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MELGAÇO, DO MONTE À RIBEIRA

História e narrativas duma terra raiana

MELGAÇO, DO MONTE À RIBEIRA

História e narrativas duma terra raiana

FRONTEIRA PORTUGUESA E LEONESA

melgaçodomonteàribeira, 26.11.22

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rio minho por murteira

 

FRONTEIRAS PORTUGUEZAS E LEONEZAS NOS FINS DO SÉCULO XII

 

O que dizemos no texto relativamente aos limites de Portugal, estriba-se nos fundamentos que vamos apontar.

Linha da fóz do Minho a Melgaço. No Arch. Nacion. M. 12 de For. Ant. nº 3 f. 22v. se acha o foral de Melgaço dado em 1181, e na carta de repovoação de Lapella de 1208 se renovam a este logar os foros com que tinha sido povoado in diebus regis D. Alfonsi (L. 2 de Alemdouro f. 269). Os povoadores de Melgaço pediram para si os foros de Ribadavia, concelho limitrofe na Galliza. Lê-se no preambulo deste diploma que a nova povoação era fundada na terra ou districto de Valadares, districto que, como hoje vemos da situação desta ultima villa, se dilatava ao longo do Minho para o lado de Monção. Affonso I incluiu nos termos do novo edifício metade de Chaviães, logar exactamente situado no angulo, que a linha de Melgaço a Lindoso forma com o rio Minho, cahindo quasi perpendicularmente sobre elle.

 

HISTÓRIA DE PORTUGAL

por

Alexandre Herculano

Tomo Segundo

Lisboa

M DCCC XLVII

 

CASTRO LABOREIRO, VARÍOLA EM 1874

melgaçodomonteàribeira, 19.11.22

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OS “BRASILEIROS” E A ASSISTÊNCIA À SAÚDE.

O CASO DO ALTO MINHO DE OITOCENTOS.

 

Alexandra Esteves

 

Uma grave epidemia de varíola varreu a freguesia de Castro Laboreiro, no concelho de Melgaço, desde outubro de 1873, estendendo-se pelo ano de 1874. Em três meses vitimou uma centena de crianças. Em fevereiro de 1874, havia nesta localidade vinte e duas crianças infectadas, com idades compreendidas entre os oito meses e os doze anos de idade. No verão desse ano, a enfermidade atingiu novamente o concelho de Arcos de Valdevez, incidindo, especialmente, na freguesia de Jolda. Na mesma altura, em Outeiro, uma freguesia do concelho de Viana do Castelo, surgiam os primeiros casos. Procurava-se alertar as populações locais para a importência da higiene pessoal e da limpeza do espaço doméstico. Tudo em vão. Na ótica das autoridades, o motivo da proliferação da varíola estava na falta de limpeza e de condições de higiene das habitações. Segundo o subdelegado de saúde, de visita a Castro Laboreiro,

     a moléstia é contagiosa e epidémica, e difficil ou quazi impossível se torna a sua extincção, já porque as habitações estão fora de todas as condições higiénicas, porque a limpesa é nulla – dormem a bem dizer com os gados – já porque o seu instincto selvagem os faz ter horror à medicina e estão possuídos dúm fatalismo quasi invencível.

Este comentário peca por um certo facilitismo na tentativa de justificar a propagação da varíola, ao atribuir à rudeza das gentes a recusa das recomendações e dos tratamentos prescritos pela medicina. Consideramos que essa resistência, designadamente à aplicação da vacina, resultava, em larga medida, do isolomento em que viviam as populações de zonas montanhosas, alimentado pela ausência de vias de comunicação. Por outro lado, há que atender à função da casa na economia do Alto Minho no século XIX e até à segunda metade do século XX. A sua configuração implicava o desenvolvimento de diferentes formas de sociabilidade e de aproveitamento do espaço interior e da sua relação com o exterior. O conceito de casa tinha um sentido mais lato e abrangente para as gentes do campo do que para os moradores nas sedes do concelho. Para estes, as habitações eram sobretudo espaços de consumo e fruição, embora, circunstancialmente, fossem utilizadas como locais de trabalho. No campo, funcionavam, simultaneamente, como espaços de produção e de consumo, em consequência da estreita conexão de base sinalagmática entre a terra e a casa: os residentes na casa trabalhavam as propriedades que a integravam, e estas garantiam-lhes a subsistência. Sendo um instrumento para amanhar a terra, a casa rural surge mais virada para o exterior, composta pela eira e anexos agrícolas, onde coabitavam o homem e o animal, numa partilha promíscua da espacialidade doméstica.

