Sábado, 23 de Setembro de 2017

UMA SENHORA DA SOCIEDADE

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rua de baixo - vila

 

 

O ANTIGAMENTE

 

 

O passado está sempre presente no dia a dia das pessoas, especialmente daquelas que já passaram da conta. Não há nada que aconteça que não tenha já acontecido, noutro contexto e com outra roupagem, é claro.

Detalhes do quotidiano, principalmente os que nos aborrecem, despertam-nos algo parecido, semelhante ou então a repetição exacta do já acontecido.

Então acontece que os resmungos da minha mulher além de me enfastiarem lembram momentos parecidos connosco e com outros. Inerente a quem já ultrapassou a fase de pular muros, regatos, etc., implica involuntariamente, com o que possa estar no chão. Daí que os entendidos recomendam retirar tapetes, passadeiras, até jornais dos pisos onde circulam as pernas cansadas. Apesar das recomendações as mulheres gostam dos detalhes que possam dar-lhes satisfação pela beleza decorativa que proporcionam às suas casas. Sempre conservam um tapete ou passadeira e o que é pior, esticadinha. Ao passarmos, sem darmos conta, o trapo ou serapilheira que seja, que está no chão, vai na frente, enrugando-se. Ela ou elas reclamam, não só por serem dois anos mais novas, mas por fazerem hidroginástica e anda levantarem melhor as pernas.

Um dia destes, lembrou-me o Dr. Rocha. No início dos anos trinta do século passado (é claro), havia na Vila de Melgaço uma figura muito conhecida, respeitada que gozava da simpatia geral, pelo menos do meu tio Emiliano com quem eu vivia na altura, era o Dr. Rocha, pessoa já idosa, para mim que teria no máximo sete anos. Segundo concluí mais tarde, seria o Notário ou Conservador do Registo Civil, não lembro bem, vivia com a esposa, acho que não tinham filhos, naquela casa do lado esquerdo de quem estava na Câmara, entre a cabine de electricidade e a avenida, na Feira Nova. Mais tarde quem viveu nessa casa durante alguns anos foi o Sr. Alvim com a esposa, D. Alzira e os filhos.

A esposa do Dr. Rocha (nunca lhe soube o nome completo) era uma senhora toda empertigada, o tipo de matrona, tanto física como autoritária, da idade do marido, de nome D. Adelaide, que sempre era evocada como D. Adelaide Rocha, não para a diferenciar de outras Adelaides, que por acaso na altura não as havia, mas porque o seu porte imponente e postura fidalga assim recomendavam. A rigor, tal procedimento mais imanava da subserviência do povo que endeusava quem se arrogasse socialmente superior. Sempre se apresentava em público rigorosamente trajada e ajaezada com as suas jóias apaparicada pelas outras senhoras da sociedade. Este tipo de pessoas para mais se evidenciarem transformavam pequenos actos rotineiros em casos extraordinários. Um domingo, a D. Adelaide Rocha precisou deslocar-se não sei onde e para tal chamou o Emiliano que no seu carro de praça costumava servir o casal. No regresso a D. Adelaide Rocha desembarcou (saiu do carro) no terreiro onde outras senhoras da sua categoria passeavam exibindo-se. Correu para elas afobada, pedindo para ser abraçada e lamuriando: “O patife do Emiliano quase me matou!”, e contou o sucedido. Tinha desenvolvido enorme velocidade. E era verdade! O Emiliano que geralmente não passava dos quarenta quilómetros com o seu Andorinha (Ford modelo A), naquela tarde, aproveitando uma das poucas e pequenas rectas que existiam na estrada, chegou aos cinquenta quilómetros.

   Em casa a D. Adelaide também primava pelo esmero. Naquela época, naquelas paragens, não se conhecia a cera para soalhos, daí que o chão das casas era lavado com água, escovão e sabão amarelo, de joelhos. Uma mulher, criada, contratada ou a dona da casa, molhava, esfregava e enxugava o chão dos aposentos. Era uma tarefa cansativa. A D. Adelaide mandava semanalmente esfregar o chão de sua moradia, e ai de quem naquele dia pisasse fora das passadeiras. O Dr. Rocha que, além do gabinete oficial no edifício dos Paços do Concelho, tinha seu escritório em casa que várias vezes ao dia precisava consultar e, distraído, pisava onde não devia, o que lhe custava intermináveis sermões e admoestações pouco lisonjeiras.

