Sábado, 16 de Junho de 2018

QUANDO MELGAÇO TINHA GENTE

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UM LUGAR ONDE NADA ACONTECIA

 

Os moços da terra, rapazes e raparigas, viviam uma situação de expectativa. Consideravam monótona e sem graça a vida que lhes apresentavam. Bailes uma vez por outra, as festas em honra dos santos padroeiros, nas freguesias, e os desafios de futebol. Liam os jornais no café que lhes noticiavam as maravilhas do após guerra, o programa da ciência, e uma vez por semana absorviam avidamente o estilo de vida capitalista, regalada, que subjectivamente os musicais do cinema americano lhes enfiavam pelos olhos.

Os desafios de futebol durante certa época eram quem mais distraía a população e entretinha a juventude. Naqueles anos era acirrado o despique entre os três grupos que se haviam organizado, o Rápido, o Unido e o Comercial. Nunca houvera tanta rapaziada junta naquela localidade. A última geração fora obrigada a permanecer na terra. Desde sempre, naqueles lugares de natureza e paisagens luxuriantes mas paupérrimas em perspectivas de vida desafogada, a única alternativa para quem desejasse um futuro melhor era emigrar. Quem ficava, resignava-se u uma vida humilde, labutando na agricultura de subsistência ou no contrabando. Os ofícios tradicionais estavam super explorados não havendo clientes para tantos profissionais. A Espanha ali ao lado, antes da sua guerra civil e da guerra mundial, era país rico onde os portugueses da fronteira buscavam trabalho com a facilidade de estar em casa periodicamente. Outros países da Europa não ofereciam grandes condições naquele tempo; o sonho de quem desejava progredir era o Brasil. Ah! O Brasil, donde se voltava “brasileiro”, sinónimo de prosperidade, donde se voltava rico. Pouco acontecia, mesmo assim as fortunas que se conheciam e os palacetes que existiam foram ganhos no Brasil.

Nos anos quarenta ninguém saiu de Melgaço. A guerra provocara aquela situação: não deixou sair ninguém e não levou ninguém. Portugal não entrou naquela catástrofe e dela se beneficiou. Foi assim que aquela pequena terra ficou cheia de mocidade a ponto de organizar três clubes de futebol que disputavam e brigavam entre si. Montaram sedes com secção recreativa e onde se reuniam à noite. O campo do jogo é que era o mesmo inerente a todos, o Monte de Prado, distante da Vila e com difícil acesso, daí que durante a semana a rapaziada mais nova jogava bola na avenida ou na praça da República, para desespero do António Reis, zelador municipal, que tinha de correr atrás deles ou fazer vista grossa se algum parente seu ou filho de pessoa grada estava no meio.

O contrabando era a principal fonte de receita daquele pessoal. Região fronteiriça com a Galiza, separada pelo rio Minho desde que este entrava em Portugal na povoação de São Gregório, mais ao norte, pelo rio Trancoso e para oeste raia seca, era propícia ao comércio ilegal. A guarda-fiscal do lado português e a guarda civil do lado espanhol, eram as forças legais que deveriam zelar pelo cumprimento da lei, na prática mancomunavam-se com os contraventores auferindo sua parte nos lucros. Os governos dos dois países deviam tirar algum proveito desse estado de coisas. As potências beligerantes não aceitariam a exportação legal de determinados produtos que iriam beneficiar o inimigo. Pressupunha-se que tais mercadorias seriam encaminhadas para a Alemanha e tal desagradaria à Inglaterra e aos Estados Unidos da América.

Entre os anos de 1936 a 1939 a Espanha vivera o tormento da guerra civil. Carente de géneros alimentícios, recebia de Portugal, na forma de contrabando tudo que era possível receber. Melgaço, e outras zonas do Alto Minho, fronteiriças, eram paupérrimas. Não tinham produção que pudesse ser contrabandeada a não ser milho. Eram, entretanto, pontos de passagem e por ali, vindos de outros lugares, passavam camiões carregados de galinhas, ovos, chocolate, etc. Estourou a segunda guerra mundial em 1939, o governo nacionalista espanhol que vencera a sua guerra interna com o auxílio da Alemanha, viu-se obrigado a colaborar com aquela nação. Então o contrabando diversificou-se: o volfrâmio, mineral usado na manufactura de armamento era encontrado quase à flor do solo nas montanhas de Melgaço. Foi febril a extracção dessas pedras pretas. O sabão teve preponderância, tripa seca, pedras de isqueiro, café, cigarros e tudo o que servisse para material bélico, era repassado à Espanha. O pagamento era em prata, ouro ou pedras preciosas. O dinheiro em papel ou moedas nada valia. Vez por outra os guardas-fiscais não concordavam com as percentagens que lhes davam e apreendiam as mercadorias. Os pequenos contraventores eram os profissionais das várias profissões que, para engrossarem os seus proventos, de noite, levavam até à margem do rio uma caixa de barras de sabão ou outro elemento que pudesse ser transportado às costas. Eram estes os mais visados pelos agentes da lei que, por pouca mercadoria, nada recebiam.

A guerra no centro da Europa desenrolava-se feroz.

Os jornais noticiavam com destaque as batalhas navais onde o afundamento de navios ganhava as manchetes, quando a França se rendeu aos alemães e a sua marinha resolveu afundar toda a frota naval para não servir ao inimigo, repercutiu. No imaginário dos contrabandistas o termo “frota” passou a ser usado como sinónimo de contrabando. Quando os guardas-fiscais tomavam as mercadorias diziam que a frota afundara. Os contrabandistas passaram a ser conhecidos como “frotistas”.

 

(continua)

 


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Sábado, 9 de Junho de 2018

Fragmentos de vidas raianas, 1978 a 1981 - XII

 

 

Continuação do post do 26 de maio de 2018.

 

 

Já um pouco curvado para diante e arrastando os pés, o septuagenário desceu com cuidado o reduzido declive que havia entre a estrada e o prédio do Manolo.