 

www.academia.edu

 

O FORAL DE MELGAÇO

melgaçodomonteàribeira, 12.11.22

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castelo melgaço 1913

0 FORAL DE MELGAÇO

Melgaço recebeu de Affonso I, em 1181, o foral de Ribadávia, terra da Galliza; e, segundo diz o documento, foram os próprios moradores de Melgaço que o pediram por entenderem que era bom. D. Sancho II, 1223-1245, converteu em mil soldos leonezes por anno as rendas que tinha na villa, e deixou o cardo do concelho apresentar ao rei um cavaleiro que lhe fizesse menagem do castello. O diploma foi confirmado por D. Affonso III em 1256.

Dois anos depois, em 1258, o soberano dá a Melgaço o foral de Monsão (typo de Salamanca), cuja data conhecida é todavia, como já observamos, de 1261; e estabelece, em especial, que haja na villa trezentos e cincoenta povoadores que pagarão anualmente á coroa, eles e todos os que lhes sucederem, trezentos e cincoenta morabitinos velhos, em tres prazos, por todos os direitos, foros e coimas que menciona a carta: o rico-homem, que governar o districto, póde entrar na villa, mas pagará á sua custa a despesa que fizer, e não aggravará por fórma alguma os habitantes: o alcaide do castello é posto pelo rei, e a elle prestará menagem, mas não se intrometterá na governança do concelho, salvo se os proprios moradores o convocarem.

A conversão, que se lê no documento de 1258, é em tudo igual á que registraram as actas das inquirições geraes d’esse anno, a respeito de Melgaço. Occorre, portanto, aqui um reparo. D. Affonso III mandou fazer as inquirições entre Cavado e Minho a 26 de abril de 1258; e o foral dado a Melgaço n’esse anno, está datado de Braga a 29 de abril. Ou havemos de entender que o depoimento dos jurados (e no inquerito de Melgaço intervieram muitos) se refere a um facto antigo, e n’este caso a conversão já existia quando se passou ao concelho a carta de 1258; ou, dando desconto ao tempo que os commisarios haviam de gastar nos inqueritos, desde que tinham sido incumbidos d’estas pesquizas em 26 de abril, devemos crer que a redução foi feita pelo foral, mas já era conhecida em Melgaço quando ahi estiveram os inquiridores. Sendo assim, este exemplo servirá de aviso para não considerarmos sempre como existentes de longa data os factos, que as actas das inquirições afirmam terem sido expostos pelos jurados, quando não constar que estes deram alguma indicação a respeito do tempo em que aconteceram.

Mas fosse ou não mais antiga a substituição dos encargos exarada no foral de 1258, o que sabemos é que elle era revogado antes de terem decorrido tres anos, em 9 de fevereiro de 1261, por se julgarem aggravados com a inovação os moradores do concello, sendo então restituídos ao seu estado anterior. Cada vizinho, diz o diploma, recupere e tenha todo o seu herdamento que tinha antes; o que nos mostra que a reforma, augmentando o numero dos foreiros, dava aos que accresciam alguma parte do predios dos antigos povoadores. A carta de 1181 é de novo confirmada, mantendo-se porém igualmente o pacto que fizera com o gremio el-rei D. Sancho II, e que já vimos ter sido retificado por D. Affonso III em 1256.

No documento, que vamos seguindo, as condições, ou atribuidas a esse pacto ou estabelecidas agora pelo soberano, são, além da conversão de todos os rendimentos fiscais em mil soldos leonezes: que o concelho terá e guardará o castello á sua custa, devendo apresentar um cavaleiro bom e fiel, portuguez e fidalgo, que faça menagem do castello ao rei: o morador do couto de Melgaço, que exportar vinho embarcando-o, pagará direitos á coroa: o rico-homem não entrará na villa e seu termo, nem no castello, contra vontade do concelho, salvo se for mandado do rei para defender a terra.

 

MELGAÇO NA HISTÓRIA DE PORTUGAL POR ALEXANDRE HERCULANO

melgaçodomonteàribeira, 05.11.22

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FRONTEIRAS PORTUGUEZAS E LEONEZAS NOS FINS DO

SÉCULO XII

 

