Sábado, 21 de Abril de 2018

OS NOVOS LUSÍADAS

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Certo dia, como se fora um qualquer lunático, passou-me pela cabeça continuar «Os Lusíadas», obra escrita por Luís Vaz de Camões no século XVI. Se ele, em circunstâncias assaz difíceis, sem a preciosa ajuda dos computadores e seus programas, sem livros de história ali à mão, sem dicionários, sem enciclopédias, sem nenhuma biblioteca de apoio. Conseguiu levar a cabo aquela imensa epopeia, aquele monumento literário, aquele alforge de saber e imaginação, também eu, ser humano como ele, poderia construir algo parecido. Acontece que génios como Camões só surgem no planeta de cem em cem mil anos; logo, teremos muito que esperar e desesperar. Os seus vastos conhecimentos, a sua capacidade de apreender tudo aquilo que o rodeava, as suas leituras da juventude, a sua vivência, a sua escrita empolgante, são irrepetíveis. Apesar de saber tudo isso, vou dar início a este louco empreendimento, sabendo de antemão que vai ser obra pequena, defeituosa, inacabada. A vida é assim, não se pode parar. Eça de Queirós e Camilo Castelo Branco na prosa, Amália Rodrigues no fado, José Afonso na canção, Travassos, Eusébio, Figo e Cristiano Ronaldo no futebol, Livramento nos patins, Joaquim Agostinho no ciclismo, Carlos Lopes, Fernando Mamede, e Rosa Mota no atletismo, etc., foram figuras cimeiras na sua arte, na sua profissão. No entanto, outros artistas foram bons, ou aceitáveis, sem contudo atingir a perfeição dessas estrelas. «Parar é morrer», já diziam os nossos antepassados. Por isso, mãos à obra. A história de Portugal é riquíssima, há muita matéria-prima a explorar. Quem sabe se esta ousada iniciativa não irá estimular alguém com mais talento e saberes do que eu? Aguardemos.

 

Em mil e quinhentos sai do Restelo

A frota comandada por Cabral;

Os navios levam pão, chirelo,

Muita carne, conservada em sal…

Iam em busca de terras, dum selo,

Para a nobre causa de Portugal.

Descobriram, “por acaso”, o Brasil,

Rico de matas, ouro, rios mil.

 

………………..

 

Vou abraçar os meus velhos amigos,

Se é que ainda algum por lá mora;

Comerei com eles belos formigos,

O estonteante doce de amora;

Fumeiro, vinho, são ora inimigos,

Mas por eles nosso paladar chora.

Os anos destruíram nossa mente,

Oxalá dê fruto nossa semente.

 

 

OS NOVOS LUSÍADAS

(tentativa de continuação de «Os Lusíadas» de Camões)

Joaquim A. Rocha

Edição do Autor

Janeiro 2018

pp.5, 29, 180

 

Joaquim A. Rocha edita o blogue Melgaço, Minha Terra

 

 

 


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Sábado, 14 de Abril de 2018

Fragmentos de vidas raianas, 1978 a 1981 - VIII

 

 

Continuação do post do 31 de março de 2018.

 

 

Apesar disso, com as parcas recompensas da lavoura, os magros teres e uns trapicheos – negócios ilegais – circunstanciais, a existência jocosa desta população era visiva.

A gente aceitava a vida rotineira, estóica, compassada pela carrinha que, de manhã, lhe trazia peixe fresco de Vigo; pelo tempo, que era o decisor invariável da viveza e dos encargos colectivos; e pelos crebros comboios que faziam ou não uma transitória paragem no povoado.

O prestigioso e sumptuoso Expreso Rías Bajas que unia a Ciudad Olívica – Vigo – à capital do Reino – Madrid –, e ali apitava por volta das onze da noite, deixava-os impressionados, atónitos. Cópia do famigerado Orient Express, fora fornido, como outros, pela Compagnie Internacionale des Wagons-Lit, depois da sociedade belga que criara o ilustre comboio cessara toda exploração como operadora ferroviária em 1971.

Através das vastas e lustrosas vitrinas do vagão-restaurante, enxergavam os viajantes endinheirados diante de pantagruélicos e refinados pratos. Este espectáculo mirífico e, ao mesmo tempo, fantasmagórico – possível devido à morosidade da locomotiva, compelida pela sinuosidade da linha – pasmava-os e devolvia-lhes a modicidade e a inanidade com as quais se debatiam

Para a prosperidade das aldeias e os seus moradores, a estação era capital, era o seu âmago; a linha Vigo-Orense, o sendeiro para as deslocações inevitáveis. O comboio constituía a única alternativa para os poucos jovens que ainda havia nos lugares redondezes de ambas margens, e cujo futuro dependia dele. Os colegiais utilizavam-no para ir a Ribadávia onde se situavam os colégios mais acercados; os que faziam estudos superiores apanhavam-no à sexta e ao domingo à tardinha para regressar a Santiago de Compostela, depois de um fim-de-semana entre os seus.

Da orla esquerda, distinguia-se um belo, harmonioso e sólido casarão burguês. O contraste com as casas das aldeias das duas ribas era espectacular. Os que se dirigiam para a estação ficavam uns instantes admirativos diante daquele solar, apesar de já o terem visto. O considerável terraço e as colossais galerias envidraçadas, face ao rio, ofereciam uma vista fantástica sobre o Minho e Portugal. Mais abaixo, na parte traseira, uma serração inteiramente mecanizada era imperceptível. Nela trabalhava perto de uma dezena de homens. Mensalmente, despachavam vários vagões abarrotados de pranchas, vigas, traves, troncos e outras madeiras para toda a Espanha. O caminho-de-ferro, ao qual estava subordinada, configurava a sua artéria indispensável.

Era pertença da família Alves Gomes. O genitor, natural de Ponte de Lima, casara com uma espanhola, mas tanto ele como os numerosos filhos eram conhecidos pelos Branquinho. O contrabando fez dele um homem fértil. Várias casas e terrenos disseminados pela zona, serviam-lhe de entreposto para tudo o que contrabandeava. Excluindo o chefe da estação, só ele usufruía de telefone. Apesar da sua influência e dos seus conhecimentos, teve de se refugiar uns tempos em Cevide – onde começara a negociar antes de se instaurar do outro lado – por ter sido objecto de delação. Alojou-se na casa onde vivera, meio degradada. Dali, com um cúmplice, coordenava o seu business sem ser molestado. Para controlar os guardas fiscais com mais facilidade, comprou o moinho junto do Trancoso, a dois passos do posto. Intencionara fazer umas obras de conforto na moradia, mas não teve tempo: o obstáculo que o compulsara a espaçar-se dos seus fora revogado. Reinstalou-se no casarão da Frieira, de onde pilotou os negócios até falecer.

