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MELGAÇO, DO MONTE À RIBEIRA

História e narrativas duma terra raiana

MELGAÇO, DO MONTE À RIBEIRA

História e narrativas duma terra raiana

CASTELO DE MELGAÇO POR CARLOS A. BROCHADO DE ALMEIDA III

melgaçodomonteàribeira, 24.07.21

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(continuação)

De acordo com a documentação disponível há três momentos em que se fala da cerca e das obras que nela se faziam. Em 1205 o documento é taxativo quanto ao facto de já haver um muro e uma porta. Como a obra era demorada, digamos que terá começado nos primeiros anos de reinado de D. Sancho I, provavelmente após a sua passagem pela terra, facto que nos é relatado pela Inquirição de 1258 “veo Rey don Sancio Iº a Melgazo, et filou Sancta Maria da Orada porá si, et deu a Feaes por ela Figueiredo et C. maravedis”. A ser válida esta hipótese, como pensamos que o seja, então a primeira fase da construção do muro da vila ocorreu praticamente em simultâneo com o levantamento da torre de menagem e logo após a conclusão dos torreões que defendiam a cerca do castelo. Estes estão adossados à muralha e a dois deles encostam, por sua vez, os arranques do muro da vila.

O segundo momento está expresso no pacto, que em 1245 foi celebrado entre o abade João de Fiães, os juízes João Pires de Caveiras e Miguel Fernandes, mais o concelho de Melgaço, isto é, as autoridades máximas que superintendiam no burgo. No texto do acordo – “ut abbas et Conventus cum hominibus suis quibus in presenti et de certero in hereditate ipsius monasterii in canto villeniostre fuerint faciant decem et octo brazas de muro in illa parte nostre ville ubi modo est apoteca sua secundum naturam et formam quam nos fecimus et fecerimus in circuitu ipsius ville per totum. Et si murum quod fecerint ceciderit semper teneatur monasterium ipsium reparare in propriis expensis, sed si forte habitatores eius dem villa in propriis expensis murum fecerint lapidibus quadratis in circuitu per totum et turres in turrem quam iam dictus abbas instanti incipiendam promittit – há, como aliás já foi notado, diversos pontos a reter e a saber: o muro da vila foi feito por três entidades distintas: o concelho, o convento de Fiães e o rei.

Quem começou a defender o burgo foi o concelho, isto é, as autoridades que na altura ali exerciam jurisdição. O Convento de Fiães continuou a expensas suas a dita obra, porque tal empresa também os favorecia. Ali, no couto e na própria vila tinham propriedades – metade da igreja de Santa Maria da Porta e uma adega – e não era nada salutar às suas finanças que, em caso de novo ataque, houvesse devastação nas suas propriedades. É evidente que o concelho concedeu ao mosteiro e aos homens das suas herdades algumas isenções, mas a necessidade de começar a obra rapidamente – “instanti incipiendam promittit” – era bem demonstrativa da real necessidade que havia em completar-se o circuito defensivo do burgo. Onde não havia ainda o muro, a defesa assentava na natureza do próprio terreno, completada por obras menores que poderiam incluir uma estacaria de madeira, terra e mesmo pedra miúda, longe da solidez de uma verdadeira muralha em pedra como aquela que estava em construção.

O segundo aspecto a reter relaciona-se com a dimensão dos trabalhos acordados entre o mosteiro e os homens do concelho. Segundo o acordo, o abade João comprometia-se a realizar dois tipos de trabalhos distintos: construção e reparação. A construção incluía nada mais que dezoito barças de muro, algo que traduzido para as medidas actuais, equivale a 32,91m. A reparação, essa far-se-ia sempre que a parte construída pelo mosteiro caísse – não especifica se por causas naturais ou se devido à guerra – e sempre a expensas dos frades. O terceiro item respigado deste acordo é de longe o que mais dúvidas suscita. O texto informa que se os moradores da vila fizerem o muro e as torres de pedra quadradas, de iguam modo o terá de fazer o mosteiro no troço que lhes estava atribuído, tal como a torre que o dito abade prometia começar imediatamente.

Várias são as leituras que se podem inferir desta passagem.

A primeira é que o concelho construiu a parte inicial do muro com pedras não quadradas, isto é, em alvenaria, mas aventava a hipótese de o poder vir a fazer. É esta a opinião de Bernardo Pintor, mas não a nossa, porque tendo presente os restos arqueológicos que ainda subsistem junro à torre do castelo acreditamos, que desde o início a muralha foi integralmente feita em silhares de cantaria, num aparelho pseudo-isódomo, muito semelhante, se não mesmo igual, aquele que ainda subsiste entre a Porta de Baixo e a torre próxima ao antigo edifìcio da Guarda Fiscal. O que muito provavelmente os homens do concelho quiseram dizer ao mosteiro, foi que a construção e reparação do muro teria de obedecer ao modelo escolhido pelas autoridades do burgo, já que elas eram as responsáveis pela sua defesa desde  a altura em que o rei D. Sancho II transferiu para a sua responsabilidade tal encargo. A contrapartida era a obrigação de indicar um cavaleiro fidalgo, natural do reino, de boa reputação, para ser investido como alcaide.

A segunda é que o abade de Fiães tinha também de erguer uma torre. Mas qual? Como no muro da vila não parece que as tenha tido – a defesa fazia-se com balcões assentes em matacães – só resta a possibilidade de estarem a referir-se a uma das três da cerca do castelo. Provavelmente à torre próxima ao quartel da Guarda Fiscal que mostra ter um aparelho em tudo semelhante à do muro que se lhe adossa.

A terceira observação relaciona-se com a torre que o abade prometia iniciar de imediato. O texto diz que prometia começar, não que havia começado. Mas se realmente anunciou a construção de uma torre na cerca da vila, esta só pode ser uma que estaria voltada a Sul, à Alameda de Inês Negra e que numa gravura de 1758 aparece representada com o traço interno interrompido. A confirmar-se esta nossa observação, então ficávamos a saber que a parte do muro da vila erguida pelo mosteiro de Fiães foi o troço meridional, aquele que na actualidade está voltado à praça Hermenegildo Solheiro e à Alameda de Inês Negra.

De acordo com este raciocínio a primeira fase corresponde ao troço compreendido entre a torre do castelo voltada à Praça da República e a Praça Hermenegildo Solheiro, a segunda ao troço meridional, incluindo a terceira, todo o pano oriental e o setentrional, espaço que incluía a Porta de Baixo aquela em que está a inscrição datada de 1263.

A terceira fase da construção do muro da vila corresponde ao troço ocidental, aquele que inclui a Porta de Baixo e todo o pano que se estende até à torre B do castelo. Foi da responsabilidade do rei, tal como o aventa a inscrição comemorativa colocada junto à Porta de Baixo.

A epígrafe que se distribui por três silhares graníticos, metidos na parte exterior da muralha, do lado direito da porta que, pelo lado oriental, dá acesso à Rua Direita tem a opinião de Mário Barroca a seguinte leitura: IN TEMPORE: REGIS : ALFONSI : / : PORTUGALIE : MAGISTER : FERNANDUS : COM/POSUIT : MURUM : ISTUN : ERA : Mã : CCCãã :

MARTINUS : GO(n)CALVIZ : CASTELARIUS : / : DomiNI : REGIS : CIRCUNDAVIT : HANC : VILLAN : / IN (h)AC : PARTE

No ano de 1263 reinava em Portugal o rei D. Afonso III, irmão de D. Sancho II que se viu obrigado a abdicar no ano de 1245 por imposição do clero português que obteve a simpatia actuante do Papa. Foi política deste monarca mandar elaborar as Inquirições Régias de 1258 e no caso específico de Melgaço concedeu-lhe um novo foral, mas os moradores, vendo agravadas as suas contribuições, reclamaram e foi-lhes restaurado o anterior que vinha do tempo de D. Afonso Henriques. No tocante à inscrição está por demais claro que o rei ordenara a conclusão da obra à custa do erário régio. Era castelão ou alcaide do burgo Martinho Gonçalves. O construtor ou empreiteiro (mestre) foi um homem de nome Fernando.