Linha da foz do Minho a Melgaço. No Arch. Nacion. M. 12 de For. Ant. nº 3 f. 22 v. se acha o foral de Melgaço dado em 1181, e na carta de repovoação de Lapella 1208 se renovam a este logar os foros com que tinha sido povoado in diebus regis D. Alfonsi (L. 2 de Alemdouro f. 269). Os povoadores de Melgaço pediram para si os foros de Ribadavia, concelho limítrofe na Galiza. Lê-se no preambulo deste diploma que a nova povoação era fundada na terra ou districto de Valadares, districto que, como hoje vemos da situação desta ultima villa, se dilatava ao longo do Minho para o lado de Monção. Affonso I incluiu nos termos do novo municipio metade de Chaviães, logar exactamente situado no angulo, que a linha de Melgaço a Lindoso forma com o rio Minho, cahindo quasi perpendicularmente sobre elle. Na restauração de Contrasta (Valença) por Affonso II (Liv. 1 de Affonso III f. 64 v.) affirma elrei que seu pae já tinha dado um foral áquelle logar, o qual, portanto, remonta á epocha de Sancho I, e talvez á de Affonso I, porque nem sempre a carta municipal coincide com a origem das povoações, podendo ellas existir anteriormente. Isto mesmo se vé do fragmento da demanda entre Affonso II e suas irmans (lançado no Liv. 3º de Aff, III f. 26), d’onde consta haver já o castello de Contrasta por morte de Sancho I, porque logo começaram as discórdias d’Affonso II com as infantas, durante as quaes foi Contrasta tomada pelos leonezes.

 

HISTÓRIA DE PORTUGAL

Volume II

Alexandre Herculano

A ARTE ROMÂNICA EM MELGAÇO

melgaçodomonteàribeira, 29.10.22

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igreja matriz

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capela da orada

A ARTE ROMÂNICA NA ANTIGA DIOCESE DE TUI: AS RELAÇÕES ARTÍSTICAS GALAICO-MINHOTAS

COMPOSIÇÃO E DESENVOLVIMENTO DO ESTUDO

 

Abordar a questão das relações artísticas galaico-minhotas pode ser muito complicado, uma vez que só temos fontes históricas, não temos fontes artísticas que possam fornecer informações sobre oficinas e autores envolvidos na construção de obras românicas. O principal método de análise é a comparação entre as formas artísticas das duas margens minhotas e o estudo da bibliografia dedicada às diferentes manifestações.

(…)

Na arte românica da antiga diocese tudense (Tui), a arquitectura tem uma estreita relação de interdependência com a escultura. Embora seja considerada rural e mesmo pobre, devemos enfatizar a sua singularidade, especialmente quanto ao uso de decoração escultórica. As estruturas e motivos são o resultado de um importante processo de absorção das correntes artísticas europeias, feita através das catedrais de Tui, Compostela, Braga, Ourense e das igrejas cistercienses de finais do século XII, e da reutilização do passado como exemplo: a influência castreja que aparece no gosto pelas formas geométricas nas hexapétalas herdadas da decoração dos castros como o de Castro Laboreiro (Melgaço, Portugal) e Santa Tegra (A Guarda, Pontevedra), que se refletem em exemplares românicos como o de Santa Maria de Castrelos (Vigo, Pontevedra). A herdança pré-românica refletida no uso do sogueado no capitel historiado de São Salvador de Paderne (Melgaço, Portugal) ou na decoração de uma arquivolta de S. Vicente de Barrantes (Tomiño, Pontevedra) que apresenta uns arquinhos similares aos da igreja de S. Pedro de Balsemão (Lamego, Portugal). Outro nexo comum destas relações artísticas Galaico-Minhotas está nas tradições e na cultura popular comum, como acontece com os motivos apotropaicos e de longa tradição popular, como o serpentiforme de San Fins de Friestas (Valença, Portugal) ou o canídeo ou leão de Santa Maria da Porta (Melgaço, Portugal), referindo a atitude de guarda e proteção que devem ter os que entram na igreja e espaço sagrado, embora os animais da Capela da Nossa Senhora da Orada (Melgaço, Portugal) sejam parte do motivo da árvore da vida, que também aparecem na área galega da diocese no tímpano de S. Miguel de Pexegueiro (Tui, Pontevedra), que se relacionam com o grifo e o dragão em luta, representação da batalha entre o bem e o mal do tímpano norte de São Cristóvão de Rio Mau.

É importante a presença no entorno diocesano de oficinas itinerantes que fazem cópias sistemáticas que respondem a programas iconográficos idênticos ou com intenção semelhante. É o caso, por exemplo, da que fez o tímpano de S. Salvador de Albeos (Crecente, Pontevedra), cuja Maiestas Domini tem traços comuns às de Bravães (Ponte da Barca, Portugal) e Rubiães (Paredes de Coura, Portugal). Podemos dizer que as oficinas que trabalham na zona conhecem a linguagem das artes de ambas as margens do Minho e que partilham mestres e canteiros.