A família Branquinho fora a mais virente e basta da Frieira da margem direita do Minho. Graças ao pé-de-meia amealhado pelo Alves Gomes, os filhos puderam reciclar-se um pouco por toda a Galiza. Só o mais novo, o Carlos, prorrogou o business que enriquecera a dinastia Branquinho: o contrabando. O seu terreno era o lugarejo de Pousa, em frente da freguesia de Chaviães, por onde circulavam os artigos postulados pelos fregueses portugueses. O petate, dificilmente levado às costas por uma rampa até à beira-rio, era, em seguida, transportado para o lado português numa batela que fazia um vaivém infindável durante a noite.

Todas as casas que fizeram parte do esquema concebido por Alves Gomes para o exercício da ramboia – contrabando – foram-se deteriorando progressivamente até se transformarem em ruínas. A algumas apenas se lobrigavam partes, tanta era a vegetação bravia e daninha que as cobria.

 

 

Oficialmente, a tienda do Manolo estava aberta em permanência e sem excepção das oito às vinte horas quando o sol se deitava mais cedo – de Outubro a Março –, e até às vinte e duas horas quando o sol arredava mais tarde – o resto do ano. No entanto, os horários eram flexíveis, raramente respeitados; o fecho era decidido pelo número de clientes e pelas obrigações do contrabando.

Como acontece ordinariamente nas mais pequenas aldeias ou lugares, a sua loja era o local crucial onde tudo o que ocorria, se fazia, se dizia, se sabia ou se pensava na aldeia da margem esquerda era propagado, discutido, comentado e reiterado pela aldeia homónima da banda direita do Minho.

Na loja, ao lado do café, o Manolo vendia um pouco de tudo: géneros alimentícios, louças, recordações, roupas, tintas, panelas, ferramentas, produtos e alfaias agrícolas, e tudo o que reivindicasse o pescador mais intratável e cerimonioso.

Era dono dum autêntico minimercado bastante rentável, que lhe permitia uma vida planturosa e livre de dificuldades factuais. Porém, os proveitos mais roborativos tirava-os do contrabando.

No seu negócio coexistiam pessoas que tinham trabalhos variegados e, visto o leque de produtos que propunha, as razões de lá encontrarem o que era urgente não faltavam. Os consumidores provinham de todo lado e formavam uma clientela fixa e leal.

O escudo, sobreavaliado – não andava longe das duas pesetas –, tornava um grande número de vitualhas muito mais acessíveis em Espanha. Aos sábados, domingos e feriados, mas especialmente aos sábados, naquela região fronteiriça o escudo e os portugueses eram os patrões das lojas, dos cafés e das limitadas boutiques

Regra geral, quando o tempo estava bom, já o Manolo tinha o café e a loja abertos antes das oito. A Rosa, a criada portuguesa, era a primeira a madrugar a fim de passar a esfregona no chão do café e da loja; o patrão, o segundo, cerca de meia hora mais tarde.

 

Continua.

 


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Sábado, 7 de Abril de 2018

UM MELGACENSE EM LA LYS

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trincheira portuguesa em la lys

 

 

ANTÓNIO REIS

 

 

No relógio da eternidade já bateu a hora fatídica em que as parcas cortaram o fio da vida de António Reis. Estou-o a ver rapaz novo, cheio de vida, feito tropa na grande guerra, a partir para França levando no coração juntinhos o nome da mãe e o de Melgaço. Foram eles o seu amuleto e sob a sua influência soube ele impor-se na batalha de La Lys a um pelotão de alemães, quando, rotas as linhas portuguesas, um prussiano alto como as casas e valente como as armas o quis dominar e sentiu-se agarrado pelo António. E vira para aqui, vira para ali; tomba para um lado e tomba para o outro, lá estiveram os dois a medir forças e todo o pelotão parado, pasmado, a gostar de ver e a admirar o camarada português, que era valente. E quando o prussiano julgou levar a melhor e dar um tiro no António, todos os seus camaradas lhe gritaram: - Glória aos valentes! Em sentido! Apresentar armas. Só então o António Reis caiu em si e chorou. Estava prisioneiro. O nome da mãe e o de Melgaço foram na verdade o talismã mágico, que lhe insuflou na alma a valentia e a coragem dos tesos, que sempre mostrou em toda a campanha. E quem há por aí que possa dizer-nos não ter ele retemperado sua fé na vitória dos aliados sempre que rezou baixinho:

 

                          «Lá nas trincheiras exposto constantemente

                          Encarando em minha frente

                          A morte por tanta vez,

                          Pensava nelas e sentia-me tão forte,

                          Que não receava a morte

                          Porque eu era português.»

 

António Reis pertencia ao quadro da nossa Câmara Municipal e foi o notável requinta da banda dos B. V. Em qualquer destes lugares também brilhou e como sempre foi correcto, o seu nome foi um dos bem conceituados entre os seus concidadãos.

Paz à sua alma e condolências aos doridos.

 

                                     (Publicado em Notícias de Melgaço de ../5/1958)

 

 

Obras Completas Augusto César Esteves

Nas Páginas do Notícias de Melgaço

Edição Câmara Municipal de Melgaço

Volume I Tomo 2

2002

Pág.s 689, 690

 


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Sábado, 31 de Março de 2018

Fragmentos de vidas raianas, 1977 a 1981 - VII

 

 

Continuação do post do 17 de março de 2018.

 

 

O não dito reforçava-se e acalentava-lhe com veemência o ardimento de um dia lhe enumerar, assanhada, o ror de vericidades que oprimia nas profundidades mais inacessíveis da alma. Esta situação abespinhava-a e erodia-lhe o psiquismo.

As tribulações das previsíveis consequências imobilizavam-lhe a menor tentação, a palavra inaudível, o menor gesto, ocasionando-lhe, nestas circunstâncias, palpitações latentes. Por enquanto, tinha de refreá-las sem piedade, custasse o que custasse. Faltava-lhe a audácia, prisioneira dos efeitos garantidos. Por vezes, asfixiavam-na tanto que tinha crises de dispneia. Estava de mãos atadas; era escrava da sua fragilidade.

Tirou a tampa a uma panela enfumarada que dormitava por cima da longeva cozinha de ferro – desvanecida havia bastante –, pegou num prato, entulhou-o de batatas, duma mão-cheia de grelos e de três módicas postas de merluza – pescada –, tudo cozido, e depositou-o diante dele sem uma palavra.

Em Espanha, o consumo pelos mais pobres deste peixe lauto e gostoso  – congelado e de pequena dimensão – derivava do seu baixo preço, causado pela possante hegemonia da frota pesqueira espanhola; na Europa, só a norueguesa era mais eficiente.

