Quarta-feira, 8 de Abril de 2015

O NASCIMENTO DO MITO IGNES NEGRA - VI

Foto da CMM

 

(continuação)

 

A comitiva da Rainha continuava a sua marcha descendente.

O caminho agora começava a estreitar-se entre muros e sebes avivadas de silvados e plantas agrestes, e tão apertado que mal cabiam a dous, sendo diffícil a passagem quando de frente encontravam um boisinho barrosão de hastes enormes, ou as récuas de mulas que levavam provisões ao convento. Esse corredor serpenteante (quasi escadaria) de mais de meia légua, desembocava abruptamente no acampamento. N’este o Rei que logo veio receber a Rainha, começou explicando o modo de arremetter, e como se realizaria a escaramuça entre as duas mulheres.

Na Corte dos Valois, perto de três séculos depois, em plena Renascença, os combates singulares, antigo julgamento de Deus, tornaram-se solemnidades quasi festivas, que chegariam ao apogeu de brilho, no célebre torneio em que Jarnac, o favorito da Duquesa d’Etampes, o pomposo Chataignerie, defensor de Diana de Poitiérs, na liça rutilante de St. Germain, sob os olhares do Rei, da nobreza, e de todas as summidades de França.

Aqui, porém, n’esse final do século XIV, e n’este canto da Península, as escaramuças, perante uma corte mais guerreira que polida, mais austera que licensiosa, se não tinham o esplendor das cerimónias thetraes que deslumbram, não eram menos impressivas, ou menos importantes os seus resultados.

Pelo contrário. Na Corte de Henrique II digladiavam-se dois adversários para liquidarem uma intriga de alcova.

No arraial de D. João I batiam-se duas mulheres, disputando a honra de dous exércitos, empenhados em fixar a fronteira do Reino.

N’essa manhã do começo de Março em que a Arrenegada sahiu pelo postigo da fortaleza, para vir defrontar-se com a sua competidora Ignez Negra, todos de um lado e outro se dispuzeram a presencear o espectáculo d’esta pugna de nova espécie, a que deram foros de combate, e que a chronica regista com a designação honrosa de escaramuça entre duas mulheres bravas. Bravas no sentido de valorosas, e bravas na acepção de ferinas.

Os de dentro subiam aos parapeitos das cortinas e bastiões, debruçando-se curiosos. Os do arraial formavam círculo em volta das luctadoras, saudando com vozearia carinhosa Ignez Negra a portugueza, e enchendo de vaias e apupos a desnaturada castelã.

As almas também tem sexo, como os corpos. Assim se aclaram, quando a natureza as troca, tantos casos inexplicáveis, tantas anomalias flagrantes – homens mulherengos, mulheres viragos.

Nos corpos d’estas duas moravam almas de luctadoras valentes, herdadas talvez dos seus avoengos; dos que em eras remotas haviam ajudado a expulsar da Penínsulas as raças invasoras.

Foi logo impetuoso o primeiro embate das justadoras. Com fúria, com sanha, com rancor atiraram-se uma à outra sem mais armas que as unhas, com que reciprocamente rasgavam as carnes, e os dentes com que se esfacellavam. Atropellando-se, arrancando os cabellos, afogando-se nos fortes braços nervosos, derrubando-se alternadamente na lucta; ensanguentadas, esfarrapadas, e rugindo como feras prolongaram durante minutos a encarniçada peleja.

Davam mais a impressão de dous monstruosos animaes enovellados em trapos, cabellos e sangue, que de duas mulheres humanamente construídas.

O drama começava a abalar o ânimo ainda dos menos susceptíveis de soffrer comoções, quando a Arrenegada, ou porque tivesse menos elasticidade nos músculos que Ignez Negra, ou porque o espírito dos que renegam crenças e opiniões é sempre menos resistente, entrou a fraquejar, cahindo logo desfallecida.

Então Ignez, que a suplantara, foi gloriosamente levada em triumpho e saudada com aclamações, ao som de trombetas e charamelas festivas.

Alguns escritores, seduzidos pela ideia de attribuir a este episódio o resultado da empreza, outros copiando aquelles (o que é pecha vulgar em quem não se dá grande trabalho nas investigações), affirmam ter sido decisiva para a entrega do castello a pugna entre as duas mulheres.

Phantazias!

A verdade é que, se este duelo animou e exccitou a coragem dos portuguezes, foi só d’ahi a horas, na manhã de segunda-feira, três de Março, que a praça se rendeu pela acção dos nossos guerreiros e poder dos engenhos.

Conta-o Fernão Lopes fazendo-nos assistir ao movimento da bastida sobre as suas rodas, avançando dezoito braças; depois à escalada dos que «se chegavam tanto à Villa que punham um pé no muro outro na escada», atirando-se, primeiro que todos, o Prior do Hospital.

A peleja foi feroz. Dez homens no mais alto estrado levavam pedras de mão que arremessavam aos de dentro, (como agora se arremessam granadas) emquanto outros se atiravam ao muro com grossos paos.

De cima choviam pedras e fachos incendiados de mistura com impreccações e insultos, «desmesuradas palavras» que assanhavam o ânimo de D. João I.

Por isso, o Rei assomado e iracundo, quando os de dentro, reconhecendo a própria inferioridade, pediam novamente tréguas, recusou qualquer avença e resolveu continuar o assédio à viva força. Então João Rodrigues de Sá, o das Galés – voz sensata – alvitrou que era de boa política acceitar a capitulação. D. João I, brutalmente, retorquiu:

- «Quem medo houver não vá na escada.»