 

Margarita Vásquez Corbal

Doutoranda do Departamento de História da Universidade de

Santiago de Compostela (Espanha)

 

Incipit 2. Workshop de Estudos Medievais da Universidade do Porto

2011-12

MAIS UM AMIGO QUE NOS DEIXOU

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FICA EM PAZ FERNANDO

 

 

 

SOBRE O CASTELO DE CASTRO LABOREIRO

melgaçodomonteàribeira, 22.10.22

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AS ORIGENS

Relativamente às origens administrativas do castelo de Castro Laboreiro, um pouco anteriores ao reinado de D. Afonso Henriques, as referências são escassas, no entanto um documento de 1007 do Mosteiro de Celanova, refere Vitiza (séc. VIII-IX) enquanto conde deste território. Vitiza rebelou-se contra o rei D. Afonso III das Astúrias (866-910), mas foi derrotado pelo Conde D. Hermenegildo (842-912), parte das forças Galegas, que por este acto foi colocado na regência do território de Castro Laboreiro. No entanto, apenas na regência do seu neto São Rosendo (907-977), é que o local de implantação do actual castelo sofrerá alterações. Mais precisamente no ano de 955, D. Ordonho III, rei de Leão, nomeia-o bispo de Mondonhedo e administrador de Santiago de Compostela, governador do Val del Limia, o qual procura dotar a região norte de Portugal e a Galiza de fortificações que impedissem as investidas dos Árabes e Normandos, e Castro Laboreiro terá sido uma destas fortificações.

Em 1141, D. Afonso Henriques (1139-1185) havia invadido a Terra de Toronho (território fronteiriço à linha do Minho e que tinha Tuy à cabeça), acção bélica que conduziu à invasão do Minho por parte das forças leonesas e à subsequente tomada do castelo de Castro Laboreiro que, à data, era uma estrutura roqueira assente sobre os vestígios de uma velha povoação da Idade do Ferro. D. Afonso Henriques conquista o castelo de Castro Laboreiro tendo recebido da abadessa do convento de Paderne (Melgaço), mulas e mantimentos para esta empresa. Deverá ter concedido foral à povoação, nesta altura, no entanto este tema tem sido alvo de discussão e debate, dado que o foral está desaparecido (bem como outros documentos do cartulário de Fiães, da mesma época), mas é repetidamente invocado, e sendo o seu conteúdo comparado ao de Sahagún (o mesmo problema ecoa relativamente ao foral de Melgaço, concedido por D. Afonso Henriques).

A fortificação é alvo de intervenções na sua arquitectura nesta época porque passa a integrar as linhas de defesa fronteiriça de Entre Douro e Minho, enquanto sentinela dos acessos fronteiriços terrestres entre o reino português e a Galiza. Contudo, não se sabe exactamente quais nem em que datas se foram introduzindo os elementos que conhecemos a partir dos alçados e plantas de Duarte de Armas (séc. XVI), sendo estes do período que em História de Arte se denomina de gótico.

 

CASTRO LABOREIRO E SEU CASTELO

CONTRIBUTO PARA O SEU ESTUDO

DIANA CARVALHO

(mestranda em História e Património, dianacarvalho.pt@gmail.com)

 

Retirado de:

Abelterium

Revista Online de Arqueologia e História do

Município de Alter do Chão

Volume III

Maio de 2017

CERCO E CONQUISTA DA PRAÇA DE MELGAÇO

melgaçodomonteàribeira, 15.10.22

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CRONICA DEL REY D. JOAÕ O I

 

CERCA EL REY A VILLA DE MELGAÇO: SUA ENTREGA, E SAHIDA DOS CASTELHANOS

 

Estando el Rey na Cidade do Porto, veio a elle, hum embaixador chamado Ambrosio de Marinis, enviado por Antimoto Adorno, Duque de Genova e dos anciaõs daquella comunidade, per que mandavaõ pedir a el Rey a valia das mercadorias das naos genovezas, que faraõ tomadas no tempo do cerco de Lisboa. Sobre o que el Rey deu boa resposta, sem o remeter aos officiaes da fazenda, como agora se faz; e o que montava nellas, que eraõ sesenta mil dobras de ouro, lhe mandou logo el Rey pagar; com que o embaixador foi mui contente.

