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MELGAÇO, DO MONTE À RIBEIRA

História e narrativas duma terra raiana

MELGAÇO, DO MONTE À RIBEIRA

História e narrativas duma terra raiana

CEM ANOS DE RETALHOS DE UMA FAMÍLIA 1852-1952 IV

melgaçodomonteàribeira, 02.07.22

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CAPÍTULO IV

 

O Ismael embarcara para o Brasil com as despedidas formais e promessa de casamento por procuração logo que a vida lhe sorrisse. As famílias resignaram-se àquele destino comum. A Jelcemina não compareceu à despedida. Desde que a viagem fora anunciada e confirmada ficara arredia e triste. Passou o primeiro, o segundo mês e o Ismael não mandou notícias. Nunca mais deu sinais de vida, pelo menos para a namorada. Para a família, sim. A rapariga, taciturna, pouco comia, emagreceu, perdeu a cor trigueira, perdeu o gosto de tudo. O desgosto da partida do seu derriço tirou-lhe a vontade de viver. Os Violas eximiam-se de qualquer responsabilidade. Amargurada a Jelcemina definhava dia a dia. Fisicamente vulnerável achou de tomar banho na poça do campo do Chãos. O inverno se avizinhava, a água estava excessivamente fria, quase gelada. Naquele organismo enfraquecido sobreveio uma pneumonia. Talvez fosse aquilo que ela buscava. Não resistiu, faleceu. As más línguas insinuavam que havia algo mais de que ela se envergonhasse.

Os momentos finais da moça foram terrívelmente dolorosos. No auge da febre debatia-se e gritava pelo seu Ismael. Uma visão passou pela sua imaginação que em voz sumida transmitia aos que, chorosos, a rodeavam. Dizia ver o Ismael muito pálido mas bonito, vestido de branco, rodeado de flores e velas.

A partir do falecimento da Jelcemina a animosidade entre Félix e Violas cresceu, com acusações de uns e desculpas de outros. Do Ismael nada se soube, apenas que estava lá para o Pará.

O Carlinhos, da ilustre família Barros Ferreira, conceituada e abastada, foi transferido para a sua terra chefiando a secção dos correios. Físicamente era uma figura grotesca. Baixote, cabeça grande, desproporcional, corcunda, usava grandes bigodes retorcidos e calvice acentuada nas têmporas. Contudo, era pessoa educada, afável, tornando-se simpático. Solteirão, já entrado em anos, precisou de alguém que lhe tomasse conta da casa, espécie de governanta. A sua família morava ali na vila, na casa perto da igreja conhecida como o casa da torre, mas ele desejava continuar independente. Foi-lhe indicada, pelos parentes, uma rapariga desembaraçada, capaz de preencher o lugar. Era a Esmeralda, a sexta filha do Félix e Conceição.

Aos filhos homens o Félix ensinou a sua profissão. O mais novo, Eduardo Augusto, aborrecia bastante os pais com seu génio irrequieto e revoltoso. Não aceitava e sempre que podia transgredia as normas estabelecidas pela sociedade do lugar. As pessoas humildes, os plebeus, obrigatoriamente tinham de andar de cabeça coberta em todos os lugares públicos. Boné, gorro, garruço, boina, chapéu os que o herdaram da família, alguma coisa teria de cobrir-lhe a cabeça. Os fidalgos e os burgueses, “pessoas de bem”, tinham o privilégio de andar de cabeça descoberta sempre que isso lhes aprouvesse. A maneira de mostrar respeito aos mais bem situados na vida, ou seja, a forma dos humildes se declararem subservientes era, ao cruzar com aquelas pessoas gradas, tirarem o chapéu ou o que lhes cobrisse a cabeça numa respeitosa e submissa reverência. Quem não cumprisse tal código de ética corria o risco de séria admoestação ou castigo. Foi o que aconteceu ao Eduardo do Félix. Garotão senhor do seu nariz detestava as imposições sociais descabidas. Bonitão achava de poder mostrar-se como muito bem entendesse. Um dia de domingo teve a coragem de andar passeando pela vila com colegas, de cabeça descoberta. Aquilo causou admiração e constrangimento nas pessoas mais velhas e repulsa naqueles que teriam de ser reverenciados. O acontecimento chegou aos ouvidos do Félix Igrejas que mandou chamar o filho por um irmão e chegando em casa ouviu o rapaz um sermão em regra. Ameaças fizeram parte da admoestação caso o facto se repetisse.

O Eduardo ficou furioso, indignado por tão grande preconceito num assunto tão insignicante, enorme injustiça duma sociadade hipócrita. Aos ricos e fidalgos, estes, ainda que falidos, tudo era permitido. Podiam fazer filhos em todas as raparigas solteiras, ter quantas amantes quisessem ou ter quantas famílias pudessem manter. Apropriar-se fraudulentamente das poucas propriedades dos mais pobres, explorar o trabalho quase escravo de seus serviçais, viver à tripa-forra sem qualquer trabalho que não fosse cuidar de seus bigodes e aparência, seus pergaminhos bolorentos conquistados sabe-se lá como.