Ano após ano, revoltado com tão enervante rotina, resolveu fazer valer seus direitos de dono de casa. Num dia em que o chão fora esfregado, antes de entrar em casa, encharcou as botas na lama do rego que passava em frente e nos dejectos dos cães e triunfalmente passeou por todos os cómodos da casa. Ninguém soube o que aconteceu depois, mas continuaram a viver harmoniosamente.

 

   Rio, Fevereiro de 2013

                                                                                                                 Manuel Igrejas

 

Publicado em: A Voz de Melgaço   

                                               


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Sábado, 26 de Agosto de 2017

UM ESCULTOR MELGACENSE

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ACÁCIO CAETANO DIAS

 

 

É natural de Prado, filho de Amadeu Maria Dias e de Maria Fernandes da Silva. Nasceu em 11 de Março de 1935.

Seu pai era um artesão, que trabalhava bem o latão e o cobre.

Como a vida económica em Melgaço era difícil, Acácio Caetano Dias procurou vencer essa hora difícil.

E conseguiu-o.

Aos 12 anos era «groom» no Grande Hotel do Peso e convidado por um hóspede, proprietário do Colégio Almeida Garrett, na cidade do Porto, vai para este colégio como ajudante de despenseiro, donde passa para a cozinha, sendo 2º cozinheiro.

Daqui voa para Lisboa e emprega-se nos Estaleiros da CUF, como apontador, passando a caldeireiro de cobre.

Como apontador, é admitido, em 1959, na agência de Cascais do Banco Nacional Ultramarino (BNU), onde, a seu pedido, passa a ser serralheiro e faz uma descoberta sensacional: inventa uma máquina de fechar correspondência e uma enfardadeira para enfardar papel velho. Recebeu um louvor.

Aproveitou as horas que o trabalho profissional lhe concedeu de descanso e fez os estudos indispensáveis com os quais foi colocado na Biblioteca, donde transitou para o Armazém de Móveis até à reforma em 1973.

A arte é a sua paixão. Dedica-se à escultura. Está presente com os seus trabalhos nas Feiras de Artesanato. E em tão boa hora que escultores de nomeada, como Lagoa Henriques, Soares Branco e Manuela Madureira, preferentemente, o estimularam, dando-lhe orientações que envolvem técnicas sofisticadas.

O apaixonado da arte, passa de aluno a mestre. E apresenta ao público as suas obras: expõe, em 1984, na Escola de Belas Artes, em Lisboa, e recebe uma menção honrosa; em 1985, na V Quinzena Cultural Bancária, no Hotel Altis, recebeu o 1º e 2º prémios de escultura; em 1988, na VII Quinzena Cultural Bancária, obtém menção honrosa; em 1990 na VIII Quinzena Cultural Bancária, no Palácio Foz, arrecadou o 2º prémio de escultura; recebeu em 1992 na IX Quinzena Cultural o 2º prémio de escultura; em 1993 na Artempresa I, promovida pelo Metropolitano de Lisboa, obtém o 1º prémio com o trabalho «Camilo Castelo Branco»; e o mesmo prémio alcançou-o em 1994 na X Quinzena Cultural Bancária, realizada no Palácio Foz.

Acácio Caetano Dias está presente como artista, na nossa terra, no Quartel dos Bombeiros Voluntários, com o «Bombeiro» de tamanho natural.

Suas obras venceram as fronteiras do País e encontram-se no estrangeiro: na França, na Arábia Saudita e na Alemanha, entre outras.

Faleceu em 7 de Março 2013.

 

P. Júlio Apresenta Mário

P. Júlio Vaz

Edição do autor

1996

pp. 273, 274

 


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Sábado, 20 de Maio de 2017

UM MELGACENSE NA RADIO BRASILEIRA

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Eurico António Crispim da Silva, nasceu em Melgaço em 16 de Setembro de 1900, foi actor, director de cinema e dramaturgo luso-brasileiro, célebre autor de radionovelas durante a era do rádio.

Mudou-se para o Brasil em 1916, e em 1919 iniciou a carreira de actor com a peça “O Mártir do Calvário”, apresentada no teatro Carlos Gomes, sendo o autor Eduardo Garrido.

A mudança para o Rio de Janeiro dera-se por ter ali alguns amigos padeiros, mas logo Silva se interessa pelo meio artístico.

A primeira das 15 peças que escreveu estreou em 1932, pela companhia de Procópio Ferreira, para quem traduziu outras tantas.

