Sábado, 8 de Dezembro de 2018

O RESPONSO DO CONTRABANDISTA

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talha do mestre abel barrenhas igreja de santa maria da porta

 

O CONTRABANDO

O concelho de Melgaço encontra-se situado no extremo Norte de Portugal, entre o rio Minho e o rio Trancoso, que fazem de fronteira natural entre o Minho e a Galiza. A partir de Portelinha começa a demarcação da raia seca. A Sul o concelho fica delimitado pelos concelhos de Arcos de Valdevez e Monção.

Ao longo de toda a fronteira natural, para além de uma alfândega em S. Gregório e de uma delegação em S. Marcos, existiam de ambos os lados vários postos guarnecidos de guardas-fiscais e carabineiros, que tinham por missão fiscalizar a entrada de pessoas e bens. O que dificultava a acção dos prevaricadores da lei das fronteiras, dos chamados «contrabandistas».

O contrabando era uma actividade muito antiga, praticada pelas populações que viviam nas margens do rio Minho, do Trancoso e da raia seca na zona de Castro Laboreiro.

Contrabandear foi a única maneira encontrada pela maioria das gentes do Minho e da Galiza para ganhar uns escudos ou umas pesetas. Era, por assim dizer, a única porta de entrada, e saída, para o exterior, para nós e para eles.

A necessidade e o interesse por esta actividade eram mútuos. Era só praticá-la. Mas pela frente, além do obstáculo natural de atravessar o rio Minho, sobretudo no inverno, havia que ludibriar a vigilância continua dos Guardas-fiscais e dos Carabineiros.

O contrabando tanto ia para lá como vinha para cá, o factor dominante sendo o câmbio entre o escudo e a peseta.

Na zona de Melgaço, em maior ou menor escala, fez-se contrabando de tudo: galinhas, ovos, café, sabão, peças de pano, alfinetes, agulhas, pedras de isqueiro, estanho, volfrâmio, gado, porcos, bacalhau, bananas, azeite, meadas de arame, arados, sulfato, máquinas de sulfatar, etc.

Após a guerra civil 1936/39, a Espanha estava necessitada de tudo. Quase todas as famílias andavam no contrabando, embora sabendo que corriam riscos.

As autoridades de um lado e do outro, lá iam facilitando, embora de vez em quando para tapar os olhos, faziam algumas apreensões. Tinha que ser, não podia passar tudo. Só que às vezes pagava o justo pelo pecador.

Houve muitas pessoas que começaram a contrabandear uns quilos de café e depois chegaram a encher mais que um vagão do comboio só de uma vez.

Para isso, foi necessário construir armazéns próximos da fronteira, comprar camiões, fazer barcos, comprar mulas e até fazer caminhos e estradas para chegar próximo da fronteira.

Recrutavam homens nos cafés e nas tabernas para carregar as cargas de mercadoria, que era transportada ás costas através dos campos e dos montes, saltando valados, corgas e ribeiras, para não serem vistos pelas autoridades.

Em S. Gregório, houve uma sociedade que levava os camiões de café até aos Casais e a Cevide. Depois era só atravessar o rio em barcos e carregar os vagões do comboio do outro lado.

O café era colocado ao pé da linha do comboio, jogo combinado com o chefe da estação da Frieira, que fazia o sinal vermelho e, em poucos minutos, o comboio ficava carregado e seguia o seu destino.

Na zona de Castro Laboreiro, as mulas é que transportavam as cargas do contrabando através dos montes e das serras.

No rio Minho, os pequenos contrabandistas não tinham barcos. Passavam o contrabando em pequenas batelas ou gamelas de madeira muito frágeis, pondo em risco a própria vida. Morreram várias pessoas por afogamento.

 Quando não tinham barco ou batela, em pontos estreitos do rio cordeavam o contrabando em pequenas quantidades.

