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MELGAÇO, DO MONTE À RIBEIRA

História e narrativas duma terra raiana

MELGAÇO, DO MONTE À RIBEIRA

História e narrativas duma terra raiana

AO F.A.I.J.

melgaçodomonteàribeira, 19.09.20

73 a2 - garrilha, faij (gú), carriço, antónio c

 1ª fila - garrilha, tónio carteiro, loca 2ª fila - gú (faij) e carriço atrás - alfredo alfaiate

 

In  Mente!

 

Tam cedo, Augusto Igrejas, nos deixaste

Neste mundo, mais órfãos e mais pobres…!!!

Nessa triste bagagem arrastaste

Tantos e tantos versos mais que nobres…!!!

 

Vê lá, meu caro amigo, se descobres

O teu santo caminho que encetaste!!!

E que essa terra fria que tu cobres

Seja mais quente e leve que pensaste!!!

 

Um ano que passou, e com saudade,

Todos, hoje, te querem recordar

Com alma e coração! Santa Verdade!!!

 

E contigo, nós, vamos logo estar!

E, vós, jovens?... Coragem e vontade!

Que o F.A.I.J. algo terá para vos dar…!

 

Uma Vida Entre Poesia

José Maria Rodrigues (José Serrano)

Câmara Municipal de Melgaço

2007

p. 99

(F. A. I. J. - Francisco Augusto Igrejas Júnior)

 

 

 

FRAGMENTOS DE VIDAS RAIANAS 16

melgaçodomonteàribeira, 12.09.20

 

— É uma lástima – desabafou o Manco, afectando desolação ao mesmo tempo que fazia uma curta pausa, questão de o embaralhar e intrigar ainda mais.

Encantado por saber que ia viver um momento de deleite, de vingança mágica, antes que o homem objectasse, proferiu com espontaneidade:

— Sabe por que é pena?

Desconcertado pela incoerência da pergunta, e querendo dar prova de gentileza e de servilismo, o representante oscilou a cabeça negativamente e confidenciou com pudicícia:

— Para lhe ser franco, não sei, caro senhor.

— Pois é muito simples. Também vou ser sincero consigo. Quando era miúdo, uma época que, afortunadamente, não conheceu, na minha família a fome era tanta que, muitas vezes, até pedras éramos capazes de roer se não houvesse outra coisa mais mole. Nunca se desperdiçou um grama de tudo o que se pudesse ingurgitar, nunca, ouviu? Ainda que fosse mal-cheiroso ou que tivesse bichos! Foi assim que, desde pequenino, entre outras coisas, me afiz a comer côdeas de queijo nas quais já se tinham desenvolvido larvas. O mais engraçado é que, pouco a pouco, acabei por ficar doido por estes animais.

O viajante, apavorado pelas palavras do Manco, quase cessara de respirar e fixava-o de olhos bugalhudos. «Introduzi-me na casa de um desequilibrado mental, de um doente ou o homem não estará a falar a sério?», disse para si.

O Manco, convencido da incidência que as suas palavras produziam nele, jubilava. Voltou a tossicar, secamente, desta vez.

E, pretextando surpresa, disse:

— Não me diga que nunca teve a ledice de provar – cochicou.

Com a regozijante intenção de lhe dar a estocada postrema, insistiu:

— Como disse inicialmente, devorava queijo com larvas. Claro que, tirando a família, ninguém sabia. Um dia, já era eu dono desta casa, tive a visita de um amigo de infância que, depois de viver mais de trinta anos no México, se instalou em Santiago. Relembrando os tempos de grande pobreza, inopinadamente, disse-me que, em muitos países da América do Sul, comer vermes, formigas, minhocas, gafanhotos e outras coisas semelhantes fazia parte da cultura culinária dessas populações. Eu, que, envergonhado, comia bichos ao abrigo dos olhares alheios, compreendi afinal que não era extravagância nenhuma. E deu-me a receita para preparar as larvas à mexicana. Que maravilha, meu amigo! É um prato primoroso, pode crer-me. A partir daí, deixei de comer queijo; só os vermes que nele se formam é que têm importância para mim. É o meu péché mignon, um petisco especial, uma glutonaria da qual nem o mais requintado caviar iraniano me faria renunciar. Desde então, este amigo traz-me com frequência de Santiago um punhado de colegas composto por uma clientela de gourmets. Tudo gente reputada, fiel e que me dá o privilégio de a satisfazer. Nem pode imaginar o regalo que os vermes cozinhados  pela Vicenta lhes propicia. Só visto.

Fez uma pausa, antes de prosseguir:

— Mas fique ciente de uma coisa: nem todos os queijos geram bichos da mesma dimensão, rigidez, paladar e espécie. As moscas, engenhosas, escolhem os queijos mais nutritícios para as larvas. Não são parvas! E aí é que está a chatice. A coisa não é tão elementar como se pensa. Além disso, a fineza do queijo sem a individualidade da mosca, ou vice-versa, nunca dará uma categoria de larvas opulentas e suculentas. Contudo, como é a minha única paixão, vou tentando aperfeiçoar-me para conseguir os melhores espécimes. Por isso, quando o interroguei, a sua atitude foi justa, pois desconhece inteiramente estes costumes culinários.

Vibrou de prazer, embora o rosto e o olhar perdurassem estáticos. Sentia-se melhor, enlevado consigo próprio. Porém, a garrafa de branco, obsessivamente, foliava-lhe na cabeça. À mala hóstia primitiva sucedera uma paz sádica. Quando o indesejável fosse embora, sabia que mesmo a bebida ia ter um sabor diferente, bonificado.