Em 1930 transferiu-se para o rádio, actuando no programa Teatro em Casa da Rádio Nacional como actor e produtor.

Com a estreia da Televisão, é um dos redatores das novelas da Rede Tupi, onde escreveu Olhos que Amei.

No cinema foi roteirista parceiro de J. Rui em filmes como Não adianta chorar.

 

http://pt.wikipedia.org/wiki/Eurico_Silva


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Sábado, 22 de Abril de 2017

UMA IDA À VILA II

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coriscadas - castro laboreiro

 

(continuação)

 

Despiu o casaco claro e, sempre ao lado da mãe, ia descobrindo Melgaço. Sentia-se abafado. A roupa vestida era quente. Os rapazes da Vila andavam vestidos de calções, e em camisa de meia manga, enquanto ele trazia calças de pana e uma camisa de manga comprida.

Nas lojas onde entravam havia sempre muita gente e tinham de esperar para serem atendidas. Antes de a mãe e as vizinhas comprarem qualquer coisa havia muita conversa e tinha a sensação incomodativa de estar sob constante observação das pessoas. Na rua fazia um calor de abrasar e mesmo à sombra transpirava. Estava sequioso mas aquela água de Melgaço parecia caldo e quanto mais bebia mais sede tinha. Já enfastiado disse à mãe para o deixar num banco cá fora, enquanto fazia o resto das compras. Passado algum tempo levantou-se do banco e pôs-se a admirar a torre do Castelo mesmo ali à sua frente, igualzinha à desenhada no livro da escola. Pensou como seria bonito o Castelo de Castro, naquele monte tão alto, se tivesse uma torre daquelas.

Estava na praça central da Vila e resolveu espreitar a montra da loja da frente onde estavam expostos vários relógios e artigos em ouro. Ao lado ficava a Escola Primária e através dos vidros viu algumas crianças da sua idade sentadas nas carteiras, enquanto o professor, de fato e gravata, escrevia números no quadro preto.

Finalmente apareceram todas para irem comer, mas antes a mãe tinha de cambiar uns francos enviados pelo pai, por um conhecido. Para isso tinha de passar na Loja Nova, junto à estrada de Castro Laboreiro.

Sentaram-se num banco corrido de madeira, frente a uma mesa tosca, debaixo de uma latada com uma fonte de água fresca, onde finalmente conseguiu dominar a sede. Como era a hora de calor resolveram aproveitar a fresquidão para fazerem uma sesta até porque dali a uma horas teriam de meter os pés a caminho, e agora era sempre a subir.

Terminado o descanso foram buscar os retratos e o resto das compras e albardaram a mula. Às cinco da tarde, ainda com muito calor, iniciaram o regresso.

Passada a primeira hora já estava todo derreado, embora não se queixasse.

Pararam num sítio com uma fonte para descansarem um pouco e beberem. A mãe notou o cansaço do filho e disse à vizinha para arranjar um espaço em cima da mula, onde, enrolado num cobertor colocado dentro de um berço de vime, fora instalada a criança. Conseguiu ajeitar-se em cima da albarda e retomaram a marcha.

Inicialmente, achou interessante a passagem debaixo das latadas, quando atravessaram os lugares, mas o andar desengonçado da mula, tentando escolher o melhor sítio para colocar as patas, e o constante roçar da cabeça pelas silvas e ramos atravessados no caminho acima da altura do animal depressa o convenceram ser preferível ir a pé. Assim, passada uma hora daquele bambolear permanente, e de alguns arranhões, pediu à mãe para o ajudar a descer. A parte mais íngreme do caminho também já estava percorrida. Seguia-se uma tirada por um carreiro rodeado de mato de pequena inclinação, finda a qual iriam merendar porque faltava menos de metade do caminho.

A partir de Alcobaça foi tomado pelo cansaço provocando-lhe uma senolência na qual as pernas pareciam movimentar-se sem dar por isso. Só com uma sacudidela provocada pelo tropeçar numa pedra solta ou pelo colocar do pé nalgum buraco do leito inacabado da estrada, voltava à realidade. Finalmente, com o sol a esconder-se atrás da Fraga da Franqueira, alcançaram Portelinha onde pararam. O ar fresco do fim da tarde, o cheiro da erva e o badalar dos chocalhos das vacas a recolherem ao eido, fê-lo despertar.

