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MELGAÇO, DO MONTE À RIBEIRA

História e narrativas duma terra raiana

MELGAÇO, DO MONTE À RIBEIRA

História e narrativas duma terra raiana

CONTRABANDO EM MELGAÇO POR ALBERTINO GONÇALVES II

melgaçodomonteàribeira, 22.01.22

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(continuação)

Os ganhos dos pequenos contrabandistas não davam para conquistar as boas graças das autoridades. Sobre eles incidia, precisamente, o seu zelo. Não lhes perdoavam uma galinha e por uma bagatela eram autuados. Mesmo assim, num ou noutro ano, o volume das apreensões não bastava para mostrar serviço às instâncias superiores. Nestas circunstâncias, a fazer fé em vários testemunhos, os principais contrabandistas chegaram a quotizar-se cedendo as mercadorias necessárias para que a “colheita” dos guardas locais conseguisse encher ou tapar os olhos às administrações centrais.

As memórias do contrabando costumam encantar-nos com narrativas que parecem retiradas de romances picarescos: as mil e uma artes de ludibriar as autoridades, as reacções de esperteza face a desafios imprevistos, a passagem de camiões desmontados nas pequenas embarcações do rio Minho, as solidariedades espontâneas ou as bizarrias de um companheiro, Mas existe uma outra face que espreita por entre estas palavras. O contrabando implicava uma vida de risco, de esforço e de sacrifício. As cargas eram pesadas e mal jeitosas. Uns não se davam bem com o sabão, outros com a chapa, outros com os couros, outros com a amêndoa, outros, ainda, com a tripa. Os sustos de outrora ainda agora arrepiam: uma turbulência no rio escuro ou a intercepção brusca de um agente da PIDE. Apesar da boa organização e do estreiro entendimento com as autoridades, não deixava de haver apreensões, multas, dívidas, humilhações, perseguições, prisões e, até, mortes. Mulheres foram encarceradas em cadeias tão distantes como a de Orense. As mortes no rio Minho, às mãos da natureza ou das autoridades, portuguesas ou espanholas, não eram raras. Atente-se na notícia que segue, publicada na década de 1950 num jornal de Melgaço:

Aparecimento de cadáver – Em 27 do mês findo, apareceu na Valinha, a boiar nas águas do rio Minho, o cadáver de José Fernandes, mais conhecido pelo “Zé do Diabo”, de Penso, que uns quinze dias antes, quando pertendia passar uma pequena porção de café para a Galiza, foi abatido a tiro pelos carabineiros.

Uma entre muitas tragédias. Por exemplo, dois jovens foram mortos a tiro, vítimas, segundo testemunhos, de uma denúncia que os descreveu, ao arrepio da verdade, como perigosos e armados. As denúncias, as ganâncias, os conflitos e as rivalidades também eram fruto da época. Acrescente-se que havia quem se sentisse, directa ou indirectamente, prejudicado nos seus negócios, por sinal legais, com os efeitos do contrabando. A memória desses tempos tem sombras.

O contrabando é uma actividade oportunista que tira partido das vicissitudes da fronteira. Constitui, portanto, um fenómeno bastante instável. Depende do muito que acontece, perto e longe, em Espanha, em Portugal e na relação entre os dois países. O mundo do contrabando é feito de mudança. Em poucos anos, sofre transformações radicais. Ora é mais num sentido, ora se inverte. Um dado produto, como o azeite, ora vai, ora vem. Tal produto ora dá, ora deixa de dar, ora volta a dar. Uma fase, como a do gado, sucede a outra, como a do café. Entretanto, os locais privilegiados de passagem deslocam-se do rio Minho para a raia seca. As vacas, antes “cordeadas” através do rio, caminham, agora, pelos planaltos. Num canto, fecham-se as pequenas lojas, no outro, proliferam as garagens para estacionamento de gado. Mudam os próprios protagonistas: os “patrões”, os “lugar-tenentes”, os “transportadores”, os fornecedores e os clientes deixam de ser os mesmos.

Qualquer reflexão sobre os efeitos do contrabando ganha em atender a estas alterações, tornando-se sensato admitir que a épocas distintas podem corresponder realidades e consequências distintas. No que me diz respeito, vou-me cingir, em jeito de conclusão, a um breve apontamento genérico.

O balanço dos efeitos do contrabando suscita um consenso bastante alargado. Apesar de lucrativo, o negócio do contrabando gerou poucas riquezas. E estas, tal como os filhos, acorreram às cidades e às áreas metropolitanas. O investimento produtivo local resultou deveras escasso (insisto no facto de o contrabando ser uma actividade económica oportunista e, como tal, poder estar pouco vocacionada para o investimento produtivo racional). O contrabando não sustentou a descolagem do desenvolvimento económico local, mas garantiu a sobrevivência condigna a uma população ameaçada pela miséria.

Esta espécie de balanço global não deve, no entanto, menosprezar o impacto local do contrabando. Basta percorrer a paisagem para o sentir. Antes da quebra recente, vários “oásis” do contrabando, como S. Gregório (na freguesia de Cristóval), eram animados por um rodopio de pessoas em busca de algum negócio ou de alguma oportunidade. Entretanto, a azáfama desertou, os comércios fecham, as propriedades vendem-se e a população diminui.

Convém não dissociar o contrabando da emigração. Por um lado, como reparou um entrevistado, ‘’mal o contrabando dava sinais de esmorecer logo a emigração recrudescia. Todos os dias, partia alguém.’’ Por outro lado, o contrabando, tal como a febre do volfrâmio, preparou o terreno para o surto emigratório dos anos 1950 e 1960. Ambos contribuíram para retirar parte da população da rotina do trabalho agrícola. Independentemente desta ou daquela lufada de prosperidade, ambos acalentaram ambições, abriram expectativas e alargaram horizontes. Uma vez dado o passo, ninguém concebia regressar ao antigamente. O volfrâmio e o contrabando propiciaram, também, vivências, conhecimentos e relações passíveis de mobilização noutros contextos e noutras paragens. Proporcionou-se, em suma, um sentimento de inquietude com asas de esperança, uma das molas mais decisivas da emigração. Não é, certamente, por acaso que Melgaço primou, ao nível do país, tanto pelo contrabando como pela emigração. E, cada um a seu modo, ambos semearam a realidade actual.