Tal como os castelos também as cercas românicas eram de pequena dimensão e de formato sub-circular. As suas aberturas eram mínimas, como convinha a uma defesa passiva, reforçada pela espessura dos muros e dos terreões adossados, quando os havia. Não é o caso de Melgaço, onde estes foram substituídos por balcões assentes em matacães, tendo cada um deles – nos que subsistiram – quatro aberturas cada.

A proibição de construir-se junto dos muros da vila é algo que pertencia aos tratados militares de então. Afonso X recomendava que casas e outros tipos de construção fossem erguidos a uma distância de 4,5m da face interna dos muros das cercas dos burgos e castelos. A autorização só era concedida na condição de, em tempo de guerra, tais construções serem demolidas.

Exemplos de casas encostadas à face interna do muro da vila não faltam em Barcelos, Viana do Castelo, Monção ou Ponte de Lima. Por seu lado Melgaço não fugiu à regra. As casas encostaram, sempre que puderam, mas há sítios onde isso não aconteceu. O melhor exemplo do respeito pela distância entre o muro e as casas de habitação está ainda hoje patente na Travessa da muralha, junto da Porta de Baixo e num outro espaço, junto da Porta da Rua do Carvalho, que só em tempo recente é que foi tapado pelo acrescento da casa que foi Quartel da Guarda-Fiscal na vila de Melgaço.

 

PORTUGALIA

Nova Série, Vol. XXIV, 2003

 

A “COURAÇA NOVA” DA VILA DE MELGAÇO

RESULTADO DE UMA INTERVENÇÃO ARQUEOLÓGICA NA PRAÇA DA REPÚBLICA

 

Carlos A. Brochado de Almeida

 

CASTELO DE MELGAÇO POR CARLOS A. BROCHADO DE ALMEIDA II

melgaçodomonteàribeira, 17.07.21

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(continuação)

 

A hipótese, consistente, de ter sido o rei D. Afonso Henriques a mandar construir o castelo – a concretização é que poderá não ter sido na sua vigência – alicerça-se no texto da Carta de Couto concedida pelo rei D. Sancho I ao mosteiro de Longos Vales, situado no actual concelho de Monção e que a crítica, apesar de algumas incertezas, tende a colocar no ano de 1199. Diz o referido documento que o rei coutava o dito mosteiro de “São João de Longavares juntamente com o herdeiro D. Afonso II e os restantes filhos e filhas em remição dos seus pecados e pello amor de Deus, pella torre que Dom Pêro Periz, prior do dito mosteiro com seus frades nos fes em Melgaço”.

De acordo com aquele texto, não restam dúvidas que em 1199 já havia uma torre em Melgaço mandada construir a expensas do mosteiro de Longos Vales. Por este facto não compreendemos a surpresa demonstrada por Bernardo Pintor – a não ser que desconhecesse o texto da Carta de Couto do Mosteiro de Longos Vales – pela presença do prior do dito mosteiro na Inquirição feita em 1258 à vila de Melgaço, onde participou conjuntamente com outras figuras civis e religiosas, nomeadamente os abades dos mosteiros de São Salvador de Paderne e de Santa Maria de Fiães. Os motivos que conduziram até Melgaço o prior do dito mosteiro seriam os mesmos dos restantes: interesses económicos na região.

As razões do interesse do mosteiro de Fiães, conhecemo-las devido à documentação que se conservou, como saberíamos a de Paderne e mesmo as de Longos Vales, apesar de este se localizar bem mais distante, caso conhecêssemos o paradeiro de seus cartórios. O abade de Fiães tinha por ali casas e herdades, dele dependia, alternadamente, a apresentação do pároco da paróquia de Nossa Senhora da Porta – o outro patorno era o concelho ou câmara de Melgaço – e tinha, sobretudo, grandes interesses em Nossa Senhora da Orada.

De Paderne sabemos menos, mas posteriormente, no reinado de D. Pedro I, este mosteiro tinha na vila de Melgaço umas casas que haviam pertencido a “Domingu Eannes pera teer en ellas seu pam e seu vinho”. Tal propriedade foi objecto de uma demanda judicial e, por esse motivo, o rei acabaria por dar razão ao mosteiro, ficando ele com a liberdade de as usar como bem entendesse, desde que pagasse o foro que lhe era devido. Aliás, seria este mesmo monarca quem viria a confirmar, a 6 de Novembro de 1358, os previlégios anteriormente outorgados ao concelho de Melgaço.

Do Mosteiro de Longos Vales desconhecemos os seus verdadeiros interesses, mas se os frades haviam construido a dita torre, porque motivo assim haviam procedido? Certamente porque ali tinham propriedades que precisavam de ver protegidas e assim colaboravam na política de defesa seguida pelo rei ou porque, precisando de pagar favores reais concedidos noutros pontos do Minho, colaboravam na defesa de um burgo recentemente dotado, pelo rei, de uma Carta de Foral que a elevava à categoria de concelho.

A primeira referência à vila de Melgaço defendida e rodeada com um muro ou cerca, data de 1205. Naquela altura, mais especificamente a 13 de Abril o arcediago da Terra de Valadares, D. Garcia Nunes, juntamente com André Garcia “ut seviat ipse Andreas mihi” faziam um acordo com o abade de Fiães relativo à posse da igreja que se ideficava junto à porta da mesma vila: “ipsam ecclesiam de Melgazo que est edificata prope portam ipsius ville”.

À luz deste documento fica bem claro que em 1205 – governava então D. Sancho I já desde 1185 – a cerca já estava em construção, nomeadamente o troço nascente, voltado à Praça da República e Rua Hermenegildo Solheiro, muito provavelmente porque esta era a zona menos defensável sem o apoio de meios artificiais. De acordo com o texto, naquela data já havia uma porta no muro, justamente na traseira da capela-mor da igreja de Santa Maria. A sua construção era de tal maneira necessária e significativa para a população do burgo que acabou por marcar a própria designação oficial da paróquia que passou a chamar-se Santa Maria da Porta.

Respingando na bibliografia da especialidade, a maioria dos autores que se têm debruçado sobre este tema, são de opimião que a obra de cercar o burgo resultou das desavenças político-militares ocorridas no reinado de D. Afonso II, entre este monarca e suas irmãs, situação que levou o exército de Leão a entrar no Minho nos anos de 1211 e 1212 e a devastar a região. Seria, para Bernardo Pintor, este o motivo principal que teria levado o monarca a mandar cercar a vila de uma muralha, mas não o diz com total convicção, porque a certo ponto levanta a hipótese de ela já existir e os leoneses terem-na destruído. Na sua esteira, com argumentos semelhantes viria Mário Barroca a reiterar a hipótese de ter sido o rei D. Sancho II o autor da construção do muro da vila de Melgaço. De acordo com a sua argumentação “o início da construção da muralha de Melgaço remonta, pelo menos, aos tempos de D. Sancho II”. Opinião semelhante teve Augusto César Esteves. Para este estudioso de Melgaço as desavenças entre D. Afonso II e suas irmãs motivaram o ataque a uma Melgaço que mal defendida “com panos de fraca cortina em terra, possivelmente sem obras defensivas capazes de aturarem cerco de semana ou meia dúzia de escaladas contínuas” assim ficaria até ao reinado de D. Sancho II. Para este autor as obras realizadas em tempo do rei D. Sancho II foram parcelares, porque a parte voltada ao mosteiro de Santo António das Carvalhiças só foi feita no tempo de D. Afonso III, em 1163.

Que a cerca começou a ser erguida pelo lado nascente e antes de 1205 é algo que para nós é um dado adquirido. Pacífica é também a ideia de que uma obra daquela envergadura não podia ter sido construída em dois tempos, mesmo que os fundos abundassem. Não foi o caso, porque a obra foi feita a expensas de várias instituições e demurou a concretizar-se mais de meia centena de anos. Deveria estar concluída em 1263, ou próximo disso e não em tempo do rei D. Dinis como aventou César Esteves.