 

(continua)

                                                                                               M. Félix Igrejas

CEM ANOS DE RETALHOS DE UMA FAMÍLIA 1852-1952 III

melgaçodomonteàribeira, 25.06.22

817 b manuel igrejas, arte e cultura melgacense no

CAPÍTULO III

 

O Augusto do Félix teve uma viagem bonançosa e alegre. A quase totalidade dos passageiros daquele vapor inglês eram jovens portugueses e espanhóis a caminho da fortuna. Nos vinte e oito dias da travessia outra coisa não fizeram que projectar mirabolantes sucessos. Tudo era festa, o mar imenso com os enjoos do balanço, a precaridade das acomodações amontoados em cabines exíguas e neda higiénicas, não obstava para abater a animação da próxima prosperidade.

Muitos daqueles jovens nunca tinham visto o mar e as surpresas que diáriamente lhes reservava. Teve um dia que apareceu coalhando de grandes bolhas coloridas quais imensas bolas de sabão, tão grandes que chegavam à amurada do navio. O comandante avisou que não tentassem estourá-las ou pôr-lhe as mãos, podiam estar cheias de gás venenoso.

Chegando a Belém não foi difícil ao Augusto arranjar colocação. Exibindo suas qualidades profissionais logo foi contratado como oficial na Alfaiataria Portas de São Miguel, das mais conceituadas da cidade. Belém do Pará era o Eldorado da época. Vivia-se o esplendor do ciclo da borracha. Tudo era grandiosidade na fulgurante metrópole. Companhias de ópera, estrangeiras, famosas, acorriam a exibir-se. Em pouco tempo o Augusto tornou-se contra-mestre da alfaiataria e amigo do proprietário. Levava uma vida de fidalgo fora das horas de trabalho, motivo por que, embora ganhasse razoávelmente bem, andava sempre atrapalhado de finanças. Não perdia estreia de temporada teatral, de bailes e saraus e outras manifestações artísticas, culturais e desportivas. Era destacado na roda de amigos onde fazia tudo para sobressair. Um dia, em plena festa de casamento de um amigo, influenciado pelos vapores do champanhe e outras bebidas achou de fazer-se engraçado: meteu-se por baixo da grande mesa onde estavam as iguarias e levantando-a com as costas derrubou-a espalhando pelo chão tudo que estava em cima. Foi um grande alvoroço que arrancou gargalhadas dos mais eufóricos e custou ao engraçadinho seis meses de salário.

O fruto proibido do jovem Dr. Vasconcelos e da condessa Constança nasceu em meio a jurado segredo da parteira e da meia dúzia de pessoas intímas. Na noite do nascimento um serviçal da máxima confiança levou a criança com riquíssimo enxoval, jóias e dinheiro, por caminhos escusos, Galiza a dentro até ao convento de Orense, cidade espanhola bastante retirada de Melgaço. A trouxa com o recém-nascido e pertences, foi posta na Roda do Mosteiro e tocada a sineta que avisava de mais uma prevericação da nobreza.

Com a complacência da igreja fora instituída essa forma de orfanatos. As crianças rejeitadas eram encaminhadas a essas instituições onde recebiam criação e educação esmeradas. As criaturas instruídas nesses internatos ao completar a maioridade saíam preparadas para enfrentar a vida.

O recém exposto na roda oriundo de Melgaço foi acolhido com o habitual carinho e baptizado para ser mais um cristão. Foi-lhe dado o nome de Félix que quer dizer feliz e o sobrenome que a instituição dava a todos os enjeitados, Iglesias, que quer dizer filho da igreja. Ficou sendo então, oficial e cristãmente Félix Iglesias que mais tarde, quando requereu a nacionalidade portuguesa passou a ser Félix Igrejas.

Educado e instruído segundo os cânones da  instituição ensinaram-lhe o ofício de alfaiate de que se tornou mestre.

Os desentendimentos entre os Félix e os Violas sofreram um estremecimento quando constou que a Amália do Félix estava namorando o Ilídio dos Violas. Os membros de lado a lado não queriam acreditar. Os Félix viram naquilo um grande insulto, uma vilania. Iria-se repetir a tragédia da Jelcemina? Cruz, credo, Deus nos livre de tal desgraça.

Era novamente domingo. Só aos domingos tinham tempo para se envolverem em zaragata. Naquele domingo a discussão e os empurrões estavam acontecendo nas portas da vila, nos fojos, perto da fonte da galinha. Enquanto os contendores se destratavam e ameaçavam a Amália e o Ilídio escondidos entre os arbustos da Feira Nova, onde mais tarde foi construído o edifício da Câmara, se apalpavam e faziam juras de amor eterno.

 

(Continua)

                                                            M. Félix Igrejas

CEM ANOS DE RETALHOS DE UMA FAMÍLIA 1852-1952 II

melgaçodomonteàribeira, 18.06.22

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CAPÍTULO II

A Jelcemina, terceira dos dezoito filhos de Félix Igrejas e da Conceição Costa, era uma moça trigueira, desembaraçada, bem feita de corpo e bonita, como de resto todas as raparigas daquela família. Não lhe faltavam namorados. Estava por surgir o seu ái-jesus. Este apareceu na figura do Ismael, um guapo rapaz, vizinho quase porta com porta, membro da família Sousa mais conhecida pela alcunha de Violas.

O namoro desenvolveu-se naturalmente como todos os namoros da juventude recatada e super-vigiada da época. As famílias embalaram aquele namoro em que faziam gosto.

Com o tempo a vigilância abrandou concedendo maior liberdade aos namorados. Já se falava em futuro casamento.