 

contrabando albertino.pdf

repositorium.sdum.uminho.pt

http://hdl.handle.net/1822/36693

CONTRABANDO EM MELGAÇO POR ALBERTINO GONÇALVES I

melgaçodomonteàribeira, 15.01.22

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dr. albertino gonçalves homenageado pela cmm

 

CAMINHOS DE INQUIETUDE.

A ORGANIZAÇÃO DO CONTRABANDO NO CONCELHO DE MELGAÇO

 

ALBERTINO GONÇALVES

PROFESSOR ASSOCIADO DO DEPARTAMENTO DE SOCIOLOGIA E INVESTIGADOR DO CENTRO DE ESTUDOS COMUNICAÇÃO E SOCIEDADE, AMBOS DA UNIVERSIDADE DO MINHO.

 

Desde que há memória, o contrabando sempre constituiu, a par da emigração, uma das actividades económicas mais importantes da população de Melgaço. Mobilizou todo o tipo de pessoas: carenciados e remediados, homens e mulheres, adultos e crianças.

A figura da mulher contrabandista é consagrada em vários textos literários. Recorde-se, por exemplo, o conto de Miguel Torga, “A fronteira” (Novos Contos da Montanha, 1944), dedicado ao amor dilacerado entre um guarda republicano e uma mulher contrabandista. As mulheres ajudavam nas cargas, por vezes, tanto quanto os homens. Algumas ocuparam lugares destacados nas redes de contrabando e da emigração. E alguns dos processos mais volumosos arquivados no Tribunal da Comarca de Melgaço dizem-lhes respeito. Muitas entregavam-se ao pequeno contrabando, por conta própria, de ovos, galinhas, café e outras mercadorias. Recorriam, inclusivamente, a peças de vestuário adaptadas para disfarçar o transporte.

Quanto à participação das crianças, os próprios professores se queixavam das faltas às aulas por motivo de trabalho no contrabando. O seguinte ofício, de 2 de Junho de 1941, dirigido ao Director do Distrito Escolar de Viana, é, a este propósito, deveras elucidativo:

Tenho a honra de comunicar a V. Exa. que, como o demonstra o mapa mensal referente a Maio, a frequência média da 3ª classe desceu de 33, em Abril, para 27. A causa desta anormalidade filia-se na razão de os pais de muitas crianças as mandarem para a “frota” - por que é conhecido o contrabando de ovos e sabão para a Espanha. Tenho empregado os maiores esforços desde o pedido servil até à intimidação, mas como os lucros são fabulosos – uma criança chega a ganhar por dia 30 e 40$00, e a miséria é grande, nada tenho conseguido. Sei que não é esta escola a única a sentir estes perniciosos efeitos do contrabando, pois o mal é geral.

Nos picos do contrabando, todos os braços eram, efectivamente, poucos! Os homens acorriam de longe, desciam as montanhas para locais como o Peso, face a Arbo, onde ficavam à espera da próxima carga ou descarga, normalmente nocturna, para ganhar algumas “senhas”. Era, de facto, costume os transportadores receberem senhas em função das cargas, senhas que trocadas, nos dias seguintes, por dinheiro. Ainda recentemente foram descobertos, num cofre privado, alguns blocos com senhas que sobraram desses tempos.

Melgaço é um dos concelhos portugueses com maior proporção de fronteira: três quintos do território confinam com a Galiza, num percurso que se estende por 61 Km: 22 Km de fronteira terrestre e 39 de fronteira fluvial (incluindo os 19 Km correspondentes ao rio Minho). O traçado e a extensão da linha de fronteira, associados à intensidade e à diversidade do contrabando e da emigração clandestina, justificaram que Melgaço tivesse a maior secção da Guarda Fiscal de todo o Vale do Minho. Em 1961, serviam, neste concelho, 2 sargentos, 16 cabos e 74 soldados distribuídos por 17 postos.

Neste contexto, o contrabando, para ser bem sucedido carecia de boa organização. Havia vários “patrões” do contrabando. Alguns juntavam-se constituindo uma espécie de consórcios, como, por exemplo, o do “Eixo” composto por meia dúzia de “patrões”. Havia os lugar-tenentes, homens de confiança que se destinguiam tanto pela sua capacidade como pela sua lealdade, os capatazes, os condutores, os bateleiros, os transportadores, os informadores… Mais os fornecedores, os intermediários e os clientes. Para além dos recursos humanos, eram ainda necessários meios logísticos: barcos, carros e camiões, para o transporte; meios de comunicação (por exemplo, radiotransmissores); armazéns e esconderijos (visíveis em muitas casas construídas nos anos de 1950 e 1960). Algum investimento em negócios de fachada também era conveniente para encobrir e branquear a actividade do contrabando. Tão pouco podiam faltar os meios financeiros. A candonga e o mercado negro atingiram dimensões extrordinárias. Multiplicaram-se os postos de câmbios. Devido à emigração e contrabando, Melgaço desfrutava, em 1975, de uma das melhores coberturas bancárias de todo o País.

Tamanha complexidade não impedia que as redes de contrabando fossem ágeis e flexíveis, capazes de responder, de imediato e sem falhas, às urgências e pressões do momento: um carregamento imprevisto, uma alteração do plantão da guarda, uma troca de itinerário ou a trasladação da mercadoria de um armazém para outro ditada por uma ameaça de busca…

De qualquer modo, dois ingredientes permaneciam cruciais para o sucesso do contrabando: a confiança recíproca e o saber prático. Interdependentes, os “trabalhadores do contrabando” tinham que confiar uns nos outros, fosse qual fosse o lado da fronteira. Era um jogo muito sério em que competia a cada um (chefe, fornecedor, cliente, transportador, informador e, até, vizinho) comportar-se segundo as expectativas, ou seja, em conformidade com os seus comprimissos e as suas responsabilidades. Caso contrário, a cadeia rompia-se e, sem ela, pouco ou nada se conseguiria. É certo que, aqui e além, sobrevinham pequenos abusos e algumas picardias. Contam-se, por exemplo, histórias de água nos odres de azeite e de excesso de peso nas amêndoas humedecidas. Nada, porém, que ultrapassasse os limites ou fizesse perigar a continuidade do negócio.

