Saltar para: Posts [1], Pesquisa [2]

MELGAÇO, DO MONTE À RIBEIRA

História e narrativas duma terra raiana

MELGAÇO, DO MONTE À RIBEIRA

História e narrativas duma terra raiana

O ÚLTIMO FRADE

melgaçodomonteàribeira, 16.10.21

183-Igreja de Roussas.JPG

 igreja de rouças

 

O ÚLTIMO FRADE EGRESSO DE MELGAÇO

(ÓBITO EM 9 DE JULHO DE 1898)

 

Depois de me ter jubilado, venho dedicando parte do tempo a ler jornais da minha região – o Alto Minho -, nomeadamente os que marcam a passagem do século XIX para o século XX, por serem aqueles onde chega a minha memória, poe força do convívio que fui tendo com familiares ao longo dos 66 anos que já levo de vida.

Foi nessas leituras que na edição nº 634, de 17 de Julho de 1898, do jornal de Monção O Independente, cujo director era o Padre Simão d’Abreu e Mello, descobri uma notícia relacionada com Melgaço, cujo conhecimento me parece interessante para os leitores deste jornal.

Vem noticiado o seguinte:

“Dizem de Melgaço

Depois de prolongado sofrimento, faleceu no dia 9 do corrente (leia-se: mês de Julho de 1898), pelas 7 horas da manhã, na sua casa de Crasto, freguesia de Rouças, deste concelho, o Reverendo António Joaquim de Neiva, último frade que existia por estes sítios.

Nasceu em 14 de Julho de 1813, contando por isso a bonita idade de oitenta e cinco anos.

Principiou os seus estudos no Convento de Santo António, desta vila, passando como noviço da Ordem para o Convento de Caminha, onde mais tarde professou.

Em 1834, sendo expulsos os frades, dirigiu-se este e outros a Lisboa, tomando, perante o Patriarca ordens de subdiácono e diácono com missa em 1838.

Pela vocação que tinha para o canto-chão e como pedinte, foi admitido na Ordem de Santo António e depois que regressou à casa paterna deu-se à execução de música de capela, instruindo com as suas lições muitos indivíduos do seu tempo.

Teve sempre exemplar comportamento, quer como padre quer como frade, sendo além disso protector exímio de seus irmãos, sobrinhos e demais parentes, a quem deu também conselhos paternais.

E há vinte e tantos anos que padecia, quase como mártir, duma chaga que se lhe abriu numa perna, a qual, fechando-se há meses, originou pouco depois um insulto qualquer que lhe pôs termo à vida no dia já indicado”. Em apenas sete parágrafos vêm relatados factos que marcaram uma época de contornos até então inimagináveis para a Igreja e para a cultura do nosso país.

Temos, pois, uma notícia do dealbar do século XIX, que recorda tempos difíceis, que foram os que se seguiram às Invasões Francesas e às ideias liberais que então proliferaram pela Europa, com muito de positivo e alguns resquícios negativos.

Deparámos, então, com os estudos dum noviço de Roussas no Convento de Santo António. O seu posterior professar numa ordem religiosa, que o levou ao concelho de Caminha, junto à foz do Rio Minho. A expulsão dos frades e o seu regresso como egresso à casa paterna. A sua readaptação ao quotidiano familiar e, no caso, a subsequente martirização até ao finar dos seus dias, numa vida que durou 85 anos.

Tenho dúvidas quanto à localização do referido Convento de Santo António. Será em Melgaço ou em Monção? A notícia, proveniente de Melgaço, mas publicada num jornal de Monção diz expressamente “Convento de Santo António, desta Vila”. Em Melgaço desconheço a existência de um Convento de Santo António. Em Monção o Convento dos Capuchos chama-se de S. Francisco, mas também é referido como de Santo António.

Nunca me tinha interessado particularmente pela vida dos egressos, até que, algum tempo atrás, fiquei a saber que dois meus antepassados – os franciscanos Frei Manuel e Frei José -, tinham sido acolhidos na Casa e Quinta do Mosteiro de S. João de Longos Vales, concelho de Monção, propriedade dos meus trisavôs maternos, advogado e juiz substituto Dr. José António Pereira d’Antas Guerreiro e sua mulher D. Maria Rita Monteiro, na sequência de uma convenção antenupcial por eles lavrada, no ano de 1852.

Procurei informação sobre o fim das ordens religiosas, da qual tinha vago conhecimento e pude apurar o que passo a cantar, com todas as insuficiências de que um leigo se pode fazer acompanhar.

A extinção das ordens religiosas em Portugal começou a ser praticada no reinado de José I de Portugal e governação do Marquês de Pombal.

Na sequência de um atentado de que foi alvo, o Rei, por Alvará de 3 de Setembro de 1759 decretou a expulsão dos Jesuítas do País e mandou confiscar os seus bens, que passaram a incorporar a Fazenda Nacional.

Decorridos alguns anos, essa decisão, de expulsão da Companhia de Jesus, foi confirmada pelo Príncipe-Regente D. João, por Alvará de 1 de Abril de 1815.

No contexto da Guerra Civil Portuguesa – 1828-1834 - , liberais e absolutistas assumiram atitudes diferentes quanto a essa questão religiosa, em função da instabilidade reinante e do permanente conflito de forças.

Em Portugal Continental, D. Miguel I autorizou no ano de 1829 o retorno dos religiosos da Companhia de Jesus, que foram instalar-se no Colégio das Artes, em Coimbra em 1832.

Nos Açores, D. Pedro, 16º duque de Bragança, aboliu as ordens religiosas no arquipélago por Decreto de 17 de Maio de 1832.

Com o fim do conflito e a vitória dos Liberais, a partir de 1834, foi confirmada a expulsão dos Jesuítas e das demais ordens religiosas.

No contexto que se seguiu à assinatura da Convenção de Évora Monte, o então Ministro da Justiça, Joaquim António de Aguiar, redigiu o texto do Decreto de extinção das ordens religiosas que, assinado por Pedro IV de Portugal, embora apresente a data de 28 de Maio, só veio a ser publicado em 30 de Maio de 1834.

