Sábado, 23 de Setembro de 2017

UMA SENHORA DA SOCIEDADE

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rua de baixo - vila

 

 

O ANTIGAMENTE

 

 

O passado está sempre presente no dia a dia das pessoas, especialmente daquelas que já passaram da conta. Não há nada que aconteça que não tenha já acontecido, noutro contexto e com outra roupagem, é claro.

Detalhes do quotidiano, principalmente os que nos aborrecem, despertam-nos algo parecido, semelhante ou então a repetição exacta do já acontecido.

Então acontece que os resmungos da minha mulher além de me enfastiarem lembram momentos parecidos connosco e com outros. Inerente a quem já ultrapassou a fase de pular muros, regatos, etc., implica involuntariamente, com o que possa estar no chão. Daí que os entendidos recomendam retirar tapetes, passadeiras, até jornais dos pisos onde circulam as pernas cansadas. Apesar das recomendações as mulheres gostam dos detalhes que possam dar-lhes satisfação pela beleza decorativa que proporcionam às suas casas. Sempre conservam um tapete ou passadeira e o que é pior, esticadinha. Ao passarmos, sem darmos conta, o trapo ou serapilheira que seja, que está no chão, vai na frente, enrugando-se. Ela ou elas reclamam, não só por serem dois anos mais novas, mas por fazerem hidroginástica e anda levantarem melhor as pernas.

Um dia destes, lembrou-me o Dr. Rocha. No início dos anos trinta do século passado (é claro), havia na Vila de Melgaço uma figura muito conhecida, respeitada que gozava da simpatia geral, pelo menos do meu tio Emiliano com quem eu vivia na altura, era o Dr. Rocha, pessoa já idosa, para mim que teria no máximo sete anos. Segundo concluí mais tarde, seria o Notário ou Conservador do Registo Civil, não lembro bem, vivia com a esposa, acho que não tinham filhos, naquela casa do lado esquerdo de quem estava na Câmara, entre a cabine de electricidade e a avenida, na Feira Nova. Mais tarde quem viveu nessa casa durante alguns anos foi o Sr. Alvim com a esposa, D. Alzira e os filhos.

A esposa do Dr. Rocha (nunca lhe soube o nome completo) era uma senhora toda empertigada, o tipo de matrona, tanto física como autoritária, da idade do marido, de nome D. Adelaide, que sempre era evocada como D. Adelaide Rocha, não para a diferenciar de outras Adelaides, que por acaso na altura não as havia, mas porque o seu porte imponente e postura fidalga assim recomendavam. A rigor, tal procedimento mais imanava da subserviência do povo que endeusava quem se arrogasse socialmente superior. Sempre se apresentava em público rigorosamente trajada e ajaezada com as suas jóias apaparicada pelas outras senhoras da sociedade. Este tipo de pessoas para mais se evidenciarem transformavam pequenos actos rotineiros em casos extraordinários. Um domingo, a D. Adelaide Rocha precisou deslocar-se não sei onde e para tal chamou o Emiliano que no seu carro de praça costumava servir o casal. No regresso a D. Adelaide Rocha desembarcou (saiu do carro) no terreiro onde outras senhoras da sua categoria passeavam exibindo-se. Correu para elas afobada, pedindo para ser abraçada e lamuriando: “O patife do Emiliano quase me matou!”, e contou o sucedido. Tinha desenvolvido enorme velocidade. E era verdade! O Emiliano que geralmente não passava dos quarenta quilómetros com o seu Andorinha (Ford modelo A), naquela tarde, aproveitando uma das poucas e pequenas rectas que existiam na estrada, chegou aos cinquenta quilómetros.

   Em casa a D. Adelaide também primava pelo esmero. Naquela época, naquelas paragens, não se conhecia a cera para soalhos, daí que o chão das casas era lavado com água, escovão e sabão amarelo, de joelhos. Uma mulher, criada, contratada ou a dona da casa, molhava, esfregava e enxugava o chão dos aposentos. Era uma tarefa cansativa. A D. Adelaide mandava semanalmente esfregar o chão de sua moradia, e ai de quem naquele dia pisasse fora das passadeiras. O Dr. Rocha que, além do gabinete oficial no edifício dos Paços do Concelho, tinha seu escritório em casa que várias vezes ao dia precisava consultar e, distraído, pisava onde não devia, o que lhe custava intermináveis sermões e admoestações pouco lisonjeiras.

Ano após ano, revoltado com tão enervante rotina, resolveu fazer valer seus direitos de dono de casa. Num dia em que o chão fora esfregado, antes de entrar em casa, encharcou as botas na lama do rego que passava em frente e nos dejectos dos cães e triunfalmente passeou por todos os cómodos da casa. Ninguém soube o que aconteceu depois, mas continuaram a viver harmoniosamente.

 

   Rio, Fevereiro de 2013

                                                                                                                 Manuel Igrejas

 

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Sábado, 29 de Julho de 2017

O AJUDANTE DO VASQUINHO

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               O ANTIGAMENTE 

 

 

Isto de por a funcionar a gravação do passado no registo da memória, corre-se o risco de disparar por falta de funcionamento prolongado, e põe-se a descoberto cenas e situações que se pretenderam esquecer.