Adiu-lhe um galheteiro encardido, um garfo e um bom naco de pão semiduro que cortou num cacete. Com um pudor conventual, saiu, foi ao barraco e atestou a típica caneca de cerâmica branca com tiras azuis de um vinho recendente e espumoso. O Manel acarinhava ali uma provisão de tintol em garrafões de cabaço – detestava o vinho branco –, bebida de eminente nível, confeiçoada pelos lavradores mais calejados da zona.

A cada refeição, o consuetudinário era um litro. No entanto, havia dias que, por motivos ignotos, vazava pouco mais de meia caneca. O Manel bebia por amor, pela irmandade que o soldava à pinga, à cepa. Ainda não tinha dois anos e já as sopas de vinho alegravam os seus dias.

A placidez sorumbática da casa era amordaçada pelo estribilho casmurro da água límpida do regato.

Estes ápices deprimentes iteravam-se dia sim dia não. Sem se atardar mais, a Gracinda, silente, foi-se discretamente. Subiu as escadas e acostou-se à cabeceira da cama, já desfeita, com o pequeno receptor a pilhas na mão.

Enquanto que o marido se alambazava e drenava a caneca, sobrava-lhe tempo para lucubrar um tanto; olvidar a vida consternada e sem qualquer ambição ou finalidade que, irreparavelmente, encaixava havia um tempo desmedido.

Era a hora da radionovela, a sua baforada de nostalgia, a sua alegórica escapatória interina, o seu alcalóide biológico. Graças a estes romances diários, simples enredos, devaneava. Apesar das tramas e das manigâncias coriáceas, das inimizades, das perfídeas e das paixões insustentáveis, contrariamente à sua realidade, o desfecho era agradável, romântico. Esta escapulida mental era um reconfortante paliativo que lhe aligeirava as difíceis preocupações conjugais.

Nos dois quartos do lado, a prole, passiva fisicamente, matutava, imaginando um rumo, um caminho, uma bússola. Insubmissos, cada qual vivia no seu universo. Com a petulância arcana dos adolescentes indiferentes às inquietudes, às sombras e à atonia dos pais, eram transparentes, inexistentes. A certeza de um dia enveredarem por um trilho diferente, construtivo e escolhido por eles, estava-lhes obscurecido pelo hodierno mofino dos progenitores e pela penúria. Cada qual tinha o seu objectivo preciso traçado. Embora utópico por agora, tinham uma confiança total neles.

 

 

Nos lugares desleixados como os da Frieira – incalculáveis –, o afastamento e a dispersão dos compósitos e espinhosos trabalhos isolavam, no conjunto, as pessoas durante o dia. O contacto era, pois, impreterível para que não se recluíssem numa insensibilidade sórdida, pestilenciosa. O seu desenvolvimento, notório, desaguava, tristemente, nos aberrantes e inexplicáveis suicídios repertoriados anualmente na região. O instigador, em todos os seus perfis, era e continuará a ser, sem dúvida – independentemente dos perenes pseudoprogressos de comunicação –, a solitude. Este veneno, impassível e infatigável, quando o álcool – o amensalismo com o qual acreditavam combatê-lo – se mostrava impotente, esvaía, murchava e, por fim, destruía-os. O vergonhoso agravamento afónico da desertificação rural não fazia senão periclitar o emaranhamento da problemática.

Aos idosos da aldeia, inofensivos – como aos de todas as outras –, ninguém lhes evidenciava quaisquer razões para os impelir a aproveitar e a ter curiosidade por coisas e recursos que não estivessem estreitamente relacionados com as suas incumbências jornaleiras. Levavam uma vida negligente, embrenhados numa total ignorância e incompreensão do mundo truculento que os envolvia. Sendo, pois, a sua inserção irrealista, o progresso ia-os adulterando e desorientando.

A violência, o sexo, as tecnologias e as práticas cacofónicas e formatadas que viam na televisão – sangrada da sua missão primitiva que era a cultura e a educação dos mais iletrados –, além de os aterrorizar, ainda mais os coagia a persistirem em se enclaustrar nos costumes e nos dogmas arcaicos que sempre foram os deles, e aos quais se empolgavam devotadamente.

O precipício que disjungia a antiga geração da nova era excessivamente largo e intransponível para que a derrisória e árida propinquidade entre as duas o reduzisse com o tempo, mesmo em parte. Viam-se, falavam-se, mas cada qual campava no seu tempo, no seu território, na sua ilusão. A nova, como toda geração nascente, sitiada por uma cinorexia galopante, era febrosa e vivia o dia-a-dia sequiosa, dessabendo a ainda tenra barbaridade passada; a antiga era uma geração descurada, repudiada, incorpórea, que fazia tudo para ressalvar o que lhe sobejava da acidentada modernidade. Por não entrar nos anais do inédito consumismo crescente – a ditadura contemporânea –, nem os corpos políticos seduzia, a não ser em vésperas de eleições.

Não obstante esse encarceramento instrucional, eram seres curtidos. Vivenciaram e superaram uma trágica e interminável guerra civil – incognoscível para a população – que arruinara o país, orfanara um sem-número de almas, desmembrara milhares de famílias e injungira outras tantas à expatriação. Sustentaram com paciência e dignidade o contragolpe acerbo, deletério e miliário que um período bélico desta amplitude acarreta inexoravelmente. Os estigmas complexos e perduráveis que esta hecatombe cruel, inefável gravou neles definiram-lhes uma temeridade original e enrijada. Já nada mais os poderia atribular.

 

Continua.

 


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Sábado, 24 de Março de 2018

UMA VISITA ÀS RUINAS DO REAL MOSTEIRO DE FIÃES

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PROEMIO

 

Um dia, folheando ao acaso o trabalhoso diccionario de Pinha Leal, intitulado Portugal Antigo e Moderno, n’elle deparei e li, este emocinante trecho:

»Leitor, se tens um coração portuguez, se a luz divina se não apagou totalmente em tua alma; se respeitas a memoria de teus passados – dos que te deram uma patria, um lar, uma família; e se algum dia viajares pelo Alto Minho, não deixes de visitar as tristes ruinas do Convento de Fiães; e alli, qual outro Mario, contempla respeitoso estes restos venerandos da fé e piedade do nossos maiores, e chora sobre as ruinas d’este testemunho de suas crenças inabalaveis.»

  

Alli, onde o incenso se elevava dia e noite em perenne adoração ao omnipotente; onde a toda a hora se ouvia o plangente som do orgão, os cantos sagrados dos religiosos e do povo; alli, refugio predilecto dos que no mundo soffriam attribulações; alli finalmente a casa de Deus, em que a piedade tinha amontoado prodigios sobre prodigios de magnificencia, de fé, de caridade – que vemos hoje?

«Ruinas, devastação, silencio, horror!

«As silvas e os cardos invadem os marmores de suas aras santas.

«Os reptis immundos revolvem as ossadas venerandas de varões illustres.