Por esse diploma, foram declarados extintos todos os conventos, mosteiros, colégios, hospícios, e quaisquer outras casas das ordens religiosas regulares (artº 1º), sendo os seus bens secularizados e incorporados na Fazenda Nacional (artº 2º), à excepção dos vasos sagrados e paramentos que seriam entregues aos ordinários das dioceses (artº 3º). O diploma afirma ainda que seria concedida uma pensão anual aos religiosos que não obtivessem benefício ou emprego público (artº 3º), o que entretanto permaneceu letra morta. Esta lei valeu a Joaquim António de Aguiar a alcunha de “Mata Frades”.

Porém, este processo levou apenas à extinção imediata das ordens religiosas masculinas. As ordens religiosas femininas mantiveram-se, não podendo contudo admitir noviças.

A extinção final das ordens religiosas femininas só foi regulada em 1862, ficando então assente que o convento ou mosteiro seria extinto por óbito da última religiosa, sendo os bens da instituição incorporados na Fazenda Nacional.

Foi assim que a maior parte dos frades e freiras das ordens extintas regressaram às suas terras e casas de família, ficando conhecidos por egressos.

A título de exemplo e a propósito da extinção das ordens religiosas femininas, junto a capa da revista bracarense Ilustração Catholica, nº 194, de 17 de Março de 1917, que nos mostra “D. Roza de Jesus, última noviça das religiosas carmelitas do extincto convento das Therezinhas, em cujo edifício ainda vive, o qual hoje é propriedade do Azylo de S. José”.

Portanto, esta freira, que já devia ter uma avançada idade em 1917, foi a última noviça que viveu no extincto Convento das Teresinhas de Braga, que ainda hoje continua a existir com o nome de Asilo de S. José, funcionando como lar de terceira idade.

 

José António Barreto Nunes

Braga, 13 de Abril de 2015

 

Publicado em A Voz de Melgaço

Maio de 2015

 

LENDAS DO VALE DO MINHO - MELGAÇO

melgaçodomonteàribeira, 09.10.21

92 - croça.jpg

 

CAMINHANDO PELO MUNDO DO FANTÁSTICO

NO VALE DO MINHO

 

OS SETE FILHOS PÁSSAROS

 

‘’Uma mãe tinha sete filhos que tinham uma «fada»: transformavam-se em pássaros. Dizem que é de serem sete rapazes que leva a ter essa fada; outros transformam-se em lobisomem.

A mãe queria tirar a fada a esses filhos, mas não sabia como. Ela passava dias, semanas e até meses sem ver os pobres dos filhos, pois eles andavam pelos ares, astros, como os pássaros! A mãe sabia que eles se transformavam em pássaros, que tinham aquela fada, pois… sei lá, talvez viessem bater com o bico nos vidros das janelas…

Um dia foi a uma senhora entendida, contou-lhe, e perguntou-lhe como é que podia tirar essa fada aos filhos. E dizia: Eu queria quebrar esta fada aos meus filhos... Eles sofrem tanto e estão desgraçados! Ela disse-lhe: Olha! Para quebrares a fada aos teus filhos tens de fazer grandes sacrifícios. Tu cortas junco (vais aos regatos, aos rios), muito junco, e trazes para casa. Depois secas esse junco e fazes sete croças (…). A mãe tinha que fazer sete croças para os sete filhos que tinha. Mas tens que fazer essas sete croças sem falar, comer ou dormir! Agulha sobre agulha, trabalho sobre trabalho, tu não podes fazer mais nada até acabares as sete croças.

E ela pôs-se a fazer as sete croças, a tricotá-las. E não falava… só tricotava… só tricotava… As pessoas passavam e perguntavam sobre o que ela estava a fazer. Mas ela não podia responder, para não falar e assim respeitar o mando da bruxa. Até que, depois de muito tricotar, quando tinha a última croça quase pronta, as pessoas continuavam a falar para ela… (sabe que na aldeia é assim!). E já suspeitosas de tanto silêncio queriam condená-la à morte, que era o que faziam naquele tempo às bruxas. Foram contar ao rei: Assim... Assim…, há aqui na aldeia uma mulher que tricota, tricota, mas não fala… Pois não podia ser coisa deste mundo todo aquele trabalhar, trabalhar, sem falar e sem comer… O rei queria mandar matar a mulher!

Estava a pobre da mãe a acabar de tricotar as croças quando chegou o rei, com as suas autoridades, para a mandar matar. Só lhe faltavam sete malhas para acabar a última croça. Mas os filhos viram o que se estava a passar, e começaram a vir ter com a mãe. Ela viu os filhos a começar a vir; apanhou as croças e começou a metê-las naqueles pássaros. E assim que metia as croças eles ficavam homens! Quando chegou à última, à que faltavam sete malhas, meteu-a no filho, mas ele ficou com sete penas no ombro… que eram as sete malhas que faltavam.

O rei viu que era uma penitência e desistiu da sentença, pois a mãe ia dizendo, no fim: Eu não podia falar porque queria salvar os meus filhos com esta penitência!”.

 

Informante: Melgaço, Conceição 62 anos.

 

Álvaro Campelo

Revista Antropológicas nº 6, 2002

Projectos do Centro de Estudos de Antropologia Aplicada – CEAA

 

Encontrei o mesmo tema da lenda na Trilogia de Sevenwaters de Juliet Marillier, romance que recorda o passado Celta da Irlanda, publicada em Portugal pela Livraria Bertrand em Fevereiro de 2004.

Como não acredito em coincidências, a recolha efectuada pelo professor Álvaro Campelo vem confirmar a nossa ascendência: somos Celtas.