Surgiu, então, o fantasma que assombrava a todos que pretendiam constituir família: uma vida monótona, sacrificada, beirando a mizerabilidade. O futuro risonho estava do outro lado do mar. O Ismael, como todos os rapazes instruídos, não aceitava resignar-se à mesma vida das gerações anteriores. Sabia dos sacrifícios, a falta de recursos com que lutaram seus pais para alimentar as inúmeras bocas que Deus lhes destinara. Pior ainda, outros chefes de família que emigraram na ânsia de ir buscar sustento para os seus, não mais voltaram nem mandaram recursos. Constava que tinham constituída nova família lá nas lonjuras e na terra, a coitada da mulher fazia das tripas coração para que não faltasse uma côdea de pão à baca dos filhos. Essa côdea era conseguida entre parentes e vizinhos como esmola. Era por isso que as famílias preferiam que emigrassem solteiros.

O Félix Igrejas permitiu e ajudou seu filho Francisco Augusto a embarcar nessa aventura. E havia um detalhe bastante intrincado que ajudou na decisão. O rapaz estava com 16 anos, logo teria de se decidir sobre a nacionalidade que lhe interessava: se portuguesa ou espanhola e a consequente prestação de serviço militar num ou noutro país. É que, em virtude do pai ter sido registado em Espanha, onde, teoricamente nasceu pois foi aí que apareceu, residindo, embora, em Melgaço, Portugal, ainda não tinha requerido a nacionalidade portuguesa, o que aconteceu mais tarde; os filhos, pela lei vigente na época, só na maior idade podiam optar pela nacionalidade que lhe conviesse: se a de onde nascera ou a do pai. Na idade própria assumia a nacionalidade portuguesa como o resto da família por que o pai já fizera o mesmo.

Foi Francisco Augusto embarcar em Vigo, cidade portuária da Galiza rumo a Belém do Pará, cheio de ilusões e qualificação profissional. O pai ensinara-lhe a profissão de alfaiate de que era mestre, ofício aprendido no estabelecimento onde fora criado. Corria o ano de 1896.

Melgaço era um vilarejo bastante agradável para se viver quando se tinha recursos. Os fidalgos detentores de propriedades e os comerciantes, burgueses, levavam vida regalada. O povo, humílimo e subserviente considerava-se feliz por ter uma malga de caldo e um naco de pão de milho ou centeio ao fim do dia para sua família. A não ser uns poucos artesãos os demais dedicavam-se à agricultura cultivando as terras daqueles senhores, de quem recebiam uma mínima percentagem da colheita por altura do São Miguel. Valia ao povo as galinhas e os porcos. Cada família mantinha, pelo menos um porquinho na corte que geralmente era o térreo da sua humilde casa ou um anexo no quintal, animal que durante o ano engordavam com restos de hortaliças, legumes especialmente abóboras, landras e farelo de milho. No início era o suíno abatido, salgado e defumado para durar o ano inteiro. As partes mais nobres do animal eram consumidas em datas festivas.

Uma fortaleza medieval em ruínas donde sobressaía a torre de menagem ainda intacta, restícios de guarda avançada da nacionalidade, davam certa imponência ao lugar. O desmantelar das muralhas deveu-se aos da classe dominante que aproveitavam os grandes blocos de granito para construir ou melhorar os seus casarões. E por ser um lugar de magníficas paisagens, de ares salutares, povo ordeiro, era propício a retemperamento da saúde de fidalgos doutras terras que se hospedavam, por temporadas, em casa de parentes ou amigos.

Na casa solarenga do Dr. Vasconcelos estava hospedada uma jovem fidalga da cidade de Barcelos que por linhagem vinha a ser condessa. Formosa de corpo e bonita de rosto fora para retemperar-se dum princípio de anemia. Ao fim de algumas semanas voltaram-lhe as cores da saúde e a vivacidade da juventude que viraram a cabeça do Dr. João, jovem médico recém- formado, filho da casa. A convivência e o ardor da juventude fez aqueles jovens se enlearem. Uma gravidez indesejada veio transtornar certos projectos de vida. A moça fidalga era compremetida com um mancebo de alta linhagem. Compromisso de honra que não poderia ser desfeito por vários factores, inclusivé por representar alto interesse pecuniário e político. As famílias envolvidas no acontecido, para evitar o escândalo decidiram pelo processo usado na época em tais situações.

A jovem continuou em Melgaço o tempo suficiente para a criança nascer, ao nobre pretendente foi dito que ela contraíra doença contagiosa que exigia isolamento sendo-lhe proibida a visita.

 

(continua)

                                                                                    M. Félix Igrejas

CEM ANOS DE RETALHOS DE UMA FAMÍLIA 1852-1952 I

melgaçodomonteàribeira, 11.06.22

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félix igrejas e conceição costas

 

CEM ANOS DE RETALHOS DUMA FAMÍLIA

1852 – 1952

 

CAPÍTULO I

 

Era domingo. As criaturas que saíam da missa do dia, espantadas, entreolhavam-se inquirido sobre o alarido que vinha da rua de Baixo. Alguém, vindo daquele lado informou que era mais uma zaragata entre os Violas e os Félix. Maioria das pessoas deram de ombros e foram à vida, outros, os que tinham amizade ou parentesco com os contendores, acorreram ao largo da Misericórdia onde acontecia a balbúrdia.

Com a chegada dos espectadores a rusga foi arrefecendo e os contendores deixaram para lá e debandaram.