Subiu uma onda de sangue às faces do guerreiro, que tinha ainda frescas as quinze cicatrizes de feridas, que recebera quando foi do ataque das Galés da Ribeira de Lisboa. E ressentido respondeu:

- «Eu, Senhor, não sei se dizeis vós isso por mim, mas cuido que nunca me vós a mim por tal conheceste.»

E o Rei, cahindo em si, pois que n’elle estes assomos de cólera eram logo dominados pela força da razão, emendou:

- «Nem eu não o digo por vós. Mas digo-o, por que os hei já por tomados.»

Dividiam-se ainda as opiniões. Uns queriam continuar o assalto, na esperança de farta preza. Outros seguiam o alvitre razoável do ponderado Sá, com o qual o Rei conccordou afinal, enviando o Prior do Hospital a acceitar a preitezia e estipular as condições.

Foram todas aceites. Não só entregariam a villa e castello a El-Rei, mas obrigavam-se a sahir da fortaleza em gibões sem outra cousa…

Assim foi. No dia seguinte, o rapazio foi apanhar feixes de varas verdes, e cada um dos que pela porta do castello ia sahindo era, por escarneo, obrigado a empunhar um d’esses ramos.

Alguns mordiam-se de raiva pela humilhação imposta.

Houve até um escudeiro fidalgo que, fincando os joelhos em terra, pediu a El-Rei que lhe entregasse as suas armas e lhe poupasse a deshonra, ao que D. João I galhardamente accedeu.

Outros, comtudo, com riso forçado, e levemente alvar, como gracejando, tomavam o expediente de dizer aos garotos que lhes davam as hastes verdes:

- «Ai, rogo-te ora que me dês uma bem direita e boa.»

Não ficou nenhum! Quando na quinta-feira seguinte, depois de cincoenta e três dias de assalto, o castello e villa de Melgaço foram entregues a João Rodrigues de Sá, para governar; e quando El-Rei e a Rainha retiravam festivamente com a sua comitiva em direitura a Monsão, do alto da muralha, que olha para noroeste, um vulto de mulher (segundo reza a tradição local), empunhando a bandeira gloriosa das quinas, agitava com ufania esse pendão redemptor.

Era Ignez Negra a batalhadora, imagem symbólica das energias femininas, proclamando assim a victória que consolidava de vez a fronteira no extremo norte de Portugal.

Se Aljubarrota tem a illustral-a pittorescamente Brites de Almeida, a denodada padeira, e a sua lendária proeza, não é menos digno de registo, no livro de ouro da epopéa joannina das luctas da independência, o feito mais authentico e mais significativo de Ignez Negra a heroína de Melgaço.

 

(*) Ainda hoje, emquanto isto escrevemos (Agosto 1917), a villa conserva alli algumas d’essas vielas de pittoresco aspecto, e é, em parte, cintada com as veneráveis muralhas que tanto a enobrecem.

Consterna-me, porém que o município, com a deplorável mania de «modernizar», vício incorregível das nossas edilidades, umas boçaes, outras mal orientadas, está attentando criminosamente contra a magestade da sua terra, dilacerando-lhe os vestutos flancos para «fazer dinheiro» e colher materiaes destinados a um edifício público! Um tribunal, segundo me informam, que será provavelmente semelhante ao matadouro com que já se orgulha! Uma lástima! Se alguma entidade há, que possa impedir o sacrílego, acudi breve a afastar esta vergonha de Portugal!

 

NEVES DE ANTANHO

CONDE DE SABUGOSA

 

Retirado de:

 

www.archive.org/stream/nevesdeantanho00sabu/nevesdeantano00sabu_djvu.txt

 


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Quarta-feira, 1 de Abril de 2015

O NASCIMENTO DO MITO IGNES NEGRA - V

Codex Manesse - Heinrich von Breslau

 

(continuação)

 

Ao mesmo tempo mandou que nas imediações se cortasse madeira, e se acarretassem materiaes para se construírem duas escadas e uma bastida, formidável machina de guerra sobre rodas, de temeroso effeito contra as praças fortes.

Descreve Fernão Lopes minuciosamente essa bastida, muito larga de roda a roda, e de padral a padral; com os seus três sobrados madeirados de pontões, para serem guarnecidos de homens de armas; com estrados de mui grossos caniços para se andar por cima; com escadas de alçapão e nos pontões superiores, três mil pedras de mão, que mandaram apanhar pelas regateiras. Havia também trebolhas cheias de vinagre para evitar o fogo, e seis grandes caniços forrados de carqueja, assim como vinte e quatro couros verdes de boi para guardar o fogo que viesse.

Era um rudimento do moderno tank; era o precursor d’essa machina de guerra, que nos campos da Bélgica está actualmente exercendo a sua terrível acção devastadora.

Esta de D. João I, que levou quinze dias a construir, era mais modesta e de mais acanhados recursos. Mas o seu effeito, ainda antes de manobrar, foi eficaz, pois os de dentro, que assistiam aterrados a fabricação do aparatoso engenho, apressaram-se a pedir tréguas, propondo que João Fernandes Pacheco conferenciasse com Álvaro Pães. Por mandado de El-Rei chegou-se o Pacheco à barbacã, e de dentro, encostado ao muro, falou-lhe o comissário castellão. Longo espaço de tempo durou esta conversação entre os dous guerreiros arvorados em plenipotenciários. E emquanto elles falavam, assediados e assediadores suspenderam as investidas, acudindo ao ânimo de uns, (os mais pacíficos) esperanças de uma concordância; refervendo no de outros (os mais belicosos) desejos impacientes de recomeçar a pugna. D’estes o mais irreprimível era o da Arrenegada que ardia em sanha. Sabendo que os dous chefes não se tinham accordado resolveu então provocar um combate singular, pois sabia que entre a gente do arraial se achava um contendor digno d’ella.

