Sábado, 22 de Abril de 2017

UMA IDA À VILA II

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coriscadas - castro laboreiro

 

(continuação)

 

Despiu o casaco claro e, sempre ao lado da mãe, ia descobrindo Melgaço. Sentia-se abafado. A roupa vestida era quente. Os rapazes da Vila andavam vestidos de calções, e em camisa de meia manga, enquanto ele trazia calças de pana e uma camisa de manga comprida.

Nas lojas onde entravam havia sempre muita gente e tinham de esperar para serem atendidas. Antes de a mãe e as vizinhas comprarem qualquer coisa havia muita conversa e tinha a sensação incomodativa de estar sob constante observação das pessoas. Na rua fazia um calor de abrasar e mesmo à sombra transpirava. Estava sequioso mas aquela água de Melgaço parecia caldo e quanto mais bebia mais sede tinha. Já enfastiado disse à mãe para o deixar num banco cá fora, enquanto fazia o resto das compras. Passado algum tempo levantou-se do banco e pôs-se a admirar a torre do Castelo mesmo ali à sua frente, igualzinha à desenhada no livro da escola. Pensou como seria bonito o Castelo de Castro, naquele monte tão alto, se tivesse uma torre daquelas.

Estava na praça central da Vila e resolveu espreitar a montra da loja da frente onde estavam expostos vários relógios e artigos em ouro. Ao lado ficava a Escola Primária e através dos vidros viu algumas crianças da sua idade sentadas nas carteiras, enquanto o professor, de fato e gravata, escrevia números no quadro preto.

Finalmente apareceram todas para irem comer, mas antes a mãe tinha de cambiar uns francos enviados pelo pai, por um conhecido. Para isso tinha de passar na Loja Nova, junto à estrada de Castro Laboreiro.

Sentaram-se num banco corrido de madeira, frente a uma mesa tosca, debaixo de uma latada com uma fonte de água fresca, onde finalmente conseguiu dominar a sede. Como era a hora de calor resolveram aproveitar a fresquidão para fazerem uma sesta até porque dali a uma horas teriam de meter os pés a caminho, e agora era sempre a subir.

Terminado o descanso foram buscar os retratos e o resto das compras e albardaram a mula. Às cinco da tarde, ainda com muito calor, iniciaram o regresso.

Passada a primeira hora já estava todo derreado, embora não se queixasse.

Pararam num sítio com uma fonte para descansarem um pouco e beberem. A mãe notou o cansaço do filho e disse à vizinha para arranjar um espaço em cima da mula, onde, enrolado num cobertor colocado dentro de um berço de vime, fora instalada a criança. Conseguiu ajeitar-se em cima da albarda e retomaram a marcha.

Inicialmente, achou interessante a passagem debaixo das latadas, quando atravessaram os lugares, mas o andar desengonçado da mula, tentando escolher o melhor sítio para colocar as patas, e o constante roçar da cabeça pelas silvas e ramos atravessados no caminho acima da altura do animal depressa o convenceram ser preferível ir a pé. Assim, passada uma hora daquele bambolear permanente, e de alguns arranhões, pediu à mãe para o ajudar a descer. A parte mais íngreme do caminho também já estava percorrida. Seguia-se uma tirada por um carreiro rodeado de mato de pequena inclinação, finda a qual iriam merendar porque faltava menos de metade do caminho.

A partir de Alcobaça foi tomado pelo cansaço provocando-lhe uma senolência na qual as pernas pareciam movimentar-se sem dar por isso. Só com uma sacudidela provocada pelo tropeçar numa pedra solta ou pelo colocar do pé nalgum buraco do leito inacabado da estrada, voltava à realidade. Finalmente, com o sol a esconder-se atrás da Fraga da Franqueira, alcançaram Portelinha onde pararam. O ar fresco do fim da tarde, o cheiro da erva e o badalar dos chocalhos das vacas a recolherem ao eido, fê-lo despertar.

