Sábado, 18 de Agosto de 2018

Fragmentos de vidas raianas, 1978 a 1981 - XVII

 

 

Continuação do post do 04 de agosto de 2018.

 

 

Aos sábados, e apenas nesses dias, a Frieira desfrutava de um extraordinário tumulto geral. Para os nativos era uma agradável e distractiva recreação que lhes fazia esquecer a soporífera rotina. Podiam ver gente que não conheciam, discrepante e, casualmente, trocar pareceres. Também havia – embora fosse coisa raríssima – uns  turistas improvisados que vinham admirar a barragem, a selvajaria do rio e a paisagem circunvizinha.

Antes de ser planeada a construção da barragem e da actual ponte, já o edifício que abrigava os comércios do Manolo, estruturado de rés-do-chão e de dois andares,  existia.

Por entre a loja e o que fora uma garagem – agora arrecadação de mercadorias – acedia-se, através de uma escadaria, ao andar inferior, o dos aposentos, e a uma das duas portas do andar térreo, utilizado como garagem e armazém. Um pouco apartado, quase colado à ponte, havia um pequeno barraco também propriedade do Manolo. Tinha-o alugado ao Celso.

No que tinha sido um cortelho, este criador-negociante de gado reconhecido montou  – ainda no tempo do precedente proprietário – um talho equipado com o imprescindível : uma câmara frigorífica de bom conteúdo, um sólido cepo para cortar a carne, uma vigorosa balança com prato, suspensa por um gancho a uma trave, e um pequeno balcão revestido de azulejos brancos.

O espaço, minúsculo, apenas consentia que o número de clientes superasse a meia dúzia quando o talhe era moderado. No exterior, os demais esperavam pela vez. Nos dias chuvosos, refugiavam-se no café. Não tinham outra alternativa, e era de boa vontade. A tenrura e o saibo da carne que o Celso vendia eram as razões principais da vinda frequente de muita gente à Frieira.

Natural de Deva, uma pequena aldeia de altitude, distante da Frieira uma dezena de quilómetros, rondava os sessenta anos. Era um homem bastante encorpado, muito sossegado e, antes de mais, uma pessoa de consciência, da qual irradiava uma lhana empatia. Quando sorria, os olhos castanhos barricavam-se até configurarem duas ovais; do centro sobressaíam dois ínfimos pontos luzidios que faziam amolecer os mais couraçados ou inumanos. Era, sobretudo, popular por ser um dos inusitados homens de palavra.

Apesar de ser proprietário de abundantes haveres na sua aldeia natal – onde criava em liberdade e nas circunstâncias mais originais grande parte dos bovinos e dos suínos cuja carne vendia –, era um homem de grande simplicidade. Analfabeto, pesava a carne e, de cabeça alteada e olhos desvirados, como se estivesse a ler no forro do seu módico talho, calculava mentalmente o preço e memorizava-o. À medida que o cliente ia pedindo, assim agia até à conta final, que nunca ninguém contestou.

Conduzido pelo genro, vinha todas as manhãs para a Frieira e regressava à tardinha à aldeia.

Pecuniariamente, a carne tornara-se mais barata do lado direito do Trancoso e do Minho. Não era, pois, inabitual que, aos sábados e nos dias feriados, muitos portugueses fronteiriços, mas também do interior, se precipitassem para os talhos galegos raianos. Naquela faixa, buscavam, notoriamente, o do Celso. Mas era talvez mais pela sua singularidade do que pelas economias que faziam. A fama da sua carne propagara-se com diligência ao lado português. Uma quantidade apreciável da que era cozinhada em algumas pensões de Melgaço emanava da carniçaria do Celso.

As pessoas vinham em família ou em grupo e, enquanto uns pacientavam no talho pela sua vez, outros faziam compras na loja do Manolo ou temporizavam no café, consumindo algo.

O talho era um poderoso vector de clientela para a loja do Manolo. Poucos eram os portugueses que desciam propositadamente à Frieira comprar mercearia, pescada congelada, polvo, gambas, bacalhau, camarão... Em cima, pouco adiante da alfândega, tinham à disposição vários comércios que vendiam os mesmos produtos e, propriamente, ao mesmo preço.

O Celso tinha como companheiro um pastor belga de Groenendael, atlético cão preto, peludo e impassível como ele. Mimado com pelicas, restos de carne e ossos frescos,  era, evidentemente, o guardião da carniçaria durante a noite.

Ao meio-dia, o açougueiro almoçava no bar do Manolo. Humilde, uma pratalhada da mesma comida que a Rosa cozinhava para os patrões comprazia-o.

Findada a refeição, retirava do bolso da bata de nylon cor-de-rosa com pintas brancas e manchada de sangue uma caixa de tabaco deformada e descolorada pelos anos. Enrolava calmamente um pitillo e fumava com patente bem-estar. Farto, mas brando, cruzava os dois braços por cima da mesa, reclinava a cabeça neles, o tempo de uma fugaz soneca e ficava a esmoer. O hábito da siesta ainda estava muito arraigado em Espanha, sobretudo nas aldeias, vilas e pequenas cidades.

A alteridade horária entre as duas margens – uma hora a menos em Portugal – resguardava-o de ser acordado por imprevisíveis clientes vindos de lá. O cão, por debaixo da mesa, caricaturava rigorosamente o dono.

Para outros visitantes, em bastante menor número, era a riqueza haliêutica do curso de água que os aliciava para aquele lugar banal.  

O rio Minho, não obstante a persistente inquinação suscitada pelos produtos de manutenção das barragens que nele abundavam, era famoso por abarcar nas suas águas uma variedade de peixes qualitativa. Os lugares da Frieira, renomados por serem o começo do curto trajecto mais selvagem do rio Minho – cerca de 80 km –, eram muito disputados pelos expertos piscatórios a fim de detalharem a sua mestria.

A represa, inibindo os peixes migratórios como o salmão, o sável, a truta e a enguia de perseverarem em direcção da nascente do rio, forçava-os a acomularem-se diante dela.

Na época em que a pesca era legitimada, e em particular nos fins-de-semana, aglomeravam-se ali pescadores profissionais, amadores e principiantes. Todos se sentiam habitados pelo mesmo fervor e todos buscavam as mesmas sensações. Vinham de diversas regiões espanholas e, evidentemente, mesmo do outro lado – Portugal.

 

Continua.

 


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Sábado, 11 de Agosto de 2018

UMA FORÇA DE FÉ

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pastoriza por manuel igrejas 2017

 

 

UM LUGAR ONDE NADA ACONTECIA…

 

VI

 

O julgamento do Lili do Teodorico aguardava data. Ele continuava em sua actividade e era assunto das conversas.