Nestes casos, o que lhe aprazia eram as díspares alterações fisionómicas dos viajantes. Quanto mais estupor e incredulidade acusasse o rosto, maior era a instigação para elucubrar o chiste. Moldou o grande e denso traseiro por cima da cansada cadeira, que deu por ela crepitando instantaneamente, e, cauteloso, estudou o jovem caixeiro-viajante: ficou com a percepção de que a pele do seu rosto estava encolhida como a de um Shar Pei, formando um dominó de ressentimento e de sanha.

Não restava absolutamente nada do homem gracioso e inexorável que, havia uns escassos minutos se tinha sentado diante dele. Bruscamente, levantou-se. A tensão, forte, era manifesta. Sem articular uma palavra, desandou em direcção da porta a grandes passadas. Nem se dera ao trabalho de inserir o catálogo no attaché case. O infeliz representante, sem dúvida, já anatematizara o Manco.

— Se um dia desejar, será com a maior satisfação que lhe dou a provar as minhas larvas – lançou-lhe.

Desprendeu uma nádega da cadeira e, arrastadamente, facilitou a fuga dum ruidoso bufo, contra o qual havia alguns momentos batalhava. O alívio foi momentâneo e distensor. «Pantomineiros!», exclamou enojado. E deu uma gargalhada estrondeante que, inevitavelmente, fez vibrar os tímpanos do desafortunado viajante, já lesionados pelo artifício do Manco.

Que ficaria a pensar dele? Que era um alienado? Um bárbaro ou um maníaco? Tanto lhe dava. Era como era e estava-se a cagar para quem o desaprovasse.

Fora uma nova vítima da sua ridícula tramóia e não seria decerto a última. Merecera. Eles é que pediam. Já se obliterara do dia que, pela primeira vez, pregara esta partida nem como excogitara a cena dos bichos.

Pôs-se de pé, levou a garrafa vazia para de trás do balcão do bar e deitou a mão a uma cheia. Deu meia volta, pousou o posterior na cadeira e a garrafa no lugar da outra. Com o toco, apertou-a contra a axila e, com a perícia que contraíra ao longo dos anos, foi enroscando o saca-rolhas que residia no seu bolso. Em seguida, prendeu a garrafa entre os joelhos e excarcerou o líquido amigo, sem o qual a sua vida não teria sentido. Encheu o copo daquele vinho branco sem vida, dormente, que mais se assemelhava a urina opaca, e esvaziou-o febrilmente. O organismo gratificou-o liberando-lhe emanações benfeitoras. Do maço de tabaco que tinha no bolso da camisa, extraiu um Ducados – marca de cigarros – e acendeu-o. Deu duas longas passas que lhe incharam os pulmões obnubilados. A inoportuna interrupção do caixeiro-viajante perturbara-o tanto que esquecera o pitillo. Mas isso já fazia parte do passado.

 

Continua.

 

EVA MARIA É O NOME DA MINHA NETA

 

 

 

O CARRO DOS BOMBEIROS VOLUNTÁRIOS DE MELGAÇO

melgaçodomonteàribeira, 05.09.20

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UM LUGAR ONDE NADA ACONTECIA

XI

O carro dos bombeiros, em seus passeios dominicais, não estava no seu posto, quando foi preciso. Aquilo revoltou o povo e a partir dali não mais aconteceram aquelas viagens recreativas.

Fundada em 1927 a Associação Humanitária dos Bombeiros Voluntários de Melgaço teve destacada actuação em 1930, quando ficou conhecida e laureada em Portugal e Espanha.

Do outro lado do rio Minho, em frente a Melgaço, na Espanha, o comboio expresso Madrid-Vigo, descarrilou. O acidente foi presenciado pelos curiosos que gostavam de ver passar aquele bonito comboio. Foi dado o alarme e logo o sino da matriz tocou a rebate, convocando bombeiros e povo. De barco e a nado, atravessaram o rio, socorrendo os acidentados e resgatando seus pertences que boiavam rio abaixo. Foi um momento épico.

Os jornais espanhóis e portugueses deram grande destaque ao acontecimento. Elogiando os bombeiros de Melgaço. A organização nacional dos bombeiros, de Lisboa, mandou um instrutor, algum material e o povo custeou a compra de uma bomba para a recente fundada organização, carente de recursos técnicos, mas recheada de altruísmo.

A bomba era o que de melhor existia na época, de tracção braçal, montada em uma espécie de carroça, para ser puxada por muares, mas que sempre foi impulsionada pelas pessoas, puxando ou empurrando.

Na mesma época, o Simão Araújo, filho da terra, que emigrara para o Brasil e aí fizera fortuna, já tinha construído o seu luxuoso palacete e tinha na garagem um automóvel Buick, seis cilindros, modelo 1928. Como a maior parte do ano esse carro ficava inactivo, o Simão Araújo, empolgado com a bravura dos bombeiros da sua terra, deu-lhes esse automóvel.

Além de abnegados soldados da paz, revelaram-se, esses rapazes melgacenses, primorosos artífices.

Transformaram o luxuoso carro de passeio em sensacional carro de bombeiros. Retirada a carroçaria, adaptaram ao chassi seis poltronas com estrutura em ferro, um grande cilindro central, elevado, destinado a conter os artigos de primeiros socorros. Machados e picaretas embutidos no chassi e duas grandes roldanas com as mangueiras. Na frente, o banco do motorista era corrido onde cabiam mais três pessoas, nos estribos laterais, em pé, ia o resto da guarnição. No cimo do capo uma sineta avisava a sua aproximação, o que seria desnecessário uma vez que para maior desenvolvimento retiraram o escapamento e os seis cilindros do poderoso motor fazia um barulho ensurdecedor. Haviam reforçado os feixes de molas para suportar o grande peso. Pintado todo em vermelho-sangue com os dizeres em branco nas laterais do cilindro: VIDA POR VIDA. Era uma jóia de artesanato sem utilidade. Deveria ter-lhe sido adaptada uma bomba a gasolina, o que nunca aconteceu.