A Maria de Fátima, filha do saudoso Toninho do Cerinha, é a culpada do desarranjo mecânico do nosso gravador cerebral que não quer parar de funcionar. Como foi dito, eu era ajudante do Vasco na Central, e o meu desempenho chamou a atenção do Sr. Teixeira que tratou de explorá-lo. Nas horas mortas da Central, e eram muitas, incumbiu-me de cobrar as letras promissórias dos comerciantes. Era o Sr. Teixeira, também, representante bancário e as facturas das mercadorias que os lojistas compravam, quando venciam, o representante bancário era incumbido de as receber. Lógico que o chefe não iria a pé ou de bicicleta quando mais longe, cobrar. Não sei quem fazia isso antes de mim, só sei que fui guindado a esse posto que me elevou no conceito social da terra, ganhando a mesma coisa, nada! E o meu desempenho agradou a tal ponto que além das duas funções que já exercia, Central e cobranças, acresceu a de cobrador na carreira. O Sr. Aires, aparentado com a D. Laura, esposa do Sr. Teixeira, retornado do Brasil, foi ser cobrador duma das camionetes da carreira. Naquele tempo, anos quarenta, havia duas carreiras diárias entre S. Gregório e Monção. De manhã, às 7 horas, uma carreira mista, camionete metade bancos e metade livre para mercadorias. Voltava de Monção às 6 horas da tarde. A outra carreira, a do correio, saía às 10 horas e voltava às 4 da tarde quando não havia atraso no comboio. Na da manhã, o chaufer era o Emídio ou o Álvaro da Orada, e cobrador o Fernando Ferrador. Na carreira do correio, o chaufer era o Sabariz e o cobrador o Aires que pelas mazelas que levava do Brasil, vira e mexe ficava doente e era substituído em cima da hora pelo Gui (Henrique Fernandes) fiel do departamento atacadista. Um dia, pela impossibilidade do Gui se ausentar do seu metiê, fui mandado ser cobrador. Esta situação repetiu-se várias vezes até que o Sr. Aires se afastou e eu passei a ser permanente. Surgiu uma dificuldade: na hora do jantar (almoço) eu estava em Monção. O Sr. Teixeira autorizou que eu tirasse da receita das passagens a importância para pagar a refeição que fazia na taberna anexa àquele restaurante que tinha na avenida da Estação da C. P., e recomendou: - Come bem! Pois sabia da tuberculose que me atacara anos antes. E a rotina manteve-se por vários meses. Ao voltar da carreira entregava ao Constantino, grande amigo e parceiro desde os bancos da escola, que era o responsável pelo escritório das empresas, os talões das passagens e o dinheiro correspondente descontada a refeição. Nem sempre conferia na hora, colocava numa caixa para mais tarde contar. Um dia o Sr. Teixeira nas investidas que fazia no escritório, perguntou: - Que dinheiro é este na caixa? – É o que o Manel entregou do correio. Resolveu contar. – Está faltando quinze escudos – É o da refeição! – Mas é muito dinheiro, manda-o chamar. Fui interrogado e respondi: - O senhor mandou que me alimentasse bem. Aí o Fernando Ferrador, que também almoçava na mesma taberna e estava presente, achou de agradar ao patrão e me entregou: - Ele só gasta nove escudos. Era verdade! Diariamente eu me fazia um salário de 5 ou 6 escudos. O Sr. Teixeira achou que eu não merecia tanto e estipulou: - Vou-te dar 150 escudos por mês, cinquenta por receberes as letras e cem pela carreira (pela Central, nada). Deu na mesma, mas pelo menos ia ter um salário. Só o meu pai é que teve a despesa ao fornecer-me o bife que havia de comer no almoço.

   Fui apurado para a tropa o que causou estupefacção geral. Quando mais perto de me apresentar ao serviço militar, pensando noutro modo de vida após a tropa, engendrava um modo de atrapalhar o Sr. Teixeira. O João Castro, outro grande amigo e também parceiro da escola, um domingo à tarde convidou: - Queres ir connosco ao Porto? O pai dele, o Manuel Castro, grande comerciante, em função dos seus negócios fazia muitas viagens àquela cidade no Ford que antes comprara ao dito Sr. Teixeira. Arrumei-me às pressas e pedi à minha irmã Esmeralda que dissesse ao Gui que arrumasse quem fosse na camioneta no dia seguinte. No Porto, desliguei-me dos Castro, apenas combinamos o regresso e procurei os irmãos Manuel e José Lourenço, filhos do Manuel da Garagem (Lourenço) que estudavam e viviam naquela cidade. No quarto com duas camas que ocupavam, facilitaram-me uma por aquela noite e eles dormiram juntos. Grandes amigos, especialmente o Manuel, parceiro em “Os Vitoriosos”. Fiquei dois dias zanzando pelo Porto, pela segunda vez, dando vazas à minha necessidade de auto afirmação. Dos trocados que tinha amealhado comprei uma gabardine que era na época, o máximo de snobismo. Ao regressar, o Sr. Teixeira passou-me o maior responso que se possa imaginar. Mandou que fosse pedir emprego ao Manuel Castro. Como se eu esperasse outra coisa. E na medida que ele se mostrava furioso eu me considerava realizado ao verificar que ele precisava dos meus préstimos.

   Quando voltei da tropa e reorganizei “Os Vitoriosos”, o Sr. Teixeira demonstrou amizade comigo. Tratava-me com educação e acreditou na minha palavra a ponto de facilitar uma camionete para levar o grupo “Os Vitoriosos” a Viana disputar uma taça, para pagar com festas que iria promover depois.

 

 

Rio, Maio de 2012

                                                 Manuel Igrejas

 

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Sábado, 3 de Dezembro de 2016

SAGRADO E PROFANO

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                                 texto e desenho de manuel igrejas

 

O SAGRADO E O PROFANO EM MELGAÇO NOS ANOS 30 DO SÉCULO XX

 

Tradição enraizada na fé do povo da Vila de Melgaço, era, em Maio, a devoção ao Sagrado Coração de Maria quando acontecia festividade e a Primeira Comunhão das crianças.

Naquele ano a preparação em torno dos preparativos no que respeita à solenidade eucarística, foi fora do comum.

As famílias empenharam-se ao máximo para que as suas crianças fizessem boa figura. Tanto mais importante que o sacramento que pela primeira vez as crianças iam partilhar era o exibicionismo nas roupagens. Nos rapazes não dava para variar muito nas calças e na camisa branca e em alguns com casacos. Já nas raparigas era ver o luxo nos tecidos e modelos dos vestidos.

A maioria da rapaziada aprendia as orações obrigatórias em casa com a família, geralmente as mães; a doutrina, os princípios teológicos, eram ensinados pelas catequistas, as Donas Leonor e Emília Durães, com ajuda de outras senhoras, durante algumas semanas, diariamente, à tarde. O Padre Firmino que paroquiava as freguesias de Prado e da Vila, aparecia raramente para dar ênfase aos pecados e ameaçar com o fogo do inferno. Numa das prelecções, quando frisava que o fogo do inferno era eterno, o Manel do Jacob observou: - então a gente acaba por se habituar…

No domingo da festa, logo cedo, o Augusto do Félix chamou o seu pimpolho para se arranjar com esmero. O Manel e o Rogério, ambos fazendo a sua primeira comunhão, vestiam a rigor com fatos pretos confeccionados especialmente. Era o Manelzinho o mais novo da turma entre rapazes e raparigas. A maioria ou a totalidade daquelas crianças, por serem muito novas, não tinham a verdadeira noção do que iam fazer, e o Manel, a par da vaidade que a sua figura proporcionava aos parentes sofria tremenda expectativa ao pensar que não iria corresponder às recomendações. O primeiro dilema já fora no dia anterior quando voltou da confissão e em meio a uma brincadeira mandou o irmão à merda. O Ná, que trabalhava na alfaiataria, para o arreliar disse-lhe que a palavra era pecado.

Foi preciso o pai dizer-lhe que não era tão pecado assim, para o sossegar.