Daí até às Coriscadas foi revivendo o dia. No caminho para Melgaço vira coisas novas e fê-lo quase sem dar por isso. Na Vila tinha gostado do Castelo e de algumas lojas com muitas novidades para ele. Melgaço era muito quente e abafado e as pessoas pareceram-lhe desconfiadas, mas agora podia responder aos outros rapazes quando falavam com vaidade por conhecerem a Vila. Além disso vira as videiras em latadas e o Rio Minho, ao longe.

 

O PEGUREIRO E O LOBO

Estórias de Castro Laboreiro

MANUEL DOMINGUES

Edição Núcleo de Estudos e Pesquisa dos Montes Laboreiro

2005

pp. 69-75


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Sábado, 8 de Abril de 2017

ORDEM DE MALTA EM LAMAS DE MOURO

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 D. FREI DIOGO DE MELO PEREIRA

 

Frei Diogo de Melo Pereiro terá nascido entre 1609 e 1613, provavelmente em Bretiandos, Ponte de Lima. Foi o segundo dos 11 filhos de Fernão da Silva Pereira, 3º administrador do 1º morgadio de Bretiandos, com toda a sua Casa e Padroados anexos, e de sua mulher D. Leonor de Melo.

Recebeu o feudo de Moço Fidalgo da Casa Real (alvará de 20 de Março de 1621) juntamente com seus irmãos Francisco, Lopo, António, Manuel, Fernão e Bernardo.

Em 10 de Fevereiro de 1625 ingressou na Ordem de Malta, onde teve as Comendas de Poiares, Moura Morte, Veade, Sernancelhe, Torres Vedras e Torres Novas.

Muito Novo ainda foi para a ilha de Malta, onde participou em diversas armadas contra os turcos e os berberes no Mediterrâneo. Na tomada aos Turcos da cidade de Santa Maura, foi ferido na mão direita, com um tiro de mosquete e depois disso, na escalada da muralha do castelo de Miripotamo foi novamente ferido, desta feita com uma setada na perna.

Quando se iniciou a Guerra da Restauração foi chamado para prestar serviço como Capitão-mor de Barcelos (carta de 29 de Maio de 1641, governando as Armas da Província, em conjunto com Manuel Teles de Meneses e o Coronel Viole de Athis. Em 1641 governava a praça de Lamas de Mouro na fronteira de Castro Laboreiro e em 1645 tomou Salvaterra da Galiza, que se manteve na mão dos portugueses até ao fim da guerra. Entre os diversos folhetos patrióticos que corriam impressos, enaltecendo as vitórias alcançadas e relatando as incursões sobre território inimigo, foram publicadas, a propósito da tomada de Salvaterra, a “Relaçãm da entrada que fizeram em Galliza os Governadores das armas da Província de entre Douro, & Minho o Mestre de Campo Violi de Athis, que por carta de sua Magestade exercita o cargo de Mestre de Campo General, & Manoel Telles de Menezes Governador do Castello de Vianna, & Frey Diogo de Mello Pereira Comendador de Moura Morta, & Veade da Religiaõ de Sam Joam de Malta, Capitam Mor de Barcellos”, e a “Relaçam do felice sucesso, que tiveram Fr. Dioguo de Mello Pereira de Bretiandos, Commendador de Moura Morta & Fr. Lopo Pereira de Lima, seu irmão Commendador de Barro da Ordem de Malta, a quem o General D. Gastão Coutinho encarregou do governo das armas, na entrada, que se fez em Galiza…”, uma e outra impressas em Lisboa, em 1641 e 1642.

(…)

 

In “Figuras Limianas”, Câmara Municipal de Ponte de Lima

 

Retirado de:

Ordem de Malta  


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Sábado, 19 de Novembro de 2016

MELGAÇO, JANEIRO 1827

 

 

18 a2 - rota cont s gregorio (9).JPGrota do contrabando . s. gregório

 

 

Rio de Janeiro                (sexta feira)                  5 de Janeiro de 1827

 

 O SPECTADOR BRASSILEIRO

  

JOURNAL POLITICO, LITERARIO, E COMMERCIAL.

