Quinta-feira, 7 de Março de 2013

SOMOS EMIGRANTES, SIM SENHOR

 

Homenagem ao emigrante - Fiães

 

 

  ESTE TEXTO TEM POR BASE DADOS DOS INSTITUTOS DO GOVERNO PORTUGÊS. MELGAÇO É O CONCELHO COM MENOR NÚMERO DE INSCRITOS EM CENTRO DE EMPREGO. É VERDADE, SIM SENHOR; E DESDE CAMÕES FOI POETICAMENTE ESCRITA A NOSSA BOA SORTE.

 

 

"A QUE NOVOS DESASTRES DETERMINAS

DE LEVAR ESTES REINOS E ESTA GENTE

QUE PERIGOS, QUE MORTE LHES DESTINAS

DEBAIXO DALGUM NOME PREMINENTE!

QUE PROMESSAS DE REINOS E DE MINAS

D’OURO, QUE LHE FARÁS TAM FACILMENTE ?

QUE FAMAS LHE PROMETERÁS? QUE HISTÓRIAS ?

QUE TRIUNFOS? QUE PALMAS? QUE VITÓRIAS ?"

 

CAMÕES

 

                                 

"NÃO ME TEMO DE CASTELA

DONDE INDA GUERRA NÃO SOA;

MAS TEMO-ME DE LISBOA,

QUE, AO CHEIRO DESTA CANELA,

O REINO NOS DESPOVOA"

 

SÁ DE MIRANDA

 

 

"VEMOS NO REINO METER

TANTOS ESCRAVOS CRESCER

E IREM-SE OS NATURAIS

QUE, SE ASSIM FOR SERÃO MAIS

ELES QUE NÓS A MEU VER"

 

GARCIA DE RESENDE

 

 

OLHAI, OLHAI, VÃO EM MANADAS

OS EMIGRANTES …

UIVOS DE DÓ PELAS ESTRADAS.

JUNTO DO CAIS, NAS AMURADAS

DAS NAUS DISTANTES …

VELHINHAS, NOIVAS E CRIANÇAS,

SENHOR! SENHOR!

AO VOAR DAS ULTIMAS ESP’RANÇAS

CRISPAM AS MIOS, MORDENDO AS TRANÇAS,

LOUCAS DE DOR!

LÁ VÃO LEVADOS, VÃO LEVADOS

PELO ALTO MAR

…………………………………………….

VOLTARÃO, QUANDO, MAR PROFUNDO ?

JAMAIS! JAMAIS!

 

GUERRA JUNQUEIRO

 

 

"HOMENS QUE TRABALHAIS NA MINHA ALDEIA,

COMO AS ÁRVORES, VÓS SOIS A NATUREZA.

E SE VOS FALTA, UM DIA, O CALDO PARA A CEIA

E TENDES DE EMIGRAR,

TRONCOS DESARREIGADOS PELO VENTO,

LEVAIS TERRA PEGADA AO CORAÇÃO.

E PARTIS A CHORAR.

QUE SOFRIMENTO,

Ó PÁTRIA, VER CRESCER A TUA SOLIDÃO!"

 

T. PASCOAIS

 

 

"…VI MINHA PÁTRIA DERRAMADA

NA GARE DE AUSTERLITZ. ERAM CESTOS

E CESTOS PELO CHÃO.

PEDAÇOS DO MEU PAÍS.

RESTOS.

BRAÇOS.

MINHA PÁTRIA SEM NADA

SEM NADA

DESPEJADA NAS RUAS DE PARIS.

E O TRIGO ?

E O MAR ?"

 

M. ALEGRE

 

 

AI, HÁ QUANTOS ANOS PARTI CHORANDO

DESTE MEU SAUDOSO, CARINHOSO LAR!...

FOI HÁ VINTE ? … HÁ TRINTA ?... NEM EU SEI QUANDO!...

MINHA VELHA AMA, QUE ME ESTÁS FITANDO,

CANTA-ME CANTIGAS PARA EU ME LEMBRAR!...

 

DEI A VOLTA AO MUNDO, DEI A VOLTA À VIDA…

SÓ ACHEI ENGANOS, DECEPÇÕES, PESAR…

OH! A INGÉNUA ALMA TÃO DESILUDIDA!...

MINHA VELHA AMA, COM A VOZ DORIDA,

CANTA-ME CANTIGAS DE ME ADORMENTAR!...

 

GUERRA JUNQUEIRO

 

 

   ESTE TEXTO FOI RETIRADO DE BIBLIOTECA DIGITAL CAMÕES, INSTITUTO DE CULTURA E LINGUA PORTUGUESA. É DA AUTORIA DE JORGE CARVALHO ARROTEIA. DENOMINADO: A EMIGRAÇÃO PORTUGUESA – SUAS ORIGENS E DISTRIBUIÇÃO.

   UMA HOMENAGEM A TODOS NÓS QUE DEIXAMOS A NOSSA TERRA.

    A TODOS OS MELGACENSES EM FRANÇA, SUIÇA, ANDORRA, GALIZA, ESPANHA, CANADÁ, EUA, BRASIL…

 


publicado por melgaçodomonteàribeira às 23:33
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SOFRIMENTOS INSENSATOS XXIV

 

 

Não tivera coragem para levantar os olhos da lareira e enfrentar o olhar cordial, mas circunspecto da avó que não ficara nada satisfeita com a resposta. Gostaria tanto de ter a coragem necessária para lhe contar a pena funesta que se apoderara dele, o envenenava e o impelia a destruir-se. Era um jovem e, portanto, naquele momento, parecia mais velho do que a avó que tinha cinco vezes a sua idade. É bem verdade que a pior velhice é a do estado de espírito, que corroi, que se alimenta de desgostos e que definha as pessoas brutalmente. Tinha de sair, de respirar. Não queria aviltar o contentamento, a felicidade que a notícia da vinda do pai tinha prodigado à sua avó. Levantou-se delicadamente, baixou-se diante dela e agarrou-lhe nas mãos cadavéricas que acarinhou.

— Abó, nom faça caso de mim qu’eu ando aborrecido, mas isto nom ê nada. Ô que quero ê que bocê esteja contente por ô meu pai enfim bir. Bou ir prô quinteiro rachar lenha, que me bai fazer bem.

Sentiu um desdém aflitivo por si. Que coisa estranha ! Havia muito que se prometera honestidade, confiança e harmonia assíduas entre as palavras, os actos e a sua pessoa, que jurara nunca mascarar os seus pensamentos e eis que, fortuitamente, se pusera a seguir as pegadas da mentira, a glorificar a hipocrisia, a erigir sebes de sorrisos e a forçar os olhos e os lábios a exibirem uma felicidade inexistente. A verdade fazia-o corar e exasperava-o. Tinha vergonha de se ter deixado subjugar pelos sentimentos.

O Fedelho seguiu-o até à porta das cortes e sentou-se ao lado. O Armindo foi trazendo toros de pinheiro e de carvalho até constituir um elevado monte. Depois, cuspiu nas mãos e, com o machado que era minuciosamente amolado pelo Salvador, foi rachando, fazendo com um toro quatro boas achas. A energia colossal que dele exalava atirava com as achas às viravoltas a uma distância considerável. Quando o machado rachava o toro, era na gente do lugar, nos pais da Lídia, no padre, na mãe, no pai, nos amigos, no velho pedinte, no destino... que ele pensava. Por causa deles, não pudera desenvolver aquela vitalidade admirável com a qual o seu coração se abraçara, se aninhara no da rapariga mais linda, mais angelical do lugar. Ele, aleijado, a risada dos apoucados, despertara sentimentos afectuosos, amorosos, numa moça que não tinha a menor dificuldade em encontrar alguém conveniente. E, isso, para ele, era a prova de que os sentimentos não precisam de olhos para se poderem revelar e ancorar. Só os que não têm sentimentos é que se guiam pelo olhar que, forçosamente, é falacioso e lhos desenvolve erroneamente.

Detestava esta gente toda como nunca pensara que fosse possível detestar alguém. Sentia-se roubado. Tinham-no desbulhado, despido da única coisa para a qual o seu infortúnio não era uma atrofia. Percebeu que a pouca dignidade e respeito que ele acreditava que lhe tinham deixado não eram mais do que um véu tão transparente e fino, que a mais derisória corrente de ar não tinha qualquer dificuldade em precipitar. Como no mundo animal, os mais vulneráveis são sempre os primeiros a cair. Já não tinha importância nenhuma para ele.

À medida que ia estilhaçando os toros, crescia nele a sensação de que, finalmente,  começava a saborear este sofrimento abjecto, consubstancial. Quanto mais aumentava o ódio monstruoso e a aversão que sentia por quem lhe tinha feito mal, por quem o tinha vilipendiado, mais o gozo e o sarcasmo o exaltavam, imaginando a cara assombrada que as velhas do lugar, meias beatas, meias pitonisas, afixariam. Já as ouvia bisbilhotar entre elas: “Eu bem bo-lo dezia qu’êl nom era mi correito.” Ou: “Aquêl rapaz nom era obra de Deus, j’ó sabia.”

Transpirava por todos os poros, mas rachou os toros sem fazer uma pausa até acabar. Em seguida, depois de limpar o suor da testa com a manga da camisa, amontoou as achas dentro da corte, por cima de muitas outras. Depois, encheu a caneca de lata do vinho verde fresco e espumoso de que tanto gostava e que esvaziou em poucas goladas. Fez estalar a língua e ficou uns instantes a olhar para o tecto da corte. O Fedelho, deitado sobre as patas dianteiras, seguira tudo o que o seu amigo fizera e, durante o tempo todo, não tinha mexido, como se o instinto lhe permitisse farejar os funestos pensamentos que ferviam no espírito do rapaz. O sol tinha desaparecido e o dia, sem fazer barulho, ia penetrando fortemente no crepúsculo. Era quase noite quando subiu as escaleiras e fez a porta queixar-se mais uma vez.