 A entrada para a igreja, mal comparando, teve alguma semelhança com o desfile de carnaval. Os adultos já superlotavam a nave da matriz da Vila. As crianças assumiram os lugares que lhe estavam reservados em bancos corridos a todo o comprimento da igreja. As pessoas em pé ou ajoelhadas na hora apropriada (ainda não existiam os bancos). Como era missa de festa, solene, como determinava o protocolo, teve sermão. O padre Artur, de Penso, o mais consagrado orador da região, inspiradíssimo, como sempre, arrebatou os fiéis em prolongada dissertação, em dado momento exortou as crianças a pedirem perdão aos pais. Foi uma tremenda confusão. As crianças procuravam o pai ou a mãe empurrando as pessoas. O Manel tinha visto o pai no coro, ia ser difícil passar pelo meio das criaturas e subir lá, sorte que a mãe estava perto e ele não vira, ela é que veio dar-lhe um abraço. Ao receber a comunhão empertigou-se numa atitude solene. A hóstia colou-se no céu da boca e ele não conseguia despegá-la sem que tocasse nos dentes o que lhe fora advertido ser pecado. Assustado, estava a ponto de chorar quando lhe valeu o António Toca, também conhecido por Nossa Senhora, que vinha com um copo d’água auxiliar as crianças naquela dificuldade. Durante o dia tudo foi festa: procissão, banda de música e muita gente andando para cá e para lá. Era gostoso o Melgaço naquele tempo.

A juventude melgacense quando sentia falta em que se ocupar fora dos seus ofícios organizava grupos de futebol. O Sport Club Melgacense fora reorganizado duas ou três vezes mas por pouco tempo vingava. O Toninho do Augusto do Félix que aparecia como adolescente promissor, líder dos rapazes na sua faixa de idade, com o João do Padeiro, fundou um grupo de futebol a que deu o pomposo título de União Artística Melgacense. As novidades sempre empolgavam e logo adquiriram o equipamento, um jogo de camisolas com listas verdes e brancas, verticais. Sobravam rapazes naquele tempo. Os irmãos, Carriço e Mi da Amália, mais o Carlota e outros, organizaram um grupo adversário, Atlético Club Melgacense, de início com as camisolas do extinto Sport. Logo se manifestou grande rivalidade no campo de jogo e muito mais fora dele. O povo da terra também por não ter  em que se envolver acudia por um ou por outro grupo, conforme o parentesco ou amizade com os jogadores. Segundo comentavam, antigamente as disputas eram entre os partidos políticos, diversão proibida naquela época. Jogaram algumas vezes entre si, ganhava um e ganhava o outro. Para aquilatar a soberania fora do campo organizavam bailes ao despique no carnaval. O União promovia os seus bailes na sala da Chico da Serra, ali no início da rua Direita, em frente à igreja, encostada à Farmácia Barreiros. No terreno o João Cataluna acabava de montar a Pensão Olímpia. O Atlético promoveu seus bailes no Salão Pelicano. Mais que os próprios bailes a sensação que os rapazes do Atlético imprimiram os seus carnaval foram os cortejos que antecediam.

O Sr. Silva, o mestre da marinha, pessoa grada e muito respeitada atendeu aos apelos e envolveu-se nos desfiles do Atlético. Foi ele o responsável pelos temas, organização e ensaios dos cortejos. Demonstrou grande capacidade de coreografia que redundou no grande sucesso dos desfiles. No largo da Calçada, onde tinha a bomba de gasolina do Sr. Teixeira, reunia-se a turma e se organizava conforme o tema a desenvolver no desfile. Rapazes e raparigas fantasiados de acordo, saíam cantando rua abaixo, Terreiro, rua Direita até ao Salão Pelicano. Durante quatro sábados apresentaram cortejos em temas e canções. O último foi uma apoteose. Uma réplica do castelo, iluminada por dentro, transportada como um andor, encheu os olhos do povo e muito aplaudido. A música entoada por todos os componentes fantasiados e sacudindo enfeites nas mãos, com letra brejeira sobre a música duma canção em voga, que em dado trecho dizia: Meu patrão mandou-me embora, mas não foi por roubar nada, foi só por molhar a pena, no tinteiro da empregada…

Como acontecera com outras manifestações também esta feneceu. A empolgação inicial logo dava lugar ao desânimo pela monotonia da repetição. Era como uma doença endémica.

 

 

                                                                                                                       Manuel Igrejas

 

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Sábado, 26 de Novembro de 2016

AS HISTÓRIAS DO MATIAS

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O mundo torna-se mais pequeno à medida que os anos vão passando. Matias ainda tem muito que viver, para aprender. É um menino de 3 anos, muito enérgico e com muita vontade de sorrir. E existe coisa melhor para se fazer? É muito curioso, como é normal para a sua idade.

É um aventureiro, um explorador e um artista da vida. Tudo se torna belo e fácil sendo imaginado por ele. Sempre atento, sempre fiel à sua personalidade.

A felicidade e a boa disposição que irradia o seu olhar, faz com que quem esteja perto dele seja contagiado com a sua energia.

As histórias que são contadas neste livro são baseadas em acontecimentos reais. O primeiro dia de escola, os primeiros amigos, passeios e festas aqui são descritos de uma forma que cativa as crianças que as ouvem ou lêem.

São histórias em que todos os pais se identificarão, tal como os seus filhos.

Não há nada melhor que ser criança.

 

 

As Histórias do MATIAS

Texto de Renato Martins

Ilustrações pelo Autor

CHIADO Editora

Junho, 2016

 

 

Renato Martins nasceu em Melgaço, a vila mais a norte do país, em 1978. Actualmente residindo em Monção, trabalha como Desenhador Projectista.

Frequentou o curso de Engenharia Civil no Instituto Politécnico de Bragança e um curso de desenho no CICCOPN. Tem também formação profissional de tatuagem.

Desde pequeno que foi habituado a ler e a desenhar. Hábito que considera muito importante na sua formação como pessoa. Adora fazer desenhos realistas, e tem um portfólio de mais de 100 desenhos do Matias, entre outros.

 

O RENATO SEGUE AS PISADAS FAMILIARES. GÚ E A POESIA, O MANEL E O ANTÓNIO NO DESENHO E AZULEJO.

 

Um abraço Renato

Ilídio


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Sábado, 20 de Agosto de 2016

ADEGA REGIONAL

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O ANTIGAMENTE

 

 

Na segunda metade do século passado, já terminada a guerra mundial, a Espanha ainda sofria as consequências da sua guerra civil e da mundial. Havia carência de muitos produtos que fomentavam a prosperidade das povoações portuguesas da fronteira. Melgaço era uma das privilegiadas. O contrabando corria solto, contemplando a todos, directa ou indirectamente. Desde produtos alimentares a utilidades, tudo passava através do rio Minho, do rio Trancoso ou da raia seca, e não era tão escondido assim. Os produtos tiveram a sua fase: os ovos, o sabão, a tripa seca, os cigarros e o café. Café produzido em Melgaço sem ser semeado.