                                         

N.º 2           Tout pour la Patrie

 

 

Valença. 10. Os hespanhoes acompanhados de alguns paisanos guerrilhas portuguezes nos atacarão a 6 do corrente, em S. Gregório, e Alcobaça, chegando até Melgaço, aonde entraram no dia 7: porem o commandante da linha retirou-se com as milicias que tinha para a ponte do Mouro, esperando-os ahi para os bater, mas forão tão cobardes, e ignorantes da arte da guerra que conservando-se todo o dia 7 em Melgaço não vierão fazer reconhecimento sôbre a ponte do Mouro, aonde se achavão as milícias.

As tropas que entrarão são as seguintes: 2 companhias do regimento de Navarra em força de 100 homens com suas cornetas, huma grande parte do regimento de milícias d’Orense, de que he commandante o celebre ladrão guerrilheiro D. Ignacio Pereira: alguns paizanos armados portuguezes, commandados por alguns transfugas officiaes portuguezes: varios padres e frades.

O general Moura governador de Valença e agora interino da provincia mandou logo 100 bayonetas commandados pelo major Queiroz. Depois mandou 40 homens de milicias de Villa do Conde e Vianna.

 

 

Retirado de: O Spectador Brassileiro

 

http://books.google.pt

 

EVA MARIA - 1º ANIVERSÁRIO

 

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Sábado, 29 de Outubro de 2016

BOTICAS E BOTICÁRIOS

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BOTICAS E BOTICÁRIOS NO DISTRITO DE VIANA DO CASTELO NO SÉCULO XIX

 

Alexandra Esteves

Docente da Universidade Católica Portuguesa

Investigadora do CITCEM-UM

 

 

Em 1840, no concelho de Melgaço, havia cinco farmacêuticos. Apenas dois exerciam funções na vila e os restantes nas freguesias de Cristóval, Paderne e Prado. Vinte anos mais tarde, em 1860, aquele número subsistia, mas três residiam em Cristóval, um em Prado e outro na sede do município. Dos cinco boticários a laborar no concelho três eram galegos, embora a sua formação tenha sido feita em Portugal, o que se explica pela proximidade geográfica com a província espanhola da Galiza. Nos anos seguintes, houve uma redução no número de boticas e, em 1890, restava, em todo o concelho, apenas um farmacêutico. Em contrapartida, tinha um elevado número de curandeiros, que, por razões óbvias, representavam um perigo para a saúde pública. Em 1860, segundo a relação apresentada pelo administrador do concelho de Melgaço, foram contabilizados onze charlatães, dispersos por várias freguesias, cinco deles naturais da Galiza e todos do sexo masculino. A situação era agravada pelo facto de o concelho não dispor de qualquer partido de medicina, contando apenas com um cirurgião, cinco boticários e um sangrador. Este quadro leva-nos a presumir que os cuidados de saúde estavam entregues a indivíduos sem habilitação adequada.

 

Ler mais: www.academia.edu


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Sábado, 22 de Outubro de 2016

ALCAIADARIAS DE MELGAÇO E CASTRO LABOREIRO

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Martim Vasques da Cunha, sr do morgado de Táboa, alcaide mor de Lamego (D. Fernando 1410), casado com Violante Lopes Pacheco. Pais de:

 

   Vasco Martins da Cunha, sr das villas de Pinheiro, Angeja, Bemposta e Alcaide mor de Melgaço e Castro Laboreiro nos reinados de D. Pedro I e D. Fernando; foi um dos que se nomearam conselheiros de D. João I e se achou na eleição deste Rei nas Cortes de Coimbra. Casado com Beatriz Lopes de Albergaria.