XXV

Na manhã seguinte, a Palmira pôs-se a pé à hora habitual. Estava um pouco arreliada porque fora acordada de noite pelos uivos inabituais do Fedelho. Preparou as sopas de cevada com leite que comeu com calma e indiferença, a pensar, como sempre, nas tarefas ordinárias que a esperavam. Lavou a sua malga, o prato e a tigela que o Armindo deixara por cima da mesa naquela noite. Estava mesmo cansado, pensou, lembramdo-se dele, pois ficara a dormir. Deu uma olhadela na mãe que ressonava e fez chorar mais uma vez a porta da casa. O ar era fresco e um vento fraco, mas cortante, puxava, no céu, grandes núvens sujas, como que lavadas de tinta. Desceu as escaleiras pausadamente e dirigiu-se para o celeiro onde tinha as cordas e a foucinha. Deitou a mão à chave, mas constatou logo que a porta não tinha sido fechada à chave. Empurrou-a, mas não passou do limiar. Na ponta duma corda, pendia o corpo do Armindo, inerte. A seus pés, deitado, o Fedelho, que a fitava atentamente.

 

Epílogo

 

Deus ouviu as preces reiteradas da Delfina, consentindo-lhe abraçar, mais cedo do que ela pensava, o seu querido Belardo pela última vez e conduzindo-a, ataráxica e fortuitamente, durante uma soneca na sua deificada cadeira, para junto do seu “Bilinho”, algumas semanas mais tarde.

O Belardo, por sua vez, à vista dos nefastos acontecimentos, decidiu pôr ponto final às estadias fora da terra para se ocupar da esposa atrabiliária que, desde que o filho se suprimiu, deixou totalmente de falar, afastando-se ainda mais do homem e de todos.

A Áurea acabou por casar e, vista a indiferença com que era recebida pelos pais asténicos, acabou por  espaçar gradualmente as vindas a Orjás.

Quanto à Lídia, ficou solteira e a sua mãe acabou por expirar. O pai substitui-a na cama pouco tempo depois. Era vista frequentemente no caminho do moinho do “tio” Júlio, sentada no muro, por debaixo do velho carvalho, onde estivera sentada pela última vez com o Armindo. Falava animadamente com um interlocutor invisível, dando esporadicamente extravagantes gargalhadas, seguidas de estranhos e prolongados prantos convulsivos. Incontestavelmente, não se tinha acomodado da morte do rapaz. Diziam que tinha “virado da cabeça”.

 

Dedicado aos meus amigos do Monte.

 

Julho de 2010.

 

António El Cambório.

 


publicado por melgaçodomonteàribeira às 22:24
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SOFRIMENTOS INSENSATOS XXIII

 

 

Não fazia mal. Mostrar-lhes-ia o desdém, a irreverência que tinha por estas pessoas maldosas, diabólicas, luciferianas. Lembrou-se do sermão do padre na missa do último domingo. Para quê ameaçar as pessoas com o Inferno, se elas já são infernais ? O próprio Diabo devia ter ciúmes desta gente !

O balido das cabras acabou por pôr fim ao seu devaneio. Tirou as mortalhas e o tabaco do bolso interior do casaco, velho pelo tempo e pelo uso, e enrolou um cigarro calmamente. Antes de o acender, chamou com meiguice pela Rabugenta que acorreu imediatamente. Sentou-a ao seu lado e, ao mesmo tempo que fumava, ia-lhe acariciando o lombo com ternura. Fazia-lhe bem. Pouco a pouco, a companhia do cabrito foi-o trazendo à realide, placidamente.

XXIV

O Fedelho punha-se todos os dias à espera do Armindo e do gado diante do portão de ferro. Como todos os cães, pressentia a presença deles uns minutos antes destes entrarem por ele adentro. Sabia que não tardariam e quanto mais perto os sentia, com mais intensidade abanava o rabo.

Naquela casa, tudo estava ordenado, regulado. Todos sabiam o lugar que ocupavam, quais eram as suas tarefas e quando deviam ser feitas. Os dias repetiam-se há muito e cada vez se pareciam mais.

Depois de o rapaz abrir o portão e os animais terem entrado, o cão, abanando o toco, esfregou-se insistentemente contra ele. Dava a impressão que entrevia o desgosto que submergia o seu amigo, o seu companheiro, e queria confortá-lo. O Armindo fechou as portas das cortes e agarrou no Fedelho que levou no colo até ao cimo das escadas. Entrou e fechou a porta cujos gonzos não deixaram de pedir sebo mais uma vez. A avó estava sentada na sua cadeira, toda risonha, e a mãe, à mesa, virada para ela. Deu-lhe a impressão que tinha interrompido a conversa que, à primeira vista, devia ser cordial. Sem uma palavra, arrumou o pau ao lado da porta, o saco por cima do móvel e dependurou o casaco no pau. Cansado, puxou uma cadeira e sentou-se, a olhar para a avó, silencioso.

O seu espírito estava longe, divagava, confuso, perdido, no meio de um espesso nevoeiro. As fontes latejavam-lhe continuamente. Passou uma mão pela testa exsudada. Ficou-lhe ensopada e enxugou-a dissimuladamente na manga da camisa. A agitação desmedida provocou sempre nele um excesso de transpiração que o indispunha. Por momentos, instintivamente, continuava a pensar na Lídia e o sangue, ardente, ria no seu corpo. Fragmentos absurdos de frases da conversa que tivera com a rapariga não deixavam de lhe molestar o desvairado espírito. À primeira vista, o seu aspecto não revelava nada do ferimento secreto que o devorava, mas não estava suficientemente dissimulado para conseguir iludir o penetrante olhar e o acerado faro da avó.

— Estás cansado, é Mindo ? – perguntou-lhe a avó, não sem uma ponta de ironia.

A velhota percebera que o rapaz estava contrariado, mas, apesar da sua perspicácia, não podia imaginar a que ponto a exasperação o comia. Confuso, sorriu e, sem olhar para a avó, respondeu-lhe que sim. Revoltava-o não lhe poder dizer a verdade pois conhecia a sua extraordinária susceptibilidade e não queria vê-la atormentada.

A Palmira, que desde que o filho entrara não mexera nem dissera uma palavra, levantou-se e, com a calma crónica que a distinguia, dirigiu-se para os quartos.

Ficaram os dois, em silêncio. A avó observou-o calmamente uns segundos e, vendo que o rapaz, triste, não tirava os olhos do chão, disse-lhe no tom afável e adocicado como só ela sabia exteriorizar:

— Sabes, meu Mindinho, a tua mai recebeu hoje uma carta do teu pai qu’eu esperaba hai muito. Ai que saudades tenho del ! Que Deus no-lo traga passar ô Natal connosco a Orjás, meu filho. Passa tanto tempo sim bir à terra !

Voltou a esboçar um sorriso e, embora sem vontade, levantou o olhar do chão e fixou-o confusamente na avó, cujos olhos cintilantes de felicidade davam a impressão de querer saltar das órbitas ressequidas. Não se sentia nada bem. Levantou-se com incongruência e, depois de ver que restava um pouco de vinho na caneca, deitou-o numa tigela que esvaziou imediatamente. Se estivesse só, tinha dado uma boa golada na garrafa de aguardente que se encontrava no armário da sala. Precisava de um estímulo vigoroso.

Apareceu a mãe com a carta na mão e entregou-lha. A Palmira não fora à escola. O rapaz abriu-a meticulosamente com um canivete e leu-a em voz alta. As duas mulheres estavam inquietas, mas não era pelas mesmas razões. Quando leu a passagem em que o Belardo anunciava a sua chegada para o 21 do mês de dezembro a Delfina louvou o Senhor fazendo o sinal da cruz e a sua cara fendeu-se num enorme e aprazível sorriso de contentamento e alívio.

— Deus oubiu-me. Nom me quêr lebar antes de o ber pola última bez – comentou.

A cara da Palmira não manifestava qualquer alívio ou alegria. A novidade, aparentemente, não tinha excitado qualquer contentamento na mulher. Já nada exercia fosse o que fosse sobre ela. A ausência contínua do Belardo acabara por criar nela uma sensação de derrelicção que, por sua vez, a foi tornando indiferente, desmazelada a tudo e a todos com o decorrer dos anos. Ninguém partilhava com ela a mágoa que o aborrecimento lhe proporcionava. A solidão das pessoas dá cabo de tudo, amolece a terra e faz perder a alma aos seres. É a desgraça suprema. Eram tantas as dores e as lágrimas que a tinham afogado, que o amor, há muito neglijado, se extinguira e transformara em cinzas. Para ela, o marido não passava de um estranho que se vinha intrometer, por umas semanas, na sua vida rotineira, na parte mais íntima do seu corpo, mais por necessidade do que por amor e ao qual tinha que se abaixar. A sua presença era um estorvo, um obstáculo. Foram tantos os anos que passou sem ele que se alegrava de nada mais possuir em comum com este homem e de poder odiá-lo libremente. Sentia-se forte, pois já nada mais tinha para perder. Era tempo de cessar de pensar e de se acomodar, da maneira mais superficial, às circunstâncias.

A impertinência da missiva exprimiu-se através do silêncio glacial que se prolongou depois do termo da sua leitura. O Armindo estendeu a carta à mãe, baixou a cabeça, fincou o queixo no punho, sem manifestar nada de patente e ficou a olhar para a lareira, trepidando, como se estivesse avinhado. A Palmira agarrou na carta e dirigiu-se novamente para o quarto onde a tinha ido buscar. Apenas se ouvia o estalido da lenha no lume.

A pobre Delfina não deixou que lhe enlutassem o momento de grande alegria que não tinha há anos e que tanto desejava. A atitude da filha não a espantava absolutamente nada pois os acontecimentos sobrepunham-se num lapso de tempo demasiado curto. Os aborrecimentos ainda estavam fortemente vivos e a fobia que certamente se apoderara dela não ia ser fácil de evaquar tão depressa.

— Tu nom ficastes contente, Mindo. Ôs teus olhos estam tristes. Êl tu nom estás bem ? – perguntou ao neto.

— Fiquei, bó, mas estou cansado.

