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MELGAÇO, DO MONTE À RIBEIRA

História e narrativas duma terra raiana

MELGAÇO, DO MONTE À RIBEIRA

História e narrativas duma terra raiana

FRAGMENTOS DE VIDAS RAIANAS 28

melgaçodomonteàribeira, 27.02.21

Retribuídos à unidade, cada homem tentava suportar o maior número de caixas. A cada viagem, a carga era de quatro, ou seja, pouco menos de cinquenta quilos. Alguns, desalentados, sustinham um fardo de cinco caixas durante as duas excursões iniciais. Submetiam-se a um desempenho titânico que os obrigava a singrar de noite por uma caleja e caminhos medonhos, cravejados de múltiplos perigos. Vergados pelo peso, restringidos pela reduzida largura dos carreiros, saltando muretes e com os olhos no chão – apenas discernível – para esquivarem qualquer tropeço no solo irregular, percorriam mais de seiscentos metros, ida e volta; o que perfazia perto de seis quilómetros, dos quais metade com uma carga de perto de cinquenta quilos às costas!  Dois ou três, os mais atléticos, desafiavam os limites completando uma dúzia de viagens.

Havia manhãs que, na subida da encosta, se viam bananas no chão. Contra o fim, um ou outro carregador, já esgotado, deixava cair uma caixa; por muita que fosse a sua solicitude, a escuridão não lhe consentia recuperar a plenitude do carregamento. As perdas eram fracas, comparativamente aos frutuosos ganhos resultantes do tráfico.

Estas caixas estropiadas, e mais uma ou duas cargas, eram outorgadas aos guardas portugueses e galegos com regularidade para provarem a conscienciosidade da obrigação de que estavam providos. Do lado galego eram adjudicadas por uma côdea pelo gerente do economato – espécie de cooperativa – do Pueblado, em Puente Barjas, regalia do pessoal da FENOSA que velava pelo bom andamento da barragem.

O Nelo e o Zeca traspassavam o regato a diário repetidas vezes, tanto por razões profissionais como para comprar algo ou, simplesmente, para desfrutar de um breve lapso de inadvertência junto dos amigos galegos. Consumiam os dias por ambos flancos do Trancoso. Viviam no limiar de dois mundos que julgavam propriedade deles.

Às vezes, falavam, não sem um grão de escárnio, da percepção e do receio que os forasteiros tinham da fronteira.

Devido à delimitação, coexistiam, irrefutavelmente, numa área neutra que lhes era intrínseca. O Trancoso, muito mais permeável que o Minho, apesar de fixar uma demarcação territorial, não refreava o trânsito de pessoas, de veniaga nem a materialização das ideologias, das sensibilidades e da comunhão entre povos que, apesar de fendidos, conservavam – além de bens – raízes entrelaçadas de ambas partes da arraia.

Uns minutos depois das dezassete espanolas, quando o Nelo entrou na loja, o Manolo e a mulher atendiam dois casais de visitantes portugueses. Uma parte do balcão estava repleta de caixas de doces, de latas de conservas, de especiarias e de pastas de chocolate.

O ar descontraído e lépido que o seu rosto espelhava, aprazeu logo ao dono da loja e especialmente à mulher, vítima colateral das suas noites de insónia e de pesadelos.

Na mão direita, trazia um saco plástico esverdeado. Discretamente, trocaram um olhar entendedor.

Os clientes presentes reconsideravam no que ainda tencionavam escolher, passeando vagarosamente o olhar cintilante pelas estantes metálicas. O Nelo julgou o momento tempestivo para abordar o patrão da loja.

— Manolo, posso-te deixar este saquito que é para a Marisa da estação? Disse-me que, se tivesse tempo, ainda o vinha buscar hoje, senão, amanhã de manhã. Não te importas de me fazer o favor ? – indagou inocentemente.

— De modo nenhum, homem. Não é favor nenhum – saiu de trás do balcão e pegou-lhe no saco.

Era o cenário consignado para quando estavam perante desconhecidos. Deixou a esposa ocupar-se dos turistas e encaminhou-se para a cozinha, contígua, com o precioso saco.

A loja nunca fora o seu hobby. Aturar gente que não tinha qualquer ideia do que queria, que ignorava o que lhe fazia falta, que gastava compulsivamente para edulcorar o frenesim, era um verdadeiro suplício para ele. A mulher já lhe chamara a atenção, observando que estavam ali para vender e, quanto mais, melhor.

Apartou a cortina que separava a cozinha do bar e informou a empregada:

— Rosa, se alguém me quer ver, não estou disponível.

— Está bem, Manolo.

Para a Rosa, estas palvras eram sinal de petate.

Instalou-se diante da pequena mesa da cozinha. Do interior do saco plástico, exumou duas caixas de sapatos. Livrou-as dos sólidos elásticos que retinham as tampas e abriu-as. Os seus olhos brilharam de regosijo ao contemplar o tão ambicionado recheio: maços compactos de notas de mil pesetas, o montante das duas derradeiras, operações ou seja, dez toneladas de bananas que já enfeitavam os mostruários de muitas frutarias portuguesas! Perfeitamente colocados, os maços acaparavam a superfície global das caixas, como se tivessem sido feitas à medida das notas de mil.

Entusiasmado, ficou estático uns segundos, encarando o dinheiro, como o sequioso que, por fim, desmascara a gota de água que o vai hidratar. A reacção foi imediata, apoderando-se dele uma agradável sensação de serenidade. Sacudiu a cabeça energicamente, como quem quer alijar-se de vez das arduidades que até ali o importunaram, e suspirou vigorosamente. Era outro homem. Impregnou o indicador direito numa esponja humidificada com água, e, escrupolosamente, empreendeu a contagem.

Havia raras niquices, como esta, em que se verificavam uns atrasos passageiros de maior ou menor amplidão nos emolumentos, mas para o Manolo era sempre um calvário.

Os mais ofensivos e acérrimos, além dos mais glutões, eram, incontestavelmente, os guardas civis do posto de Puente Barjas, que inspeccionavam o Trancoso. À mais pequena demora nas gratificações, rosnavam e até espavoriam audaciosamente o Manolo. O que, em parte, lhe simplificava grandemente a tarefa era o facto de o grossista de frutas viguês, que fornia a banana, ser possessão de dois primos da sua esposa.

 

Continua.

 

 

 

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foto: rui manuel fonseca/global imagens

 

“SINTO-ME UM CONTRABANDISTA”. MÉDICO ESPANHOL ATRAVESSA

FRONTEIRA CLANDESTINA PARA IR TRABALHAR

 

Ana Peixoto Fernandes

 

NAPOLEÓN SANCHEZ, MÉDICO CIRURGIÃO, RESIDENTE EM CELANOVA, NA GALIZA, A 40 QUILÓMETROS DA FRONTEIRA COM PORTUGAL, ATRAVESSA A PÉ, DE FORMA CLANDESTINA, TODOS OS DIAS DE MANHÃ, UMA PEQUENA PASSAGEM SOBRE O RIO TRANCOSO PARA IR TRABALHAR EM MELGAÇO.