Era uma mulher d’aquella região a quem chamavam Ignez Negra.

Negra, por apellido da família? Talvez!

David Negro se chamava o rabi de Castella que urdiu o enredo contra D. Leonor Telles. E Affonso Pires – o Negro – era o escudeiro de Nun’Álvares na véspera de Valverde.

Famílias com o nome de Negrão e Negreiros tem havido em Portugal, pertencendo à primeira no século XVIII, o poeta da Arcádia – Almeno Sincero.

Ou seria antes a nossa Ignez, negra, porque a sua pelle exageradamente trigueira como a da Sulamite do Cântico dos cânticos, (nigra sum sed formosa) contrastasse com a das suas conterrâneas, quasi todas alvas, de olhos claros e cabellos aloirados, revelando a origem celta das nobres raças?

A iconografia portugueza é assaz pobre. E, se nos faltam retratos de tanta figura predominante, não é maravilha que a galeria das mulheres illustres careça de qualquer documentação acerca das feições da modesta, mas valente portugueza dos arredores de Melgaço.

Figuramol-a, porém, por artifício da imaginação, com encrespado cabello da cor do seu apellido; olhos ígneos como o seu nome de Ignez; a pelle acastanhada, adusta e curtida pelo mordente sol dos campos, na ceifa. Magra, musculosa e com farto buço a atapetar-lhe o lábio superior. Peito chato como o das amazonas. Typo levemente aciganado e plebeu, mas não destituído de encanto. E no seu todo o interesse que provoca sempre uma personalidade fortemente accentuada.

Visitando a casa onde segundo a tradição elle habitou depois da sua proeza, – a Venda da Angelina – (hoje um prédio modernizado), ou percorrendo as ruazinhas estreitas que descem até à porta de D. Affonso, encontrámos algumas moradoras ao soalheiro, que, por comparação retrospectiva, nos ajudaram a recompor uma effigie da Ignez Negra, porventura sua remota parenta. Devia ser assim como a evocamos!

Quando lhe chegou aos ouvidos o desafio da Arrenegada acceitou prazenteiramente o repto.

Entretanto El-Rei enviara à Rainha recado para que viesse. Os engenhos estavam concluídos, e quasi aplanado o caminho pelo qual se devia fazer rodar a bastida e encostál-a às muralhas.

É possível que o mensageiro anunciasse também no Mosteiro de Fiães, onde D. Filippa se achava, o desafio entre as duas mulheres de Melgaço.

E isso seria certamente escutado com curiosa attenção pelo mundo feminino que rodeava a Rainha. Ávidas deviam estar por certo as suas damas e cuvilheiras, de distracções e recreios, tão escassos n’aquella solidão.

E logo entre o mulherio quantos comentários sobre o projectado duello! Nas velhas, altos escarcéos, e motivo para ralharem de tão descomposta escaramuça. Nas novas, grande jubilação com a espectativa das comoções.

Por isso quando n’aquella manhã do princípio de Março a Rainha, com a sua Corte, se apromtou para descer de Fiães a Melgaço, eram agitadas as discussões acerca do projectado combate.

A primavera anunciava-se promettedora. O ar gelado da manhã bafejava a pelle do rosto das senhoras, que, ao montarem se embuçavam friorentas nos seus manteus e biocos.

Na descida, quasi a pique, da íngreme ladeira, que durante uma hora percorreram, caminhando pelos carreiros do monte escalvado, algumas das boas donas iam só attentas ao perigo, que offerecia o marchar hesitante dos cavallos sobre os pedregulhos das veredas agrestes.

E quando as montadas punham o pé com menos segurança, o que trazia a iminência de um tropeção, ouviam-se exclamações afflictas das mais timoratas, provocando risadas escarninhas entre as resolutas. Outras olhavam maravilhadas a paysagem deslumbrante, o panorama das extensas ondulações que formam o berço delicioso em que se espreguiça voluptuosamente o rio Minho.

Além à esquerda os montes de Pernidêllo, em cuja verdura se aninhava o conventinho de Paderne. Mais ao largo Monsão, a pátria de Deu-la-Deu. E, como a manhã era clara, lá muito ao longe, quasi se distinguia a nobre Valença. Para a direita inferiormente, e já em terra extranha, as pequenas povoações gallegas tão maneirinhas… que apetecia dal-as como brinquedo a uma creança!

A maior parte, porém, da comitiva só tinha olhos para a villa de Melgaço, alli em baixo com a sua airosa torre quadrada, que uma coroa de ameias enfeitava, e para a povoação em redor della, mettida nas faixas das muralhas defensoras, promettendo um espectáculo attrahente, quando se rendesse à força, como fêmea dominada pelo seu legítimo senhor.

Por de fora d’essa muralha estendia-se em arruamentos de tendas de campanha o arraial português, sobressaindo a barraca elegante tomada em Aljubarrota aos Castelhanos, que já servira em Ponte de Mouro para firmar a alliança ingleza. E, informe, como um animal antediluviano, destacava-se a medonha bastida, prompta para atacar.

 

(continua)

 


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Quarta-feira, 25 de Março de 2015

O NASCIMENTO DO MITO IGNES NEGRA - IV

Batalha de Aljubarrota

 

(continuação)

 

Compunha-se a casa da soberana de nobres senhoras que El-Rei puzera ao seu serviço. A ella pertenciam: como aia e camareira-mor D. Beatriz Gonçalves de Moura viúva de Vasco Fernandez Coutinho, senhor de Liumil, e como damas a filha d’esta Teresa Vasques Coutinho, viúva do filho do Conde D. Gonçalo, e, portanto, cunhada de Leonor Teles; a irmã d’aquella, Leonor Vasques, que depois casou com D. Fernando, que chamaram de Bragança, filho do Infante D. João; D. Beringeira Nunes Pereira, prima do Condestável e filha de Ruy Pereira, que morrera na peleja das naos ante Lisboa; e ainda outras que formavam um luzido batalhão volante, n’esse cortejo que ia assistir ao mais typico episódio d’aquella época.