O belo carro dos bombeiros era só utilizado em desfiles cívicos de quando em quando e já nos anos quarenta foi a Lisboa buscar o cadáver do Sr. Lascasas para sepultar em Melgaço.

Para não prejudicar o seu funcionamento era necessário interromper seu longo repouso, com algumas saídas. Era esse o argumento apresentado por um grupinho que, aos domingos, solicitava autorização para um passeio. O Professor Abílio Domingues, que por imposição era o Presidente da Câmara, também era o comandante dos bombeiros, pessoa cordata que exercia cargos que não pedira e para os quais não tinha a mínima aptidão, acedia.

Um domingo, na estrada da Orada, na curva da fonte da Assadura, um automóvel colheu um rapaz, que, inconsequentemente, rodava em bicicleta, em grande velocidade, pelo meio da estrada. Accionaram os bombeiros para atender ao sinistro e transportar o acidentado para o hospital. Os bombeiros estavam merendando em S. Gregório, onde tinham ido desenferrujar o bonito carro vermelho. O rapaz faleceu.

 

                                                                                  Manuel Igrejas

Publicado em: A Voz de Melgaço

 

 

 

FRAGMENTOS DE VIDAS RAIANAS 15

melgaçodomonteàribeira, 29.08.20

 

A mente, saturada de vapores de álcool, afigurava-se-lhe deperecida, despregada do tronco. Procurou decantar as ideias enfezadas que rodopiavam no seu cérebro, mas este, penado, reagiu confusamente. Não tinha desejo nem forças para guindar a cabeça. Raramente, e apenas com finalidade devidamente firmada, o vinham arreliar durante um momento tão íntimo como aquele.

— Não há ninguém?

Desta vez a voz derivava de cerca, mais explícita, mais distinta. A ressonância desaparecera, substituída por umas pancadas secas, insistentes e inconfortáveis, sendo-lhe, todavia, impossível demarcar a proveniência. Sentiu uns adejos temíveis nos tímpanos.

Na sala lôbrega, junto do balcão, mantinha-se um homem sorridente, de uma trintena de anos, solicitamente trajado e engravatado, com uma volumosa pasta preta de couro na mão.  

O Manco, enfurecido, levantou a cabeça abruptamente e, sem abrir os olhos, berrou:

Me cago en Dios! Quem me vem enfadar a esta hora?

Assustado pelo grito estentóreo, e talvez ainda mais por aquele impressionante vulto cabalístico que distinguiu ao fundo do bar, o indivíduo relutou uns segundos antes de recitar num tom musical e bajulador:

— António Perez Gallardo, representante da fábrica de queijos Lacta Casales, da Ortigueira, A Coruña, para o servir, caro senhor.

Estupefacto, o Manco, perante tal prolação, descolou as pálpebras parcialmente; sem pronunciar uma palavra ou fazer qualquer movimento, olhou, para o jovem que se acercara da sua mesa e o agraciava com uma cativante expressão comercial.

Era uma première. Nunca um caixeiro-viajante o apostrofara manifestando-se com este maneirismo mercantil. Não lhe agradou mesmo nada. Esta arenga tinha um timbre incrivelmente efeminado para o seu gosto. Apeteceu-lhe expelir o tipo do bar. Alguém lhe telefonara para o informar que o Manco precisava de queijo? Que maneiras eram estas? Odiava que o assediassem, que o perseguissem! Era ele quem decidia! Que descaro, que arrogância havia que ter para desterrar uma pessoa dum adorável sono reparador! E isto para tentar vender-lhe produtos similares aos que ele comprava, havia muito, a outro provedor do qual estava plenamente satisfeito!

Joder, tio! – improperou com desacato. 

Reticente, engoliu em seco e ficou uns segundos a deliberar sobre o comportamento a adoptar. Por fim, resolveu conter-se. Taciturno e firme, pressionou as maxilas.

— Dá-me licença, caro senhor? – perguntou-lhe o profissional, desdenhando a careta inenarrável e inquietante em que o carão do Manco se metamorfoseara.

Não era a amabilidade ilusória do homem que enganaria o Manco.

O caixeiro-viajante deduziu que a sua quietação era uma acreditação. Sem aguardar pelo seu agrément – que não sabia se teria – colheu a segunda cadeira e sentou-se, risonho, diante dele, o attaché-case preto por cima dos joelhos. O proprietário do estabelecimento, descontente, arrulhou, resignado.

A estes cantamanhanas antevia-lhes os procedimentos comerciais e os métodos de comunicação. Visitas de representantes stressados como este tivera várias dezenas; eram um pesadelo. Ainda que vivamente contrariado, esforçou-se para aguentar a estopada do indivíduo sem extravagar. Fitava-o, mas não o via.

No entanto, para lhe significar o seu frenesim, remoeu a língua com barulho na boca mirrada, indício de que a ressaca não tivera tempo de se esbanjar. A subida do vinho branco é tão fulgurante como a queda é lenta; a diferença é que a primeira é atractiva, álacre e tebaica, enquanto que a segunda é subversiva e, por conseguinte, desagradável e encolerizante.

Desinibido, o polido viajante minuciou-lhe o que fazia a especificidade das criações propostas pela fábrica que personificava. Realçou as excelentes virtudes da nutrição que as vacas – a quintessência de raças – tosavam nos amplos campos de pastagens verdejantes, perto do mar; vizinhança que, aliada às admiráveis condições climáticas de que a região usufruía, conferia uma deliciosa eflorescência salina ao leite. Fez um breve hiato para observar o primeiro efeito sobre o cliente.

