Quinta-feira, 7 de Março de 2013

LARÁPIO: PROFISSÃO ÁRDUA

 

 

   Depois de quatro anos de vadiagem, devassidão e declínio intelectual pela capital provincial, Braga, cidade epónima e muito mais, regressei à terra que me viu crescer, Melgaço. Ali, sendo as actividades laborais mais do que limitadas, e as restantes muito pouco regulamentares, escolhi a mais rentável, menos penível e punível, para a qual possuía as melhores competências: o jogo da lerpa.

   Na Cidade Augusta, tivera como mestres e modelos o Lino e o Batata, batoteiros profissionais que exerciam nos dois maiores cafés da cidade, Sport e O Nosso Café, na avenida da Liberdade. Arvorando sempre fatos de corte e gosto irrepreensíveis, iam diariamente ao cabeleireiro-barbeiro-manicura fazer o penteado, escanhoar a barba e dispensar atentos cuidados aos longos dedos, seus valorosos instrumentos de trabalho, depondo, nas aparadas unhas, uma fina e brilhante camada de verniz transparente.

   Durante meses, o dinheiro que ganhava aos clientes (parceiros) serviu para comer, às noites, depois do trabalho, bons pratos no snack do Mini Sport, rua do Carvalhal, com os amigos. Mas isto é um capítulo de outra história.

   Forte da experiência de quase um ano nas mesas empanadas d’O Nosso Café, as noitadas de lerpa com os clientes de Melgaço, bastante mais simplórios e cuja parada era bem mais digna, permitiram-me, ao cabo de poucas semanas, abrir a minha primeira conta bancária.

   No dia 30 de novembro de 1973, quando passei a ser considerado um homem pela  administração, tinha mais de 17 000 escudos na minha conta. Para festejar a maioridade, convidei um amigo a vir comer uns doces secos e a beber uma taça de vinho espumoso à minha casa. Entre dois doces, contou-me que arrancava no dia seguinte de carro com o pai para Santarém onde, com os seus conhecimentos, tinha a certeza de obter a carta de condução. E, se a coisa corresse como esperava, ia em seguida passar um dia a Lisboa, para festejar o sucesso.

   Farto de passar noitadas a deitar-me quando a minha mãe se levantava, decidi aproveitar a boleia, segui-lo até à capital e, em seguida, procurar lá um emprego.

   Só que de manhã, quando acordei, já eles tinham percorrido uns bons quilómetros. Sem me desencorajar, apanhei o comboio em Monção rumo a Lisboa. Cheguei à estação de Santarém de noite, sem imaginar que a cidade ficava no cimo de um morro. Meia hora depois de um taxi me ter deixado no centro e de ter visitado algumas pensões à procura do meu colega, comia à mesa com ele na pensão onde tinha um quarto alugado para a noite e onde dormi. Na tarde do dia seguinte, depois de passar favoravelmente o exame,  seguimos de comboio para a capital.

   Ali, fomos visitar um amigo melgacense, o Moisés, que ia no terceiro ano de direito. Depois de arranjarmos um quarto e uma boa mesa para aquela noite, serviu-nos de guia e mostrou-nos Lisboa by night. Deitamo-nos tarde, como era de prever.

   Passámos duas noites e um dia delirantes. No terceiro dia de manhã, o meu amigo apanhou o foguete para o Porto. O Moisés, que eu tinha posto ao corrente da razão da minha vinda a Lisboa, propôs-me albergue com ele na casa dos tios que, havia muitos anos, viviam na rua da Emenda, ao lado do Camões.

   No dia seguinte comecei um calvário através da cidade que ia durar mais de duas semanas. Era verdade que o cabelo comprido que tinha também não me facilitava a tarefa para arranjar emprego em determinados postos que postulava. Por fim, o que consegui, depois de uns curtos testes, foi um possível lugar como ajudante de guarda-fios nos TLP. Seria contactado mais tarde por correio, no caso de a minha candidatura ser retida.