D.João I preparava-o adrede para mostrar à Rainha como se assediava uma praça, e para exhibir perante a sua Corte, a valentia dos homens d’armas, que vinham consolidando a independência do Reino.

Era uma genuína galanteria de guerreiro medieval, esse desejo de fazer assistir a fina flor da Corte feminina ao rude embate dos seus besteiros contra a fortaleza rebelde. E era ao mesmo tempo um poderoso incitamento para a hoste, esse torneio revelador da arte, da destreza, e do valor com que se pelejava.

Era também uma vistosa parada de forças combatentes perante os olhares mulheris, o mais aguilhoante estímulo da cavallaria gloriosa.

Era, finalmente, uma ala de namorados de nova espécie, batalhando em frente de suas damas.

Era, em resumo, uma phantasia de heroe!

Marchou a numerosa comitiva de Braga para Monsão, onde D. Filippa foi acampar, indo logo a seguir ao mosteiro de Santa Maria de Fiães, perto de Melgaço. Acompanhavam-n’a João das Regras – o Doutor, João Affonso de Santarém, e ainda outros lettrados e jurisperitos, mais exercitados no manejo das Pandectas e das Instituías, que no brandir das espadas e dos arremeções.

Corria o mêz de Janeiro de 1388. As chuvas tinham ensopado os campos. A payzagem minhota, tão festiva de cambiantes durante o verão, com os seus soutos de castanheiros florentes; com as suas videiras de enforcado enroscando-se nos troncos e ensombrando os pateos das habitações; com os fetos de franjas recortadas, adornando as sebes; com as heras e musgos revestindo os penedos graníticos; com o velludo esmaraldino das nogueiras, e as folhas bicolores das tílias opulentas; com a pradaria clara rindo alegremente na voluptuosidade das regas abundantes; toda essa symphonia de verde, executada a grande orchestra, sob a regência de um sol brilhante, que vivifica o torrão; que se reflecte nas lantejoulas de feldspatho e mica, que atapetam os caminhos como pó de diamantes, e que dá a essa região o jeito de um sorriso da natureza; essa payzagem apresentava n’aquella quadra do anno a physionomia rabugenta de uma creança amuada.

O inverno ia rigoroso. As chuvas tinham engrossado as levadas e avolumado os regatos, difficultando a marcha da hoste guerreira, e os movimentos da comitiva real. Por isso o séquito prosseguia lentamente, mas sem desfallecimento.

O tropear dos cavalos e dos machos sobre o lagedo da estreita estrada romana, que segue de Monsão a Remoães, e d’ali à aldeiazinha do Prado, galgando os rios com a ponte do Mouro e a ponte da Folia (duas relíquias de eras já idas), que as urzes e as heras enfeitavam com garridice; o vozear dos homens de armas; as exclamações e gritos femininos; e as pragas rouquenhas dos moços bagageiros e condutores de equipagens, alvoraçavam as pessoas do campo.

Aqui e além deparavam-se n’uma volta do caminho povoações ou casas isoladas.

E do fundo escuro dos estreitos postigos, perfurados nos rústicos tugúrios de pedra cinzenta, debruçavam-se bustos de mulheres com olhar curioso. De sobre os muros, cabeças hirsutas de camponezes olhavam embasbacados os comboieiros de munições, e pasmavam para as hacaneas em que cavalgavam as donas, as aias, as creadas e as crystaleiras. Dos cancellos surgiam garotos a misturarem-se na comitiva, mendigando sobejos dos farnéis, emquanto bandos de gallinhas e de patos fugiam espavoridos da perseguição da soldadesca, que dissimuladamente tentava deitar-lhes a mão, na expectativa de uma ceia restauradora.

E a extensa comitiva coleando pelos caminhos do valle, deixava à esquerda os montes levemente ondulados de Galliza, e começando a subir a encosta, que vae a Prado, avistava já a senhoril Melgaço com a sua torre tão nobre a destacar-se sobre o verde escuro dos pinheiros de Rouças.

A rainha com a sua Corte, contornando Melgaço, foi aposentar-se no opulento mosteiro de Fiães, onde os oitenta monges benedictinos, com o Dom Abbade à frente, a vieram receber fidalgamente na avenida que conduzia à portaria do convento.

El-Rei D. João I, ficou com as suas mil e quinhentas lanças, afora a gente de pé, no campo a nordeste de Melgaço, onde logo ordenou que se assentasse o arraial.

Armaram-se as tendas em que pousaram, além do soberano, o Prior do Hospital, D. Álvaro Gonçalves Camello; D. Pedro de Castro, que havia pouco abraçara a causa de Portugal; João Fernandes Pacheco, (filho de Diogo Lopes, assassino de D. Ignez), de quem Mem Rodrigues dizia ter as qualidades de Lancelote do Lago, e muitos outros capitães e senhores.

Tudo se preparou para a arremetida.

Melgaço, dentro das fortes muralhas em que D. Diniz envolvera a quadrada torre afonsina, era defendida por Álvaro Pães de Souto Maior, e Diogo Preto Eximeno, que tinham trezentos homens de armas e muitos peões.

Além de gente de guerra era a pequena villa povoada por moradores pacíficos, cujas famílias habitavam as casinholas de granito, com pequenas escadas exteriores, de poucos degraus, e um varandim, que formavam junto à parte interna das muralhas estreitos arruamentos.