Naquele fim de verão, um ano depois do Amílcar ter-se recuperado, numa tarde cálida, quando as pessoas andavam de roupas leves e os homens, na sua maioria em mangas de camisa, a notícia caiu como um raio que a todos fulminou: o Zéca do Aurélio caíra de cama com uma meningite.

Era o José de Araújo Azevedo, conhecido como o Zéca do Aurélio, um distinto rapaz. Filho do senhor Aurélio, abastado comerciante, gozava de estima geral. Alto, bem apessoado, primava pela fidalguia e boa educação. Estudara na cidade do Porto o que lhe dava certa superioridade sobre os demais rapazes. Devia ter nessa altura por volta dos 25 anos.

A consternação inicial que a todos tomara transformou-se de súbito numa força de fé. Numa roda de rapazes e raparigas que se formara no canto da praça, próximo da casa do senhor Aurélio, alguém sugeriu que se fizessem orações. Uma novena seria forte apelo a Deus por intermédio de Nossa Senhora. Resultado. O senhor Pe. Justino perfilhou a ideia e, a partir do dia seguinte, ao fim da tarde, a juventude reunia-se na igreja matriz onde rezavam o terço, liam trechos do Evangelho, faziam reflexões, recitavam a ladainha e entoavam cânticos, intercedendo ao Criador pelo restabelecimento do amigo enfermo, e terminavam o culto com louvação e adoração do Santíssimo Sacramento. Nove dias repetiu-se aquela devoção. O procedimento médico foi o que se tornara usual. Accionada a delegacia distrital de saúde que encaminhou ao órgão competente na capital.

- Se a penicilina chegar a tempo vai ficar bom. Olha o Amílcar que passa o tempo jogando bilhar!

 - Dizem que o caso do Zéca é mais grave, comentavam os rapazes no café!

 

 

VII

 

O doutor Esteves foi chamado para atender a uma rapariga da família que estava muito mal. Informado sobre os sintomas e o que teria causado a enfermidade, negou-se a atender. Que fossem chamar o doutor Sá que era o médico oficial do município! Ele não atendia a desmanchos!

A irmã da rapariga doente desfazia-se em apelos. Ele, doutor Suiça, era o mais entendido em doenças de mulheres. A pleiteante, irmã da enferma era abastada comerciante na vizinha vila de Monção, podia pagar o que ele pedisse. Não e não! Abominava, o doutor Esteves, a prática do aborto! Não admitia que se fizesse tal, fosse a propósito do que fosse! Muito menos por ter emprenhado do namorado. Esta posição do médico era bastante contraditória com a sua filosofia materialista. Considerava crime abortar uma futura pessoa. Mesmo quando o aborto era espontâneo, ele se revoltava.

Aconteceu isso anos depois, quando uma sua criada engravidou dele mesmo. Pensando ser recriminada demitiu-se ao sentir a gravidez. Com poucas semanas abortou e aí, sim, ele enfureceu-se ao saber do caso. Devia ter-lhe confessado; ele a cuidaria uma vez que conhecia o malogro dum caso anterior com um namorado, proclamava o médico a quem lhe falava no assunto.

Aquela comerciante ofereceu vultosa quantia para o médico ir cuidar-lhe da irmã. Ou pelos reiterados apelos ou pelo dinheiro, ele foi, tratou da rapariga e ela curou-se.

 

   Manuel Igrejas

 

 

Publicado em A Voz de Melgaço

 


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Sábado, 4 de Agosto de 2018

Fragmentos de vidas raianas, 1978 a 1981 - XVI

 

 

Continuação do post do 21 de julho de 2018.

 

 

— É uma lástima – desabafou o Manco, afectando desolação ao mesmo tempo que fazia uma curta pausa, questão de o embaralhar e intrigar ainda mais.

Encantado por saber que ia viver um momento de deleite, de vingança mágica, antes que o homem objectasse, proferiu com espontaneidade:

— Sabe por que é pena?

Desconcertado pela incoerência da pergunta, e querendo dar prova de gentileza e de servilismo, o representante oscilou a cabeça negativamente e confidenciou com pudicícia:

— Para lhe ser franco, não sei, caro senhor.

— Pois é muito simples. Também vou ser sincero consigo. Quando era miúdo, uma época que, afortunadamente, não conheceu, na minha família a fome era tanta que, muitas vezes, até pedras éramos capazes de roer se não houvesse outra coisa mais mole. Nunca se desperdiçou um grama de tudo o que se pudesse ingurgitar, nunca, ouviu? Ainda que fosse mal-cheiroso ou que tivesse bichos! Foi assim que, desde pequenino, entre outras coisas, me afiz a comer côdeas de queijo nas quais já se tinham desenvolvido larvas. O mais engraçado é que, pouco a pouco, acabei por ficar doido por estes animais.

O viajante, apavorado pelas palavras do Manco, quase cessara de respirar e fixava-o de olhos bugalhudos. «Introduzi-me na casa de um desequilibrado mental, de um doente ou o homem não estará a falar a sério?», disse para si.

O Manco, convencido da incidência que as suas palavras produziam nele, jubilava. Voltou a tossicar, secamente desta vez.

E, pretextando surpresa, disse:

— Não me diga que nunca teve a ledice de provar – cochichou.

Com a regozijante intenção de lhe dar a estocada postrema, insistiu:

— Como disse inicialmente, devorava queijo com larvas. Claro que, tirando a família, ninguém sabia. Um dia, já era eu dono desta casa, tive a visita de um amigo de infância que, depois de viver mais de trinta anos no México, se instalou em Santiago. Relembrando os tempos de grande pobreza, inopinadamente, disse-me que, em muitos países da América do Sul, comer vermes, formigas, minhocas, gafanhotos e outras coisas semelhantes fazia parte da cultura culinária dessas populações. Eu, que, envergonhado, comia bichos ao abrigo dos olhares alheios, compreendi afinal que não era extravagância nenhuma. E deu-me a receita para preparar as larvas à mexicana. Que maravilha, meu amigo! É um prato primoroso, pode crer-me. A partir daí, deixei de comer queijo; só os vermes que nele se formam é que têm importância para mim. É o meu péché mignon, um petisco especial, uma glutonaria da qual nem o mais requintado caviar iraniano me faria renunciar. Desde então, este amigo traz-me com frequência de Santiago um punhado de colegas composto por uma clientela de gourmets. Tudo gente reputada, fiel e que me dá o privilégio de a satisfazer. Nem pode imaginar o regalo que os vermes cozinhados  pela Vicenta lhes propicia. Só visto.