Era frequente até em pleno dia, ouvir-se em determinadas casas um bater ritmado, diziam, quebrando milho e outros grãos. Confesso que nunca vi, mas ouvi. Aos grãos triturados era misturado óleo queimado de automóvel, diziam, para dar a cor desejada. Ao resultado desta alquimia era misturado café em grão, verdadeiro, talvez meio por meio. Ensacado era este produto vendido aos receptadores espanhóis por alto valor. Antes de embarcar para o Brasil, 1952, fui à festa de Orense com o Manuel Macarrão. Ao chegar, entramos num café para tomar alguma coisa e o Manuel advertiu-me: “não tomes café; é feito com as porcarias que mandamos para cá!” O pagamento das mercadorias contrabandeadas era mais em ouro e prata e menos em pesetas desvalorizadas. Os únicos artigos que da Espanha iam para Portugal eram medicamentos e cosméticos. Por alguns anos, foi famoso o fortificante Ceregumil, que todos tomavam como uso de moda. Os cigarros americanos imperaram na contravenção durante anos. Chegavam a Melgaço idos do Porto e Lisboa via correios. Diariamente, dezenas de encomendas, grandes pacotes, chegavam destinados a várias pessoas, maioria de S. Gregório. A guarda-fiscal que na raia não cumpria a sua tarefa ou até participava, desmoralizava o comando que resolveu tomar medida coerciva, plantão na porta do correio para prender as encomendas. Não resolveu. Então impôs medida drástica, mandou trancar portas e janelas da agência dos correios e da habitação contígua, do casal responsável pela agência (os chefes de correio). Funcionavam os correios na metade da mansão da D. Maria Higina, no cimo do terreiro que mais tarde foi consumida por incêndio. Trancadas com grandes sarrafos pregados nas paredes e nas próprias janelas, de modo que nada pudesse passar através delas, nem sequer ser abertas para ventilação. Foi outra medida que não deu certo e até ridicularizou a guarda-fiscal.

O que queremos dizer é que muita gente ganhava dinheiro com o contrabando. Os mais jovens gastavam tudo nas tabernas e nos cafés, os mais ponderados amealhavam. Foi assim que o Vasco da Central, graças ao café, juntou um capital que resolveu investir. Constou em Melgaço que na vila dos Arcos de Valdevez fora inaugurada uma nova taberna tão sofisticada e de grande sucesso intitulada Adega Regional. Associou-se com a Maria Olinda que ficara viúva e regressara a Melgaço com três filhos e a mãe. Esta Maria Olinda era mulher muito dinâmica e trabalhadeira. Instalara taberna na casa das Cortiças, na rua Direita e também negociava cigarros.

Vasco e Maria Olinda, num domingo, no carro de praça do Emiliano, foram aos Arcos conhecer a Adega Regional. Acharam inovadoras as instalações e modo de operar. Alugaram parte do rés-do-chão da casa do Bernardo Cunha, mais tarde do António Chivinho onde em época passada funcionara a pharmácia da Dona Amália, assim conhecida pelo povo, na rua Dr. Afonso Costa. Tenho uma vaga ideia dessa pharmácia onde a minha mãe comprava as pílulas para as bichas, amargas que só elas, mas sempre trazia alguma de açúcar para atenuar.

Contrataram, o Vasco e a Maria Olinda, os serviços do Jacob, grande artista que dominava todas as áreas da construção especializado em pintura decorativa. Dividiram o recinto em espaços apropriados às várias opções degustativas. Sala luxuosa para banquetes, balcão para taberna, saleta para chá e outra para café e confeitaria, tudo finamente ornamentado. Não tiveram o retorno esperado, o investimento fora muito grande, daí que trespassaram o estabelecimento para a Maria Cascalheira e esta para o Henrique do Geraldo. Andou de mão em mão sempre dando prejuízo. Quem melhor conta a odisseia desta Adega Regional é o Dr. Joaquim da Rocha no seu Dicionário Enciclopédico de Melgaço.

A Maria Olinda, com o filho e a mãe, emigraram para a Argentina, o Vasco continuou na Central.

 

 

   Rio, Abril de 2012

                                                                          M. Igrejas 

 

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Sábado, 23 de Julho de 2016

POMAR DAS ADEGAS

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O ANTIGAMENTE

 

A Maria Florinda, filha do saudoso Francisco de Sousa Cardoso, querida contemporânea, esclareceu a oleogravura “Frades Barbeiros” que mencionei num dos meus “Antigamente”. Obrigado pelo esclarecimento que me despertou mais esta crónica.

Nos meados dos anos quarenta, no jornal “Notícias de Melgaço”, do também saudoso Adriano Costa, apareceu um artigo assinada por M, referindo-se a um garoto modesto e educado, que pela vila circulava assobiando despreocupadamente. Que tal rapazinho tinha pendores para desenho e pintura, fazendo um repto às autoridades camarárias para que fosse mandado a Lisboa a fim de ser submetida a análise a sua capacidade artística em laboratório estatal que existia e não me lembro o nome. Ora, esse garoto era eu. Fiquei atarantado e envaidecido ao mesmo tempo. Alguém reparara em mim e na habilidade que eu não tinha a certeza que tinha. Pelo Fabiano soube que o autor era o Sr. Cardoso. Como retribuição ofereci-lhe uma pintura feita a pastel que pelo visto ainda existe pois foi referida há pouco tempo pela mesma Maria Florinda.

O Sr. Cardoso era figura destacada na vida social de Melgaço. Acho que fora comerciante e chegara a ser Presidente da Câmara, quando mandou fazer, se não o primeiro, um dos primeiros jardins da Vila, ali naquele espaço onde actualmente está o chafariz de São João. Era o local, até aos anos cinquenta, conhecido como Jardim do Cardoso, onde jogávamos bola de pano. Nunca vi o jardim, apenas nomeá-lo. Foi o Sr. Cardoso, o primeiro melgacense que viu em mim alguma habilidade e me dava atenção. Era o mentor da sociedade recreativa que se denominava Assembleia. Esse clube organizava metodicamente bailes. Como era destinado ao que na época chamávamos “alta sociedade”, esses bailes revestiam-se de grande gala. Nas noites das realizações, as mulheres do povo (plebeias), inclusive as minhas irmãs, aglomeravam-se na porta da Assembleia para apreciarem as senhoras entrando para o baile e comentarem suas indumentárias, por dias a fio. Situava-se este clube no sobrado por cima da loja do Sr. Aurélio, na confluência da rua Velha e rua do Rio do Porto. Das frequentadoras ilustres lembro as meninas Durães, as meninas da Fonte da Vila, as meninas da Calçada, as meninas do Sr. Cardoso, as do Antonino Barros, das Cerdeiras, das Teixeiras, e outras famílias afidalgadas. Foram acontecimentos de destaque social, bailes que feneceram a partir dos anos quarenta. Querendo soerguer o clube o Sr. Cardoso convocou uma reunião de associados e para tal fez uma lista com os nomes, cerca de cinquenta e contratou-me para procurá-los e pegar a assinatura de todos como cientes da reunião. Pagou-me cinco escudos por tal. Nas casas ou no trabalho visitei a todos, apenas o Manéco do Simão encontrei na rua, e como era um gozador, além de assinar escreveu isto: “visto em trânsito”.