Foi quando os dois agricultores, esgotados pela espera ilimitada, acharam que, no fim de contas, era melhor concluir a expectativa; impulsivamente, abandonaram o bar, perseverando, todavia, com o maior alarido, em rejeitar-se a culpa do absentismo do taxista.

Um deles entrechocou-se com o senhor Ângelo, indelicadeza a que foi insensível. Penetrou no café e cumprimentou os presentes com a cortesia costumeira. Abeirou-se do balcão, deu aos ombros, puxou pelas golas e deu dois saltinhos, obviamente.

O Manolo acolheu-o com o entusiasmo usual.

— Senhor Ângelo, então que tal o tempo pela estação?

Não replicou. Com a característica equanimidade que toda a gente lhe reconhecia, exigiu:

— Po... po... põe... mum...mum... mum branco!

— Que diz, senhor Ângelo?

— Po... po... põe... mum...mum... mum branco!

— Quem foi para o campo?

— Não... Na... bran... bran... branco! – repetiu, levemente incomodado.

— Que diz, senhor Ângelo? Não o ouço. Fale mais alto, carambas!

Impaciente, suspirou e sacudiu a cabeça com firmeza em sinal de agastamento e de lassidão. Arranjou o capote à pressa esticando as golas, deu os saltinhos e arremeteu de novo.

— Po... po... po... põe mum... mum... muuun bran... bran... branco! – empenhou-se, quezilado.

O gaguejo enfatizara-se com a aflição, e o seu rosto purpurara, tanta fora a instância.

Para reprimir o riso que estava prestes a deflagrar, o Fernando simulou contemplar o regato e o lugar de Cevide, do lado português, observáveis do janelo do fundo do salão do café. Era, também, para dar mais credibilidade à chocarrice.

— Ah! Um branco? – exclamou finalmente o Manolo – Já podia ter dito há mais tempo, senhor Ângelo! – e deu um dos seus singulares risos – Eu pensei que me dizia que andava manco, já viu? Ai meu Deus!

Agarrou na caneca e baixou-se diante do pipote de vinho branco que confinava com o de tinto.

Foi a altura apropriada para o padeiro delivrar a forte pressão que o sufocava e dar azo à pândega. Era a primeira vez que participava a uma brincadeira implicando o senhor Ângelo. Intrometeu-se amavelmente na conversa.

— Este, senhor Ângelo, já perdeu o juízo e agora está a ficar mouco. Mete pena! É tão novo!  Há quem diga que foi por isso que o correram da França. Não me estranharia nada.

O homem ignorou as suas palavras, como se fosse pusilânime. Nem um célere olhar de solicitude se dignou conceder ao panificador. Ergueu um braço e buliu duas vezes a mão entreaberta diante da testa, como quem quer dissuadir um insecto desenvolto e importuno. Era a sua modalidade. Desta forma, mostrava implicitamente – a quem tinha faculdade para tal – que interpretara o chiste, que este não o estimulava nada e, sobretudo, que não era nenhum títere. 

Para coroar o painel, e sem piar, acomodou o capote, desfraldou-lhe as lapelas e deu os saltinhos compatíveis.

No olhar irónico do dono do café reluzia um afecto real. Meneando a caneca como se fosse um ioiô, a fim de fazer espumar o líquido, encheu a tigela que pousara diante dele. Estava tão acostumado que, uma vez a tigela cheia, não ficava praticamente nada da quantidade de vinho retirada do pipote.

Deglutiu a primeira tigela de uma golada e a segunda de duas. Despejou o recheio do porta-moedas – que abria em forma de vulva – sobre o balcão, destacou umas quantas  moedas e saiu, silencioso, como se não tivesse estado no bar. Viria umas quatro vezes mais durante o dia.

O Fernado sentiu-se embasbacado. Intimamente, admitiu que o homem tinha a sua personalidade. Não era sem razão que todos o tratavam por senhor.

— Já viste, Fernando? Esta gente põe-me louco! – bradou o Manolo.

 

 

O Manco era seguramente a pessoa mais conhecida da Frieira, indubitavelmente a mais temida e, incontestavelmente, a mais amaldiçoada. Hercúleo e titânico – mais de um metro e oitenta e cinco e uns bons cento e dez quilos –, tinha uma força assombrosa e, ademais, um temperamento de suíno.

Ninguém sabia a razão por que tinha o cognome de manco pois, na realide, era maneta. Segundo rumores, o drama dera-se uma tarde, no centro da cidade de Orense, havia bastantes anos. O que ainda não era Manco estava na esquina de duas ruas à espera de uma oportunidade para atravessar com confiança. Subitamente, um velho camião atulhado de canos de cerâmica para o saneamento, vindo de uma transversal, largou parte da carga diante dele e doutros. Acordou no hospital. Os estragos foram plurais, mas o dano irreversível deu-se no braço esquerdo, triturado pelos tubos maciços. Do úmero, os médicos apenas foram susceptíveis de lhe preservar um toco com cerca de uma dezena de centímetros.

Desgraça que, pouco mais tarde, o não impossibilitava de manipular uma enxada ou uma pá e de trabalhar, ocasionalmente, como qualquer indivíduo consumado.

O traumatismo engendrado pela deficiência fora o inodoro fermento que fizera com que, passo a passo, medrasse nele um carácter irascível e provocador que, por vezes, alcançava proporções excessivas e preocupantes. A mínima adversidade era vista por ele como um opróbrio, uma vexação e mesmo como um insulto.

As pessoas, com os seus aforismos e as suas paródias ásperas, justificavam a sua força excepcional afirmando que a do braço perdido fora herdada pelo outro. O caso é que onde deitasse a mão nem Cristo lha abria, diziam.

Fumava como as primeiras locomotivas e bebia vinho branco como um tudesco. Quando estava de mala hóstia – mal disposto –, coisa mais amiudada do que o contrário, era mais idóneo evitá-lo ou abordá-lo apenas se o caso fosse francamente imperioso.

 

Continua.