O saber prático, transmitido de geração em geração ou conquistado pela experiência, orientava, por sua vez, as decisões e as acções quotidianas, referindo-se aos produtos, ao rio, à metereologia, aos trilhos, aos animais (evitar, por exemplo, o ladrar dos cães) e às pessoas. Saberes que davam azo a uma linguagem própria. Sob risco de esquecimento e de perda irrevogável, urge recolher e estudar os contornos e os conteúdos destes saberes inerentes à lide do contrabando.

Toda esta panóplia de recursos, de posturas e de saberes de pouco serviria sem a conivência das autoridades. Importava assegurar e custear a sua cumplicidade. Cobravam à carga ou, mais raro, ao mês. Era, assim, normal a peregrinação de guardas fiscais pelas casas dos “contribuintes” ou, então, a sua presença, discreta mas vigilante, durante o despacho “contabilizado” das cargas. Nem todos os guardas aceitavam colaborar. Dos mais renitentes se ocupavam os próprios colegas. Nas rondas, sempre aos pares, um vigiava o outro. Na primeira ocasião, eram destacados para postos, como, por exemplo, o da Ameixoeira, em Castro Laboreiro, onde o incómodo resultava menor.

Mas o transporte das mercadorias não se confinava à linha de fronteira. Alguns produtos vinham de Lisboa e destinavam-se a Madrid. As pessoas abasteciam-se de ovos nas feiras de Ponte de Lima. Os fornecedores de café estavam sedeados em Braga, no Porto e em Lisboa. Por detrás do ouro e da prata estavam bancos nacionais. Os fios da rede era de tal ordem que, segundo consta, houve períodos em que o comboio parava ou abrandava antes de chegar às estações, como, por exemplo, a da Frieira, para receber ou largar mercadoria. A simples consulta de processos arquivados nos tribunais, minuciosamente instruídos pela PIDE (Polícia Internacional e de Defesa do Estado), elucida-nos sobre quão extensas e labirínticas podiam ser as malhas do contrabando e da emigração clandestina. Boa parte das apreensões de contrabando não era feita nas imediações da fronteira mas nas estradas que ligavam ao Porto ou a Vigo. Era, por isso, imperativo “trabalhar” as autoridades a montante e a jusante.

 

(continua)

A TROPA EM PADERNE

melgaçodomonteàribeira, 08.01.22

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ENTRE O CRIME E A CADEIA: VIOLÊNCIA E MARGINALIDADE NO ALTO MINHO (1732-1870)

 

Alexandra Esteves

 

Em 1839, foi aberta uma investigação na sequência de um documento que chegou à junta de paróquia de Paderne, contendo protestos de alguns dos habitantes daquela freguesia do concelho de Melgaço, relacionadas com os cinco anos de aboletamentos contínuos que sobre eles recaíam, devido à permanência de militares na praça de Melgaço. Segundo aquele documento, reenviado ao general da província do Minho, as populações estavam obrigadas a boletos de 10 dias consecutivos de água, lenha, luz e sal. Ainda segundo a mesma queixa, em 29 de Agosto de 1839, tendo um dos habitantes falhado com a sua obrigação, por falta de meios, um oficial atacou a casa do padre Manuel Álvares, da referida freguesia, obrigando-o a fugir juntamente com a sua família. No entanto, o comandante da linha do Alto Minho apresentava uma versão diferente dos factos. Os boletos eram rotativos, afectando todas as freguesias do concelho de Melgaço, por um período de 10 dias, entre as casas mais abastadas. Em várias situações, os aboletados mais afastados do local onde permanecia a força militar substituíam a sua obrigação pelo pagamento dum montante em dinheiro. No que repeita ao episódio de Paderne, o comandante afiançava, apoiado no depoimento dos cabos de polícia e do regedor desta freguesia, que não tinha conhecimento de tal ocorrência, concluindo que era falsa a acusação levantada contra as tropas e que o documento apresentado ao general da província do Minho tinha assinaturas forjadas. De facto, várias das pessoas implicadas declararam nos seus depoimentos, por escrito, não ter assinado tal documento, como consta do excerto seguinte:

“Declaramos que não são nossas as assignaturas que nos forão aperguntadas em hum requerimento contra a tropa que ficou aquartellada no lugar de Golães, pois pello contrario se comportarão muito bem conforme hé constante.Melgaço 17 de Outubro de 1839.

Alguns dos subscritores, desconhecendo o conteúdo da queixa, insurgiram-se contra os aboletamentos, mas não contra os militares, nem contra o seu comportamento, por isso assinaram o documento, uma vez que lhe tinha sido prometido que este seria entregue à Junta de Distrito com o propósito de serem aliviados dos aboletamentos. Concluiu-se que as acusações eram falsas, algumas das assinaturas pertenciam a pessoas que nem sequer existiam, ou que eram analfabetas, ou que tinham sido aliciadas para assinarem em branco. Deste modo, tudo apontava para um esquema montado no sentido de criar um episódio que, descredibilizando o comportamento dos militares, poderia ditar o seu afastamento e, assim, promover o fim dos aboletamentos sobre os habitantes da freguesia, até porque os protestos não eram inéditos no concelho. Em 1838, na sequência de várias queixas apresentadas pelos habitantes do concelho de Melgaço, o governador civil determinou que não fosse exigida aos habitantes das povoações mais do que cama, água,sal, lenha e luz.

De facto, os povos sentiam-se vexados com este encargo, e disso mesmo davam conta aos administradores dos concelhos, que consideravam que esta era uma obrigação difícil de cumprir, sobretudo na época das sementeiras e colheitas, quando eram mais intensas as tarefas no campo. Para além deste encargo, as populações estavam ainda sujeitas aos abusos e excessos praticados pelos militares. As sucessivas deserções de soldados armados, que ocorriam neste período, em nada contribuíam para a segurança da região e para a dignificação da classe junto da opinião pública.