Fez uma pausa, antes de prosseguir:

— Mas fique ciente de uma coisa: nem todos os queijos geram bichos da mesma dimensão, rigidez, paladar e espécie. As moscas, engenhosas, escolhem os queijos mais nutritícios para as larvas. Não são parvas! E aí é que está a chatice. A coisa não é tão elementar como se pensa. Além disso, a fineza do queijo sem a individualidade da mosca, ou vice-versa, nunca dará uma categoria de larvas opulentas e suculentas. Contudo, como é a minha única paixão, vou tentando aperfeiçoar-me para conseguir os melhores espécimes. Por isso, quando o interroguei, a sua atitude foi justa, pois desconhece inteiramente estes costumes culinários.

Vibrou de prazer, embora o rosto e o olhar perdurassem estáticos. Sentia-se melhor, enlevado consigo próprio. Porém, a garrafa de branco, obsessivamente, foliava-lhe na cabeça. À mala hóstia primitiva sucedera uma paz sádica. Quando o indesejável fosse embora, sabia que mesmo a bebida ia ter um sabor diferente, bonificado.

Nestes casos, o que lhe aprazia eram as díspares alterações fisionómicas dos viajantes. Quanto mais estupor e incredulidade acusasse o rosto, maior era a instigação para elucubrar o chiste. Moldou o grande e denso traseiro por cima da cansada cadeira, que deu por ela crepitando instantaneamente, e, cauteloso, estudou o jovem caixeiro-viajante: ficou com a percepção de que a pele do seu rosto estava encolhida como a de um Shar Pei, formando um dominó de ressentimento e de sanha.

Não restava absolutamente nada do homem gracioso e inexorável que, havia uns escassos minutos se tinha sentado diante dele. Bruscamente, levantou-se. A tensão, forte, era manifesta. Sem articular uma palavra, desandou em direcção da porta a grandes passadas. Nem se dera ao trabalho de inserir o catálogo no attaché case. O infeliz representante, sem dúvida, já anatematizara o Manco.

— Se um dia desejar, será com a maior satisfação que lhe dou a provar as minhas larvas – lançou-lhe.

Desprendeu uma nádega da cadeira e, arrastadamente, facilitou a fuga dum ruidoso bufo, contra o qual havia alguns momentos batalhava. O alívio foi momentâneo e distensor. «Pantomineiros!», exclamou enojado. E deu uma gargalhada estrondeante que, inevitavelmente, fez vibrar os tímpanos do desafortunado viajante, já lesionados pelo artifício do Manco.

Que ficaria a pensar dele? Que era um alienado? Um bárbaro ou um maníaco? Tanto lhe dava. Era como era e estava-se a cagar para quem o desaprovasse..

Fora uma nova vítima da sua ridícula tramóia e não seria decerto a última. Merecera. Eles é que pediam. Já se obliterara do dia que, pela primeira vez, pregara esta partida nem como excogitara a cena dos bichos.

Pôs-se de pé, levou a garrafa vazia para de trás do balcão do bar e deitou a mão a uma cheia. Deu meia volta, pousou o posterior na cadeira e a garrafa no lugar da outra. Com o toco, apertou-a contra a axila e, com a perícia que contraíra ao longo dos anos, foi enroscando o saca-rolhas que residia no seu bolso. Em seguida, prendeu a garrafa entre os joelhos e excarcerou o líquido amigo, sem o qual a sua vida não teria sentido. Encheu o copo daquele vinho branco sem vida, dormente, que mais se assemelhava a urina opaca, e esvaziou-o febrilmente. O organismo gratificou-o liberando-lhe emanações benfeitoras. Do maço de tabaco que tinha no bolso da camisa, extraiu um Ducados – marca de cigarros – e acendeu-o. Deu duas longas passas que lhe incharam os pulmões obnubilados. A inoportuna interrupção do caixeiro-viajante perturbara-o tanto que esquecera o pitillo. Mas isso já fazia parte do passado.

 

Continua.

 


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Sábado, 28 de Julho de 2018

A FORTALEZA DE MELGAÇO

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Augusto C. Esteves, apostado em prosseguir na busca do «Melgaço de antanho», embrenhou-se naquela zona, onde história e lenda se confundem perigosamente, chegando a afirmar o seguinte:

 

Simplesmente o nome deste povo, a palavra Melgaci não esmalta as páginas do livro de Plínio, porque como ele mesmo confessou, pareceu-lhe fastidiosa a enumeração total desses povos.

Ora o chefe dos melgaceos, o celta Melgacus que os baptisou, baptisou também este querido torrão natal, porque escolheu o planalto onde hoje assenta a vila para aí erguer o seu opidum, que lhe serviu, ao mesmo tempo, de centro de governo da sua civitas, de defesa e de habitação; uma fortalesa com duas ou três ordens de muralhas, à semelhança de Briteiros, Sabroso ou Santa Luzia, com casas redondas ou retangulares para o chefe e servos, estábulos para gados, etc.

 

 

A FORTALEZA DE MELGAÇO: PEDRAS E PATRIMÓNIO

 

Armando Barreiros Malheiro da Silva

 

Câmara Municipal de Melgaço

 

1987

 


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Sábado, 21 de Julho de 2018

Fragmentos de vidas raianas, 1978 a 1981 - XV

 

 

Continuação do post do 07 de julho de 2018.

 

 

A mente, saturada de vapores de álcool, afigurava-se-lhe deperecida, despregada do tronco. Procurou decantar as ideias enfezadas que rodopiavam no seu cérebro, mas este, penado, reagiu confusamente. Não tinha desejo nem forças para guindar a cabeça. Raramente, e apenas com finalidade devidamente firmada, o vinham arreliar durante um momento tão íntimo como aquele.

— Não há ninguém?

Desta vez a voz derivava de cerca, mais explícita, mais distinta. A ressonância desaparecera, substituída por umas pancadas secas, insistentes e inconfortáveis, sendo-lhe, todavia, impossível demarcar a proveniência. Sentiu uns adejos temíveis nos tímpanos.

Na sala lôbrega, junto do balcão, mantinha-se um homem sorridente, de uma trintena de anos, solicitamente trajado e engravatado, com uma volumosa pasta preta de couro na mão.  

O Manco, enfurecido, levantou a cabeça abruptamente e, sem abrir os olhos, berrou:

Me cago en Dios! Quem me vem enfadar a esta hora?

Assustado pelo grito estentóreo, e talvez ainda mais por aquele impressionante vulto cabalístico que distinguiu ao fundo do bar, o indivíduo relutou uns segundos antes de recitar num tom musical e bajulador:

— António Perez Gallardo, representante da fábrica de queijos Lacta Casales, da Ortigueira, A Coruña, para o servir, caro senhor.