 


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Sábado, 2 de Junho de 2018

O CHOCOLATE DA NOIVA

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igreja do facho  cristóval

 

O CARVALHO DA IGREJA

 

Não posso deixar de falar sobre o Carvalho da Igreja que se encontrava à margem de estrada naquele pequeno recinto onde hoje se encontra o fontanário.

Não me lembre de ter visto outro carvalho de porte igual ou semelhante. Devia ter mais de um metro de diâmetro.

Era neste secular carvalho, que se encontrava à margem da estrada, que se afixavam os avisos. Fazia de vitrina informativa local.

Tal como nós, as árvores também têm o seu ciclo de vida, também morrem. Apenas como ponto de referência para muitos encontros.

Há cerca de cinquenta anos, quando os namorados resolviam casar, iam ter com o padre para dar andamento aos papéis para o seu casamento.

O padre, cumprindo todas as formalidades, dava início ao processo do casamento. Na posse de todos os dados de identificação dos nubentes, durante duas ou três semanas, na missa dominical, tornava público o casamento dos nubentes. Simultaneamente, advertia os ouvintes que caso tivessem conhecimento de algum motivo fundamentado que levasse ao impedimento do casamento tinham o dever moral de o informar.

Além disso, era afixado aviso na porta da igreja ou no dito «Carvalho». Após tornado público, o casamento dos nubentes passava a ser notícia local. A partir daí, era costume as pessoas dizerem, fulano e fulana, é verdade que vão casar, já têm «os banhos a correr na igreja». Se, durante o período que decorriam os banhos, não surgisse nenhum impedimento fundamentado, o casamento realizava-se, caso contrário era impedido.

O motivo mais fundamentado eram as queixas de outra rapariga dizendo ter sido enganada pelo nubente. Ou então acusando a nubente de má conduta moral, não reunindo condições de dignidade para ser uma mulher casada.

Entre outros motivos, eram estes os mais fortes, aqueles que normalmente levavam a Santa Igreja ao impedimento de alguns casamentos.

Acerca dos casamentos que outrora se realizavam nas nossas aldeias não posso deixar de realçar uma tradição muito antiga que se perdeu no tempo.

Há cinquenta anos atrás, até meados do século XX, a boda do casamento era feita na casa dos pais da noiva para todos os convidados, hoje em dia os banquetes são feitos em restaurantes.

Quando corria a notícia que uma rapariga ia casar, as pessoas perguntavam-lhe:

- Então vais-nos dar o chocolate?

À qual a suposta noiva respondia afirmativamente ou não.

Assim para manter uma prática muito antiga, era costume na dia da boda de manhã, ao pequeno almoço, dar chocolate acompanhado com doces a todos os convivas. Para os não convidados do lugar e vizinhos mais próximos, as cozinheiras e suas ajudantes transportavam na mão cafeteiras com chocolate e doces numa cesta ou açafate, fazendo a distribuição porta a porta.

Assim se vão perdendo a pouco e pouco as tradições e costumes das nossas aldeias.

 

Melgaço, Minha Terra – Minha Gente

Histórias de um Marinheiro

José Joaquim da Ribeira

Edição: Câmara Municipal de Melgaço

              José Joaquim da Ribeira

2006

pp. 57, 58

 


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Sábado, 26 de Maio de 2018

Fragmentos de vidas raianas, 1978 a 1981 - XI

 

 

Continuação do post do 12 de maio de 2018.

 

 

Nessa manhã, exaustos, depois de mais uma madrugada uniforme em que tinham o sentimento de serem os raros sobreviventes do lugarejo, transpuseram a estrada e empurraram a porta do familiar café. Os rostos, assolados pelo trabalho ininterrupto e opressivo, denunciavam o cansaço compilado durante a noite. A roupa, vetusta, suja e enfarinhada, dava-lhes uma triste aparência de foragidos.

O panificador e o jovem ajudante fincaram-se no extenso balcão, estenderam os cacetes recém-cozidos à Rosa e pediram as habituais sandes: hoje seriam de presunto. Concertavam-se anteriormente e concordavam sempre em comer ambos o mesmo acompanhamento.

A uma das mesas do café, uma parelha de camponeses de certa idade querelava-se incompreensivelmente, increpando-se mutuamente. Segundo a Rosa, havia mais de uma hora que esperavam pelo improvável aparecimento de um taxista que se comprometera a conduzi-los a Padrenda; contavam regularizar um problema importante no ayuntamiento – junta de freguesia.

— Quantos cacetes quereis hoje, Rosa?

— Eu sei lá! Olha, traz oito, como ontem; depois, se precisarmos de mais, vê-se.

O padeiro fez um gesto da cabeça, o ajudante sumiu-se e regressou decorridos dois minutos com os oito cacetes.

Quando sobrava pão, depois de feita a repartição pela esposa do Fernando, confiavam a chave da padaria à Otília que, com todo gosto, se incumbia de corresponderer às eventuais demandas da clientela. Era o ensejo para uma hipotética conversa.

— Onde anda o sorna ? – o Manolo – Diz-lhe que a mulher despertou e quer o café.

A moça riu. Tinha uma repulsão ínsita pela patroa. Portanto, esta considerava-a mais como uma colaboradora do que como uma criada.

Quando o marido se deslocava a Ourense por exigências comerciais, a Maribel, uma vez por outra, acompanhava-o e, diligentemente, percorria uma ou duas galerias –centros comerciais. Nunca menosprezava a empregada. Carinhosamente, brindava-a com uma peça de roupa interior, uma camisa qualquer, um tecido para fazer uma saia ou um vestido, um perfume de qualidade...

— Estás doido! Ela não o quer. Quem ligaria a um homem como ele? – e deu uma risada – Anda no outro lado a pôr um pouco de ordem nas mercadorias – confessou por fim.

Naquele instante, saiu ele de trás da cortina da cozinha, excitado.

— Vai-te embora, Rosa! Vem aí o senhor Ângelo. Vamos gracejar um pouco. Vais ver como o enervo. – disse ao Fernando.