 

(continua)

 


publicado por melgaçodomonteàribeira às 22:03
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SOFRIMENTOS INSENSATOS XXII

 

 

A Lídia não pôde suportar mais tempo o silêncio inquietante do rapaz. Endireitou-se e, inconscientemente, levantou os braços como quem quer contorcer a fatalidade com as mãos. Uma pequena aragem fez mexer os ramos do velho carvalho, a cabeça da moça encheu-se de sombra e o seu coração duma claridade infinita e abrasadora. Então, disse-o, tinha que dizê-lo, era, talvez, a última oportunidade que tinha de fazê-lo: “Gosto de ti, Mindo.” A suavidade do timbre e a melodia da voz fizeram-lhe lembrar a avó que, quando ele ainda era criancinha, lábios colados ao seu ouvido, o acalentava  cantando com meiguice. O moço levantou a cabeça bruscamente e um delicioso sorriso de instantânea  felicidade e alegria apareceu-lhe no rosto. Parecia uma flor que, depois do orvalho nocturno, desabrocha ao sentir as carícias do sol matinal. A rapariga, os penedos, as árvores, tudo se confundiu nos seus olhos e, nesse instante, viu a beleza da Lídia como nunca a vira, como gostaria de continuar a vê-la. Os seus lábios tremeram de desejo mas, com um lento esforço, como se lhe pesasse, desviou o olhar dela. A sua beleza, a sua graça, tinham-lhe dado tantas emoções que só ele e os seus desejos secretos conheciam. Para quê dizer-lhe que  gostava, que sempre gostara e que continuaria a gostar dela, como se fosse única na Terra ? Para quê dizer-lhe que nunca conhecera coisa tão boa como a sua presença, que nunca sentira uma euforia tão entorpecedora, tão apaziguante e agradável como com ela ? Para quê dizer-lhe que, com ela, esquecia os males, as contrariedades, as feridas que o ulceravam e que se sentia tão feliz como nunca imaginara que fosse possível ? Já não tinha sentido nenhum. Em escassos minutos, tudo se desmoronara, tudo se desagregara. O sonho deixara lugar à realidade.

Mantiveram-se silenciosos e imóveis largos instantes. A pobre ignorância que os definia ampliou-lhes o medo e a tristeza que tinham de separar-se. Sentiam-se tão pobres e órfãos como se fossem viver para mundos separados e longínquos. Fez uma festa na mão da rapariga e disse-lhe:

— Minh’irmam dicho-me qu’a gente ê mi mala, é tem razom. Nunca lhes cheg’ó que tem. Atê àlegria dos outros lhes pêsa.

A Lídia pôs uma mão sobre o seu ombro e olhou para ele. Não falou. O rapaz percebeu que não eram estas as palavras que ela esperava mas não conseguiu exprimir o que sentia. Os suspiros dos dois perdiam-se no silêncio. Ele, que se tinha prometido resistir, desafiar e mesmo enfrentar os que sempre o quiseram vilipendiar e aviltar, sentia as esperanças, as forças, a solidez que o amor pela rapariga lhe tinha incutido, sujeitar-se ao peso da vantagem, da utilidade, como o pinheiro que se verga sob a energia do vento ou da chuva.

A moça levantava e deixava cair as mãos nos joelhos fazendo pequenos movimentos de impotência. Por momentos, dava-lhe a impressão que tinha ido embora, que se encontrava alhures, longe, e que não podia encontrar o caminho de regresso para se encontrar com ela própria. Por sua vez, amaldiçoou a gente do lugar. As más-línguas têm todas um determinado talento para acentuar as acções e as palavras que o ódio lhes sugere.

— Êl tu, aconteça ô qu’acontecer, nom t’esquêces de mim ? – inquiriu o Armindo, sem olhar para ela, percebendo que o destino lhe roubava o seu amor para sempre.

Os olhos da moça embriagaram-se de um ardor, de uma radiância ofuscante. A floresta parecia que gemia com eles, duma maneira viva, cúmplice. Inclinou o corpo para trás, graciosamente, provocante. No seu movimento, nas suas palavras, notava-se a magnífica selvajaria do monte, do adejo que serve de apelo às parelhas de pássaros na floresta.

— Nunca, Mindo, nunca – repetiu-lhe – Todo los dias me lembrarei de ti é pedirei a Deus que t’abençoi é te deia um bô destino. É tamém ficamos amigos p’ra sempre, nom, Mindo ?

O rapaz pareceu apaziguado. Não contava com mais nada da vida. A moça, que esperava uma resposta, notou um princípio de cólera rebelde sufocá-la, como se tivesse sido insultada mas, ao voltar a ver o seu ar prostrado, entristecido, depressa se controlou. Apavorada, estendeu-lhe a mão, que transpirava, e que ele agarrou imediatamente.  Lembrou-se da noite que sonhara que a Lídia era sua irmã e vivia na sua casa... Talvez fosse o augúrio de que nunca seria sua mulher nem nunca lá entraria. Suspirou e apertou a mão da moça com tanta força que quase a fez soltar un gemido.

— Agôra que t’estab’à conhecer é que bira qu’êras a moça da minha bida, nom quero saber ô que seri’à minha bida sim ti.

Falou brevemente, tinha medo de dizer demais com poucas palavras. A moça não percebeu o fim da frase. Não tinha dúvidas de que a rapariga gostava muito dele, mas não lhe podia ser grato. Intimamente, fazia esforços vãos, mas o seu coração e a sua alma, gelados, só o deixavam pensar nele, na sua vida, no seu fim. Será verdade que a natureza humana repudia, como um sonho de criança, o amor sincero ? Será verdade que o amor se alimenta de angústias e de tormentos e que a seiva generosa e fecunda do seu caule seca com a tortura do destino, da inveja ?

— Boltarás a bir berme ? – perguntou subitamente o rapaz.

O pedido ficou sem resposta. Arrependeu-se imediatamente, sabia que tal coisa não tinha sentido.

A moça retirou a mão da dele e, decidida, saltou do muro.

— Tenho que m’ir embora, Mindo.

Na cabeça do rapaz, aquelas palavras entoaram como a saída da procissão. Nos seus olhos não havia lugar para mais sofrimento. O seu coração batia, dizendo-lhe que não  podia esquecer-se dos momentos da mais sã felicidade, da mais cristalina alegria que o tinham feito palpitar como nunca até ali. Bruscamente, sentiu-se miserável, humilhado, tal uma criatura selvagem dos montes, apanhada numa armadilha. Lentamente, deixou-se caír do muro e olhou para ela uns seguntos. Abatido, confuso, nunca pensara que houvesse coisas que o pudessem fazer sofrer ainda mais do que o que até ali tinha sofrido. Cegamente, inclinou-se, deitou as mãos à cintura da moça e apertou-a contra o seu peito desesperadamente. Queria fazê-la penetrar na sua carne, apoderar-se dela para sempre. A rapariga colou-se a ele e deitou-lhe os braços à volta do pescoço, como uma planta silvestre sedenta. Encravou a testa em fogo contra o peito do rapaz, apertou-o, abafou-o. No seu desejo obscuro, inflamado, procurava deixar de existir, fazer só um com ele, correr no seu corpo, no seu sangue, através das suas veias. Queria transfundir-se nele. A emoção tornava-lhe a respiração ofegante, difícil. Assim ficaram, imóveis, durante uns curtos instantes até que a rapariga, lentamente, o afastou dela e se deitou a correr pelo caminho fora, em direcção do lugar, sem olhar para trás.

O Armindo, braços pendentes, encurvado, de cabeça baixa, olhava para a curva do caminho onde vira, talvez pela última vez, desaparecer a Lídia. Estava desorientado, acabado, desamparado, renegado. Quando pensava ter encontrado uma razão, um estímulo para viver, para ser considerado normal, como os outros, quando pensava ter encontrado um paliativo para os tormentos crónicos que havia tanto o martirizavam, o cansavam, é quando o privam, o destituem da sua dignidade de ser humano ! Estava mais só do que nunca.

Foi então que a sua vontade, inconscientemente, agindo sem ele dar por ela, tomou uma resolução que o encheu de uma calma espantosa. As coisas correriam como deviam correr, pelo caminho que o destino escolhera, nem mais nem menos. E ele não podia, não tinha vontade, não tinha forças para se opor. Já não era dono de si. Deixava-se dirigir, como um rio que se vai adaptando ao declive, à escarpa. Subiu a encosta e foi sentar-se encostado ao eucalípto, de olhos fechados. Não sentia absolutamente nada. Estava completamente vazio, sem vontade, sem pena, sem inveja, sem tudo. Não tinha valor algum, não tinha qualquer utilidade, tinha menos valor do que uma cabra. Estava nu, como quando nascera.

 

(continua)

 


publicado por melgaçodomonteàribeira às 21:59
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SOFRIMENTOS INSENSATOS XXI

 

 

Às tardes, o Armindo sentava-se no muro e não cessava de olhar para a curva do caminho, esperando, a todo instante, ver despontar a Lídia com um saco às costas. Nessa tarde, o sol iluminava frouxamente o caminho por debaixo do carvalho e o rapaz, encostado ao eucalipto, acabava de fumar o segundo cigarro do dia.

O seu olhar, perdido para lá dos lindos e verdejantes vales que dali podia contemplar, viu súbitamente emergir qualquer coisa no caminho. Era a Lídia. Não trazia saco nenhum às costas. Tinha vindo de propósito para o ver, concluiu, satisfeito. Era a primeira vez. Levantou-se com prontidão e foi ter com ela ao caminho. Ficou desapontado ao distinguir no seu rosto crispado um olhar receoso. A rapariga desviou o olhar e fixou-o no chão. Evitava o do Armindo como se quisesse esconder qualquer coisa de vergonhoso nos seus próprios olhos. Nunca a tinha visto como naquele instante. A sua cara parecia estranhamente magra à sombra do carvalho.

— Êl tu que tês, Lídia ? Nom estás bem ? – inquiriu o rapaz preocupado.