Estupefacto, o Manco, perante tal prolação, descolou as pálpebras parcialmente; sem pronunciar uma palavra ou fazer qualquer movimento, olhou, para o jovem que se acercara da sua mesa e o agraciava com uma cativante expressão comercial.

Era uma première. Nunca um caixeiro-viajante o apostrofara manifestando-se com este maneirismo mercantil. Não lhe agradou mesmo nada. Esta arenga tinha um timbre incrivelmente efeminado para o seu gosto. Apeteceu-lhe expelir o tipo do bar. Alguém lhe telefonara para o informar que o Manco precisava de queijo? Que maneiras eram estas? Odiava que o assediassem, que o perseguissem! Era ele quem decidia! Que descaro, que arrogância havia que ter para desterrar uma pessoa dum adorável sono reparador! E isto para tentar vender-lhe produtos similares aos que ele comprava, havia muito, a outro provedor do qual estava plenamente satisfeito!

Joder, tio! – improperou com desacato. 

Reticente, engoliu em seco e ficou uns segundos a deliberar sobre o comportamento a adoptar. Por fim, resolveu conter-se. Taciturno e firme, pressionou as maxilas.

— Dá-me licença, caro senhor? – perguntou-lhe o profissional, desdenhando a careta inenarrável e inquietante em que o carão do Manco se metamorfoseara.

Não era a amabilidade ilusória do homem que enganaria o Manco.

O caixeiro-viajante deduziu que a sua quietação era uma acreditação. Sem aguardar pelo seu agrément – que não sabia se teria – colheu a segunda cadeira e sentou-se, risonho, diante dele, o attaché-case preto por cima dos joelhos. O proprietário do estabelecimento, descontente, arrulhou, resignado.

A estes cantamanhanas antevia-lhes os procedimentos comerciais e os métodos de comunicação. Visitas de representantes stressados como este tivera várias dezenas; eram um pesadelo. Ainda que vivamente contrariado, esforçou-se para aguentar a estopada do indivíduo sem extravagar. Fitava-o, mas não o via.

No entanto, para lhe significar o seu frenesim, remoeu a língua com barulho na boca mirrada, indício de que a ressaca não tivera tempo de se esbanjar. A subida do vinho branco é tão fulgurante como a queda é lenta; a diferença é que a primeira é atractiva, álacre e tebaica, enquanto que a segunda é subversiva e, por conseguinte, desagradável e encolerizante.

Desinibido, o polido viajante minuciou-lhe o que fazia a especificidade das criações propostas pela fábrica que personificava. Realçou as excelentes virtudes da nutrição que as vacas – a quintessência de raças – tosavam nos amplos campos de pastagens verdejantes, perto do mar; vizinhança que, aliada às admiráveis condições climáticas de que a região usufruía, conferia uma deliciosa eflorescência salina ao leite. Fez um breve hiato para observar o primeiro efeito sobre o cliente.

O Manco tinha o semblante duma cariátide. Não mexia nem descravava os olhos do caixeiro-viajante. Permitiu-lhe desenrolar o palavreado à vontade, movendo com subtileza a cabeça periodicamente, como se a conversa lhe interessasse.

Se o homem soubesse quanto gostaria de ir buscar uma garrafa de branco por detrás do balcão! Controlava-se porque mais uns minutos e livrava-se do desavergonhado intruso de uma vez por todas.

O viajante, implacável, mencionou o tempo de refinação; exaltou, em seguida, as suas dominantes e traços gustativos, olfativas e texturais, tamanhos e peso. Sobrepôs-se a amostra fotográfica dos produtos para os quais o Manco, grosseiramente, fingiu olhar. O extremoso viajante terminou a perfeita hipotipose sublinhando os controlos higiénicos regulares de que as modernas instalações, assim como todos os produtos nobres nelas elaborados, eram objecto.

O homem emudeceu. Finalizara a lábia sem um lapso, um erro e uma expressão oral irrepreensível. As feições afáveis persistiam. Persuadido, sem dúvida, do resultado da sua convincente dissertação, intentava desmascarar-lhe vestígios da sua adesão.

O Manco manteve-se imóvel uns segundos, deixando o silêncio desestabilizá-lo. Duas rugas, sinónimo de ambiguidade, esculpiram-se na testa do representante. Para testá-lo, o anfitrião deu uma tossidela cavernosa, como se quisesse desobstruir o gorgomilo para falar, e humedeceu os lábios com a ponta da língua alvacenta. As rugas faciais do visitante distenderam-se ao mesmo tempo que o bem-estar o invadia. A intuição garantia-lhe que a sua démarche ia ter uma saída favorável.

Sobrestimava-se, e essa análise presuntuosa comprazia imenso ao Manco que pensava: «É quando menos se prevê que a coisa mais dói». Com o ar sério e normal que até ali fora capaz de desvendar, indagou:

— Dos queijos que o senhor me sugere, qual deles atrai mais as moscas?

A questão insensata petrificou o visitante. Ofendido, adoptou um ar digno e esquiçou um gesto de repulsa, negando resolutamente com a cabeça.

— Nenhum. Isso é coisa impensável, caro senhor. Os nossos queijos são de uma qualidade extra, sublime, sem falar da frescura incomparável e inigualável. Depois de encetados pode mesmo conservá-los ao ar livre uma semana.

 

Continua.

 


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Sábado, 14 de Julho de 2018

O CRUZEIRO DE MELGAÇO

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cruzeiro de são julião

 

CRUZEIROS

 

 

No pequeno alfoz da sua freguesia quatro cruzeiros houve outrora Melgaço e embora alguns tenham sido mudados de local, ainda hoje todos se conservam erectos à veneração dos fiéis. Um, e é o principal por mais lindo, mais trabalhado e mais artístico, tem a forma do Piedade, pois numa das faces da cruz está esculpida a imagem de Cristo crucificado e na outra a de Nossa Senhora com o filho morto deitado no regaço. Representa o descimento da cruz. A coluna esbelta, elegante, está lavrada com alguns primores de arte e na base tem esculpida a figura da morte, representada por caveira humana.

Ignora-se infelizmente o nome do artista lavrante e o do quem lhe encomendou ou pagou o primoroso trabalho, pois no referido monumento nem a mais escassa informação se colhe. Em 1779 estava erguido no Campo da Feira de Fora, junto de uma morada de casas, cuja escadaria exterior dificultava a passagem das procissões à sua volta. Depois foi mudado para o Campo da Feira de Dentro e ficou mais ou menos no centro do largo.

Daqui o transferiu a junta de paróquia em 1867 para o adro da capela de São Julião, onde ainda hoje se conserva exposto à veneração de todos os fiéis, tendo sido declarado há anos monumento nacional. É este o cruzeiro da vila.