 

Com a fronteira principal de S. Gregório-Ponte Barxas encerrada devido à pandemia, a estreita travessia metálica, escondida no meio da vegetação, na aldeia de Cristóval, é uma escapatória para evitar percursos longos. Por ali passavam noutros tempos contrabandistas e gente que ia a salto para França.

Foi “apanhado” pelo JN quando regressava a Espanha, pela velha ponte “dos moinhos do Araújo”. Trazia na mão um saco de pão comprado em Melgaço, como é hábito de muitos galegos. E assumiu, descontraído, que arrisca pelos trilhos do contrabando para poupar “uma hora e meia a mais de percurso”. “Venho todos os dias às seis da manhã, desde que fecharam a fronteira. Trago um carro até aqui, atravesso e tenho outro carro do outro lado”, descreve quem se diz sentir “praticamente um contrabandista”. “Voltamos à época antiga”, lamenta.

O médico, que trabalha há 20 anos em Melgaço, considera “ilógico” ter de fazer o percurso de Celanova até à ponte Tui-Valença para atravessar pelo único ponto autorizado de passagem 24 horas. “São mais 60 a 80 quilómetros. Trabalho (de tarde) em Espanha. Tenho de saltar a fronteira”, justifica. “Nós trabalhadores transfronteiriços, não fazemos nenhuma ilegalidade. Em teoria pode haver consequências, mas o que é que vamos fazer?”

Quem também não teme passar “a salto” é o presidente da junta de Cristóval, David Barbeitos, que critica o encerramento da primeira fronteira no extremo Norte de Portugal. “Aqui as pessoas passam a pé e eu próprio as levo ao sítio onde podem passar. Há muita gente que tem de passar para trabalhar”.

“Que abram a fronteira de S. Gregório-Ponte Barxas. Deixem-nos transitar. Parece que temos aqui um muro de Berlim”, acrescentou David Barbeitos.

 

Jornal de Notícias

23/02/2021

MELGACENSES E O GENERAL NORTON DE MATOS

melgaçodomonteàribeira, 20.02.21

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Apresentação do autor

pelo Rotário

Ernesto Viriato dos Passos Ferreira da Silva

 

Meu caro Presidente

Minhas Senhoras

Senhores Visitantes e Convidados

Presados Companheiros

 

Grande satisfação a minha por mais este encontro à Mesa Rotária, em amigo convívio e ao serviço da comunidade, em homenagem a alguém que desde as últimas décadas do século passado até ao último momento da sua vida, se destacou como a mais extraordinária figura de militar, de patriota, e de administrador do Ultramar Português.

Lembrou-se o nosso ilustre Presidente de dedicar uma das habituais reuniões do Rotary Club do Porto à celebração e glorificação da memória  do General José Mendes Ribeiro NORTON DE MATOS, que desempenhou, nos últimos cincoenta anos da vida portuguesa, um papel preponderante no plano militar, diplomático e da administração pública ultramarina, com larga visão dos problemas nacionais; que serviu o seu País com extraordinária lucidez de espírito e previsão dos acontecimentos; com notável aprumo, inigualável garra e exaltado patriotismo, impondo em todas as conjunturas, a nacionais e estrangeiros, a sua alerta personalidade, serena e impassível, o seu carácter e forte querer, o seu civismo e arreigado amor pelos direitos e soberania de Portugal.

Acerca da notabilíssima administração da gigantesca figura do General NORTON DE MATOS, na mais portuguesa das nossas Províncias Ultramarinas – em ANGOLA – vai falar-vos o Dr. António Durães, um dos seus devotos admiradores e assíduo colaborador na portentosa obra realizada por aquele ilustre Colonialista, que franqueou o pórtico da História, como um dos grandes da nossa Pátria.

O Dr. António Durães, minhoto pelo nascimento e pelo coração, oriundo da Vila de Melgaço, que foi «sentinela do Alto Minho» e marcou o seu lugar nas lutas e fastos gloriosos da formação da nacionalidade, conta no seu activo mais de quarenta anos de África ao serviço da Nação.

Homem do seu tempo, trabalhador incansável, espírito esclarecido, de penetrante inteligência e vastíssima cultura, o Dr. António Durães evidenciou-se um português de raça, amante da sua Pátria e fanático colaborador da estruturação pacífica do continente negro, onde flutua gloriosamente a Bandeira de Portugal.

Tal é, queridos Companheiros, e meus Senhores, a envergadura do conferente que, na reunião de hoje, vai honrar a tribuna rotária.

Peço-lhe relevância para a modéstia desta apresentação que traduz, a par da minha admiração e amizade, o preito da mais sincera homenagem a sua Exma. Esposa, D. Maria Esménia Durães, sua fiel e carinhosa companheira nas plagas angolanas, a quem peço licença para beijar respeitosamente as mãos.

E para eles queridos Companheiros, peço a nossa usual saudação: uma vibrante salva de palmas.

 

Em 8 de Maio de 1967

 

ANGOLA E O GENERAL NORTON DE MATOS

(Subsídios para a História e para uma Biografia)

António Augusto Durães

Advogado

Edição do Autor

Maio de 1976

pp. 7-8

 

 

FRAGMENTOS DE VIDAS RAIANAS 27

melgaçodomonteàribeira, 13.02.21

                                                                                                                           

Muitos naturais da raia, e que nela estanciavam, eram naturalmente atraídos por este tipo de vida, como os habitantes da costa eram geralmente arrastados pela vida do mar. Tivera e tinha o tráfico tão vivaz, tangível que finara por se arraigar nele e no seu dia-a-dia, da cabeça aos pés; foi-o incorporando até ficar submisso. Do nascer ao pôr-do-sol, tudo nele era contrabando. Transformara-se numa compulsão que o fazia subsistir mental, fisica e socialmente.

Na época em que o café Sical ainda primava na integralidade da raia lusa, o Nelo enfrentou sérias dificuldades financeiras depois de lhe assaltarem a garagem apinhada de café. O João-João, a quem o petate pertencia, exigiu-lhe o seu valor. Agravado, fez uma estadia em França a fim de reembolsar a dívida. Foram uns tempos atormentadores, pois estava afeito à atracção exercida pela peripécia e à predilecção descomedida pela euforia que o risco lhe desencadeava.

Cevide ficara sem alma. Sem ele não era nada. O Nelo simbolizava Cevide, era Cevide, era o fragmento imprescindível ao lugar.

Logo que amealhou o mandatório, regressou à terra. Foi com indescritível satisfacção que os habitantes das duas margens o viram de novo cavaloar jovialmente pelos campos que flanqueavam o rio Trancoso com matute  às costas, um olho aruspicino em cada um dos lados do regato.