Ilídio Sousa

CAPELA DE NOSSA SENHORA DE MONSERRATE II

melgaçodomonteàribeira, 02.10.21

233 - Coriscadas.JPG

 coriscadas  castro laboreiro

(continuação)

 

Esta seria a versão que associa esta família à origem do culto da Senhora de Monserrate neste recanto serrano. A outra refere-se a uma mãe que foi confrontada com a infelicidade de dar vida a dois filhos surdos de nascença. Primeiro um, depois outro, os meninos iam-se desenvolvendo com toda a normalidade, fortes, bonitos como estrelas, sem o menor sinal que apontasse para um qualquer problema ou defeito. Quando o segundo nasceu, já o mais velho corria pela casa e pelo pátio ou a eira onde a avó tomava dele enquanto a mãe tratava dos seus muitos afazeres. Começaram a estranhar o facto de o menino não falar, já a voz do povo se ouvia para lamentar a sorte do rapazinho. A dúvida e o temor de terem um mudinho em casa tomaram a mãe e a avó mas nem uma nem outra ousavam dizer em voz alta o que lhes entristecia a alma. Continuaram a esperar, de um dia para o outro a criança ia desatar a língua e começava a falar, garantia a tia Lomba, entendida em casos de beta, espinhela caída e outras maleitas daqueles tempos. Só quando o segundo menino reproduziu o padrão do mais velho é que a evidência se impos à mãe pela voz do doutor: eram surdos e porque eram surdos eram mudos e a ciência ao seu alcance não podia nada por eles, tinha de ter paciência, pior seria se nascessem sem um braço ou uma perna.

A mãe não se rendeu à impotência do médico: a ciência não a podia ajudar, Nossa Senhora, que também era mãe, intercederia por ela junto de Deus. Era tão grande a sua fé que começou logo a diligenciar para arranjar trabalho na ramboia para juntar o dinheiro necessário para pagar a promessa: se os seus filhinhos ouvissem e fossem capazes de falar, mandaria levantar uma capela em honra de Nossa Senhora. Não chega até hoje eco de que houvesse dois mudos por aquelas bandas, por isso é de crer que as crianças se aventuraram na comunicação verbal fora de tempo. Também não se sabe se essa capacidade tardia se deveu à interferência da Mãe de Deus para adoçar a vida da mãe dos meninos ou se estes eram dotados simplesmente de um ritmo próprio fora do comum.

Foi esta mãe ou pai que mandaram edificar a capela? Escolhido o local, seguiu-se o apelo ao pároco da terra para diligenciar no sentido da aquisição da imagem de culto. Porque os contactos com a Galiza eram mais fáceis e habituais, parece que a busca da imagem se terá realizado no país vizinho, em Ourense ou Santiago ou lá para Madrid ou mais longe até. Porque foi adquirida a efígie da Senhora de Monserrate e não qualquer outra ultrapassa o entendimento do narrador e dos interlocutores que levantaram este véu. É claro, isso sim, que enquanto a obra da capelinha decorria, ficou a santa ao cuidado do pároco, em sua casa, aguardando a cerimónia pública da sua bênção e a entrega à que ficaria a ser a sua casa. Também se conta que a santinha esteve escondida, pois chegou a Portugal clandestinamente e temia-se que fosse feita prisioneira como se de um refugiado se tratasse. A capela foi construída em terreno baldio, perto da aldeia, e a sua diminuta dimensão tem a ver com a singularidade da sua origem: obra de uma família de fracos recursos. De fracos recursos e de muita fé e, em guisa de conclusão vem-nos à memória um provérbio muitas vezes ouvido: o pouco com Deus é muito, o muito sem Deus é nada.

 

                                                                        Olinda Carvalho

 

Publicado em A Voz de Melgaço

Junho de 2015

CAPELA DE NOSSA SENHORA DE MONSERRATE I

melgaçodomonteàribeira, 25.09.21

231 -capela srª monserrate foto de pt wikiloc com

 

QUANDO DEUS QUER

 

Quando Deus quer e o homem tem fé e sentido de gratidão, podem nascer as obras mais surpreendentes. É o caso da capelinha da Senhora de Monserrate, assim mesmo capelinha, porque surgiu muito pequena, talvez em consonância com a carteira de quem a encomendou. Chegaram-me duas versões, ambas belas e ambas como tributo ao amor, a Deus e sua Mãe, que fizeram o milagre, à família do homem ou da mulher de fé que confiaram nos desígnios do Criador. As duas versões da origem da capelinha são verosímeis, outras poderá haver, o povo é profícuo em acrescentar pontos ao que se conta, e como os que poderiam dar testemunho estão em vias de desaparecer, ficamo-nos por aqui.

Eis a história de um pai que muito sofreu para criar os sete filhos com que a Natureza o presenteou e à sua mulher. Foi há muito tempo, a data poderá precisar-se mas não faz falta para apreender o que importa. Um após outro, com alguns que não vingaram pelo meio, foram nascendo os sete filhos de um casal que vivia num lugarejo no planalto dos montes do Laboreiro, nos contrafortes da serra da Peneda. Todos homens. Ao fim do terceiro ou quarto, começou a instalar-se o desejo de que uma menina aparecesse para trazer o seu encanto à fratria que os pais não viam parar de crescer. A mãe deixava-se aconselhar por mulheres mais entendidas, que sabiam como fazer para conceber uma menina, atentando às luas, aos meses, à própria maneira de se entregar ao homem. Os conselhos de nada resultaram, até porque as crianças se instalavam no ninho materno sem que a vontade dos progenitores tivesse algum papel, a natureza e só a natureza é que mandava.

À medida que cresciam e ganhavam autonomia, os rapazes começaram a largar as saias da mãe, a asa protetora do pai. A terra era muito pobre, as courelas escassas para garantir os meios para uma subsistência digna a tanta boca. A pouco e pouco partiam, voltavam, tornavam a partir, como todos os homens empreendedores da terra. Alguns casaram e constituíram a sua família, alargando de modo significativo o núcleo da família de origem. Quando se juntavam na casa dos pais, apesar do número sempre a crescer, a mãe não se cansava de lembrar os tempos idos em que os sete filhos se sentavam à mesa e todos partilhavam o muito ou o pouco que havia para comer. Os tempos mudavam, noras e netos e netas contribuíam em número, descontração e alegria para transformar cada encontro numa festa, mas à medida que os anos passavam aumentava a nostalgia do casal em relação à ausência de um ou outro filho. Era bem receber notícias e saber que pelo Natal ou pela festa da Senhora dos Milagres os ausentes se fariam presentes, mas havia um vazio que permanecia.

A mulher viu-se tomada por uma febres que não lhe deram tréguas durante dias, caiu na cama e todos julgaram que era chegada a sua hora. O homem, seu confidente privilegiado, sentiu como sua a saudade da sua companheira, fez apelo à sua fé mais profunda, rogou pela recuperação da enferma e fez a promessa da sua vida: mandaria construir uma capela em honra de Nossa Senhora se juntasse os sete filhos na sua casa. Não se atrevia a juntar à promessa o voto de a mãe poder abraçá-los a todos em simultâneo antes de se entregar ao Criador, mas era esse o seu propósito mais firme, que guardava só para si, receoso que a partilha do mesmo desse azar ou que mostrassem pena dele.