«As aves nocturnas pairam sobre as abobadas, e fazem seus ninhos sobre os brincados capiteis de suas columnas dez vezes seculares.»

 

Surprehendido com esta suggestiva linguagem, que tocava tão directamente a minha sentimentalidade, - fiz logo, um voto de ir a Fiães, se algum dia visitasse essa zona previlegiada do meu paiz, - por muitos chamada: - O jardim de Portugal.

Iria, não para imitar o proscripto Mario, que sobre as ruinas fumegantes da cidade phenicia, chorava os extremos a que a oratoria implacavel de Catão, a tinha reduzido; - mas, para traduzir n’essas desmoronadas pedras, - uma pagina da historia do passado.

 

UMA VISITA ÀS RUINAS

DO

REAL MOSTEIRO DE FIÃES

Guilh. Oliveira

Livraria Ferreira

1903

pp. 7-9

 

 


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Sábado, 17 de Março de 2018

Fragmentos de vidas raianas, 1978 a 1981 - VI

 

 

Continuação do post do 03 de março de 2018.

 

 

Com os anos, aprendera a arrogar-se daquele recanto, a viver ali. Agora suspeitava de que não se conformaria com uma mudança. Era o seu buraco, o seu ninho. Morava em Espanha e via Portugal da sua casa; de ambos lados do Trancoso falava-se uma língua gémea, e as pessoas não destoavam.

No verão, era um rincão feérico, refrescante; no inverno, para as pessoas que como ele compadeciam ligeiramente de reumatismo, a humidade – acrescida pela que a barragem estancava – acabava por ser inconciliável, ruinosa. «Na vida tudo tem o seu revés; não se pode ter só o lado bom.», desabafava com acrimónia.

Uma vez diante da casa, em vez de escorar a sacha à parede, dependurou-a na parreira, a umbela nos dias de forte sol. Premunia-se assim contra a encurvadura do cabo que o tempo, insensivelmente, lhe faria incorrer; a humectação, por seu lado, fazia com que o cabo da sachola aderisse idealmente à parte férrea. O Manel era muito avisado.

Com o préstimo dum pé, abriu, com vigor, a porta do que outrora fizera as vezes de palheiro e de arrecadação para um carro de vacas e distintos apetrechos para a lavoura. A madeira da armação e da porta da casa, apesar do tempo enxuto e ameno das semanas precedentes, ainda se dilatava.

Entrou na cozinha que, por norma, estava deserta. Além desta, o rés-do-chão do pequeno pardieiro era composto por uma minúscula dependência que funcionava como sala de jantar nos dias de festa ocasionais. De baixo da mesa retirou um banco já meio desgastado pelo seu traseiro e sentou-se. Não havia outro, os demais assentos eram cadeiras. Não se sentia à vontade numa cadeira. Desde criança, as suas nádegas afeiçoaram-se aos bancos toscos, fabricados pelo pai com a madeira das árvores das terras que cultivavam. Aquele, fizera-o ele.

Deixou deslizar um repousante uf de acalmia, de complacência enquanto passeava o olhar lasso pela cozinha. A casa era velha, surrada e insalubre, mas havia muito que transluzia uma conivência absconsa entre ele e aqueles escombros remendados. Fora tudo feito por ele, pelas suas mãos calosas, pela sua força animalesca. Mesmo o primeiro andar, e isso era uma sobranceria que não ocultava a ninguém.

Estava bem. Fora um dia cansativo, um dia de faina como os outros, mas tranquilo, e isso agradava-lhe. Nascera para esta vida.

Alertada pelo ruído da abertura brusca da porta, a Gracinda resvalou com languidez e em silêncio os degraus da escada de madeira em espiral, o acesso aos três ínfimos quartos de dormir, que absorviam o primeiro piso. Intencionalmente, eternizava a descida. Ao fim do dia, quando o travesso marido penetrava no lar, velava em abordá-lo com minuciosa circunspecção; aferia o seu humor, a fim de se eximir do perigo de expressar a palavra indevida que o quizilasse bruscamente de modo irracional.

Pequena, franzina, o cabelo trançado, enrolado e preso na nuca, uns olhos pequenos e vivazes, tinha uma certa graça, mas aparentava não ter qualquer prestância. Portanto, era uma mulher com genica da qual emanava uma energia imparável e uma solidez incrível, tanto compleicional como moral. De tempos a outros, quando a chamavam a ela e ao marido para arrancar batatas ou sachar milho, manejava, de modo pretensioso, uma sachola da mesma polegada que a dele. O Manel, para a acompanhar e resistir ao seu ritmo endiabrado sem perder a face diante dos outros jornaleiros, devia duplicar os esforços. Desforrava-se publicamente da falocracia do homem.

Congratulava-se, com toda a legitimidade, que fora graças à sua volição e ao seu afinco que fizeram as economias correspondentes para adquirir o casebre em que residiam. Actualmente, o marido satisfazia-se em entregar-lhe dois terços do salário do dia, guardando a sobra para cuidar da sua fraqueza dipsomaníaca.

A Gracinda, apesar de fazer uns biscatos todos os dias, tinha necessariamente de ser muito parcimoniosa em tudo: na alimentação, na electricidade e, em especial, no vestuário. Embora limpa, trajava sempre a mesma roupa: uns dias com uma, outros, com outra e, ao domingo, com a mais engalanada. O mesmo acontecia com o marido. Os filhos, jeunesse oblige, eram bem mais impertinentes.

O Manel, ciumento como um leão, condenara-a, desde que se tinham amigado, a vestir calças quotidianamente: não admitia que lhe mirassem as pernas. Demasiado perfeitas e excitantes, captariam, a seu ver, olhares devassos; era uma criação da qual tutelava o monopólio visual.

Para os usos recorrentes da terra – omitindo as adolescentes e as vintaneiras mais emancipadas –, esta conduta feminina não era nada bem vista pelas sexagenárias e septuagenárias, que eram a maioria na aldeia. Contudo, o tempo, inebriante e indulgente, foi empreendendo uma estagnante cura homeopática, fazendo com que até as mais escandalizadas se vergassem àquele modelo de trajo.

A Gracinda falava pelos cotovelos. Em geral, a verborreia é vista por muitos como uma anomalia, um descabimento, mas, na Frieira, para sua grande alegria, não; provava que a pessoa era extrovertida e se agregava sem demora à vida do lugar.

 «O silêncio é a única coisa de ouro que deixa as mulheres insensíveis.», dizia o Manel. Com ele, havia muito que a Gracinda se resignara a reter a língua, mas com os da paróquia tagarelava de tal forma que, por vezes, baralhada, interrompia-se por já não saber de que estava a falar.

— Vens um bocado mais tarde do que nos outros dias. Vejo que tiveste muito que fazer – arriscou, com prudência.