Proporcionalmente, dizia que o contrabando já não era mais que um lazer, que uma brincadeira. As transacções organizadas e por atacado, como presentemente as da banana – embora fosse uma ocupação que não depreciava –, não era o petate que mais o satisfazia. O que mais afeiçoava, o que lhe enchia a espinha de dopamina e lhe proporcionava um gozo paroxísmico era o pessoal, aquele que lhe possibilitava brincar ao gato e ao rato com os guardas fiscais e os guardas civis. Prezava infringir e ludibriar as autoridades. Comummente, nesta categoria de contrabando, trazia a veniaga para a sua casa. Uma factura sumária, caso fosse fiscalizado pelo trajecto, comprovava a sua conformidade. Depois, era só espreitar o momento mais oportuno para ir ao outro lado.

Quando os guardas fiscais se achavam no largo de Cevide e o viam com mais um artigo qualquer às costas, diziam-lhe gracejando:

— A tua casa, Nelo, deve ser um museu!

E todos gargalhadeavam.                         

O cinzento da farda dos guardas portugueses e o verde escuro da dos espanhóis – as cores preeminentes do seu diário – faziam-no flipar: detestava os que as portavam, mas não duvidava que, sem eles, não haveria emoção nem felicidade. No dia mais do que verosímil em que este contrabando desvanecesse, o Nelo encarquilharia, murcharia e acabaria por exalar. Não teve tempo de ver o abandono que, pacatamente, se hospedava.

Viúvo, partilhava a vida com um filho deficiente motor, consequência de um acidente de moto quando tinha apenas vinte anos. O rapaz mitigava constantemente nele a angústia e a acrimónia que a sua condição lhe instilava, ocasionando-lhe imensas e reiteradas amarguras.

O contrabando, com as suas translações coercivas, compromissos e eventos, era concomitantemente aproveitado por ele como a exclusiva e cordial diversão que lhe afuguentava as pulsões e as mais  nefastas elucubrações. E, evidentemente, o café do Manolo era o local pertinente para se espairecer e, por vezes, entre amigos, desvencilhar o riso coibido, coisa que, com os anos, se desabituara de fazer.

Havia muito que o axiomático ofício social desempenhado pelos pequenos cafés – considerados populares – era manifesto e perpetuado. O do Manolo era uma ilustração palpável: tanto funcionava como fórum, confessionário, ringue, banco e, quando emergia uma alma caritativa com vocação e eupatia para escutar, servia de consultório de psicanálise ou psicoterapia.

As caixas de bananas eram encaminhadas da casa do Manolo para a garagem que abrangia a totalidade do rés-do-chão da casa do Nelo, em Cevide. Em geral, eram transportadas prudentemente o mais rápido possível naquela noite ou na seguinte para as variadas e remotas afectações a sul do país. Se por acaso surgisse um óbice, e o petate tivesse de continuar armazenado até que se apresentasse uma ocasião congruente, o resultado incorrido podia ser catastrófico.

O Nelo era o mandatário do promotor e coordenador das redes que actuavam no Trancoso, o Mário da Corga, de cujas encomendas estava pendente o resto da organização da Frieira. Conferia as caixas que levavam para a sua adega, registava quem as trasladava e encarregava-se da remuneração dos guardas fiscais, o reconhecimento pelos bons serviços prestados. O comandante dos agentes de fiscalização do concelho de Melgaço, um tenente da região, apodado Tampa de Mala, e tido como o maior papador com o qual os contrabandistas alguma vez negociaram, discutia pessoalmente o seu estipêndio com o capo. O que não o impediu de um dia vir com a esposa fornecer-se à loja do Manolo e arriscar um acréscimo, emitindo quando pagava: «Isto até devia ser uma dádiva, pois somos praticamente da mesma família, não é verdade ?» O Manolo, que já o vira em Cevide fazer o figurante, respondeu-lhe cruamente: «Que eu saiba, caballero, não tenho família em Portugal». Não reviu.

O Nelo tinha como cúmplice o Zeca, dos Casais. Mais ou menos da mesma idade, um pouco mais pequeno que ele, bigode à tasqueiro, tinha uma forte fama de mulherengo.

Como todos os jovens fronteiriços, a terra e o petate eram os seus singulares afazeres. Ambicioso, vendo que aquilo não era futuro para ele, logo que pôde deu o salto para França. Ao cabo de uma vintena de anos, serviu-se de um insignificante acidente do trabalho para voltar definitivamente à terra. As confortáveis economias que se constituíra e a ridícula pensão faziam dele um homem livre.  

Hoje em dia, o contrabando, além dos benefícios mais do que profícuos que lhe garantiam uma existência correctíssima, propiciava-lhe uma vida alegre, aventureira e enlevada, apesar da periculosidade; o antípode do que aguentara do outro lado dos Pirenéus. A despeito de experiente, não totalizava, todavia, o quarto das horas de serviço contabilizadas pelo Nelo.

Contava as caixas de bananas que saíam da garagem do Manolo – a quantidade arrolada ali tinha de coincidir com a das recepcionadas pelo Nelo –, incumbia-se de angariar os carregadores e do embolso correspondente, uma vez ultimada a transição.

 

Continua.

 

 

MELGAÇO, O POVO EM ARMAS

melgaçodomonteàribeira, 06.02.21

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LISBOA, 5 DE MARÇO

 

Temos folhas do Porto até o 1º do corrente, e cartas até á uma da tarde do dia 3.

Nunca a causa nacional apresentou um aspecto tão lisongeiro; nunca as esperanças de um proximo triunfo foram tão bem fundadas.

O enthusiasmo na cidade invicta não póde exceder-se. Reina a maior harmonia e intelligencia entre os membros da junta, e os cidadãos rivalisam no amor da patria. Eis-aqui o que extrahimos das folhas:

(…)

No dia 25 a maior parte das forças tanto de linha como dos corpos nacionaes, que estão n’aquella cidade, deram um passeio militar até o sitio do Monte Grande, quasi uma legua de distancia do Porto pela estrada de Lisboa. Formavam quatro brilhantes brigadas com a competente artilharia e cavallaria. Toda a força formou no Monte Grande, e ahi lhe passaram revista os dois illustres generaes Antas e Povoas, que ficaram extremamente agradados de comandarem tão boa gente, e tão prompta para tudo que seja mister a bem da causa nacional. O exercito popular tambem ía ufano de levar comsigo o honrado e habilissimo general visconde de Sá, que todos respeitam como elle merece.

Á frente da guarda nacional ía o seu comandante geral Marquez de Loulé.

Depois de passada revista tudo retrocedeu para os seus quarteis. Os generaes estiveram no Alto da Bandeira a vêr desfilar aquella divisão, que para se avaliar tanta gente tinha, basta notar se que gastou hora e meia em desfilar continuamente. E mais ficou na cidade a guarnição, que não é pequena, e contingentes de todos os corpos; e estão fóra em operações as columnas do barão do Almargem, e generaes Cesar, Bernardino e Guedes.