Assim foi conhecido sempre e ainda hoje essa designação tem e lhe pertence. Vem de longe, do século XVII, se é que não foi trabalhado nos fins do século XVI por qualquer daqueles artistas trazidos à terra pelo juiz de fora Gil Gonçalves Leitão para fazerem muitas coisas aqui não havidas e talvez nem sonhadas.

E isto se avança porque este cruzeiro estava situado no Coto da Pedreira, que era monte baldio pertencente à Câmara do termo, ali à entrada das Carvalhiças, e outro cruzeiro assim não havia. De mais a mais quando em 1703 Frei Domingos Gomes de Abreu quis erguer uma capela em honra de Nossa Senhora da Pastoriza escreveu em requerimento estas palavras, aliás com aparência de serem descabidas ao intento: «…quer este fazer-lhe a capela no Coto da Pedreira desta freguesia por ser lugar público onde costumam irem os clamores desta vila não havendo neste lugar mais do que uma cruz…»

Mas esta cruz era o cruzeiro da vila. Quem o diz nesse processo organizado na Mitra bracarense são os sucessivos párocos da vila então no uso do múnus de cura de almas: o P. João Dias dos Santos e o P. António Soares Falcão.

Aquele fá-lo por estas palavras: «…Digo que ao sítio vamos com as ladainhas aonde está o Cruzeiro desta vila fora da muralha…»

E este assim o diz: «Pretende o instituidor edificar a capela de que fez promessa no sítio chamado o Coto da Pedreira, que fica extra muros desta vila, onde está um cruzeiro ao qual vão em procissão nas ladainhas…»

Ora como a capela da Nossa Senhora da Pastoriza ocupou o sítio do Cruzeiro e as obras da construção, por circunstâncias várias, só vieram a fazer-se entre 1725 e 1727 esta obra nova acabou por impor a mudança do cruzeiro. Foi, possivelmente, por esta época que o Cruzeiro da vila veio das Carvalhiças para o local assinalado por documentos conhecidos, mas muito mais recentes: o Campo da Feira de Fora.

 

Publicado em NM de 18/3/1956

 

Obras Completas: Augusto César Esteves

Nas páginas do Notícias de Melgaço

Volume I Tomo 2

Edição Câmara Municipal de Melgaço

2003

pp. 551, 552

 


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Sábado, 7 de Julho de 2018

Fragmentos de vidas raianas, 1978 a 1981 - XIV

 

 

Continuação do post do 23 de junho de 2018.

 

 

Nascera a Casa Manco, cuja popularidade se difundiria rapidamente.

A partir do ano mil novecentos e sessenta e oito, a vaga de emigração principiou a enfraquecer vagamente, sem todavia deixar de ser uma forte fonte de rendimentos. A efervescência económica originada pela construcção da barragem fazia levedar os proventos do seu negócio. Mais tarde, a ponte forneceu-lhe um novo filão de receitas adicionais. Sem jamais o ter agoirado, em dez anos o Manco transformou-se num homem pecunioso.

Optou, então, por empregar parte do augusto pecúlio na compra de uns magníficos campos adjacentes, no lugar da Agra, perto da junção da estrada Puente Barjas-Orense e da que descia para A Frieira.

No maior, fez erigir o que ele denominou, não sem prosápia, o Chalé Manco, uma linda casa com rés-do-chão e primeiro andar, para mais tarde ele e a Vicenta lá acabarem os dias. Nos remanescentes, plantou um sem-fim de árvores frutíferas. Uns anos mais tarde, todos falavam do vergel do Manco; era o mais completo e exótico da região.

Porém, o seu chalé não foi rematado sem sérios distúrbios. Os trabalhadores portugueses com os quais tinha negociado a execução da obra, depois de tormentosas altercações, queixaram-se à guarda civil por ele não ter honrado a totalidade dos pagamentos estabelecidos. Foi tempo perdido. Sem documentação que os habilitasse a trabalhar em Espanha, o comandante recomendou-lhes que negligenciassem a tramóia e não voltassem a cair noutra. Procedendo assim, o tenente da Benemérita – nome dado à Guardia Civil pelos serviços ministrados à população no século XIX – também poupou o Manco por recorrer à mão de obra estrangeira não declarada, deliberação que lhe abria as portas da Casa Manco.

Presentemente, já meio enfastiado e entediado, contentava-se em realizar bailes – reuniões dançantes, dizia, salientando a nuance. Aos domingos, do fim da tarde até altas horas da madrugada, amontoava-se ali a juventude da zona, assim como alguns portugueses.

Os galegos, como muitos outros povos, com um copo a mais são perturbadores e desordeiros. Todavia, nos dias de sarau, as zaragatas eram marginais. Os casos, esporádicos, afloravam, logicamente, quando os espíritos estavam escaldados e amblíopes.

A esposa, um tronco de couve a quem ele obedecia cegamente, murmuravam os alcoviteiros locais, tivera de aprender a brincar ao bombeiro.

Alguém que protestasse, fosse qual fosse a causa, ou vociferasse por se atrasarem em atendê-lo, era repreendido descaradamente com severidade. Podia até ser motivo para que o Manco ressentisse o reparo como um ultraje e incitasse illico o impertinente a ir empachar-se para outro lado, prevenindo-o cinicamente: «Agora, nem que me baixasses as calças te servia, cabrón

Nestas declinações, sem a intervenção pronta e habilidosa da Vicenta, a ameaça de que a controvérsia se alastrasse precipitadamente e findasse à hóstia era flagrante. Alguns jovens imprudentes, pensando que a sua debilidade os avantajava, tinham saído do seu estabelecimento fortemente aturdidos.

O génio rabugento que se apossara dele incentivava-o com regularidade a acometer alguns indivíduos por razões muitas vezes mais do que duvidosas, impertinência que o obrigara a sentar o cu no mocho – ir a tribunal – mais de uma vez.

Todos os dias, depois de almoçar copiosamente em família, sentava-se a uma das duas mesas do bar e entrava num estado tórpido, pré-letárgico, tanto físico como mental. Em silêncio, continuava a beber até ser aspirado, como por magia, pela tranquilidade feltrada, abstracta e opiácea de Hipnos, da qual, infalivelmente, emergia cerca de uma hora mais tarde.

A vida era-lhe insípida, inerte, agnóstica: elanguescia-o. Amigos não tinha, apenas conhecimentos. O vinho branco, o seu acólito, a sua amizade pagã desviava-o durante as situações instáveis, das águas do rio. Imergia-se nas lágrimas dos bagos, o paredão que conseguia retê-lo no seu mundo austero. Sempre disponível, afagava-o e mostrava-lhe, através dos seus vapores, uns raios de sol, embora lívidos e insulsos. Concorria para amortecer e equilibrar a fervorosa, a insuperável ira que, de modo impiedoso, fora prosperando nele e lhe despeçava o moral e a vida, desde que aquele malvado camião despejara parte da carga por cima dele. Se não fosse a carneirada, a barragem e a ponte, havia muito que o Manco não era deste mundo.