 

- História e Genealogia -

 

   «Vasco Martins da Cunha, o Velho, bisneto do lendário Martim Vasques da Cunha 7º senhor da honra do julgado da Tábua, 5º senhor da terra de Cunha, confirmado por D. Pedro I em 1357 que também lhe deu Angeja, Pinheiro, Pereira, Bemposta e Castanheira, assim como as alcaiadarias de Melgaço, Castro Laboreiro e Lisboa. Casou 2 vezes (D. Beatriz Lopes e Albergaria e D. Teresa de Albuquerque). 1º filho: Martim Vasques da Cunha, que passou a Castela (conde de Valência de Campos 1397);  2º filho: Estêvão. 3º filho: Vasco Martins da Cunha, o Moço, sobre quem caiu a sucessão, por ausência de Estêvão».

 

Retirado de:

 http://archiver.rootsweb.ancestry.com/th/read/PORTUGAL/2000-10/0973033366

 


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Sábado, 15 de Outubro de 2016

MELGAÇO EM GUERRA COM O IMPERADOR

troncoso1.jpgrio trancoso - desconheço a autoria da foto

 

LA PARADANTA EN LA GUERRA CONTRA NAPOLEÓN

 

 Por: Antonio Troncoso de Castro (1)

  

La Guerra de Independencia en el Sur de Galicia y Norte de Portugal, desde una perspectiva militar favoreció sensiblemente la organización del ejercito anglo-hispano-portugués que en sucesivas batallas consiguió la expulsión de los franceses de la Peninsula..................

En la acción de Vimieiro, la primera derrota de Junót, ya estan milicianos de Tuy y Monterrey y en la represalia de Soult ejecuta sobre el Pazo de Barreiro, desde el que escribo este recordatorio, los vecinos de Villar y Couto se refugiaron en Melgaço, que meses antes ya había declarado guerra al Emperador. Y así cuando el Consejo de Regencia concede la Cruz Supernumeraria de Carlos III a los abades de Villar-Couto y Valladares po el «sitio y reconquista de Vigo y Tuy» - como reza en la credencial – tanbién condecora a los oficiales portugueses don Juan Almeida y Sousa,  don Joaquín Pereira de Castro y don José Rodriguéz Gomez, por su ayuda en aquellos trágicos y a la vez gloriosos sucesos................

Mientras tanto las terras fronteirizas de Melgaço, y jurisdicciones de Alveos e Crecente, siguiendo órdenes de la ola Romana, acantonado en Lobeira y fugura injustamente silenciada tienen lugar cuatro decisiones..............

Fueron tan eficaces las acciones de las gentes de la Paradanta, Melgaço y Ribeiro, que un Cuerpo de Ejército, seguramente el más poderoso de la «grant armae» mandado por el mejor táctico de Europa,........ arribando a Orense con 2.000 bajas entre muertos y heridos.

Un capitulo muy importante de la historia militar de España en la Guerra de Independencia digno de recordarse con todos, los honores del sacrificio y heroísmo que promovió en esta tierra un troncoso de Sotomayor, que al igual que sus antepasados frente a los ingleses en Bayona y A Coruña y más tarde en la línea Peneda-Barxas, - de haí que dicho rio se identifique por los portugueses con el nombre de Trancoso, en el tratado de límites de 1881 – y seguido por el pueblo dio una léccion de patriotismo, cuyo ejemplo merece ser reconocido, así como los 64 muertos de estas parroquias en aquellos trágicos días.

 (1) Antonio Troncoso de Castro es sobrino tataranieto del Abad de Couto.

 

Tomado de el FARO DE VIGO.