Não sabemos (diz o Nacional) se esta marcha foi preludio d’algumas operações militares que hajam de emprehender-se, nem pertendemos saber: confiamos plenamente nos generaes, que capitaneam as nossas grandes forças, e estamos seguros de que a victoria ha de ser por nós.

Á revista assistiram 25 batalhões, e ficaram ainda na cidade e suas avenidas dez corpos de diversas armas.

O coronel visconde d’Azenha partiu no dia 26 para o Minho, não só para inspeccionar os batalhões nacionaes, mas tambem para organisar novas forças, indo munido de plenos poderes conferidos pelo marechal do exercito conde das Antas.

No dia 10 sahiram de Valença 130 infantes cabralistas na direcção de Melgaço para baterem uma guerrilha. Não encontraram ninguem armado. Commetteram atrocidades, e matando uma mulher, fizeram com que o povo se armasse fazendo-os retirar para a villa de Monção no dia 13, aonde se conservaram n’esse mesmo dia, e em 14 e 15, a ponto de já não terem polvora, e os officiaes passaram a Salvaterra de Galliza pedindo polvora, que lhes foi fornecida pelas auctoridades hespanholas na quantia de dous mil cartuxos. O proprio governador de Salvaterra offereceu mandar soldados hespanhoes disfarçados. Veio infanteria 13 e 25 cavallos de Valença, mas a força popular que atacou Monção era tão consideravel que o regimento 13 e 25 cavallos não se atreveram a aproximar-se dos populares, e ficaram em Lapella.

A força cabralista sitiada em Monção passou no Minho para Salvaterra da Galliza, e atravessou meia legua armada pelo territorio hespanhol, sem opposição, ou com o consentimento das auctoridades d’aquelle paiz.

 

N.E. – (de 8 de Outubro até Junho de 1847) A Patuleia. Segunda fase das sublevações, iniciadas com o movimento Maria da Fonte, comandadas por setembristas, miguelistas e dissidentes cartistas, contra o ministério ilegítimo de inspiração cabralista, presidido pelo Duque de Saldanha e que beneficiou do apoio da rainha. Formam-se Juntas revolucionárias em diversos pontos do país que se revelam contra o governo da capital. Este, incapaz de dominar as forças revoltosas, solicita, ao abrigo da Quádrupla Aliança, a intervenção da Espanha, da Inglaterra e da França. A intervenção estrangeira vem decidir a contenda a favor da rainha e do poder cartista instituído.

História de Portugal em Datas

C.Leitores 1994

p. 218 

 

 

 

FRAGMENTOS DE VIDAS RAIANAS 26 PRO. DR. JOSÉ MARQUES

melgaçodomonteàribeira, 30.01.21

                                                                                                                    

As mãos alapadas por debaixo do avental, como se segurassem a barriga, manifestavam a curiosidade no rosto. Pelos olhos meios cerrados, sinal de concentração, reflectiam velozmente.

— Foram os carabineiros! – desabafaram as duas conjuntamente.

Até mil novecentos e quarenta, ano em que se fez a sua integração na Guardia Civil, as fronteiras e as costas espanholas eram controladas por uma antiga corporação armada, denominada Cuerpo de Carabineros. Os anciãos, que têm uma relutância específica  em prescindir dos hábitos, perseveravam e nomeavam os actuais guardas civis carabineiros.

Tácito até ali, foi o Sebastião que replicou um pouco inimistado, como se a acusação das duas mulheres fosse absurda, inútil:

— Quem queríeis que fosse? Ora esta!

— Santa Mãe! Temo o pior. Estas coisas põe-me fora de mim. – foi a vez da Tinita – E se soubessem o mal que me faz vê-los na igreja, minhas queridas!

Ninguém adiantou a mínima pressuposição, mas, mentalmente, imaginavam o que infalivelmente acontecera. Comovidos, o olhar inexpressivo, ficaram mudos uns segundos. Marcavam a solidariedade para com o malfadado estranho.

Talvez dentro de uns dias, de umas semanas ou de uns meses deparassem com mais um cadáver irreconhecível, a jusante do rio. O número destes clandestinos anónimos – oriundos das antigas colónias portuguesas, em geral –, impudentemente assassinados e atirados para as águas do troço internacianal do rio Minho, variava de ano para ano, tendo decrescido radicalmente desde a Revolução dos Cravos. Uns eram colhidos vários quilómetros depois da barragem, outros, pouco antes da foz do Minho; uns eram distinguidos a flutuar, outros, nos areais, restituídos à terra pelas águas do rio, tanto na margem portuguesa como na espanhola. Estes mártires da pobreza, antes de serem lançados ao rio, eram despojados de tudo: do parco dinheiro e ouro e de qualquer documento ou objecto que os pudesse identificar.

Como se nunca tivessem resfolgado, sonhado e existido, estes incógnitos banidos deixavam famílias num pirronismo demente, a vegetar, agarrando-se a um sebastianismo epocal. 

Habitualmente em mau estado – segundo o tempo macerado na água –, eram sepultados na freguesia portuguesa ou galega onde tinham naufragado.

— O castigo é descomedido, desumano para quem quer ganhar a vida a fim de matar a fome aos seus – disse a Otília.

— Estas coisa são muito tristes, muito injustas – opinou a Maruja.

— Só Deus pode ser indulgente com estes renegados! – adjurou a Tinita.

Tinham matéria para conjecturar durante dias. Eram como eram, mas, nestes casos, falavam essencialmente para que a consciência não se silenciasse e não se acostumasse a estes episódios sinistros.

 

 

Para o Manolo, a noite transformou-se em martírio. Não cessou de dar voltas e mais voltas; foi uma noite em branco. Quando um automóvel abrandava diante da sua casa, sobressaltava, escutava e aprontava-se para que umas fortes pancadas fizessem abalar a porta. A efígie dos guardas civis esquadrinhando a garagem afligiu-o uma grande parte da noite. Por volta das quatro da manhã chegou a furgoneta do Fernando e só depois, já prostrado, dormiu um pouco.

Durante o dia, não pôde sofrear nem camuflar um irrequietismo silencioso que teimava em corroê-lo psiquicamente. Enquanto o impasse que o angustiava havia uns dias não fosse solucionado, não conheceria a impavidez, a confiança e o repouso que tanto almejava.

Às seis e meia da tarde, o Nelo e o Zeca, os seus sequazes do lado português, ainda não tinham dado sinal, o que ampliou particularmente a sua ansiedade. No negócio das bananas ou como homems tinha criado estreitas e sólidas relações com os dois, apesar de ser bastante mais novo.

O Nelo era de S. Gregório, mas vivia em Cevide, terra da esposa. Ainda moço, principiara a laborar como passador patenteado para o Relâmpago, o proprietário do comércio dominante em São Gregório, que aprovisionava o Branquinho de Sical e outras mercadorias. O café saía de noite da praia de Cevide na batela do Nelo, e viajava até à ourela galega do Minho, para debaixo da mansão da família Gomes, precisamente. O número de toneladas que assim transitaram morrera na memória. Actualmente, era uma neta, filha do Maia, e o marido, o João-João, que estavam à frente do estabelecimento e para os quais ainda fazia uns passes periodicamente.