No país onde os desconhecidos se tuteavam, fosse qual fosse a idade duns e doutros, o Ângelo, ferroviário reformado, era a irregularidade notável. Fazia parte dos raros homens da Frieira a quem todos tratavam, invariavelmente, por senhor.

Tanto no verão como no inverno, exibia orgulhosamente pelas costas, quase como um troféu, um grosso capote castanho com o logótipo da companhia estampado no lado esquerdo. A cabeça, que abanava continuamente, trazia-a resguardada pela típica boina galega. Tartamudeava e articulava muito baixinho. Era, além disso, homem duns tiques pasmosos, excêntricos, mas cómicos: dava aos ombros repetidas vezes, tirava pela gola direita do capote com a sinistra, e vice-versa; depois, alçava o pé sestro ligeiramente, imitado imediatamente pelo direito. Era uma coreografia incontestável.

Segundo constava, estes gestos eram a sequela de um ritual que praticara sem restrição durante a vida que trabalhara nas linhas galegas da RENFE – caminhos de ferro espanhóis. Para não perturbar a trâfego, os trabalhos nas vias são efectuados de noite, maioritariamente; ora o senhor Ângelo fora capataz – chefiara uma equipa de dez trabalhadores – e, como é logico, não se movia muito. Durante as noitadas invernais, para que o frio não se assenhoreasse dele, supõe-se que operava estes meneios centenas de vezes, cadência que, com o tempo, acabara por se tornar mecânica e incontrolável.

Ademais destas digressões, soliloquiava imperceptivelmente de modo constante. Nunca falava com quem quer que fosse, nem nada o interessava ou comovia. Limitava-se a saudar as pessoas com um respeituoso aceno de cabeça sem nunca suspender a sua deambulação ramerraneira, como se fizesse tudo para se fundir no meio, dar a impressão de ser invisível.

Morava do outro lado da ponte, numa casinhola, a dois passos da estação dos caminhos de ferro, como não podia deixar de ser.

Matrimoniara-se com uma costureira, mulher muito interesseira, egoísta, cujo ódio que afeiçoava se lhe via na cara engelhada: a Henriqueta. Só se entendia  com as mais linguareiras da aldeia. Dizia-se que nada podia subtrair-se aos seus olhos de fuinha. Despudorada como poucas, tinha livretas em todos os comércios da zona, nomeadamente nos que vendiam tecidos. Os credores, apesar de a acossarem, viam-se na incapacidade de cobrar as dívidas que lhe foram consentindo acumular.

Tanto na Frieira da margem direita como na da esquerda, já ninguém se recordava de quando o senhor Ângel e a Henriqueta tinham sido vistos juntos ou a falar em público pela última vez. O domicílio era o único espaço que ainda os achegava corporalmente. Os ralhos, pontuais e ríspidos, eram a discussão exclusiva entre eles de que os vizinhos depositavam.

Ao senhor Ângel, nem todos os dias o blanco – vinho branco – lhe instilava a disposição satisfatória para digerir a maldade e as insinuações biliosas da mulher. Quando a discórdia rompia e percebia que a sua metade não tardaria em ultrapassar a linha exacerbante que ele lhe autorizava, ajeitava a boina na cabeça, deitava o capote pelas costas e, mais uma vez, fazia a mímica crónica; dava uma vista ao relógio de bolso e, se lhe desse tempo, encaminhava-se para o pequeno bar de As Neves, três casas acima da dele. Abancava ali e bebia umas chiquitas – tigelas – enquanto pacientava pelo comboio.

Podendo viajar gratuitamente, como todos os aposentados da RENFE, era o epílogo preferido para estas peripécias glaciais. Entrava no primeiro comboio que ali fizesse uma alta, sem se alarmar com o paradeiro, e só reintegrava o domicílio no outro dia, conforme a inclinação. Os diversos amigos, ex-ferroviários ainda vivos, tinham a porta sempre aberta para ele. Havia anos que trocara a companhia da mulher pela do vinho branco e dos camaradas, muito mais acomodatícios e sociáveis do que a ominosa mulher.

 

Continua.

 


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Sábado, 19 de Maio de 2018

DENÚNCIA CALUNIOSA

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PREFÁCIO

 

É lugar comum afirmar-se ter o homem dois patrimónios: moral e material.

Para quem seja, verdadeiramente, pessoa - e ser-se pessoa, no elevado e nobre sentido e significado do termo, é ter nítida consciência dos autenticos valores - ,a honra está infinitamente acima do património físico.

Eis uma verdade, infelizmente, que muita gente não compreende.

Quem mente para conseguir vantagens materiais de qualquer espécie: dinheiro ou libertar-se de concorrente, ou cevar ódio vesgo, a título de exemplo, não é, própriamente, pessoa.

Ao fazer isso aliena a qualidade mais nobre do ser humano para se identificar com o bruto.

Os burros batem-se para afastar concorrentes da cevada, servindo-se de dentes e patas.

Os cães, na disputa do osso, fazem-se luta de extermínio.

Pois bem:

Todo o homem que lança mão de quaisquer armas, as mais abjectas, como o são a calúnia e a mentira, mostra identificar-se com aqueles animais.

Como é grande a multidão dos bandidos e porque se tornaram relaxados, não podendo já esconder a torpeza dos seus actos, procuram, por lhes parecer justificação, intitular-se pessoas de carácter actualizado.

Há pessoas em quem se descobrem os característicos sinais da coleira, com que foram ou são presos pelo dono.

Houve, há e haverá sempre escravos, enquanto existirem homens à superfície da Terra, e se não operar profunda alteração nas consciências.

Vistas bem as coisas, a afirmativa de que o homem é livre não passa de figura de retórica.

Porém, hoje em dia, só é escravo quem nasceu para sê-lo.

Uma questão de qualidade.

Observando atentamente os agrupamentos humanos, somos, imediatamente, conduzidos a dividi-los em duas grandes categorias:

1 - os que nasceram para escravos ou desprovidos de personalidade; e

2 - os que nasceram para homens livres ou dotados de forte personalidade.