No rio Trancoso, passava-se o mesmo durante o inverno. Observei várias vezes junto dos moinhos do Recobo, em frente à porta do moinho do «Zé Moreno» e dos herdeiros, as pessoas a cordear cestas de ovos e outros artigos. O galego que trazia a corda para cordear os ovos chamava-se sr. Júlio Reinales. Em criança, lembra-me de ir a casa dele, à Aldeia do Souto, com minha avó Josefina e com Pureza da Marga. Também levei muitas dúzias de ovos. Quando o rio estava bom, passávamos junto ao moinho da tia Joaquina, ou do Alberto. Entretanto, acabou a rambóia dos ovos. O contrabando que durou até à entrada de Portugal na Comunidade Europeia foi o do café e de outros produtos.

Na parte de cima da igreja, houve dois homens que desde sempre fizeram contrabando sozinhos e que depois com homens por conta deles contrabandearam muito café. Chamavam-se eles o Nelo da Ozinga e o Zê Moreno já falecidos. Estes dois homens eram dos mais arrojados para contrabandear. Chegaram a passar o rio Trancoso a tralhão (tudo a eito), como eles diziam. Para fugir aos guardas-fiscais e aos carabineiros levavam o contrabando a Deva, a Trado e onde calhava, para ganhar a vida. Apanharam muitos sustos, suadelas e molhadelas, debaixo da chuva e do frio. Era muito dura a vida de contrabandista.

Cristóval sempre foi um ponto de passagem de contrabando. A Galiza após a guerra civil de Espanha estava carenciada de tudo.

Todos os comerciantes da zona faziam muito negócio com os galegos. Chegava-se a fazer fila indiana pelos carreiros de dia e de noite.

Ainda me lembra de os galegos entrarem para a casa Branca por um portão pequeno que dá acesso para a Corga da Marga. Saíam por ali carregados com cargas de contrabando. Outras vezes desciam as cargas com uma corda para o campo do Corno da tia Maria (Charameca). Faziam tudo para fugir e enganar os guardas-fiscais. Já lá vão mais de 50 anos. Ainda o falecido sr. Manuel Martinho morava lá.

Outro senhor que também vendia e levava contrabando aos galegos era o sr. António (do Orfo), que após ter regressado do Brasil montou uma loja na casa que actualmente pertence ao sr. Armando (Videira). A maioria das pessoas foi pelo mundo à procura da fortuna, este senhor também foi, regressou e veio fazer fortuna na sua terra.

Contou-me muita vez minha avó Joaquina que sr. António (do Ofro), quando regressou do Brasil, ao chegar a S. Gregório, deixou ficar a mala e depois mandou um senhor conhecido (pelo Nacho) buscá-la; quando este chegou ao lugar da Porta, disse: «a mala do sr. António (do Ofro) pesava muito, deve trazer muito dinheiro».

Quando abriram a mala, tiveram uma surpresa: o dinheiro eram pedras. Tinha sido ele que, por malandrice, enchera a mala com pedras.

Naquele tempo os brasileiros tinham a fama de ter muito dinheiro, só que neste caso nem fama nem proveito.

No entanto, com a sua loja fez fortuna na sua terra. É assim a sorte, por vezes está mais perto do que pensamos.

Dizia-me a minha avó muitas vezes: «estás a ver, a ser rico custa muito, mas ser riquíssimo não custa nada, um dinheiro ganha outro».

Muitas vezes tenho pensado nisto, eu era criança, para mim parecia-me um conto de fadas, mas, passados estes anos todos, penso para comigo mesmo: “Como é que uma pessoa que não sabia ler sabia que o dinheiro ganhava dinheiro”. Hoje todos nós sabemos isso, naquele tempo nem todas as pessoas pensavam assim.

Além do contrabando, o sr. António (do Ofro) dedicava-se também ao câmbio de moeda. O senhor a quem ele confiou algumas destas tarefas chamava-se Aniceto Pires, e deslocava-se muito longe a levar e trazer moeda, bem como contrabando.

Ainda fui algumas vezes com ele levar meadas de arame, arados, sulfato e máquinas de sulfatar.