De estatura média, cabelo castanho claro, embora o crânio já estivesse um pouco desprovido, tinha cinquenta anos passados, mas uma compleição viripotente e uma agilidade felina. Estes qualificativos não eram mais do que a decorrência das viagens incalculáveis que executara ao longo dos anos monte abaixo, de São Gregório à Frieira, com objectos de calibre diverso ao lombo – televisores, faqueiros, alambiques, esmagadoras...

Os comerciantes de S. Gregório faziam, digamos, dois tipos de contrabando. O primeiro consistia em pôr do lado de lá  pelos criados – cada negociante tinha os seus –, a uma hora combinada com os clientes espanhóis, as compras sujeitas a direitos aduaneiros. A isenção do pagamento de tributo na alfânfega espanhola fazia com que qualquer objecto portugues fosse sempre rendoso para os nossos vizinhos. O segundo era planejado, encoberto, opaco e atingia dimensões extraordinárias. Como o que se contrabandeava dependia da demanda, as lojas de S. Gregório tinham anexos e aposentos unicamente acessíveis extrinsecamente, onde abundava tudo o que era proibido e reclamado pelos consumidores espanhóis.

Claro que, esporadicamente, as autoridades locais irrompiam numa ou noutra loja e vistoriavam-na de cima a baixo; simples inspecções infecundas. Os guardas fiscais e os funcionários da alfândega eram, em grande parte, nativos e todos os comerciantes tinham entre eles informadores. Mal o ruído de uma razia a um estabelecimento definido era percebido na aduana, o dono concernido era oficiosamente advertido e tudo o que fosse embaraçoso, removido sem demora.

O Nelo já era contrabandista quando veio ao mundo. «Não basta querê-lo para o ser», dizia. De facto, o homem dispunha das qualidades chave: era inteligente, astucioso, corajoso e engenhoso.

 

Continua.

 

 

MELGAÇO ESTÁ MAIS POBRE.

MORREU O PROF. DR. JOSÉ MARQUES.

12/08/1937

29/1/2021

DESCANSA EM PAZ, PROFESSOR

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FORNOS COMUNITÁRIOS EM CASTRO LABOREIRO

melgaçodomonteàribeira, 23.01.21

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foto de a voz de melgaço

OS FORNOS DE CASTRO LABOREIRO

Em todo este rol de documentação histórica, encontramos apenas três referências a fornos antes do século XX. Duas das referências de fornos de pão estão no fundo documental do Cartório Notarial de Castro Laboreiro (1777-1855). Uma no livro de 1823-1837, com a seguinte referência: “(…) aí tem (…) lamasqueira (…) que dá com o forno de pão” (…). A outra referência, no livro de 1843-1846, “(…) o forno velho, tojal (…) eira e palheiro, anta (…)”, cujas confrontações são a nascente com José Alves e a ponte com um caminho público. Se a palavra “lamasqueira”, da primeira referência, for de carácter toponímico, poderá querer aludir ao atual lugar da Ramisqueira. Se assim for, podemos confirmar que existe forno de pão nesse lugar. Este forno, segundo o sr. Eduardo Afonso, herdeiro e seu proprietário atual, sempre foi privado. Acrescentou que dele se serviam todos os vizinhos que no Inverno se mudavam para aquela inverneira, uma vez que um outro forno da Ramisqueira, dito de tradição comunitária, segundo o mesmo testemunho, tinha ruído ou fora demolido. Quando consultámos as matrizes prediais e urbanas na repartição de finanças de Melgaço, o forno da Ramisqueira que atualmente se pode ver, não está registado sob nenhuma tutela. Contudo o forna está implantado num terreno particular, que pertence ao sr. Eduardo Afonso e família.

O atual forno das Eiras pode ser aquele que é mencionado na segunda referência, pois é considerado antigo, não havendo, no enquanto, memória da sua construção. Está implantado entre vários terrenos particulares, e a sua entrada confronta a poente com um caminho público e a nascente confronta-se com a casa de um particular, correspondendo à descrição do “forno velho”. Porém, a população desta branda diz que o forno não tem proprietários, sendo, por isso, comunitário. Tudo parece indicar que assim é, sobretudo pelas suas dimensões, mas ficam por apurar alguns detalhes relativos aos antigos proprietários, que pudessem confirmar a antiga tutela do forno. Este também não se encontra inscrito nas matrizes prediais e urbanas consultadas. A terceira referência encontrada no século XIX, está num livro de atas de vereação da década de 40. No livro de atas de vereação da extinta Câmara Municipal de Castro Laboreiro de 1842 a 1849, está então uma referência ao forno do Lugar das Cainheiras, em 31 de Maio de 1844, a propósito da nomeação de um “goarda rural daquele lugar fazendo cumprir por todos os moradores daquele lugar”, a “vigilância e bom funcionamento”, “de todas as fontes, fornos, caminhos e mais obras públicas daquele lugar.” – este excerto demonstra que todos os elementos nomeados são de uso comum, aliás, “público”. Apesar do excerto da fonte nos indicar uma pluralidade de fornos, atualmente o lugar das Cainheiras dispõe apenas de um forno que se diz ser comunitário. Além da bibliografia e fontes mencionadas não foram encontradas mais referências a fornos anteriores aos finais do século XX que nos levassem a tirar conclusões determinantes relativamente à natureza administrativa dos fornos de pão de Castro Laboreiro que não fosse de ordem principalmente comunitária. Todavia existe uma panóplia de documentação medieval e moderna, que se encontra dispersa e por estudar, não havendo possibilidade nem habilidade até ao momento de a reunir e descodificar, mas onde se poderão encontrar informações específicas quanto ao passado tutelar destes bens de produção.

 

CASTRO LABOREIRO – DO PÃO DA TERRA AOS FORNOS COMUNITÁRIOS

Uma proposta de mediação patrimonial

Diana Alexandra Simões Carvalho

Dissertação do Mestrado em História e Património

Ramo de Mediação Patrimonial

Faculdade de Letras da Universidade do Porto

2017

pp. 60-61

 

video de diana carvalho

 

 

FRAGMENTOS DE VIDAS RAIANAS 25

melgaçodomonteàribeira, 16.01.21

 

A Otília e a Maruja foram percorrendo a ponte pausadamente. Conversavam com animosidade, mas não desviavam os olhos da curva pela qual podia sobrevir a qualquer altura o jipe dos guardas civis. A juridisção deles incluía metade da ponte. Desceram a maciça escadaria metálica e, pachorrentamente, como se passeassem, calcorrearam o caminho paralelo à via férrea. Este atalho, lamacento quando chovia, terminava junto da passagem de nível, depois da estação. Exteriormente, nada denotava o refolho dos quilos de café. Visivelmente, eram as mesmas com ou sem eles.