Ler artigo completo em:

 

Revista de la Hermandad del Valle de los Caídos – nº 131 Noviembre de 2009

 

http://www.hermandaddelvalle.org/article.php?sid=5840

 

 


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Sábado, 8 de Outubro de 2016

O ASSASSINO TOMÁS DAS QUINGOSTAS

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UM CRIME EM MELGAÇO NO SÉCULO XIX

 

 

Fevereiro de 1828. D. Miguel, irmão de D. Pedro IV, assume a regência do reino e jura a Carta Constitucional. Em Março do mesmo ano dissolve o parlamento; em 3 de Maio convoca as Cortes. Estas, restauram o regime tradicionalista, isto é, proclamam D. Miguel rei absoluto.

Os liberais não gostaram; organizam a oposição. É a guerra civil! Acaba em 1834, depois da derrota dos miguelistas. O rei parte para Viena de Áustria e nunca mais põe os pés em território nacional.

Estávamos em plena guerra fratricida; por todo o país D. Miguel perseguia incansavelmente os liberais; estes defendiam-se como podiam e sabiam. D. Pedro, vendo que as coisas não se resolviam, abdica em 1831, a favor de seu filho, a coroa do Brasil e dirige-se a França e Inglaterra em busca de auxílio, a fim de reconquistar o trono português para sua filha D. Maria da Glória (mais tarde D. Maria II).

Melgaço vivia dias agitados. Tomás das Quingostas aterrorizava toda a gente. Ninguém sentia segura nem a vida, nem a fazenda. Com a sua temível quadrilha matava e roubava com o maior desplante. A lei era ele. Por onde passava, deixava rastos de sangue e amargura. Uma das suas vítimas mortais foi o jovem João Vicente. Rapaz pouco dado a bens materiais e a folguedos tencionava seguir, logo que as condições o permitissem, a carreira clerical. Só a sua mãe conhecia o segredo. Em 17 de Março de 1829 esta faz-lhe saber que tudo está pronto para ele poder assim concretizar seu sonho.

Enquanto não ingressa no Seminário vai tentando não se envolver em conflitos ideológicos ou bélicos. Ajuda na administração da Casa e de vez em quando visita as pesqueiras que a família possui no rio Minho, fiscalizando também a faina dos pescadores. Nesse tempo as lampreias, os sáveis e os salmões saíam em abundância. Era, sem dúvida, um bom ano.

João Vicente tinha a estima de toda a gente de Melgaço. A sua índole calma e generosa granjeava-lhe amizades e respeito. Parecia que a sua vida decorreria sempre assim: ajudando quem dele precisasse, materialmente ou com a sua palavra amiga e sábia.

No entanto, o seu destino já estava traçado. A morte estava próxima.

Naquela noite fatídica de 21 de Março de 1829, noite chuvosa, trilha o caminho que o leva ao rio. Parecia até um fantasma com a croça sobre o seu corpo miúdo. Não se via um palmo à frente do nariz, mas como ele conhecia bem o caminho não haveria qualquer problema. A croça não lhe serviria de muito com a chuva.

Chega perto das pesqueiras, ouve o barulho amigo das águas e com seus olhos habituados à escuridão, perscruta-as. As redes lá estão. Tudo em ordem.

Na tarde do mesmo dia um grupo de homens, à cabeça Tomás das Quingostas, combinava o assalto a uma aldeia galega. Tinham lá gente da mesma laia que com eles colaboravam e desse modo esperavam roubar o suficiente para uns longos dias. Depois de tudo combinado até ao pormenor, foram lentamente descendo o monte em direcção ao rio. Aguardariam ali o sinal e depois atravessariam na batela que estava escondida sob umas espessas ramagens. Esperaram, esperaram, e nada de sinal. Pensaram então que algo se tinha passado com os seus amigos galegos. Outro dia seria. Tomás disse aos seus homens que se dispersassem. Com ele ficaram Caetano Paulo e o Pitães. Virando-se para eles diz-lhes: - Não regressaremos de mãos vazias! Vamos às pesqueiras ver se tem peixe. Arranjaremos depois alguém que nos faça a ceia.