Na verdade, ninguém podia asseverar categoricamente que o Manco se embebedava, no sentido literal que ali as pessoas atribuíam correntemente à palavra; ninguém o vira alguma vez cambalear.

Homem condicionado pelo ânimo e pela atmosfera, arpoado pelo infortúnio, abusava do álcool, sem dúvida, mas comia bem e apenas bebia até um dado pique que poucas vezes excedia.

O mês de março estava a chegar ao fim. A mulher e as duas filhas andavam azafamadas nos campos: plantavam batatas, couves, tomates, ervilhas, cebolas, alfaces, feijões, cocos, alhos...

Naquela tarde insolada, encontrava-se, mais uma vez, desamparado no estreito e obscuro bar, ao lado da porta vaivém que o separava da sala do restaurante. Sentado diante da pequena mesa, a manga da camisa do braço órfão pendente, e a cabeça assentada sobre o ressaltado peito, degustava a descida fleumática das pálpebras defessas pela bebida. Por cima da mesa, uma garrafa e um copo, vazios. Era a hora da sesta, da primeira viagem do dia.

Intrépido, deixava a porta escancarada, mas, nunca se sabe, na gaveta nem uma perra – peseta – ficava. No entanto, qualquer podia entrar e apoderar-se sem grande trabalho de uma ou mais garrafas das que tinha em evidência no bar. Hipótese que descartava totalmente; o medo que inspirava desencorajava qualquer um. Aliás, as pessoas, em grande maioria, eram íntegras e trabalhadoras.

De repente, uma voz ecóica que lhe pareceu vir de longe extirpou-o dos braços hipnagógicos de Morfeu, nos quais se aninhara.

— Não há ninguém ?

 

Continua.

 


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Sábado, 30 de Junho de 2018

CAPELA DA NOSSA SENHORA DA ORADA

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A IGREJA DE NOSSA SENHORA DA ORADA

 

(NOTÍCIA HISTÓRICA)

 

Nos derradeiros anos do século XI, quando percorria em longas jornadas de instrução e de posse as terras do seu condado de Portugal, D. Henrique de Borgonha, o mais antigo obreiro da nossa nacionalidade, encontrou êrma e quási totalmente arrasada a povoação que depois devia renascer com o nome de Melgaço. Expulsos os moiros – que o ímpeto irresistível dos sucessores de Plágio continuamente rechaçava para o sul da Província – nenhum novo núcleo de população ali criara raízes; e até o castelo comarcão, que se dizia ter sido construído pelos invasores árabes sôbre os alicerces de um castro romano, apenas negrejava no seu morro como ruína quási informe.

Necessitando de concentrar tôda a atenção e tôda a actividade em emprêsas de maior vulto, o Conde D. Henrique não curou de repovoar aquêles sítios agrestes, que então podia julgar livres de qualquer perigo ou ameaça grave; ordenou apenas que a decrépita fortaleza mourisca fôsse benificiada com as necessárias obras de consolidação, a-fim-de assegurar, como cumpria, a defesa da terra, no caso de lá chegar, em dias futuros, alguma das temerosas contendas que desde os primeiros tempos da Reconquista perturbavam de quando em quando a vida política da Espanha cristã.

Assim esquecido, senão inteiramente abandonado, jazeu ali, durante muitos anos ainda, o alto e áspero chão onde hoje se vê a vila de Melgaço. Depois do falecimento de seu marido, a raínha D, Tareja – sempre atormentada, como êle, por grandes trabalhos de ambição – nada fêz também para remediar ou minorar tam imprudente desamparo; por isso, nem o castelo, a-pesar dos “repairos” com que o Conde D. Henrique firmara as suas muralhas centenárias, logrou afrontar sem renovados danos a incessante e traiçoeira guerra do tempo. Por seu turno, D. Afonso Henriques, só ao cabo de 30 anos de reinado, em 1170, atentou na conveniência de prover de boa e basta gente aquêle recanto da terra hereditária, destinado a converter-se, pela sua situação, em um dos mais úteis baluartes de defesa do novo reino; mas, pronto em remediar o mal que tam tarde havia reconhecido, logo remiu com decisão e acêrto êsse pecado de imprevidência. Pouco depois, os primeiros colonos para ali enviados por ordem régia davam princípio à sua obscura obra de progresso nacional e social. Ao mesmo tempo, para lhes incutir maior fé na própria segurança e na segurança das suas searas, outras providências foram tomadas; e em breve, na terra extrema que ao norte sobranceava o rio, a possante fortaleza sarracena, ampliada e robustecida, reocupava firmemente o seu lugar de sentinela raiana.  A póvoa portuguesa de Melgaço tinha finalmente nascido.

Diminuindo de certo modo a importância de alguns dêstes factos, uma versão corrente, abonada por certas memórias monásticas, persuade entretanto que já em tam remota era se erguia a curta distância do castelo, entre outras construções de grande antiguidade, a Igreja da Nossa Senhora da Orada. Ignorava-se a data da sua fundação e o nome do fundador. Edificada no tempo em que a moral cristã começava a moderar os costumes bárbaros dos visigodos, havia resistido como que por milagre (dizia-se) aos maus tratos da natureza e dos homens, durante o período da dominação árabe – acrescentando-se ainda que depois disso, no reinado de D. Ramiro II de Leão, fôra anexada a um pequeno mosteiro de monges bentos mais ou menos sujeitos à grande casa conventual que anteriormente obtivera para a mesma Ordem a doação de tôda a vizinha terra de Fiãis.

Segundo a tradição que guarda lembrança de tais sucessos, aquêle mosteiro-vassalo, secularizado por motivos que se desconhecem nos longínquos anos do gôverno de D. Tareja, convertera-se afinal (juntamente com a cêrca e outras terras contíguas) em uma simples propriedade particular – que, adquirida pouco depois pelos Templários, dêles recebera o nome de Quinta dos Cavaleiros que lhe é conferido nos documentos do século XII. Se com efeito assim aconteceu, pode afirmar-se que foi da aguerrida milícia do Templo, visto que, volvidos alguns lustros, já a chamada Quinta dos Cavaleiros pertencia in totum a uma dama de grandes haveres, a Condessa D. Frolhe, que no ano de 1166, por meio de uma escritura de doação, a entregou de novo, e com outro nome – o de Quinta da Orada – aos monges negros de Fiãis.