Normalmente, íamos de manhã cedo. Antes de sair, o Niceto rezava os responsos de Santo António. Se não se enganasse a rezar, dizia que tudo ia correr bem, se, por acaso, se enganava dizia que era melhor não ir, que ia correr mal. Se mesmo assim ia trocava constantemente de caminho ou carreiro.

 

Era este responso que ele e muita gente rezavam:

 

Santo António de Lisboa                        E três vezes chamou

Em Lisboa nasceste                                António! António! António!

Em Pádua morreste.                                E  três coisas te pediu,

No púlpito que o Senhor pregou            Que o perdido fosse achado,

Também vós pregaste                             O esquecido lembrado

Indo pelo caminho                                  E o morto ressuscitado.

Perdeste o breviário

Jesus Cristo vo-lo encontrou

                                                   Maria de Jesus Marques – Pousadas

 

Melgaço, Minha Terra – Minha Gente

Histórias de um Marinheiro

José Joaquim da Ribeira

Edição: Câmara Municipal de Melgaço

             José Joaquim da Ribeira

2006

pp. 130, 131, 132

 


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Sábado, 1 de Dezembro de 2018

DOS MUSEUS DE MELGAÇO

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museu do contrabando

 

A MEMÓRIA COMO PATRIMÓNIO: DA NARRATIVA À IMAGEM

 

  O município de Melgaço, em alternativa à criação de um único espaço museológico, tem optado pela criação de uma rede de pequenos museus. O núcleo museológico da Torre de Menagem e as Ruínas Arqueológicas da Praça da República têm, também eles, uma evidente conotação histórica, mas o «Espaço Memória e Fronteira» é o único que procura fazer uma ponte com o presente, isto é, que procura dar sentido e conteúdo à memória colectiva através da construção de uma narrativa em que a comunidade pode e deve rever-se. A junção do contrabando e da emigração no mesmo espaço físico e em semelhantes balizas expressivas faz por isso todo o sentido. Não só pela permeabilidade entre as duas actividades – em lugares de fronteira a emigração incrementa-se não tanto pela diminuição do contrabando mas pelas transformações internas da actividade – mas também porque congregam tópicos discursivos convergentes. As ideias de travessia, de clandestinidade, de enfrentamento dos perigos e da luta pela sobrevivência e melhoria das condições de vida para a família, contam-se entre esses tópicos.

 

Luís Cunha

Universidade do Minho, CRIA

2010

 


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Sábado, 24 de Novembro de 2018

O LILI DO TEODORICO

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UM LUGAR ONDE NADA ACONTECIA…

I

O Lili do Teodorico era o assunto de momento. O Alfredo Pereira, mais conhecido como Pandulho, oficial de diligências, divulgou que o rapaz fora indicado pelo ministério público e iria a julgamento. Perplexo, o povo da terra passou a especular. Inventavam várias hipóteses para explicar o acontecimento.

Novamente o Pandulho, que tinha acesso ao processo deu a explicação: o Lili, Teodorico João Fernandes como fora baptizado, escrevera ao Ministério da Saúde, em Lisboa, reclamando do não fornecimento da penicilina à sua farmácia. E acrescentara: «os donos das outras farmácias da região estavam ganhando muito dinheiro vendendo o remédio para a Espanha». A reclamação foi tomada como denúncia e teria de provar tal afirmativa.

O uso da penicilina era rigorosamente controlado e sua comercialização não oficial era considerada crime contra a economia nacional. No fim da segunda guerra mundial os jornais anunciaram como grande descoberta, um medicamento que iria acabar com todas as doenças inflamatórias, a penicilina. O povo simples logo enfeitou a notícia a seu belo prazer.