Daí até às Coriscadas foi revivendo o dia. No caminho para Melgaço vira coisas novas e fê-lo quase sem dar por isso. Na Vila tinha gostado do Castelo e de algumas lojas com muitas novidades para ele. Melgaço era muito quente e abafado e as pessoas pareceram-lhe desconfiadas, mas agora podia responder aos outros rapazes quando falavam com vaidade por conhecerem a Vila. Além disso vira as videiras em latadas e o Rio Minho, ao longe.

 

O PEGUREIRO E O LOBO

Estórias de Castro Laboreiro

MANUEL DOMINGUES

Edição Núcleo de Estudos e Pesquisa dos Montes Laboreiro

2005

pp. 69-75


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Sábado, 11 de Março de 2017

OLINDA CARVALHO, UMA GRANDE CONTADORA DE HISTÓRIAS III

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(continuação)

 

Lá estavam eles, agarrados como cães, ela quase sem roupa e ele com as calças e as ceroulas enroladas aos pés. Seu badalhoco, era ali, então, o ensaio final do desfile! Ela dava-lhes já o ensaio, mas era a rameira que ela queria tratar, queria-lhe ver as fuças primeiro. Iam-lhe caindo os queixos com a surpresa: então não é que a descarada era uma moça nova, airosa, quase de casamento aprazado com um vizinho que tinha ido para a França, havia menos de um mês! Sua galdéria, ia ver o que acontecia a quem se metia com seu homem. Os seus ouvidos ficaram surdos para o que um e outra diziam, dominava a sua voz alterada e fazendo apelo a todos os insultos que lhe acorriam. Deu um empurrão ao homem que se agarrou às calças e deitou a mão aos cabelos da Joaquina, fazendo tenção de a arrastar para o exterior, sem lhe permitir que se vestisse. Imune aos gritos da rapariga e aos apelos tímidos do Peres, puxou-a pelos cabelos para o caminho e começou a gritar, que acudissem, para verem com os próprios olhos a sem vergonha que se metera debaixo do seu homem, com vadias daquelas por perto mulher alguma podia estar descansada, era um desaforo, uma afronta, o mundo às avessas.

Acudiam as vizinhas mais próximas e a ofendida a sacar de uma tesoura da algibeira e a lançar-se, assanhada, às tranças da rapariga. Era assim, para que vissem, que se tratava uma vadia daquela espécie. Insensível aos gritos da ré, também de nada valeu a interferência das velhas que aconselhavam calma, já chegava, que a deixasse, para vergonha já tinha a sua conta. Só quando a cabeleira estava reduzida a uns escassos centímetros de comprimento, várias peladas a espaços, diminuiu a força bruta contra a jovem, olhou-a da cabeça aos pés e largou-a. Estava satisfeita, tinha a honra vingada, a dela e a de todas que se deixavam enganar por valdevinas sem eira nem beira, que não sabiam manter-se no seu lugar.

A Joaquina recolheu-se no palheiro até ao cair da noite, quando a patroa a foi buscar. O guarda Peres retornou ao seu lugar de plantão no posto e aí pernoitou, comprometendo de certa maneira os festejos do entrudo ao recusar terminantemente o seu prestimoso contributo. Não se falava de outra coisa, velhos, novos e crianças tinham algo a acrescentar ao que alguém contava sobre o caso inusitado da criada da tia Rosa apanhada no palheiro a retouçar com o guarda Peres e vítima da fúria vingativa da mulher exercendo castigo pelas próprias mãos.

A Joaquina não aguentou a pressão e voltou para casa da mãe poucos dias depois do escândalo. O casório mais ou menos falado com o Alberto foi à vida, o rapaz ficou anos sem pôr os pés na terra e nunca mais ninguém o ouviu falar do assunto. A coitada também não teve muita sorte na terra dela e acabou por voltar de cabeça baixa ao local do crime, depois de o Peres ter sido promovido a cabo e se ter mudado com a família para outro posto. De toda aquela confusão perdura a sanha vingativa da mulher enganada e a vitória dos de Andorinho que aproveitaram a desistência do Peres para dar mais brilho ao seu desfile de Carnaval.