«Mais uma!», pensou, agastado. Sem olhar para ela, bufou de novo e, em tom agreste, retrucou:

— Só fiz o que tinha que fazer. Nem mais nem menos.

— E agora estás cheio de fome e de sede, não é? A terra seca-te a garganta – ironizou, um nada solicitante.

O Manel optou por não replicar, embora lhe aprazesse mandá-la calar-se. Fruira de um dia simpático, estava extenuado e não queria estragar a noite de descanso. Sentia-se com pouco ou nenhum ânimo para polemicar. Com malacia e martelando bem as sílabas, retorquiu:

— Vejo que não se te pode esconder nada, Gracinda.

Quando o Manel era prosódico, a mulher não duvidava de que o melhor era fazer de conta e pôr um ponto final ao breve litígio. Desolada, deu meia volta e lamentou-se subtilmente. O diálogo não podia aviltar-se. À medida que as dissimilitudes entre eles floresciam, os dias assemelhavam-se proporcionalmente.

 

Continua.

 


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Sábado, 10 de Março de 2018

A MÚSICA VELHA

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DIOGO MANUEL PINTO DE SOUSA ARAÚJO BESTEIRO

 

Filho de Joaquim António de Sousa Araújo e da mulher veio a este mundo num parto duplo em 22 de Setembro de 1831 e foi levado à pia baptismal em 26 do mesmo mês tendo como paraninfos o P.e José Manuel Dias, de Queirão e Vitória Pinto, de Galvão de Baixo, subúrbios da vila. Era sua irmã gémea Joana Francisca.

Casou em Paderne no dia 7 de Outubro de 1855 com Teresa de Jesus Rodrigues, moça solteira e filha de João António Rodrigues e Marcelina Rosa Alves, do Pinheiro, daquela freguesia e logo no ano seguinte aos 16 de Novembro António Francisco Domingues, da Longarinha, doaram à sua sobrinha Teresa de Jesus Domingues e ao marido o seu prédio rústico Milheiro, de pão e vinho, sito no referido lugar.

Moraram em Midão, onde a mulher faleceu aos 14 de Setembro de 1879 e o Diogo se finou em 22 de Setembro de 1906.

Diogo Manuel foi sobretudo professor régio mas com a profissão de músico aparece indicado no assento de baptismo de seu filho António Cândido.

Os conterrâneos conhecendo-lhe as habilidades musicais, aproveitaram-nas e delas fizeram o consagrado regente da Música Velha, a primeira que foi criada no concelho (1852).

Devia aqui prestar-se homenagem às virtudes deste músico publicando agora sumária notícia do nascimento deste banda musical, mas como isso se torna desaconselhável por o documento já ter sido publicado num destes Costados, limitada fica esta homenagem a um simples momento.

 

O MEU LIVRO DAS GERAÇÕES MELGACENSES

Volume II

Augusto César Esteves

Edição da Nora do Autor

Melgaço

1991

p. 158

 


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Sábado, 3 de Março de 2018

Fragmentos de vidas raianas, 1978 a 1981 - V

 

 

Continuação do post do 17 de fevereiro de 2018.

 

 

A esposa, a Gracinda, quando a oportunidade o propiciava, não desprezava estas fantochadas de ricos, como ele lhe chamava. Influenciada pelas cativantes estultícias da pantalha e pelas constantes cantilenas das colegas, insistira várias vezes com ele para que arranjasse uma televisão em segunda mão; o homem foi sempre intransigente. Um dia, colérica, chantageou: «Pois olha, se não a compras tu, compro-a eu!» O Manel, convencido da sua supremacia, rira e, cinicamente, advertira: «Com o machado, abro-ta ao meio, Gracinda». Desistiu. O marido não tinha por hábito ameaçar em vão, e ela sabia-o bem; tinha a triste confirmação disso no corpo.

Para não suspender a viagem  quimérica à mulher do patrão, ainda que fosse apenas por uns segundos, bateu de mansinho com a manápula aberta por cima do balcão. A cortina afastou-se quase instantaneamente e o Manolo desembocou da cozinha. Verteu o tinto na tigela sem pronunciar uma palavra e, consoante irrompera, assim  desapareceu.

Havia pouco tempo que coabitavam. Para ele, pouco tempo era um, dois anos. No entanto, estimava-o e testemunhava-lhe uma sincera admiração por ser um homem obsequioso, sempre bem-disposto, consciencioso e que escutava os problemas dos outros. Era uma maneira de ser que lhe agradava. Graças a Deus, até àquele dia, não tivera de ir bater à sua porta... nem à de ninguém. Ainda que não o demonstrasse, nem o confessasse, o Manel estava a par de muitas coisas. Para ele, a reserva e a civilidade eram propriedades consubstanciais.

Percebera que, embora fosse bastante galhofeiro, era um homem seriíssimo. Quando, por coincidência, assistia às suas pilhérias, ria com um anelo irrefreável, apesar de nem sempre as compreender. Eram suficientes as suas mímicas, a fraseologia e o estilo para o fazer gargalhadear.

Uma música mais forte apregoava o fim da telenovela.

A Maribel, depois de se espraiar ruidosamente, levantou-se com a alhada costumeira. Saíra do entorpecimento em que as novelas a entranhavam. De estatura média, cabelo preto cortado à rapaz, usava uns vestidos floreados, largos e compridos. Forcejava-se para encobrir ao máximo as redondezas que a entristeciam e contra as quais conflituava desde o primeiro e único parto: pesava uns bons vinte quilos a mais do que o marido.

— Ai, tu estavas aí, Manel? Não te vira.

«É bem verdade que as mulheres desgraçam a cabeça com estas palhaçadas.», disse para si.

— Vens do Freixo, não? – e acrescentou logo – Vens tarde, carambas!

A observação não o incensou. Um esgar inaparente dos beiços traiu o seu descontentamento. No timbre da voz decifrou, uma vez mais, a ponta de diatribe habitual à qual nunca se acostumara.

E se tivesse trabalhado até anoitecer ou se, como era proverbial, tivesse dilapidado o restante da tarde a beber? Vinha quando queria e lhe apetecia e ela não era quem para o reputar sobre o emprego que fazia do seu tempo. Quando é que a gente abandonaria essa ousadia, essa desenvoltura de se entremear na vida dos outros e de os avaliar?

Não era o que ela conjecturava, a ideia que fazia das suas quedas, dos seus vícios ou da sua vida que o irritava, mas a permissividade com que se sentia autorizada em admoestá-lo.

Que cresse o que quisesse! Devido à sua mandriice e à sua verbosidade, o carinho por ela nunca levedara e, cada dia, mais abaixava.

A despeito do fastio com que as suas palavras o tinham acirrado, sorriu-lhe friamente e deu aos ombros. Preferiu fazer o néscio e não ripostar.

Podia ser reconhecida ao formidável marido, senão havia muito que a tinha posto no merecido lugar.