 

(continua)

 


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Quarta-feira, 6 de Março de 2013

ENCONTRO COM INÊS XI

  

Escultura de Acácio

 

    — Inês Negra? Hé … hé … hé … Ai a brigada minhota!

    — Minhota? Qual minhota?

    — É ele. Ele é a brigada minhota. Amigos há séculos, bêbados na eternidade e … curiosos da Inês. Já viste os olhos dele? Babado como nunca o vi … e já vi tanto!

    — Sou Inês. Negra foi a outra, por acaso da minha terra.

    O “m*rda” que gritei ecoou no restaurante. As cabeças excursionistas espanholas voltaram-se; o olhar do “maitre” não faltou, mas aí eu já jogava em casa. Inês, Inês Negra! Com que então a minha, a nossa, Inês Negra!

    O Jacinto logo encomendou outra garrafa, porque um olho dele era rei e dois então nem se fala …

    — Afinal tenho a brigada minhota completa.

    — Não tens, não, falta a outra! A outra a quem chamaram a Arrenegada e a quem eu rebentei o focinho com estas mãos que Deus me deu. E as graças que recebi de el-rei e Sua Senhoria a Rainha D. Filipa que, na altura, estava em Fiães onde os Beneditinos cantavam loas a Deus Nosso Senhor, enquanto eu rebentava bochechas, arrancava cabelos, pontapeava …? Fiquei com um tufo de cabelos dela na mão. Não como troféu, mas tão só pela força da luta. Aí, el-rei aclamou-me! O Castelo ficou vazio, houve troca de pessoas e nós, aqueles que acreditamos, subimos à torre e gritei: “És nossa, és de el-rei de Portugal”. Da Arrenegada nunca mais soube nada, nem quero saber … Afinal éramos todos iguais, do lado de dentro e do lado de fora. Uns tomaram partido por um lado, outros por outro mas todos de Melgaço …

    — E el-rei …?

    — Foi embora, tinha mais que fazer … E se fez …!

    Quando o Jacinto olhou para mim só viu um cabelo dançando, eu sem palavras e com suor no rosto. Da garganta saiu-lhe um grito que pôs em pé os cabelos “maitre” e fez rodar as cabeças excursionistas espanholas:

    — É a brigada minhota!

 

Camborio Refugiado

 

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ENCONTRO COM INÊS X

 

 

    Respirou fundo enquanto eu retinha a respiração. Estava lívida enquanto eu suava por todos os poros. Quem é que eu tinha pela frente, perguntava-me. Que amor platónico, palpável, seios de morrer, lábios de morder e cabelo dançante me entravam pelo coração dentro.

    Qual estudante de História, qual carapuça, qual … meu Deus, quem é que eu tenho pela frente?

    Falou devagar, muito devagar, palavras que, juro ainda hoje, tinham séculos.

    — Tens o que querias. Nas tuas mãos está a sorte da tua terra.

    Saltei como se a pedra estivesse em brasa e, mais branco que a cera, aguardei, esperando por novas profecias saídas de um oráculo romano.

    — Amanhã, aquando do pôr-do-sol, vais lutar por ti, por el-rei e pela tua terra.

    — Luto com quem? … Já sei por quem luto!

    — A hora soará e então saberás!

    Inês sacudiu o cabelo, sorriu e, como nada tivesse acontecido, atirou:

    — Vamos beber um copo?

    Dali ao meu poiso favorito era um passo, mas logo franzi o nariz ao dar de caras com um amigo jornalista especializado em assuntos regionais.

    — “Mário, de beber para a brigada minhota! Hé, hé, hé …”

    O Jacinto sempre me tratou assim carinhosamente. Para ele eu não era um. Era uma brigada.

    Inês franziu o nariz e como que não quer a coisa, atirou:

    — Sou mais uma … Vai-te foder.

    Duas excursões de espanhóis, muita carne à mostra e o beija-mão do Torto, desculpem do Jacinto, aliás o Três (dramaturgo, bêbado e afectado de pequenino pela poliomielite que lhe deu as alcunhas, além de jornalista e má língua profissional) …

    — Inês, o meu amigo Jacinto.