 

                       Olinda Carvalho

 

Publicado em A Voz de Melgaço

Fevereiro 2015

 

DA MESMA AUTORA:

 

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Sábado, 4 de Março de 2017

OLINDA CARVALHO, UMA GRANDE CONTADORA DE HISTÓRIAS II

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(continuação)

 

Estes são alguns exemplos das peças preparadas ano após ano para serem executadas no espaço do baile, mas havia representações mais elaboradas que saíam desse local e tomavam outra dimensão. Os números de contrabandistas em fuga de guardas que os perseguiam aos tiros, muitas vezes reais, eram muito aplaudidos pelo povo em geral, mas assustavam as crianças que tomavam a ficção pela realidade. Os entrudos a fazer as suas partidas a velhos e novos, muitas vezes sem sensibilidade nenhuma para com o receio, quiçá temor verdadeiro, espelhado no rosto e nas lágrimas das crianças mais temerosas. Eram esperados com impaciência e eram eles que levavam as mulheres mais velhas e menos dadas a divertimentos ao espaço público do baile ou ao desfile quando este tinha lugar.

A troca de género era muito comum e nesta quadra muitos fatos de homem, guardados em armários ou arcas durante todo o ano, tresandando a naftalina, faziam as delícias de mulheres e raparigas que com eles se mascaravam de homem e se faziam acompanhar por matrafonas de grandes seios e não menos avantajados traseiros, papeis encarnados por homens. A identidade dos mascarados escondia-se atrás de rendas ou mascarilhas costuradas a preceito e era um feito conseguir enganar a assistência. Às vezes, discutia-se durante dias quem seria um ou outro mascarado e não se chegava a descobrir ou então isso acontecia quando o interesse pelo assunto já tinha arrefecido. Havia quem levasse tão longe o espírito carnavalesco que pessoas que estavam nos seus afazeres se viam obrigadas a larga-los pela interferência dos entrudos. Tanto podiam tirar a roupa às mulheres que lavavam na fonte, como fugir com um saco de grão que alguém levava para o moinho, ou soltar as vacas que puxavam um arado e levá-las para o pasto, obrigando o dono a deixar o trabalho e ir para o baile. Qualquer atividade que afastasse as pessoas do espaço comum de divertimento podia ser objeto da intrusão dos mascarados e a sua interferência era em geral respeitada, ninguém levava a mal.

Nesse ano, em que tinham contratado um tocador para todas as noites e um vizinho que se ajeitava com a concertina dava o seu contributo à animação geral, a folia prometia não faltar. Desde o jantar da noite de Reis que parte da mocidade se preparava para desafiar o pessoal do lugar mais próximo e ver quem levava a melhor em máscaras e trapalhadas. Era uma tradição antiga mas há anos que não se juntavam os dois lugares para entrarem em despique. Os de Vilarinho iriam no domingo a Andorinho, os daqui iriam a Vilarinho na terça feira. Sempre à tarde, o estômago bem aconchegado pelas carnes que nesses dias eram menos escassas, nas vésperas de uma quaresma que chegava em auxílio da dona de casa que se via mal para fazer chegar o conduto até à matança seguinte. Também era o dia das últimas guloseimas até à Páscoa, em nenhuma mesa faltavam as rabanadas, nalgumas acolitadas por arroz doce ou aletria, dependendo mais da vontade de festejar do que das posses, pois sobremesas mais humildes não há.

Para a posteridade não haveria de ficar o confronto entre os dois lugares, a mocidade a dar o seu melhor para ultrapassar relatos de comemorações passadas e perpetuar a rivalidade que só existia à superfície. Estavam os participantes do desfile de Vilarinho na garagem do tio Canteiro a combinar os últimos preparos e a repetir as deixas do teatro, quando chegou uma missão para o guarda Peres. Devia estar de plantão, mas fizera-se substituir por um colega, já que lhe cabia o papel principal na encenação do desfile. Sentia-se muito ufano da sua imaginação e capacidade de organização e à conta desta esgueirara-se logo depois do jantar, como acontecia há tempos nos domingos à tarde. A mulher andava com a pulga atrás da orelha, eram ensaios a mais para o seu gosto, com aquelas Marias alevantadas todas de volta dele, era bom que estivesse atenta. Mandou um petiz dar-lhe o recado, mas o rapazinho voltou com a informação de que o senhor Peres não estava na garagem. A Benvinda mandou o miúdo para a eira, depois de lhe dar um rebuçado que tirou da algibeira e, a remoer as pragas que lhe ocorriam em surdina, fingindo uma calma que não sentia, bateu com a porta e saiu sem pressa, indagando a si mesma para onde se dirigir. Haveria de dizer que foram as pernas que a conduziram, que chegou a palheiro da tia Brasileira sem dar por isso. A porta estava apenas encostada, o fecho descorrido, sinal de que quem entrara ainda não saíra. Entrou sem ruído, a habituar os olhos à escuridão, perscrutando para lá das frinchas da porta e do janelo que dava para o caminho da Cangosta.