Exasperado, inspirou devagarinho o mais que pôde. Eram horas de ir para a casa. Apesar do corte da patroa, recobrara vivacidade e tinha fome. Pediu mais uma tigela para o caminho e pagou as três.

Já noite escura, enxada ao ombro e sibilando baixinho, foi encurtando a distância que o abduzia do logo. Depois de percorrer uns cem metros pela estrada, virou à direita, pelo caminho do regato. A partir dali, a ligeira luz – e intermitente – era a do inapreensível astro da noite quando os cúmulos, de imprevisto, o não impediam de espargir a sua claridade coruscante e imaculada. Por entre campos e por debaixo de um par de latadas, ia ao encontro da velha casa que ocupara uns anos depois de emigrar para a Galiza.

Não ressentia arduidade alguma para se orientar. Era capaz de adivinhar o caminho de olhos fechados. Sem embargo, já lhe adviera, embriagado, de se enganar e de dar sucessivas voltas a um ou outro campo até, por fim, atinar. Outra vez, não caiu no tanque de rega que havia ao lado de uma das latadas porque teve o reflexo de deitar uma mão ao pé de uma vinha.

Uns metros antes de avistar a luz da casa, já ouvia o burburinho particular orquestrado pelas águas do regato, tão recôndito e falante. Discriminava facilmente as variações sinfónicas que, durante o ano, o caudal, umas vezes agitado, atrabiliário e estrepitoso, e outras, sereno, reticente e embalador, gorjeava.

Quando a noite fora boa, deitava-se descontraído, encantado, com a cabeça ensopada de álcool. Durante estas madrugadas, bastante frequentes, a casa afigurava-se-lhe um palácio, o colchão, de penas de ganso, e a mulher, a mais bela e excitante que podia existir. Até o sussurro do ribeiro, que lhe valsava no bestunto, soava como o folclore – uma invenção divina, dizia –, a sua flama, o seu fervor desde que tinha ouvidos. Adormecia arrastado por este arrebatamento, como uma criança, como um serafim.

E, repetidas vezes, tinha o mesmo pesadelo: via-se no cimo de uma montanha, no fundo da qual vislumbrava uma ponte monstruosa sob a qual serpenteava um rio sedicioso. Apesar da sua resistência, terrificado, era propelido no vazio por um viço esfíngico. Apartava os braços e auxiliava-se deles como se fossem asas, até se amainar e governar a conturbação. Em seguida, baixava vagarosamente e pousava-se numa das pontas do viaduto. Uma admirável euforia atufava-o.

Quando acordava e lhe sobreviviam resíduos destas fantasias, infestava-o uma ledice estrambólica.

 

Continua.

 


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Sábado, 24 de Fevereiro de 2018

ALTO MINHO E GALIZA. ESTUDOS HISTÓRICOS

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O REITOR DA UNIVERSIDADE DO MINHO

 

O Professor Doutor José Marques é um académico de referência que desenvolveu a sua carreira na Faculdade de Letras da Universidade do Porto, com extensa obra publicada, reconhecido pelos seus pares nacionais e internacionais e referenciado pelos que tiveram o previlégio de ser seus alunos. Neste contexto, personifica o que nas universidades anglo-saxónicas se designa por scholar at large, pela holística dos seus conhecimentos e pela especialidade dos seus saberes, competências que são evidenciados ao longo deste livro por testemunhos muito variados.

Enquanto Minhoto de nascimento, bracarense de sacerdócio e investigador medievalista, José Marques teve um percurso que se cruzou naturalmente com o da Universidade do Minho (UMinho), numa relação natural, cúmplice e intensa que a Universidade quer reconhecer através deste testemunho do seu Reitor, na publicação desta obra e no evento que lhe está associado. Uma relação muito profícua e multifacetada que tem como principal locus o Arquivo Distrital de Braga (ADB), unidade cultural da UMinho que constitui um dos maiores acervos documentais nacionais, nomeadamente sobre a Idade Média.

José Marques tem sido um dos seus mais insignes utilizadores, cuja leitura com olhar perscrutante, abordagem científica e cruzamento de conhecimentos revelou conteúdos de documentos únicos. Este Arquivo foi um dos principais lugares de estudo e fonte de informação para o investigador José Marques, que ele utilizou intensamente ao longo de quase cinco décadas.

O Doutor José Marques retribuiu essa disponiblidade da melhor maneira e do modo como apenas um académico o pode fazer, pelo conhecimento que criou a partir suas leituras, investigações e análises integradoras e comparativas. De facto, na sua extensa lista de publicações são omnipresentes as referências ao ADB e, importa realçar, existem traduções, para latim moderno ou português, de compilações de documentos medievais como são os casos do Liber Fidei ou do Cartulário do Mosteiro de Fiães.

Para este Arquivo, esta Universidade e esta Região, José Marques é um pensador incontronável sobre o período histórico fundacional dos contextos sociopolíticos e administrativos que originaram o aparecimento da nação portuguesa e de uma geografia diocesana que teve enorme centralidade no nosso percurso histórico do último milénio. Pensador igualmente incontronável para perceber o espaço transfronteiriço e culturalmente identitário do Norte-Galiza. Espaço que a separação histórica entre os dois países ibéricos não eliminou e que se constitui hoje como património relacional, cultural, social, económico e político potenciador de novos modos da construção europeia.

Por tudo isto, o evento da inauguração das novas instalações do Arquivo Distrital de Braga teria de se cruzar com a figura de José Marques. Estas novas instalações são um investimento de grande qualidade, em montante superior a quatro milhões de euros, que dotará o ADB de excelentes condições para a persucução da sua missão de serviço público na conservação, disponibilização e divulgação do seu valioso espólio. É a concretização de um sonho para a Universidade e para todos os que, hoje, utilizam o Arquivo presencialmente ou por acesso remoto.

Estou certo que o nosso Amigo José Marques é um dos que está mais feliz com esta obra, ao ver os seus documentos – porque foi ele quem mais os utilizou – adequadamente preservados para que futuros investigadores possam continuar a sua obra.

Obrigado Professor José Marques, estou certo que o novo Arquivo continuará a ser uma das suas casas.

 

                         António M. Cunha

                        Reitor da Universidade do Minho

 

 

 

UM ESPAÇO FRONTEIRIÇO MAS DE “VIZINHANÇA”

 

A criação das fronteiras tem muito a ver com as decisões políticas, mas a sua consolidação demora muito tempo, nomeadamente no processo de serem aceites pelas populações que moram em territórios vizinhos. Contudo, a vizinhança é um valor mais forte do que as normas administrativas. Um exemplo que patenteia esta realidade é o limes político traçado desde o século XII nas terras da velha Gallaecia entre o reino da Galiza e o novo reino de Portugal. Passaram vários séculos e continuavam em vigor muitos vestígios da continuidade territorial praticada desde a época romana e sueva. Com certeza, as mudanças políticas da primeira metade do século XII foram irreversíveis, mas a permeabilidade da fronteira luso-galaica é um dado indubitável, ao menos até aos tempos modernos da guerra de Restauração.