Deus ou Nossa Senhora, ou os dois em conluio, atenderam as preces deste pai e marido extremoso, sem igual, e a sua cara-metade afugentou as sezões que a deixaram muito debilitada mas de pé. O susto de quase a terem perdido chegou aos filhos ausentes quando da doença que a acometeu e a vontade de responderem com a sua presença aos desejos dos pais fez caminho. Por ocasião da festa da Senhora dos Milagres, os sete irmãos marcaram presença na casa onde tinham nascido. Um deles só chegou ao pôr do sol, mesmo a tempo de ocupar o seu lugar à mesa do jantar. Coube-lhe a ele, por delegação do pai, a oração que antecedia a refeição. A que se seguiu foi o pai que a disse e logo de seguida anunciou que o seu maior desejo estava cumprido, as suas preces tinham chegado ao céu, só lhe restava pagar a promessa: construir a capelinha em honra de Nossa Senhora.

 

(continua)

GUERRA DA RESTAURAÇÃO EM MELGAÇO

melgaçodomonteàribeira, 18.09.21

675 - 2 -  moinho lamas.jpg

 moinho em lamas de mouro 

PORTUGAL RESTAURADO

 

ANNO 1641. SUCESSOS DE ENTRE DOURO & MINHO DE Q HE GOVERNADOR DAS ARMAS D. GASTÃO COUTINHO.

… passaremos a referir os sucessos da Provincia de Entre Douro & Minho. Logo que El Rei se acclamou, elegeu por Governador das Armas desta Provincia a D. Gastão Coutinho, nomeando-o do seu Conselho de Guerra. Na de Africa se havia exercitado os primeyros annos; depoys, vindo para Lisboa, se embarcou em alguas Armadas, & tinha conseguido, em todas as occasiões q se offerecéram, opinião de muyto valeroso. Nos primeyros dias de Janeyro partiu de Lisboa, chegou ao Porto, passou logo a Braga, onde se deteve alguns dias, & desta Cidade partiu para Viana, Villa a mays occidental da fronteyra de Galiza, & hu dos mays deleytosos lugares de todo o Reyno, banhando-a o Mar Oceano & o Rio Minho. Os seus moradores já não ignoravam os exercicios militares, nem os assombrava o estrondo da artilharia, ganhando valerosamente aquella fortaleza a os Castelhanos, como fica referido. Logo q D. Gastão chegou à fronteyra, a correu toda de Viana atè Melgaço: hua das attenções mays precisas q deve observar hu Governador das Armas, porque sem grande conhecimento da Provincia q governa, he quasi impossivel acertar as disposições necessarias nas occasiões que se lhe offerecem. Nesta jornada fez Dom Gastão alistar toda a gente de Entre Douro & Minho: achou muyta & valerosa com poucas armas & menos disciplina. Elegeu os officiaes mays praticos q pode descobrir, levantou trincheyras a Caminha, Villa Nova de Cerveyra, & Valença. Assistindo à fortificação da ultima, o rodeáram alguas balas de artilharia de Tuy, Praça de Armas dos Galegos, q divide de Valença o Rio Minho com pouca distancia de hua a outra parte. Os moradores de Salvaterra deram principio a o rompimento: quizeram impedir huns barcos, q hiam para Monção; os moradores desta Villa os defendéram, conduzindo-os a ella, & estimulados deste excesso levantáram hua plataforma junto ao Rio, & pondo nella tres peças de artilharia, as disparáram com prejuizo das casas de Salvaterra, situação da outra parte do Rio, como em seu lugar diremos. Nestes dias andando em Melgaço rondando as sintinelas junto do Rio o Capitão de Infantaria Francisco de Gouvea Ferraz, estimulado de ouvir da outra parte do Rio a hu soldado Galego alguas palavras contra o decoro del Rei, se lançou impetuosamente a o Rio, & passando-o a nado, se achou da outra parte sem opposição porq o Galego medroso do seu valor se retirou, antes q elle chegasse, podendo facilmente tomar vingança da sua ousadia: tornou da mesma sorte a voltar para Melgaço, & logrou o merecido aplauso da sua resolução. De Janeyro até Julho se passou de hua & outra parte sem mays empresa, que estes primeyros ameaços de guerra. Em Julho quando se rompeu a guerra em Alentejo, conhecendo El Rey q menear as armas só para a defensa era multiplicar o perigo, & que a paz q desejava, se havia de conseguir fazendo guerra, ordenou aos Governadores das Armas de todas as Provincias, q entrassem em Castella. Não dilatou D. Gastão a obediencia, deu logo ordem a frey Luis Coelho da Silva Cavalleyro da Ordem de S. João, q com a gente de Viana, embarcada em hua galeota, duas lanchas, & alguns barcos, passasse a queymar a Villa da Guarda, situada junto do Mar defronte de Caminha. Mandou a D. João de Sousa Capitão Mór de Melgaço, q entrasse no mesmo tempo pela ponte das Varzeas, Antonio Gonçalves de Olivença pelo Porto dos Cavalleiros, por Lindolfo Manoel de Sousa de Abreu, & pela Portella de Homem Vasco de Azevedo Coutinho. Todas estas entradas se executáram em lugares muyto distantes huns dos outros, & toda esta gente não levava mays disposição q a do seu valor: porèm ignorar os perigos q buscava, a fazia mays resoluta, achando fortuna favoravel, que costuma porse da parte dos temerarios.

 

HISTORIA DE PORTUGAL RESTAURADO

D, Luis de Menezes, Conde da Ericeyra

Anno de M. DC. LXXIX

 

https://books.google.pt

INVESTIGAÇÕES ARQUEOLÓGICAS DO PALEOLÍTICO EM MELGAÇO

melgaçodomonteàribeira, 11.09.21

888 b Reditus_Noticia.jpg

OCUPAÇÕES PLEISTOCÉNICAS DA MARGEM ESQUERDA DO BAIXO MONHO (MIÑO/MINHO 2)

OBJETIVOS E PRIMEIROS RESULTADOS DE UM PROJETO TRANSFRONTEIRIÇO

 

No concelho de Melgaço, os trabalhos até agora realizados no âmbito do projeto Miño/Minho 2, concentraram-se essencialmente na chamada Veiga de Remoães. Para a sua concretização contámos também com o inexcedível apoio do respetivo Município e da União de Freguesias de Prado e Remoães.