Pouco tempo durou essa reanimação, os tempos do após guerra já eram outros.

Nessa altura, o Sr. Cardoso, que era dinâmico e empreendedor, incrementou a sua propriedade agrícola que tinha no lugar das Adegas. Comercializou o vinho das uvas produzidas nessa propriedade, que baptizou de Pomar das Adegas. Para tornar conhecido encomendou-me uns cartazes promocionais. Feito o esboço aprovou e ajustamos dez cartazes a cinco escudos cada um. Feitos à mão em meia folha de cartolina, tornou-se tedioso repetir dez vezes o mesmo desenho colorido. Representava uma espécie de pomar com o castelo ao fundo, e em primeiro plano dois homens na mesa de um bar, com as legendas em balões. Dizia um: “Estou mal!” (com cara de enjoado), respondia o outro: “Faz como eu que só bebo Pomar das Adegas”. Esses cartazes foram afixados em cafés e tabernas.

Pouco depois aconteceu mais um cortejo de oferendas para o hospital e o Sr. Cardoso resolveu participar do desfile. Encomendou-me duas grandes garrafas de vinho, branco e tinto, feitas chapéus, para dois homens usarem no cortejo. A minha experiência limitava-se a montar as construções de armar que vinham no “Mosquito” e outras revistas infantis. Aceitei o desafio que a custo consegui desenvolver. Com papelão, cola e mais papelão pintadas a carácter, ficaram bonitas mas impossíveis de segurar na cabeça de tão pesadas e grandes, de modo que os rapazes carregaram-nas nas mãos. Não me lembro quanto pagou, sempre foi correctíssimo.

Voltou a escrever no jornal sobre a minha pessoa, a que tardiamente, agora, apresento a minha gratidão. Obrigado Sr. Cardoso!

 

   Rio de Janeiro, Fevereiro de 2013

                                                                       M. Igrejas

 

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Sábado, 28 de Maio de 2016

VINTE E CINCO À COROA

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O ANTIGAMENTE

 

   No final dos anos trinta e princípio dos anos quarenta do século passado, era difícil a vida em Portugal para os desafortunados. O Estado Novo enriquecia a nação acumulando riqueza à custa das dificuldades do povo que não tinha onde ganhar dinheiro que não fosse na exploração da terra. Para piorar, a carestia imposta pela guerra mundial racionara os bens de consumo e de alimentação. Mas algo curioso acontecia no meio rural, ou seja, nas aldeias ninguém passava fome. Alimentavam-se mal, é verdade, mas sempre havia com que contentar o estômago. Todas as famílias tinham uma horta onde colhiam couves e outras hortaliças da época. Com os poucos tostões compravam milho, quem não o colhia, que transformavam em farinha. Com um pouco de toucinho ou unto que sempre havia, com as couves e algumas batatas, quem as tinha, uma panela ou pote com água ao fogo, faziam o caldo que na hora de servir era engrossado com farinha de milho. O pão, também era de milho, era feito em casa em grandes broas que davam para a semana toda, era o acompanhamento daquela refeição deliciosa. No tempo próprio, a qualquer hora se surripiava uma fruta do quintal do vizinho complementando o banquete. Umas sardinhas vez por outra faziam parte do cardápio.

O Armindo, rapazote, um dos filhos da Angelina da Pontepedrinha, chegou atrasado para o jantar (almoço). A mãe, que com outras mulheres lavava roupa no regato próximo, informou ao filho: “a tua comida está no forno!” Dali a pouco o Armindo grita, surpreso, da porta da casa: “mãe, aquela sardinha é toda para mim?” Teve fases que uma sardinha dava para mais de uma pessoa. Em compensação, na mesma época teve fases de super abundância, pois a pesca sempre dependeu do ciclo do peixe e condições do mar. Um caminhão que ia de Viana ou da Póvoa que chamavam o Bota-Pra-Mula, aparecia vez por outra ou até dias seguidos e semanas, tocando uma corneta e anunciando aos berros: “sardinhas vinte e cinco à coroa”. Ou seja, 25 sardinhas por cinquenta centavos (cinco tostões). Nem sempre a fartura dava para tanto, uma sardinha chegou a custar os mesmos cinco tostões e até um escudo. Mas também tinha dias que eram quase de graça. E o Bota-Pra-Mula anunciava “sardinhas a cinquenta a coroa.” Um centavo cada, uma moeda que nem existia, a menor moeda até aos anos quarenta era de cinco centavos (meio tostão). E nesses dias de fartura quem tinha dinheiro comprava sardinhas para estocar. A parcimónia nas casas continuava a mesma; para durarem salgavam-se e guardavam-se em caixas de madeira ou tina (metade de um pipote). Algumas vezes o caminhão já trazia as sardinhas salgadas nas tinas. Outras pessoas fritavam grande quantidade que comiam frias pelos dias adiante. O Silvano de Cavaleiros procedia assim: fritava grande quantidade e guardava numa gaveta. Os muitos netos e afilhados sempre que o visitavam, quase diariamente, ganhavam uma sardinha da gaveta e entre eles circulava a palavra sardinha da gaveta como sendo uma qualidade. Ainda hoje, a Margarida, uma das netas que já tem mais idade que o avô tinha naquela altura, sempre que come sardinhas fala nas gostosas sardinhas da gaveta. Doutra vez a Augusta mandou a filha Maria à Vila comprar sardinhas e recomendou: “não quero das da tina!” Ao chegar na praça do peixe a Virgentina, conhecida como Tina foi tirar satisfações com a Augusta. Ficou esclarecido que era para não comprar sardinhas salgadas e caíram na gargalhada. E as sardinhas que por muitas épocas era comida de pobres tornaram-se artigo de luxo. Comida de pobre actualmente no Brasil é frango e galinha, coisa que noutros tempos era artigo de ricos, nobres e parturientes.