O Manco tinha o semblante duma cariátide. Não mexia nem descravava os olhos do caixeiro-viajante. Permitiu-lhe desenrolar o palavreado à vontade, movendo com com subtileza a cabeça periodicamente, como se a conversa lhe interessasse.

Se o homem soubesse quanto gostaria de ir buscar uma garrafa de branco por detrás do balcão! Controlava-se porque mais uns minutos e livrava-se do desavergonhado intruso de uma vez por todas.

O viajante, implacável, mencionou o tempo de refinação; exaltou, em seguida, as suas dominantes e traços gustativos, olfativas e texturais, tamanhos e peso. Sobrepôs-se a amostra fotográfica dos produtos para os quais o Manco, grosseiramente, fingiu olhar. O extremoso viajante terminou a perfeita hipotipose sublinhando os controlos higiénicos regulares de que as modernas instalações, assim como todos os produtos nobres nelas elaborados, eram objecto.

O homem emudeceu. Finalizara a lábia sem um lapso, um erro e uma expressão oral irrepreensível. As feições afáveis persistiam. Persuadido, sem dúvida, do resultado da sua convincente dissertação, intentava desmascarar-lhe vestígios da sua adesão.

O Manco manteve-se imóvel uns segundos, deixando o silêncio desestabilizá-lo. Duas rugas, sinónimo de ambiguidade, esculpiram-se na testa do representante. Para testá-lo, o anfitrião deu uma tossidela cavernosa, como se quisesse desobstruir o gorgomilo para falar, e humedeceu os lábios com a ponta da língua alvacenta. As rugas faciais do visitante distenderam-se ao mesmo tempo que o bem-estar o invadia. A intuição garantia-lhe que a sua démarche ia ter uma saída favorável.

Sobrestimava-se, e essa análise presuntuosa comprazia imenso ao Manco que pensava: «É quando menos se prevê que a coisa mais dói». Com o ar sério e normal que até ali fora capaz de desvendar, indagou:

— Dos queijos que o senhor me sugere, qual deles atrai mais as moscas?

A questão insensata petrificou o visitante. Ofendido, adoptou um ar digno e esquiçou um gesto de repulsa, negando resolutamente com a cabeça.

— Nenhum. Isso é coisa impensável, caro senhor. Os nossos queijos são de uma qualidade extra, sublime, sem falar da frescura incomparável e inigualável. Depois de encetados pode mesmo conservá-los ao ar livre uma semana.

 

Continua.

 

 

 

 

O CONCELHO DE CASTRO LABOREIRO

melgaçodomonteàribeira, 25.08.20

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DE CONCELHO EXTINTO À ATUALIDADE

 

A 11 de Maio de 1758, Castro Laboreiro, pertencia à comarca de Valença, arcebispado de Valença, sendo terra do rei. Tinha a Irmandade das Almas e duas Confrarias, a do Santíssimo Sacramento e a de Nossa Senhora do Rosário. Era reitoria com apresentação da Casa de Bragança e a renda dos dízamos era de 650$000 réis, recebendo anualmente de côngrua o reitor 40$000 réis, pagos em dois quartéis, 20$000 pelo Natal e o restante pelo São João, e o mais em pé de altar, que rendia cerca de 160$000 réis. Em 1812, a 3 de setembro, foi emitido o alvará nomeando o último comendador conhecido, Marino Miguel Franzine. Em 1816, o Reitor de Castro Laboreiro, tendo apenas de côngrua 10$000 réis e 20 alqueires de centeio, solicita a D. João VI a concessão de um subsídio de 50$000 réis para o Reitor da freguesia, para poder pagar esta quantia, em dinheiro, ao seu Coadjutor, em virtude de muitos e custosos trabalhos para bem paroquiar a freguesia. Com a Revolução Liberal, após 1832, Castro Laboreiro passa a integrar-se na Comarca de Ponte de Lima e mantém-se concelho. Durante o período de estabilização, a partir de 1842, Castro Laboreiro integra-se no Distrito de Viana do Castelo. Entretanto o código administrativo de 17 de julho de 1835, e, posteriormente, o código administrativo de 31 de dezembro de 1836, fixam a divisão administrativa do reino em distritos, subdividindo-se estes em concelhos e freguesias. Fixam igualmente o pessoal administrativo, jinto do qual estabelecem corpos administrativos: a Junta Geral do Distrito, junto do governador civil (ou administrador geral) a Câmara Municipal junto do administrador do concelho e a Junta de Paróquia junto do comissário (ou regedor) de paróquia.

Contudo, Castro Laboreiro, que consegue escapar à “chacina” (extinção de concelhos) de 31 de dezembro de 1853, não teria a mesma sorte a 24 de outubro de 1855, data em que é decretada a extinção do concelho de Castro Laboreiro. Em 1878, passou a fazer parte do julgado de Fiães e, posteriormente, do concelho de Melgaço, passando, então, a ser uma Junta de Paróquia.

Com a implantação da República a 5 de Outubro de 1910, a qual provoca a separação do Estado e da Igreja, entra novamente em vigor o Código Administrativo de 1878, que retira a presidência aos párocos. A Lei nº 88, de 7 de agosto de 1913, promove a organização das paróquias civis, distinguindo-as das paróquias eclesiásticas, embora assumam o mesmo limite territorial. Mais tarde, a Lei nº 621, de 23 de junho de 1916, altera definitivamente a designação da junta de paróquia para junta de freguesia, mantendo-se práticamente sem alterações até hoje as suas componentes políticas e administrativas.