Naquela pequena e humilde vila dos confins de Portugal, ou melhor, onde começa Portugal, a notícia da maravilhosa descoberta gerou várias versões. Seria a redenção da humanidade, curaria todas as doenças e até nem precisaria ser comprada nas farmácias. Os mais esclarecidos destrinçaram a notícia: num laboratório nos Estados Unidos, uma cultura de germens produziu um certo bolor que eliminava vírus, bactérias e micróbios. Elaborado foi comercializado com o nome de penicilina. Ora, naquela região desde sempre as famílias fabricavam o seu próprio pão. Em priscas eras, de centeio, depois, desde que o milho foi introduzido na Europa, deste cereal. Era o pão feito em grandes broas que duravam a semana inteira. Acontecia que quando não ficava bem cozinhado ao fim de dois ou três dias embolorava; apareciam fungos esverdeados. Quando estas manchas bolorentas tomavam todo o pão não dando para apenas raspar os pequenos pontos, era jogado aos animais, porcos e galinhas, até um dia, no advento da grande descoberta, que alguém divulgou que aquele mofo era penicilina. Ninguém mais jogou pão aos animais durante bastante tempo.

   Importada dos Estados Unidos da América era a penicilina restrita a poucos países inicialmente, e em Portugal chegava em pequena quantidade e seu uso estava sujeito a justificação requerida a organismo próprio. A Espanha que, durante a guerra, fora aliada da Alemanha, sofria bloqueio comercial das potências aliadas que haviam ganhado a guerra. E ainda sentia as consequências da sua guerra civil. Estava carenciada de tudo. O contrabando de Portugal para Espanha era a momentânea opulência da gente fronteiriça. Esta situação manteve-se os anos quarenta e cinquenta do século XX.

(continua)

 


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Segunda-feira, 19 de Novembro de 2018

E VÃO TRÊS...

 

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ANIVERSÁRIO DA EVA

 

 

 


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Domingo, 18 de Novembro de 2018

MELGAÇO TREMEU

SISMO DE 3,4 SENTIDO EM MELGAÇO

O NORTE DO PAÍS TREMEU

 

Um sismo de 3,4 na escala de Richter foi sentido a norte do país, mais precisamente em Melgaço.

Segundo indica o site do Instituto Português do Mar e Atmosfera, o epicentro do sismo localizou-se a cerca de 4 quilómetros a Este-Nordeste de Melgaço,  em Viana do Castelo.

O alerta para o abalo foi dado às 19h55 deste sábado.

www.noticiasaominuto.com

 

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Sábado, 17 de Novembro de 2018

DO SUBLIME AO GROTESCO

770 - 1 joão vilas.jpg

 

NOITE FECHADA

 

Noite densa povoa horizontes

Regresso à pacatez da minha cela…

Inspiro-me de novo à luz da vela

E sonho com vales assombrados;

Bebo água que jorra das nascentes,

E ganho mais abrigo nas correntes;

Desço pelos negros altos montes…

Desapareço…

Sinto passos, vejo cães enfeitiçados;

Salto rios, salto abismos, salto pontes…

E adormeço.

 

 

DO SUBLIME AO GROTESCO

                     Poesias

João Vilas

Ancorensis – Cooperativa de Ensino, C.R.L.

Vila Praia de Âncora

2000

p. 20

 

JOÃO MANUEL VILAS nasceu em Melgaço, na freguesia da Vila, em 25/11/1960. Licenciado em Humanísticas, pela Faculdade Filosofia de Braga, é professor de Português na Ancorensis – Cooperativa de Ensino, desde o ano lectivo 1987/88, depois de ter passado por outras escolas: Preparatória de Caldas de Vizela, Secundária de Arcozelo (Barcelos) e Santa Maria Maior (Viana do Castelo).

Há muitos anos que desenvolve o seu gosto pessoal na área do Teatro e da Poesia, tendo participado em inúmeros espectáculos – como actor e animador – e em Momentos de Poesia, dinamizando e declamando.

Co-responsável da Revista Letras de Âncora (Ancorensis – Coop. De Ensino), desde a primeira publicação.