As sondagens efetuadas em 2016 na jazida das Carvalhas, parcialmente alargadas em 2017, permitiram detetar numa área relativamente pequena diferentes indústrias líticas de cronologia paleolítica integradas em distintos contextos sedimentares. Basicamente foi possível identificar a presença de uma indústria acheulense num depósito fluvial associado à colmatação de um antigo caudal do rio Minho, que suporta a hipótese da existência de um paleomeandro no local. Lateralmente, este terraço fluvial, que se eleva entre os 10 m e 15 m sobre o leito adjacente do rio, surge interestratificado com depósitos de vertente que integram vestígios arqueológicos similares e que se desenvolvem na encosta que delimita a poente a plataforma que prolonga o Monte de Prado. Na margem oposta, o canal é delimitado por uma plataforma granítica em cuja superfície se identificaram depósitos residuais de inundação que se associa uma indústria lítica em que se destaca a presença mais significativa de produtos de debitagem. Um pouco mais para sul, numa sondagem aberta nas imediações da Quinta da Veiga foi ainda possível recolher vestígios de uma indústria acheulense com peças talhadas ligeiramente eolizadas, cujo real contexto sedimentar ainda se encontra por estabelecer.

No concelho de Melgaço assinala-se ainda a existência de uma outra jazida acheulense, localizada na vertente meridional do Monte Crasto, na freguesia de Penso, a uma altitude próxima dos 230 m. Os materiais foram aí recolhidos pelo Sr. José Cardoso, morador na freguesia, quando se procedeu no local a trabalhos de revolvimento do subsolo saibroso para a criação de uma pequena área de lazer. As peças, com as arestas de talhe muito boleadas, foram-nos cedidas para estudo pelo seu descobridor, estando também prevista a realização no local de sondagens que permitam definir melhor as condições de jazida em que se encontravam integradas.

Assinale-se ainda que no decurso da campanha de trabalhos de 2016 se recolheram amostras de sedimentos na jazida de Pedreira 2, em Monção, e na jazida das Carvalhas, em Melgaço, para a obtenção de datações por OSL, cujos resultados se aguardam. As amostras foram recolhidas por Lee Arnold e Martina Demuro, da Universidade de Adelaide, na Austrália, que irão proceder ao seu processamento laboratorial no âmbito de um projeto de datações em jazidas pleistocénicas ibéricas.

Num primeiro e preliminar balanço dos trabalhos realizados ao longo dos dois primeiros anos de desenvolvimento do projeto Miño/Minho 2, pode afirmar-se que os dados coligidos testemunham claramente a importância arqueológica da margem esquerda para o estudo do Paleolítico do Baixo Minho, justificando plenamente o objetivo originalmente delineado de se vir a desenvolver tal estudo associando de forma integrada ambas as margens.

Mesmo se os resultados obtidos têm levado a uma reprogramação dos trabalhos, concentrando-se esforços nas intervenções desenvolvidas em algumas jazidas localizadas numa pequena área repartida entre os concelhos de Melgaço e Monção, o número de jazidas já identificadas e as problemáticas a elas associadas permitem reformular de forma inovadora o nosso conhecimento sobre o Paleolítico da região, sendo também certo que o estudo das coleções de materiais líticos talhados entretanto recolhidos e que se encontra já a ser desenvolvido não deixará de reforçar tal situação.

 

João Pedro Cunha-Ribeiro, Sérgio Monteiro-Rodrigues, Alberto Gomes, Eduardo Méndez-Quintas, José Meireles, Alfredo Pérez-González, Manuel Santoja

 

Eduardo Méndez-Quintas

Universidade de Vigo

2017

888 c paleolítico.jpg

 

INFLUÊNCIA GALEGA NO ROMÂNICO EM MELGAÇO

melgaçodomonteàribeira, 04.09.21

884 b s salv paderne.jpgpaderne

884 c s mar fiaes.jpg

fiães

EL CAMINO DE SANTIAGO Y SU INFLUENCIA EN EL

ALTO MINHO

La asistencia a peregrinos sempre ha estado muy presente en el Alto Minho como se demuestra en la donación de Ordoño II a la iglesia de Correlhã (Ponte de Lima) en la que se manifiesta sobre la conveniência de alienar ciertos bienes para atender a las necesidades de pobres y peregrinos “pro subsídio pauperum et peregrinorum”. Las cartas de couto de Afonso Henriques al monasterio de Paderne (Melgaço) (1140) y Vila Nova de Muía (Ponte da Barca) (1140) recogen también esta vacación asistencial.

Sin embargo, pese a la estrecha relación con Santiago de Compostela a través del Camino, desde el punto de vista artístico, podemos decir que es más importante la influencia tudense que la compostelana, ya que no podemos considerar la existencia de una influencia directa, sino a través de Tui, cuya catedral presenta influencias de la parte más antigua de la obra compostelana y sus capiteles se relacionarían com el taller compostelano de Platerías y la girola santiaguesa, en este sentido, cabe mencionar un capitel que ya comentamos con anterioridade el de las aves apicadas bebendo de una copa cuyo origen es claramente compostelano.

Por otra parte, en la antigua iglesia monástica de São Salvador de Paderne (Melgaço) encontramos una portada que Ferreira de Almeida considerada vinculada al estilo mateano, hecho que se hace muy patente por la decoración floral y geométrica pero que tanbién la pondría en relación con fachadas cistercienses galegas como por ejemplo la de Santa María de Armenteira (Meis, Pontevedra) en el âmbito diocesano compostelano.

 

ECOS ORENSANOS EN EL ALTO MINHO

 

En la parte de la margen izquierda del Minho, en su zona más oriental, cuya escultura fue ampliamente estudiada por Lúcia Rosas encontramos iglesias cuya influencia gallega proviene de Ourense.