Porque não foi incluída a Igreja nessa doação, a que se podem atribuir em verdade intuitos idênticos aos de um vulgar legado pio? Por não ter existido de-facto, o suposto Convento da Orada? Por se haver estabelecido qualquer distinção entre êste e o templo da Virgem, através de tantas alternativas de posse? Finalmente, por se achar em completa ruína (e, portanto, sem valor) a vélha casa de oração? Ignora-se. Cumpre notar, em todo o caso, que D. Afonso Henriques, ordenando pouco depois, em 1170, a reconstrução do desmembrado edifício, sancionou implìcitamente a inclusão do edifício no rol dos bens da Coroa.

 

BOLETIM DA DIRECÇÃO GERAL DOS EDIFÍCIOS E MONUMENTOS NACIONAIS

 

A IGREJA DE NOSSA SENHORA DA ORADA

Nº 19

Março de 1940

pp. 5-8

 


publicado por melgaçodomonteàribeira às 00:41
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Sábado, 23 de Junho de 2018

Fragmentos de vidas raianas, 1978 a 1981 - XIII

 

 

Continuação do post do 9 de junho de 2018.

 

 

Em geral, os problemas eram esparsos. A maioria dos próximos integrara a sua tendência inesperada, a sua cegueira e sabia diferenciar os bons dos maus auspícios. 

Depois de casado, e com quatro filhos, manteve-se com os pais numa casa de aspecto andrajoso, a quatrocentos metros, em linha recta, da Frieira da orla esquerda do Minho, até estes falecerem. A taberna que os pais tinham explorado no rés-do-chão – a única que havia entre a Notária e o rio – foi o que deu à família as precípuas perras – dinheiro – para adquirir o que não arrancavam dos campos. Com o que nestes recoltavam, a agnação subsistiu com entraves, mas suplantou o pauperismo generalizado, e a descendência amadureceu jovialmente.

Uns meses antes do falecimento da sogra – o sogro e os pais já os tinham deixado –, a vida sorriu-lhe. Os anos sessenta tinham dado os primeiros passos. A construção da barragem materializava-se.

As gigantescas degradações materiais e as inumeráveis perdas humanas da Segunda Grande Guerra tinham desencadeado grandes vagas de emigração dos países circunvizinhos mais carecidos, entre os quais Portugal. Esta emigração era vista com permissividade pelo governo salazarista pois enviava umas divisas indispensáveis que remediavam a inópia florescente da camada mais carecida. A eclosão da guerra no ultramar em 1961 – daí em diante, e até aos quarenta e cinco anos, todo homem necessitava de uma autorização militar para sair do país legalmente – deu um impulso ciclópico à emigração portuguesa. Neste fluxo foi muito adolescente.

O Manco tinha pouco mais de quarenta anos. Esta conjunção acalorou-o a associar-se com o cunhado, tenente da guarda civil e marido da sua única irmã, que prestava serviço no posto fronteiriço de Irun, País Basco.

Milhares de portugueses, dos quais uns ambicionavam suplementar a carência incurável, outros, desertar a ininteligível guerra do ultramar, e outros, ainda, escapar às duas cominações, acederam aos países que lhes alimentavam a cenestesia da existência de uma vida melhor, livre, trespassando o rio Bidassoa. O seu ténue percurso internacional – uma dezena de quilómetros –, que delimita a Espanha da França, constituía uma balaustrada acessível, confrontado às veredas intrincadas dos respeitáveis e temerários Pirenéus.

Nesses tempos, um número confortável de espanhóis residentes na zona fronteiriça de Irun passavam todos os dias a fronteira para ir trabalhar em território francês. De madrugada, uma enxurrada de operários, de pessoal hoteleiro, de empregadas domésticas e de trabalhadores de sectores diversos desfilavam pela ponte internacional; imperturbáveis, palravam e brandiam, sem parar, o passaporte bem alto diante dos funcionários.

Alguns oficiais subalternos, como o cunhado do Manco, e um sem-fim de inferiores organizaram um sistema mafioso do qual todos beneficiavam chorudamente. Parasitavam a corrida matinal dos trabalhadores, intercalando entre eles os carneiros – nome da gíria contrabandista que designava os candidatos à emigração – transportados pelos intermediários. Era a estes que os passadores da zona do rio Trancoso entregavam os pretendentes à emigração recrutados pelos angariadores. No caso do cunhado do Manco, eram veiculados pela Vicenta, a esposa, mulher desapiedada questão negócios, e dois ajudantes, visto a configuração ser aleatória.

Arvorando a capa de um passaporte espanhol – em seguida recuperada – com meia dúzia de folhas em branco no interior, muitos portugueses atingiram deste modo o solo francês nos dias em que os funcionários hispánicos peitados estavam de serviço.

Mas, como toda comodidade tem o seu custo, os que quisessem gozar desta passagem de primeira classe deviam desembolsar uma soma consequente.                     

Outros, economicamente mais abstémios, afrontavam, de noite, as autoridades e o Bidassoa num barquito que o passador trazia dobrado sob o braço. O calibre do brinquedo, insuflado à beira do rio, quando não havia qualquer percalço, apenas possibilitava o enbarque de cinco pessoas, incluindo o passador. Duas pequenas espátulas de madeira serviam de remos.   

Os emigrantes portugueses apanhados no território espanhol sem carimbo de entrada – os clandestinos – sofriam repercussões tremendas. Escoltados até à fronteira lusa mais perto da sua terra, eram entregues aos agentes da PIDE, a polícia cujos funcionários se encarregavam das fronteiras, da emigração, dos passaportes e de todos os que se opunham ao regime. Infligiam-lhes, automaticamente, uma onerosa punição carceral por saída ilegítima do país e tiranizavam-nos para os fazer escarrar o nome do ou dos passadores e remontar a fileira. Intento árduo pois os membros das redes usavam pseudónimos.

Os postulantes à imigração não desprezavam os perigos imponderáveis a que se expunham, mas os desideratos eram tão pesados que não os esmoreciam. Uma vez na outra margem do Bidassoa, em Hendaye, com ou sem passaporte, eram recebidos com toda a atenção, visto o país estar em plena expansão económica. Os portugueses, homens de braços viris, aclimatados à rudeza, de modo geral ignaros, prestadios e católicos, eram uma bênção.

E, para melhor os proteger da ditadura franquista, não lhes outorgavam permisso de residência nos quatro departamentos que faziam fronteira com Espanha.