    — Seja bem-vinda!

    — Encantada.

    O Jacinto, com um copo e rédea solta na língua, consegue fazer falar um morto. Eu já sabia que Inês não ia escapar.

    Agora, pelo canto do olho, era eu que não deixava Inês em paz, porque era mais que sabido que o meu amigo ia atacar. Atacar e de que forma!

    — Sabes com quem estás metida? Hé … hé … hé …. Conheces a brigada minhota? Hé … hé … hé …

    Apertar os tomates ao Jacinto já me tinha passado pela cabeça muitas vezes mas lambucar-lhe as mãos é que não. Foi o que saiu!

    — Pára lá meu, aqui não há namoradas. Não é hoje que o Mário enche a caixa à nossa custa.

    — Vai encher, vai! Carne desta …? Tem cabeça! Podes fugir com ela mas o cabelo fica.

    — Não fica não. Ficou foi o da outra, nas minhas mãos.

    O Jacinto riu; eu não.

    Aquele que pôs em cena o “seu” Édipo o Rei, olhou, engoliu e, assim como quem não quer a coisa, perguntou:

    — Quem é?

    Aí, levantei a voz e respondi:

    — Inês.

    — Inês. Para ele a Negra.

 

(continua)

 

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ENCONTRO COM INÊS IX

 

 

   — Queres que te fale do que é segredo? Nem penses. Se o Castelo foi feito pelas nossas mãos, quem é que o deve conhecer? Mas deixa lá isso. Saímos. Saímos mas não todos. Houve quem ficasse. Uns por medo, outros a pensar que a segurança estava lá dentro, outros ainda porque vêem sempre lucro no negócio da guerra e, de qualquer maneira, já conheciam bem os senhores de dentro. E, mesmo durante o cerco, havia sempre lugar para a diversão. Levaram-nos o melhor. Porquê? Para os soldados? Eram grandes as festas! Tão grandes que o barulho dos “trons” não contava. Perdiam-se entre os risos, as cantigas e as danças e os gozos dos mandões. Mas os soldados estavam lá. Sempre de sentinela e quantas vezes alvo, na prática do tiro da besta, em que a mouche era o coração. Estômago apertado, o pão de milho era pouco e o vinho cada vez mais aguado. Fome no soldado, fartura no capitão.

    Havia gente de garra na Casa Grande e no Castelo. Gente que defendia que “depois do Castelo só a Corte”. Cabanas? Nunca mais. E quem atira a primeira pedra?

    O silêncio envolvia-me, mas não o sentia. Eram risos, trons de risos, trons, barulho de risos ou de trons, o silêncio dela … o silêncio e eu.

    Pensei que o cabelo dela ia dançar, mas não. Encostou a cabeça no meu ombro e o meu sorriso dizia:

   — Inês!

    Uma lágrima no canto do olho e um esgar de raiva a fazer de sorriso:

    — Não foi melhor não, mas era livre! A fome também apertava e os melhores nacos de carne não eram para os soldados. A tenda do Rei pouco melhor era que uma barraca de feira. A moral era igual a um riacho em tempo de seca. Maldita terra, maldita guerra!

    Durante dias percorri o acampamento a pedinchar, a matutar … Quantas vezes lembrei a Casa Grande? O pão acabado de sair do forno; os capões e as cabras que foram de um vizinho e agora são a festa dos estômagos, nunca cheios e sempre à espera de mais, que a guerra está à porta e o inimigo nos cerca.

    Uma manhã acerquei-me das muralhas e fiquei sem fala. Ela, a amiga! A que escolheu as festas e os gozos! A passear-se com os senhores! A gozar naquele sorriso que dizia:

    — Nós ganhámos.

    Não resisti e gritei. Gritei até os pulmões doerem:

   —Desce, se és mulher. Desce que te rebento as fuças e vais provar na cara um punho português.

    O alarido foi tal que todo o acampamento saiu para ver o que se passava. El-rei chegou, quando viu que não passava de uma rixa entre duas mulheres, riu e deu meia volta para tornar à tenda.