Entre 1910 e abril de 1913 intitula-se Comissão Republicana Paroquial de Santa Maria de Castro Laboreiro. Contudo, entre 1913 e 1916 os escrivãos tanto abrem as sessões referindo Junta de Paróquia da Freguesia de Castro Laboreiro ou Freguesia de Castro Laboreiro. Consolidam o termo administrativo Junta de Freguesia de Castro Laboreiro a partir da ata de 6 de junho de 1920. Estará assim até 18 de abril de 1975, um ano após a queda do Estado Novo. Nesta data instaura-se a Comissão Administrativa da Junta de Freguesia de Castro Laboreiro que vem durar até 23 de janeiro de 1977, data em que se lavra a primeira ata da nova Junta de Freguesia de Castro Laboreiro. Assim se mantém até à reforma administrativa de 2013 que consuma uma união política com a freguesia vizinha de Lamas de Mouro, formando a União de Freguesias de Castro Laboreiro e Lamas de Mouro.

O resultado de todo este enquadramento foi a composição de uma brevíssima história local que não contempla nenhuma documentação ou bibliografia que ateste uma natureza tutelar clara sobre estas estruturas.

 

Diana Alexandra Simões Carvalho

Castro Laboreiro – Do Pão da Terra aos Fornos Comunitários

Uma proposta de mediação patrimonial

Faculdade de Letras da Universidade do Porto

Maio de 2017

 

 

 

 

A LUZ DE PEQUIM

melgaçodomonteàribeira, 22.08.20

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Uma homenagem discreta à cozinha burguesa do Porto: iscas de bacalhau com arroz de feijão, grelos com vitela cozida, favada, pescada frita, arroz de bacalhau, filetes de polvo, arroz de vitela com legumes, vinho de Freixo de Espada à Cinta, aguardente de Melgaço. Sim, Avelino Marques podia esperar. Da próxima vez iria ao Cozinha da Amélia comer arroz de vitela. E levaria Rosa com ele.

pp. 102

Depois, tudo isso desapareceu. Fardas da Mocidade Portuguesa. Programas de Sousa Veloso e Jorge Alves na televisão. Sapatos Campeão Português e gasosa espanhola La Casera. Brandy Domecq. Água mineral de Melgaço. Citroen Dyane. Citroen Mehari. Citroen 2CV. Ford Cortina. Ford Capri.

pp. 272

 

A LUZ DE PEQUIM

Francisco José Viegas

Edição: Porto Editora

1ª edi.: novembro 2019

 

 

 

PAIVA COUCEIRO NA GALIZA

melgaçodomonteàribeira, 18.08.20

 

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 posto da guarda-fiscal - ameijoeira

 

JOSÉ RELVAS E AS RELAÇÕES LUSO-CASTELHANAS

 

A 25 de Abril (1920) uma força de carabineiros espanhola apreendeu um considerável número de armas em S. Vicente, península de El Grove, destinadas às forças de Couceiro, devido ao aumento da vigilância reforçada ordenada por Canalejas aos governadores civis. Este empenho não se traduziu, todavia, na ordem de abandono das terras galegas pelas forças monárquicas portuguesas, que orquestraram a 28 de Abril, um assalto ao posto fiscal de Ameixoeira para aumentar as suas disponiblidade em armas*.

 

*”Foi assaltado hoje posto fiscal Ameixoeira na serra perto de Melgaço, roubadas as armas que alli estavam e os artigos das praças. O assalto foi feito por um grupo de 60 conspiradores que voltaram a internar-se em Hespanha, peço a v. E. as mais energicas reclamações a esse Governo pedindo urgentes providências.

 

Telegrama de Augusto de Vasconcelos para José Relvas, 28 de Abril 1912

 

No dia 28 de Abril, à uma hora da tarde, 40 a 50 conspiradores armados entram em Portugal, atravessando a fronteira da província de Orense, perto de Castro Laboreiro aos gritos de: «viva a monarquia!», arrombaram a janela do posto fiscal português da Ameixoeira, roubam todos os objectos que aí se encontravam e voltam a Espanha, seu asilo, onde não consta que tenham sido perseguidos, presos ou sequer incomodados.

 

Vanessa Sofia Batista Engrossa

Uma Diplomacia Estratégica: José Relvas em Madrid

                              (1911-1913)

Universidade de Lisboa – Faculdade de Letras

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FRAGMENTOS DE VIDAS RAIANAS 14

melgaçodomonteàribeira, 15.08.20

 

Nascera a Casa Manco, cuja popularidade se difundiria rapidamente.

A partir do ano mil novecentos e sessenta e oito, a vaga de emigração principiou a enfraquecer vagamente, sem todavia deixar de ser uma forte fonte de rendimentos. A efervescência económica originada pela construcção da barragem fazia levedar os proventos do seu negócio. Mais tarde, a ponte forneceu-lhe um novo filão de receitas adicionais. Sem jamais o ter agoirado, em dez anos o Manco transformou-se num homem pecunioso.

Optou, então, por empregar parte do augusto pecúlio na compra de uns magníficos campos adjacentes, no lugar da Agra, perto da junção da estrada Ponte Barxas-Ourense e da que descia para A Frieira.

No maior, fez erigir o que ele denominou, não sem prosápia, o Chalé Manco, uma linda casa com rés-do-chão e primeiro andar, para mais tarde ele e a Vicenta lá acabarem os dias. Nos remanescentes, plantou um sem-fim de árvores frutíferas. Uns anos mais tarde, todos falavam do vergel do Manco; era o mais completo e exótico da região.