Pousados no primeiro degrau dos três que contava a tienda, avistaram a Tinita e o marido, o Sebastião. Dum saco de lona, iam extraindo umas magníficas cebolas que entrançavam, formando grandes réstias.

A Tinita era uma septuagenária muito bondosa e devota. Era patroa de uma loja de roupas e de calçado. Como não puderam ter filhos, quatro anos atrás, optaram por adoptar a Lurdes, filha de um casal português que albergavam, o Manuel e a Augusta. A miúda ainda não  andava. A Tinita e o Sebastião cuidavam dela como se fosse uma princesa. Cada dia, enroupavam-na com novos indumentos. Olhavam para a garota como para uma deusa.

Pouco depois da adopção, a Augusta ficou novamente grávida. O segundo parto deu vida a outra menina, a quem puseram o nome de Maria. No sub-rés-do-chão, onde os alojavam – a antiga adega –, o solo era de terra, sem divisões, e os ratos, os ocupantes lídimos, flanavam indiferentemente. A pequena Maria foi crescendo e definhando no meio de tanta esterqueira, de tanta incúria, de tanta miséria, sem saber que a rapariga que vivia por cima era sua irmã. Na casa, as rixas sucediam-se diante da garota, a quem a míngua e a adiaforia esponjavam as lágrimas e o temor. Pétrea, apática a estes alaridos constantes, divertia-se com os ratos.

Quando se viam a distância, a Lurdes, ingenuamente, vexava-a dizendo-lhe que se vestia com farrapos, que não se lavava, que não tinha sapatos, que era muito magra... Intrincada diante de tanta pompa, a Maria não falava, interiorizava tudo. O olhar vítreo, fusco, cruciante, deprecava auxílio, bondade, amor, tudo o que a irmã tinha em demasia.

A Tinita obstou as duas crianças de conviverem, de se falarem, enterrando o elo de irmandade que as unia. A despeito de contundir princípios cristãos humanamente irremissíveis, assistia como o crente mais expurgado e com alegria à missa dominical na companhia da filha e do marido.

O Manuel, além de abécula, era um alcoólico incurável; a mulher e a filha assemelhavam-se a camponeses medievais. Apenas saíam da casa para ir à água ao lado oposto da casa.

A palermice não inibiu o pai das raparigas de desvendar na incapacidade da Tinita – e no desgosto que daí escoava – uma forma de a espoliar facilmente de umas pesetas, a fim de cevar a sua intemperança inveterada e fomentar as suas alienações iteradas. Oportunista, prestes a tudo, de vez em quando, chantageava-a, intimidando-a de desapossá-la da filha.

Figurava no rol das pessoas que não nasceram para beber. O álcool, verdadeira pernície, subjugava-o, enraivecia-o, desfigurava-o, conspurcava-o. Como todos os fracos, nos quais a dependência se refugia sem esforço, o seu amanhã era uma contingência. No início, bebia para se embriagar; depois, para se furtar à ressaca.

Fazia da vida das pessoas do lado direito do Minho um inferno. Quando o álcool o inundava, desassisava. Então, a altas horas da madrugada, ia para diante das casas dos habitantes, espertando-os com vitupérias, alusões paradoxais inimagináveis, passíveis de arrepiar o ser mais abjeto.

Uma noite, durante uma das suas alucinações etílicas, dando de conta que um comboio se acercava, pulou para a via-férrea gesticulando e rugindo. Foi arremessado violentamente pela locomotiva para a beira da via.

Apesar das inúmeras contusões e das fracturas suficientemente críticas, restabeleceu-se em poucas semanas. Não tardou em recomeçar os seus desvairos.

Nas aldeias, as pessoas ressentiam as depredações provocadas à volta delas pela calamidade que representava o álcool. A escassez e a dureza do trabalho, as circunstâncias de vida peníveis e desesperantes faziam delas pessoas complacentes.

Também lhe perdoavam porque quando estava num estado normal, não deixava de ser um indivíduo deferente e serviçal.

Tanto o Manuel como o Manel Grande – e muitos mais naquela parte da raia – vieram preencher o vazio deixado pelos galegos emigrados. Entre Cevide e Vila Real de Santo António eram milhares.

Como era de supor, as duas mulheres fizeram uma alta para parolar e, preventivamente, deitar uma olhada à ponte. Todas as precauções eram poucas para frustrar as astúcias dos guardas civis.

— Carambas, Tinita, que boas cebolas tivestes! E tantas! – constatou a Otília perplexa.

— Graças a Deus, mulher. Foi um ano bom – retorquiu a Tinita – Ides de passeio, não?

— Vamos à estação ver o Firmo – foi a vez da Maruja.

A Tinita, como os outros habitantes, estava a par do porquê destas visitas bisadas. Pousou as cebolas já trançadas no regaço. A sua cara reverberava intriga e suspeição. Depois de espreitar com fugacidade para um e outro lado do caminho, demandou em voz baixa:

— Quando vínheis pela ponte não apercebestes umas pingas de sangue no passeio, antes de chegar às escadas?

As duas mulheres, pasmadas pela nova, entreolharam-se e abanaram negativamente a cabeça.

— E não ouvistes uns tiros por volta das quatro da madrugada?

Cada vez mais confusas e alarmadas, deram, por sua vez, uma olhadela em redor e avizinharam-se mais da Tinita e do marido.

— Pois olhai, estava despertada quando senti dois tiros. Virei imediatamente a cara para o despertador, por isso vos digo que eram quatro da madrugada. De manha, já não me recordava. O Sebastião, como sabeis, vai lá acima regar mal o sol nasce e, quando veio, disse-me que havia pingas de sangue frescas antes das escadas. Foi então que os tiros ressoaram na minha cabeça. Fiz logo a ligação.

— Não nos digas, mulher! – exclamaram a Otília e a Maruja.

 

Continua.

 

 

SUSPENSAS MISSAS EM MELGAÇO DEVIDO AO AUMENTO DE CASOS DE COVID-19

 

 

 

EMIGRAÇÃO E CONTRABANDO

melgaçodomonteàribeira, 09.01.21

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A VIAGEM

Como excelente jornalista que era, o Sr. Rocha N. (1965) decide empreender a viagem até Paris com os emigrantes que partiam de Melgaço.

A empresa ‘Viagem Lugan’, sediada em Madrid, na rua Dr. Fleming – notem a ironia histórica – trabalha também em Ourense. Na referida cidade, executava o transporte dos emigrantes (documentados) para França. Partia primeiro de Ourense, deslocava-se até à vila de Melgaço e depois prosseguia viagem até Paris.

Anteriormente era o Sr. Peres – co-herói do livro escrito por Rocha – que conduzia os emigrantes até Ourense no seu velho chevrolet. Entretanto, um empreendedor melgacense tornou possível a partida directa de Melgaço, pelo preço de 650 escudos. “Foi, pois, a 11 de Maio de 1963 que se publicou a notícia sobre o estabelecimento da carreira entre Melgaço e Paris.” (Rocha, N., 1965, p.55)

O Sr. Rocha empreendeu a viagem como jornalista, concebendo um magnífico, senão exemplar, trabalho científico de campo.