Prosseguindo no estudo, logo somos levados à conclusão de que é enorme o número daqueles e pequeno o destes.

E de que a existência dos escravos implica necessáriamente a dos tiranos.

Depressa assentamos que estes formam legião.

Depois disto, podíamos fazer classificação, trabalho de grande envergadura, a assumir proporções de tratado.

Não vamos, porém, tão longe.

Apenas consideraremos o tirano própriamente dito e o tiranete.

Os tiranetes formam enxame,

Peguemos em um tiranete, à sorte, o primeiro que apareça, e sujeitemo-lo a cuidadoso estudo analítico.

Averiguemos do ambiente familiar em que foi gerado, nasceu e cresceu, dos trabalhos a que se dedicou, numa palavra, de todo o seu passado.

Pequena será a demora em concluir ser ele de mau sangue, da pior educação, nado e criado em baixa atmosfera moral.

Mas, se alguma dúvida puder restar no nosso espírito, façamos a prova real, submetendo-o a exame físico, observando-lhe pescoço e costado.

É fatal: descobrimos-lhe sinais, mais ou menos disfarçados, mais ou menos antigos, da coleira.

E ficamos edificados: trata-se de antigo escravo.

Por mera questão de interesse puramente científico, já que se está com a mão na massa, observemos-lhe o lombo.

Descobrimos, pela certa, vestígios, mais ou menos remotos, mas bem característicos, dos estragos produzidos pelo fardo.

De posse de todo este material, sempre positivo e concludente, chegamos a esta verdade científica: o sujeito foi escravo.

É de notar que o analista ao proceder a todos estes trabalhos não foi capaz de descobrir o mais insignificante vestígio de chá em todo o passado do paciente.

Nem pitada!

A metamorfose da larva escravo para o insecto tiranete é uma questão de enriquecimento, conseguido à custa dos mais baixos processos, de todos os métodos.

Sobre enriquecimento, urge distinguir entre dois verbos diferentes: ganhar e juntar.

Ganhar supõe profissão, trabalho honrado. Lucro lícito; juntar supõe roubo, espoliação, expediente.

Ganhar é claridade; juntar, escuridão.

O primeiro significa morosidade; velocidade o segundo.

Ganhar é percorrer caminho liso, para jamais chegar ou chegar tarde à meta: Fortuna; juntar é velocidade através de todos os caminhos, esmagando obstáculos, todos os obstáculos, até à Fortuna.

O junto é feito de lágrimas, sangue, traição, contrabando, fraude, mentira, espoliação e abuso.

Infelizmente, nos maus tempos que correm, ter significa valer.

E tiranete, linguísticamente, vem a significar novo rico.

Esta prestidigitação pela qual o escravo se volve tiranete mete batota.

Aqui é impossível afirmar-se não ter havido nisso trampa ninguna, como de ouve, a outros propósitos, aos espanhóis.

Nesta metamorfose há sempre trampa.

Muitíssima trampa.

 

DENÚNCIA CALUNIOSA

José Joaquim de Abreu

Edição do autor

1957

pp. 5-8

 


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Sábado, 12 de Maio de 2018

Fragmentos de vidas raianas, 1978 a 1981 - X

 

 

Continuação do post do 28 de abril de 2018.

 

 

O posicionamento canalizador acaparado pelo bar e a loja fazia do Manolo o promotor prepotente. Adjudicara-se as praxes, as manias e as comédias das criaturas com as quais convivia e que admirava ternamente. Augurava o que lhes agradava e forcejava-se por responder aos seus ardores antes de os exprimirem. Uma palavra, um gesto ou um olhar bastava para o guiar. Tinha, também, desenvolvido uma clarividência inabitual para detectar o marasmo e as falhas dos habitantes, avivando-os e manuseando-os, depois, com um talento brilhante.

Nesse dia, como nos outros, o Manolo descerrou as portas dos seus comércios depois de ingerir as imutáveis sopas de café com leite. Eram sete e meia passadas.

Andava meditativo, ansioso, pois estava prevista a chegada de mais uma camioneta com cinco toneladas de bananas. Ir-se-iam reunir a outras cinco ainda entravadas na garagem. Portanto, uma incógnita infrangível, para a qual os seus acólitos ainda não tinham solução, perdurava, mas uma vez o processo engrenado, era-lhes inimaginável bloqueá-lo.

Este contrabando de bananas – bastante recente – era extremamente lucrativo e revigorava gradualmente a sua conta bancária e a dos seus comparsas.

Por volta das dez, saiu da loja. Paulatinamente, aproximou-se da estrada e verificou o lado da ponte e o oposto, como o oficial que controla a vanguarda. Com um prazer desmarcado, inalou o ar moderadamente frio e humectante da manhã, no qual discerniu  uma fracção do fumo que algumas chaminés da aldeia evacuavam.

Apesar de a primavera estar perto, a fresquidão teimava em implantar- se de noite. Enquanto os primeiros raios de sol não dissipassem o nevoeiro resultante da insondável massa de água estagnada pela barragem, as manhãs demoravam friascas.

Do outro lado da estrada, vivia a Otília, uma sexagenária avançada, viúva acolhedora, mimoseada por todos e muito picaresca.

Havia muitos anos que o pai, o Laranjeira, um português dos Casais – freguesia de Paços –, casara com uma espanhola e lhe fizera duas filhas e um filho. No rés-do-chão da obsoleta casa, fundara a única padaria existente num raio de dois quilómetros. No forno rudimentar a lenha, começara a cozer, com amor e devoção, um pão saboroso, extraordinário.

Os anos consumiram-se e o homem sucumbiu. Com o tempo, a padaria amodernou-se, mas a receita seguiu sendo a mesma, e o forno, a lenha, perpetuava a cozedura dum apetitoso pão cuja excelência pouco ou nada invejava ao das fornadas iniciais. Os de Cevide e dos Casais, lugar próximo do primeiro, comiam bolas e cacetes galegos. Quando vinham às compras à Frieira, alguns portugueses nunca se esqueciam desse afamado pão pastoril e estranhamente requintado.