    Das muralhas, o gozo, o riso e a algazarra não eram menores. Atirei novamente:

    — Desce que te desfaço, traidora dum raio.

    Alguém me segurou o braço que logo sacudi, mas quando vi a cara de el-rei, aquietei-me.

    — Aguarda. Se é isso que queres, é isso que terás. Agora vai para o acampamento que logo falamos. E não te esqueças que Melgaço é tua e de el-rei de Portugal.

    Falar é bonito mas para ignorantes como eu, baixar a cabeça e calar porque el-rei manda …

    — Cala-te. Nada de filosofia nem democracia. Rei é rei e os tempos não são os de agora.

 

(continua)

 

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ENCONTRO COM INÊS VIII

 

Muralhas do Castelo de Melgaço

 

 

    — Só montanha!

    — E o Minho a serpentear pelos vales, a beijar aldeolas …

    — E tu a descreveres a minha terra.

    — E eu a não descrever coisa nenhuma. O que é que queres que eu diga? Os livros dizem tudo.

    Racional sim, mas o homem é um animal e só não se torna irracional em frente de uma mulher destas quando é mesmo irracional.

    Já não sei o que fui antes ou o que sou agora mas sei que ou falas claro ou serei um presidiário - só pensei - já me vejo perante o sol aos quadradinhos numa cadeia qualquer, acusado de ter apertado o pescoço a uma bela donzela de cabelos negros, no Cais das Colunas.

    — Tu sabes mais do que dizes.

    — Claro que sei. Sei de trons disparatados que não faziam mossa nenhuma nas muralhas, sei das cortesãs na casa grande, sei do terror dentro do Castelo aquando do cerco, sei … Afinal, o que queres saber?

    — Quero ouvir, o saber não conta.

    — Palavras de filho de mamã.     

    — Ou de filho daquela terra.

    — Terras, guerras, fome, destruição e morte? Grandes homens, grandes nações, muitos feridos, muitos mortos … Já estou farta. Prefiro falar de homens, mulheres, pequeninos, dentes de leite, amor, tudo o que é vida. Há coisa melhor que um sorriso de bebé? Naquela terra havia sorrisos de bebé?

    — Havia. Havia sorrisos de bebé, porque aquela terra é igual às outras. Havia mulheres, homens, velhos, crianças e bebés. O mesmo que há agora: uns filhos da mãe, outros filhos da outra, mas todos filhos.

    Quando o cerco começou desatámos a rir porque comida não faltava. Já tínhamos armazenado tudo o que havia nas cabanas em volta e os da casa estavam connosco. Mas logo percebemos que agora era diferente e logo na casa os melhores nacos nos foram tirados, roubados. Digo agora porque eram necessários aos senhores da casa que já estavam no Castelo e aos soldados que iam dar o corpo nessa guerra. Nessa altura, olhámos para os bebés, mal nascidos e já a sofrer a estupidez dos homens, e soubemos que não estávamos no melhor lado …

    — Ufa … Continua.

    — Falámos, ou melhor discutimos, gritámos, uns querem isto, outros aquilo e saímos.

    — Saíram todos! Como era possível, se o Castelo estava cercado e as portas fechadas?

    Riu bem alto na minha cara, com os cabelos a deixar só à vista aquela boca de lábios carnudos, dentes brancos e a ponta de uma língua que me martirizava.

 

(continua)

 

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ENCONTRO COM INÊS VII

 

 

    Chegou sem salamaleques, um olá, um beijo a jacto, sentou-se, sorriu e atirou:

    — Já que és tão curioso, hoje vou falar de mim.

    Não fiquei de boca aberta porque ainda não a tinha fechado desde que ela apareceu e da minha boca saiu qualquer coisa com está bem.

    — Quando os trons se ouviram já andava tudo num virote.

    Fico de boca aberta a olhar para aquele rosto, envolvido em cabelos negros, que começava uma conversa parva, sem pés nem cabeça, mas que eu tanto sentia e amava. O coração serrano bateu mais forte e aí a pergunta saiu:

    — Onde estiveste? Que foi feito de ti, este tempo todo?