Porém, o seu chalé não foi rematado sem sérios distúrbios. Os trabalhadores portugueses com os quais tinha negociado a execução da obra, depois de tormentosas altercações, queixaram-se à guarda civil por ele não ter honrado a totalidade dos pagamentos estabelecidos. Foi tempo perdido. Sem documentação que os habilitasse a trabalhar em Espanha, o comandante recomendou-lhes que negligenciassem a tramóia e não voltassem a cair noutra. Procedendo assim, o tenente da Benemérita – nome dado à Guardia Civil pelos serviços ministrados à população no século XIX – também poupou o Manco por recorrer à mão de obra estrangeira não declarada, deliberação que lhe abria as portas da Casa Manco.

Presentemente, já meio enfastiado e entediado, contentava-se em realizar bailes – reuniões dançantes, dizia, salientando a nuance. Aos domingos, do fim da tarde até altas horas da madrugada, amontoava-se ali a juventude da zona, assim como alguns portugueses.

Os galegos, como muitos outros povos, com um copo a mais são perturbadores e desordeiros. Todavia, nos dias de sarau, as zaragatas eram marginais. Os casos, esporádicos, afloravam, logicamente, quando os espíritos estavam escaldados e amblíopes.

A esposa, um tronco de couve a quem ele obedecia cegamente, murmuravam os alcoviteiros locais, tivera de aprender a brincar ao bombeiro.

Alguém que protestasse, fosse qual fosse a causa, ou vociferasse por se atrasarem em atendê-lo, era repreendido descaradamente com severidade. Podia até ser motivo para que o Manco ressentisse o reparo como um ultraje e incitasse illico o impertinente a ir empachar-se para outro lado, prevenindo-o cinicamente: «Agora, nem que me baixasses as calças te servia, cabrón

Nestas declinações, sem a intervenção pronta e habilidosa da Vicenta, a ameaça de que a controvérsia se alastrasse precipitadamente e findasse à hóstia era flagrante. Alguns jovens imprudentes, pensando que a sua debilidade os avantajava, tinham saído do seu estabelecimento fortemente aturdidos.

O génio rabugento que se apossara dele incentivava-o com regularidade a acometer alguns indivíduos por razões muitas vezes mais do que duvidosas, impertinência que o obrigara a sentar o cu no mocho – ir a tribunal – mais de uma vez.

Todos os dias, depois de almoçar copiosamente em família, sentava-se a uma das duas mesas do bar e entrava num estado tórpido, pré-letárgico, tanto físico como mental. Em silêncio, continuava a beber até ser aspirado, como por magia, pela tranquilidade feltrada, abstracta e opiácea de Hipnos, da qual, infalivelmente, emergia cerca de uma hora mais tarde.

A vida era-lhe insípida, inerte, agnóstica: elanguescia-o. Amigos não tinha, apenas conhecimentos. O vinho branco, o seu acólito, a sua amizade pagã desviava-o durante as situações instáveis, das águas do rio. Imergia-se nas lágrimas dos bagos, o paredão que conseguia retê-lo no seu mundo austero. Sempre disponível, afagava-o e mostrava-lhe, através dos seus vapores, uns raios de sol, embora lívidos e insulsos. Concorria para amortecer e equilibrar a fervorosa, a insuperável ira que, de modo impiedoso, fora prosperando nele e lhe despeçava o moral e a vida, desde que aquele malvado camião despejara parte da carga por cima dele. Se não fosse a carneirada, a barragem e a ponte, havia muito que o Manco não era deste mundo.

Na verdade, ninguém podia asseverar categoricamente que o Manco se embebedava, no sentido literal que ali as pessoas atribuíam correntemente à palavra; ninguém o vira alguma vez cambalear.

Homem condicionado pelo ânimo e pela atmosfera, arpoado pelo infortúnio, abusava do álcool, sem dúvida, mas comia bem e apenas bebia até um dado pique que poucas vezes excedia.

O mês de março estava a chegar ao fim. A mulher e as duas filhas andavam azafamadas nos campos: plantavam batatas, couves, tomates, ervilhas, cebolas, alfaces, feijões, cocos, alhos...

Naquela tarde insolada, encontrava-se, mais uma vez, desamparado no estreito e obscuro bar, ao lado da porta vaivém que o separava da sala do restaurante. Sentado diante da pequena mesa, a manga da camisa do braço órfão pendente, e a cabeça assentada sobre o ressaltado peito, degustava a descida fleumática das pálpebras defessas pela bebida. Por cima da mesa, uma garrafa e um copo, vazios. Era a hora da sesta, da primeira viagem do dia.

Intrépido, deixava a porta escancarada, mas, nunca se sabe, na gaveta nem uma perra – peseta – ficava. No entanto, qualquer podia entrar e apoderar-se sem grande trabalho de uma ou mais garrafas das que tinha em evidência no bar. Hipótese que descartava totalmente; o medo que inspirava desencorajava qualquer um. Aliás, as pessoas, em grande maioria, eram íntegras e trabalhadoras.

De repente, uma voz ecóica que lhe pareceu vir de longe extirpou-o dos braços hipnagógicos de Morfeu, nos quais se aninhara.

— Não há ninguém ?

 

Continua.

 

 

 

 

 

PARADA DO MONTE

melgaçodomonteàribeira, 11.08.20

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PARADA DO MONTE

HISTÓRIA E PATRIMÓNIO

 

                                                                         Antero Leite

                                                                         Mª Antónia Cardoso Leite

 

O tempo medieval

 

A ocupação humana do Vale do Mouro no Neolítico está comprovada pela existência de um núcleo dolménico em Couço referido na Carta Geológica de Portugal e na mamoa da Mina da Mota na zona de Travassos.