Discussões entre os membros das duas famílias vinham de algum tempo após um infausto acontecimento. As consequências dos encontros não passava das ofensas verbais e um ou outro empurrão. Apesar de toda a animosidade eram criaturas tementes a Deus e com a necessária dignidade para evitar consequências desastrosas. Afinal, eram gente da mesma comunidade que se haviam querido bem até algum tempo atrás. Agora, sempre que membros daquelas famílias se cruzavam o bate-boca era  inevitável.

O Félix Igrejas ficou arreliado com a decisão do filho homem mais velho quando este falou em ir para o Brasil. Era uma sina, todas as famílias da terra tinham um ou mais membros naquelas lonjuras. Era o destino inevitável. Não havia condições de tanta gente se manter numa terra de recursos tão escassos. Agricultura de sobrevivência e os ofícios tradicionais eram os únicos recursos para atender as necessidades dos habitantes. As famílias tinham proles numerosas, as mais pequenas com oito ou dez filhos. Emigrar era a única alternativa para quem aspirava um futuro melhor. E os engajadores oferecendo mirabolantes perspectivas nos Brasis onde se ficava rico do dia para a noite, era só abanar a árvore das patacas. O interesse deles era a comissão que as companhias de navegação lhes ofereciam por cada passageiro engajado. Os candidatos a ricos, geralmente os mais jovens, pediam aos pais e estes empenhavam os parcos haveres que possuíam para custear a passagem. Sabiam que os bens penhorados eram bens perdidos, dificilmente os recuperariam. Dos muitos rapazes que abalaram, poucos remetiam dinheiro que compensasse o sacrifício. Num ou outro natal vinham minguados mil réis que davam para pouco mais que as rabanadas. Sinal que na terra da tal “árvore das patacas” não havia a facilidade apregoada. É bem verdade que de longe algum que já tinha partido há um ror de anos voltava de visita alardeando abastança. Exibiam roupas extravagantes e um linguajar arrevezado decorado durante a viagem, para impressionar os papalvos da terra. Os antigos sabiam muito bem que aquilo era fogo de vista, já tinham feito encenação igual ou parecida. Houve o caso de um “brasileiro” que foi visitar a família após dezenas de anos, com todo o espalhafato da praxe que apenas durou um mês. Os restantes cinco meses que a passagem de vapor lhe permitia, passou-os trabalhando na forja do cunhado para se manter.

Houve, sim, no espaço de cinquenta anos, dois ou três emigrantes que voltaram com considerável fortuna lhes permitindo comprar as propriedades de fidalgos arruinados.

Não obstante os prós e contras, mais contras que a favor, os chefes de família faziam o impossível para proporcionar meios ao seu membro de pagar a passagem. Era um jogo de sorte. Quem sabe seu filho ía ser um daqueles que voltavam ricos?

 

(continua)

                                                       Félix Igrejas

CONTRABANDO DE CAFÉ EM CASTRO LABOREIRO

melgaçodomonteàribeira, 04.06.22

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castreja - 1907

CONTRABANDO EM CASTRO LABOREIRO

 

Comecemos pelo tabaco e com o exemplo de Castro Laboreiro, precisamente para o período dos finais dos anos sessenta e durante toda a década de setenta, época identificada por um movimento intenso em direcção a Espanha.

Transportado para a costa em pequenos barcos, que em autêntica cabotagem, o distribuíam pelo litoral e, em situações particulares, nas próprias margens do rio Minho. Uma vez recolhido nos camiões, que circulavam em vias pouco frequentadas, em terra batida, transpunham Melgaço, para através do vale do Trancoso atingirem Castro Laboreiro, onde as mulas o transportavam a vários sítios da fronteira em direcção a Espanha.

Se o comércio do tabaco adquiriu notoriedade, nomeadamente, no planalto castrejo, o movimento de maior impacto teria sido, sem sombra para dúvidas, o relacionado com a transacção do café, cuja importação, desde sempre, foi dificultada pelas autoridades espanholas.

Embora o fluxo fosse intenso e sensivelmente constante, a travessia do limiar político era efectuado, sempre a pé, em pequenas quantidades, pois o cheiro activo que exarava traía o processo mais suis generis utilizado pelo transportador.

Mas, quando na década de sessenta a torrefacção passou a efectuar-se em localidades espanholas, como Ourense, iniciou-se um novo ciclo, em virtude do café em cru, ou seja, não torrificado, não exarar cheiro e, portanto, ser muito mais fácil iludir as autoridades fiscais.

Este facto coincide com o aumento da produção em Angola e a abertura de novos acessos, principalmente em Espanha, pelo que, se por um lado, os “passadores” a título individual proliferaram, por outro, implementaram-se novos esquemas, com o predomínio dos “patrões locais”, que em coordenação com os principais gestores sediados em Lisboa e em Ourense, faziam chegar à fronteira camiões de grande porte carregados com toneladas do produto, que se armazenava, enquanto se aguardava pelos momentos mais oportunos para que grupos de homens, lusos e espanhóis, a pé, fizessem o seu transporte, através da fronteira em direcção ao país vizinho.