 

 

(continua)

 

O CASTELO DE MELGAÇO POR CARLOS A. BROCHADO DE ALMEIDA I

melgaçodomonteàribeira, 10.07.21

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A CONSTRUÇÃO DO CASTELO E DO MURO DA VILA

 

É voz corrente ter sido o rei D. Afonso Henriques o mentor da ideia que conduziu à construção do castelo que defendia a povoação a quem havia concedido foral, no pressuposto que um burgo de fronteira, dotado de tal honra, não poderia existir sem a correspondente componente militar. É certo que as demais povoações raianas do Minho, elevadas à categoria de vila e concelho, tinham o seu castelo, mas também não é menos verdade que a concessão de uma tal prerrogativa não implicava, logo, o seu amuralhamento.

O Castelo de Melgaço foi construído no ponto mais saliente e defensável da povoação e esta, numa primeira fase, ficou fora dos planos defensivos arquitectados para o sítio. Algo semelhante terá acontecido com Monção e Valença e sucedeu, indubitavelmente, com Vila Nova de Cerveira. O rei D. Dinis quando, em 1320, instituiu ali uma póvoa mandou construir um castelo, mas a povoação, incluindo a sua igreja – dedicada a S. Cipriano – ficou deliberadamente de fora. A sua fortificação só viria a acontecer na altura das Guerras de Aclamação, como antes  já o havia sucedido a outras vilas de fronteira e a outras não tão expostas, casos de Viana, Ponte de Lima e Barcelos, cercadas com “muros” ao longo da segunda metade do séc. XIV.

É voz corrente que o Castelo de Melgaço é obra do primeiro rei de Portugal. Em defesa desta tese há certos argumentos, alguns deles dignos de atenção.

Foi efectivamente D. Afonso Henriques quem promoveu Melgaço ao conceder-lhe Carta de Foral. A sua outorga, se outra motivação não fizesse, legitimou uma pequena aglomeração com características urbanas, localizada num espaço entre o Minho e o Lima, num ponto onde começava a aceitar-se que por ali passava a linha de fronteira entre dois reinos. O segundo argumento, sendo de carácter militar, não é menos importante. Ele deriva do facto do rei conhecer pessoalmente o território e de saber da importância que o burgo tinha para a defesa do espaço que lhe ficava na retaguarda, mormente as linhas de penetração que davam acesso ao Lima e mais para Sul a duas cidades de capital importância para as aspirações independentistas dos nobres portucalenses: Braga e Guimarães. De acordo com o texto da Carta de Couto concedida ao mosteiro de São Salvador de Paderne – “istum fretium et servitium fuit datum quando tomavit dominus rex Castellum de Laborario” – o rei D. Afonso Henriques conduziu pessoalmente uma ofensiva que visava retomar e retomou o Castelo de Castro Laboreiro. Tudo aconteceu em 1141 quando Afonso Henriques invadiu a Terra de Toronho, território fronteiriço à linha do Minho e que tinha Tuy como principal ponto de referência. Esta acção bélica levou à invasão do Minho e à consequente tomada do Castelo de Castro Laboreiro pelos leoneses, à data, uma estrutura roqueira assente sobre os escombros de uma velha povoação da Idade do Ferro, pois somente no reinado de D. Dinis é que o castelo ganhou a forma que ainda hoje ostenta.

Não havendo no Foral de Melgaço nenhuma alusão ao castelo ou a qualquer outra estrutura de carácter defensivo, sendo igualmente omissos, a este respeito, os vários documentos do tempo de D. Afonso Henriques pertencentes ao Cartulário de Fiães, será foi deste monarca que partiu a ordem para a construção do castelo? Bernardo Pintor, um estudioso criterioso da realidade medieval de Melgaço, duvida e, pelo menos, em duas passagens expressa-o claramente: “Dizem alguns autores que D. Afonso Henriques levantou em 1170 o castelo. Documentos a provar ainda os não vi e nem sei que os haja” e “dizem alguns autores que este rei levantou o castelo que foi apoiado pelo Prior do Mosteiro de Longos Vales, mas não encontrei referências documentadas”.

As dúvidas, muito legítimas, de Bernardo Pintor assentam no facto de não haver na documentação alusões claras e directa acerca da actuação do rei em Melgaço neste campo e também porque no texto do Foral não há qualquer referência à figura do alcaide, que tinha um papel eminemtemente militar e superintendia ao castelo, sendo unicamente mencionado o vigário do rei, cujo cargo era funcionalmente administrativo e fiscal.

Os defensores da tese que o castelo nasceu com o rei D. Afonso Henriques beberam a informação num documento – a denominada Carta de Foral concedida por Afonso Henriques a Castro Laboreiro – que a crítica moderna dificilmente aceita como autêntico. Neste texto e a propósito dos limites de Castro Laboreiro dizia-se que o seu território confrontava com o antigo castelo de Melgaço que o Rei Ramiro havia edificado para repelir os inimigos que infestavam o Alto Minho e Portugal.

Mas qual dos reis com o nome de Ramiro?

O primeiro com tal nome, Ramiro I, reinou entre 842 e 850. Durante o seu curto reinado a Galiza sofreu violentas incursões dos Normandos e dos Muçulmanos, estes enviados pelo emir Abdal-Rahman II. O segundo era filho de Ordonho II que morreu em 924. Os seus três filhos vieram a revelar-se contra o primo Afonso Froilaz, sucessor de Froila, que havia sucedido no cargo a seu irmão. Os três, vencedores, acabaram por repartir o reino entre eles, cabendo a Galiza a Sancho Ordonhes e o território mais ocidental, isto é, o Condado Portucalense, a Ramiro II. Este rei, que governou com uma certa violência contra familiares e apoiantes, desenvolveu uma política de consolidação do Condado Portucalense ao atribuir a liderança a Vímara Peres.

Ramiro II morreu em 951 e sucedeu-lhe o filho Ordonho III que morreu em 956. A este viria a suceder o irmão Sancho I e a este o filho Ramiro III que reinou até 984, entre a contestação dos opositores e campanhas defensivas contra as razias dos Normandos e os ataques dos Muçulmanos. Será, aliás, poucos anos depois, em 988, que Almançor desencadeará uma das mais violentas incursões à Galiza, tendo saqueado e incendiado Santiago de Compostela.

Se tal texto fosse verídico fazia reportar a construção do Castelo de Melgaço claramente a um período pré-nacional e pré-românico, mais concisamente ao séc. IX. Naquela época ainda não existia a política de construir castelos junto a povoações ou de as situar no interior de cercas defensivas. É o período dos castelos de montanha, de refúgio episódico, por altura das algaras mouriscas. É o tempo do aproveitamento das altas e densas penedias, muitas das vezes dos velhos castros da Idade do Ferro. São inúmeros os exemplos espalhados pelo Entre-Douro-e-Minho e, no caso concreto de Melgaço, não faltam alusões a castelos pré-românicos, os tão propalados castelos roqueiros.

Se o documento fosse fiável o território de Castro Laboreiro estender-se-ia até muito próximo da vila de Melgaço, mais concretamente até ao Monte de São Mamede, que os textos apelidam de “mons Cotaro”, sítio onde nós suspeitamos que se localizava o castelo roqueiro responsável pela defesa e refúgio das populações que estavam dele “subtus mons”, encontrando-se entre elas a “villa” de Cavaleiros.

Se o documento fosse considerado pela crítica actual como autêntico, teríamos provavelmente de deslocar o castelo roqueiro do seu habitat natural para o morro onde viria  a constituir-se a futura povoação. Não porque a colina onde está o castelo actual não reúna as necessárias características defensivas – o espaço em redor do castelo está topograficamente alterado e alteado – mas porque as suas condições de defesa estão mais de acordo com uma política militar de defesa passiva vigente na época românica que com a anterior, assente na defesa ocasional de um território com base numa população dispersa e sem características de ajuntamento, à moda dos futuros burgos.