Entre as famílias que n’esse fim do século XIV se acoitavam n’aquelles habitáculos, havia a de uma portugueza a quem, por se ter bandeado com os castelhanos, tinham dado a alcunha da Arrenegada.

Era esforçada. Era o que o povo chama uma refilona e, como todos os renegados, odiava figadalmente os seus antigos compatriotas.

Fervia-lhe o sangue em cachão com o presencear, do alto das muralhas, os preparativos do campo portuguez. Ardia em fúria e ânsia de arremeter ella própria. E não foi extranha aos primeiros lançamentos de trons contra os nossos.

Assistiu também inquieta e fervilhante às primeiras escaramuças, rejubilando logo que viu que, com uma setta, fora ferido Pêro Lourenço de Távora, um portuguez do arraial. Era uma verdadeira virago, mais aguerrida que muitos dos seus camaradas castelhanos.

Durante nove dias houve tiroteio sendo lançadas contra o arraial sessenta pedras de trons, ao que do lado português foi correspondido, não havendo grandes damnos de parte a parte.

Resolveu-se então El-Rei a mandar armar em cima da ponte da villa, um engenho, com que os sitiantes arremessavam muitos projectos que destruíram algumas casas e caramanchões de Melgaço.

 

(continua)

 


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Quarta-feira, 18 de Março de 2015

O NASCIMENTO DO MITO IGNES NEGRA - III

Casamento de D. João e D. Filipa 

 

(continuação)

 

O rancho conturbado caminhava silenciosamente, sob a opressão de agourentos presságios.

Chegaram ao paço do Curval. Ali o estado do Rei não era de molde a tranquillizar, ou desfazer cuidados.

Quando a Rainha e o Duque seu pae viram o enfermo, vencido pela febre «tão fraco e sem esforço, ficaram nojosos e tristes».

Os cirurgiões interrogados temiam que a prostração em que a quentura deixara o Rei o levasse em pouco. Ouvindo isto, a desditosa Rainha, atormentada e exhausta com a violência da jornada e das commoções, sentiu que alguma coisa se despedaçava dentro de si… e moveu uma creança.

Com este parto prematuro e desastrado, iam-se todas as alegres esperanças, desmoronava-se o edifício da sua felicidade sonhada, e… (cousa rara na vida) da sua felicidade realizada.

Via-se sósinha, casada de pouco em terra estranha, fallecer-lhe logo assim tudo o que a fortuna lhe trouxera – e bem se tinha por mal aventurada entre as mulheres do mundo –. Chorava, pedindo à morte que a levasse primeiro.

Na câmara próxima, onde os lamentos da Rainha, por serem energicamente suffocados, não chegavam, o Rei, cônscio do seu estado, tomava providências.

Mandava chamar o Condestável, agora ausente no Alem-tejo. Fazia testamento. E dispunha-se a morrer perdoando a alguns fidalgos que mandara, tempos antes, encarcerar.

Era solemne o momento. A Rainha, receosa de que a morte lhe roubasse o marido, como lhe roubara o filho, levantou-se e, embora gravemente combalida, arrastou-se até ao quarto onde o Rei agonizava.

Não sabia reter as lágrimas. A voz embargava-se-lhe na garganta. Olhava-o, sem articular uma palavra, tomada d’aquella ânsia com que nas occasiões decisivas tentamos arpoar um vislumbre de esperança.

Comtudo os olhos do Rei, semi-cerrados, e a sua respiração offegante não permittiam illusão!...

Então aquella mulher, a quem o destino parecia ter talhado uma tão radiante missão, sentiu-se miseravelmente infeliz, e cahiu junto à cama do moribundo n’uma convulsão de choro, implorando a protecção de Deus e da Virgem Maria.

Assim se conservou largo tempo…

Pelas janellas entreabertas ouvia-se de quando em vez o carpir do povo, sempre exhuberante nas manifestações do seu sentir. Os lamentos da multidão, impressionada com os presumíveis sinistros casavam-se com as preces roufenhas dos sacerdotes, e com os soluços da Rainha.

Sentia-se o destino da Nação suspenso por um fio…

A autonomia de Portugal dependia de um alente d’aquelle homem, estendido n’um catre estreito, junto do qual o vulto de D. Filippa continuava rezando…

Passaram horas…

Como se a mysteriosa acção das preces, e o esforço super-humano d’aquelle coração de mulher posto n’um só affecto, operassem mais eficazmente que as drogas ministradas pelos physicos, o arquejar do robusto arcabouço foi-se tranquilizando, os olhos começaram a descerrar-se, e o enfermo entrou a renascer para a vida…

Estava salvo D. João I!

Foi do Curval convalescer a Coimbra, onde a Rainha também se libertou do pezadelo que lhe opprimira o ânimo. Recomeçou para os dois o idyllio interrompido.

De breve dura, porém, havia de ser o repouso, nem D. João I era homem que se deixasse ficar em lazer descuidado, quando tantos negócios lhe sollicitavam a atenção.

Cumpria despachar o sogro que começava a ser um estorvo sério, e cuja empreza ia perdendo probabilidades de êxito. Cumpria reunir Cortes para a resolução de alguns negócios de Estado. Cumpria caminhar sobre Melgaço, única praça que no Minho ainda conservava voz por Castella.

Foi resolvido partir logo, de Coimbra para o Porto, onde El-Rei e a Rainha, que o acompanhava, despediram o Duque de Lancastre e a sua reduzida hoste, que, em seis galés, numa clara manhã de fins de Setembro largou da foz em fora, para Bayonna, então ingleza.

Desembaraçado assim do hóspede, e aviados outros assumptos, que se antolhavam urgentes, dirigiu-se D. João I para Braga a reunir as Cortes.