    — Nada que te diga respeito. Andei por onde andei, estive com quem estive …

    — E eu aqui a dar voltas à cabeça …

    — O problema foi ou é teu. Eu segui o meu caminho, andei por terras de Portugal. Nada nos liga. Nada me liga a nada e se falo contigo é porque gosto do timbre da tua voz.

    — Muito obrigado!

    — Não tens de quê.

    — Agora fala-me dos trons; li isso há tempos escrito por um cronista.

    — Do Mestre?

    — Não, de el-rei D. João.

    — Isso é o que tu julgas porque rei era na corte, em Lisboa.

    — Afinal, sabemos bem do que falamos.

    — Sabemos? Eu não sei do que falas. Falei de trons e de reis porque estudo História na Faculdade. Bom, vamos ver o rio?

    — Não. Contigo não vou, porque …

    — … o rio é tão largo que me faz lembrar o mar que nunca existiu na minha terra.

 

(continua)

 

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ENCONTRO COM INÊS VI

 

 

    Estive sentado na primeira fila aquando do assalto frustrado ao Congresso dos “fascistas” do CDS a assistir ao assalto e destruição da sede no Largo do Caldas, a fazer de plantão na Central de Comunicações, na Ribeira, no 11 de Março, a sanear PC’s na Central de Correios, a beber copos com o Álvaro (Cabeça de Vaca) nas Escadinhas do Duque. Na Trindade, com o Canelas, madeirense, que depois do jantar gritava:

   — Rapazes, vamos tomar a bebedeira!, com um sorriso que abarcava meia Lisboa.

O velho Brito, anarquista, dos tempos do Jornal Batalha e dos atentados, infelizmente falhados, contra o Salazar. O Luís Pacheco, escritor, a quem rendo a minha homenagem, sempre mais bêbado que nós todos juntos, mas que se fosse chatear para a p*ta que o há-de parir não fazia mal nenhum. O Jaime, o Janita, os charros de “haxe”, as músicas que todos queriam fazer, os bares de p*tass que desfazíamos, as meninas queques que tínhamos, e eu, eu sempre à espera que Inês aparecesse.

    Desapareceram BR’s dos PRP, apareceram FP’s. Acabaram os fascistas de ontem, apareceram os fascistas de hoje. Os velhos donos deram lugar aos donos novos e o meu suspiro sem fim continua.

    Inês não aparece.

    Eu só lembrava os seus cabelos dançando ao som duma valsa que só ela ouvia. Lembrava porque a toda a hora ela estava presente.

    Muito antes, quando o Franco, “hijo de p*ta”, “caudillo de m*rda”, mandou para o garrote os rapazes dos GRAPO, Consulado e Embaixada de Espanha foram pelos ares, todos nós gritávamos a máxima da ETA: Viva Franco, mais alto que Carrero Blanco, ela estava presente. Sentia-a a meu lado, o olhar fundido com o rio de que ela não gostava, mas a sorrir, sem sorrir, do seu segredo.

    Tantos tombos, tantos bares, tanta mulher, cerveja a jorros, amigos até nos “sem casa” de qualquer lado de Lisboa, só faltam beatas e outras tais … Ela tem que estar próximo. Eu sinto-a, eu cheiro-a e vou encontrá-la. Voltar aos velhos lugares que nunca deixei, ao rio a que chamo nosso e a … Inês.

 

(continua)

 

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ENCONTRO COM INÊS V

 

 

    Era noite de Santo António e o bailarico corria.  

    Junto daquelas tábuas que serviam de balcão de bar, no meio de três ou quatro rapazes, estava a loira com o fio de ouro que eu procurava. Deixar mal o “prof.” nem pensar!

    Do coreto saía uma marcha bem esgalhada pela orquestra. Autêntico prego a fundo em Citro-arrastadeira e nós já estávamos bem no meio do arraial. Tudo preparado para a faena, o touro no centro da praça, agora só são precisos dois passes de muleta e é logo entrar a matar.