 

http://academia.edu

GALIZA E CASTRO LABOREIRO - UMA TERRA SOLIDÁRIA

melgaçodomonteàribeira, 30.12.21

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 ameijoeira 

 

ACTAS DO I CONGRESO DA MEMORIA – NARÓN 2003

 

No primeiro semestre de guerra civil, o número de refuxiados españois na freguesía de Castro Laboreiro, se bem de xeito non estable, acadou, según testemuñas orais, unha cifra entre catrocentas ou oitocentas persoas, cifra que debeu convertirse nunha preocupación, especialmente para os falanxistas da zona que coñecían á perfección o territorio e mantiñan vínculos de intimidade com moitas das familias dos refuxiados, preocupación que finalmente acabarían asumindo las forzas represivas portuguesas, moi especialmente a PVDE.

Assim comenzarían as batidas polas serras, polas brandas e polas inverneiras, na procura dos refuxiados. Os comandantes dos postos, especialmente o de Castro Laboreiro reciben periodicamente ordes de manter unha rigorosa e persistente vixilancia. Algúns días despois amplíanse as ordes, que sinalan que se faga unha limpeza completa de tódolos estranxeiros indocumentados, malia que o número de fuxidos vai medrando ós poucos.

A PVDE sabe da presencia en Castro Laboreiro de varios refuxiados na inverneira de Cainheiras, no lugarfixo de Portelinha, etc. Os falanxistas españois introducíronse en territorio portugués com asiduidade desde as primeiras datas de sublevación, mesmo obrigando a intervención da Comandancia Militar de Ourense que se viu na necesidade de castigar preventivamente a eses elementos incontrolados.

Son moitas as notificacións das policías portuguesas sobre a presencia de “refugiados comunistas espanhóis” entre a fronteira de Amenjoeira e Castro Laboreiro: o grupo formado por Manolo, O Dente de Ouro e o , Ramón Yañez Pereira, O Médico, que se movían por toda a freguesía de Castro Laboreiro, xunto coa amante deste último, Rosa Alves, A Africana, veciña de Ribeiro de Baixo, e nai de catro contrabandistas; fuxidos perseguidos insistentemente pola policía portuguesa e considerados peligrosos como o comunista de Bande, Lelisindo Lopez Pazos e José Alemany; outros fuxidos menos significados como José de Sousa, O Gaiteiro, natural de Pereira (Entrimo), etc. Naquela extensa área que vai desde Alcobaça ata Ribeiro de Baixo estableceuse unha persistente vixilancia, que, sen embargo, resultaba demasiado ampla e difícil de controlar polos obstáculos naturais e a facilidade de refuxios, a meirande deles furnas ou grutas, que topaban os fuxidos na serra cando eran perseguidos.

Desde os postos de Portelinha e Castro Laboreiro tratouse de localizar e capturar ó refuxiado Pepe Trabazos, protexido por unha cidadá portuguesa residente na branda de Qeimadelo, quen coa chegada do inverno trasládase a inverneira no val de Pereira, mentres o seu protexido mantense arriba na branda. A policía portuguesa sigue organizando batidas, algúns dos refuxiados preocupan más ca outros. Ás veces son grupos de sete ou oito policías. Os primeiros dias de decembro de 1936 o tenente de infantería Fernando José Lopes destina un grupo de homes ós postos da serra e a Ribeiro de Baixo para averiguar sobre a “capitana dos refuxiados españois” daquela poboación, a devandita Rosa Alves. Nos dous Ribeiros, de Cima e de Baixo, lugares fixos, lévase tempo notando a presión policial. A PVDE captura a Rosa Alvas, A Africana o 26 de outubro de 1937, moi popular no val de Pereira e con familia na aldea arraiana galega de Olelas, fronte do lugarfixo de Várzea. A comunicación secular entre os dous Ribeiros e as aldeas entrimeñas de Bouzadrago e Pereira tiñan fomentado a creación de roteiros vinculados ó contrabando, empregados polos familiares dos escapados para abastecelos de comida e roupa, evitando ser controlados polos carabineiros españois ou pola guarda fiscal portuguesa.

En Lamas de Mouro a policía ten constancia tamén da presencia de refuxiados antifranquistas. Algúns deles optan por vestir elegantemente porque lles permite alixeirar certa presión das forzas represivas, aínda que prefiren ir armados por se se vem na obriga de defenderse.

Na branda de Seara, doutro lado da Pena de Anamán, hai varios refuxiados españois, entre eles Manuel Fernández González, O Curto, acollido na casa da súa amante. Sospeitando da persión das forzas represivas, pernocta nunhas fragas próximas. Algúns habitantes destas serras son reincidentes en agachar refuxiados españois na serra, polo que se vem sometidos frecuentemente a rexistros nas súas vivendas. Nessa mesma branda está agachada unha familia enteira. Como todos, esperan documentación para internarse ó centro do país, pero resúltales complexo porque Eudosia Lorenzo Diz, de vintecinco anos, quen antes do golpe militar era mestra en San Ginés no concello limítrofe de Lobeira, ten un fillo. Para non levantar sospeitas viste o traxe de típico de castrexa. Ademais, movese cos seus pais: Agustín Lorenzo, un home de cincuenta anos, que sofre as inclemencias dunha hernia, e Basilisa Diz, cinco anos máis nova e que ten un sinal característico na faciana. Outras testemuñas, conseguidas pola policía tras interrogar os veciños, sitúaos na inverneira de Entalada ou na branda de Rodeiro; outras din que están nos lugaresfixos de Ribeiro, quizais na inverneira de alagoa ou nas brandas dos Portos. En realidade, ó integrarse coa poboación local acompáñanos nas súas migracións anuais, e as veces, ante a abafante presión policial e dos confidentes, saltan a algunha aldea galega, como Cabanelas, onde tamém consiguen acocho.

