diferente, construtivo e escolhido por eles, estava-lhes obscurecido pelo hodierno mofino dos progenitores e pela penúria. Cada qual tinha o seu objectivo preciso traçado. Embora utópico por agora, tinham uma confiança total neles.

 

 

Nos lugares desleixados como os da Frieira – incalculáveis –, o afastamento e a dispersão dos compósitos e espinhosos trabalhos isolavam, no conjunto, as pessoas durante o dia. O contacto era, pois, impreterível para que não se recluíssem numa insensibilidade sórdida, pestilenciosa. O seu desenvolvimento, notório, desaguava, tristemente, nos aberrantes e inexplicáveis suicídios repertoriados anualmente na região. O instigador, em todos os seus perfis, era e continuará a ser, sem dúvida –independentemente dos perenes pseudoprogressos de comunicação –, a solitude. Este veneno, impassível e infatigável, quando o álcool – o amensalismo com o qual acreditavam combatê-lo – se mostrava impotente, esvaía, murchava e, por fim, destruía-os. O vergonhoso agravamento afónico da desertificação rural não fazia senão periclitar o emaranhamento da problemática.

Aos idosos da aldeia, inofensivos – como aos de todas as outras –, ninguém lhes evidenciava quaisquer razões para os impelir a aproveitar e a ter curiosidade por coisas e recursos que não estivessem estreitamente relacionados com as suas incumbências jornaleiras. Levavam uma vida negligente, embrenhados numa total ignorância e incompreensão do mundo truculento que os envolvia. Sendo, pois, a sua inserção irrealista, o progresso ia-os adulterando e desorientando.

A violência, o sexo, as tecnologias e as práticas cacofónicas e formatadas que viam na televisão – sangrada da sua missão primitiva que era a cultura e a educação dos mais iletrados –, além de os aterrorizar, ainda mais os coagia a persistirem em se enclaustrar nos costumes e nos dogmas arcaicos que sempre foram os deles, e aos quais se empolgavam devotadamente.

O precipício que disjungia a antiga geração da nova era excessivamente largo e intransponível para que a derrisória e árida propinquidade entre as duas o reduzisse com o tempo, mesmo em parte. Viam-se, falavam-se, mas cada qual campava no seu tempo, no seu território, na sua ilusão. A nova – como toda geração nascente –, sitiada por uma cinorexia galopante, era febrosa e vivia o dia-a-dia sequiosa, dessabendo a ainda tenra barbaridade passada; a antiga era uma geração descurada, repudiada, incorpórea, que fazia tudo para ressalvar o que lhe sobejava da acidentada modernidade. Por não entrar nos anais do inédito consumismo crescente – a ditadura contemporânea –, nem os corpos políticos seduzia, a não ser em vésperas de eleições.

Não obstante esse encarceramento instrucional, eram seres curtidos. Vivenciaram e superaram uma trágica e interminável guerra civil – incognoscível para a população – que arruinara o país, orfanara um sem-número de almas, desmembrara milhares de famílias e injungira outras tantas à expatriação. Sustentaram com paciência e dignidade o contragolpe acerbo, deletério e miliário que um período bélico desta amplitude acarreta inexoravelmente. Os estigmas complexos e perduráveis que esta hecatombe cruel, inefável gravou neles, definiram-lhes uma temeridade original e enrijada. Já nada mais os poderia atribular.

 

Continua.

 

NEM PENSE EM SAIR DE CASA, DIVIRTA-SE COM ESTES AMIGOS!

 

 

 

O BRUXO DE VILADRAQUE

melgaçodomonteàribeira, 05.05.20

853 b DSCN7374Viladraque até à 81.JPG

viladraque

AÇO

Nome popular para o ferro. O aço que pica a terra fica benzido pela natureza. Conforme registo de Leite de Vasconcelos, o «sábio de Vila Draque» (Melgaço) curava certas doenças pegando num pedacinho de aço, posto em cruz na casa, ou na cama sobre o doente, e dizendo a seguinte oração: «Ó aço, que picaste em terra, sirvas para benafício da minha casa! Deixa este corpo são e salvo!».

Acrescenta o mesmo autor que o «bruxo» possuía «um pedaço de aço de três pontas que mandou fazer a um ferreiro e benzeram-lho num convento» (Etnografia Portuguesa, v. 5, p. 270-271).

 

PORTUGAL SOBRENATURAL

Manuel J. Gandra

 

 

SE NÃO FICARES EM CASA, NEM O BRUXO TE VALE

 

 

 

 

 

MELGAÇO, 1º DE MAIO DE 1974

melgaçodomonteàribeira, 02.05.20

 

810 b 1º maio de 1974 em Melgaço - Cópia.jpg

1º de maio de 1974 em melgaço

 

MOMENTO POLÍTICO NA NOSSA TERRA

 

Foi com regozijo que o honrado, trabalhador, ordeiro e patriótico povo de Melgaço viu surgir o 25 de Abril, como dia grande para a história do nosso povo.

No 1º de Maio, e a fim de comemorarem tão preciosa data, o povo desta Vila, em manifestação espontânea, vibrante de entusiasmo, onde o civismo foi bem patente, dirigiu-se para a Câmara Municipal, entoando «A Portuguesa», intercalada com o slogan «O povo unido jamais será vencido».

Ali se realizou uma sessão em que foram oradores: Dr. António Durães, Dr. Oliveiros Rodrigues, Engº Armando Ferreira da Silva, D. Irene Pardal F. da Silva, e outros.

Seguidamente dirigiram-se em cortejo ao Quartel da G. Fiscal, onde pediram ao seu Ex.mo Comandante para transmitir à Junta de Salvação Nacional o agradecimento por ter libertado o País do anterior regime.

Em nome do povo e num brilhante discurso, usou da palavra o Engº Artur Rodrigues. Ali foi pedida pelo sr. Manuel Caldas a demissão do Presidente da Câmara Municipal, bem como do seu secretário, o qual foi calorosamente salvado pelo povo.

Mais tarde dirigiram-se ao cemitério, onde depuseram «rosas vermelhas» nos túmulos do Dr. Augusto César Esteves, Ernesto V. P. F. Silva, Tenente Peres e Agostinho Araújo.

                                                    Miguel Pereira

 

A VOZ DE MELGAÇO

Melgaço, 15 de Maio de 1974

 

 

 

 

VAIS P'RA ONDE? GIRA, CASA, PÕE-TE ANDAR, CASA!

A NOSSA CASA É A NOSSA SEGURANÇA!