O negócio do café envolveu a grande maioria dos limianos de raia, pelo que desde as mulheres e homens galegos e lusos, a título individual, ou, debaixo de ordens do “patrão”, aos donos de tendas, que acompanhavam as suas mulas e os seus homens, quer até aos marcos da fronteira, quer até aos comércios, ou, então, aos bandos de homens oriundos de Xinzo de Limia e Celanova que, durante anos, a pé, transportaram muitos milhares de toneladas, incrementando-se, assim, um fluxo que se iniciava na região de Lisboa, para terminar nas torrefacções espanholas, ou, talvez melhor, no consumidor individual.

 

LIMA INTERNACIONAL: PAISAGENS E ESPAÇOS DE FRONTEIRA

Volume I

Elza Maria Gonçalves Rodrigues de Carvalho

Tese de Doutoramento em Geografia

Ramo de Geografia Humana

Universidade do Minho

Instituto de Ciências Sociais

Julho de 2006

 

ACÇÃO SÓCIO-ECONÓMICA

melgaçodomonteàribeira, 28.05.22

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 parque termal  - peso

 

ACÇÃO SÓCIO-ECONÓMICA

 

Os habitantes de Melgaço construíram o seu modo de vida com características particulares, dedicando-se à agricultura, pecuária e desenvolvimento de utensílios e outros instrumentos necessários que foram marcando a vida quotidiana desta população. Apresentam tradições ligadas ao artesanato, como a tecelagem em linho e lã, alfaias agrícolas, canastros e moinhos, formando um conjunto de actividades definidoras da história do concelho. O rico património do concelho de Melgaço é o ponto forte de atracção turística, impulsionado pelo aproveitamento das suas potencialidades históricas e rurais, sendo assim, o turismo um sector muito importante, gerador de crescimento económico, complementando a actividade agrícola, que continua a ser a actividade predominante. A aposta no turismo é recente e acompanha uma tendência de procura cada vez mais intensa. Através da promoção da gastronomia pretende-se atrair novas pessoas, divulgando um leque mais alargado de atractividades para além da beleza natural das paisagens. Complementando, o Parque Naciional da Peneda-Gêres constitui-se como uma importante referência no desenvolvimento de actividades de proximidade com a natureza, tirando partido de cenários naturais e promovendo a prática de desportos radicais como o rafting, rappel, slide, escalada, canoagem e caminhadas, que são cada vez mais procurados. O interesse no investimento em modalidades turísticas rurais está a aumentar, verificado em projectos de recuperação que impulsionam a diversidade económica local e na prestação de serviços e comércio tradicional (Melgaço, 2013).

A comercialização de produtos termais e outros complementares aos tratamentos, bem como produtos relativos à identidade local são muito importantes pela sua vertente diferenciadora. Os objectivos de crescimento de cada estància levam a perseguir outros seguementos de mercado, renovando instalações, diversificando os produtos, subindo ou baixando preços, em busca de uma melhor situação competitiva. É visível uma gradual exigência a nível de diversidade turística, de modo que a componente terapêutica se apresenta como factor fundamental na escolha das termas, influenciando também a elevada qualidade, conforto e tranquilidade. No parque termal do Peso, o início do engarrafamento e comercialização das águas termais de Melgaço foi um importante factor de desenvolvimento económico local (Mangorrinha, 2006).

Apesar do engarrafamento e comercialização da água termal funcionar como factor mais ligado ao termalismo, apenas uma pequena parte das águas passa pelo processo de industrialização. Na manutenção destes equipamentos industriais de recolha das águas minerais, o factor sustentabilidade é cada vez mais importante para uma equilibrada integração paisagística, tendo em vista as necessidades  das gerações futuras e adaptando o processo de captação da água termal a este princípio, bem como a preservação do meio ambiente. Para a indústria termal ser sustentável é importante atender a questões sociais, entendendo o ser humano como parte integrante do meio ambiente; questões energéticas, considerando que a energia é geradora de produção económica e da consequente melhoria das condições de vida da população.

O termalismo em Portugal nunca atingiu valores de oferta e procura semelhantes aos restantes países europeus, por razões políticas e económicas e também devido à sua secundarização pela classe médica. Portugal possui uma das mais completas variedades de água termal da Europa e condições climáticas favoráveis que permitem o funcionamento anual das estâncias termais (Mangorrinha, 2000). Daqui parte a importância de se dinamizarem as termas e de se criar uma rede termal a nível nacional que demonstre consistência e seja projectável internacionalmente.

 

Medeiros, Daniela Faria Vilela Lourenço

RECUPERAÇÃO E REVITALIZAÇÃO DO PARQUE TERMAL DO PESO

http://hdl.handle.net/11067/1506

Universidade Lusíada do Porto

Dissertação para obtenção do Grau de Mestre

Porto 2013

UMA VIAGEM PELA SERRA DA PENEDA

melgaçodomonteàribeira, 21.05.22

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CAMINHOS E FRONTEIRA NA SERRA DA PENEDA

Suzanne Daveau

 

A SERRA DA PENEDA NA ACTUALIDADE: TRINTA E TRÊS ANOS DE COMPLEXA EVOLUÇÃO

 

Abandonando agora o apaixonante jogo de reconstrução do passado, queria resumir o que a experiência própria me ensinou sobre a evolução da serra. A partir de 1971, pude aproveitar uma dezena de oportunidades para percorrer a serra tanto no Verão como no fim do Inverno. Pude assim observar a enorme diversidade das paisagens serranas e dos modos de vida dos habitantes, bem como aspectos e ritmos da rápida evolução recente destes últimos. Durante as minhas primeiras viagens, impressionou-me em especial a importância das barreiras, não apenas naturais, que fragmentavam então a Serra. A fronteira espanhola era bastante estanque, com passagem oficial apenas em Melgaço ou no Lindoso, que funcionava segundo um horário restrito e exigindo a apresentação de complexa documentação.

