Sábado, 11 de Fevereiro de 2017

UMA CARTA IRÓNICA

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ANA CORREIA FEIJÓ

  

Nasceu na Casa da Cordeira em 8 de Julho de 1832 e cinco dias depois foi baptizada na igreja paroquial de Rouças.

Os seus paraninfos foram Frei Bento do Pilar, D. Abade do Mosteiro de Tibães e Geral da Congregação Beneditina do reino e D. Ana Joaquina de Castro Sousa e Meneses, da Casa de Galvão, e impuseram-lhe o singelo nome de Ana, mas pela vida fora os próprios pais lhe chamaram Ana Cândida numas ocasiões e Ana Joaquina noutras.

Assim, quando em 14 de Fevereiro de 1852 a mãe encarregou o filho padre em Ponte de Lima a representar na escritura de nomeação de prazos em sua posse, deu-lhe o nome da madrinha – Ana Joaquina – e dois anos depois, numa outra escritura, a impôs como Ana Cândida.

Enquanto, porém, não passou de menina toda a gente a tratou por Ana e assim aparece ela em baptizados ao lado dos irmãos José Agostinho, P.e António e Manuel.

Os feitos de Ana e Manuel associaram-nos na vida e não é, por isso, de admirar encontrá-los juntos em 11 de Outubro de 1832 a vender em comum a José Albano Dantas, dos Carvalhos de Rouças, a propriedade de Cecrinhos, de pão e vinha, sita no lugar do comprador, não importa dizer agora por quanto.

Também foi a eles ambos que a mãe doou por escritura de 23 de Dezembro de 1872 todas as propriedades por ela possuídas no lugar da Boa Vista; formavam uma quinta que valia bem oitocentos mil réis e rendia por ano dez por cento.

Actos menos reflectidos de Manuel Feijó contristaram e amarguraram muitas vezes o coração fraterno do clérigo e se, na verdade, a D. Ana interveio sempre entre os arrufos dos dois manos como anjo da paz, nem sempre a sua inteligência conseguiu forjar a frase exacta para acalmar a irritação e levar o preciso conforto moral a Santo Estevão da Facha ou alcançou afastar de si e do Manuel as justas recriminações do padre.

E a prova está nesta carta a exibir a tristeza sob a capa da ironia:

 

       Ex.ma Senr.ª

12-2-84     D. Ana Corr.ª Feijó

 

Apenas me cumpre dizer q V. Exª decerto se esqueceu de uma carta que me escreveu no anno de 1883, dizendo que recebera de seu mano Manuel trinta libras, com que comprara uns touros e bois se me não engano; porq se disto se lembrara não vinha dizer agora a ha tres annos não tinha recebido um real, quando desde aquella época até hoje apenas tem decorrido um anno. Ora se falla verd.e nesta última carta então mentiu na primeira, e se disse na primeira uma verdade neste cazo mentiu nesta, q me escreveu agora. Peço que resolva este problema, e q applique a sua pessoa o nome que lhe compete. Tambem tenho em meu poder outra carta do seu mano Manuel do mesmo anno, em que declara levar mais pª Melgaço 25 mil reis pª tratar dos foros, e V. Ex.ª declara agora que não sabe desse drº

porq no questou que o não gastou; mas neste cazo como elle está ahi na sua companhia, q lhe declare pª q foi tal quantia, a mim só me compete dizer a todo mundo e não só ao Antº do Pombal, q desde o anno de 1881 mandei pª Melgaço 961$550, apesar de V. Ex.ª me recomendar q não o diga a pessoa alguma que ha tres annos lhe tenho dado. Enq.to ao seu mano Manuel ter gasto a renda de sua Prima Maria eu nada tenho com isto, porq felismente não preciso q ninguem me ajude a fazer as minhas obras. Se seu mano fes torres no ar eu não lhas mandei fazer, por q não lhe encomendei tão grande sermão, e se lá não vou, ainda mais queria fazer, já se sabe a minha custa. O que elle fes foi muitos calotes, e não pequenos, um de cincoenta mil reis ao negociante em Ponte, que se não lembrou de pagar e outro de onze livras a uma mulher de Darque segundo me consta, e por último deixou tudo arrazado, muros na chão, paredes e latas no m.mo gosto e dep.s de tudo isto V. Ex.ª deita a berrar q seu mano Manoel tem sofrido muito. A isto respondo que ninguem mais tem sofrido do q a minha bolsa; mas pª que seu mano não sofra mais q se deixe estar com sua Ex.ma Mana, porq na sua companhia está muito bem. Deste modo não cauzamos encommodos uns aos outros, e m.mo V. Ex.ª assim o estima e assim o quer e deseja. Pois bem está a sua vontade feita. Entre tanto diga a seu mano que me remetta já a letra do Coelho antes que se perca aquelle drº p.r q p.a perjuizo já basta, e eu irei tomar conta do que é meu, p.ª não encomodar as suas pessoas. Creio q nisto lhe faço um grande serviço, visto lamentar V. Ex.ª tanto trabalho, q lhe tem cauzado os bens de seu irmão padre. Deste modo ficão terminadas todas as questões.

                                                              Seu mano

                                                                Antº

 

Note bem: Ha um anno q foram 30 libras, e por isso esteve calada até agora, sem falar em segurança do drº e como não foram este anno outras tantas, então já berra. Pois olhe q tem então m.to que berrar».

 

Foi esta senhora que em Rouças faleceu no dia 22 de Setembro de 1885, embora o assento de óbito lavrado pelo pároco na ocasião do decesso de D. Ana não corresponda à verdade inteira. Era solteira e faleceu s. g.

 

O MEU LIVRO DAS GERAÇÕES MELGACENSES

Volume I

Augusto César Esteves

Edição da Nora do Autor

Melgaço

1998

pp. 176-178

 

 


publicado por melgaçodomonteàribeira às 00:10
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