 

Ler mais em: www.memoriahistoncademocratica.org

Entre brandas e inverneiras: refuxiados e guerra civil na fronteira entre Ourense e Portugal

Ángel Rodríguez Gallardo

HOJE COMO ONTEM - SOLIDÁRIOS

POLVO, TRADIÇÃO NATALÍCIA EM MELGAÇO

melgaçodomonteàribeira, 23.12.21

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A HISTÓRIA DA GENTE QUE DESAFIOU SALAZAR

PARA TER POLVO NO NATAL

 

É uma história de contrabando. De um tesouro que vinha da Galiza. Conta-nos a edição on-line da Notícias Magazine que, em tempos, Salazar tentou travar esta tradição para proteger a frota bacalhoeira. No entanto, o povo do Vale do Minho sempre arranjou maneira de fazer chegar ao prato este manjar que vinha lá de cima.

À Notícias Magazine, Albertino Gonçalves, professor de Sociologia na Universidade do Minho, referiu mesmo que o bacalhau da consoada não é, uma tradição assim tão antiga. No final dos anos trinta, depois da Guerra Civil Espanhola e de uma tremenda escassez de alimentos nos dois lados da fronteira, o Estado Novo quis ordenar o abastecimento alimentar do país para travar a fome. “Salazar definiu zonas e produtos: cereais no Alentejo, sardinha nos portos pesqueiros, hortícolas e frutícolas no Oeste. E investiu seriamente na frota bacalhoeira, capaz de trazer das águas frias do Norte um ingrediente barato e altamente duradouro”, disse o investigador. “Nessas contas, o polvo, que vinha essencialmente de Espanha, não tinha lugar”.

 

MELGAÇO DESAFIAVA O ESTADO NOVO

 

O bacalhau nascia da vontade política, mas o Município mais a norte de Portugal teimava em resistir ao menu imposto pelo fascismo. Na maioria das vezes, conta-se, foi o jogo do gato e do rato. Avelino Fernandes, 69 anos, era guarda-fiscal em S. Gregório, freguesia de Melgaço. “Em novembro e dezembro já se sabia que aumentava o contrabando de polvo. Éramos 32 guardas e reforçávamos a vigilância nesta altura”, conta à Notícias Magazine.

Muitos deles eram homens da terra e na maior parte dos casos fechavam os olhos à passagem do repasto natalício. “O problema era a PIDE, que andava sempre em cima de nós para controlarmos o polvo. Eram maus como as cobras, eram capazes de deixar uma família sem ceia na consoada para cumprir aquilo que o Salazar queria”, contou. A sua memória preferida de quase quatro décadas naquele ofício foi o dia em que prenderam os agentes da polícia política, em Abril de 1974.

António Domingues, 84 anos, concorda. Era apalpador na alfândega, revistava os homens que passavam pelo posto fronteiriço, vindos da Galiza. “As pessoas arranjavam mil e uma maneiras de disfarçar a entrada de mercadoria. Traziam coletes encostados ao corpo, camadas falsas de roupa, tudo o que se conseguisse imaginar. Mas, na altura do Natal, não precisava de tocar em ninguém. Se trazia polvo, eu topava-o pelo cheiro”, recordou.

Há em Melgaço um museu chamado Memória e Fronteira onde se presta homenagem às décadas em que a passagem para Espanha era atividade furtiva. Ao contrabando, mas também à emigração. Os arquivos das apreensões pela Guarda Fiscal estão ali guardados – e basta olhar para os registos para perceber como o polvo era importação da quadra.

“Quando chegava a altura do polvo tínhamos de ter cuidados redobrados, por causa do cheiro que largava”, conta agora numa cumeada frente ao rio. Era por ali que passavam o produto e o escondiam em covas no chão. “Mas não podia ficar muitos dias, senão a Guarda dava por ele”, contou à Notícias Magazine, Amadeu Pereira, de 83 anos. O molusco era contrabando em movimento constante.

A passagem fazia-se entre as duas e três da manhã, “horas em que até as pedras dormem”. Cada pessoa com 40 quilos de polvo seco atados por um cordel, e às vezes eram mais de uma vintena a tentar cruzar o rio.

“Tínhamos uma barca afundada com uma pedra, que puxávamos por uma corda para trazer o produto para Portugal. O primeiro passava sempre sem carga, não fosse a Guarda estar à espreita. Se fosse apanhado gritava que andava ali raposa e voltávamos todos para o mato. Se estivesse livre, atirava três pedras para a água a anunciar que o caminho estava livre. Era o sinal”. O caminho para ir buscar o polvo era longo, 30 quilómetros pelo meio do mato, que na estrada podiam ser apanhados pela Guardia Civil. Só andávamos de noite, e sempre em silêncio. De dia dormíamos no meio do bosque”. O abastecimento fazia-se no armazém de um antigo merceeiro galego, no lugar do Couto.

Nas aldeias de Melgaço, hoje toda a gente conta a mesma história. O polvo chegava seco e pendurava-se atrás da porta. Dois dias antes do Natal juntava-se o mulherio nas fontes e mergulhava-se na água. Depois, era agarrá-lo pela cabeça e batê-lo numa pedra, pelo menos cinquenta vezes.

 

Rádio Vale do Minho

5 Dezembro, 2018

E COMO ATRAVESSAR O TRANCOSO OU BARXAS EM DEZEMBRO PARA IR COMPRAR O POLVO?

D. JOÃO II E MELGAÇO

melgaçodomonteàribeira, 18.12.21

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 brasão de d. joão ii - encontra-se na  câmara municipal de melgaço

 

AS ARMAS E A EMPRESA DO REI D. JOÃO II

Miguel Metelo de Seixas

Por via das empresas, começou a ser possível distinguir a pessoa individual do rei do cargo que ele desempenhava. Ao assumir o seu pilriteiro, D. João I passou a dispor de dois sinais de natureza distinta: por um lado, as armas reais, representativas da dinastia e da instituição régia; por outro, a sua empresa, símbolo pessoal, denotativo de uma tenção de vida, de um projecto de índole moral e política. As primeiras estavam destinadas a ser transmitidas a toda a dinastia, cabendo as armas plenas, símbolo da chefia da Casa, aos sucessivos detentores do título régio. Salvo necessidade excepcional, as armas não eram sujeitas a alterações substanciais: apenas se toleravam variações de estilo ou complementos que não viessem alterar o ordenamento heráldico do escudo. As armas representavam, pois, a continuidade dinástica e a permanência da instituição régia. Nesse sentido, poder-se-á aventar a hipótese de as armas reais terem começado a funcionar, a partir de então, não só como insígnias puramente dinásticas, mas também como símbolo do conjunto das instituições dirigidas pela Coroa. Com as devidas precauções, pode-se afirmar que as armas reais principiavam a representar a monarquia.