A criação do Parque Nacional da Peneda-Gerês (8 de Maio de 1971) acabava de recortar a serra, segundo um limite que parecia ter pouco a ver com as deslocações habituais dos habitantes (Medeiros, 1986). A maior parte dos caminhos serranos continuavam apenas acessíveis aos carros de bois e as raras estradas macadamizadas eram tão precárias que se tornava uma verdadeira aventura tentar atravessar a serra pelos cimos, mesmo com carro todo terreno e com bom tempo. Passar pelos vales que recortam a serra era então de todo impossível. Como os viajantes do século XVI, tive mais de uma vez de renunciar e dar a volta ao maciço pelos vales periféricos dos rios Minho e Vez. A serra não tinha então a menor unidade funcional. Castro Laboreiro não passava de um beco sem saída, bem ao contrário do que era no tempo dos almocreves. No entanto, uma atenuante existia a este isolamento, mas só ocasionalmente perceptível pelo observador de fora: o contrabando funcionava. Vi um dia passar uma camioneta carregada de gado, que vinha clandestinamente da Galiza pelos difíceis caminhos do Parque, para escapar assim à fiscalização existente nas outras estradas.

Muito forte era na serra, noa anos 70, a marca da emigração para França, sobretudo em Castro Laboreiro. Construíam-se, durante o Verão, vivendas vistosas nas brandas que dominam a vila. Os emigrantes invadiam a montanha durante as suas vacanças, que aproveitavam para celebrar festas e alegres casamentos. No dia 30 de Agosto de 1976, pude ver autocarros carregadíssimos, que se preparavam para deixar a praça central de Melgaço em direcção a diversos pontos de França. A Peneda parecia-se então mais com um anexo afastado de França do que com a ponta avançada de Portugal para norte.

Durante a noite de 28/29 de Agosto de 1976 caiu em Castro Laboreiro uma forte chuvada, que invadiu o andar térreo da nova pensão, obra de emigrantes, vistosamente instalada a pouca distância da antiga vila, num lugar baixo para onde convergiam vários caminhos murados. Os donos da pensão, desenraizados da realidade serrana, ignoravam que o clima da Peneda já não é mediterrâneo e inclui abundantes chuvadas ocasionais no Verão. Ignoravam também as consequências práticas dos pormenores topográficos do lugar. Depois de um dia de muito trabalho, onde tinham servido um banquete de casamento, acordaram sobressaltados em plena noite, no momento em que a água alagava as suas camas e tinha já afogado o motor dos carros de numerosos hóspedes.

p.93

CAMINHOS E FRONTEIRA NA SERRA DA PENEDA

EXEMPLOS NOS SÉCULOS XV E XVI E NA ACTUALIDADE

SUZANNE DAVEAU

Revista da Faculdade de Letras – Geografia

I série, vol. XIX, Porto, 2003

HISTÓRIA DOS MUNICÍPIOS

melgaçodomonteàribeira, 14.05.22

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MELGAÇO: SENTINELA AVANÇADA

 

Melgaço é de todos os municípios portugueses o que se situa mais a norte e mais profundamente penetra na Galiza. Não são muito claras as circunstâncias históricas em que foi outorgado o seu antigo foral. É, porém, evidente que existiu um processo negocial e os hiatos verificados no decorrer do mesmo serão até responsáveis por que a datação ficasse ambígua (1183-1185).

Alguns documentos do antigo Cartulário de Fiães dão conta do movimento que acompanhou a erecção do município. Em 30 de Junho de 1185, os juízes e o concelho de Melgaço fizeram um acordo com o Abade do mosteiro de Fiães sobre a construção da nova igreja paroquial. No entanto, o projecto de construção da igreja não foi avante, talvez pela incapacidade do mosteiro, há posta em dúvida num dos documentos anteriores: “sit facta ecclesia ab abbate et conventu si tamen potuerint”. Em Abril de 1187, fazia-se um novo acordo, desta vez entre “omnes homines de Melgazo tam viri quam mulieres” e o arcediago Garcia, em que ambas as partes se comprometiam a ajudar-se mutuamente na edificação do templo “tali pacto ut facias illam et edifices nobiscum te adiuvantibus et de necessarii ecclesie tibi ministrantibus donec sit perfectam et consumatam”.  Dali a cinco anos o templo estava concluído, conforme consta de um acordo, de Abril de 1205, entre o arcediago e o abade de Fiães, sobre o serviço na igreja de Melgaço, o qual é assinado, em representação do concelho, pelos juízes Paio Garcia e João Rodrigues.

As negociações relativas ao foral decorreriam sob as ordens de D. Sancho I, associado à governação nos últimos anos da vida de seu pai, D. Afonso Henriques. O rei povoador estaria já a preparar as acções militares que planeara para os primeiros anos do seu reinado na fronteira do Minho, se não para a estender, pelo menos para a consolidar, e interessar-lhe-ia garantir o apoio do activo grupo de migrantes que, descendo pelas margens do rio, avançara mais para ocidente que outros, nos caminhos que prolongavam a estrada que atravessava o norte da Península e veio a ser conhecida pelo nome de estrada de Santiago.