Apesar do peso de todas estas considerações é possível que a ideia de construir um castelo em Melgaço tenha partido de D. Afonso Henriques, porque ali havia um burgo merecedor de Carta de Foral e por isso mesmo necessitado de protecção militar. Por um lado tornava-se necessário defender uma região, cada vez mais entendida como fronteira entre regiões que recentemente tinham alterado os laços políticos que os uniam.

 

(continua)

 

MELGAÇO NA ARMADA EM 1624

melgaçodomonteàribeira, 03.07.21

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 azulejo de manuel igrejas - pormenor

FIDALGOS PORTUGUESES QUE INTEGRARAM A ARMADA DA RESTAURAÇÃO DA BAHIA DE 1624

 

PEDRO CÉSAR D’EÇA

Nota: Pedro César d’Eça integrante da Armada da Restauração da Bahia de 1624, serviu também na África e ficou cativo, custando o seu resgate 46 mil cruzados.

Filho de Luiz César de Menezes, Provedor dos Armazéns, Comendador da Ordem de Cristo, no tempo dos reis D. João III e D. Sebastião, homem muito rico, e de D. Cecília d’Eça ou D. Cecília de Castro, filha de Fernão de Castro, Alcaide Mor de Melgaço. Este Luiz César de Menezes, é irmão do General Vasco Fernandes César, Provedor dos Armazéns e Armadas do Reino, portanto tio do outro Luiz César de Menezes, que também integrou a Armada da Restauração da Bahia de 1624.

Pedro César d’Eça, deixou geração do seu casamento com D. Jerónima de Castro, filha de Cristóvão Falcão de Sousa, Governador da ilha da Madeira.

Finalmente, Pedro César d’Eça e seu sobrinho Luiz César de Menezes, são primos próximos de Francisco de Mello e Castro, que também os acompanhou na Armada da Restauração da Bahia de 1624.

RUY BARRETO DE MOURA

Nota: Outro fidalgo cuja identificação fica muito difícil pela falta de maiores informações.

Cronológicamente há possibilidades de ser um Ruy Barreto Rolim ou de Moura Rolim, que serviu na Índia e foi comendador de Castro Laboreiro. Filho de Manuel Barreto Rolim e de Jerónima Esparragoza de Sousa; neto paterno de outro Ruy Barreto, Estribeiro Mor do rei D. Manuel, Comendador de Azambuja, e de Rodão e bisneto de Jorge Barreto e de D. Leonor de Moura, origem do seu sobrenome Moura.

Com geração de seu casamento em Goa com D. Catarina, senhora nobre, criada e adoptada por sua avó D. Maria d’Eça.

 

Retirado de https://familysearch.org

 

O TOJO MAIADO

melgaçodomonteàribeira, 26.06.21

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O BIVAQUE DOS FASCISTAS

 

Desde o princípio do mundo talvez, diz uma das atuais terra-tenentes desses “andengues”, que os portugueses possuíam propriedades do lado de lá da fronteira. Eram campos de pasto, de feno, carvalheiras, “uzeirais”, tojais, que pouca valia deviam ter para os galegos mas que eram explorados e mantidos por portugueses. Todos os três meses iam a Crespos pagar as “pagas”, o que até dava jeito pois a viagem servia também para comprar a melhor preço bacalhau, azeite, chocolate, farinha triga, toucinho branco até, quando o caseiro se esgotava. Estava-se ainda longe do final do século XX quando acabaram com essa contribuição, por insignificante que deveria ser para o erário público do país vizinho. Com os aumentos de impostos que se sofrem nos dias que correm e o descalabro financeiro que a televisão mostra também na Espanha, há quem tema pelas “pagas” sejam repostas, mas em multiplicado. Outros pensam de modo diferente receando antes uma expropriação justificada pela falta de uso da terra. A ver vamos, o que o futuro reserva a esta realidade local é incerto e poderá até eternizar-se tal como está.

Por fracos que fossem os proventos daquelas propriedades, os seus donos exploraram-nas até quase ao virar do milénio. Depois aconteceu-lhes o mesmo que aos terrenos em Portugal: foram sendo progressivamente votados ao abandono, não restando hoje quaisquer das atividades tradicionais que foram o ganhapão de gerações e gerações, antes das reformas e pensões com que quase todos são contemplados. Essa pequena fonte de recursos de além fronteira só conta hoje na memória saudosista e em raras conversas dos antigos, muitos dos atuais e futuros proprietários nem será capaz de localizar os seus prados.

No decurso da guerra civil espanhola e mais tarde, durante e para além da segunda guerra mundial, o controlo do vaivém entre os dois países era efetivo: pessoas e animais tinham de andar munidos da respetiva identificação. As “guias” davam razão do que cada proprietário possuía, terras e cabeças de gado, bem como cães e carros de bois. Não havia contemplações para quem não cumprisse, não era permitido levar um animal a mais e quem prevaricasse ficava sujeito a punição que podia ser o impedimento de atravessar a fronteira, de ver os animais retidos, de pagar uma multa ou, em casos extremos, de se ver conduzido para um posto da guardia civil. Não brincavam em serviço os carabineiros dos idos anos trinta, quarenta e cinquenta.

Durante esse período de razia de vidas humanas os portugueses da raia não podiam atravessar a fronteira antes do nascer do sol ou depois de o mesmo se ter posto. Estava-lhe igualmente interdito o trânsito com dinheiro nos bolsos, não fosse algum “celerado” refugiado beneficiar da ajuda dos portugueses. Os falangistas, que, como é sabido, prolongaram a sua atividade de guerrilha muito para além do término da guerra civil, eram presença assídua nos caminhos trilhados pelos castrejos, entre os marcos um e vinte e tal. Eram agressivos e mais papistas do que o papa, quer dizer, chegavam a ser mais controladores e violentos do que a guardia civil. O povo temia mais os bivaques amarelos do que os próprios carabineiros e, sobretudo as mulheres que temiam pela sua honra, fugiam de encontros com eles.

Um dia saía, asinha, Isabel da Barreira para ir guiar a água a um campo de feno na Galiza. Encontrou à saída do lugar um comerciante de gado pronto a pagar-lhe ali mesmo um vitelo que lhe tinha comprado. Isabel precisava do dinheiro, não o recebendo no momento ficava sem saber quando o veria, pelo que resolveu arriscar e seguir para a raia com ele. Guardou-o bem escondido junto ao seio, debaixo do corpete, longe do salvaconduto, com sorte não ia ter maus encontros. Apressou-se a chegar ao seu destino, abriu as “tolas” e certificou-se que a água tinha caminho aberto até ao fundo do campo. Sentou-se um momento para espraiar o olhar sobre a propriedade, tão bonita, tão limpa, tão bem murada, pena que ficasse tão longe do eido. Olhou para o portal de saída e o seu coração começou a bater em ritmo acelerado: um bivaque amarelo escondia-se mesmo ao lado do ponto de saída. Desviou a vista, como a esconjurar a presença do inimigo. Voltou a olhar e lá estava o chapéu amarelo a abanar para um lado e outro. Diabo de homem, porque não se mostrava? Devia estar com más intenções, queria apanhá-la de surpresa, maldito! O dia declinava e Isabel sem coragem de se pôr a caminho. Dali a pouco tudo seria pior, o sol estava quase a cair para lá da Cabeça do Pito. Sol posto e ela ali no prado, encurralada, seria a sua desgraça!