Reza a doutrina tradicional que as empresas, por sua vez, como símbolos meramente pessoais, não eram transmitidas aos descendentes. Entendia-se que, por via da empresa que escolhia (ao contrário das armas, que lhe advinham por herança), o soberano lograva exprimir a sua individualidade. Parecia, pois, natural que não só o rei como todos os membros da Casa Real assumissem empresas, as quais lhes permitiam distinguir as suas pessoas individuais dos títulos ou cargos que desempenhavam. Desta forma, as empresas não funcionavam como substitutas das armas, mas antes como seu complemento. Assim foi com o pilriteiro de D. João I, a hera de D. Duarte, o rodízio de D. Afonso V.

Qual foi, então, o emblema que D. João II adotou como empresa? Diversos autores, tanto antigos como modernos, escreveram sobre o assunto. Rui de Pina consagra-lhe um curto trecho da sua crónica:

“ElRey em sendo Princepe tomou por devisa, polla Princesa sua molher hum Pelicano, Ave rompente sangue no peito, pera sostentamento, e criação de seus filhos, que no ninho tem consigo. E tanto foy de seu contentamento, que a non mudou despois que foy Rey; e com ella trouxe por letra correspondente a piedosa morte do Pelicano que dizia: Por tua ley, e por tua grey”.

 

AS ARMAS E A EMPRESA DO REI D. JOÃO II.

SUBSÍDIOS METODOLÓGICOS PARA O ESTUDO DA HERÁLDICA E DA EMBLEMÁTICA NAS ARTES DECORATIVAS PORTUGUESAS

Centro Lusíada de Estudos Genealógicos e Heráldicos da Universidade Lusíada

Escola Superior de Artes Decorativas da Fundação Ricardo do Espírito Santo Silva

Bolseiro de Doutoramento da Fundação para a Ciência e a Tecnologia

DOAÇÃO AO MOSTEIRO DE FIÃES EM 1157

melgaçodomonteàribeira, 11.12.21

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1157 Agosto. 19

 

Afonso Pais e seis irmãos e irmãs, juntamente com outros fidalgos e seus familiares, doam ao mosteiro de Fiães o espaço territorial do couto, especificando a linha limítrofe que o cerceia.

 

Manuel António Bernardo Pintor, “Doação de Afonso Pais e outros ao mosteiro de Fiães em 1157 (pergaminho inédito)”, Arquivo do Alto Minho, vol. 2, 1947, pp. 79-83 (reeditado em Padre Manuel António Bernardo Pintor, Obra Histórica I, edição do Rotary Club de Monção, Monção, 2005, pp. 19-23).

 

(No início tem o monograma usual xpistus = Cristo).  Em nome de Nosso Senhor Jesus Cristo e em honra da beata Maria sempre Virgem e de todos os santos. Eu Afonso Pais juntamente com meus irmãos e minhas irmãs Pedro Pais, Egas Pais, Fernando Pais, Garcia Pais, Gudina Pais, Hónega Pais, Mór Pais, Maria Pais, Hónega Mendes, Mór Mendes. Eu Oroana com meus filhos Pedro Nunes, João Gomes, Álvaro Sarracines juntamente com meus irmãos e minhas irmãs. Eu Pedro Bauzoi juntamente com meus irmãos. Eu Nuno Dias juntamente com meus irmãos e irmãs. Eu Rodrigo Goterres com meus irmãos. Eu Ferrão Ventre com meus irmãos. Gonçalo Peres com seus irmãos. Fernando Nunes com meus irmãos. Pedro Soares com seus irmãos. Fernando Nunes com seus irmãos. Pedro Nunes com seus irmãos. Fazemos documento de segurança daquele monte que se chama Fenais, que nós resolvemos por vontade própria doar aos servos de Deus, Abade João e sua congregação, tanto aos presentes como aos que depois deles vierem e aí perseverarem na santa vida beneditina: possuam-no para sempre por direito de herança por nossa doação, pelas nossas almas e pelas almas de nossos pais, porque é breve a nossa vida. Estabelecemos-lhe limites a principiar em Penha de Ervilha, depois por Costa Má, até Curro de Loba, partindo pelo rio Doma, pelo vale Gaão, depois pelo outeiro da Aveleira, a seguir pelo Coto da Aguieira e depois desde o Vidual até Penha de Ervilha e fechou. Nós acima nomeados damos esta herança para exercer o culto de Deus enquanto houver um homem que o faça. Se for retirada do culto de Deus cada um receba o seu quinhão. Se vier alguém ou viermos nós, tanto da nossa família como estranhos, que queira violar esta nossa doação, seja excomungado e condenado perpetuamente como Judas traidor do Senhor.

Por estes limites que mencionamos concedemos (o monte) àquele mosteiro que está situado no referido monte de Santa Maria. Nenhuma autoridade nem homem algum se atreva a arrotear e lavrar (neste monte) sem ordem dos mesmos frades. Eis a pena que nós estabelecemos e outorgamos: restitua a mesma herança em dobro ou com suas melhorias e dois mil soldos para a Congregação. Reinando em Portugal o Rei Afonso com sua mulher a Rainha Mafalda. Vigário particular do Rei Gonçalo de Sousa. Na Sé de Tui o Bispo Isidoro. Senhor de Valadares Soeiro Aires. Era de 1195 no dia que é 14º das calendas de Setembro (19 de Agosto de 1157). Nós como acima dissemos a vós Abade João como a vossos frades nesta escritura de segurança por nossas mãos roboramos.

Como testemunhas: Soeiro, João, Pedro, Fernando, Munho. Pelo notário Pedro.