Como resposta, foi sentar-se no muro, abanando a cabeça com tristeza e balançando as pernas, sem uma palavra. Pôs-se a brincar, ingenuamente, com as mãos no regaço. Alguma coisa a oprimia, lhe blocava as palavras no seu interior. O rapaz, cada vez mais inquieto, ficou de pé, imóvel, à espera. Não compreendia a razão do silêncio da moça. A sua hesitação, o seu combate interior, atormentavam-no, como todas as outras coisas que não percebia. Por fim, os seus olhares acabaram por encontrar-se e as nuvens húmidas que se tinham formado nos olhos da rapariga deixaram escapar fios de lágrimas. Chorou, chorou em silêncio. O coração do moço encheu-se da tristeza, do grande sofrimento que sentem as árvores, os animais, as pedras, tudo o que na terra não pode falar. Aproximou-se dela, agarrou-lhe na delicada cabeça com as duas mãos e apertou-a ansiosamente contra o seu robusto peito. Durante aqueles silenciosos segundos de terno enlace, perceberam que estavam tão bem juntos, que precisavam um do outro... Lentamente, separou-se dele e, quase que involuntariamente, começou a falar. Primeiro, balbuciando, depois, nervosamente, num tom acusador.

— Alguém dicho ô meu pai qu’andábamos juntos. Nom nos podêmos ber mais.

E calou-se. O rapaz, como se não tivesse ouvido, parecia olhar para as manchas de sombra que o sol fazia por debaixo da árvorea. Subitamente, disse:

— É quê ? Ê pecado ?

Falara instintivamente. Não falara com os lábios, mas com a alma. Não sabia que os corações, por muito indulgentes que fossem, nada podiam contra uma inveja acérrima. O seu olhar tornou-se, repentinamente, profundo e inapreensível. Dava a impressão que já sabia o que ia ouvir em seguida. Sentou-se ao lado dela.

A moça suspirou profundamente. Dardou uns instantes os olhos no rapaz, lutando desesperadamente para ficar muda. Na solidão da floresta, apenas se ouvia a sua respiração ofegante. Gostaria tanto de lhe dizer coisas que não o magoassem... Não podia perceber o que se tinha passado, a maldade das pessoas e, portanto, mal se admirava. Havia muito que estava habituada ao imprevisto. Tudo era tão incompreensível : as pessoas, a vida...

— Quêrem que me case com alguém que ganhe dinheiro é que nos tire da misêria p’ra qu’eu poida ocupar-me deles. Bem sabes qu’a minha mai está mi mal é ô meu pai p’ra lá bai.

As palavras pareciam vir de longe, como num sonho. Era pior do que a inveja. Era a submissão, o escalão mais baixo da dignidade humana. Inconscientemente, odiou o pai da rapariga. Odiou a gente toda do lugar. Odiou-se a ele. Sentiu uma moleza no corpo como nunca tinha conhecido até ali e, sem se aperceber, as lágrimas cairam-lhe pelos cantos do nariz. Já tinha sofrido muitas baixezas, muitas vexações, mas sentia que aquele momento era uma viragem determinante na sua consternadora vida. Sentia-se de novo sozinho no mundo e ainda mais desprezado. O seu coração batia tanto que parecia querer saltar-lhe para fora do peito. Cego pela dor que as crueis palavras lhe provocavam, apeteceu-lhe fugir através da floresta e gritar o seu desespero, a sua consternação, até vomitar as entranhas.

A rapariga inclinou a cabeça e lançou-lhe um rápido olhar. O sangue gelou-se-lhe nas veias. O Armindo estava pálido, os seus olhos, encharcados. Fechou os dela para afastar a assustadora visão. Sentia-se culpada por ele estar a sofrer tanto. Sem saber porquê, invadiu-a um medo feroz pelo que ele pudesse fazer. Dava-lhe a impressão que estava à beira de um abismo e que as profundezas da escuridão a puxavam para o fundo do precipício. As lágrimas escorreram-lhe novamente pelo rosto. Agarrou-lhe na mão com meiguice e apertou-a carinhosamente entre as suas, ao mesmo tempo que encostava a cara à dele. O rapaz atraiu pela segunda vez a cabeça da moça contra o seu peito para não a ver chorar e pôs-se a acariciá-la como a um pequeno cabrito doente que ele quisesse aliviar, adormecer. Não tinha dúvidas de que a Lídia gostava dele. Choraram em silêncio. Estavam sozinhos no mundo, contra toda a gente, pois todos eram seus inimigos.

— Eu nom posso fazer doutro modo, Mindo – começou, baixinho, encostada ao seu peito – Sabe-lo bem que tenho qu’obedecer ôs meus pais. Eles quêrem ô meu bem é nom sabem ô qu’ê gostar d’alguém. Só em saber que bou ter que me casar c’um home de quem nom gosto nem conheço, nom me sinto bem, bem-me cousas estranhas à cabeça é tenho medo.

Os seus pais eram pessoas que, desgraçadamente, nunca souberam o que era agradar, fazer alguém feliz... nunca o tinham sido. Eram coisas estranhas para eles. O sofrimento era tanto que só se viam a eles, neles próprios. E este sentimento levava-os insensivelmente a escolher as coisas que lhes eram cómodas, primordiais, em detrimento das que podiam ser agradáveis à filha. E, no monte, aos pais, nunca se desobedecia, nem nunca se discutiam os seus desejos.

Falara suavemente como se aquilo fosse a sua sina, o seu destino, uma fatalidade implacável que queria evitar ao moço. Gostava tanto dele que o seu mais pequeno sofrimento era para ela um suplício intolerável. Por isso lhe escondera o que o pai verdadeiramente lhe tinha dito: “Êl tu nom bás casar c’um aleijado, ou biu-t’uma bruxa ?” Aquelas palavras fizeram-na estremecer e penetraram no mais profundo do seu ser. Pareciam raios que precedem um retumbante estrondo e desaparecem depois  nas profundezas da terra nas noites de grande trovoada.

O rapaz continuava a mimar-lhe a testa e os lindos cabelos com doçura. Dava a impressão que estava longe dali, que o que a rapariga dizia não o concernia. E, portanto, pensava nela. Pensava na rapariga que admirava e que amava, que encontrava, havia uns dias, periodicamente, às tardes, com quem sonhava há muito e que jamais poderia extirpar da cabeça, do pensamento. Imperceptivelmente, combatia para que a demência animalesca que o roía, a raiva, a repugnância, a revolta surda que, durante uns curtos dias, tinham estado discretamente calmas, não triunfassem e o voltassem a dominar. Felizes aqueles que dão um valor imponente a uma vida simples, aparentemente fútil, e que, pela sua felicidade, pela sua salvação e pela sua prosperidade, a consideram como uma obra gigantesca. Que grande bem faça a quem assim pode agir, a quem assim pensa. O Armindo sentiu uma coisa gelada percorrer-lhe a espinha. Sabia que nunca teria uma vida assim, simples, alegre, no meio dos montes da terra que o viu nascer, com a mulher de que gostava, na companhia das cabras, suas notórias e sinceras companheiras.

 

(continua)

 


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SOFRIMENTOS INSENSATOS XX

 

 

XXII

O Armindo entrou no quinteiro com o gado quando já o sol salpicava o horizonte de línguas de fogo alaranjadas. A noite, que no outono parece cair do céu de tal modo cai depressa, não tardaria em instalar-se. Nestes lugares isolados com hábitos regulados e simples, as pessoas reganham as casas a esta hora precoce pois as noites, cada vez mais longas, são feitas para dormir.

Fechou os animais e, satisfeito, subiu para a cozinha. O Fedelho não se mostrou, sinal de que a mãe não estava. Com efeito, a avó estava só, no seu singelo lugar. Conseguia fazer três coisa simultaneamente: rezar, tricotar e viajar nos seus pensamentos de então. Sorriu-lhe, dependurou o velho casaco e foi dar-lhe um beijo na testa, antes de pousar o saco com a garrafa de vinho, à qual não tocara, por cima do móvel. Ficou encantado por sentir no corpo o calor aconchegante da lareira.

Estava esfomeado. Encheu uma malga de caldo, bem grosso, que pôs por cima da mesa, assim como meia peça de pão, a garrafa de vinho e uma tigela.

— Esta manham estubo aqui o Irineu – disse-lhe a avó.

O rapaz sobressaltou levemente.

— Si ? – perguntou, descuidadamente.

— Si, é tua mai deu-lh’uma peça de pam. Por isso hai pouco. Mas tu côme, meu filho, côme que te faz falta ! – disse-lhe a velhota.

Não perguntou mais nada. Comeu com saborosa voracidade. Esvaziou a tigela e deu um arroto. Arrastou a cadeira e colocou-se ao lado da avó, diante da lareira em brasa. A mulherzinha pousou o tricô no regaço e pegou-lhe na mão com a qual brincou entrelaçando os seus dedos nos dele. Faziam-lhe tão bem aqueles carinhos simplistas e inocentes ! Que seríamos nós sem os afagos, sem o amor de alguém ? O bem-estar, a ventura dos outros foi sempre uma necessidade para ela. Para a  filha, ao contrário dela, os outros eram, ao mesmo tempo, uma abulia física e mental, o sentimento obscuro e profundo de que nada tinha importância, de que tudo se transformava num cansaço inútil. Eram tão diferentes !

— Tua mai parêce-me qu’está melhôr, que lhe fijo bem desabafar. Sabes bem qu’ela habituou-s’a nunca falar do qu’a preocupaba cos outros. Q’antas vezes sim fim tentei dizer-lhe que, da maneira qu’encarab à bida, só s’estaba a fazer-se mal! Nom m’oubia, inda me mandaba calar, como se nom soubera o que dezia!

E olhou fixamente para o neto. Leu nos seus olhos o que, certamente, ele devia ler nos dela : a incompreensão.