Da Idade do Ferro poderão subsistir povoados castrejos em algumas cristas dos montes envolventes a Parada ainda não objecto de escavações arqueológicas. Relativamente próximo encontraram-se casas redondas nas elevações que se perfilam no curso inferior do rio Mouro (Monte da Ascensão, Senhora da Graça, Tangil, Trute). A montante e SW de Castro Laboreiro, que está assente num velho Castro proto-histórico, também existe à cota 1033, outro Castro (Ribeiro e Moreira, 1986:41). Parada do Monte poderá ter sido um núcleo da cultura castreja. Só a Arqueologia o revelará.

Dos tempos da Romanização não existem vestígios descobertos mas não será de excluir a hipótese de as legiões romanas terem subido o Vale do Mouro para dominarem os povos do Laboreiro utilizando uma via partindo das margens do Minho e passando por Messegães, Valadares, Riba de Mouro e Gave. Parada seria um entreposto, local de paragem a caminho de outros locais (Domingues, 2008:90). Por esta via também teriam passado os cavaleiros da Reconquista em luta com os Muçulmanos e D. Afonso Henriques quando tomou o castelo de Laboreiro.

A fixação de ordens militares depois da expulsão da mourama está compreendida na política de estabilização e povoamento do território dos nossos primeiros reis. Lamas de Mouro, freguesia próximo de Parada do Monte, esteve ocupada pelos Templários (Domingues 1999). Houve também interesse régio em colocar na raia do Minho, cavaleiros fiéis concedendo-lhes vastos domínios. A Soeiro Alves, D. Afonso Henriques coutou a terra de Valadares que incluía o Vale do Mouro e as povoações de Badim, Cousso, Paderne e Fiães (Mattoso, 1988: 140-141).

Parada do Monte era ainda uma pequena aldeia, de casas cobertas a colmo, rodeada de algumas herdades pertencentes aos monges de Fiães que procuraram ampliar os seus domínios para além do couto que lhes havia sido concedido pelo nosso primeiro rei. Uma das formas que utilizaram foi a de receberem terras por doação testamentária.

Bernardo Pintor ao estudar a documentação existente no Arquivo Distrital de Braga, encontrou uma escritura no ‘Cartulário’ do Mosteiro de Fiães, datada de 1194, referindo Parada do Monte como estando situada ‘subtus mons leporario’, ou seja, sob os Montes Laboreiro (Pintor, 1975-reed. 2005: 341).

Num outro documento também do século XII são definidos os limites de Parada do Monte os quais para aquele investigador corresponderiam aos da freguesia (Pintor, 1975-reed.2005:73).

Uma doação testamentária feita por Afonso Pais e mulher Urraca Dias ao Mosteiro de Fiães, datada de Setembro de 1221, cita uma herdade correspondente à ‘oitava parte da Parada’ com os limites: ‘Pelo Mourilhão até ao Curro de Abril e daí a Feverença e daí ao Parte Águas daí desce pelo rio Menduro e fecha no Mouro… ‘(ADB 1221). Bernardo Pintor em a ‘Voz de Melgaço’ de 1 de Novembro de 1947, explica que Curro de Abril se chama hoje Cruz de Abril e fica entre as brandas de Mourim e de Covelo. Fervença é junto à branda de Bouça talvez um nada afastado dos actuais limites. Rio Menduro é o Medoira.’ (Domingues, 2008: 97).

 

(…)

 

Publicado em:

acer-pt.org/docs/parada_do_monte. pdf

 

 

 

 

 

O DRAMA DE ALVAREDO ou O CRIME DE MELGAÇO III

melgaçodomonteàribeira, 08.08.20

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 igreja de alvaredo

O incêndio não alterou os planos dos cabouqueiros. No dia seguinte, Romão decidiu que era tempo de partirem. Mandou Maria da Piedade chamar Alfredo. Esta foi a Campo de Ourique, direita à obra onde o namorado (os jornais da época referem-nos sempre como amantes, por não serem casados) se encontrava por esses dias a trabalhar, e disse-lhe: “O teu primo João está preso”. Alfredo percebeu logo que estava na hora, porém, mais tarde, Piedade dirá que desconhecia ser uma combinação dos homens.

“Alfredo, para ter dinheiro para a viagem, empenhou uma mala com roupa, um relógio e cadeia de prata, numa casa de penhores em Alcântara, por 15$000 réis. O Guerra empenhou umas argolas e umas contas de oiro da amiga por 3$900 réis; Santiago levou 3$000 réis que tinha em casa; Fonseca levava só um tostão, abonando-lhe Romão o dinheiro para a passagem e João não levava nada, porque ia às ordens de Alfredo”, contou “A Vanguarda”, adiantando que Romão era o que tinha mais “capitais”, ainda lhe sobrava dinheiro de Salamanca.

Conforme tinham combinado, entretanto, para dar tempo às diligências necessárias, encontraram-se os seis cabouqueiros na estação da Avenida (como também se chamava ao Rossio) afim de seguirem caminho. Por segundos, perderam o comboio, e voltaram a perdê-lo mesmo depois da correria que fizeram até Santa Apolónia. Regressaram a casa aborrecidos, sem tenções de desistirem. Na noite seguinte, a 28 de junho, portanto, embarcaram pelas 23 horas, decididos a irem roubar a tia e o padre.

Deviam ter pensado que, por vezes, o destino dá os seus avisos. A viagem correu bem. Fizeram uma paragem em Sacavém para comerem e de manhã já estavam noutro comboio com destino ao Porto, do qual sairiam na cidade Invicta para chegarem a Valença. Não havendo mais hipóteses ferroviárias, foram a pé até à casa do reitor da freguesia de Troviscoso. Percorridos os quase 20 quilómetros de caminho, chegaram ali já de noite, mas nada fizeram, havia gente acordada a regar o cultivo à volta da casa. Refugiaram-se no bosque e, sendo meia-noite, voltaram a tentar, contudo, foram vistos por um criado que agarrou numa espingarda e disparou um tiro que os pôs em fuga.