 

OS LIMITES DA FREGUESIA DE LAMAS DE MOURO E OS CAMINHOS DA IN(JUSTIÇA)

José Domingues

1ª Edição

Novembro de 2014

pp. 171-172

 

ALCUNHAS EM CASTRO LABOREIRO

melgaçodomonteàribeira, 04.12.21

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Não é pelo termo alcunha, mas por “alcunho” que o habitante e natural de Castro Laboreiro designa os apodos com que, entre si, indivíduos e famílias se conhecem e se distinguem por entre a rede de parentes e vizinhos com nomes e sobrenomes iguais ou não. Pedindo-se explicações do que possa ser o “alcunho” dirão, certamente, que o “alcunho é uma nomeada”, isto é, um modo peculiar de se tratarem ou melhor, de se referenciarem meios de epítetos com valor crismático importante.

Os “alcunhos” têm uma origem espontânea e directa. O povo é muito observador e apega-se imenso a pormenores que escapam ao forasteiro da cidade. Tais pormenores inscrevem-se num vasto quadro de referências que definem, de um lado, as circunstâncias da vida do indivíduo, do outro lado, as suas características e predicados pessoais.

 

                                             Luis Polanah

 

DO USO E SIGNIFICADO DAS ALCUNHAS NA FREGUESIA DE CASTRO LABOREIRO

Luis Polanah

Minia

2ª Série, Ano I, nº 1

1978

 

TOMÁS JOAQUIM CODEÇO IV

melgaçodomonteàribeira, 27.11.21

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cavaleiro alvo

Durante o período do pronunciamento militar, as atenções deixaram de estar centradas em Quingostas, e este, tirando partido da situação, conseguiu estabelecer contactos com o Visconde das Antas, que lhe atribuiu um salvo-conduto, em Dezembro do mesmo ano. Abandonada a clandestinidade, alguns dos seus sequazes saíram da clandestinidade, regressando às respectivas aldeias sem serem incomodados.

Tomás Quingostas tornou-se comandante da guarda volante do Alto Minho, tendo como missão capturar soldados desertores que fugiam para a Galiza, bem como guerrilheiros galegos, adeptos do carlismo, e evitar roubos e furtos, cooperando na manutenção da ordem e da tranquilidade no Alto Minho. No seu novo cargo, ia cumprindo, a perceito as funções de que estava incumbido. Porém, em Agosto de 1838, assassinou o presidente da câmara do Soajo, João Manuel Domingues, e em Novembro do mesmo ano prendeu João Pires e o padre António José Alves, com a justificação de que davam guarida a guerrilheiros espanhóis. Apesar de não se terem confirmado essas suspeitas, a detenção foi efectuada com o pretexto de terem na sua posse pólvora e sabão contrabandeados. Algumas das acções levadas pelo seu “exército”, bem como a sua ligação a guerrilhas espanholas ditaram o seu fim. Acusado de assassinato, Tomás das Quingostas foi morto em Janeiro de 1839 pela escolta que o transportava para a prisão, que alegou tentativa de fuga. Caía assim aquele que chegou a ser apelidado de “pequeno general do Alto Minho”, que foi assassino, salteador, guerrilheiro, comandante de tropas e herói popular.

As reacções à sua morte não se fizeram esperar. Além do já referido rapto do proprietário João Bento Pereira Dantas, uma quadrilha comandada pelo “Beira-Alta”, primo de Quingostas, miguelista, guerrilheiro e salteador, invadiu, em 1839, a casa de António José Afonso da Costa, na freguesia de Merufe, concelho de Monção, arrastou-o para fora da sua habitação e assassinou-o.

Nenhum dos salteadores que sucederam a Quingostas conseguiu granjear a sua popularidade e o reconhecimento junto das populações, talvez porque se tratava de homens considerados autenticamente marginais, que recorriam à violência, ao assalto e ao furto apenas para satisfazerem os seus interesses pessoais, sem quaisquer motivações de natureza política.

Deste modo, os nomes que adiante abordaremos não se destacaram pela simpatia e protecção de que beneficiaram junto das comunidades, mas antes pelo terror que espalharam e pela malignidade dos crimes que praticaram.

 

UNIVERSIDADE DO MINHO

Instituto de Ciências Sociais

 

ALEXANDRA PATRÍCIA LOPES ESTEVES

Entre o crime e a cadeia: violência e marginalidade no Alto Minho (1732-1870)

Volume I

Tese de Doutoramento em História

Ramo de Conhecimento em Idade Contemporânea

Agosto de 2010

 

http://academia.edu

TOMÁS JOAQUIM CODEÇO III

melgaçodomonteàribeira, 20.11.21

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Em Junho de 1836, quando a quadrilha de Tomás Quingostas era já rotulada de miguelista, foi preso José Joaquim Codeceira “saltiador de reinos, ladrão de estrada, assacino, e sócio de Quadrilha e Miguelista”, um dos responsáveis pelo aliciamento de desertores portugueses para integrarem as forças inimigas de Isabel II, tendo ele próprio combatido ao lado dos guerrilheiros. Esta ligação entre apaniguados das causas miguelista e carlista tornava imperiosa a destruição da quadrilha portuguesa e elevava a fasquia do seu grau de perigosidade.

A captura de elementos ligados ao bando de Quingostas resultava, em muitos casos, de acções de espionagem, executadas por homens a soldo das autoridades. Todavia, a prisão desses creminosos não implicava, necessariamente a sua punição. Muitos acabavam inocentados e postos em liberdade, ou conseguiam evadir-se dos estabelecimentos prisionais e vingar-se dos responsáveis pela sua detenção. O administrador do concelho de Melgaço não se inibia de lançar suspeitas sobre a existência de protecção aos salteadores e aos miguelistas, por parte do poder judicial, e de apoio exterior nas evasões de criminosos. Em 11 de Junho de 1836, depois de ter sofrido várias ameaças e farto da chacota de que era alvo, vendo a sua autoridade ser desacreditada por indivíduos que viviam à margem da lei, apresentou o seu pedido de demissão ao governador civil, pois, segundo as suas palavras, “bibo bexado de ver a protecção que tem tais corifeus, e descaramento e ouzadia com eu elles se portão.”