Destacan los motivos cruciformes en los tímpanos de las portadas que presentan relación en sus características y en su labra con las iglesias de la terra da Limia, território fronterizo entre Ourense e Portugal que también fue objeto del conflicto fronterizo medieval con las ocupaciones del território por parte de Teresa de Portugal y de su hijo Afonso Henriques.

Dos iglesias monásticas del municipio de Melgaço, la ya citada São Salvador de Paderne y la cisterciense de Santa María de Fiães, presentan una decoración de tipo ourensano. En el primer caso esta aparece en la portada occidental del brazo lateral norte del transepto, solución coincidente con la del monásterio ourensano de Santa Cristina de Ribas de Sil (Parada de Sil, Ourense). Esta decoración consiste en una cornisacon decoración de bolas sustentada por arquillos ciegos y que aparece también en las cornisas del triple abside de Santa María de Fiães y que tendria su origen en la Ribeira Sacra ourensana donde apareceria a finales del siglo XII mientras que en Portugal apareceria en el signo XIII.

Por lo tanto, cabe concluir que en el caso de la influencia ourensana esta tiene una doble vertiente: por un lado la influencia limiana que proviene de la orilla derecha del Lima y por otro la influencia de la arquitectura monástica ourensana de la región de los ríos Miño y Sil, conocida como Ribeira Sacra, no olvidemos que el Miño es un punto de unión entre Galicia y Portugal, y la relación de Teresa de Portugal con esa zona ourensana para lo que cabe mencionar el controvertido diploma fundacional del Monásterio de Montederramo de 1124.

 

Margarita VÁZQUEZ CORBAL

Doctora en Historia del Arte de la Universidade de Santiago de Compostela

TOMÁS JOAQUIM, UM BANDIDO SOCIAL

melgaçodomonteàribeira, 28.08.21

785 - 2 s paio.jpg

 s.paio

MOVIMENTAÇÕES ABSOLUTISTAS NO PERÍODO DE IMPLANTAÇÃO DO LIBERALISMO

 

Célia Maria Taborda da Silva

 

No Alto Minho era o bando de Tomás Joaquim Codeço, mais conhecido por “Quingostas”, que desestabilizava a tranquilidade liberal. Natural de uma aldeia do concelho de Melgaço, actuava em toda a região minhota, assaltando a casa de constitucionais e libertando presos políticos ao mesmo tempo que aclamava o usurpador. Tinha ligações com alguns dos oficiais miguelistas de Braga e contactos com os carlistas da Galiza. Os militares liberais fizeram inúmeros esforços para o capturar, chegaram até a ter pessoas infiltradas no bando mas todas as tentativas para o apanhar redundaram em fracasso. Isto porque gozava de apoio popular como todos os “bandidos sociais”. Tal como o “bandido nobre”, de que Eric Hobsbawm fala na sua obra, Rebeldes primitivos, era considerado um herói pela comunidade, por isso, o protegiam. Contrariamente aos meros salteadores, os bandidos sociais permaneciam dentro da sociedade camponesa de onde saíram e eram considerados pela sua gente como heróis ou justiceiros, razão porque os ajudavam e apoiavam. As acções desse bandido eram aceitáveis dentro dos seus valores de comportamento, como quem rouba aos ricos para dar aos pobres ou mata para limpar a sua honra ou a de algum familiar. É esta relação entre o camponês e o rebelde que dá significado ao banditismo social e isso que o diferencia dos simples ladrões de estrada. O bandido social não roubava o camponês mas apenas os senhores ricos. Por esse motivo a sua popularidade só ocorria dentro do seu enquadramento regional, A este propósito, Hobsbawm adverte que um homem podia ser bandido social na sua terra e um simples ladrão fora dela. Este fenómeno, pré-político, foi desaparecendo com a modernização, por ter o seu suporte em sociedades baseadas na agricultura, lutando pela manutenção de valores tradicionais.

Tomás Codeço acabaria por ser preso em Janeiro de 1839 e assassinado em seguida pela escolta que o devia conduzir à prisão. Esta morte marcaria um ponto de viragem da luta absolutista na região pois não se voltaram a formar guerrilhas até 1846, altura em que renasceu a esperança miguelista.

Apesar dos movimentos de aclamação de D. Miguel e a formação de guerrilhas terem sido relevantes não lograram qualquer efeito prático, uma vez que os absolutistas não voltaram ao poder. No entanto, estes movimentos realistas contribuíram para aumentar a instabilidade de uma época conturbada e dificultar a tarefa dos governos liberais na implantação do liberalismo.

 

Retirado de: absolutistas.pdf

 

O CONTACTO COM A NATUREZA

melgaçodomonteàribeira, 21.08.21

714 - 2 -Anos 50-111.jpg

“O CONTACTO COM A NATUREZA…”

 

A FORJA

Era Domingo de Páscoa. O pároco percorria os caminhos e entrava nas casas dos paroquianos para dar a beijar a sagrada Cruz. O séquito era constituído pelo sacristão levando o crusifixo, e mais dois ou três elementos para transportar o caldeiro da água benta, tocar a campainha, assinalando a passagem do acompanhamento. E ainda para recolherem as dádivas dos paroquianos. À entrada do lugar juntavam-se-lhe as crianças integrando o séquito de casa em casa, para saborear as várias guloseimas. Dada a extensão e dispersão dos lugares, o pároco dividia as visitas. O Domingo era destinado aos 5 lugares fixos e às brandas até ao Rodeiro, passando em casa deles, nas Coriscadas, a meio da tarde, no regresso e por isso, ele e a mãe, iam a casa dos avós, da parte da manhã.

Pouco antes da chegada do acompanhamento apareceu um rapaz vizinho, com ar triste, a perguntar à avó se podia ficar ali para beijar a cruz.

- Claro rapaz! – disse a avó Isabel.

Passado algum tempo ouviu-se a campainha e a algazarra das crianças no terreiro de S. Bento. A avó chamou toda a gente para irem à missa a celebrar na capela de S. Bento. No final dirigiu-se rapidamente para casa, onde estava uma mesa posta, com a melhor toalha de linho e vários doces, incluindo o tradicional pan leve, e uma garrafa de vinho fino.