Nos dias de hoje, a padaria era gerida por uma filha da irmã – também viúva –  e pelo marido, o Fernando. Diariamente, com a ajuda de um rapaz, tirava mais de trezentos cacetes e cinquenta bolas em cinco fornadas, durante os dias úteis. Ao sábado, labutavam até ao fim da tarde, pois era pão para dois dias. A esposa, numa carrinha renault 4L, encarregava-se da distribuição pelas aldeias e lugares circundantes.

A Otília vivia com a mãe, acamada havia uns anos. As consequências mentais – subestimadas – das fases delicadas e embaraçosas atravessadas, fizeram dela uma mulher desataviada, crédula e pueril; era o mais seguro e rápido condutor de atoardas.

Tinha os dois filhos arrumados e, questão dinheiro, sentia-se à vontade. Com cerca de sessenta e sete anos de idade, recebia o aluguer da sua parte do forno e duas pensões correctas para o meio: uma por ela e outra pela mãe. Marcada pela abstrusidade, a felonia e a lazeira, era de uma sobriedade estarrecedora. Para ela, o dinheiro contribuía para granjear o estrito necessário e não para saciar prazeres que ela julgava fúteis.  

O Manolo, supostamente apático, avistou o Fernando. Deteve-se a examiná-lo com o zelo do contrabandista. À porta do telheiro – um magistral cangalho –, distante três ou quatro metros da padaria, o jovem escaqueirava ripas de pinheiro meio secas com um machado. De uma ruma, ia recolhendo as compridas e afiladas fasquias que cortava em vários pedaços, mais ou menos símiles, por cima de um mortificado cepo. Amanhava estritamente a porção que aqueceria o forno a madrugada seguinte. Volta e meia, um dos fragmentos decepados era projectado pela lámina amolada do machado e embatia contra a parede da padaria, a casa da Otília.

Havia pouco que esta, com uma ponta de sarcasmo, já fizera notar ao padeiro que podia evitar aquela tarefa quotidianamente. Sacrificando três ou quatro horas uma tarde qualquer, teria lenha mais do que suficiente para toda a semana. O sobrinho, cuja juvenilidade animava a precindir dos seus conselhos, retorquiu que era ele e a mulher que determinavam cientemente a gestão da padaria. Como é óbvio, foi uma resposta que a melindrou e pôs a ruminar.

Habituada a decretar, prezava muito pouco o feitio resmungão e sedicioso do marido da sobrinha. Ingenuamente, espalhara pela povoação a ideia contrafeita de que o jovem não tinha por ela qualquer acatamento. Mas o Fernando era impermeável a estas atitudes disparatadas. A pobre mulher tinha sérios inconvenientes em fazer a distinção entre mando e deferência.

— Trabalha, carambas, não faças de conta, que a Lucita – a mulher do Fernado – não te paga para passares o tempo, seu malandro! – gritou o Manolo ao panificador, deixando estalar uma das suas gargalhadas simbólicas.

O padeiro olhou para ele de soslaio e esboçou um sorriso brincalhão.

— Vê-se bem quem trabalha, gandulo.

E prosseguiu a corveia, desinteressado.

O Manolo deu meia-volta e dirigiu-se novamente para a loja. O seu rosto exuberava de gáudio. Tinha-o na mão. Descobrira matéria maliciosa para o endiabrar e passar uns momentos festivos

Seis dias por semana – isentando o domingo –, entre as dez e as onze, depois de inseridos no forno os cacetes e as bolas finais, limpado a amassadeira e aprontado a lenha, o Fernando e o efebo ajudante iam desjejuar ao bar do Manolo.

Escolhiam dois cacetes da derradeira fornada, ainda tépidos; bem crocante para um, não muito cozido para o outro. Em seguida, a Rosa, segundo a apetência do dia, preparava-lhes com esmero dois tonificantes bocadillos – sandes – de presunto, sardinhas de conserva, queijo, atum, ou chouriço Revilla. Cupidamente, os dois jovens aspergiam o casse-croûte com cerveja San Miguel fresquinha – três para o Fernando. «A cerveja, alegava quando lhe faziam qualquer reflexão, favorece a expulsão das partículas de farinha absorvidas.»   

 

Continua.

 


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Sábado, 5 de Maio de 2018

HOMENAGEM A ÓSCAR MARINHO

10 b2 - maria do sabino.jpg

taberna da ti maria do sabino

 

UM FILATELISTA MELGACENSE

 

Boticas, 26 Nov. (Lusa) – Um selo de 100 mil réis de 1853, avaliado em 770 mil euros, é uma das principais atracções da Iberex – XV Exposição Filatélica Luso-Espanhola, patente em Boticas até domingo.

O coleccionador Óscar Marinho começou a juntar selos aos 15 anos e hoje, com 70 anos, mostra com orgulho a sua colecção de selos clássicos portugueses, onde se insere o de 100 réis da época de D. Maria II.

“A minha colecção não tem preço. É impagável” afirmou à Lusa o filatelista de Melgaço.

Dos muitos selos que guarda num lugar que recusa revelar, Óscar Marinho gosta de expor a colecção de selos primitivos, feitos entre 1853 a 1870, os que diz terem sido os primeiros selos portugueses.

“Trata-se de selos em relevo que eram feitos um a um, não há um selo igual a outro e a cada diferença chama-se um cunho”, explicou.

Óscar Marinho começou a coleccionar selos depois de ter tido um acidente em que partiu a clavícula.

“Fui a um endireita, que havia em Melgaço, que coleccionava selos. Para não chorar deu-me uma quantidade de selos e a partir daí não parei”, salientou.

Diz ter adquirido selos em leilões, trocas com colegas e até em feiras no estrangeiro e é também lá fora, em países como França, Itália ou Espanha, que gosta de mostrar as suas “relíquias”.