Quingostas escapou por pouco à prisão, num ataque de surpresa lançado pelas autoridades, após terem sido informadas da intenção do salteador se deslocar a uma romaria, tendo que passar pela freguesia da Gave, situada no concelho de Valadares. A quadrilha foi realmente surpreendida, mas o seu líder não foi apanhado.

Em finais de 1836, eram conhecidos os encontros, que tinham lugar no concelho de Melgaço, entre salteadores e miguelistas, sob o comando de Quingostas, que se presumia terem como objectivo desenvolver acções de desacreditação do governo liberal, a nível local, através de investidas contra as autoridades e contra a propriedade. Durante esse ano, tinham circulado pelos diferentes concelhos do distrito boatos sobre a realização de reuniões miguelistas e a existência de depósitos de armas.

Em Outubro de 1836, realizou-se, naquele concelho, uma reunião que juntou 18 miguelistas, na sua maior parte ofociais amnistiados, oriundos da cidade de Braga, aos quais se juntaram, dias depois, mais 13 da mesma cidade. Segundo as guardas nacionais de Arcos de Valdevez e Ponte da Barca, estes indivíduos incorporados na “gavilha” de Tomás Quingostas formaram um grupo de 45 homens, que, na noite de 21 para 22 de Outubro daquele ano, passou para a Galiza. O objectivo final seria a realização de um levantamento pró-miguelista a partir de Melgaço, contando com a participação dos vários adeptos do miguelismo nesta região.

Logo nos primórdios de 1837, Quingostas atacou a casa de uma viúva rica da freguesia de Merufe, concelho de Valadares. Seguido por mais de 20 homens, feriu com ums facada a dona da casa e, além de dinheiro e roupa, roubou-lhe papéis importantes com a intenção de a chantegear e, desse modo, obter mais dinheiro. Aliás, o guerrilheiro recorria frequentemente a este estratagema para extorquir dinheiro.

Em Março de 1837, uma força militar marchou em direcção aos concelhos de Monção, Melgaço e Valadares, com a missão não só de pôr termo aos roubos, mas também de perseguir e destruir a quadrilha de Quingostas. Mas este conseguiu escapulir-se para Espanha com cinco dos seus companheiros. O objectivo das autoridades passou então a ser impedir o seu regresso a Portugal. No entanto, esta empresa não era fácil de executar, dada a extensão da raia, a facilidade em transpor o rio Minho e a falta de zelo e de empenho das autoridades administrativas. O major José Figueiredo Frazão, comandante das forças destacadas para o Alto Minho para darem caça à quadrilha do Quingostas, denunciava precisamente esse desinteresse e as implicações daí advenientes. Estas acusações surgiram na sequência das picardias, que, desde 1834, impediam uma colaboração mais estreita entre o poder militar, judicial e administrativo, e davam azo ao aparecimento de suspeitas, intrigas e à troca de acusações entre os seus responsáveis.

A quadrilha de Tomás Quingostas acabou por entrar numa fase de franco declínio, o cerco apertou-se cada vez mais e vários dos seus companheiros foram presos ou fuzilados por militares ávidos de vingança. Em Maio de 1837, foi detido mais um dos seus parceiros, Francisco Xavier Sisneiros, natural da cidade de Lisboa. Conhecido como o “Lisbonense”, era considerado um agente do miguelismo no Alto Minho, tendo sido detido em Riba do Mouro, concelho de Valadares. Pouco depois, António Joaquim Rodrigues, conhecido como “Lourenço Correio”, foi capturado pelas forças do Major José de Figueiredo Frazão. Na mesma altura, foi detectada a presença de Quingostas no concelho de Melgaço, acompanhado apenas por um desertor e três camponeses. As autoridades planeavam a deportação da sua família, que resisia no concelho de Melgaço, como forma de o punir. Pelo menos era essa a vontade do major Frazão, que considerava serem os membros da família os responsáveis pelo aviso da presença das tropas. No entanto, o governador civil não anuiu a tal pretensão, por considerar que extravasava as suas competências.

Apesar de a quadrilha ser, essencialmente, uma organização masculina, o certo é em algumas ocasiões foram feitas referências à presença de elementos femininos, nomeadamente às duas irmãs que o acompanhavam e a duas mulheres, designadas pelas autoridades de “amigas” do Quingostas.

A tarefa do major Frazão estava a ser dificultada pela escassa cooperação das autoridades administrativas, particularmente dos regedores. Várias explicações podem ser avançadas no sentido de explicar esta atitude, nomeadamente a sua baixa instrução, o desconhecimento das suas obrigações e o receio de represálias por parte dos salteadores ou dos seus companheiros e familiares. O certo é que esta  sua postura tinha permitido que deambulassem livremente pelas feiras e festividades, cometessem delitos à luz do dia e circulassem pelas localidades, sem que fossem importunados.

A complacência das autoridades e das populações levou à presença de forças militares, desde Fevereiro de 1837, nos concelhos de Monção, Melgaço e Valadares, instaladas em casas de particulares, cujos proprietários não só os abrigavam, mas também os sustentavam. A situação arrastou-se pelo menos até Julho do mesmo ano. Após a saída das tropas, Quingostas reapareceu em Melgaço.

Entretanto, Quingostas tinha conseguido um indulto junto das autoridades espanholas, com a condição de não sair da província de Ourense. Mas acabou por desrespeitar o compromisso assumido e entrou em Portugal, onde os seus crimes não tinham sido perdoados. Em Agosto de 1837, ficou sob custódia, à ordem do chefe político da província de Ourense, cabendo a Portugal reclamar a sua extradição, tendo sido solicitada, para esse efeito, a intervenção do Ministério dos Negócios Estrangeiros.

Contudo, os ventos pareciam soprar a favor de Tomás das Quingostas. Em 14 de Julho de 1837, iniciou-se a “revolta dos Marechais”, um pronunciamento militar anti-setembrista, de inspiração cartista, encabeçada pelos duques da Terceira e da Saldanha. Esta revolta iniciou-se em Ponte da Barca, com a sublevação dos militares que estavam envolvidos na caça a Quingostas e seus companheiros, tendo terminado oficialmente em Setembro de 1837, com a vitória das forças governamentais.