Nesse mesmo tempo partio el Rey para Braga, onde fez Cortes sobre cousas do Estado do Reyno, e partio para Melgaço cinco legoas acima de Tuy, e meia legoa do Minho, Villa do Reyno bem cercada, que estava por Castella. El Rey chegou a ella no mez de Janeiro de 1388 com seu campo, em que hiaõ D. Pedro de Castro, o Prior do Hospital, e João Fernandez Pacheco, e outros, que seriaõ por todos mil e quinhentas lanças, e muita gente de pé. Os de dentro, que estavaõ por defensaõ da Villa, eraõ Alvaro Paez de Soto Mayor, e Diogo Preto, e Ximeno, com trezentos homens de armas, e outros tantos homens de pé escudados. El Rey assentou seu arraial, e começou a combater com todo genero de artificios, e engenhos, a que chamavaõ trons, com que atiravaõ grandes pedras; a que tambem os de dentro respondiaõ com outras: e alli ouve muitas escaramuças. E vendo os de dentro tão grande bastida, que el Rey mandou fazer de muitos sobrados, em que hiaõ os bésteiros, a qual se movia por carros, e engenhos, sendo mui alta, e de grande largura, receando que a Villa podesse ser entrada, mandaraõ dizer a Joaõ Fernandez Pacheco lhe fosse falar; e el Rey o mandou: e chegando á barbacaã, e Alvaro Paes ao muro, falaraõ de vagar e não se concertaraõ sobre a entrega da Villa. Nesse dia ouve huma escaramuça mais para ver, que as que até alli eraõ passadas; porque duas molheres bravas, huma do arraial, e outra da Villa, se desafiaraõ, e vieraõ aos cabellos: e por fim venceo a do arraial, como mais costumada a andar na guerra.

Neste meio tempo chegou a Rainha a Monçaõ, tres legoas de Melgaço: vinhaõ com ella o Doctor Joaõ das Regras, Joaõ Affonso de Sanctarem e outros cavaleiros: dahi se veio ao Mosteiro de Feaes, huma legoa de Melgaço. Ao arraial chegou o Conde D. Gonçalo, e Joaõ Rodriguez Pereira; e escaramuçaraõ os do Conde com os da Villa, e foraõ feridos de ambas as partes, e nenhum morto. A aquelle tempo veio recado a el Rey que a Villa de Salvaterra, que lhe deu D. Pedro de Castro, hum tabeliaõ do lugar, e dous homens de armas a deraõ a Payo Sorodea. El Rey mandou logo lá o prior D. Alvaro Gonçalvez com muita gente, mas naõ aproveitaraõ nada: e querendo el Rey mudar o artificio da bastida para proseguir o combate de Melgaço, mandou chamar a Rainha, para que a viesse ver como se entregava. E a huma segunda feira, que eraõ tres dias de Março, despois de comer, mandou el Rey que abalasse a bastida com seus engenhos contra a Villa, e se moveo com grande força de gente, e andou dezoito braças. Após ella moveo huma ala, e despois outra, e estiveraõ ambas arredadas do muro. Despois moveraõ a bastida outra vez, e foi bem: e chegou tanto á Villa, que punhaõ hum pé dentro do muro, e outro na escada; e sobio muita gente do Prior primeiro que todos, e mandou el Rey que se retirassem a fóra. Entaõ se fez prestes para mandar combater, e mandou a dez homens de armas que sobissem no mais alto sobrado, onde hiaõ as pedras de maõ, e moveo tudo juntamente, as escadas, e a bastida, em que hiaõ os homens de armas, e besteiros. Da bastida sahiraõ homens com grossos paos, que acostavaõ ao muro, e punhaõ tantos delles, que ficavaõ emparados os debaixo das pedras, e fogo, que de cima do muro lançavaõ; mas os de baixo lançavaõ muitas pedras aos de dentro, por naõ terem defensaõ, E enfadados os da Villa, mandaraõ outra vez pedir a el Rey lhes mandasse falar; e tornou lá a isso o Prior, naõ querendo el Rey consentir em avença alguma, sendo cousa que aos outros lugares concedia benignamente; mas queria tomalos por força, para se vingar de algumas palavras descorteses, que contra elle tinhaõ dito; e sobre isso ouve altercaçaõ entre el Rey e os seus. Joaõ Rodriguez de Sa, disse a el Rey, que lhe parecia bem fazerlhe partido, pois o cometiaõ; porque, tomandoos por força,, lhe podiaõ matar algum homem, com que fosse anojado. El Rey lhe disse com ira, que quem tivesse medo, naõ entrasse na escala. Eu, senhor, disse Joaõ Rodriguez de Sá, naõ no tenho, se dizeis isso por mim: mas cuido que nunca me conhecestes por tal. Nem eu (disse el Rey) o digo por vós; mas digoo, porque os tenho já por rendidos. A gente miuda, com dezejo de roubar, queriaõ que perseverasse até tomar a Villa por força. Os nobres estavaõ por Joaõ Rodriguez. Em fim el Rey consentio na entrega a partido; e tornou lá o Prior, o qual assentou com elles, despois de muitas razoes, que dessem a Villa, e o Castello, e eles saissem em calsas, e giboes, sem outra cousa. Desta maneira foi dada a Villa de Melgaço, avendo sincoenta e tres dias que estava cercada. Dada a Villa por esta maneira, correo nova polo arraial que todos os cercados aviaõ de sahir, despidos com suas varas nas maõs. Os moços, sem lho alguem mandar, ouvindo aquillo, foraõ colher varas, e cada hum trouxe seu feixe, e pozeraõse á porta da Villa, para, quando os cercados sahissem, lhas meterem nas maõs a cada hum. Nisto, primeiro que todos, sahio hum mancebo pouco mais de vinte annos, e chegou onde el Rey estava: e, posto de joelhos diante delle, disse que elle era hum fidalgo, que viera áquelle lugar per servir a el Rey seu senhor, cujo vassallo era: e por sua desaventura, sendo aquellas as primeiras armas, que tomara para o servir, via que lhe era forçado perdelas, segundo o que com os da Villa sua Alteza tinha tratado, que era a cousa de maior tristeza para elle de quantas lhe poderaõ acontecer, naõ pela perda das armas, que sua valia era pouca, mas porque lhe parecia que já com outras naõ averia nenhum bom acontecimento, se aquellas, que primeiro vestira, as perdesse de tal maneira. Por tanto lhe pedia por mercê lhas mandasse tornar: e quereria Deos que ainda lhe fizesse com ellas tal serviço, salva a honra del Rey seu senhor, e sua lealdade com que as ouvesse delle por bem empregadas. El Rey, em que avia muita humanidade, e cavallaria, vendo a boa indole daquelle mancebo, mandou que suas armas lhe fossem tornadas; e naõ se achando, lhe dessem quaes elle escolhesse: e assi só elle sahio armado. Ao outro dia foraõ lançados todos fóra despidos em calsas, e em giboes: e os moços, naõ entrando aquillo no partido, metiaõlhe a cada hum sua vara na maõ, e elles as tomavaõ; e alguns por graça diziaõ aos que lhas davaõ: Rogote que me dês huma bem direita, e boa. Assi ouve el Rey a Villa, e o castello, de que deu a Alcaidaria a Joaõ Rodriguez de Sá: e partindo com a Rainha, tornou a Monçaõ.