Por esta razão, resulta do maior interesse construir de uma perspectiva cultural e historiográfica actual um discurso que não retroprojecte o sentido e significado das fronteiras dos modernos estados nacionais para tempos mais recuados. Bem o adverte o autor deste livro em nota de rodapé, quando indica que nos “períodos de guerra entre Portugal e Castela, já não podemos falar em Espanha, nessa altura”, assim como o constante reconhecimento dos “galegos” como identidade própria e da Galiza como um reino, mesmo acreditado nos documentos das chancelarias régias, por vezes mencionado como “Gualiza”. Oportuno relativismo que cura os excessos do presentismo. Esta vontade de entender, a partir duma enorme quantidade de fontes arquivísticas, o espaço situado entre os rios Lérez e Lima como um território comum é, no meu parecer, o principal contributo deste livro. Além disso, nesta publicação está recolhido o mais substancial do percurso investigador do professor e cónego bracarense José Marques, especialista medievalista e perito arquivista educado na escola, que teve também fundos ecos na Galiza, do professor Avelino Jesus da Costa.

Os grandes resultados da magna obra do professor Marques e da sua especialização historiográfica nas terras do Alto-Minho e da Galiza, ficam bem retratados no texto redigido pelo professor José Viriato Capela. Eu só poderia apontar qualquer consideração de caráter geral e acrescentar alguma “brasa à minha sardinha”, focalizando a existência de uma realidade territorial contínua entre as águas do Verdugo e as do Lima. Porque se algo fica bem patente na maioria dos contributos aqui reunidos é que os grandes actores da história destas terras durante os séculos da Baixa Idade Média foram, além dos monarcas portugueses e castelhanos, algumas instituições eclesiásticas como o mosteiro de Oia e, nomeadamente, a diocese de Tui que teve de agir entre dois poderes fortes – as arquidioceses de Braga e de Compostela. O mosteiro de Oia possuiu terras e mesmo uma granja ao sul do rio Minho até princípios do século XVI, o mesmo que o bispado de Tui, que logrou manter debaixo do seu governo paróquias situadas entre o Minho e o Lima, de Melgaço a Ponte de Lima ou de Caminha a Viana. Não se trata de proclamar um saudoso irredentismo que não tem lugar no panorama presente, senão de mostrar que “estes povos do Alto Minho e Galiza”, que o autor considera “palco da história nacional” portuguesa, teriam sido durante séculos o contrário de povos de fronteira virados de costas.

Alguns dos percursos mais atraentes do livro – que estão presentes em vários capítulos – são aqueles nos que se dá conta da elevada presença de candidatos galegos a receberem ordens na diocese de Braga ou os pedidos para fazerem vizinhança. A permeabilidade institucional da fronteira, evidente ainda no século XV, nunca esteve encerrada com chave, mas o que importa é que, em menos de quarenta anos (1430-1468), a diocese de Braga conferiu ordens a 597 candidatos galegos, dos quais 228 procediam da diocese de Ourense e 242 da de Tui. Por outro lado, os previlégios concedidos pelo monarca Afonso V às populações do Minho e da Galiza para poderem vizinhar é outra mostra da permeabilidade da raia, mas revela claramente que, no âmbito comunitário e popular, as fronteiras eram pouco mais do que nominais. Na súplica dos vizinhos da vila galega de Baiona a El-Rei D. Afonso V, diz-se que “elles teveram por custume vizinharem com nossos vassalos”. A ideia de fazerem vizinhança é do mais feliz, porque reconhece a existência da raia, o que não evita que o monarca português autorize oficialmente uma prática que está fundada na existência de fortes laços familiares (“casavam os filhos e filhas os de uma parte com outra”) e de comércio de mercadorias (“ouro, prata e armas, bois e bestas”). Em certo modo, esta vizinhança nunca foi extinta de todo, mas o relevante nesta altura é que se trata de um previlégio real que, ao tempo, evitava a possível prática do contrabando.

Fica para penas mais especialistas do que a minha o dizer uma palavra certa sobre as razões político-estratégicas que, de forma progressiva, foram mudando as relações  de fronteira, até que os seus limites são estabelecidos de modo preciso no século XIX. Eu acho que até à guerra da Restauração a ideia de fronteira era pouco firme e mesmo frágil. Mas alguns acontecimentos de finais do século XIV, como a guerra contra Castela ou a influência dos poderes extrapeninsulares (França, Inglaterra e, nomeadamente, o Papado de Roma) nos destino dos reinos cristãos da Ibéria é claro que tenham sido fatores decisivos para uma progressiva aceitação da fronteira política, o que teve repercussões diretas na gestão de patrimónios monásticos ou episcopais de Oia ou Tui, que acabaram por coincidir, na altura de 1512, com os limites territoriais dos reinos de Portugal e da Galiza.

Devo concluir com um reconhecimento e com gratidão. A edição deste livro tem um carácter de homenagem, quer das suas terras de origem, representadas pela Câmara Municipal de Melgaço, quer da Universidade do Minho e da Casa Museu de Monção, à figura de José Marques. Não é frequente que, nos tempos de hoje, se homenageei o trabalho oculto e silencioso de um investigador que viveu anos e anos entre arquivos e pergaminhos, o que é merecedor dos mais sinceros parabéns, Assinala no seu prefácio o professor Capela que “esta obra é um marco em primeira linha para os estudos históricos e diocesanos bracarenses; é-o também para os estudos portugueses” e acho que seria injusto não acrescentar que também vai resultar obra de referência para os estudos medievais galegos. Aos responsáveis desta iniciativa e, em primeiro lugar o professor Capela, fico muito grato pela oportunidade que me foi concedida de colocar umas linhas próprias no incipit deste volume, que são também de admiração pessoal para com o professor José Marques, a quem conheci em tempos longínquos de colóquios monásticos e “galaico-minhotos”. Naquela altura nem mesmo podia imaginar que o passo do tempo me traria esta nova oportunidade de partilhar com o investigador, o professor e o amigo esta alegria de olhar neste volume a obra de toda uma vida. Bem haja…

 

                         Ramón Villares

                        Presidente do Consello da Cultura Galega

                       Professor Catedrático Universidade  Santiago Compostela                                                   

                      Doutor Honoris Causa Universidade do Minho

 

 

ALTO-MINHO E GALIZA. ESTUDOS HISTÓRICOS

JOSÉ MARQUES

Edição:

CASA MUSEU DE MONÇÃO/UNIVERSIDADE DO MINHO

CÂMARA MUNICIPAL DE MELGAÇO

Março de 2017

 


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Sábado, 17 de Fevereiro de 2018

Fragmentos de vidas raianas, 1978 a 1981 - IV

 

 

Continuação do post do 03 de fevereiro de 2018.

