Sábado, 22 de Abril de 2017

UMA IDA À VILA II

435 b -Coriscadas-60.JPG

coriscadas - castro laboreiro

 

(continuação)

 

Despiu o casaco claro e, sempre ao lado da mãe, ia descobrindo Melgaço. Sentia-se abafado. A roupa vestida era quente. Os rapazes da Vila andavam vestidos de calções, e em camisa de meia manga, enquanto ele trazia calças de pana e uma camisa de manga comprida.

Nas lojas onde entravam havia sempre muita gente e tinham de esperar para serem atendidas. Antes de a mãe e as vizinhas comprarem qualquer coisa havia muita conversa e tinha a sensação incomodativa de estar sob constante observação das pessoas. Na rua fazia um calor de abrasar e mesmo à sombra transpirava. Estava sequioso mas aquela água de Melgaço parecia caldo e quanto mais bebia mais sede tinha. Já enfastiado disse à mãe para o deixar num banco cá fora, enquanto fazia o resto das compras. Passado algum tempo levantou-se do banco e pôs-se a admirar a torre do Castelo mesmo ali à sua frente, igualzinha à desenhada no livro da escola. Pensou como seria bonito o Castelo de Castro, naquele monte tão alto, se tivesse uma torre daquelas.

Estava na praça central da Vila e resolveu espreitar a montra da loja da frente onde estavam expostos vários relógios e artigos em ouro. Ao lado ficava a Escola Primária e através dos vidros viu algumas crianças da sua idade sentadas nas carteiras, enquanto o professor, de fato e gravata, escrevia números no quadro preto.

Finalmente apareceram todas para irem comer, mas antes a mãe tinha de cambiar uns francos enviados pelo pai, por um conhecido. Para isso tinha de passar na Loja Nova, junto à estrada de Castro Laboreiro.

Sentaram-se num banco corrido de madeira, frente a uma mesa tosca, debaixo de uma latada com uma fonte de água fresca, onde finalmente conseguiu dominar a sede. Como era a hora de calor resolveram aproveitar a fresquidão para fazerem uma sesta até porque dali a uma horas teriam de meter os pés a caminho, e agora era sempre a subir.

Terminado o descanso foram buscar os retratos e o resto das compras e albardaram a mula. Às cinco da tarde, ainda com muito calor, iniciaram o regresso.

Passada a primeira hora já estava todo derreado, embora não se queixasse.

Pararam num sítio com uma fonte para descansarem um pouco e beberem. A mãe notou o cansaço do filho e disse à vizinha para arranjar um espaço em cima da mula, onde, enrolado num cobertor colocado dentro de um berço de vime, fora instalada a criança. Conseguiu ajeitar-se em cima da albarda e retomaram a marcha.

Inicialmente, achou interessante a passagem debaixo das latadas, quando atravessaram os lugares, mas o andar desengonçado da mula, tentando escolher o melhor sítio para colocar as patas, e o constante roçar da cabeça pelas silvas e ramos atravessados no caminho acima da altura do animal depressa o convenceram ser preferível ir a pé. Assim, passada uma hora daquele bambolear permanente, e de alguns arranhões, pediu à mãe para o ajudar a descer. A parte mais íngreme do caminho também já estava percorrida. Seguia-se uma tirada por um carreiro rodeado de mato de pequena inclinação, finda a qual iriam merendar porque faltava menos de metade do caminho.

A partir de Alcobaça foi tomado pelo cansaço provocando-lhe uma senolência na qual as pernas pareciam movimentar-se sem dar por isso. Só com uma sacudidela provocada pelo tropeçar numa pedra solta ou pelo colocar do pé nalgum buraco do leito inacabado da estrada, voltava à realidade. Finalmente, com o sol a esconder-se atrás da Fraga da Franqueira, alcançaram Portelinha onde pararam. O ar fresco do fim da tarde, o cheiro da erva e o badalar dos chocalhos das vacas a recolherem ao eido, fê-lo despertar.

Daí até às Coriscadas foi revivendo o dia. No caminho para Melgaço vira coisas novas e fê-lo quase sem dar por isso. Na Vila tinha gostado do Castelo e de algumas lojas com muitas novidades para ele. Melgaço era muito quente e abafado e as pessoas pareceram-lhe desconfiadas, mas agora podia responder aos outros rapazes quando falavam com vaidade por conhecerem a Vila. Além disso vira as videiras em latadas e o Rio Minho, ao longe.

 

O PEGUREIRO E O LOBO

Estórias de Castro Laboreiro

MANUEL DOMINGUES

Edição Núcleo de Estudos e Pesquisa dos Montes Laboreiro

2005

pp. 69-75


publicado por melgaçodomonteàribeira às 00:07
link do post | comentar | favorito
 O que é? |

.mais sobre mim

.Setembro 2017

Dom
Seg
Ter
Qua
Qui
Sex
Sab

1
2

3
4
5
6
7
8
9

10
11
12
13
14
15

17
18
19
20
21
22
23

24
25
26
27
28
29
30


.posts recentes

. EL REY DOM MANOEL E OS CR...

. TRAGÉDIA A CAMINHO DE FRA...

. PONTES ROMANAS E ROMÂNICA...

. UM ESCULTOR MELGACENSE

. CERTO NEGÓCIO DE SERVIÇO ...

.links

.pesquisar

 
blogs SAPO

.tags

. todas as tags

.subscrever feeds