 

   Rio, Agosto de 2012

                                                                           Manuel Igrejas

 

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Sábado, 17 de Maio de 2014

OS CALÇÕES DO GÚ

 

Desenho de Manuel Igrejas

 

 

OS CALÇÕES DO PONTA DIREITA

 

 

    O Manelzinho conseguira do pai o bilhete para a Dona Olívia o deixar sair mais cedo da escolinha. Tinha-se estabelecido entre os alunos que sair mais cedo era demonstração de superioridade, esperteza, sobre tudo. O filho do Augusto do Félix era um dos que se sentiam inferiorizados por não ter, até então, conseguido sair mais cedo.

    O garotinho pegou o bilhete que o pai acabara de escolher, observou-o bem, especialmente o algarismo quatro. Dobrou o papel, meteu-o no bolso e saiu que nem uma faísca. Ia feliz que nem um passarinho que fugiu da gaiola. Já pelo caminho ia anunciando a sua saída mais cedo aos coleguinhas que encontrava. Na escola era alvo das atenções, pois já fazia alguns dias que ninguém saía mais cedo, pela impossibilidade de conseguir o bilhete do pai.

    Houve um dos maiores, que já soletrava, que tentou fazer um bilhete falso. Levou tamanho raspanete da professora e ainda ficou mais tarde, de castigo. Mas o Manelzinho estava super feliz. O seu bilhete corria de mão em mão e ele apontava para os outros o numero quatro.

    Havia na escola dois alunos novos, irmãos, filhos do sargento da Marinha. Esse sargento era o comandante do posto de marinheiros que vigiavam as actividades pesqueiras no Rio Minho, naquelas paragens. O Sr. Silva, sargento, muito querido do povo, que retornou mais tarde e ficou no posto até final dos seus dias, havia sido transferido para reciclagem, e para o seu lugar veio aquele outro sargento, que tinha os dois filhos. Estavam vindo do sul, tinham hábitos diferentes e até sotaque. Usavam bonés de couro, redondinhos, em gomos, com uma bolotinha no topo e uma pala comprida. Bem diferentes dos bonés e boinas de pano usados na terra. Eram bonés iguais aos que apareciam nas gravuras representando caçadas. Desses dois irmãos intrusos, o mais novo, da idade do Manelzinho, era o diabo em forma de gente. Fazia os maiores disparates que se possa imaginar. Arreliava, batia nos outros, roubava as merendas, pegava moscas e metia na boca assim como botava tudo o que pegasse. Levava rebuçados da Belabucha ou do Belchior, aqueles grandões que não repartia com ninguém. Pois o bilhete do Manel que andava em exibição de mão em mão foi parar na mão do irmão mais velho dos filhos do sargento. O mais novo, rápido como um relâmpago, rapou-lhe o bilhete da mão e num piscar de olhos, amassou-o, botou-o na boca e… engolindo-o ficou rindo para os outros com cara de parvo. Deus do Céu, que calamidade! O safado comeu o bilhete! O Manelzinho gritou desesperado e avançou para agredir o tolinho. A D. Olívia, apavorada com a gritaria, veio de lá de dentro, correndo. Acalmados os ânimos vieram as explicações. A professora não acreditou na história do bilhete e o filho do Augusto do Félix ficou frustrado para o resto da vida por não ter saído mais cedo algum dia.

    Um dia, remexendo, em casa, numa grande caixa de madeira onde guardavam roupas fora de uso, o Manuel descobriu um calção de jogar futebol, do irmão Gú. Aquilo foi um achado sensacional!

    O irmão mais velho era para ele um ídolo, o ponta direita do Sport Club Melgacense, o melhor jogador da terra, reconhecido por todos. Transmitiu o achado ao Rogério e este teve uma ideia genial: organizar um desafio de futebol. Iria arregimentar meia dúzia de rapazes que, com ele e o Manuel, comporiam um grupo. Faltava arranjar um adversário. Como o Manel andava na escola da D. Olívia, o Rogério incumbiu-o de levar ao Zeca o recado para um desafio lá no castelo. O Zeca da D. Olívia aceitou. Escalou os seus jogadores entre a canalha da escola e combinaram que no dia seguinte, entre as dez e as onze horas, que era quando a professora ficava mais tempo na cozinha preparando a comida, iriam todos urinar ao mesmo tempo e fariam o desafio. O Rogério recomendou ao Manel que não esquecesse os calções que era o principal do jogo. A bola, de pano, naturalmente, era o de menos. Qualquer rapazinho tinha uma ou rapidamente se faria com uma meia velha. No dia aprazado, quando o Manelzinho ia para a escola, o Rogério que tinha faltado à escola oficial, abordou-o para saber dos calções e ficar com eles até à hora do jogo e para o primo não ir com aquilo para a escola. O outro não queria ceder, pois já desconfiava que o Rogério o que queria era vestir os calções. Com a habitual conversa mais uma vez o convenceu de que ele muito pequeno e não iria ficar bem. Para contentar combinou: ele, Rogério, jogaria o primeiro tempo com os calções e o Manel, o segundo tempo do jogo.

    Ainda não tinha aparecido nenhum dos garotos que iriam tomar parte na contenda e já o Rogério, lá em cima, na bombardeira, trocara as suas calças pelos calções do Sport Club Melgacense. Todo imponente, com os calções que lhe passavam dos joelhos e mais parecia uma saia, foi bater à porta da escola chamar o Zeca e a sua turma. O Zeca ficou zangado pois não queria que a D. Olívia soubesse. Mandou o Manel avisar que ainda era cedo, quando fosse a hora ele avisaria. Ao levar o recado, enciumado, aborreceu-se com o Rogério por andar exibindo-se com os calções de futebol antes do jogo. O primo vestiu novamente as calças e esperou impaciente. Apareceram os outros rapazes e enfiou novamente os calções, saracoteando-se entre eles causando admiração. Mandou dois portadores chamar a outra turma. Outra vez o Zeca ficou zangado e mandou dizer que se não ficasse quieto não haveria jogo. Decidiu o Rogério, enquanto aguardava o grupo adversário, ficar treinando, só que ninguém havia levado bola. Foi mandado novo recado ao Zeca para trazer a bola. Além de não ter bola foi impedido de sair. A D. Olívia estranhara que tanto garoto que não era da escola viesse chamar o Zeca e acabou descobrindo a tramóia.

    O Rogério ainda ficou por ali mais uma hora até os outros saírem da aula. Chegou até a vir à Rua Direita para ser mais visto, enfiado nos calções. Passou a Leonor Balaca que rindo, perguntou: Oh, rapaz, que andas fazendo de saiote? O Manel saiu da escola aborrecido com o Rogério, tirou-lhe os calções e cada um foi para o seu lado. Não houve desafio de futebol, mas não teve importância, o Rogério realizara-se como futebolista, exibindo-se de calções de verdade. O Manelzinho, para não ficar frustrado, quando chegou em casa, vestiu os calções, que quase lhe chegavam aos pés, e andou do quarto para a sala, até chegar a irmã, que lhe ralhou por ter mexido na caixa da roupa.