— Q’ando se começa a mentir, ê fácil imbentar, esconder as coisas é, pouco a pouco, ô mentiroso bai-se desajeitando é, despois, ê mais fácil apanhá-lo porque já ê um hábito é nom sabe ô que dicho no dia antes. Assi lh’aconteceu à tua mai, meu filho. É, q’ando se cheg’á um ponto destes, qu’a mentira, de calbário em calbário, cheg’á um aborrecimento assi, entom começa ô inferno. À noite, na cama, chorava é rezava, mas hai lágrimas que nim as rezas conseguem secar. Sabia qu’as cousas, só despois de rebentar o abcesso, ê que seriam como dantes. Creio que foi ô que passou. Mas, ôlha meu home, nom ê porque alguém qu’ê infeliz é que fijo uma escolha indigna, que nom tem mais direito ô amor dos outros. Ô rancor nom te deixa vivir. Ê ô perdom que te dá a tranq’ilidade, a paz.

O moço ouvia com grande atenção o que a avó lhe dizia sem compreender totalmente o que lhe queria significar. Tinha vontade de lhe dizer que, nesse dia, percebera o que era aquela coisa incoercível, provocante, perniciosa e, ao mesmo tempo, tão fascinante, tão libertadora, tão jubilatória, que era o cio. Ao que o padre, na missa, chamou pecado. Porque será um acto destes, próprio dos seres humanos, considerado um pecado mortal ? E que este acto não passa de uma reciprocidade de aprazíveis e repousantes momentos, indispensáveis ao bom zelo, ao desenvolvimento genuíno de um ser normalmente constituído ? Esses ímpios, dadores de moralidade, de virtuosidade, que se declaram transitários da verdadeira e sincera palavra divina, não são mais do que contrafactores, maquiadores, polícias da alma, cuja finalidade é cultivar um sentimento de apreensão, de receio nas populações para, deste modo, poderem dominá-las. Esta instituição, ao longo dos séculos, foi bem mais nefasta do que benéfica para os homens. O tempo, excelente ponderador, já iniciou o seu trabalho de regulador; a instituição vai perdendo cada vez mais a credibilidade, continuamente maculada por escândalos de várias ordens. O desenvolvimento do nível de instrução e do nível de vida da classe popular também contribui para o seu declínio.

Tinha-se instalado um silêncio embaraçante na cozinha. A Delfina conservava a mão do neto entre as suas, por cima do seu regaço. Pensativa, com os pequenos e afundados olhos, perscrutava o braseiro como se tentasse ver algo nas cores vivas e ardentes. O rapaz parecia entorpecido, ausente.

— Que se queir’ou nom, as cousas hai qu’aceitá-las como som, sabes ? – perguntou sem olhar para ele – É sô elas podem fazer a difrença da alegria ou da desgraça. Nimguém pode cambiar ô rumo do destino, meu home.

A mulher tinha o mérito, cada vez mais raro nos nossos dias, de só deixar saír da boca palavras que o seu pensamento concebia, fecundava. Realizara que era impossível uma pessoa em contradição contínua com a vida, em guerra com ela própria ou com os outros, pudesse viver em paz e não invejasse a pouca felicidade que os outros pudessem ter. Mesmo os que ofendemos involuntariamente fazem pouco caso da nossa inocência, da nossa boa vontade e apenas procuram o meio de vingar-se. Para evitar as hostilidades, a única solução era a reconciliação.

A porta chiou e a Palmira entrou sem uma palavra.

XXIII

Os dias foram passando. Na casa, a Palmira recobrara um pouco de ânimo, de ardor, no dia a dia mas, sobretudo, uma permissividade há muito esquecida para com a mãe. De manhã, perguntava-lhe se tinha passado uma noite boa, se as sopas tinham açúcar suficiente, se lhe apetecia algo de especial para o almoço, falava-lhe do tempo que estava, dos animais, do que ouvira na loja... Ela que nunca pudera suportar as queixas, os sofrimentos da mãe, que virava a cara para que ela não visse no seu rosto a indiferença que isso lhe causava, perguntava-lhe, quando passeavam no quinteiro, se as pernas não lhe doíam, se queria subir.

Para a Delfina, foi uma prenda divina, inesperada. Havia tantos anos que pedia a Deus que assim fosse, que a filha se corrigisse, se humanizasse ! Sentia-se tão contente que preferia morrer antes que a filha voltasse a degenerar.

O Armindo vivia uns tempos de grande agitação, impensáveis uma semana antes. A Rosa ficara fascinada com a sua constância genital que lhe permitira gozar uns desvairados e lascivos momentos de prazer. Ficou de vir fazer-lhe uma visita prazerosa de vez em quando.

O caso é que o rapaz sentia-se outro, alguém que tinha coisas para partilhar. Era a primeira vez que alguém via nele sentimentos salutares, qualidades naturais que, finalmente, fazem o homem ordinário. Não pedia nada, somente que o considerassem como os outros, alguém que, apesar da sua desvantagem evidente, tinha valorosos recursos para fazer prevalecer.

A Lídia, cada vez que ia e vinha do moinho, não deixava de fazer uma alta e de namoriscar com o Armindo. Sentavam-se no muro, por debaixo do velho carvalho. As relações entre os dois iam-se estreitando e tornando cada vez mais naturais. Nunca pensara que a moça mais bonita e mais cobiçada do lugar, que agora encontrava periodicamente, se interessasse por ele. A força e a solenidade das suas aparições faziam-no sucumbir cada vez mais. Havia alturas que se instalavam entre eles curtos silêncios, no meio do grande silêncio da floresta, e, então, sabiam que entre eles havia alguma coisa. A sua beleza genuína dava-lhe emoções que a sua natureza e o seu desejo secreto lhe exigiam cada vez mais. Olhava para ela, de olhos brilhantes, admirativo e só ouvia bater o seu coração. Batia no meio das pedras do muro, na floresta, nas montanhas, com as cabras. À medida  que o seu amor foi crescendo, deixou de pensar com a razão.  Sentia-se confiante, mimado e pedia ao céu que lhe fosse dando dias como os que ia passando.

 

(continua)

 


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SOFRIMENTOS INSENSATOS XIX

 

 

XXI

Para a Áurea, o domingo não foi longo em chegar. Passara os dois últimos dias a preparar-se mentalmente para este verdadeiro primeiro encontro. A sensação que o Pedro lhe produzira, quando bateu com ele na feira, fora extraordinariamente agradável. O importante era ver se o cenário, embora não voltasse a ser tão intenso, produzia as mesmas sensações.

Como tinham combinado, encontraram-se de tarde na pastelaria da alameda. Estavam a ser duas horas.  Nesse dia, os cafés e a alameda eram a propriedade dos amorosos. Os casais, sobretudo os casados, gostavam de mostrar-se publicamente arvorando, a maioria, sorrisos hipócritas sem sequência e dando espalhafatosas gargalhadas, mais para atrair os olhares alheios do que para manifestar a felicidade que sentiam por andarem  juntos ou que os unia.

Como da vez precedente, puderam sentar-se na mesma mesa. Pediram as mesmas coisas, um café e um carioca de limão. Ergueu-se um grande silêncio entre os dois. Os dois olhares entrechocaram-se e fixaram-se um no outro, uns instantes, como dois desconhecidos que se amavam. E, instintivamente, deitou a cabeça para trás, provocante. Não falavam, comiam-se com o olhar. Os seus lábios abriram-se como para beber. O Pedro não podia desprender os olhos dela. As pestanas pesaram-lhe e os olhos inebriaram-se-lhe. A Áurea viu a sua beleza nos olhos do rapaz. A partir daquele instante, o seu corpo não se esqueceu mais daqueles movimentos de sedução. Este novo e perigoso poder que ressentia na alma, que sempre tivera, mas que só hoje conhecera, fê-la arrepiar-se. Via-se neles que sentiam um prazer salutar e desmedido por estarem juntos.

A  Áurea, confusa, ao ver que o silêncio se prolongava demais, foi a primeira a falar, propondo-lhe a sessão cinematográfica da tarde. Não que lhe interessasse, nem sabia qual era o filme, mas unicamente para romper o silêncio embaraçoso que a perturbava. O Pedro assentiu, mas, manifestamente, sem grande entusiasmo. Certamente que preferia concentrar o intenso e penetrante olhar nos seus lindos olhos pretos em forma de amêndoa, dominados por umas sobrancelhas bem arqueadas.

Levantaram-se e, conversando placidamente, foram percorrendo no mesmo ritmo, num sentido e por um lado, e depois no outro e pelo outro lado, a comprida alameda sem reparar no que se passava à volta deles. Falavam de tudo, mostrando, tanto um como o outro, um bom conhecimento dos sucessos relevantes da vida portuguesa, assim como uma boa cultura geral. Às vezes, quando ela falava, atirado pelos movimentos dos seus lábios vermelhos, pelas suas faces tão frescas, e, como que perdido no meio das suas palavras e na emoção que estas lhe causavam, deixava de ouvi-la, sem saber como. Ele parecia sentir uma espécie de pudor em interrogar um ser cuja felicidade se lhe afigurava bastante frágil. Às vezes, olhava para o céu e pensava na forte alegria que provinha dos seus grandes olhos pretos. O prazer que sentia na companhia desta criatura, tanto o fazia saborear o presente como temer o futuro.

Nela, reinava uma estranha serenidade, parecida ao belo dia outonal que se fizera, e que ela desfrutava com delícia. Com ele, até as brincadeiras satíricas tinham o estígma do talento. Foram-se descobrindo, desvendando mutuamente, pouco a pouco. O tempo foi passando, imperturbável, sem se lembrar deles nem eles do tempo.

Não sabia quantas vezes tinha percorrido a alameda quando, passando diante do café-restaurante-cinema que tinha o mesmo nome, a Áurea reparou na multidão que, a sessão terminada, saía do cinema. Olhou para o relógio embora soubesse por experiência que passava das cinco. Efectivamente, eram cinco e um quarto, a hora do mil-folhas com o copinho de leite com canela. Deram uma última volta antes de se instalarem no café.

Uma hora mais tarde, deixou-se acompanhar à casa e despediram-se. No dia seguinte começava uma nova semana de trabalho. Era a sua prioridade. Tudo o mais só se poderia apegar nele.