Estava neste indeciso e temeroso cismar quando ouviu um melodioso assobio. Vinha do lado da Corga da Gândara. Pronto, outro maldito que se ia reunir ao que a espiava, escondido, o cobarde, só o bivaque amarelo a indiciar a sua presença. A força que a mantinha pregada ao chão aumentou e o medo tomou o lugar do receio, a barriga a revolver-se-lhe toda. Começava a encomendar-se à Senhora dos Aflitos e eis que ouve chamarem por ela. Reconheceu logo a voz de Domingos, seu vizinho e compadre e levantou-se como uma flecha, atravessou o campo a correr, descurando onde punha os pés, o que menos lhe importava era os socos cheios de água, queria o amparo da companhia. Fez-lhe sinal para parar, alcançou-o e segredou-lhe que tinham companhia. Estava enganada, acabara de se cruzar com eles no sentido contrário, baixavam para Lapela.

Aproximaram-se do ponto fatídico onde o biltre se escondia e Isabel riu-se em voz alta do seu próprio medo: o que ela tinha tomado por um bivaque amarelo à sua espreita não passava de um grande tojo maiado abanando ao vento. Nem se aborreceu com os chistes do Domingos nem se apressaram a chegar ao marco três antes do pôr do sol, se os falangistas se dirigiam para o lugar de Lapela tinham tempo de regressar com calma e fazer da caminhada um momento de partilha.

O medo de se confrontar com os fascistas e ser maltratada até a fizera esquecer-se do dinheiro guardado na quentura do seio, só à noite, ao desapertar o colete, antes de se deitar, é que encontrou as notas que o Cerdeirinha lhe tinha dado à tarde.

 

                                                              Olinda Carvalho

Publicado em A Voz de Melgaço

1 de Abril de 2015

UM BENEMÉRITO DE MELGAÇO

melgaçodomonteàribeira, 19.06.21

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casa amadeu abílio lopes

PELO HOSPITAL

(A Voz de Melgaço, 15. 11.1963)

NO DIA DE REIS… TODO O CONCELHO PELO HOSPITAL!

No passado número do nosso jornal, lançámos a ideia dum novo cortejo para o nosso hospital. Faz-se por necessidade. Com a compra dos terrenos, para a construção do novo hospital, ficamos sem reservas, sem nada, para se acudir aos nossos doentes. E temos de contar com a construção do novo hospital, que esperamos se comece no próximo ano.

É uma batalha, em que todos os melgacenses temos de entrar. São precisos uns 1 000 contos. E para todos nós é tarefa que não custa.

Já não nos falta exemplos dignos de imitar-se, o do Sr. Amadeu Abílio Lopes e de Sua Ex.ma Esposa, de Chaviães, com a sua valiosíssima oferta de 350 000$00.

Nem nos faltam já dedicações, dignas de nota, graças a Deus. Mas é esta uma batalha em que todos, mas todos, temos de intervir.

Ninguém será contra. Quem o havia de ser, entre os melgacenses? – Quem? Se esta obra se faz para todos nós?! – Sobretudo, para aqueles que não possuem os meios de que nós podemos dispor, os pobrezinhos.

Está posto, mais uma vez, à prova o nosso bom desejo de servir a nossa terra. Aos Melgacenses, a todos, se pede nos ajudem. Se algum houvesse, não sabemos que o haja, mais desanimado, por favor, não desanime ninguém.

Vamos pois começar com os trabalhos.

Deus o quer! – É pela nossa terra.

Carlos

PS: No passado número do jornal, veio uma gralha, que nos prejudicou bastante. E assim, de Lisboa só nos deram para a compra dos terrenos, 50 000$00. E, nas vésperas da construção do novo hospital, dão-nos menos 18 000$00, para sustentar os nossos pobres doentes. Mas se todos os melgacenses nos ajudarem, tudo se fará.

Carlos

 

Padre Carlos Vaz: Uma vida de Serviço

Edição: Carlos Nuno Salgado Vaz

Coordenadores: Carlos Nuno Salgado Vaz

                           Júlio Nepomuceno Vaz

Braga

Julho de 2010

pp. 532,533

A GUERRA DO DIZ QUE DISSE NO SÉC. XIX

melgaçodomonteàribeira, 12.06.21

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ponte da folia - remoães

Nº 25                       SUPLEMENTO

19 de FEVEREIRO 1847

O ESPECTRO

Lisboa, 20 de Fevereiro

 

O vapôr de guerra hespanhol Blasco de Carai, chegado hontem de Vigo, trouxe notícias importantes. As forças do ex-conde do Casal foram completamente derrotadas, e elle fugiu precipitadamente para Valença. Não sabemos os detalhes circumstanciados da acção, mas referiremos o que dizem pessoas que vieram no mesmo vapôr.

O barão de Almargem atacou a Ponte da Barca, o conde das Antas Ponte de Lima, aonde se achava o chefe dos rebeldes. Ambas as pontes foram immediatamente forçadas. Dizem uns que a força rebelde da Barca fôra perseguida pelo barão de Almargem até Melgaço, aonde entrára na Galliza, deixando em nosso poder 200 prisioneiros; e que a de Ponte do Lima fugira para Valença. Dizem outros que as duas forças se reuniram, e passaram em Melgaço para Galliza por não poderem entrar em Valença. Outros em fim melhores informados dizem que o governo recebêra participações de Vigo nas quaes se diz que o Casal entrára em Valença inteiramente derrotado, e que levavam somente duzentas praças.

 O conde das Antas depois de destroçar o inimigo cahiu sobre Vianna, aonde entrou depois de alguma resistência, aprisionando 200 soldados, e o brigue Vouga que alli se achava fundeado.

 

FRAGMENTOS DE VIDAS RAIANAS 35

melgaçodomonteàribeira, 05.06.21

 

O Manel não teimou; optou por ignorar a impertinência arrogante do filho. «Cabrão do caralho», cingiu-se a murmurar, escarrando para o chão e centelhando-o visualmente. Desandou e, pesadamente, dirigiu-se para o bar.

Aparentemente, não tinha interesse nenhum em ver a filha mas, ultimamente, desconfiava do seu ritmo de vida. Tinha um guarda-roupa assombroso e diversos pares de sapatos – tudo nupérrimo – e um sem-fim de produtos de maquilhagem de excelente qualidade. Portanto, nem episodicamente trabalhava. Tinha as suas suspeitas, os seus pressentimentos e sabia que não devia estar enganado. Mas isso comprazia-o pessoalmente.

Ver-lhe aquelas pernas bem feitas, as coxas carnudas e rijas, era uma psicose. Quando uma minissaia as realçava, ficava esgazeado e atiçado como fogo pelo vento. Eram tão aliciantes como as da mãe quando tinha a mesma idade. Perdia a razão, o corpo era fogo e uma lubricidade inexplicável incitava-o a perder-se entre aquelas pernas. Sentia calafrios e exsudava tanto como quando percorria a maldita ponte. O pavor de que se reproduzissem os momentos de folia desbridada e irrefreável, não muito distantes, convulsava-o e retinha-o.

Estacou à porta do bar, que estava escancarada. Tirou a boina preta e, com a mão, fingiu arranjar os cabelos compendiosos, antes de voltar a colocá-la.  O bar, edificado do lado esquerdo do salão de bailes, era estreito, mas tinha a mesma profundidade que este. De lés a lés, um balcão rústico de carvalho, feito com troncos e uma prancha; por cima, um abrigo de colmo do mesmo cumprimento; por detrás, a meia altura, uma exorbitante prateleira sustentava perto de duas centenas de garrafas de bebidas alcoólicas, de diferentes marcas, feitios díspares, tamanhos, épocas e países diferentes. Era o terreno dos aracnídeos: tinham fiado nelas umas incríveis variantes de rendados e de bordados refinados.  A limpeza não era o credo da casa.

O ar era brumoso, fumífero; o cheiro a álcool, pestilento; a música, surda, compelia os foliões a falarem ainda mais alto do que habitualmente.

Abrir caminho até ao balcão e pedinchar uma tigela de tinto foi deveras trabalhoso para o Manel. A barafunda era tal que teve de pacientar mais do que desejaria. Umectou os beiços e, com cara de hospedeira de bordo, consentiu que o olhar divagasse à sua volta. «O pessoal está todo bem», estimou com júbilo.