Foi durante ellas que D. Nuno Álvares Pereira, o Condestável, teve notícia da morte da sua mulher. Correu ao Porto onde ella fallecera, fez-lhe exéquias solemnes, mandou a filhinha para Lisboa à guarda da avó – Iria Gonçalves – e, arrumadas assim as cousas domésticas, voltou para Braga onde o reclamava o interesse do Estado, verdadeiro fulcro do seu espírito.

Negócio do Estado era também por certo e de alta importância para D. João I, essa viuvez de Nun’Alvares.

Grande conchavador de casamentos, até mesmo sem audiência prévia dos interessados, El-Rei resolveu logo, de accôrdo com a Rainha, casar o seu Condestável com D. Beatriz de Castro, filha do conde D. Álvaro Pires, «uma donzella assaz formosa e bem filha d’algo!» Próxima parente da linda Ignez, collo de garça, possuía por ventura o mesmo poder de encanto, que seduzira El-Rei D. Pedro. Este viúvo, porém, era pouco susceptível de se deixar captivar com graças femininas.

Avesso por índole ao tracto conjugal, não lhe soffria também o ânimo independente aquella imposição de um consórcio, assim improvisado.

Resistiu bisonhamente – ao Rei com uma simples negativa; à Rainha, pela qual professava um respeitoso affecto, respondeu esquivamente: «Para offerecer a D. Beatriz os braços, era preciso que estivessem desarmados e não convém ainda largar a espada.»

Excusa de guerreiro! Sentir de monge!

Desobrigado assim, e livre da teia em que podia ser enleado, levantou voo para entre Tejo e Guadiana, onde a fronteira estava ameaçada.

D. João I conhecia o seu irmão de armas. Era inútil insistir, podendo até qualquer teima provocar alguma d’aquellas desavenças, que entre os dois às vezes surgiam.

D. Beatriz, se acaso edificara n’aquelle terreno o castello da sua felicidade, viu-o desfeito em névoa, antes mesmo de o habitar. E continuou, (até que ao deante levou outro destino) a ser ornamento na Corte de D. Filippa, acompanhando-a como as outras na jornada que logo El-Rei emprehendeu sobre Melgaço, e onde por certo foi das que mais aplaudiram a aventura da aguerrida Ignez Negra, que logo vamos presencear.

 

(continua)

 


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Quarta-feira, 11 de Março de 2015

O NASCIMENTO DO MITO IGNES NEGRA - II

 

(continuação)

 

Era esse punhado de heroes, cujos ânimos abrigavam não só as qualidades brutaes e violentas, que levavam à victória, mas as delicadas dedicações e devotas amizades promtas para o sacrificio, que fazia exclamar o Duque de Lancastre quando presenceava as suas façanhas:

- «Oh! que bom Portugal!»

- «Oh! que bons portuguezes!»

Quando, terminada aquella campanha, no fim do mez de Julho, El Rei vinha com a sua hoste de Guimarães pelo Porto em direitura a Coimbra, onde então estava a Rainha, ao chegar ao Curval, pequeno povoado a meio caminho das duas cidades, sentiu-se accomettido de doença.

Dor da quentura, diagnosticaram os physicos, consultados sobre o caso. (Que a doença parecia grave – acrescentavam; que já tinham caído enfermos muitos dos homens de armas, com a mesma moléstia, causada talvez pelos excessivos calores da estação; e que era conveniente avisar a Rainha.)

Partiu logo, a galope, uma estafeta sem parar até Coimbra, onde, de visita a sua filha, se achava também o Duque de Lancastre. O mensageiro subiu à Alcáçova, peneirou nas abobadas que levam à sala dos archeiros, e, ofegante encarregou-se do penoso recado.

Logo foi grande, e tão ruidoso, o borborinho nos Paços de Coimbra, que chegou aos aposentos de D. Filippa surprehendendo-a dolorosamente.

Longe de ser, como a alguns se tem affigurado, uma mulher fria, fleugmática, pedaço de gelo importado de Inglaterra, que o sol da nossa terra não logrou derreter: longe de ser apenas uma creatura de dever, forja geradora de altos infantes, e rígida disciplinadora de corte, a loura ingleza que tão grande missão veiu cumprir no mundo, era amorável, e ternamente devotada ao marido, que ella sentia “tão concordável ao seu desejo”.

Demonstram-n’o, além das palavras dos chronistas (talvez sujeitas a reservas) o que é mais e o que é melhor, alguns factos que revelam a sua índole carinhosa e meiga, a sua alma toda entregue ao homem a quem, além de tudo, a ligava um sentimento de gratidão, pela preferência que lhe dera sobre sua irmã D. Catharina, mais nova, talvez mais formosa, e com direitos, por sua mãe, a um throno – o throno de Castella.

Bem sabia ella que o Rei não a escolhera por amor, pois D. João I, entendendo que pretender esse throno para si, seria um perigo para Portugal, optara pela solução mais convinhável à sua politica.

Entretanto era certo ter sido ella a eleita. E as mulheres nunca são indiferentes a uma preferência. Além d’isso, o coração não carece de razões para se decidir.

Gosta-se, porque se gosta!

E porque a loura Rainha recém casada adorava o marido, apenas o soube doente determinou partir.

Não attendeu a pedidos, exhortações, e súplicas para que desistisse de commetter tamanha imprudência.

O verão corria abrasador e doentio (diziam-lhe). Os caminhos eram ásperos, e as mulas facilmente tropeçariam nos córregos pedregosos dos montes até ao Curval. Uma queda desastrosa podia ameaçar, e até destruir a esperança de um herdeiro, que se ia annunciando propiciamente. A nada cedeu.