O Padre, vestido com uma opa branca e o barrete de quatro bicos, entrou aspergindo água benta para benzer a casa e o sacristão deu o crucifixo a beijar às pessoas, ajoelhadas ao redor da mesa, começando pelo chefe da casa. Terminada a ronda, o padre e a comitiva foram convidados a provar os doces, enquanto o avô entregava a um dos acompanhantes uma garrafa de Porto e alguns ovos para o senhor abade. Alegando ter de percorrer um longo caminho, o padre provou um bocado de pan leve, desejou uma Santa Páscoa e saiu, acompanhado dos seus acólitos, enquanto as crianças engoliam alguma coisa à pressa e corriam para a casa seguinte, exactamente a do rapaz. Como ele não se mexia o Manuel perguntou-lhe:

- Não vais a tua casa beijar a Cruz?

- O Padre não vai a minha casa! – respondeu o garoto com tristeza.

- Porquê? – perguntou, intrigado.

- Não sei! – respondeu, encolhendo os ombros.

Ele e a mãe almoçaram com os avós e os primos e depois foram para casa deles, onde a meio da tarde iria passar a Cruz. Durante o caminho perguntou à mãe:

- Ó mai o Padre não vai a casa do José, porquê?

- Porque o pai e a mai não são casados. São amigados.

- Mas o senhor abade, no catecismo, diz que todos somos irmãos e filhos de Deus!

- Pois é meu filho, mas depois somos tratados de maneira diferente. Isso tem a ver com o padre e não com Deus. Nem o filho deles queria baptizar!

Não disse mais nada mas ficou a cismar sobre a razão de Deus tratar os filhos de forma diferente.

Uma manhã, em casa da avó, dirigia-se para o terreiro de S. Bento, quando reparou num papel pendurado na porta da capela. Falava em eleições para Presidente da República e num General Norton de Matos. Não percebeu muito bem porque dizia mal de Salazar, cujo retrato estava pendurado na Escola, por trás da secretária da professora, e foi perguntar ao tio.

- Ó tio, já viu o papel na porta da capela?

- Já. Vai haver eleições para Presidente da República. Neste momento o Presidente é Carmona mas quem manda em Portugal é Salazar. Há muitos portugueses contra ele e querem mudar os do Governo. Por isso decidiram apresentar o general Norton de Matos, que é contra Salazar, para Presidente da República. Esse papel é para informar as pessoas.

- As pessoas estão contra Salazar porquê?

- Porque mantém Portugal na miséria e como um País atrasado. Não vês esses desgraçados a trabalharem na estrada? Mal ganham para comer uma posta de bacalhau salgado com pão e um copo de vinho. E a nossa vida é igual. Não temos médico e muitas pessoas morrem por não poderem ser tratadas a tempo. Para todos os lugares só existia a Escola da Vila. Por isso há muita gente a não saber ler nem escrever. O povo juntou-se e com muito sacrifício construiu a Escola onde tu andas e ofereceu-a ao Estado, mas só ao fim de alguns anos colocaram uma regente a ensinar. Não há electricidade nem estradas. Quando tentamos ir para outro país, onde se ganha mais, somos presos, como o teu pai e outros. Além disso as pessoas não podem falar. Se disserem mal do Governo podem ter problemas. Quem manda é o regedor, os guardas e o padre. Informam o governo de tudo.

A professora, na escola, dizia outra coisa e contou isso ao tio.

- Claro, os professores dependem do Estado e não podem contar a verdade, senão mudam-nos de local ou deixam de poder ensinar. Mas vai abrindo os olhos e aprende em não acreditar em todas as conversas deles!

Ficou intrigado mas o assunto foi esquecendo. O papel desapareceu no dia seguinte e alguns meses mais tarde a professora disse que Salazar continuava a mandar em Portugal.

O contacto com a natureza e o enfrentar dos desafios no seu dia a dia desenvolvia, no castrejo, um espírito de liberdade, avesso à imposição de qualquer norma exterior à comunidade.

Os de fora eram olhados com desconfiança e apelidados de pelicas ou peilans. A sociedade regia-se pelas suas próprias normas ancestrais. As ligações com os vizinhos galegos eram privilegiadas e consideradas naturais. Os esquemas arquitectados pelo poder para vincar a importância da fronteira separadora apenas obrigava a ter algumas cautelas, mas nunca conseguiram romper as ligações de solidariedade ou de interesses e cooperação entre os dois lados.

 

O Pegureiro e o Lobo

estórias de castro laboreiro

Manuel Domingues

NEPML

pp. 63 – 66

 

A IGREJA MATRIZ DE MELGAÇO

melgaçodomonteàribeira, 14.08.21

52 c2 - igreja santa maria da porta - colecção p

 igreja  de santa maria da porta

 

SANTA MARIA DA PORTA

Vamos apreciar algumas referências às diversas igrejas do velho termo de Melgaço.

Começamos pela igreja de Santa Maria da Porta, actual matriz.

Chama-se matriz à igreja principal de qualquer terra ou localidade quando havia mais igrejas aí.

Repare-se que são poucas as igrejas a que o povo se refere com o nome de matriz. Quando virmos igrejas com essa designação, procuremos investigar e verificaremos que elas tiveram outras igrejas anexas ou filiais.

Porque na vila de Melgaço havia três igrejas, a principal manteve-se com o nome de matriz ao passo que as outras perderam a sua posição.

Matriz se chamava e ficou a chamar-se a igreja de Santa Maria da Porta por ter sido a principal junta com as de Santa Maria do Campo e S. Fagundo.

A vila primitiva não era amuralhada, como teremos ocasião de ver no decurso deste estudo. Em volta da sua torre altaneira, havia o pequeno reduto amuralhado que se conserva ainda. Junto da fortaleza assentava a vila que não seria de muitas casas. Não era forçoso morar ali para fazer parte do concelho expresso no foral.

A curta distância da porta do castelo erguia-se uma igreja dedicada a Santa Maria que por isso se chamou da Porta com o fim de a distinguir de outra situada mais abaixo um pouco, no campo da feira, que por tal motivo se chamava Santa Maria do Campo a fim de a distinguir da primeira.

A igreja matriz existia nos fins do século XII, e já seria antiga. Foi então que se construiu outra, se não foi que se reconstruiu a que já havia, para comportar a população da nova vila. O estilo de construção, embora aleijado no decorrer dos tempos, mostra-nos bem a sua antiguidade. Melhor testemunho teme-lo na era inscrita junto da porta lateral a norte, embora já mutilada e ultimamente prejudicada pelo cimento aplicado.