Foi para o seu quarto preparar as coisas. Sentou-se uns momentos por cima da cama. Estava habituada a passear na alameda mas, como hoje, nunca lhe tinha sucedido. Tinha as pernas cansadas e doridas. Não afastava a possibilidade de ter cãibras de noite. Tinha o corpo e o espírito atormentados. Fechou os olhos e passou em revista a tarde que acabara de passar. Circunstâncias tão favoráveis como nas que ela se achava e a faziam sentir-se tão radiante, sabia que raramente se encontravam reunidas. Sobretudo, quando se sabe que o coração é o único a fazer o seu tormento ou a sua felicidade. Sentia-se bem na companhia do Pedro, sentia uma vontade, uma força interior, um encanto manifesto que a devorava aprazivelmente. Os seus olhos, tão bonitos e tão ternos, aterrorizavam-na de prazer. Qualquer coisa que descobria e cuja sensação enfrentava pela primeira vez. A segunda impressão que o Pedro lhe causara ia na mesmo sentido que a primeira. Ainda não podiam mentir-se um ao outro, que era o privilégio de um conhecimento mais estreito, de uma maior intimidade. Mas quaisquer que fossem as impressões de ambos, calavam-nas, escondiam-nas. Como se diz em determinados meios com uma elegância positiva e um pouco abstracta, encontrou-o bem. Riu-se. “Para já, estou na fase experimental. O tempo é o melhor censor, o melhor termómetro”, pensou.

Pensou nos pais. Só em pensar que extenuavam as suas forças a satisfazer necessidades, e que essas necessidades não serviam senão para prolongar a miserável existência que tinham, sentia o coração que se lhe fendia. A tranquilidade de que gozavam não era mais do que uma resignação fundada sobre infortúnios, semelhantes aos do prisioneiro que, para tornar a estadia mais agradável, pinta os muros da cela com cores variadas e perspectivas agradáveis.

Olhou pela janela e viu o pôr do sol que deitava sobre o rio os seus tons alaranjados, entrecortados de sombras. Ficou contente por poder gozar do charme da paisagem que dali desfrutava, de poder viver numa região que,  de certo, fora feita para almas como a dela.

A ceia era servida habitualmente às sete e meia. Desceu para a sala que havia ao lado da galeria, e que se encontrava deserta, e, depois de acender a televisão, instalou-se confortavelmente no sofá de três lugares. A alegria e a impaciência acabaram por aturdi-la.

 

(continua)

 


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SOFRIMENTOS INSENSATOS XVIII

 

 

     XX

No dia seguinte levantou-se à hora habitual e ainda o sol estava a espreguiçar-se  e já ele ia pelo caminho da azenha. Os dias repetiam-se e raramente divergiam. A manhã estava fresca, mas o sol não tardaria em aquentar um pouco o ambiente. Quando chegou ao cruzeiro ouviu as pancadas que as marteladas espaçadas e matinais do ferreiro propagavam até ele. Vindo de mais longe, talvez do caminho de Cubalhão, ouviu chocalhar e berrar alguém como quando as reses debandam e há que reuni-las. Tinha sorte pois as suas acompanhavam-no sempre com imenso agrado. Certamente que era o feito da estreita e prolongada relação que ele tinha tecido com os animais.

Antes de chegar ao campo onde deixava as vacas, viu uma forma estranha, curvada no meio do caminho. Acabou por reconhecer o Irineu, o mendigo de Birtelo. Dava passos pequeninos mas apressados. Pequeno, tinha uma cabeça demasiado grande, uns cabelos brancos e longos e a parte superior do seu corpo encolhida de tal modo que lhe dava o aspecto de um gnomo. Andava sempre com pressa. Se alguém lhe dava uma esmola, virava a cabeça e olhava para a pessoa de baixo para cima, como um velho cão engelhado. Com um movimento ávido, enfiava o pão na sacola e o dinheiro na boca, antes de ir à loja onde o cuspia por cima do balcão. Enchiam-lhe a pequena garrafinha, que outrora contivera laranjada, de aguardente e continuava o seu caminho sem falar. Diziam que não tinha o juizo perfeito por afirmar predizer os acontecimentos, lendo nas pedras e nos tojos coisas que só ele podia ver. Contava que nos seus constantes passeios pelas aldeias da vasta região, muitas das vezes de noite, encontrava os espíritos de pessoas que erravam pelos montes e com os quais falava. Em geral, toda a gente o pilheriava. Portanto, em segredo, muitos acreditavam supersticiosamente nele. Perguntavam-lhe como seriam as colheitas, iam pedir-lhe conselho e ervas curativas quando a doença batia à porta... Sabia o que muita gente ignorava.

Ainda infante, o Armindo tinha medo dele; mais tarde, gostava de ouvir as suas histórias. O mundo e a vida contava-os como os sentia, não como os via. Quando se encontraram, estacaram mas o homem nem para ele olhou. Apenas abanava a enorme cabeça como se estivesse a ouvir vozes que vinham de longe. Ao cabo de alguns segundos, fixou os olhos avermelhados e imóveis nos do rapaz e grunhiu:

— A tua mai nom anda bem pois nom, rapaz ?

Este, que esperava tudo dele menos uma pergunta destas, reteve a respiração. Endireitou-se como se quisesse evitar que as palavras o atingissem e sentiu o coração bater mais depressa. Os olhos do homem, profundamente afundados, sem vida, agitaram-se repentinamente nas órbitas de tal maneira que dava a impressão que lá formigavam insectos. Acercou-se mais do moço e continuou, nasalando, desta vez, como se estivesse a sonhar :

— Ôs homes bam-se é esquêcem-se das mulhêres. A culpa ê deles que, sim comprendê-la, encaram a bida duma maneira é, despois, lebam-na doutra.

O seu rosto queimado pela aguardente adquiriu um ar misterioso. E, inesperadamente, desatou às gargalhadas. Os joelhos do rapaz tremiam. Raivosamente, abriu o saco de pano, tirou tudo o que tinha para comer e deu-o ao mendicante, antes de se apressar de apanhar as cabras e as vacas que tinham continuado o caminho. Ainda ouviu o homem dizer:

— Ô home ê filho da bida, rapaz, é a ti, esta tamém te nom bai poupar !

E deu mais uma gargalhada assustadora e desdenhosa que o estarreceu.

Quando, por fim, chegou à azinheira sentou-se numa pedra, perto do caminho, a olhar para o enorme carvalho cor de cobre que cobria o caminho. Notou nos ouvidos um zumbido estranho, um calor irritante no lóbulo das orelhas e o silêncio da floresta povoou-se da lembrança de vozes raivosas. Pareceu-lhe ouvir de novo os clamores do padre, as adivinhanças do mendigo e um sentimento de amargo desaire apoderou-se dele. Tudo e todos estavam contra ele.

Levantou-se, partiu uns galhos de uma amoreira  e chamou pelas cabras, como só ele sabia fazê-lo. Estas, contentes, trotaram atrás dele como crianças, tentando morder no ramo. Conhecia-as tão bem e gostava tanto delas !  Esgotado, foi sentar-se encostado ao eucalípto. Lentamente, recobrou o fôlego.

A imagem do Irineu, definhado e caduco, às gargalhadas, atormentou-o. Não entendia como tinha adivinhado que a mãe não andava bem. Não queria acreditar que o pobretana pressagiasse as coisas. De certo que ouvira mal. “Oubi mal, talvez, mas entom como pôd’ele tamém dizer qu’era por culpa dos homes ?” Havia algo que lhe escapava, que não batia certo. Como se não lhe chegassem as dificuldades que tinha ! Não contaria o sucedido a ninguém, nem à avó.

Fechou os olhos e deixou-se berçar pelo silêncio da floresta, interrompido às vezes pelo crocito de um corvo ou de uma pega. As horas, monótonas, foram passando, pesadamente. Acabou por adormecer.

Foi acordado por uma voz feminina que não reconheceu logo. Esfregou os olhos rapidamente e só então realizou quem era. Ficou sentado, encostado ao eucalípto, indeciso, sem saber como reagir.

— É Mindo, acordei-te, nom ? Posso-m’acercar ?

A voz da mulher era melodiosa. Sem esperar resposta, subiu os escassos metros de monte que os separavam e pôs-se diante dele, um sorriso trocista no olhar, a brincar com um vime que trazia na mão. Era a Rosa, a Viúva. O Salvador cumprira a promessa que havia bastantes meses lhe tinha feito.

O rapaz estudou-a uns instantes. Era uma boa quarentona, bastante bonita, cujo rosto respirava saúde. Possuía uma beleza tardiva, maior do que os esplendores luminosos e rosados da juventude que as mulheres com uma vitalidade profunda, como ela, escondem por debaixo das delicadas linhas do rosto. Tinha uns membros sólidos e umas ancas vigorosas. A cara amorenada estava envolvida por um lenço azul escuro do qual escapava uma marrafa de cabelos pretos. Uma parte das pernas e os pés, desnudados, saíam-lhe de uma espessa saia cujas pregas acentuavam as linhas das poderosas ilhargas. O peito apenas estava protegido por uma camisa de tela grosseira, larga, que deixava ver através de uma ampla abertura a nudez rosada de um busto maleável e forte e dois seios enormes.

Apetecia-lhe deitá-la no chão e, por cima dela, apalpar avidamente aquele corpo excitante, morder-lho e apertá-la nos seus braços até lhe faltar o ar. Mas, por muito ardente e imperiosa que fosse a tentação, não mexeu, não tinha coragem para arriscar-se. Uma vaga angústia, misturada a um inconsciente pudor, reteve-o. Não sabia que dizer, como abordá-la. Procurava uma palavra, um gesto, um meio e não os encontrava. As suas mãos, impacientes, crisparam-se nas ervas que conseguiram apanhar. Por fim, para romper o longo silêncio que o incomodava e para encorajar-se um pouco, perguntou-lhe com uma voz vacilante e ansiosa :

— Êl tu biste ô Salbador ?

A mulher riu e, estendendo-lhe a mão, disse-lhe:

— Bem, bamos ali p’ra riba, p’ra detrás do muro.