 

                                                                         Manuel Igrejas

 

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Sábado, 28 de Dezembro de 2013

O ANTIGAMENTE

 

Procissão em Melgaço - foto da revista da CMM

 

 

O ANTIGAMENTE

 

   A vida das pessoas, individual ou colectivamente reunidas em nações, sempre esteve sujeita a altos e baixos. Países houve, ao longo da história, que atingiram o apogeu e sofreram decadência ao ponto de se extinguirem.

   O nosso Portugal, tanto ou mais que outros, experimentou esses solavancos ao longo da sua existência. A actual geração mais velha, e é a maioria, dizem os cronistas, tomou conhecimento desses altos e baixos do nosso país, já na infância na escola primária. Ora, se é uma sequência na existência das criaturas e das instituições, porque reclamar? Vamos trabalhar!

   Na minha infância, anos trinta do século passado, tomei conhecimento da grandeza do império ao mesmo tempo que ouvia dos mais velhos as agruras que passaram logo após a abolição da monarquia e muito mais durante a primeira república, quando, contavam, havia greves todos os dias, atentados à bomba nas cidades, uma tremenda carestia que era cantada nas modinhas populares… Naquela fase como na actual, o motivo das crises sempre se deveu à desonestidade, vaidade ou ignorância dos que eram guindados a administrar o país, por indicação ou por esperteza. Inventaram o termo democracia com a consequente eleição popular dos administradores, mas deu na mesma: só se elegem os espertalhões com extraordinária capacidade de mentir.

   Houve um 28 de Maio que pôs termo aquele excesso de liberdade transformada em anarquia. O povo suportou com resignação as dificuldades que lhe foram impostas e o país se organizou e prosperou como nação. Cada cidadão se virou como pôde procurando melhorar sua existência e alguns progrediram. Aqueles que não conseguiram ou não souberam superar a miséria, aceitaram a situação em troca da bonança em que se vivia.

   A recuperação dos países sempre foi mais fácil após um conflito armado ou cataclismo que após as más administrações. Depois das guerras, os povos se enchiam de patriotismo e trabalhavam sem se incriminarem mutuamente. Já nas crises governativas vive-se procurando culpados instigando-se uns aos outros sem pensar em procurar um modo de viver honestamente de seu labor. Em Melgaço, naqueles anos trinta, a vida corria mansa, pois cada pessoa se situou na sua condição. Havia os ricos, sim, senhores, até milionários, os remediados, os pobres e os mendigos. Havia liberdade de pensamento e até de expressá-lo, desde que não ofendesse ou pusesse em perigo o governo. Eram conhecidos os descontentes com o Estado Novo. Intelectuais que nunca foram perseguidos, pois apenas manifestavam ideias, jamais representaram perigo ao Estado, ao contrário dos ditos comunistas com intenções bélicas, propagandistas dum estado de vida que acabou malogrado, e estes eram cruelmente reprimidos. Quando da pseudo eleição onde o candidato da oposição foi o general Norton de Matos, em Melgaço circularam prospectos da oposição encabeçada pelo Dr. Augusto César Esteves, funcionário estatal, que diziam: “Nós, os democratas somos mais e melhores”. Os ditos democratas não sofreram qualquer represália.

   Mas voltando às categorias sociais: nos anos quarenta, devido ao conflito mundial, quando não se conseguia emigrar, a população de Melgaço aumentou muito e os miseráveis em maior número. Não havia trabalho para muitos e então, a mendicidade, que sempre existiu, transformou-se em profissão. Em contraste gritante havia a população que sobrevivia em escandalosa abastança em função do contrabando que corria farto e solto, e das termas do Peso superlotadas de ricos aquistas; e os miseráveis sem eira nem beira e os idosos que recorriam à mendicância. Diariamente na vila havia uma chusma de pedintes que vinham de todas as aldeias e até de fora do concelho empanando o bucolismo e o sossego dos moradores. Era uma romaria de pedintes batendo à porta das casas pedindo: “uma esmolinha pelo amor de Deus.” Os moradores sempre tinham separadas algumas moedas de um e dois tostões (10 e 20 centavos de escudo), mas não dava para tantos; então esgotada a verba vinha a resposta: “Deus o favoreça.” Os mendigos profissionais, alguns, malandros que não precisavam, reclamavam quando não eram atendidos: “ainda o hei-de chuçar na cova.”

   O número quase superava o de moradores da vila, daí que o presidente da Câmara, Dr. João Durães, baixou uma determinação: só era permitido pedir esmola às sextas-feiras e os mendigos cadastrados para terminar com os pedintes vigaristas. Terminada a guerra, a emigração para França foi em catadupas e de lá passou a ir para Portugal o produto do trabalho. A mendicância decresceu e quando da implantação do socialismo, acabou. A nação passou a viver gostosa fase de opulência que inevitavelmente está dando lugar a nova fase de vacas magras. Mas vai passar! É só ter paciência e aguardar a próxima fase de abundância, trabalhando, naturalmente, e na próxima geração. Amém.

 

 

   Rio, Julho de 2012

 

                                                                                                                                                                                   M. Igrejas

 

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Sexta-feira, 8 de Março de 2013

ENTRUDO EM MELGAÇO NOS ANOS 30

 

Desenho de Manuel Igrejas

 

 

O CARNAVAL EM MELGAÇO

 

 

    Aquele verão estava gostoso e os anos trinta até um pouco mais de sua metade, eram fáceis de viver. Corriam suaves e até com uma certa abastança. Naquelas paragens, quem não encontrasse trabalho no lugar era só dar um pulo a Espanha e fácil arranjaria onde ganhar dinheiro. Por lá havia um surto de progresso, construção civil, estradas e caminhos de ferro. E os melgacenses se baldeavam para a Galiza ou um pouco além e, ao fim de alguns meses, voltavam com dinheiro no bolso que gastavam na terra. Diziam até que eles só vinham à terra para fazer mais um filho. E além de dinheiro traziam novos conhecimentos sobre seus ofícios que, em contacto com artífices de outras paragens, adquiriam. Também traziam novos costumes e hábitos que enriqueciam a cultura local.

    Uma demonstração de abastança fora o carnaval daquele ano. Os bailes tinham sido mais requintados com muita gente se fantasiando e, a novidade, o baile infantil à fantasia. No dia 20 de Janeiro, era o início do Carnaval e quem o anunciava era o Amadeu Rato. Vinha de Corçães, ele e os filhos da Maria Penica, rapazes e raparigas, fantasiados com roupas velhas e caras tapadas com pano de saco, fazendo a maior algazarra. Fingiam uns de contrabandistas com sacos às costas, e os outros, de guardas com espingardas de pau correndo atrás dos primeiros. Era uma cheia de rir. As crianças correndo ao lado deles divertiam-se a valer. A brincadeira terminava na taberna que lhes oferecesse vinho de graça.