    O bom e o bonito é que o fio entra pelo meio de dois monumentos que me deixam a pensar em tudo menos no uso das técnicas ensaiadas. O que se passou não sei mas, quando dou por mim, o Chafariz de El-Rei servia de colchão e nem um nem outro se preocupou com os foliões que passavam, olhavam, riam e seguiam, porque é noite de Santo António …

    De regresso ao Castelo, alta madrugada, foi uma rua de Alfama a servir de leito.

    Uma loucura que o “prof.” não previra e que de certeza o obrigou a rever os seus manuais de actuação.

    Péssimo aluno, corpo saciado … mas com o buraco na alma que Inês deixou. Então soube o que era a obsessão, a paranóia.

    Precisava de ver Inês, o seu cabelo, a sua voz, para me encontrar.

    Inês não era a mulher que eu queria, Inês era o meu mundo.

    E Inês sem aparecer. Eu, contra tudo e contra todos, de volta ao “taft-taft” e à mosca.

    Fumo de cigarro, olhar vazio e alma desfeita.

    Outra conheci, companheira, amiga, amor nas horas de homem e de mulher.

    Um dia, subíamos o Parque Eduardo VII, ao cair da noite, com o olhar fixo no relógio porque “recolher obrigatório” era coisa que não faltava, passámos junto a um banco onde estavam sentadas duas pessoas fardadas de FAP. O que os levou a levantar num repente não sei, mas os muitos papéis que lá deixaram tinham uma assinatura: ELP. Arrebanhei tudo e entreguei-os na sede de um partido em que confiava, mas, dentro de mim, o coração batia forte e gritava:

    — Inês, porque não estás aqui?

    Adorava a minha companheira de momento, daria a minha vida por ela … mas era a Inês que desejava a mau lado. Naquele momento a pedra da história era oca, faltava-lhe o amor, o querer, o gozo, faltava-lhe … Inês.

 

(continua)

 

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ENCONTRO COM INÊS IV

 

    Passaram os dias, semanas, meses … 

    Ela não voltou e eu sofri. Órfão numa terra que nada me dizia desde que a conheci.

    Lisboa com Inês, era o riso das gaivotas, o calor das gentes, o sorriso de amigos, o sol de Portugal, a recordação eterna do lugar onde nasci.

    Tinha o amor de pai e mãe no calor dos seus olhos, a paisagem da minha terra na curva dos seus lábios.

    Será que a perdi? Era a pergunta que não ousava formular. Inês era a minha vida, o Santo Graal que todos procuram e eu descobri.

    Alguém muito amigo também descobriu que eu mudara. Mudara quando conheci Inês e muito mais quando a sentia perdida.

    — Não esqueças, quando menos contares, truz-truz e aí está ela.

    Voltamos a passar as tardes naquele Castelo, a olhar turistas barrigudos e a ser olhados por gordas turistas de mamas grandes, olhos comilões e cabelo de rato. Nós a discutirmos as coisas do costume. Quem pintou na parede “O Leopoldo caga de pé”? A erva do Mário é melhor que a minha. Esta noite temos quatro tubos de prelo …

    Se a Inês me deixou órfão …

   Há todo um mundo para descobrir. O Castelo é a base, o Licas o professor.

    Em pleno PREC, ver o Licas de camisa branca com listas azuis muito finas, pulóver azul-escuro e emblema do CDS, das duas uma: ou havia desatino ou a erva era do melhor. Desempregado e a viver do que aparecia, mais a reforma da mãe, que não matava a fome a ninguém, toma-se de cuidados e aconselha o amigo:

   — Noite de Santo António é noite de fazer dinheiro. As chavalas vão aparecer cheias de fios, dá-se uma ou duas de esfrega no bailarico, aplica-se o corta-unhas no pescoço, quando ele cai a mão avança pelo meio das mamas, ela reage, esteja quieto e … já está. Sem tirar nem pôr!

    Seguir os conselhos do Licas nada mais fácil, mas o que saiu na rifa foi discussão política com um cantor que, há falta de melhores argumentos, despiu a camisa para que todos vissem o que sofreu na guerra colonial. Como tal, e pelo que cantava, ninguém podia pôr em causa que era homem de esquerda.