 

 

Uma vez chegado ao fim da ponte, fez uma curta pausa e resfolegou com ansiedade. Meio aquietado, consultou o velho Longines de pulso. Havia uns minutos que as sete e meia tinham ficado para trás, mas o Manel guiava-se sempre pela velha. Deu uma olhadela medrosa à casa situada no limite da ponte, o café-loja do Manolo.

Depois da meia hora da carreira, embora descendente, e daquela eternidade de transe e de quebranto psíquico, estava lavado da hora revigorante saboreada na tienda do Perfecto. Umas tigelas eram incontornáveis para se restabelecer.

Tanto no café como na loja, a iluminação ainda não fora extinta. Tinha horários, mas encerrava quando lhe dava na gana. Atendendo à hora incerta e tardia a que habitualmente saía da ponte, a ideia de deparar com o café fechado angustiava-o, espavoria-o. O café do Manolo era o mais chegado à sua casa e o único da Frieira da província de Ourense.

Quando se aproximou, reparou que o carrinho de mão e o moinho eléctrico – modelos que o Manolo expunha todos os dias para promover a venda – ainda estavam colados à parede do edifício. «Hoje está atrasado.», pensou. Sossegado, esboçou um sorriso furtivo. Tinha tempo de se refazer sucintamente a fim de voltar à casa com serenidade. Gostava de acabar o dia assim, com remanso.

Desceu o pequeno acidente entre a estrada e o espaço cimentado existente diante do modesto prédio, e arrimou a enxada contra o banco de madeira azul, disposto do lado esquerdo da porta do café. Várias vezes consertado, aquele assento fazia parte dos raros objectos que tinham subsistido aos trespasses regulares do estabelecimento.

Com assiduidade, aos sábados de tarde, desde que aquela casa fora estruturada, as comadres da aldeia sucediam-se nele: mexericavam e perscrutavam os vizinhos portugueses que ali se deslocavam para fazer compras. Uns palmos acima do banco, uma grande vidraça deixava transparecer o interior do café.

Na sala, a uma das mesas – três, como na tienda do Perfecto, mas bastante maiores – com armadura férrea e tampo de fórmica avermelhada, estava sentada a Maribel, esposa do Manolo. Não havia mais ninguém.

Como era sua usança familiar, cumprimentou a patroa com um canoro «Muito boa tarde, minha senhora!» A mulher não respondeu nem desviou os grandes olhos pretos da astronómica televisão, instalada à direita da porta. Não estava ali. De cabeça erguida, devorava abstractamente o ecrã que expelia uma imagem alterada e estremecida.

Para captar a melhor imagem fazível – a Frieira ficava numa aba –, tiveram de posicionar o televisor no ângulo de duas paredes, colado ao forro, o que, inicialmente, suscitou uns consequentes problemas de adaptação às cervicais dos mirones mais fervorosos.

A Maribel estava imersa na segunda telenovela do dia, o refúgio idílico das donas-de-casa ociosas, insatisfeitas. Nas mãos, um saquinho de pipas – sementes de girassol – que ia decorticando e mastigando como um autómato, atirando descaradamente com as cascas para o chão.

Mesmo num meio conformista como aquele, as telenovelas subornavam e colonizavam os espíritos femininos mais pueris e romanescos. Algumas mulheres, as mais sortudas financeiramente, tinham um televisor, apesar de a imagem não ser fenomenal. Durante as longas horas de claustro caseiro em que tinham de fazer avalanchas de tarefas enfadonhas, valiam-ses destes folhetins sentimentais – nos quais umas se urdiam bucolicamente e outras, em parte, até se identificavam – como um subterfúgio analéptico.

Indolente, o Manel dirigiu-se para o balcão, pouco mais curto do que o comprimento do bar.

— Mais um dia, não, Manel? – saudou-o alegremente o dono do café.

Surgira de trás da cortina que fazia ofício de porta entre o café e uma pequena cozinha, a partir da qual – e do mesmo jeito – podia alcançar a loja, de onde viera. A irrupção de uma pessoa, como qualquer outro facto circundante, não escapava aos seus sentidos atentivos, estivesse num ou noutro lado. 

O Manel, cordial, sorriu-lhe, descalçando os dentes denegridos. Lerdamente, apoiou o cotovelo esquerdo por cima do balcão, afectando interessar-se pelo que o titânico televisor difundia.

A animosidade que enfrentava ao passar sobre o rio amputava-lhe qualquer desejo de cavaquear durante uns quantos minutos. Era-lhe primordial revivificar-se. O Manolo não estranhava e havia muito que deixara de puxar conversa. Conhecia-o bem e cedia a seu bel-prazer ao particularismo do Manel.

Não teve de pedir. Como de costume, encheu-lhe a tigela de tinto e sumiu-se por de trás da cortina.

Molhou o bico, e as papilas, como por magia, horripilaram-se intuitivamente. Ainda que não houvesse mais clientes no bar, como pessoa atenciosa que se orgulhava de ser, fez, com recato, um ignóbil trejeito. O vinho que o Manolo vendia havia umas semanas deixava um intenso sabor avinagrado no gasganete. «É criminal.», lamuriou-se sub-repticiamente pela centésima vez. Portanto, tinha muitos adeptos, e ele sabia por quê: era uma pinga capitosa como poucas vezes bebera, da qual meia dúzia de tigelas punham qualquer homem cargado – ébrio – durante umas horas. Por isso, todos lhe perdoavam o agressivo paladar.

Não se podia comparar minimamente com o vinho da tienda do Perfecto que, indubitável ambrosia, quanto mais bebia, mais o corpo adjurava que lhe desse. Para ele, essa é que era a boa pinga. Por muito que ingerisse – e só Deus se inteirava dos seus excessos –, tinha a impressão de permanecer sóbrio.

Interpelado pelos vivos protestos de uma voz feminina, alteou o olhar para a televisão, mas foi incapaz de distinguir o que quer que fosse. Habitava-o uma antipatia paroxísmica por este chisme – objecto inútil.

Nunca se comovera com estas incrédulas absurdidades, nem se sentia concernido pelas figurações idiotas, ridículas, sofisticadas e irreais que ali faziam desfilar todos os dias. Era um mundo tão discordante, tão esparso e afastado do seu e do da gente com a qual convivia... O pouco que, de modo estocástico, fora vendo naquele ecrã apenas concorrera para o confortar nas suas predilecções.

«Aplicam-se a meter-nos os dedos nos olhos. E há quem caia nela. A história é sempre a mesma. Tolices!», sentenciava.

 

Continua.

 


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