 


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Sábado, 10 de Novembro de 2018

O LOBO DE CUBALHÃO

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OS LOBOS

 

No tempo em que de noite não havia luz em lado nenhum, os lobos vinham com frequência visitar as casas. Nas noites escuras de Inverno, quando certos barulhos circundavam as casas, todos se arrepiavam, pensando no lobo esfomeado.

As histórias de pessoas e rebanhos devorados pelos lobos ouviam-se com frequência junto à lareira. Naquele dia o Agostinho tinha ido a Castro Laboreiro com o seu carro de bois. Ganhava a vida carregando feno, vinho ou lenha dos montes. Camiões e camionetas era coisa que não existia. Nesse dia carregara o carro com uma pipa de vinho para o Laboreiro e, no regresso, para aproveitar o frete, trazia um carro de feno, abundante lá para Castro Laboreiro. Já que tinha que fazer o caminho, assim ganhava duas vezes, ocupando sempre o carro.

Quando regressou, como a viagem era longa e o caminho difícil para a segurança da carga, já fazia noite. Vinha sozinho com os bois entrepostos pela ladeira a baixo, com um aguilhão para picar o gado. No meio da escuridão, o gado parecia conhecer melhor o caminho do que o tio Agostinho, que ora seguia à frente dos animais, ora se colocava ao lado, conforme os locais e a disposição.

Havia passado Lamas de Mouro e estava perto de Cubalhão, num sítio a que chamam «as Grandes Botas de Cubalhão». Num raio de 4 ou 5 km não se vê viva alma ou casa habitada. Ali não existe nada! As pessoas diziam que aquelas «botas» eram muito medrosas por ali ter sucedido há muito tempo acontecimentos estranhos com lobos. Conta-se que ali, numa encruzilhada, aparecia um lobo que comia as pessoas. Todo o que por aquele local passava, a uma certa hora, era comido! É verdade que alguns diziam terem visto no dito lugar botas, bocados de pés…  Acontece que uma vez um homem muito valente, quando soube que tinham aparecido mais umas botas e pernas disse: “Eu vou desafiar o lobo! Vou matar esse lobo maldito!” Ninguém queria acreditar no que estava a ouvir. Os outros homens bem tentaram dizer-lhe que o que pretendia era uma loucura, e que iria morrer, como os outros; que ele sozinho não conseguia matar o lobo. Mas ele fez ouvidos de mercador e, depois de se apanhar com uma boa caneca de vinho, foi para a encruzilhada a esperar o lobo, levando consigo um valente pau com que estava habituado a lutar nas festas e nas feiras da região.

A dado momento apareceu o lobo. Assim que o viu, o homem levantou o pau, em posição de espera, ora rodando à direita, ora à esquerda, na tentativa de não ser surpreendido pelo lobo. O lobo foi-se aproximando, confiante, mas sem grande entusiasmo, como querendo estudar os golpes do seu adversário. O homem bem tentava «botar-lhe» o pau, mas o lobo, de tão manhoso e inteligente, apanhava o pau ao homem com o rabo! O pobre do homem por mais ágil que fosse, não conseguia acertar nem na cabeça nem no corpo do lobo, porque este desviava sempre o pau com o rabo. Durante a noite o homem foi lutando sempre, na expectativa de acertar na cabeça, mas sem sucesso. Começava a ficar cansado e a baixar cada vez mais a vara. Parecia que o lobo sabia o que estava a fazer: levar o pobre do homem a tal fadiga que, não podendo depois defender-se, o poderia comer a seu belo prazer.

Na aldeia a espera já angustiava os mais hesitantes. Então, um dos amigos, foi atrás dele: - “Esse desgraçado vai fazer-se comer! Deixa-me ir acudi-lo”. Pegou num outro pau e lá foi, não sem antes deixar de levar consigo lume, para assustar o lobo. Quando chegou junto do amigo, estava ele ainda a lutar com o lobo, e o lobo a deitar-lhe o rabo… Resolveu atacar o lobo pelo outro lado, a ver se lhe acertava na cabeça, pois ele não se podia defender dos dois ao mesmo tempo. Desta forma conseguiram dominar o lobo e matar a fera que a todos assustava.