 

CRONICAS DEL REY DOM JOAÕ DE GLORIOSA MEMORIA O I

RODRIGO DA CUNHA

M.DCC.LXXX

 

https://books.google.pt

 

GUARDA FISCAL E CONTRABANDO

melgaçodomonteàribeira, 08.10.22

838 b Castro Laboreiro - Perto do Ribeiro de Baixo

 perto do ribeiro de baixo castro laboreiro

 

CONTRABANDO PELA RAIA SECA DO LABOREIRO

A GUARDA-FISCAL

 

Américo Rodrigues

 

“Os Carabineiros” (na realidade Guarda-civil) e a Guarda-fiscal (“os guardinhas”) vigiavam uma das fronteiras mais velhas da Europa. Em Portugal dependiam do Ministério das Finanças, e a sua profissão estava quase totalmente vocacionada para a apreensão dos produtos contrabandeados, ou seja, ela existia em parte devido ao contrabando e aos contrabandistas.

Os três postos do guarda-fiscal existentes na freguesia tinham uma basta área de vigilância à sua guarda. Os meios de que dispunham eram escassos.

Os guardas eram na sua maioria de terras distantes, Trás-os-Montes, Beira Alta, etc. Muitos chegavam jovens e tinham baixo índice escolar. Alguns, poucos, até casaram na terra e aqui fixaram residência.

Os postos ofereciam condições mínimas de habitabilidade permanente para o corpo, principalmente para os jovens guardas, que não tinham família constituída. Outros alugavam casa na localidade, botavam horta e tentavam viver normalmente com a sua família.

A vigilância do território era feita a pé, normalmente por patrulhas de dois, percorrendo longas distâncias e focavam-se nas áreas mais sensíveis, principalmente em encruzilhadas, pontos altos e passagens mais ou menos conhecidas, onde fosse possível controlar alguns dos caminhos que se dirigiam à Galiza.

A apreensão dava um processo burocrático, uma multa e por vezes cadeia. Os produtos eram retidos e leiloados. Os guardas recebiam uma parte da verba. Da fama que ficavam com alguns também não se livram.

Mais tarde vigiavam as estradas onde tinham de passar os camiões de gado e bananas. Nesta altura recebiam quantidades chorudas, apesar de muitas vezes serem enganados, principalmente nas quantidades. Taxavam à cabeça, ao quilo ou à “passagem”. Recebiam em grupo ou individualmente, conforme a patente ou o peso junto dos contrabandistas. Alguns construíram “casas de emigrantes” e todos melhoraram as suas vidas, neste período de transição pós 25 de Abril.