 

Retirado de:

 

Collectus – Loja de colecções

 

http://coleccionar-collectus.blogspot.com/2007_11_01_archive.html

 

 

GAZETILHA

 

O ESPADA

 

Ao Óscar Marinho

No tribunal de Vimioso:

 

Chegou à nossa Vila, já de noite,

uma coisa mal jeitosa e de cor preta,

que a dar-lhe nome talvez ninguém se afoite,

e chamar-lhe automóvel, isso era peta.

 

O dono, uma pessoa respeitável,

chegou à nossa terra tão vaidoso,

que nem guiando o melhor descapotável

que jamais viu o velho Vimioso.

 

E andou por estas ruas, coisa rara,

roncando como aqui nunca se viu,

essa peça de museu, que talvez cara,

quis ir a Castro um dia e… não subiu.

 

P’ra vir do Vimioso aqui ao Minho,

levou-lhe quinze dias, sempre a andar,

parou algumas vezes no caminho,

porque a bronquite fazia-o sufucar.

 

O Óscar, me contou, com graça, até,

algumas peripécias, do caminho;

andaram mais de seis léguas a pé,

p’ra não cansar o pobre coitadinho.

 

Na ida, sentiu-se a coisa mais cansada,

efeitos da velhice e da distância…

e viu-a toda a gente, então pasmada,

seguir p’ra Vimioso, na ambulância.

 

E chamaram-lhe o «Espada do Doutor»

a esse traste que agora já não anda…

que a mim mais me pareceu ser um tractor

retirado das brragens de Miranda.

 

Os meus mais respeitosos cumprimentos,

a quem me encomendou este sermão.

mas, se por isso vou passar tormentos,

direi de novo que aquilo é um carrão.

 

                                                                                                                      31/7/960

 

POESIA POPULAR

Francisco Augusto Igrejas

Câmara Municipal de Melgaço 6

1989

pp. 81-82

 

Óscar Marinho deixou-nos neste ano de 2018.

Descansa em paz meu amigo.

 

 

 


publicado por melgaçodomonteàribeira às 01:24
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Sábado, 28 de Abril de 2018

Fragmentos de vidas raianas, 1978 a 1981 - IX

 

 

Continuação do post do 14 de abril de 2018.

 

 

Com pouco mais de dezoito anos, a desditosa rapariga, oriunda de um lugar da freguesia de Roussas, furtara-se à bestialidade do pai alcoólico, à miséria da casa e ao défice de vicissitudes ao labor desumano do campo.        

O abandono da terra, do país, o medo do incerto, que desmoronava qualquer um, fez com que fosse pouco além da fronteira. Ficou na Notária, onde conseguiu o primeiro emprego num café. Aguentou um par de meses, apesar do ambiente autoritário e famélico que o casal proprietário lhe impunha. Por ser um trabalho menos cáustico que o do campo, conciliara-se com a perversidade.

Um jovem que acusava uma dilecção indecorosa por ela direccionou-a para o estabelecimento do Manolo.

Criada, cozinheira e empregada de bar podia dizer-se que fazia de tudo, inclusive o que o patrão de mais profundo lhe pedisse, segundo as más-línguas.

Os taxistas da zona, quando livres, eram os primeiros clientes do bar. Todas as manhãs, uma hora antes da entrada na estação dos dois ferrobuses – automotoras – procedentes de Vigo e de Monforte de Lemos, que, normalmente, ali se cruzavam – a linha era de via única – já estavam acotovelados ao balcão, tomando o café e a copa matinais. Conversavam e parafraseavam desordenadamente as últimas informações ouvidas no auto-rádio.

Muitos trabalhadores rurais e da construção civil, de um e outro lado do rio, sustavam-se ali uns minutos para matar o bicho. Os mais descuidados tinham a possibilidade de se procurar algumas ninharias de primeira necessidade, tanto para o campo como para as obras.

Havia também aquelas pessoas, entre as quais portugueses, que, por volta das nove, se acercavam da estação de caminho-de-ferro. Algumas, as que iam comerciar, apenas bebiam um café, mas outras, que iam de visita, lembravam-se do presente que tinham em vista ou obliterado à última hora.

O movimento matutino fazia parte dos momentos favoritos do Manolo. O ar da alvorada, frio ou morno, fortalecia-o. Porém, tinha um apego particular pelas manhãs dos dias 10 e 25 de cada mês, dias da feira de Ribadavia, a mais popular da região. A avidez dos campónios à ida – para os quais a feira era como um dia de festa – e a satisfação da volta, carregados de utensílios, mantimentos e produtos eclécticos para o campo, regalava-o. 

Conhecia grande parte das pessoas que por ali transitavam e com as quais adorava ter um diálogo caloroso, apesar de sucinto. Eram ocasiões propícias, preponderantes. Para ele, que desabrochara numa casa mesquinha das proximidades e tivera de sujeitar-se mais do que alguma vez pensara tão longe dela, estas ocasiões eram-lhe angelicais.

A privação daquela aldeia e dos seus odores peculiares, daquele rio imponente e do regato insignificante; a falta daquele sol abrasador, mas inerente; a falta daquelas glebas verdes em escaleira; a falta do cheiro da terra tórrida quando era refrescada pela chuva; a falta daquela gente simplória vestida de preto, que desafiava as agruras do meio com um sorriso clemente; a indigência daqueles montes e da sua vegetação ubiquista, fizeram-no tergiversar, desalentar, chorar, padecer...

Ainda o moço trabalhava como aprendiz de carpinteiro numa oficina da Notária, trazendo ao fim do mês uns escassos duros para a casa, quando o pai pereceu. A partir daí, esses irrelevantes vinténs eram imprescindíveis. Pouco a pouco, tentou preencher o lugar insubstituível que ficara desguarnecido. A mãe, a Lucinda, via-se obrigada a lutar em duas frentes: os afazeres das magras terras e o desvelo ao irmão primogénito do rapaz, o Chíchio, que sofria de desequilíbrio psíquico.

Foi na Notária que conheceu e namorou com a que seria mais tarde a sua esposa. Mas o seu destino e o da rapariga, como o de um elevado número de outros jovens, fora previamente decretado pela letargia, pela míngua e pelo ostracismo a que a política totalitária do Caudillo submetera o país.