O modelo que os moradores propuseram ao monarca foi o de Ribadávia, povoação que se localizava nesse caminho. A carta de foro desta comunidade foi outorgada em 1164 e reproduzia a que tinha sido concedida a Allariz e iria ser comunicada a outros lugares. A sua mais remota referência é o foral de Sahagún.

 

HISTÓRIA DOS MUNICÍPIOS

(1050-1383)

António Matos Reis

Livros Horizonte, Lda.

Lisboa, 2006

pp. 330-332

CRÓNICA DEL REY D. JOÃO O I

melgaçodomonteàribeira, 07.05.22

804 b sec xvi cast melg.jpg

vila de melgaço por duarte d'armas - sec. xvi

CRONICA DEL REY D. JOAÕ O I

 

CAPITULO LXXIII

 

CERCA EL REY A VILLA DE MELGAÇO: SUA ENTREGA, E SAHIDA DOS CASTELHANOS

 

Estando el rey na Cidade do Porto, veio a elle hum embaixador chamado Ambrosio de Marinis, enviado por Antimoto Adorno Duque de Genova, e dos anciaõs daquela comunidade, per que mandavaõ pedir a el Rey a valia das mercadorias das naos Genovezas, que foraõ tomadas no tempo do cerco de Lisboa. Sobre o que el Rey deu boa reposta, sem o remeter aos officiaes da Fazenda, como agora se faz: e o que montava nellas, que eraõ setenta mil dobras de ouro, lhe mandou logo el Rey pagar; com que o embaixador foi mui contente.

Nesse mesmo tempo partio el Rey para Braga, onde fez Cortes sobre cousas do Estado do Reyno, e partio para Melgaço sinco legoas acima de Tuy, e meia legoa do Minho, Villa do Reyno bem cercada, que estava por Castella. El Rey chegou a ella no mez de Janeiro de 1388 com seu campo, em que hiaõ D. Pedro de Castro, o Prior do Hospital, e Joaõ Fernandez Pacheco, e outros, que seriaõ por todos mil e quinhentas lanças, e muita gente de pé. Os de dentro, que estavaõ por defensaõ da Villa, eraõ Alvaro Paes de Soto Mayor, e Diego Preto, e Xemeno, com trezentos homens de armas, e outros tantos homens de pé escudados. El Rey assentou seu arraial e começou a combater com todo o genero de artifícios, e engenhos, a que chamavaõ trons, com que atiravaõ grandes pedras; a que tambem os de dentro respondiaõ com outras: e assi ouve muitas escaramuças. E vendo os de dentro huma taõ grande bastida, que el Rey mandou fazer de muitos sobrados, em que hiaõ os besteiros, a qual se movia por carros, e engenhos, sendo mui alta, e de grande largura, receando que a Villa podesse ser entrada, mandaraõ dizer a Joaõ Fernandez Pacheco lhe fosse falar; e el Rey o mandou: e chegando á barbacaã, e Alvaro Paes ao muro, falaraõ de vagar, e naõ se concertaraõ sobre a entrega da Villa. Nesse dia ouve huma escaramuça mais para ver, que as que até alli eraõ passadas; porque duas molheres bravas, huma do arraial, e outra da Villa, se desafiaraõ, e vieraõ aos cabelos: e por fim venceo a do arraial, como mais costumada a andar na guerra.