A casa do Manco estava num estado de deterioração adiantado. O andar superior, integralmente de madeira – material secular predominante no primeiro andar nas casas galegas por ser mais quente e barato do que a pedra –, putrefazia-se e dissociava-se aos poucos. Só os fundos, justamente edificados com robusto granito, permaneciam direitos e reutilizáveis. Mas a antiguidade não era apenas sua, pois as partilhas ainda não tinham sido feitas com a irmã. Esta, desde que casara, nunca mais voltara à Frieira. Era tempo de construir uma moradia aceitável. Não eram os meios que lhe escasseavam.

Comprou as metades da irmã, ficando com as ruínas da casa e com os dois vastos campos em declive, do outro lado da estrada.

Alugou uma casa no lugar, mandou derrubar a velha habitação, conservando todavia a pedra das paredes do rés-do-chão e construiu outra de grande envergadura. No andar térreo, equipou um salão grandioso para a organização de bailes, jantares de casamentos e de batizados; montou um bar galego típico, um restaurante, a cozinha respectiva e os sanitários adequados a cada uma das funções, fasto supremo naquela época para a localidade. No primeiro andar, alojamentos espaçosos para toda a família.

 

Continua.

 


publicado por melgaçodomonteàribeira às 00:28
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Sábado, 16 de Junho de 2018

QUANDO MELGAÇO TINHA GENTE

5x - comissão festas.jpg

 

UM LUGAR ONDE NADA ACONTECIA

 

Os moços da terra, rapazes e raparigas, viviam uma situação de expectativa. Consideravam monótona e sem graça a vida que lhes apresentavam. Bailes uma vez por outra, as festas em honra dos santos padroeiros, nas freguesias, e os desafios de futebol. Liam os jornais no café que lhes noticiavam as maravilhas do após guerra, o programa da ciência, e uma vez por semana absorviam avidamente o estilo de vida capitalista, regalada, que subjectivamente os musicais do cinema americano lhes enfiavam pelos olhos.

Os desafios de futebol durante certa época eram quem mais distraía a população e entretinha a juventude. Naqueles anos era acirrado o despique entre os três grupos que se haviam organizado, o Rápido, o Unido e o Comercial. Nunca houvera tanta rapaziada junta naquela localidade. A última geração fora obrigada a permanecer na terra. Desde sempre, naqueles lugares de natureza e paisagens luxuriantes mas paupérrimas em perspectivas de vida desafogada, a única alternativa para quem desejasse um futuro melhor era emigrar. Quem ficava, resignava-se u uma vida humilde, labutando na agricultura de subsistência ou no contrabando. Os ofícios tradicionais estavam super explorados não havendo clientes para tantos profissionais. A Espanha ali ao lado, antes da sua guerra civil e da guerra mundial, era país rico onde os portugueses da fronteira buscavam trabalho com a facilidade de estar em casa periodicamente. Outros países da Europa não ofereciam grandes condições naquele tempo; o sonho de quem desejava progredir era o Brasil. Ah! O Brasil, donde se voltava “brasileiro”, sinónimo de prosperidade, donde se voltava rico. Pouco acontecia, mesmo assim as fortunas que se conheciam e os palacetes que existiam foram ganhos no Brasil.

Nos anos quarenta ninguém saiu de Melgaço. A guerra provocara aquela situação: não deixou sair ninguém e não levou ninguém. Portugal não entrou naquela catástrofe e dela se beneficiou. Foi assim que aquela pequena terra ficou cheia de mocidade a ponto de organizar três clubes de futebol que disputavam e brigavam entre si. Montaram sedes com secção recreativa e onde se reuniam à noite. O campo do jogo é que era o mesmo inerente a todos, o Monte de Prado, distante da Vila e com difícil acesso, daí que durante a semana a rapaziada mais nova jogava bola na avenida ou na praça da República, para desespero do António Reis, zelador municipal, que tinha de correr atrás deles ou fazer vista grossa se algum parente seu ou filho de pessoa grada estava no meio.

O contrabando era a principal fonte de receita daquele pessoal. Região fronteiriça com a Galiza, separada pelo rio Minho desde que este entrava em Portugal na povoação de São Gregório, mais ao norte, pelo rio Trancoso e para oeste raia seca, era propícia ao comércio ilegal. A guarda-fiscal do lado português e a guarda civil do lado espanhol, eram as forças legais que deveriam zelar pelo cumprimento da lei, na prática mancomunavam-se com os contraventores auferindo sua parte nos lucros. Os governos dos dois países deviam tirar algum proveito desse estado de coisas. As potências beligerantes não aceitariam a exportação legal de determinados produtos que iriam beneficiar o inimigo. Pressupunha-se que tais mercadorias seriam encaminhadas para a Alemanha e tal desagradaria à Inglaterra e aos Estados Unidos da América.

Entre os anos de 1936 a 1939 a Espanha vivera o tormento da guerra civil. Carente de géneros alimentícios, recebia de Portugal, na forma de contrabando tudo que era possível receber. Melgaço, e outras zonas do Alto Minho, fronteiriças, eram paupérrimas. Não tinham produção que pudesse ser contrabandeada a não ser milho. Eram, entretanto, pontos de passagem e por ali, vindos de outros lugares, passavam camiões carregados de galinhas, ovos, chocolate, etc. Estourou a segunda guerra mundial em 1939, o governo nacionalista espanhol que vencera a sua guerra interna com o auxílio da Alemanha, viu-se obrigado a colaborar com aquela nação. Então o contrabando diversificou-se: o volfrâmio, mineral usado na manufactura de armamento era encontrado quase à flor do solo nas montanhas de Melgaço. Foi febril a extracção dessas pedras pretas. O sabão teve preponderância, tripa seca, pedras de isqueiro, café, cigarros e tudo o que servisse para material bélico, era repassado à Espanha. O pagamento era em prata, ouro ou pedras preciosas. O dinheiro em papel ou moedas nada valia. Vez por outra os guardas-fiscais não concordavam com as percentagens que lhes davam e apreendiam as mercadorias. Os pequenos contraventores eram os profissionais das várias profissões que, para engrossarem os seus proventos, de noite, levavam até à margem do rio uma caixa de barras de sabão ou outro elemento que pudesse ser transportado às costas. Eram estes os mais visados pelos agentes da lei que, por pouca mercadoria, nada recebiam.

A guerra no centro da Europa desenrolava-se feroz.

Os jornais noticiavam com destaque as batalhas navais onde o afundamento de navios ganhava as manchetes, quando a França se rendeu aos alemães e a sua marinha resolveu afundar toda a frota naval para não servir ao inimigo, repercutiu. No imaginário dos contrabandistas o termo “frota” passou a ser usado como sinónimo de contrabando. Quando os guardas-fiscais tomavam as mercadorias diziam que a frota afundara. Os contrabandistas passaram a ser conhecidos como “frotistas”.

 

(continua)

 


publicado por melgaçodomonteàribeira às 02:39
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