Embarcou, em Melgaço, junto de mais 28 passageiros, dois deles clandestinos. O primeiro trajecto era de Melgaço a Ourense, a viagem desenrolou-se por más e péssimas estradas de montanha.

Os emigrantes dispunham para seu gáudio de um farnel: chouriço, frango, presunto e vinho verde. O vinho do Porto e o tabaco eram, por vezes, cobiçados e apreendidos pelas autoridades espanholas.

Na fronteira portuguesa, as autoridades não poupavam esforços para evitar o surto migratório e desconfiavam dos passaportes dos turistas, pois, estes eram usualmente usados para dar o salto. As artimanhas forjadas passavam, por exemplo, pelos passaportes falsos; a fotografia do titular era arrancada e substituída pela do emigrante clandestino.

Na cidade galega de Ourense, a camioneta portuguesa dava lugar a uma espanhola. Eram, então, verificados todos os passaportes:

“Nos primeiros tempos a camioneta seguia guardada por elementos da polícia espanhola, armados de metralhadoras, para impedirem o ingresso de clandestinos. Na verdade, durante a noite passavam a fronteira na clandestinidade e apanhavam depois a camioneta em território espanhol para seguirem destino a Paris.” (idem, 1965, p.67)

A viagem prosseguia o seu penoso trilho, dirigindo-se para França. Deveria para tal atravessar a fronteira em Dancharineia, nos Pirenéus, uma vez que a fronteira de Hendaye se encontrava misteriosamente encerrada aos emigrantes.

Em paisagem de alta montanha a camioneta, por vezes, não arrancava. Os passageiros eram, então, obrigados a empurrar o veículo.

A viagem decorria sem interrupções, não havia justificações para tal! Por vezes, alguns retardados acabavam abandonados em terras desconhecidas e demasiado distantes para as suas posses, aquando de simplesmente darem vazão às suas necessidades básicas. Usualmente, o emigrante apenas trazia consigo algum dinheiro e o contacto, o qual constituía a rede social de apoio – e muito receio e esperança.

Entre Melgaço e Paris, decorriam 96 horas de intensa e penosa viagem. O tratamento facultado pelos motoristas, os quais conduziam duas noites e dois dias sem dormir – algo heróico, mas homicida – era, no geral, desumano. Limitavam-se ao brusco: ‘Oh, tu!’, revelando o valor simbólico da carga que conduziam.

Para ter acesso ao trabalho, em França, era necessário dispor da famosa carta verde, a qual era fornecida pelas autoridades francesas, permitindo que os portugueses ali trabalhassem legalmente.

Como referimos acima, no interior da camioneta encontravam-se dois clandestinos, um deles logrou os seus objectivos, o outro, ou melhor, a outra foi prontamente retida, em Espanha.

 

Emigração & Contrabando

Joaquim de Castro e Abel Marques

Edição do Autor 2003

pp. 92,93

video de Município de Melgaço

 

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raposa em castro laboreiro - foto norberto esteves - notícias ao minuto

 

 

FRAGMENTOS DE VIDAS RAIANAS 24

melgaçodomonteàribeira, 31.12.20

Os diabos dos guardas civis não demonstravam vontade nenhuma em mexer, e isso abespinhava-as. Portanto, àquela hora da tarde, os raios de sol abrasavam as placas esverdeadas da casota onde descansavam. A atmosfera interna, indubitavelmente irrespirável e perspirante, convinha-lhes, pelo visto.

Mas havia dias assim, que eram embirrentos, impedientes. Tinham, provavelmente, adivinhado a intenção das duas mulheres. As urdiduras dos guardas eram-lhes familiares e havia dias que adoravam contrariá-las, aborrecê-las. Era, para os detentores da autoridade, um modo de lhes notificar a hegemonia de que eram senhores e à qual tinham de se arriar.

Para as pessoas como elas que tinham de ir com frequência à outra riba fazer umas lidas, a vista do jipe, em parte, tranquilizava-as. A sua ausência decuplaria a ambiguidade e a desconfiança; os carabineiros podiam aparecer de repente ou, emboscados em qualquer lado, vigiar a ponte e a estação com binóculos.

Languidamente, taramelavam, palratório decerto asséptico, que, em essência, não diferiria dos que tinham diariamente em qualquer outro lugar e situação.

Tiveram de pacientar mais cinco minutos, antes de ouvirem ronronar o motor do potente Land-Rover Santana. Ainda houve uns instantes de suspense acerca do destino dos guardas civis. Tremulavam, ou simulavam. Às vezes, vinham ao café do Manolo dar uma vista de olhos e beber algo, embora não fizesse parte da circunscrição deles. Finalmente, deram meia volta e desapareceram na curva.

A Otília e a Maruja, a mulher do Virgílio, permaneceram amouchadas nos degraus. Com o tempo, descobriram que a impaciência era capaz de originar surpresas amargas. Dali, o troço final da estrada estrangulada que conduzia à estação era claramente visível. Perscrutaram-no demoradamente. Não, os guardas civis não tomaram a direcção da estação, de outro modo já tinham divisado o jipe. Levantaram-se e prepararam-se para atravessar a ponte.

Colaboravam, havia bastante tempo, com o Firmo, o chefe da estação de ferrocarril –caminho de ferro –, personagem poderosa e respeitada pelos aldeões. Alto, fortinho, o passo do homem seguro de si, era a calma personificada. Moinante desconforme, sempre bem disposto, era dotado de um humor fino, inaudito.

Entre dois comboios, abandonava o seu cubículo duas vezes por semana. Ia ao bar do Manolo na companhia do seu amigo Bárcia, um sexagenário tão forte como ele. Ex-membro da Benemérita, havia anos que fora ejectado da instituição por corrupção quando prestava serviço no porto da Corunha. Desde aí, explorava um modesto restaurante em Arbo, sua terra natal, o Casa Bárcia. Sita junto da estação ferroviária, a casa tinha como especialidades angulas al ajillo (meixão) e lampreia do rio Minho. Era o sósia de Clark Gable.

Além da amizade que os associava, deslocava-se igualmente à Frieira por causa dos atributos da carne do Celso.

O Firmo era sempre o primeiro a transpor a porta do bar. Fosse quem fosse que estivesse presente, nasalava acentuada e invariavelmente o mesmo enunciado:

— A ver, põe-nos dois vermutes num pronto e com carinho !

Enquanto bebiam dois ou três cada, entretinham-se soltando meia dúzia de palavras vãs. Pagavam por turno e, quando o Manolo estava presente, como despedida, o Firmo resmungava:

— Cada vez tenho menos ganas de vir beber um aperitivo a este bar. Somos mais mal recebidos do que um cigano, joder!