O rapaz, como um autómato, estendeu-lhe a mão do braço normal e, agarrados, foram para detrás do pequeno muro de pedras que, mais acima, separava os montes. Ficavam ao abrigo de quem passasse no caminho. Mandou-o deitar-se no chão e ajoelhou-se ao seu lado, sentando-se nos calcanhares. O Armindo, de costas, não tinha coragem para encará-la nem para articular uma palavra. Fitava o céu , tão familiar e intensamente azul, e ela, muito devagarinho, sem uma palavra, começou a fazer-lhe festas na nuca, no pescoço e no peito. O corpo do moço reagia ao contacto da sua mão descontraindo-se e, gradualmente, uma excitação exorbitante, eufórica, como nunca tinha ressentido ou imaginado, apoderou-se dele. Dela expelia um cheiro acerbo e exaltante, um cheiro animalesco, de estábulo, de flores selvagens, de um corpo fustigado pelo trabalho e pelo sol. A respiração do rapaz acelerou-se e notou uma ligeira sensação de vágado, de embriaguez. Sentiu o desejo morder-lhe violentamente o coração. Nas veias, o sangue queimava-o como se ardesse. Naquele momento, para satisfazer o seu deleite carnal, era homem para tudo. Limitava-se a obedecer a uma folia incoercível. A pouca razão que lhe restava ia-se desvanecendo à medida que o desejo crescia. Foi naquele momento que percebeu o que a avó lhe dissera. Estremeceu ao sentir a mão da Rosa que lhe desabotoava a braguilha e lhe tirava o membro vertiginosamente rijo. Em seguida, depois de arregaçar a espessa saia, pôs-se agilmente por cima dele, um joelho de cada lado. Era verdade o que contavam: a Rosa não trazia calcinhas. O moço, inflamado, remexia as narinas, dilatadas, como fazem os garanhões que farejam, no vento, os odores das fêmeas e, ao sentir-se entrar nela devagarinho, fechou os olhos e puxou um suspiro que mais parecia um ronco. O seu rosto, relaxado pelo prazer, sorria. Pensava na Lídia.

 

(continua)

 


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SOFRIMENTOS INSENSATOS XVII

 

 

XVIII

Só quando chegou à casa é que a Áurea reparou que deixara ficar no café o saco com as meias e o cachecol, assim como os pastéis. Iria mais tarde recuperá-los. Sentou-se na cama a pensar no que lhe acontecera, como reagira, as razões e as possíveis consequências. Quantas vezes pensara nisto ! A gente cuida sempre que só acontece aos outros ! De todos modos, não tinha nada que deplorar. Reagira como qualquer outra, na sua situação, reagiria. Nem mais nem menos. “O mais importante, agora, é gerir”, disse-se.

O que a perturbara fora o seu à vontade, a educação, e, sobretudo, o seu olhar cheio de bondade, de compreensão. Nunca tinha visto um olhar tão profundo e meigo que a aliviara e tranquilizara como nunca até ali. Era preciso ter um talento louco para poder descrever os seus gestos, a harmonia da sua voz e o fogo dos seus olhares. Nenhuma linguagem poderia representar ou personificar a ternura que  dele emanava nem a sua impressionante postura. Por isso reagira com confusão e com agitação. A partir de agora, seria diferente.

Tinha lido diversos clássicos franceses e não tinha a mesma concepção que eles do amor. Acreditava incontestavelmente que o amor só podia ser a forma suprema da amizade. A amizade tinha de ser o factor básico, o húmus, o pedestal  para se poder atingir o amor. E, para isso, o convívio e a experiência, eram os únicos sendeiros a trilhar. Os sobressaltos da vida só podiam ser as lianas que os fizessem subir até chegar à meta final : o amor.  Dava-lhe vontade de rir, e até a irritava, quando andava no magistério e ouvia as colegas dizer que, com tal ou tal outro, iam para a cama de olhos fechados. Era o amor cego, diziam. Que disparate!

Desprezou sempre o estado a que chamavam de paixão. Não podia conceber que uma pessoa pudesse viver exclusivamente para outra, criando à sua volta uma espécie de membrana isoladora que a separava do resto do mundo. Era uma forma extrema de egoismo, de insensibilidade, de desprezo e de exclusão voluntária, espantosamente tolerada pelas pessoas. Não acreditava que pelo amor de um ser se pudesse ficar autista, rejeitar os restantes, desprezar tudo, chegando mesmo a suprimir-se. Não era amor, era a loucura que se manifestava num quadro amoroso.

Para ela, ao contrário da maioria, o sexo não era primordial para se poder amar alguém. Quem lhe dera encontrar alguém com quem pudesse compartilhar para sempre o sexo, o amor, as ideias, as vontades, as paixões, os problemas relutantes... Era quase que impossível. Compreendia muito bem que houvesse casais estáveis e fortes que, passados anos, apenas tivessem relações sexuais distintamente, sem que isso tivesse quaisquer consequências ou incidências sobre o seu equilíbrio. Ver o amor através do sexo é consagrar o casamento ao fracasso. Era o que via à sua volta. Não contava casar-se unicamente para se assegurar um prazer sexual. Não, a representação que se tinha feito do casamento apoiava-se, inicialmente, na igualdade perante o amor, no respeito mútuo e na compreensão recíproca, categórica e total. Numa segunda fase, era a decisão e a orientação a dar à construção da família. Tinha lido que só a partir do século 18 é que se principiou a falar de amor nos casamentos. Até ali, ninguém casava por amor, nem a pensar no sexo. A finalidade primeira do casamento era aumentar o património e manter a descendência. No casamento não existia moral.  Riu-se. “Não vou encontrar ninguém que queira suportar os meus delírios.”

A avó já lhe tinha dito que só se podia dizer que um casal se entendia quando não fosse preciso falar, quando um leve olhar, um pequeno gesto fosse suficiente para se compreender. Mas, para isso, que eram necessários muitos anos. Era o que a Áurea queria encontrar mas em muito menos tempo.

Desceu as escadas que a separavam da galeria. Como era cedo, ligou a televisão. Depois de almoçar, deitou-se de lado por cima da cama, um livro nas mãos. Precisava de aliviar um pouco a mente. Quando reparou que não tardaria em fazer noite, foi à pastelaria buscar as coisas. O dia fora curto. E imprevisto.

XIX

Pouco a pouco, durante o dia, o ambiente foi melhorando e eles foram-se descontraíndo. O Armindo e a mãe foram matar um frango que depois ela preparou com arroz à maneira do sarrabulho. Inconscientemente, faziam frente ao inesperado sermão do padre. A Delfina ficou satisfeita por ver que se tinham aproximado um do outro. Sabia que não era fácil, tanto para um como para o outro, e, por isso, ainda mais mérito lhes dava. Os momentos de sincera harmonia eram de tal modo inabituais que, quando se apresentava um motivo para tal, o júbilo era extraordinário. As palavras eram escassas e desnecessárias. A Delfina sabia que o silêncio é uma queixa e que as palavras são querelas. Se as pessoas soubessem quantas nuances há nos sentimentos e na maneira de agir... Por ser mulher e mãe, podia perceber com mais facilidade as loucuras da filha e ser mais indulgente do que o neto que se sentia sufocado pelo seu orgulho de adolescente.

A Delfina há muito que desconfiava do que se tinha passado. As pessoas, como ela, onde a imaginação, modelada diariamente, predomina, e só o corpo langue, têm pressentimentos que mais ninguém pode ter. Ainda de manhã, depois da missa, muitos e muitas estavam admirados com a sua força de vontade, a sua veemência. Não compreendem que as esperanças de um dia se sentir aliviada lhe davam coragem para viver e para ignorar o sofrimento. O próprio silêncio, mesmo pesante, se se lhe prestar atenção, é suficientemente poderoso para fazer-nos cessar os funestos pensamentos e os frequentes momentos dolorosos.

Depois de comer, da avó e da mãe terem ido deitar-se, o Armindo sentou-se um pouco ao sol, no degrau da porta. O Fedelho, abanando o toco que lhe servia de rabo, juntou-se-lhe prestamente, deitando-se ao lado dos seus pés. Tinha uma grande amizade pelo cão. Cresceram juntos. O rapaz pouco mais velho era do que ele. Fazendo-lhe festas na cabeça e no peito, pensava na noite anterior. Sentia-se contente. A conversa que tivera com o Salvador fora bastante agradável e pusera-o à vontade. Sentia nele uma vontade firme, uma força jovial, estimuladas pelos actos disparates da mãe. Queria experimentar, comprovar a força irracional que a mãe e a avó atribuiam ao cio, à necessidade fisiológica e incontrolável das pessoas.

Irremediavelmente, a figura da Lídia veio perturbá-lo com encanto. Só em pensar nela, sentia-se embriagado, subia-lhe qualquer coisa à cabeça que o euforizava, que o subjugava, como jamais as suas incomparáveis fantasias tinham feito. Via-a sentada no muro, depois de terem vindo do moinho, a contar-lhe coisas que ele não ouvia, de tal modo estava mergulhado nos seus olhos, nos seus lábios... Nunca os seus lábios lhe tinham parecido tão atraentes, como se se entreabrissem, lânguidos, para absorvê-lo lentamente.

Deu um grande suspiro com agrado. Levantou-se mas, depois, hesitou uns instantes. Tinha pensado ir até ao adro. Era possível que a encontrasse lá pois, aos domingos de tarde, era o ponto de encontro das raparigas e dos rapazes. Preferiu rescindir da ideia e evitar aborrecimentos com os rapazes.

Resolveu ir dar um passeio pelo caminho da azenha. Pegou no chapéu e no pau e dirigiu-se para o grande portão de ferro que já não tinha cor. Quando se virou para fechá-lo, reparou que o Fedelho, agitando o rabo, permanecia do lado de dentro. Sorriu-lhe e baixou-se para lhe fazer umas festas. O coração fendeu-se-lhe ao descobrir-lhe nos olhos turvos e embaciados um enorme sentimento de frustação, de sofrimento por não ter forças suficientes para acompanhá-lo na sua caminhada. Consternado, agarrou-lhe a cabeça e esfregou-a, com meiguice, contra a dele.