    Pois nesse ano, o Entrudo teve baile infantil à fantasia. Parece que a ideia partiu do Jacob, o mais competente e habilidoso trolha da região, um grande artista na sua profissão, que andou muito tempo pela Espanha e viu isso por lá. Todas as famílias que tinham crianças aderiram à ideia e os preparativos aconteceram no maior sigilo. Todos queriam fazer surpresa com suas fantasias. Cochichava-se nos cantos, querendo adivinhar o que os outros estavam fazendo. A terça-feira de Entrudo chegou finalmente.

    Era pleno inverno com o costumado frio, mas aquela tarde parecia primaveril. O sol estava radioso e a brisa corria morninha. Até parecia que o tempo queria participar da folia fantasiado de primavera.

    À uma da tarde começaram a chegar ao terreiro, local da concentração, as famílias com as crianças. Para cada criança fantasiada vinha um montão de adultos, a família toda. A vaidade era dos grandes; os pequenos, alguns, vinham até contrariados, com as roupas espalhafatosas que os incomodavam. Rapazes e raparigas, sozinhos ou formando casais, envergavam as mais variadas fantasias. O espectáculo estava realmente bonito. Chegaram os mais esperados, de quem se comentava maravilhas naqueles cochichos de esquina, o Manelzinho do Augusto do Félix e a sobrinha, a Maria da Conceição, filha do Lucas e da Maria Natércia. Tio e sobrinha só faziam diferença entre si de pouco mais de um ano de idade. A expectativa do povo foi satisfeita. O casalzinho estava primoroso. Ele vestido de Marquês de Pombal e ela de Dama Antiga. As roupas haviam sido confeccionadas pelo Augusto do Félix com a colaboração das mulheres da família. A Mia com um vestido longo, até aos pés, muito rodado e armado com arquinhos por baixo da saia, cheio de folhos e rendas, luvas de renda, sapatos brancos de verniz e volumosa cabeleira loura, cacheada até debaixo dos ombros. O Manel, elegantíssimo, numa roupa preta, calça justa até ao joelho, jaqueta debruada de rendas brancas, também a camisa de renda com folhos na gola e na manga, saindo por baixo da manga da jaqueta, cabeleira loira, cacheada e comprida, meias brancas até aos joelhos e sapatos pretos de verniz com grandes fivelas prateadas e rendinhas à volta.

    As cabeleiras, primor de habilidade e paciência, feitas pelo pai e avô dos personagens e penteadas com grande capricho pelo João do Gabriel, barbeiro com pendores de cabeleireiro e que com cosméticos e ferro quente, conseguiu fazer na estopa aquela maravilha de caracóis caindo em cachos.

    Os promotores da festa logo elegeram aquele casalzinho como o mais bonito, as melhores e mais belas fantasias, com aprovação unânime do povo, e por isso deviam abrir o cortejo. Mas o Jacob pleiteou e conseguiu que os seus filhos, o Manuel e o Zeca, vestidos iguais, fantasiados de gaiteiros galegos com gaitas de foles e tudo, fossem os da frente. O cortejo organizou-se desfilando com os gaiteiros soprando desesperadamente as suas gaitas de que saía um som estridente sem nexo e sem compasso, pois eles não sabiam tocar. Em frente, pela Rua Direita, lá foram mais de cinquenta crianças, emproadas, empertigadas, saracoteando a vaidade dos parentes, umas chochas e macambúzias outras. As pessoas grandes, ladeando o cortejo e fazendo grande algazarra, e uma ou outra mulher, volta e meia, entrando no meio das crianças, para compor algum detalhe que não estava a contento, no seu pirralho, tal como faziam nas procissões. As poucas criaturas que ficaram nas casas aplaudiam à passagem. Gente das aldeias também tinham vindo apreciar a novidade.

    Chegados ao Salão Pelicano subiram à sala de cima onde se ia realizar o baile. Daquela multidão que acompanhara o desfile, nem todos entraram. O recinto não comportava. Os que conseguiram entrar acotovelavam-se uns aos outros. A orquestra do Avelino do Peso já estava no estrado que servia de palanque e atacou uma bonita marchinha muito em voga na época, música essa, cujos acordes ainda agora soam na mente de algumas ex-crianças. O que devia ser uma dança virou uma balbúrdia. A meninada, muito novinha, a maioria, não sabia o que era dançar, agarravam-se umas às outras balançando-se, atropelando-se e caindo, para desespero dos adultos que viam as fantasias amarrotar-se. O Jacob e outros promotores entraram no meio tentando organizar a coisa. Aquela confusão. O baile prolongou-se por uma hora e como não havia maneira de dar jeito, resolveram reorganizar o cortejo e voltar para o terreiro onde as crianças poderiam divertir-se à sua maneira sem ter de obedecer ao compasso da música. E assim foi e a miudagem gostou. O Augusto do Félix e o resto da família estavam aborrecidos com o comportamento do Manelzinho. Ele, que normalmente parecia que tinha o bicho carpinteiro, sempre o mais espevitado, nesse dia estava sorumbático e arredio. Não queria brincar e não dizia o que tinha. Seria que se achava por demais bonito e enfeitado com medo que o desfizessem de algum detalhe da sumptuosa fantasia ? Já no desfile repararam que ele andava mansinho, como quem pisa em ovos, com medo de estragar os sapatos…

    E os grandes da família empurravam o rapazinho para o meio dos outros para pular e brincar. Ele ia e voltava. O tio Emiliano resolveu tirar a limpo o que estava acontecendo.

    — Esse rapaz deve ter alguma coisa nas pernas ou nos pés! Vem cá Manel, senta aqui no banco!

    Verificou as calças, as meias, tirou-lhe os sapatos. Ora vejam! Dentro dos sapatos, nas pontas, uns chumaços de papel, que eram usados enquanto novos para manter firmes as biqueiras e haviam-se esquecido de os tirar. Era aquilo o tormento do rapaz!

    Livre dos empecilhos, ninguém segurou o Manelzinho! Parecia uma sardanisca! Dali a pouco a situação estava invertida: os grandes reclamando do rapazinho. A primeira coisa de que se livrou foi a cabeleira.

    Aquele Entrudo famoso durou até ao anoitecer para as crianças. À noite foi a vez dos adultos.

    Foi mais uma página feliz, um bonito retalho na vida daquelas crianças da Vila de Melgaço.

 

                                                                           

                                                                          Manuel Igrejas

 

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