Era neste meio que gozava de uma dilecção desmedida pela vida sombria que era a sua. Para ele, embora sonhasse que devia ser constante, a alegria não era senão uma disposição puramente perceptível com periodicidade. Fez uma carranca como quem quer espantar os pensamentos grisalhos. Não era o local nem a ocasião para essas meditações. Queria alegrar-se, beber e comer até enjoar e regressar à casa, às tantas, cantando, como lhe aprazia fazer. Depois, sacudia a mulher para lhe acariciar o sexo até adormecer.

 

Nos dias de baile, o Manco exercia o papel de segurança com meticulosidade. Fazia rondas assiduamente: bar, comedor – sala de jantar -, cozinha e salão de bailes, sem alteração. Quando entrou no bar, o Manel hauria o que restava da segunda tigela. Saudaram-se num ápice; eram amigos de longa data e alimentavam um apreço recíproco.

Os suspensórios, que quase tinham crescido com ele, obviavam as calças de resvalar para o fundo da barriga. Os pés trazia-os invariavelmente calçados com pantufas castanhas.

Transpôs o balcão, onde uma das filhas e o filho caçula afrontavam os ressequidos festeiros. Ao deslocar-se, a manga esquerda da camisa marcava o compasso. Deu uma olhadela generalizada, mas não divisou nenhum desordeiro nem ninguém de relevância. Foi à esquina onde, por cima do móvel do tabaco, guardava a garrafa de branco e o copo; encheu-o e esgotou-o com imperturbabilidade. Enfiou um Ducados no canto da boca e pôs-lhe lume com um fósforo.

Para os clientes inabituais, constituía sempre um espectáculo riscar o fósforo com uma só mão. Segurava a caixa com o anelar, o mínimo e o polegar; abria-a, retirava o fósforo com o indicador e o médio, entre ao quais o mantinha firme; em seguida era só esfregá-lo na lixa.

Deu duas fortes chupadelas no cigarro e, depois de verificar mais uma vez que tudo estava em ordem, empurrou as portas vaivém da sala de jantar com a barriga – em algumas tarefas empregava-a como se fosse o braço faltante – e avaliou quantas mesas estavam ocupadas e com quantas pessoas. Havia algumas vazias, mas, vista a hora, a lotação era correcta. A mesa na qual estava o Cerdeira, conhecido como o louco de Quintela, despertou a sua curiosidade. Já tivera pegadilhas passageiras com ele. De estatura média, maxilas quadradas, era uma pilha de músculos. Com cerca de trinta e cinco anos, já tinha sido internado repetitivas vezes em instituições psiquiátricas.

Uma cerveja diante dele, fumava com placidez e nem os olhos levantou para o Manco que se achegara à mesa.

- Já pediste? – inquiriu.

Sem mexer, meio nauseado, retorquiu que não.

- O que queres então? – instou.

- Nada! – largou cruamente o homem.

O sangue aqueceu subitamente nas veias do Manco. Fosse quem fosse, execrava refutações num tom destes. Esmagou o Ducados com força entre os dentes para sofrear o descontentamento.

- Pois se é só para beber, tens o bar. Aqui é a sala de jantar ou não deste por ela? Não comes nada? O Cerdeira, sem se intimidar e sem, todavia, o mirar, deu uma passa no cigarro e, sussurrou enlanguescido:

- Eu, não, mas o meu cão sim – e apontou para debaixo da mesa.

Uma toalha de pano branca, salvaguardada por uma de plástico hialina, encobria as mesas e, em parte, ocultava-lhes os pés. O Manco teve de recuar e inclinar-se vagamente para poder ver por debaixo da mesa. De facto, um pequeno cão rafeiro regalava-se serenamente com o conteúdo dum prato.

Desta vez o sangue ferveu-lhe nas veias e acidulou. A mala hostia fez com que a bronquite crónica se manifestasse com a consagrada tosse produtiva e lhe anelasse a respiração. Dar uma iguaria cozinhada pela Vicenta, um manjar fresco e saboroso, feito na hora, a um cão, como se não fosse assaz bom para ele? Alguma vez pressentiria uma coisa destas? Era um desafio, uma agressão petulante. Talvez estivesse louco, como se dizia, mas isso não lhe dava o direito de insultar a sua comida e a sua mulher. Era coisa que nunca permitiria. Sem claramente se aperceber, estendeu o braço, cravou os densos e imponentes dedos da única mão no pescoço encolhido e bojudo do Cerdeira. Com metade da língua fora da boca, o estarrecimento era patente nas suas feições. O Manco, olhos arregalados pela cólera e avermelhados pelo álcool, clamou, esborrifando-o:

- Me cago en tu puta madre, maricón! Se não te agrada a minha comida, ninguém te força a pores cá os pés. Agora vires humilhar-me à minha casa, isso não! Comigo não brincas, hijo de puta! Sei que estás louco, mas eu estou-o mais do que tu, sabes?

O pobre demente sentia-se como o veado a quem o leão crava as fortes mandíbulas de imprevisto na garganta e, sem saber contra quê ou quem, não para de estrebuchar.

- Sais imediatamente da minha casa com o teu cão e não voltas a pôr aqui os pés. Percebeste-me, percebeste-me bem? – invectivou.

A interrogação foi um berro tão forte que, apesar do alarido vigente, as pessoas presentes na sala, assustadas, voltaram-se para assistir à cena.

Com um gesto seco, sacou-o da cadeira como se fosse uma caixa de cervejas, atraiu-o a si e projectou-o brutalmente contra a mesa desocupada que estava por detrás. A cena durou uns segundos. Desta vez, o estrondo originado ouviu-se no bar e algumas cabeças assomaram por cima da porta vaivém.

Sem revelar qualquer oposição, contenção ou mesmo fúria, o louco de Quintela deitou as mãos à cadeira que o acompanhara e, sem piar, pôs-se de pé. Com a mão, limpou o cuspo aspergido pela cara. Deu uma rápida visada ao adversário, como quem reconhece e aceita a sua superioridade, e dirigiu-se para o bar. O rafeiro, alheio à ocorrência, não interrompera a refeição; escoltou-o, portanto, com o osso de uma costeleta entre os dentes.

Pela reacção, ficara fortemente emocionado com a força excepcional, atípica do mastodonte que era o Manco. O Cerdeira, com o físico de estivador, sinzelado durante anos no porto de Vigo, se aflorasse a mais pequena chance, não deixaria de reagir da maneira mais violenta e inesperada. No fundo, o Sérgio, verdadeiro nome do Manco, fascinava-o; era uma massa que devia ser muito difícil de fazer vacilar, quanto mais derruir. Não ignorava, decerto, a sua supremacia, mas a avidez de o incitar para se aferir prevalecera, puxando-o a dar a comida ao cão.

O Manel, satisfeito, presenciava a zaragata com infinito prazer. Sorriu, com ironia, afixando os dentes podres, quando se afastou para passar o Cerdeira. Já tivera uns ligeiros aborrecimentos com ele quando trabalhara em Quintela.

- Que barulho foi este?

Desta vez, a Vicenta chegara atrasada e não pudera utilizar as suas capacidades de conciliadora. O Manco não contestou. Levantou a mesa e pôs as cadeiras à sua volta. A sua expressão repercutia o grosseirismo do gesto do Quintela. Propeliu as portas vaivém e penetrou no movimentado bar, não dando importância aos olhares de admiração e de respeito, com que o congratulavam os clientes.

- Foi uma boa lição que deste a esse bastardo, Sérgio – confessou-lhe o Manel, arreganhando a tacha e dando-lhe umas palmadinhas amigáveis nas costas.

Direccionou-se para de trás do balcão, pegou na garrafa de branco que deixara por cima do móvel do tabaco, e verteu o conteúdo no copo. Ficou meio. Dobrou-se, estirou a mão por baixo do balcão e recolheu outra.

Esse estúpido, esse apoucado do Cerdeira, com a sua louquice, exacerbara-o desmedidamente. Via-se condenado a beber mais do que de costume para sossegar a mala hostia que o invadira.