Casaram e renunciaram ao berço, à terra por onde tinham repartido os seus marcos e emigraram para França em busca de perspectivas mais entusiasmantes.

A destreza que o Manolo tinha para a carpintaria facilitou-lhe uma presta progressão no ramo. Ao cabo de um ano, tinha um salário equivalente a vários meses de actividade na sua terra. A Maribel, sem qualquer contrariedade, logrou um lugar de preparadora de sandes e de saladas numa célebre cervejaria da praça da Ópera. Empregada cuidadosa, ali se manteve até resolverem retornar. Deram vida a um filho e passaram perto de quatorze anos contritos num país cujos fundamentos lhes eram absolutamente impenetráveis.

Com enorme penibilidade, assimilaram o vocabulário elementar que o trabalho e a vida de todos os dias lhes reclamava. O clima e o modo de vida adverso foram outras barreiras às quais tiveram de obtemperar, visto não poderem rectificá-los.

A mãe e o Manolo tinham uma vocação ingénita para o humor e o chiste. À mãe, estes traços linimentavam parcialmente os fortes desassossegos quotidianos da escarpada vida; ao filho e à esposa, travestia-lhes e esquivava-lhes, na medida do possível, a tristeza e a angústia com que a ausência forçada da terra os gangrenava.

Durante quatorze anos pungentes, poucas vezes vieram à terra, mas, quando se dava o caso, ficavam mais de um mês. Em dois dias restauravam o alento moral e anímico. Contudo, à medida que os anos se sucediam, a amargura do retorno à capital francesa crescia. Por esta razão, quando pressupuseram que o contexto era oportuno para uma vinda definitiva, não balbucionaram. Tinham medo de se deixar inflectir por considerandos e, mais tarde, arrependerem-se. As economias e uma modesta reparação (10 000F per capita) com que o governo gaulês – depois do choque petrolífero de 1973 – encorajava os trabalhadores estrangeiros a partir, ajudaram-nos a converter-se nos donos daquela tienda. Esta formalidade vedare-lhes, para sempre, a probabilidade de trabalhar de novo em França.

Havia cerca de dois anos que, despreocupados e felizes, ali se tinham instalado. Portanto, ainda hoje faziam tudo para compensar o desprovimento e desafogar a intensa gula soterrada que o desterro ateara neles.

O Manolo idealizava e confeccionava quadros benígnos para se divertir mofando. De uma coisa banal, e aparentemente inconsistente, extraía assunto ou móbil capaz de espairecer toda a gente durante dias. Despistava, com um tacto maravilhoso, as disparidades, os tiques, as fraquezas, as manias... tudo o que o inspirasse e fosse passível. As suas travessuras compraziam a todos e era a maneira mais cordial de lutar contra a perdurável acinesia mental dos conterrâneos. Nos lugares escabrosos e ingratos como aquele, as casualidades de entretenimento eram fictícias, para não dizer nulas.

 

Continua.

 


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Quarta-feira, 25 de Abril de 2018

DESDE 1974

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25 DE ABRIL SEMPRE

 

 

 

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Sábado, 21 de Abril de 2018

OS NOVOS LUSÍADAS

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Certo dia, como se fora um qualquer lunático, passou-me pela cabeça continuar «Os Lusíadas», obra escrita por Luís Vaz de Camões no século XVI. Se ele, em circunstâncias assaz difíceis, sem a preciosa ajuda dos computadores e seus programas, sem livros de história ali à mão, sem dicionários, sem enciclopédias, sem nenhuma biblioteca de apoio. Conseguiu levar a cabo aquela imensa epopeia, aquele monumento literário, aquele alforge de saber e imaginação, também eu, ser humano como ele, poderia construir algo parecido. Acontece que génios como Camões só surgem no planeta de cem em cem mil anos; logo, teremos muito que esperar e desesperar. Os seus vastos conhecimentos, a sua capacidade de apreender tudo aquilo que o rodeava, as suas leituras da juventude, a sua vivência, a sua escrita empolgante, são irrepetíveis. Apesar de saber tudo isso, vou dar início a este louco empreendimento, sabendo de antemão que vai ser obra pequena, defeituosa, inacabada. A vida é assim, não se pode parar. Eça de Queirós e Camilo Castelo Branco na prosa, Amália Rodrigues no fado, José Afonso na canção, Travassos, Eusébio, Figo e Cristiano Ronaldo no futebol, Livramento nos patins, Joaquim Agostinho no ciclismo, Carlos Lopes, Fernando Mamede, e Rosa Mota no atletismo, etc., foram figuras cimeiras na sua arte, na sua profissão. No entanto, outros artistas foram bons, ou aceitáveis, sem contudo atingir a perfeição dessas estrelas. «Parar é morrer», já diziam os nossos antepassados. Por isso, mãos à obra. A história de Portugal é riquíssima, há muita matéria-prima a explorar. Quem sabe se esta ousada iniciativa não irá estimular alguém com mais talento e saberes do que eu? Aguardemos.

 

Em mil e quinhentos sai do Restelo

A frota comandada por Cabral;

Os navios levam pão, chirelo,

Muita carne, conservada em sal…

Iam em busca de terras, dum selo,

Para a nobre causa de Portugal.

Descobriram, “por acaso”, o Brasil,

Rico de matas, ouro, rios mil.

 

………………..

 

Vou abraçar os meus velhos amigos,

Se é que ainda algum por lá mora;

Comerei com eles belos formigos,

O estonteante doce de amora;

Fumeiro, vinho, são ora inimigos,

Mas por eles nosso paladar chora.

Os anos destruíram nossa mente,

Oxalá dê fruto nossa semente.

 

 

OS NOVOS LUSÍADAS

(tentativa de continuação de «Os Lusíadas» de Camões)

Joaquim A. Rocha

Edição do Autor

Janeiro 2018

pp.5, 29, 180

 

Joaquim A. Rocha edita o blogue Melgaço, Minha Terra

 

 

 


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