Conhecedores das margens do Minho, avançam afoitamente, sem cautelas especiais.

João apercebe-se do movimento e das vozes e pergunta: - Quem vem lá?!

O Tomás, astuto como uma raposa, responde-lhe: - Gente de bem e de paz!

O rapaz, confiante e contente por ter companhia, aproxima-se dele sem qualquer receio.

O monstro, logo que vislumbra a silhueta esguia aponta-lhe o «bacamarte» e dispara sem hesitar. Um segundo depois os restantes facínoras descarregam as suas armas num corpo cambaleante. Pum! Pum!

O som dos disparos ecoou ao longo do rio durante momentos; depois, um silêncio pesado ficou pairando no ar.

A besta aproximou-se do cadáver e com as suas botas de militar virou-o, confirmando assim a sua morte. Cruel, como abutre que era, disse aos outros: - Agora temos o caminho livre, vamos ao trabalho!

A justiça, depois de avisada, foi ao local do crime. Junto ao corpo perfurado pelas balas assassinas encontrava-se a croça toda ensanguentada.

Já neste século (XX), um poeta anónimo, escrevia estes versos acerca do Tomás das Quingostas:

 

                                     Homem de muitas matanças,

                                     na guerra civil andou;

                                     herói das extravagâncias

                                     vidas sem conta ceifou!

 

                                     Mais dum século decorreu

                                     sobre a morte do malvado;

                                     que, por ironia, morreu

                                     sob as balas dum soldado!

 

Fonte: Melgaço e as Lutas Civis

           1º volume

           Augusto César Esteves

pp. 87 – 92

 

Saudações amigas a todos os melgacenses.

 

                                                                             Joaquim A. Rocha

 

Publicado em: A Voz de Melgaço

 

Joaquim Rocha, historiador e investigador com vários livros sobre  Melgaço, edita o blog Melgaço, Minha Terra.

 


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Sábado, 30 de Julho de 2016

E A BANDA NÃO TOCOU...

 trio raiano

 

CORREIO DE MELGAÇO 208, 23/7/1916

 

«Fomos informados de que no dia 16 do corrente se deu um conflito na vila de Castro Laboreiro entre as praças da Guarda Fiscal e o povo daquela freguesia. Contam-nos que originou tal conflito o facto de pretender a Guarda Fiscal que a música, que era a de S. Gregório, fosse tocar à porta do quartel, com o que o povo não concordou. Por este motivo, o reitor, um pobre velho, não consentiu que a banda tocasse à porta do quartel o que, segundo nos informam, lhe deu em resultado receber do guarda Sousa, numa loja e em público, duas bofetadas. Dizem-nos também que nessa loja se encontrava o cabo Félix, comandante do posto, e outras praças, contra as quais o povo, vendo o seu reitor desfeiteado, se revoltou, havendo uma refrega entre ele e a Guarda Fiscal, tendo dela saído ferido o guarda Puga, que também nos dizem encontrar-se em tratamento no hospital militar de Valença. Foi apresentada queixa em juízo contra o reitor e o padre João Evangelista Rodrigues, como promotores da desordem, constando-nos também que participação idêntica vai ser apresentada no mesmo juízo contra os guardas Sousa e todos os guardas presentes. Além da queixa que nos dizem será mandada para juízo, outra seguirá por intermédio das autoridades competentes até ao Ministro das Finanças.»

 

 

Dicionário Enciclopédico de Melgaço II

Joaquim A. Rocha

Edição do autor

2010 

Joaquim A. Rocha, editor do blog  MELGAÇO, MINHA TERRA

 


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Sábado, 25 de Junho de 2016

MELGAÇO 2000

16 d2 - roteiro.jpg

 

 

Ao elaborar o “Roteiro de Melgaço 2000”, quisemos chamar a atenção dos nossos conterrâneos e dos visitantes interessados para a imensa riqueza do passado em tradição, cultura e história, usufruindo do presente com sabedoria e ajudando a projectar o futuro.