Ao contrabando familiar pouco ou nada ligavam, no entanto, o povo ainda se escondia deles como do lobo, com medo que lhe apreendessem o azeite, o bacalhau, o polvo do natal, o pimento e outros bens apreciados no consumo da casa.

O povo nunca gostou de guardas. Alguns deles eram maus e ganharam fama disso. O Zé Carteiro dos anos 50/60, era disso exemplo. Parece ser mesmo perverso. Maltrata os galegos, bata-lhe e tira-lhe o contrabando. Muitos destes homens são pobres coitados que tudo temiam.

Apesar de serem funcionários públicos (sem grandes privilégios), eram descriminados localmente e colocados em nível social inferior. Em Castro Laboreiro toda a gente tinha o seu bocado de terra e os homens havia séculos que emigravam.

Os guardas na sua maioria eram considerados mandriões, e gente a evitar.

 

Boletim Cultural nº 8

Melgaço 2009

 

Eu privei de muito perto com o Zé Carteiro. Morávamos na Vila de Melgaço, porta com porta. O Zé Carteiro era um homenzarrão de 1,90 metros de altura, 120 ou 130 quilos de peso, quase todo careca. As mãos pareciam umas barbatanas de natação. Era casado com a Ritinha, poveira de nascimento, 1,60 metros de altura, 50 quilos de peso. O homem era um monstro, não só de aparência como de espírito. Quando li a referência feita pelo Dr. Américo a este energúmeno, na minha cabeça rebentaram os gritos de dor da Ritinha das coças que levava. A besta chegava, batia, comia e ia dormir. Amanhã é outro dia, mais do mesmo. Volta e meia recebia em casa visitas de rapazes, na casa dos 20 anos, que vim a saber serem filhos dele. A tática do fdp era: a carga ou as cuecas. Eram uns dois ou três e vinham de diferentes partes do concelho.

Um fim de tarde, teria eu os 6 anos de idade, rebenta guerra brava na casa do Zé Carteiro. Aos gritos da Ritinha, lá acudiram as vizinhas a tentar botar água na fervura. Desta vez a Ritinha era acusada de ter deixado queimar o bolo que cozia na pedra da lareira. As vizinhas diziam que não, não está queimado e ele gritava o contrário quando se vira para mim e grita – prova aí Ilídio. Dei uma dentada no bolo e disse – está queimado e bem queimado. Coitada da Ritinha, nesse e em todos os outros dias.

Pelos meus 12 anos fui passar 2 semanas a uma quinta, em Nine, que ele dirigia. Não tenho palavras para descrever o local, só sei que cheirava a riqueza antiga. O dono tinha que ser muito rico. Chamava-se Manuel Domingues, o Mareco.

Ilídio Sousa

 

LIMITES DE ROUÇAS E FIÃES

melgaçodomonteàribeira, 01.10.22

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Neste pequeno volume reúnem-se quinze artigos, publicados no jornal A Voz de Melgaço, desde 1 se Setembro de 2003 até 15 de Outubro de 2005, como contributo original para a história de oito freguesias do actual concelho de Melgaço: Rouças, Fiães, Paderne, Cubalhão, Cousso, Penso, Chaviães e Paços. E não se estranhe que tenhamos acentuado o facto de pertencerem todas ao actual concelho de Melgaço, pois, até meados do século XIX, a configuração do, então, município melgacense era muito diferente, não estando nele integradas quatro das oito freguesias, acima referidas.

Não é este o momento oportuno para explicitar, em pormenor, a realidade então vigente, bastando observar que Fiães e Paderne eram coutos – e, como tais, terras imunes, com tudo o que isso implicava – até à extinção dos mosteiros aí existentes, tendo ocorrido a do mosteiro de Fiães, na sequência do decreto de Joaquim António de Aguiar, de 28 de Maio de 1834, e a de S. Salvador de Paderne, em 1770, isto é, quase sessenta e quatro anos antes, por decisão do Marquês de Pombal.

Por sua vez, as aldeias de Cubalhão e Cousso, embora desmembradas de Paderne e elevadas à dignidade de freguesias ou paróquias por D. Frei Bartolomeu dos Mártires, em 1567, continuaram a depender do mosteiro de Paderne e integradas no seu couto e, por isso, fora do município melgacense.