Estava o tio Agostinho a pensar nesta luta, quando viu aproximar-se dele um grande cão, que logo viu ser um lobo! Perante tal visão, sentiu um arrepio pelo corpo todo. Segurou com força o aguilhão do gado, e colocou-se na frente dos bois, sem nunca tirar os olhos daquele animal que não deixava, agora, de o seguir. Durante 2 km o lobo acompanhou-o, sem mostrar qualquer receio, nem esboçar qualquer ar de ferocidade. Não teria ele fome? Estaria ele ali só para lhe lembrar que aquele era o seu território, exigindo o respeito que lhe era devido? A resposta era difícil de encontrar, mas o certo é que, já perto de Cubalhão, às primeiras casas, o latir dos cães ao barulho dos rodados do carro fez parar o lobo. Tio Agostinho sentiu que o sangue voltava, na certeza que dali para baixo já não era terra de lobos.

 

 

CAMPELO, Álvaro, Lendas do Vale do Minho, Valença,

Associação de Municípios do Vale do Minho, 2002, p.89-91

 

Retirado de: CEAO Centro de Estudos Ataíde Oliveira

 

http://www.lendarium.org/narrative/os-lobos/?place=78

 

 


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Sábado, 3 de Novembro de 2018

A HEROÍNA DE MELGAÇO

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IGNEZ NEGRA

 

E já depois da batalha, estando os nossos cercando ainda a praça de Melgaço, que presenciam os dois exércitos? nada menos do que uma pequenina amostra do combate dos Horacios e Curiacios. Grande arruido soa num dos pontos da muralha. Destaca-se, do lado inimigo, uma intrépida Castelhana; do outro, uma Portugueza valorosa. As mútuas injúrias sibilam de uma para a outra como rajadas de vento; e os punhos, depois de se levantarem como imprecações tremendas, arremessam-se para diante, como se no aéreo espaço cada uma supusesse já despedaçar a contrária. As línguas já não tem mais injúrias para despedir nem os braços mais ameaças. O repto para virem às mãos rompe afinal como supremo anseio. Correm então para o meio do campo. Não são duas mulheres, são duas fúrias. Tem por espectadores, que as excitam, os soldados de ambos os campos; e as duas feras, primeiro com as armas, depois corpo a corpo, enovelam-se aos murros, arrancam mutuamente os cabelos na sua raiva furiosa, até que a inimiga, heróica mas vencida, é forçada a ceder a palma à nossa Ignez Negra, a popular combatente de Melgaço.

E assim, pelo correr dos tempos, sempre que o estrangeiro ocupou o nosso território, viu-se a Mulher Portugueza, aqui, além, reagir como protesto vivo em nome do seu sexo, gentil nas salas, meigo nos lares, mas ainda mais furioso do que o nosso quando o ímpeto de qualquer paixão lhe referve na alma.

 

Retirado de:

Fuul text of A mulher em Portugal

Dom António da Costa

Companhia Nacional Editora

Largo do Conde Barão 50

Lisboa 

1892

 


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Sábado, 27 de Outubro de 2018

MELGAÇO NO REINADO DE D. AFONSO V

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ponte românica em lamas de mouro

 