 

XII

No bar, por volta da meia-noite, o Benito do Capela juntou-se ao Manel; era um pobre diabo, companheiro e colega de trabalho ocasional quando lhe apetecia vergar o rinhão. Era precisamente o que mais pasmava o Manel: trabalhava quando queria, mas andava sempre bêbado. Quando o denegriam, comentava: «Vós viveis como se fosseis eternos, mas eu vivo como se cada dia fosse uma vida». Entendiam-se bem.

- Se tivesses vindo uns minutos mais cedo, cumprimentavas o teu amigo Cerdeira – brincou o Manel.

Mais ou menos da idade deste, era morgado e vivia com o pai, perto dali.

Também andava permanentemente de boina na cabeça, mas não pelo mesmo motivo que o Manel. Nunca tirara a boina em público, mesmo para coçar a cabeça. Escondia uma calvície precoce. A última vez que fora a Ourense renovar o bilhete de identidade, constrangeram-no a desguarnecer a cabeça para o medirem. Apavorado, indagou duas vezes, ante a perplexidade dos funcionários, se não podiam fazer de outro modo. Um moço da Notária que ali se encontrava detalhou, mais tarde, o que viu. O sucesso não tardou a entrar nos ouvidos da maioria dos malandros da região, entre os quais o Cerdeira. Uma tarde, no bar do Manolo, valendo-se do seu vantajoso físico, aliviou-o da boina, pondo-lhe a calva à vista. O Benito, paralisado pelo medo e pelas gargalhadas dos presentes, imprecou-o em silêncio e, a partir daí, fugia dele como da peste. Tinha um receio surreal do Loco de Quintela.

Era um grande pescador, dotado de amplos conhecimentos apenas superados pelos do Adriano. Como este, aprendera a compreender o rio muito antes da barragem vir a adulterar a região e impedir os peixes migradores de se deslocalizarem livremente.

Estava de bom humor. Àquela hora, naturalmente, tinham ambos a caldeira bem quente. Beberam umas chiquitas (tigelas) e o Manel, já meio nebuloso, contou-lhe a tareia que o Manco deu ao Cerdeira. Riram, radiosos. O ambiente do bar escalara e chegara ao cúmulo. Os cubalivres e as tigelas – maioritariamente – faziam chover uma hilaridade desenfreada. O Manco surgia, apreciava o ambiente, dava uma olhada nas notas que acolchoavam a gaveta e, encantado, prosseguia a sua ronda depois de ver o cu a outro copo de branco.

À uma da manhã, saíram e foram para a tienda do Biquitos, cem metros acima. Este brioso comerciante, pai do Chino, estivera expatriado mais de 20 anos no Brasil, onde conheceu a Glória. Pequena, gordinha e olhos puxados, parecia uma esquimó. O filho devia o epíteto à fisionomia legada da mãe.

Na sua cozinha, situada entre a especiaria e a sala de jantar, a Glória acomodava, até altas horas da noite, uns deliciosos pratos tabernais.

A sua especialidade eram os miúdos. Contudo, as bochechas de vitela, marinadas em vinho tinto com certos condimentos, representavam o pitéu mais solicitado. Tiraram muita clientela ao Manco porque, além da mulher cozinhar bem, praticavam uns preços honestos. Nos últimos dez anos de estadia nos subúrbios da cidade carioca, tinham explorado um pequeno restaurante o que os impregnou da simpatia, da alegria e dos gracejos representativos do povo brasileiro. Questão índole, eram a antítese da «Casa Manco».

O Manco, intratável, dizia aos clientes que lhe eram fiéis que a Glória cuspia no óleo para saber se estava quente. E terminava a frase com um expressivo «Me cago en Dios!».

Encomendaram duas doses de orelhas de porco cozidas, polvilhadas com uma pitada de pimento picante, nas quais se notava, todavia, uma leve ponta de sal. Comeram com sofreguidão, ao mesmo tempo que despejavam garrafas e motejavam. Era uma noite de regabofe, das que os dois adoravam quando o quadro era favorável.

- O outro dia – disse-lhe o Benito, hílare – o Seba (diminutivo de Sebastião) pediu-me para lhe ir arrancar as batatas dos dois campos que tem depois da ponte, do lado de cima da curva, sabes?

- Hã – hã grunhiu o Manel com a boca cheia.

Depois de uma ténue pausa, concatenou, risonho:

Então, perguntei-lhe quem as tinha plantado.

«Foi o Rique», disse-me.

- Sabes o que lhe respondi?

E deu uma gargalhada sonora.

- Que fosse pedir ao Rique, que sabia onde elas estavam! Se visses a cara que me fez!

Encostavam-se à parede, batiam com os punhos por cima da mesa ao mesmo tempo que gargalhadeavam.

Por volta das três da madrugada, saíram da mesa e do estabelecimento do Biquitos com dificuldade, atirando-se pela estrada abaixo a cantar em coro:

 

DE LA SIERRA MORENA

VIENEN BAJANDO

UN PAR DE OJITOS NEGROS

CIELITO LINDO DE CONTRABANDO.

 

AY,AY,AY, CANTA Y NO LLORES

PORQUE CANTANDO SE ALEGRAN

CIELITO LINDO LOS CORAZONES

 

Encostados a um automóvel, o Padre e o Chino fumavam um porro (charro) quando eles desfilaram claudicando. Apenas deviam estremar sombras.

- Que puta de cacetada levam! – admirou-se o Chino.

O Padre, enojado, cuspiu para o lado, como lhe tinha feito o pai.

O Chino, que tinha dado uma boa passa no charro, tossiu e acrescentou meio rouco:

 

Os promotores, que, naturalmente, eram os melhor servidos, esses, mostravam-se bastante discretos na abundância de bens locais. Mas os rumores de que possuíam propriedades aqui e ali, até em Espanha, à beira-mar, não deixavam lugar a dúvidas rapidamente. A jactância, beatitude profunda dos abastados, é uma das fraquezas mais traiçoeiras do ser humano; é uma faca à double tranchant. Os raros que tiveram o infortúnio de cair na reda da Justiça ficaram nus.

 

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 david de carvalho

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NEGÓCIO SUJO

melgaçodomonteàribeira, 29.05.21

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igreja paroquial de roussas

 

UM LUGAR ONDE NADA ACONTECIA

XV

Na Galiza, província espanhola que confrontava com Melgaço e outras localidades portuguesas na margem do rio Minho, a carência de produtos importados era total. A guerra mundial tinha terminado mas a Espanha continuava sob bloqueio comercial por parte das potências aliadas que haviam vencido o conflito. O pouco que os galegos conseguiam era através do contrabando. Se os produtos tradicionais eram difíceis calcule-se as novidades científicas. Casos de tuberculose e meningite que eram frequentes naquela época, poderiam ser melhor combatidos caso a penicilina e outros derivados fossem acessíveis. Os contrabandistas forneciam aqueles produtos a troco de fortunas. Como podia ser se eram controlados? Causava espécie tais produtos miraculosos em Portugal não surtirem o mesmo efeito na Espanha.

A quantidade de penicilina e estreptomicina que agora ia para Espanha era um assombro. Trataria-se de milagre ou mágica? Os sinais de riqueza de alguns cidadãos tornaram-se acintosos.

O Zézé Peres fora atacado de infecção pulmonar que estava sendo atacada com estreptomicina com resultados satisfatórios que o levaram à cura. Um dia, conhecido comerciante e contrabandista, chegou-se ao Zézé e em modos de confidência propôs-lhe pagar três escudos por cada frasquinho vazio da estreptomicina. Não aceitou mas outros pacientes devem ter aceitado.