                                               José Marques

 

LIMITES DE ROUÇAS E FIÃES

E DE OUTRAS FREGUESIAS DE MELGAÇO

José Marques

Edição do autor

10/01/2006

 

S. ROSENDO E CASTRO LABOREIRO

melgaçodomonteàribeira, 24.09.22

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CASTRO LABOREIRO – DA PROTO-HISTÓRIA À FORMAÇÃO DE PORTUGAL

 

A Reconquista cristã é o processo que desencadeia a formação das primeiras monarquias do Norte peninsular, que por sua vez darão origem ao reino de Portugal. As referências às origens administrativas de Castro Laboreiro são escassas, no entanto um documento de 1007 do Mosteiro de Celanova refere Vitiza (séc. VIII-IX) enquanto conde deste território. Vitiza rebelou-se contra o rei Afonso III das Astúrias (866-910), mas foi derrotado pelo Conde D. Hermenegildo (842-912), parte das forças Galegas, que por este ato foi colocado na regência do território de Castro Laboreiro. Segundo a lenda, só na regência de seu neto São Rosendo (907-977) é que o local de implantação do atual castelo será alterado. A lenda diz que além do castelo, S. Rosendo (neto de Hermenegildo Guterres), terá também fundado a atual Vila e Igreja Paroquial. Esta lenda poderá ter algum fundo de verdade uma vez que S. Rosendo é o fundador do mosteiro de Celanova, e que o dito mosteiro exerceu intensa influência religiosa e política sobre este território, guardando até documentação específica de Castro Laboreiro nos seus arquivos. S. Rosendo foi uma figura incontornável para a Galiza, mas também para o Alto Minho. Foi bispo de Dume e administrou a Sé de Santiago de Compostela que, como se sabe, tinha relações de proximidade com a Arquidiocese de Braga, também ela influente no espaço geográfico do Alto Minho. No ano de 955, D. Ordonho III, rei de Leão, nomeia São Rosendo como bispo de Mondonhedo e administrador de Santiago de Compostela, governador do Val del Limia, o qual procurou dotar a região norte de Portugal e a Galiza de fortificações que impedissem as investidas dos Árabes e Normandos.

O castelo de Castro Laboreiro terá sido uma destas fortificações, pois também encontramos nas lendas históricas locais referências a S. Rosendo como sendo fundador desta fortificação. O novo regime administrativo que se avizinhava no horizonte, o sistema feudal e senhorial, foi de certo modo responsável pela decadência das grandes monarquias primitivas do Norte peninsular. Contudo, apesar das constantes transformações políticas do território, as comunidades locais, nomeadamente as de montanha, menos privilegiadas em todos os sentidos, não deixaram de contrair sobre si mesmas os seus sistemas arcaicos de sobrevivência e solidariedade coletiva, prevalecendo os vínculos de parentesco.

  1. Afonso Henriques (1139-1185) toma Castro Laboreiro, em 1141 ou 1144. A tomada deste território pelo primeiro rei está testemunhada num documento do mosteiro de Paderne (Melgaço), que Carlos Alberto Ferreira de Almeida explica da seguinte forma:

“O rei D. Afonso Henriques conduziu pessoalmente uma ofensiva que visava retomar, e retomou o Castelo de Castro Laboreiro, tendo recebido da abadessa do Convento de Paderne (Melgaço), mulas e mantimentos para esta empresa. Tudo aconteceu porque no decurso das muitas escaramuças entre portucalenses e leoneses, em 1141, Afonso Henriques havia invadido a Terra de Toronho, território fronteiriço à linha do Minho e que tinha Tuy como principal ponto de referência, ação bélica que conduziu a invasão do Minho e à subsequente tomada do Castelo de Castro Laboreiro, à data, uma estrutura roqueira assente sobre os escombros de uma velha povoação da Idade do Ferro”.

Deverá ter concedido foral a Castro Laboreiro nesta altura, no entanto este tema tem sido alvo de discussão e debate, dado que o foral está desaparecido, bem como outros documentos do cartulário de Fiães da mesma época, mas é repetidamente invocado. O mesmo problema ecoa relativamente ao foral de Melgaço, concedido por D. Afonso Henriques. D. Sancho I (1185-1211) debate-se por assegurar as fronteiras do Minho, mas perde o domínio sobre os castelos de Melgaço e Valença. Durante este período sabe-se que o Castelo de Castro Laboreiro se manteve do lado português, sobrevivendo às hostilidades entre D. Sancho I e Fernando II de Leão, nas fronteiras do Norte (Minho e Trás-os-Montes). D. Sancho I, concede novo foral a Castro Laboreiro, também desparecido.

 

CASTRO LABOREIRO – DO PÃO DA TERRA

AOS

FORNOS COMUNITÁRIOS

Uma proposta de mediação patrimonial

DIANA ALEXANDRA SIMÕES CARVALHO

Dissertação realizada no âmbito do Mestrado em História e Património

Faculdade de Letras da Universidade do Porto

Maio de 2017

pp. 35-37