João Esteves lembrou-se, então, de um rendeiro que morava ali perto e que também devia ter que roubar. Já que ali estavam, pensaram todos, aproveitariam  para não regressarem a Lisboa de mãos a abanar. Lá foram. Muito embora fosse de madrugada, também depararam com dois homens de sachola a trabalhar na horta. Nada feito, quanto menos esperassem levavam com as ferramentas e aparecia gente armada como no Troviscoso.

Escondendo-se na mata conferenciaram. António Fernandes lembrou-se então que não muito longe, no lugar de Vilar, freguesia de Alvaredo, a sua mãe fora criada de um padre que possuía uma razoável fortuna. Mais uma caminhada, estavam com azar mas desta vez conseguiriam. Pelas duas horas da madrugada de 2 de julho, entraram na casa do padre Sousa Lobato. Só Romão não ia armado, dera a sua pistola ao Guerra, já que este emprestara a sua ao João Esteves, de resto Fonseca levava um punhal, Romão uma navalha, Santiago um revólver e um cacete.

 

Quando julgaram que tudo corria como o previsto…

 

Quando entraram, apesar do Santiago ter feito algum barulho, nenhum dos residentes acordou. Mas ao procurarem o dinheiro no quarto do padre, não tiveram a mesma sorte. O religioso ainda deu luta, mas ficou muito ferido. Com os gritos, o irmão e o cunhado acudiram, envolvendo-se todos à pancada, com tal estrondo que acordaram a vizinhança e os cabouqueiros não tiveram outro remédio senão porem-se a andar. Foi uma fuga desordenada, a pé, até Braga. Estavam praticamente sem dinheiro. Romão tinha uma moeda de cinco duros, mas ninguém a trocava; Santiago pensou empenhar o revólver mas as lojas estavam fechadas; o Guerra e o Fonseca decidiram ir a pé até ao Porto…

Maria da Piedade ficara em Lisboa, entregue a si própria, confiando Alfredo que ela daria bem conta do recado e que ainda ganharia algum com isso. Pensou bem. Apesar de ter havido alguma desconfiança quanto à origem do fogo, a companhia de seguros acabou por dar-lhe 114$000 réis, uma boa maquia, embora longe do valor do seguro. Com esse dinheiro, a Aguardenteira foi à casa de penhores buscar os pertences do namorado, e resgatou ainda alguma roupa, umas argolas de nove mil réis, dois anéis, um afagador com medalha, uma pregadeira, tudo em ouro.

Depois disso, a 31 de julho, partiu para a Invicta, onde ainda deu ao Santiago 12 mil réis pelo trabalho, dois mil para alugar uma casa para todos e 300 para a mudança. Todavia, beneficiaria muito pouco com todo este movimento. O padre Sousa Lobato sucumbira aos ferimentos no dia 23 de julho, a partir daí as investigações intensificaram-se, ganhando um impulso com o aparecimento de uma carta anónima que dizia serem os bandidos trabalhadores em Lisboa.

No dia 1 de agosto, Maria da Piedade e Alfredo, que arranjara trabalho nas obras da circunvalação, alugaram uma casa nas Fontainhas. Daí a três dias estarão todos presos, com exceção de João Esteves que só será apanhado, no dia 25, por um carabineiro, muito perto da fronteira, e o Romão Louzada que desaparecerá para sempre. Quando o casal foi detido, já o Fernandes, o Fonseca e o Santiago se encontravam no comissariado de Lisboa. A polícia rondara a casa de Alfredo e Piedade, mas não os detetara, só os vê quando os dois aparecem a espreitar na porta da frente…

 

Provavelmente, irão todos encontrar-se em Angola

 

Maria da Piedade tem algumas manhas. Lê-se no jornal que assumiu que deitara fogo à casa para receber o dinheiro do seguro e que “fez importantes revelações” sobre o “Drama de Alvaredo” ou “O Crime de Melgaço” como o caso ficou conhecido. No dia 8 de agosto, foi ouvida no terceiro comissariado e no Tribunal da Boa Hora. “Interrogada em juízo declarou-se autora do crime, como já o fizera na polícia, sendo depois remetida ao Aljube”, noticiou “A Vanguarda”. O seu processo ficou separado do dos cabouqueiros.

Passado um ano, a 3 de agosto de 1893, os cinco vizinhos presos na Cadeia da Relação do Porto são levados ao tribunal de Melgaço. Milhares de pessoas aguardam à porta a entrada dos assassinos do padre Manuel António de Sousa Lobato. Oito anos de prisão e 20 anos de degredo foi a sentença para quatro, o Guerra seria poupado em oito anos de África porque se provou ter ficado de vigia.

Maria da Piedade, 38 anos, já tivera o seu julgamento e seguira há três meses para África. Fora condenada pelo crime de fogo posto, como mandava o Código Penal de 1886: seis anos de prisão, seguidos de dez de degredo, ou, em alternativa, 25 anos em Angola.

Quando ainda no Comissariado foi acareada com Santiago Rey y Lopez, já que este negava ter recebido “doce duros” para a ajudar e se mostrava renitente em admitir o assalto em Melgaço, Maria da Piedade disse-lhe: “Ande homem, confesse que eu já confessei. Se vocês não tivessem dado com a língua nos dentes, podiam matar-me que eu negava tudo, ainda que me apertassem o pescoço até deitar a língua de fora”.

 

Publicado no jornal EXPRESSO

26-10-2015