— Ô meu Fedelhinho, nom fiques triste qu’eu benho já, si ?

“Ô peso dos anos estraga tudo.” – pensou, com mágoa. E, portanto, queixava-se que a infância não queria abandoná-lo. Não imaginava que, por muito que crescesse,  nunca conseguiria curar-se da infância.

Fechou o portão e dirigiu-se para o cruzeiro. Sabia que, ao domingo, àquela hora, não encontraria ninguém. Movia-se com calma, olhando para o céu de um azul profundo como o aço. Ofuscado pelo belo sol outonal, ia enchendo os pulmões do ar puro e fresco da montanha que o revigorava. Inelutavelmente, a imagem da Lídia impôs-se e sentiu, de imediato, um bem-estar inabitual, uma sensação atraente que lhe conferia o sentimento de que era um rapaz que tinha algo mais do que os outros, apesar da desvantagem. Pôs-se a cantarolar.

Lembrou-se que, um dia, conversando com a irmã, esta tinha-lhe dito que nos outros lugares, nas vilas e nas cidades, as pessoas eram como ali : mal-intencionadas, más-línguas, invejosas, egoistas... mas, como não se conheciam, viviam mais descansadas, na ilusão, pensando que eram felizes. Também lhe tinha dito que a felicidade era uma coisa subjectiva, coisa que ele não percebeu. Então, explicou-lhe que dependia das pessoas, que uns, com quase nada, eram felizes, outros precisavam de mais, outros, de muito mais, e outros tinham tudo e, apesar disso, eram infelizes. Ele, ao perceber, rira-se, não dissera nada mas identificou-se imediatamente com os primeiros. Não pedia grande coisa mas sentia que nem isso lhe queriam deixar.

Fez uma careta e apertou o pau até lhe doerem os ossos da mão. Não se deixaria ditar as suas vontades, os seus desejos, a sua vida pelos outros.

 

(continua)

 


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SOFRIMENTOS INSENSATOS XVI

 

 

XVII

Às sete e meia da manhã, a Palmira e o filho estavam sentados à mesa da cozinha. Era domingo. Cada qual tinha diante dele uma malga de sopas fumegantes. Para ela, a comida tinha de estar bem quente, ainda que tivesse que esperar ou soprar-lhe, de outro modo, não a queria. Tinham-se encontrado na cozinha, lavado a cara e preparado a desjejua sem se terem dirigido uma só palavra. Evitavam cruzar o olhar. A Palmira tinha a cara particularmente ressequida pelo cansaço físico prematuro mas também pelos pensamentos que, durante a noite, lhe tinham, sem dúvida, escavado a alma. Via-se que tinha vontade de dizer qualquer coisa mas não encontrava as palavras na sua cabeça perturbada. Gostaria de lhe dizer o que a feria, que lhe causava dor, o que lhe apertava o coração e a sufocava. O que não devia ter feito, nem pensado. Em vão ! As palavras fugiam-lhe da boca. Respirou intensamente, vencida, como quem nada tem que dizer, que nada pode fazer.

O Armindo foi o primeiro a acabar. Arrumou a malga no lava-louça e, quase como se falasse sozinho, informou :

— Bou arrumar ôs animais enq’anto você s’ocupa da minh’àvó.

— Está bem, Mindo – respondeu-lhe com uma voz quase inaudível.

Aparentemente, excepto a voz dela, nada era diferente das outras manhãs de domingo. Enquanto a sua mãe, pensativa, acabava as sopas,  preparou a lavadura e, depois de pôr o chapéu na cabeça, saiu para o patamar. O Fedelho esperava por ele, como estava habituado a fazer. Tinha chuviscado de noite. O chão estava  molhado.

Às nove e meia, depois do sino tocar pela segunda vez, estavam os três vestidos e preparados para ir assistir à missa dominical. Elas vestiam, practicamente, a mesma roupa preta que nos outros dias, só que esta estava quase nova; o Armindo metia o último fato, também preto, que o pai lhe mandara fazer, havia mais de três anos, e uma camisa dum branco imaculado. A manga do braço maior começava a ficar-lhe um pouco curta. A Delfina, fincada na bengala com o braço direito e, com o esquerdo agarrado ao da filha, foi descendo cuidadosamente o caminho até à velha igreja.

No interior da pequena capela, as pessoas do lugar, numerosas, apertavam-se nos bancos. Do lado direito, os homens, do esquerdo, as mulheres. Na primeira fila, estavam sentados o Beites da loja, o Rogério e o Arsénio, o ferreiro, que era zarolho. Os três, vestidos de preto como todos os outros, tinham os chapéus na mão, mostrando a cabeça resplandecente de brilhantina. O ar principiou a ficar mais pesado. O cheiro da água de colónia barata de que todos se encharcavam, misturado ao do fumo de que as roupas se impregnavam com o tempo, e ao do incenso da capela, tornava o ar irrespirável.

A missa foi evoluindo com normalidade até que o padre subiu ao púlpito e se agarrou a ele com as duas gordas mãos. O móvel gemeu sob a pressão do sacerdote. Era o momento do sermão. A atmosfera dominical propagou-se lentamente pela igreja. Os aldeões limparam a testa gordurenta com o lenço e aclararam a garganta como se fossem eles que iam falar. Fez-se silêncio, um silêncio de espera, de apresto. A voz rouca e robusta do padre encheu a nave.

O Armindo estava sentado ao lado da avó, sonolento. Não gostava nada daquele calor humano perfumado de incenso que lhe dava sono. O seu olhar passeava, indiferente, pelos rostos pios e idiotas. A sua avó não parava de cheirar o raminho de sálvia que trazia sempre no bolso. O incenso também a incomodava. Atrás, alguém tossiu roucamente. O rapaz tentava distraír-se reparando em tudo excepto na homilia. Portanto, o padre arengava cada vez mais alto e, sob a sua voz tonitruante, as velhotas, desdenhosas, cabeceavam como se estivessem na casa.

O padre, que parecia olhar olhar para eles, falava de pecado, cada vez mais furioso. “Contra quem está ô home zangado ?”– perguntou-se o Armindo.

— Satanás só vos oferece o pecado; Deus, na sua bondade, oferece-vos a virtude, a paz da alma ! Podeis escolher libremente mas, depois, virá a hora da expiação.

A Delfina apertou o braço do rapaz que olhou para ela, no momento em que o padre continuou a falar das pessoas más, das mulheres culpadas.

— Nunca é tarde para entrar no bom caminho ! – gritava – Se estas criaturas se perdem no meio de vós, tendes que repeli-las sem hesitação, assim como o Senhor as repelirá do seu trono para o fundo do inferno !...

Sentiu-se um movimento na igreja. A voz do padre assobiou, cava, até ao fundo da igreja.

— As más mulheres estragam os homens corajosos e honestos e desonram as famílias; podem esconder-se dos outros, mas nunca se poderão esconder de Deus!

Atrapalhado e enraivecido com as palavras cuspidas pelo padre, o Armindo olhou disfarçadamente para a mãe. Estava de olhos fechados, branca, não como um morto, mas quase como a própria morte. Fazia um esforço monstruoso para não desatar a chorar.

O sermão acabara. O padre ficou direito, ofegante, à espera que a respiração voltasse à normalidade, antes de pôr termo à missa. O Senhor nasceu e morreu no altar, com precipitação.

Os olhos do rapaz fixaram-se no Cristo, deteriorado pelas inclemências do tempo, que se elevava diante das filas de bancos e estendia os seus dois braços feridos na cruz com um ar de triste misericórdia. Enquanto olhava para o Salvador, que tanto amara o mundo, sentia um ódio abrasador pelo padre, por todos os que ali se encontravam.

Os que estavam no fundo dirigiram-se para a saída. Depois, foi nos primeiros bancos que começou a agitação. Do ar requecido voltou a exalar o cheiro a chamusco, a pomada rançosa. Dirigiam-se devagar para fora, empurrando suavemente, o rapaz, a avó e, de cabeça baixa, a mãe. A sua cara continuava pálida, os cantos da boca enrijecidos. O rapaz, com os olhos vazios, olhava para as costas redondas das pessoas que se puxavam para a claridade da porta, mas não via nada.

Fora, faziam-se grupos de três ou quatro que depressa se desfaziam para ir formar outros mais adiante. A Delfina, como sempre, não teve dificuldade em arranjar um lugar num banco ao lado de outras pessoas. O neto e a filha ficaram por detrás dela, de pé. O ritual costumeiro começou. A gente vinha saudá-los amigavelmente mas a Palmira, cujas palavras lhe saíam espontaneamente, não estava ali. O seu rosto não tinha pinta de doçura e permanecia vago e frio.

É natural que, quando um incidente ou um súbito terror nos surpreende indevidamente, a impressão seja mais forte do que se fosse noutras ocasiões, seja por ser inesperado, seja porque os nossos sentidos, estando alerta, são mais susceptíveis de sentir uma emoção forte e rápida. As palavras do padre tinham-na incomodado solidamente e fizeram-lhe perder a pouca vontade que lhe restava. Na cabeça, sentia um tumulto surdo que a impedia de pensar e lhe dava a impressão que tinha recebido uma enorme pancada no peito e cuja dor ainda era confusa. Estava mergulhada num desânimo que a fazia sentir-se inquieta e agitada.

A mãe virou-se e deitou-lhe um olhar de terna compreensão e da mais doce compaixão. Não sabia se queria consolar a filha ou se se queria consolar a ela própria.

— Bamo-nos, minha filha ! – pediu-lhe.

Não foi ouvida. A alma da filha estava tão agitada que era surda a qualquer exortação exterior. Agarrou-lhe na mão, que apertou, e repetiu-lhe o pedido. A gente discutia sem fim, saboreando aqueles curtos e raros momentos de convívio. Cuidadosamente, puseram-se a caminho da casa, evitando as poças de água que a chuva fizera durante a noite e nas quais o sol principiara a tomar banho.

 

(continua)

 


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