Sábado, 4 de Fevereiro de 2017

UMA VÍTIMA DO MIGUELISMO MELGACENSE

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JOSÉ MANUEL GOMES DE ABREU

 

Foi uma das vítimas do miguelismo local, pois longos dias viu coar-se a luz do dia através das grades das cadeias onde o encarceraram; mas debaixo desta vil perseguição ao homem talvez estivesse e se escondesse uma inconfessada luta de interesses patrimoniais movida pelo ódio de melgacenses poderosos malquistados com o progenitor deste desditoso moço.

Viu-se contudo compensado após D. Maria II ser aclamada em Melgaço Rainha de Portugal pois por carta real de 4 de Novembro de 1843 foi-lhe confirmada a nomeação de escrivão camarário, cargo que ocupou sempre com muita proficiência e grandeza de isenção.

Casou com D. Joaquina de Jascão, nascida do casamento de José Cardoso de Campos e de Joana da Purificação, moradores na cidade do Porto, mas naturais, ele da freguesia da Senhora da Piedade e ela da de S. João Baptista de Ruivás, pertencentes ambas à diocese de Lamego.

Moraram de princípio no lugar da Corga da vila e depois na Rua de Baixo e não obstante o desempenho aturado do cargo administrativo e da chefia do registo da alfândega de Monção em terras de Melgaço, nunca a fortuna o bafejou, porquanto, «por causa das suas molestias, e pela calumnia que se lhe tiña feito por quatro requerentes em sessão de Camara, disendo que ouvera suborno na arrematação da obriga da carne, quando ella foi legalmente arrematada em Praça em gerencia da Camara então existente, arguindo-lhe a elle Ex Escrivão da Camara que tinha recebido sinco peças de sete mil e quinhentos do arrematante», renunciou ao cargo camarário em 11 de Agosto de 1843.

Camaristas, contudo, o defenderam da desprimorosa acusação e embora alguns propugnassem para ele reassumir as funções interrompidas, José Manuel foi vencido pela desgraça e embora continuasse a levar uma vida de honestidade e de pobreza, como um pobre de Cristo de finou em 23 de Junho de 1848.

António Máximo, que não só conhecia a dignidade e inteireza de ânimo, mas também admirava a nobreza de carácter deste seu irmão, respeitou também a sua memória quando a morte o levou, pois deu-se ao trabalho de quebrar os dentes às más línguas locais, mandando rezar por alma do mesmo no dia 1 de Julho um ofício de dezasseis padres.

Escondem hoje os seus ossos os velhos muros da igreja da Misericórdia; não sei, no entanto, se aí jazem os da sua viúva, que muitos mais anos aturou neste vale de lágrimas, visto só ter entregado a alma ao Criador no dia 1 de Março de 1871.

 

O MEU LIVRO DAS GERAÇÕES MELGACENSES

Volume I

Augusto César Esteves

Edição da Nora do Autor

Melgaço

1989

pp. 92-94

 

 


publicado por melgaçodomonteàribeira às 00:08
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