A Providência brindou-nos com dádivas extremamente generosas.

Temos as águas do Peso, agora com grande caudal, potencial de grande riqueza, se devidamente exploradas. Condições naturais para um turismo ímpar, variado e rico. Vai do Belo horrível das serranias pedregosas à poesia lírica e à beleza olímpica do rio Minho e seus afluentes, sem esquecer o valiosíssimo património histórico e arquitectónico.

Com estradas maravilhosas e o ar despoluído, o que não serão as férias e fins de semana, os passeios e merendas em Castro Laboreiro, Lamas de Mouro, nas casas alvinitentes da montanha, na Aveleira, etc., etc.

Os monumentos de que dispomos, Fiães, Paderne, Chaviães, a Orada, o espólio arqueológico, em especial o de Castro Laboreiro, os castros, a Cividade de Paderne, vilas e castelos, a parte medieval da sede do Concelho e de Castro Laboreiro, entre outros, os solares, com especial relevo para o do Fecho, o que aí vai de itinerários de cultura e diversão para naturais e visitantes.

E que dizer da caça e da pesca, agora em baixa, mas que podem voltar a ser o que já foram, desde que se tomem disposições e iniciativas muito a sério com vista a despertá-las do marasmo?

Há o Alvarinho e o Verde regional, este que os romanos já descobriram e transportavam ás costas dos escravos ou pelo rio Minho até à foz, embarcando-o em seguida para Roma. Aí era guardado nos baixos das casas sob a neve dos Apeninos e servido nos famosos banquetes da Cidade Eterna.

E há a culinária regional, à base de presunto e chouriços únicos, quando genuínos de Melgaço, de cabrito, carneiro, truta salmonídea, lampreia, salmão e sável.

Há enorme potencial para o turismo de lazer, como já o vêm demonstrando Melgaço Radical e Rafting Atlântico.

Os autores, naturais de Melgaço, procuram que este trabalho seja didáctico e formativo, pois não há liberdade sem cultura, nem verdadeira cultura sem liberdade.

 

Melgaço 2000 – Roteiro

Edição A Voz de Melgaço

2000

 


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Sábado, 21 de Maio de 2016

MELGAÇO DA PRÉ-HISTÓRIA AO SÉCULO XXI

11 d2 - pre-hist ao sec xxi.jpg

 

 J.Marques Rocha nasceu em Monção (Alto Minho) em 1941. Ali aprendeu as primeiras letras. Até 1962, trabalhou no escritório dum reputado advogado monçanense tomou o gosto pelos meandros do Direito. O serviço militar deu-lhe a conhecer terras (Porto, Espinho, Torres Novas, Estremoz, Aveiro e Lisboa), até que, em 1962, foi mobilizado para Angola. Lá ficou, ingressando, em 1966, no semanário «Jornal do Congo», em Carmona. O espírito de aventura levou-o para o «Rádio Clube de Benguela», mas por pouco tempo. Em 1967, entrou nos quadros de Benguela, do diário «A Província de Angola», mas logo abalou para Luanda.

Em 1975, farto de conflitos armados, bem mais graves do que os enfrentados em 1962, aceitou o convite do «Portugueses Rádio Clube», de Toronto (Canadá). Contudo, uma passagem, para rever amigos, pela cidade do Porto fê-lo desistir de refazer a vida longe de Portugal, e levou-o a integrar a equipa de jornalistas do diário «Comércio do Porto». Em 1977, ingressou na RTP, como subchefe da Redacção. Presentemente, continua a integrar a estrutura redactorial da RTP/Porto.

Entre 1988 e 1995, publicou quatro trabalhos monográficos da região do Minho – Monção, 1988; Valença, 1991; Melgaço, 1993 e Vila Nova de Cerveira em 1995.

 

 

MELGAÇO da pré-história ao século XXI

J. Marques Rocha 

2001

 


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