Nesse meio tempo chegou a Rainha a Monçaõ, tres legoas de Melgaço: vinhaõ com ella o doctor Joaõ das Regras, Joaõ Affonso de Sanctarem, e outros cavalleiros: dahi se veio ao Mosteiro de Feaes, huma legoa de Melgaço. Ao arraial chegou o Conde D. Gonçalo, e Joaõ Rodriguez Pereira; e escaramuçaraõ os do Conde com os da Villa, e foraõ feridos de ambas as partes, e nenhum morto. A aquelle tempo veio recado a el Rey que a villa de Salvaterra, que lhe deu D. Pedro de Castro, hum tabaliaõ do logar, e dous homens de armas a deraõ a Payo Sorodea. El Rey mandou logo lá o Prior D. Alvaro Gonçalvez com muita gente, mas naõ aproveitaraõ nada: e querendo el Rey mudar o artificio da bastida para prosseguir o combate de Melgaço, mandou chamar a Rainha, para que a viesse ver como se entregava. E a huma segunda feira, que eraõ tres dias de Março, depois de comer, mandou el Rey que abalasse a bastida com seus engenhos contra a Villa, e se moveo com grande força de gente, e andou dezoito braças. Após ella moveo huma ala, e despois outra e estiveraõ ambas arredadas do muro. Despois moveraõ a bastida outra vez, e foi bem: e chegou tanto á Villa, que punhaõ hum pé dentro do muro, e outro na escada; e sobio muita gente do Prior primeiro que todos, e mandou el Rey que se retirassem a fóra. Entaõ se fez prestes para mandar combater, e mandou a dez homens de armas que sobissem no mais alto sobrado, onde hiaõ as pedras de maõ, e moveo tudo juntamente, as escadas, e a bastida, em que hiaõ os homens de armas, e bésteiros. Da bastida sairaõ homens com grossos paos, que acostavaõ ao muro, e punhaõ tantos delles, que ficavaõ emparados os debaixo das pedras, e fogo, que de cima do muro lançavaõ; mas os de baixo lançavaõ muitas pedras aos de dentro, por naõ terem defensaõ. E enfadados os da Villa, mandaraõ outra vez pedir a el Rey lhes mandasse falar; e tornou lá a isso o Prior, naõ querendo el Rey consentir em avença alguma, sendo cousa que aos outros lugares concedia benignamente; mas queria tomalos por força, para se vingar de algumas palavras descortezes, que contra elle tinhaõ dito: e sobre isso ouve altercação entre el Rey, e os seus. Joaõ Rodriguez de Sá disse a el Rey, que lhe parecia bem fazerlhe partido, pois o cometiaõ; porque, tomandoos por força, lhe podiaõ matar algum homem, com que fosse anojado. El Rey lhe disse com ira, que quem tivesse medo, naõ entrasse na escala. Eu, senhor, disse Joaõ Rodriguez de Sá, naõ no tenho, se dizeis isso por mim: mas cuido que nunca me conheceste por tal. Nem eu (disse el Rey) o digo por vós; mas digoo, porque os tenho já por rendidos. A gente miúda, com dezejo de roubar, queriaõ  que perseverasse até tomar a Villa por força. Os nobres estavaõ por Joaõ Rodriguez. Em fim el Rey consentio na entrega a partido; e tornou lá o Prior, o qual assentou com elles, depois de muita razoes, que dessem a Villa, e o castello, e elles sahissem em calsas, e gibões sem outra cousa. Desta maneira foi dada a Villa de Melgaço, avendo cincoenta e tres dias que estava cercada. Dada a Villa por esta maneira, correo nova polo arraial que todos os cercados aviaõ de sahir despidos com suas varas nas maõs. Os moços, sem lho alguem mandar, ouvindo aquillo, foraõ colher varas, e cada hum trouxe o seu feixe, e pozeraõse á porta da Villa, para, quando os cercados sahissem, lhas meterem nas maõs a cada hum. Nisto, primeiro que todos, sahio hum mancebo pouco mais de vinte anos, e chegou onde el Rey estava: e, posto de joelhos diante delle, disse que elle era hum fidalgo, que viera áquelle logar per servir a el Rey seu senhor, cujo vassalo era: e por sua desaventura, sendo aquellas as primeiras armas, que tomara para o servir, via que lhe era forçado perdelas, segundo o que com os da Villa sua Alteza tinha tratado, que era a cousa de maior tristeza para elle de quantas lhe poderaõ acontecer, naõ por a perda das armas, que sua valia era pouca, mas porque lhe parecia que já com outras naõ averia nenhum bom acontecimento, se aquellas, que primeiro vestira, as perdesse de tal maneira. Por tanto lhe pedia por mercê lhas mandasse tornar: e quereria Deos que ainda lhe fizesse com ellas tal serviço, salva a honra de el Rey seu senhor, e sua lealdade: com que as ouvesse nelle por bem empregadas. El Rey, em que avia muita humanidade, e cavalaria, vendo a boa indole daquele mancebo, mandou que suas armas lhe fossem tornadas; e naõ se achando, lhe dessem quaes elle escolhesse: e assi só elle sahio armado. Ao outro dia foraõ lançados todos fora despidos em calsas, e em gibões: e os moços, naõ entrando aquillo no partido, metiaõlhe a cada hum sua vara na maõ, e elles as tomavaõ; e alguns por graça diziaõ aos que lhas davaõ: Rogote que me dês huma bem direita, e boa. Assi ouve el Rey a Villa, e o castello, de que deu a Alcaidaria a Joaõ Rodriguez de Sá: e partindo com a Rainha, tornou a Monçaõ.

 

CRONICAS DEL REY DOM JOAÕ DE GLORIOSA MEMORIA, O I

POR DUARTE NUNES DE LEAÕ

LISBOA

Na offic. de JOZE’ DE AQUINO BULHOENS

Anno M. DCC. LXXX

O CASAMENTO DOS MEUS BISAVÓS

melgaçodomonteàribeira, 30.04.22

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A 18/10/1876, nesta igreja paroquial de Santa Maria da Porta, concelho de Melgaço, arcebispado de Braga Primaz, na minha presença compareceram os nubentes Félix Igrejas e Conceição Costas, os quais sei serem os próprios, com todos os papéis do estilo, e sem impedimento algum, canónico ou civil, para o casamento. Ele de vinte e dois anos, solteiro, alfaiate, natural de Orense, na Galiza, onde foi baptizado, e exposto no hospício da mesma cidade, filho de pais incógnitos. E ela de vinte e quatro anos, solteira, lavradora, natural e baptizada na freguesia de Alveios, bispado de Tui, na Galiza, moradora no lugar de Carvalhiças, desta freguesia de Santa Maria da Porta, filha de José Costas e de Josefa, naturais da freguesia dita de Alveios, os quais nubentes se receberam por marido e mulher, e os uni em matrimónio, procedendo em todo este acto conforme o rito da Santa Madre Igreja Católica, Apostólica, Romana. Foram testemunhas presentes, que sei serem os própios, José Costas, casado, lavrador, e Caetano Celestino de Sousa, casado, mordomo da igreja, morador nesta freguesia de Santa Maria da Porta. E para constar mandei lavrar em duplicado este assento, que depois de lido e conferido perante os conjugês e testemunhas, comigo assinou só a segunda testemunha, e não os outros, por não saberem. Era ut supra.

O encomendado:

José Joaquim Pires