Conselhos do pae que com a sua voz arrastada, mas persuasiva insistia sensatamente, rogos das damas, representações dos physicos e dos homens sisudos, tudo foi inútil para a demover.

Organizou-se prestes a caravana.

Donas, aias e camareiras, besteiros portuguezes e alguns archeiros inglezes prepararam-se sem demora para a abalada.

Com infinitas cautelas acommodaram-se as andas que haviam de transportar a Rainha, e não tardou que a cavalgada se puzesse em marcha, caminhando todos em silêncio, e ruminando cada qual pensamentos inquietadores.

A Rainha, por um phenómeno frequente nas almas alvoraçadas com a approximação da desgraça, recordava os tempos da sua ephémera felicidade. Rememorava as bodas ainda recentes, com os festejos, justas, danças e trabalhos. Revia o cortejo sahindo do Paço Episcopal do Porto, através das ruas atapetadas de verduras e cheiros. Olhava, com os olhos da alma, a figura do seu noivo, que se lhe affigurava um archanjo montado n’um cavallo branco em pannos de ouro, junto ao d’ella, que era levado de rédea pelo Arcebispo. Escutava o echo das trombetas, das pipias e das músicas, que se casavam com as acclamações da multidão em delírio.

Relembrava a sala do banquete com as mesas mui guarnecidas em volta das quaes se sentavam os bispos, os fidalgos, os burguezes do logar, donas e donzellas do Paço e da cidade. E repassava commovida na memória a scena dos prelados à luz das tochas, benzendo o leito nupcial.

Depois, era a primeira separação tão custosa ao seu affecto, mas em que o via partir são, forte, todo entregue à ância de batalhar…

E agora?...

Agora era uma onda de amargura levantada no coração pelas más novas; era o receio do que iria encontrar; era a ameaça do destino que lhe afogava a garganta; era o prognóstico de um sortilégio sinistro que lhe opprimia as entranhas, em que se estava gerando o futuro Rei de Portugal.

Duque de Lancastre, aparentando mocidade, apezar dos seus sessenta e tantos annos, ia também apprehensivo, embora desfarçasse a perturbação que lhe trazia ao ânimo tantas interrogações inquietadoras.

Até que ponto a morte provável do genro alteraria a situação, e prejudicaria o êxito das suas ambições?

Aos espíritos de todos os outros que acompanhavam a Rainha afluíam semelhantemente incertezas afflictivas.

Em alguns, (almas generosas, incondicionalmente devotadas ao Rei) dominava a angústia e o receio de o perderem, sem a mistura de outro sentimento.

Outros pesavam dentro de si, n’aquella balança de egoísmo, inseparável da natureza humana, os prós e os contras que um desenlace funesto traria às conveniências próprias. E o interesse, a principal força determinante das acções dos homens, segredava-lhes perfidamente soluções diversas para o seu proceder ulterior.

Se a creança nascesse viável, quem seria o Regente na menoridade?

Se, porém, a Rainha não desse à luz um herdeiro a quem iria de vez o governo do Reino?

Do lado de Castella redobrariam as pretensões!...

 

(continua)

 


publicado por melgaçodomonteàribeira às 10:18
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Quarta-feira, 4 de Março de 2015

O NASCIMENTO DO MITO IGNES NEGRA - I

 

 

IGNEZ NEGRA

 

A HEROINA DE MELGAÇO

 

SUMMARIO

 

Loa de mel – A primeira separação – Incursões na Galliza – Morte de Ruy Mendes de Vasconcellos – Regresso a Coimbra – Doença do Rei – Partida do Duque de Lancastre – Viuvez de Nun’Alvares – Projecto de ataque a Melgaço – A corte da Rainha é convidada a assistir – As duas contendoras – Victoria de Ignez Negra.

Eram casados de pouco, quando foram obrigados a separar-se, porque as exigências da lide guerreira assim o impunham a El-Rei D. João I.

Em plenilúnio de mel, a loura Filippa de Lencastre, affectuosa e ternamente enlaçada no noivo, que a política do pae lhe outorgara, e a quem desde logo a sua alma se rendera, sentiu como que se lhe arrancassem o coração, quando ficou assim, sósinha em terra extranha.

É certo que a rodeavam donas nobres, e cuvilheiras de qualidade, mas eram todas portuguezas. É certo que a acompanhavam Prelados, dignitários, e doutores, gente de estirpe ou de consideração, mas pouco de molde a saber consolar-lhe o ânimo saudoso.

Ainda houve, no momento da partida, uma voz que parecia interpretar o seu sentimento. Era Gonçalo Mendes que exclamava:

- «Senhor! N’este Reino so hia de haver um costume de antigo tempo que o homem no anno em que casava, não havia de ir em guerra, nem ser constrangido para ella. E vós que ha tão pouco que casastes o quereis agora britar e vos ir fora do reino?»

João I, porém, não era homem que a lua de mel edulcorasse mollemente, nem que cedesse a exhortações de brandura emolliente.

Respondeu com sobrecenho: «que assim lhe cumpria por defensão da sua terra, e fazer damno a seus inimigos.»

E arredou-se do Porto, penetrando em Castella, para ajudar o sogro na sonhada conquista do throno d’aquelle reino.

Fruindo fortuna vária, mas sempre com arreganho, essa pequena hoste, ainda rutilante da glória alcançada em Aljubarrota, Atoleiros e Valverde, atravessou o rio de Maçãs, entrando em terra inimiga.

Iam os dois condestáveis – Nun’Alvares, o de Portugal – e João de Hollanda, (irmão do rei de Inglaterra) condestável do duque de Lancastre.