Eram homens de poucas palavras, que se apreciavam admiravelmente, e que sabiam mais coisas do que na realidade desejariam.

O Firmo residia em Ribadavia. Como chefe de estação, tinha uma situação vantajosa. No entanto, quando se tratava de ganhar umas pesetas suplementares fazendo um jeito aos amigos, ou simplesmente aos amigos dos amigos, aceitava com grande alegria. Certos dias, finalizado o dia de labor, quando subia para o ferrobus das seis da tarde para volver ao lar, carregava uma caixa de papelão de considerável tamanho bem encordoada. O conteúdo não era novidade para os habitantes dos dois lugares.

A Otília e a Maruja, como os antepassados e todas as velhotas das aldeias mais ou menos da mesma idade, tinham um abdómen desenvolvido. Depois dos numerosos partos, não usaram – não fazia parte dos seus costumes – os artifícios das citadinas para o ventre reassumir a planura anterior.

O Firmo teve, pois, a brilhante ideia de fazer dessa especificidade um recurso e de tirar proveito dele, tanto para si como para as mulheres. Por meio delas, o chefe da estação abastecia em café Sical alguns amigos e quase metade dos proprietários dos cafés de Ribadávia, a vila que fora capital da Galiza.

Alternativamente, e mais do que uma vez por dia, a Otília, a Maruja e outras mais convergiam para a estação com dois quilos de café dissimulado no baixo ventre. O Firmo nunca fora molestado pelas autoridades. Esta imunidade era legitimada pela sua posição.

Os guardas civis e as famílias beneficiavam de um desconto de sessenta e cinco por cento no preço dos bilhetes da RENFE, qualquer que fosse o destino em Espanha; o Firmo recompensava-lhes o privilégio acordado com uns bilhetes especiais que os dispensava dos trinta e cinco por cento restantes. A colaboração fazia o bem-estar de todos.

O chefe da estação também ajudava as pessoas que ansiavam visitar os seus parentes dispersados pela Europa, adquirindo-lhes na agência Wasteels de Ribadávia os notórios bilhetes BIGT – bilhete internacional de grupo para trabalhadores.

Criadas por um belga no início dos anos cinquenta, estas agências destinavam-se exclusivamente aos emigrantes e dominavam o mercado dos bilhetes a baixo custo. Graças aos seus preços imbatíveis – menos 30% –, a Wasteels facilitava a centenas de milhares de imigrados pela europa ocidental e central a viagem aos países atinentes. Contudo, para aceder a estes títulos de transporte era indispensável fundamentar o estado de emigrante.

Com o Firmo, a agência era pouco ou nada formalista. Permitia mesmo encarecer ficticiamente de cinco por cento o preço dos bilhetes, suplemento reavido pelo chefe de estação quando entregava o bilhete ao pedidor.  

Este favor que fazia aos parentes dos emigrantes – evitava-lhes a perda de tempo, o sumpto da ida e volta a Ribadávia e concedia-lhes o desconto a que não tinham direito – era-lhe amplamente agradecido.

 

Continua.

 

 

UM GRANDE ABRAÇO A TODOS OS QUE ME VISITAM

E

2021 SEM OS BICHOS

 

 

MELGAÇO, VIAGEM PELA RAIA

melgaçodomonteàribeira, 24.12.20

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 rio trancoso

MEMÓRIAS DE TRANSGREÇÃO

Preservam-se memórias de outros tempos em pequenos museus – em Melgaço, Vilardevós (Ourense), Ciudad Rodrigo (Salamanca), Oliva de la Frontera (Badajoz) e Santana de Cambas (Mértola). Frente à escassez de um produto ou a grandes diferenças de preços ou de carga fiscal, sempre houve quem abrisse caminho entre giestas e estevas, rochas ou tufos, regatos ou rios.

Na freguesia de Cristóval, em Melgaço, perto do marco de fronteira número 1, Lurdes Durães podia ficar dias inteiros a contar estórias. A mulher, de ágil memória nos seus 73 anos, costuma dizer que nasceu no meio do contrabando: “Depois da guerra civil, aos espanhóis fazia falta, sabão, unto, toucinho e outras coisas de comer.” O pai dela “tinha um comerciozito a dois ou três quilómetros” A mãe dela via espanhóis a entrar e a sair de uma loja ao lado de casa. Saltavam as pedras do rio Trancoso e subiam pelos terrenos dos avós de Lurdes. Era ela ainda bebé quando a mãe arrumou a mobília num canto da sala, de uma tábua fez um balcão, mandou vir “unto, toucinho, sabão – as coisas que os espanhóis vinham buscar” – e pôs-se a vender.

A ninguém causava remorso o contrabando. Aquilo até podia ser crime, mas não seria pecado, dizia-se em Melgaço. Quem era o lesado? O Estado. O que era o Estado? Ali não se via Estado a não ser na sua forma repressiva. Estava Lurdes casada havia um mês quando o marido lhe disse:

- Temos de ir a Ourense!

- Agora, nesta hora, que estou a fazer o comer?

- Já vimos! Vamos e vimos depressa.

Puxou-a da cozinha para a sala, para que ninguém ouvisse o que tinha para lhe dizer, nem visse o que tinha para lhe mostrar.

- Tens de levar este ouro.

- Como vou levar isso tudo?

- Ao pescoço.

Eram muitos fios de ouro. Tantos que Lurdes não sabe. Anuiu, um tanto assustada. Colocou” para aí 20 ou 30 fios” ao pescoço e meteu os restantes na carteira. Estava uma verdadeira minhota. Dir-se-ia prontinha para ir às festas de Nossa Senhora da Agonia, em Viana do Castelo.

- E se nos prendem? – perguntou.

- Não! O ouro é teu. Ninguém te pode proibir de o levar. Podem assaltar a casa. Andas sempre com ele.

“Eram as nossas desculpas”, conta ela, sentada na cozinha da casa que ainda agora habita. O apurado conhecimento do terreno e o suborno pago aos guardas não explicam tudo. Toda a gente se conhecia. No contrabando andavam familiares, amigos ou vizinhos dos guardas. Nas décadas de 1960 e 70, alguns, como Lurdes e o marido, até misturavam contrabando com auxílio à emigração clandestina. “Tínhamos esconderijo no carro e levávamos uns quilinhos de café.”

O 25 de Abril de 1974 não acabou com o contrabando. Lurdes e o marido ainda fizeram muito negócio depois da Revolução. Levavam louça, cerâmica. Traziam televisores, aparelhagens. Tanto susto apanhou. Tantas vezes se sentiu à beirinha do fim. E, mesmo assim, tem pena que tudo tenha acabado. “Devia voltar outra vez. As aldeias estão a ficar sem gente. A gente das cidades não quer vir para as aldeias. O que vem fazer? Os nossos novos têm de emigrar ou de ir para as cidades…”

 

Ana Cristina Pereira (texto)

Adriano Miranda (fotografia)

 

Jornal Público (Online)

15 de Junho