A 30 de Junho de 1183 realizou-se um acordo entre o concelho de Melgaço e o Mosteiro de Fiães, sendo Abade D. Martinho. Desde já esclareço que o concelho corresponde ao que hoje dizemos câmara.

Deste acordo existem dois traslados no cartulário de Fiães, que, dizendo mais ou menos a mesma coisa, têm pequenas diferenças de texto mas rematam por iguais menções de assinaturas.

De redacção um tanto confusa, este documento, comparando as duas cópias, faz-nos perceber que o mosteiro tomava conta da igreja de Santa Maria de Melgaço durante 15 anos para a reparar e depois ficaria sendo metade do concelho e metade do mosteiro mas sempre indivisa e administrada pelo mosteiro.

Dois anos mais tarde, em 30 de Junho de 1185, teve lugar novo acordo, sendo abade do mosteiro de Fiães D. Pedro, de que há no cartulário também dois traslados. No essencial este acordo não difere do anterior e poderá ter sido motivado pela mudança do D. Abade de Fiães.

Passados mais dois anos, a 1 de Abril de 1187, novo acordo nos aparece no cartulário, mas desta vez com o arcediago de Valadares d. Garcia. O cargo de arcediago correspondia mais ou menos ao de arcipreste actual. Este arcediago D. Garcia, como se vê de outro documento do mesmo cartulário, era da quinta de S. Cipriano (hoje S. Cibrão) nos limites de Penso, e de apelido patronímico Nunes. É também a respeito da igreja de Santa Maria.

Por outro documento adiante citado, sabemos que este acordo de 1187 foi sobre a actual matriz. Quem interveio não foi o concelho mas sim «todos os moradores de Melgaço, tanto homens como mulheres», em concessão ao referido arcediago sobre a igreja de Santa Maria com a condição de a restaurar e edificar com a ajuda deles proporcionando-lhe materiais até que ficasse acabada e pronta. Depois ficaria o arcediago com uma terça parte para si e seus herdeiros, e eles com duas terças, continuando indivisa e em boa concórdia. Não se vê intervenção de qualquer autoridade, mas apenas de «todos os moradores de Melgaço, tanto homens como mulheres» e a confirmação do abade D. Martinho de Fiães.

Encontramos nova referência no ano de 1205. A 13 de Abril foi outorgado novo acordo relativo à Igreja de Melgaço, desta vez entre o arcediago de Valadares D. Garcia Nunes e seu protegido André Garcia com o mosteiro de Fiães de que era abade D. Domingos. O referido André Garcia devia ter em seu poder a «igreja de Melgaço que está edificada junto à porta da mesma vila» mas sob a tutela do dito arcediago em sua vida. Após a morte do arcediago conservá-la-ia em sua vida mas por alma dele daria todos os anos no dia da Ceia do Senhor (5ª feira santa) oito soldos para o refeitório do mosteiro. Este documento é assinado pelo beneficiado André Garcia juntamente com o concelho de Melgaço.

É esta a mais antiga referência que encontrei ao cognome «da Porta» designativo da igreja matriz de Melgaço, designativo que depois nos aparece muitas vezes.

Em 1246 realizou-se um acordo por arbitragem entre o mosteiro de Fiães e a igreja de Chaviães. Havia diferenças por causa de «terras, vinhas, dízimos e outras coisas» de que falarei ao escrever da igreja de Chaviães. Nesse acordo interveio «João Joanes pároco de S. Fagundo e procurador da igreja de Santa Maria da Porta.»

Fica, pois, comprovada a antiguidade da designação de «Santa Maria da Porta».

Nas inquirições de 1258 estiveram presentes na vila de Melgaço o abade e o celeireiro de Fiães, o prior de Paderne e o prior de Longos Vales e João Mónaco pároco de Santa Maria e muitos homens importantes do termo entre os quais 5 clérigos. A inquirição dá a informação de várias localidades do concelho de então.

Em todas as freguesias é mencionado o pároco, mas aqui apenas menciona «João Mónaco pároco de Santa Maria», que naturalmente é a da Porta, embora se arquive logo no início do depoimento que «Santa Maria da Porta e Santa Maria do Campo e São Fagundo» são reguengas, isto é, propriedade do Rei, o que hoje diríamos património do Estado.

Das inquirições de D. Dinis (1290, 1301 e 1307) nada se depreende a respeito das igrejas.

Em 1320 o Papa concedeu ao rei D. Dinis durante três anos a décima parte das rendas eclesiásticas para a guerra contra os mouros.

Fez-se uma estimativa geral dos rendimentos das igrejas de todo o reino. Nesse rol aparece-nos Santa Maria da Porta taxada em 110 libras, e Santa Maria do campo e São Fagundo em 30 cada uma, donde se vê que a primeira estava, em plano bastante superior quanto a rendimentos. Para comparação direi que Roucas foi taxada em 120, Penso em 62, Prado em 12, S. Paio em 30, Castro Laboreiro em 280, o mosteiro de Fiães (só pelo que tinha em Portugal e sem atender ao que tinha na Galiza) em 400 e o mosteiro de Paderne em 500.

No chamado Igregário de D. Diogo de Sousa, que foi arcebispo de Braga de 1505 a 1532, aparecem-nos ainda as 3 igrejas, sendo Santa Maria da Porta metade do mosteiro de Fiães e metade do concelho, Santa Maria do Campo de colação do Arcebispo, isto é, concedia-a livremente ao clérigo que entendesse e em igual categoria a de São Fagundo que já não tinha cura de almas, isto é, já não era paroquial.

A de Santa Maria da Porta era de Fiães e do concelho, isto é, o pároco era escolhido e apresentado ao Arcebispo alternadamente pela Câmara e pelo mosteiro de Fiães.

Em princípios do século XVIII a igreja de Santa Maria da Porta era abadia ainda com a apresentação do pároco alternadamente pela Casa de Bragança e pelo mosteiro de Fiães.

 

Obra Histórica

Padre Manuel António Bernardo Pintor

Edição do Rotary Club de Monção

2005

pp. 80-83