Na vanguarda caminhava o Prior do Hospital, D. Álvaro Gonçalves Camello, emquanto que n’uma das alas montava soberbo Martim Vasques da Cunha, que Mem Rodrigues na sua linguagem imaginadora dizia «ser tão bom como D. Galaaz» o cavalleiro da Tavola Redonda. Acompanhava-o a gente do mestrado de Christo, que levava em vez de bandeira, um grande «prumão» ou pennacho de plumas, n’uma lança de armas.

Na outra ala luzia com garbo Ruy Mendes de Vasconcellos, sempre ardido e desenvolto no acometer; Gonçalo Vasques Coutinho, «tão bom como D. Tristão», e outros mais. Era na própria consciência do bando heróico, uma corte d’esse novo – Rei Arthur, Flor de Lys – D. João I de Portugal.

Seguindo em imaginação a marcha da hoste na sua tarefa affanosa de ataque, de conquista e de rapina, assistimos maravilhados á rude e enérgica actividade d’este rei de 30 annos, ao mesmo tempo severo e lhano, audaz e cauteloso, promto, e cruel até era a reprimir, mas generoso no premiar, inexorável com os deliquentes mas afável, familiar e bom camarada com os companheiros de armas.

Verdadeiro chefe, sabia mandar.

Perfeito Rei, na missão paterna, era o protector do seu povo.

E elle lá vae montado galhardamente, vestindo com elegância, o loudel de panno de sirgo branco com a cruz de S. Jorge, incitando uns, gracejando com outros, e discutindo com Nun’Alvares a procedência na vanguarda, que este não queria ceder ao Duque de Lancastre…

Atacaram Benavente, tomaram Roales e Valdeiras, e cercaram Villa Lobos, havendo aqui e além escaramuças, e correndo-se pontas, sempre com brilho e lustre para a gente portugueza.

Desafiavam às vezes os inimigos a combates singulares: agora um creado do Condestável, Álvaro Gomes, que «sem fraldão e bem desenvolto» deu em terra com um castelhano seu contendor; logo Mamborni pelos portuguezes e o francez Ruc pelos castelhanos; aquelle levando o bacinete sem cara, este com dois calmaes e um gorjal, o que não lhe evitou ser posto fora da sella, tombando limpo no chão. Mais depois é a façanha de Ruy Mendes que, sahindo da sua tenda sem armadura, e apenas com o escudo no braço e lança na mão, dá caça aos castelhanos fazendo-os mergulhar nas águas turvas da cava. Essa imprudência valeu-lhe uma reprehensão do Rei, ao qual bem humorado e em tom de graça, o valente responde:

- «A la fé! Eu sou Rodrigo, tão bem las faço, como las digo.»

E logo adeante dá-se a escaramuça, junto a Castro Verde, d’este mesmo Ruy Mendes de Vasconcellos, que foi attingido perto do hombro por um virotão, que o feriu.

A scena é descripta tão pittorescamente pelo velho Fernão Lopes, que, para não lhe tirar o sabor, a copiamos tal como ella apparece na chronica:

«E como veiu à tenda e foi desarmado disse a aquelles que eram presentes:

- «Por certo eu sou ferido d’herva.»

E os outros dizendo que não, elle aprofiando que sim, foram-n’o dizer a El-Rei, ao qual pezou muito d’esto, e veiu logo alli por lhe tirar tal imaginação esforçando-o que não era nada, respondeu elle e disse:

- «Senhor, eu ouvi sempre dizer que aquelle que ferem com herva, que lhe formeguejam os beiços, e a mim parece que quantas formigas no mundo ha, que todas as tenho em elles.

- «Pois assim é, disse El-Rei, bebei logo da ourina, que é mui proveitosa para esto.»

Elle disse que não beberia por cousa que fosse; El-Rei afincando-o todavia, e elle dizendo que não, como mavioso senhor, com desejo de sua saúde, por lhe mostrar que não houvesse nojo, gostou da ourina e disse contra elle:

- «E como não bebereis vós do que eu bebo?»

Elle não o quiz fazer por quanto lhe dizer poderam.

El-Rei vinha-o ver cada dia duas e três vezes, e ao terceiro dia estando com elle falando, dizendo-lhe muitas razões de esforço, elle disse contra El-Rei:

- «Senhor, eu vos tenho em grande mercê vossas palavras e visitação, mas entendo que em mim não ha senão morte…»

El-Rei como ouviu isto, voltou as costas e sahiu da tenda com os olhos nadando em lágrimas… e logo esse dia fez seu acabamento, de cuja morte El-Rei e o Duque e todos os do arraial tomaram grande nojo e tristeza…»

Poderá a nota naturalista da anedota, no que se refere à pharmacopêa medieval, provocar um sorriso de leve enjoo a alguma leitora menos affeita à prática das rudes tisanas emborcadas por nossos avós.

Mas ninguém se furtará a uma enternecida admiração, sentindo a grandeza da scena.

Na barraca de campanha armada em terra inimiga jazia o bravo batalhador moribundo, padecendo horrores, com os tormentos causados pela lança que os tóxicos violentos do strophantus ou da digitallis, haviam envenenado, e conhecendo estoicamente os symptomas precursores da morte.

Junto ao catre improvisado, e de entre os companheiros de armas, destacava-se D. João I, camarada nas pelejas e nos triunfos, com as lágrimas bailando-lhe nos olhos, inquieto, ansioso, comovido a ponto de não hesitar na prova do repugnante medicamento, que preconizava como infalível.

Elle às vezes tão duro, que fazia lembrar seu justiceiro pae, n’aquelle lance deixava humanamente revelarem-se requintes de sensibilidade.

 

(continua)

 


publicado por melgaçodomonteàribeira às 09:45
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