    Logo de seguida, e a propósito de um tal Hélder que tinha bufado à PJ que havia drogas no bairro, entrámos de rompão por uma porta discreta que havia na parede do Largo e, cinco degraus subidos, apanhámos com um grande terraço assente nas muralhas do castelo. Rio Tejo a perder de vista e o grande Ary, braços abertos, rodeado de farinheiras e salpicões  pão alentejano e queijos de Serpa vinho que já estava servido e flores iguais às dos jardins camarários a gritar:

   — Sirvam-se mas nada de barulhos.

   Ver  aquele corpanzil, melena a tapar o olho, o grito de comando do  palco e da vida, por nós há muito trocados por Joplin e Gil encolhemos os ombros e voltamos costas.

    Grande banquete … mas era deles e para eles ficou.

    Do Hélder nunca mais soube nada.

 

(continua)

 

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ENCONTRO COM INÊS I

 

Antigo café Gelo - Rossio

 

 

    Era uma vez! …

   Eu gostava que assim fosse mas infelizmente só nas histórias dos outros  acontece. Eu, simples mortal, a penar em Lisboa, não tive direito a um começo assim mas verdade seja dita ainda bem que tal não aconteceu.

    A vontade de rir é enorme. Porquê? …

    Mulher, tão simplesmente.

    O que terá esta mulher de igual e de muito, muito diferente das outras para ser mais do que uma conhecida, uma íntima, e não a conhecer de lado nenhum, tirando as duas ou três vezes que a vi sentada à mesa do café?

    Este café continua a encher-me a cabeça com o “taft-taft” da ventoinha. O fumo do 20º. ou do 30º. cigarro, meu e dos outros, um nevoeiro de cortar à faca. Sinto-me bem neste café por isso aguento. Aguento todos os dias, mesmo quando não quero, quando estou chateado, quando estou contente, mesmo quando estou … eu. Este é o meu café.

    O empregado que serve a “bica” faz-me lembrar a mosca que não deixa de aborrecer o parceiro da mesa ao lado. Se calhar é o laço! O laço que o empregado usa é parecido com uma mosca. Só asas e sem pernas. É pena não haver próteses para as moscas, assim o laço do empregado não era confundido com as moscas. Ou já viram um laço de muletas ou coisa do género?

    O laço, a mosca, o empregado e, já agora, as muletas. Se não levam a mal, as muletas são de pau. De pau, madeira, pau, mesmo pau.

    Só o barulho do “taft-taft” é que já chateia. E o empregado à volta da mesa, que clientes é coisa que não há.

    Chegou a hora dela entrar. Certinha. E se a ventoinha já me tinha dito, há muito tempo, para me ir embora agora era dar à sola e espairecer noutro lugar.

    Não foi por ela que fiquei, muito menos pelo barulho da ventoinha e da mosca nem falar.

    Olhei-a! …

    Falar nem pensar. Não a conhecia. Esperar mais uns dias…

    Poderá dar ou não, mas como sempre fui homem de coragem, resolvi: é amanhã. Pomos tudo em pratos limpos, porque se for loiça de Sacavém temos negócio.

    É já hoje o amanhã prometido. Acabar o jantar, esfregar as mãos com um sorriso de deuses e nem a mosca do empregado nem o “taft-taft” da ventoinha seriam deste mundo.

    Táctica escolhida pelo caminho: andar devagar que hoje sou eu o 2º. a chegar.

    Carros, rostos, montras, pés, cigarro e mais cigarros, tornar longo um caminho curto chega a ser doloroso.

    Agora é que é … já vejo a mosca do empregado, já ouço o barulho da ventoinha … entro com qualquer pé e … e … nada. Ela não veio! … Em seu lugar veio a “bica” e a mosca ou a mosca e o empregado. Empregado com “bica” e mosca. Sei lá … Bebi a “bica” e o barulho da ventoinha gozava comigo.

 

(continua)

 

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