O arcipreste, pároco de Roussas, faleceu vitimado pela idade. Freguesia considerada rica pelos óbolos, côngrua e espórtulas auferidas pelos serviços religiosos e consolo espiritual, era cobiçada pelos padres de paróquias carentes. As solicitações ao Arcebispo de Braga eram numerosas. Cada pretendente apresentava suas razões à petição. O pároco de Fiães era sério concorrente e seus méritos apregoados, principalmente pelo sobrinho, na altura da vila de Melgaço. Tudo levava a crer que ele seria o indicado. Para espanto geral e irritação daquele sobrinho foi nomeado para Roussas com o cargo de arcipreste, um padre filho do Concelho que exercia seu apostolado em Vila do Conde. A revolta do padre da vila foi grande; aliado ao estado nervoso que nos últimos tempos o assolava e motivava atitudes desairosas; a carta irreverente escrita a tinta vermelha que enviou ao arcebispo precipitou a sua transferência.

Por algum tempo o jovem e nervoso padre tentou desprestigiar o novo arcipreste e sua família que contava com mais dois padres. Um destes padres tinha sido apelidado quando estudante no seminário, de Campaínhas.

Valeu-se dum filho do sacristão, garoto habilidoso para o desenho, pedindo-lhe que fizesse a caricatura daquele outro padre enfiado numa batina recoberta de campainhas.

 

                                                                                     Manuel F. Igrejas

 

Publicado em: A Voz de Melgaço

 

FRAGMENTOS DE VIDAS RAIANAS 34

melgaçodomonteàribeira, 22.05.21

 

O padeiro deitou a mão à sande de presunto. O pão, saído do forno, achatou-se sob a pressão dos dedos. Antes de dar a primeira dentada, encarou-o de esguelha e delineou um sorriso levemente cáustico.

— Não desperdiças uma, Oliva – o Fernando denominou sempre o Manolo pelo seu segundo nome. é novidade para ti, e, quando quero, também sei tecer encrencas.

— Eu não tenho nada que ver com o ocorrido, Fernando. Apenas piquei a Otília para me divertir um pouco. Sabes como sou. Confias em mim, ou não?

O rosto traía os dizeres aos quais o Fernando não dava qualquer crédito, evidentemente.

—  Confio em ti de olhos fechados, Oliva. 

Com efeito, as relações e a concórdia entre eles eram um tanto eufónicas. O Manolo tinha uns dez anos mais. O primeiro contacto selou uma sincera afinidade que se foi reforçando gradualmente. Eram integramente semelhantes. A propensão e o esmero congénitos pelo humor sociável, espontâneo e bucólico, cimentou uma indestrutível condescendência.

Nenhum desconhecia que a irrisão é uma propriedade detentora de carinho e irrigada  de fraternização. Em geral, graceja-se meramente com as pessoas amigas. Reinavam com admirável maneabilidade, sem subentendidos, sem iniquidade nem indelicadezas.

— Sei que não me estás a levar a sério, Fernando. Não é mentira nenhuma  que adoro pilheriar, mas com a Otília há muito que deixei de o fazer. Limito-me a umas facécias ligeiras. É uma peste incontrolável, bem o sabes.

— Não perseveres com a tua ladainha, Oliva, senão vou a Puente Barjas informar o teu amigo tenente que tens a garagem repleta de bananas. Ó Rosa – implorou –, tira-mo daqui antes que desatine.

O Manolo deu uma gargalhada e escapuliu para a loja.

À noite, a Otília não foi capaz de controlar a exasperação que a facécia da casa lhe provocara. Suspicaz, anatematizou sucessivas vezes a casmurrice do Fernando.

Na padaria, o sobrinho desenfornava os primeiros cacetes e ainda ela e a mãe não tinham posto fim ao litígio. A conversa era cativante. Para o padeiro e o seu jovem ajudante, que as escutavam, foi um jocoso divertimento. De vez em quando, interceptavam umas palavras sem, todavia, apanharem o fio da discussão.

O Fernando não duvidava do teor nem da essência do que estava a ser debatido por cima deles. Não pôde disfarçar uma desbordante risada de real conivência ao lembrar-se do autor da  trapaça. «A possibilidade de uma irracionalidade ser aceitável e defrontada como uma contingência, é indiscutível, desde que a pessoa concernida presuma que lesa o seu bem-estar », pensou.

 

 

A estrada diante da Casa Manco estava saturada de automóveis aparcados desordenadamente nas valetas e, em alguns sítios, em campos e terrenos baldios.

A orquestra que animava o baile naquela noite não diferia em nada da maioria das que a tinham antecedido: desafinada, iterativa e barulhenta. Estava incluída no lote das que cobravam os cachês mais abordáveis. As mais notáveis deixaram de ali actuar desde que o Manco não honrara pecuniariamente o contrato com uma delas, argumentando que o número de entradas não fora satisfatório.

De todos modos, o mérito das orquestas não tinha a mais pequena influência para grande parte das parelhas, que apenas reclamavam uma exultação erótica leviana. Aos olhos da sociedade, a música era o meio que autorizava os jovens a apertar-se e a excitar-se abertamente nos braços uns dos outros. A falsa permissividade da sociedade favorizava paixões ardentes que incrementavam neles, e faziam com que a abrasão os consumisse profundamente; obrigava muitos a dissimularem-se em lugares recônditos para poderem asfixiar esse ardor, desafiando as contradições sociais e violando as suas proibições aberrantes.

Depois de duas ou mais horas em liminares lascivas, os casais mais exaltados, incontinentes desertavam o salão para se refrescarem com uma bebida ou para dar um passeiozinho. Passo a passo, caminhavam pela estrada semi caliginosa. Palravam, recreavam, caçoavam e riam com doçura. De repente, desapareciam, como ingurgitados pela escuridão que envolvia os campos ladeiros da Casa Manco.

Só não escapavam ao olhar perspicaz do Padre e do seu comparsa. Quando a onda gerada pela ganza os exortava, a partir de certa hora, arrastavam os pés à saída do salão de bailes; escrutavam cuidadosamente as parelhas que davam mostra de forte frenesim. Os moços deleitavam-se com estes casalinhos inflamados.

Com absoluta discrição, perseguiam imediatamente o casal mais passional. Além de o meio não ter segredos para eles, moviam-se como felinos. A sua presença foi descoberta escassas vezes. Silenciosos, contemplavam-nos. Quando consideravam que a coisa se acelerava e os gemidos anunciam um fim iminente, lançavam-lhes torrões e caroços de couves e, com un apito que traziam no bolso, improvisavam um charivari. Os amorosos, caóticos, aterrados e, em especial, inibidos, erguiam-se precipitadamente e evaporavam-se. Algumas meninas tinham abandonado as calcinhas no sítio, um trofeu que os rapazes coleccionavam. Os sacanas, ledos, curtiam uma de riso infindável.

Uma sublime latada bem verde, sob a qual faziam grelhados ao abrigo do sol, protegia a entrada da Casa Manco. No domingo à noite, como era usual, apareceu o Manel. O filho e o Chino, os miolos bem enfumados, estavam sentados num dos dois longos bancos de madeira ali colocados. O pai do rapaz ainda estava a meio pau, apesar de já ter mais vinho do que sangue nas veias. Como o Manco, por comer muito suportava bem o álcool. Qualquer prediria que estava sóbrio. Portanto, como todos os domingos, subira a S. Gregório e visitara as tascas das Pachecas, da Tia Antónia, do Camilo e os cafés Seixo e Coelho. O número de tigelas esvaziadas era incalculável.

O Padre não tinha qualquer dúvida quanto à sua comparência no Manco; era uma etapa do seu périplo dominical. Odiava-o tanto que só a sua vista indispunha-o. O Chino dera por ela e receava que, um dia, o colega fizesse uma asneira.

— Ó rapaz – apostrofou o Manel abruptamente–, a tua irmã anda no baile?

Ficou irritado. Hesitou uns segundos em desdenhá-lo ou replicar. Para quê saber dela se não se falavam?

— Se anda, não a vi; e se a tivesse visto também não to dizia – balbuciou secamente.

Curvou-se, apoiou os braços nas coxas e entrelaçou os dedos das mãos, como quem despede o abelhudo.

Continua.