Valença do Minho enviou á assembléa de Lisboa em 1459, entre outros capitulos, este que é curioso sob varios aspectos. Havia n’esta villa, diz o capitulo, bom trafego do sal que aqui importavam d’Aveiro, e vendiam aos Gallegos que vinham por elle em bestas de Terra de Lima, «dourões» e d’outros logares de Galliza. Traziam elles á villa sebo, cera, untos, manteiga e muitas outras mercadorias e mantimentos. A maior parte d’esta gente entrava em Portugal por Crasto Laboreiro e Lamas de Mouro, por ser caminho mais direito e mais seguro; porém Martim de Crasto, alcaide que foi de Melgaço e assim Fernão de Crasto, seu filho, que é agora ahi o alcaide, vedaram-lhes o antigo caminho que elles seguiam, e isto por nos fazerem perder a venda do sal e o commercio de Galliza em razão de termos accusado o dito Martim, no tempo da regencia do infante (e chegou até a ser citado para se apresentar na côrte), de trazer ladrões que roubavam as cargas aos Gallegos que vinham ao sal e os prendiam. Martim e o filho querem obrigal-os a passar por Melgaço na vinda e no regresso, e pagar ahi a portagem que elles preferiam satisfazer em «cubulhom» (hoje Cubalhão) ou na ponte do Mouro, onde os alcaides de Melgaço costumavam receber a portagem. Mas porque se desviavam muito do caminho por esse novo itinerário, cessaram quasi todos de vir de Galliza buscar o sal a Valença, e vão por elle a «rondella» (?), a Ponte Vedra e outros portos da sua terra, do que resultou grande diminuição dos direitos fiscaes. Rematava a villa pedindo que não se mantivessem as innovações estabelecidas pelo alcaide de Melgaço. Em resposta manda o rei que o contador o informe do caso, e declare tambem onde se pagava antigamente a portagem e onde é mais conveniente que se pague. E depois de ouvir o alcaide, o faça (ao rei) «todo sabemte» para resolver o que mais achar por seu serviço e bem do povo (1).

 (1) Chancell. De D. Aff. V, liv. XXXVI, fol. 163.

 

Retirado de: 

http://ler.letras.up.pt

 


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Sábado, 20 de Outubro de 2018

MELGAÇO MEMÓRIA DOS TEMPOS PASSADO E PRESENTE

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A partir de Dezembro de 1982 e até princípios do século XXI, o ímpeto empreendedor que impulsionou o crescimento de Melgaço, foi verdadeiramente notável, pioneiro e arrojado a vários níveis.

Num enorme salto qualitativo para a modernidade, Melgaço posicionou-se à frente do seu tempo e, em muitos aspectos, à frente dos demais concelhos portugueses, em geral, e dos do Alto Minho em particular.

Ontem como hoje, o Município tem sabido acompanhar a contemporaneidade de discursos, abrindo portas à divulgação e projecção dos mais diversos eventos e criando equipamentos de grande qualidade para a fruição sócio cultural.

Muito do seu património edificado, acumulando vivências diversas e remotas na origem, readaptou-se e readapta-se às funcionalidades do tempo presente.

Como destino turístico, estadia de lazer ou local de negócios ou desporto, o diário de visita a Melgaço escreve-se com entusiasmo em qualquer época do ano.

As suas acessibilidades, as potencialidades de desenvolvimento e investimento; a exuberância das suas festas, sejam do Alvarinho e do Fumeiro ou da Cultura, respectivamente em Abril e Agosto de cada ano; o comércio, as unidades hoteleiras e de restauração; os eventos desportivos – com destaque para as diversificadas e polivalentes valências do seu Complexo Desportivo e de Lazer/Centro de Estágios de Melgaço e para o desporto aventura – organização da prestigiada Associação do Melgaço Radical – são motores propulsores do crescer social, económico e cultural do Município.

Talvez por isso, Melgaço foi considerado, entre 2004 e 2006, pelo Instituto de Ciências Sociais, da Universidade de Lisboa, “um dos Municípios portugueses com maior qualidade de vida”. O inquérito, levado a cabo por uma equipa sob a responsabilidade do Geógrafo Doutor João Ferrão, analisou o desenvolvimento de Portugal através de 75 indicadores:

Ambientais,

Demográficos,

Sociais,

Culturais,

E económicos.

Melgaço entrou no século XXI para todo este compromisso de enlaces e pontos de interesse que fazem o engrandecimento e projecção, cada vez mais merecido, da região.

 

MELGAÇO memória dos tempos passado e presente 

J Marques Rocha

Edição do Autor

Patrocínio Câmara Municipal de Melgaço 

2007

 


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