 

(continua)

 

 


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Sábado, 25 de Fevereiro de 2017

OLINDA CARVALHO, UMA GRANDE CONTADORA DE HISTÓRIAS I

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Um Carnaval na Memória Coletiva

 

Como tantas coisas do passado também o Carnaval suscita mil lembranças, mil e uma evocações nostálgicas de um tempo que foi muito melhor do que o presente. Porque associado à juventude, a mais saúde, a um convívio mais são? É o que se diz. Será, porém, verdadeiro? Do que eu me lembro, a pressão social era, há uma dezena de anos, muito mais pesada do que hoje e ai de quem pisasse o risco! Alguém que desse azo a andar nas bocas do mundo só de lá saía quando a novidade ou amplitude de outro deslize lhe arrebatasse o lugar. O esquecimento podia nunca acontecer, de vez em quando algo voltava a surgir para apoucar sicrana ou beltrana, eram, são quase sempre as mulheres as vítimas das línguas viperinas do povo. Os homens, mesmo que o discernimento delas os coloque no seu devido lugar, merecem geralmente muito mais tolerância e favores das mulheres. Postas a refletir, elas confessam-se mais capazes, mas assumem no outro género méritos maiores do que os que a prática lhes conferem, os que a tradição instituiu.

O Carnaval era a festa por excelência em que novos, velhos e crianças se divertiam. Para muitas rapariguinhas era uma espécie de passaporte para aceder aos bailes destinados às mais velhas, em idade de namorar e procurar o almejado pretendente, sendo este o objetivo de uma vida. Depois de participar, um ou dois anos seguidos, em todos os bailes, de sábado à tarde até à madrugada de quarta-feira de cinzas, qualquer moçoila se sentia com direito a reivindicar participar em todas as posteriores folias carnavaleiras. As mães deixavam-se convencer com mais ou menos facilidade, de acordo com as alegrias do coração, as filhas limitavam-se a reproduzir o que se tinha passado com elas, quando tinham a mesma idade. Os pais eram pouco tidos para a decisão, a maioria porque estava ausente e, se não era o caso, deixavam as coisas difíceis para as mulheres, além de as parirem também tinham de as criar para ninguém ter nada de nada a apontar-lhes.

Naquele ano queriam que os festejos fossem de arromba. Um ano antes, tinha havido dois enterros nas vésperas e ninguém se atrevera a lembrar a época festiva, por respeito para com as famílias dos falecidos. Se a morte do tio Manuel da Marmeleira foi aceite naturalmente, pois já não esperava pela idade e estava acamado há tempo, fez-lhe Deus favor, o mesmo não se pode dizer da partida inesperada do Francisco Americano, vítima fulminante de um garrotilho que o levou em menos de oito dias, tinha vinte e três anos. Foi uma dor de alma naquele lugar e nos adjacentes, nunca até àquela data um enterro foi mais concorrido. Ouvir a mãe e as irmãs a gritarem por ele entranhava-se no coração mais empedernido, até os homens deixavam as lágrimas correr sem se esconderem, tamanha dor tinha de ser partilhada, nem que fosse apenas para aliviar um pouquinho a noite negra que caíra sobre aquela família.

O tempo mostrou-se amigo, esquecido da neve, apenas uma chuva miudinha na segunda à tarde. Assim, em espaços abertos, os entrudos podiam resultar os variados números, muitas vezes preparados de longe, outras deixados ao improviso e a sugestões do momento, algumas limitando-se a reproduções por demais conhecidas, mas que faziam sempre rir, que mais não fosse pelo conhecimento antecipado da coisa. Depois do almoço de sábado, onde a mesa era ainda frugal, as carnes e outras iguarias eram para domingo e terça feira gorda, acorria o povo à eira do meio. As crianças não paravam, chegava o tocador, as velhas e velhos acomodavam-se nos bancos que iam surgindo de um canto e de outro, alguns improvisados com o que estava à mão, as raparigas punham-se de um lado, os rapazes, sempre em menor número do que elas, de outro. Começava a concertina na sua função e de seguida os pares a rodopiar, sob os olhares atentos, perscrutadores de mães, pais, avós, vizinhos em geral. Todos dançavam com todos, as raparigas que ficavam sem par iam buscar os velhotes que saíam para o terreiro, o entrudo é assim mesmo, alguns rapazes faziam o mesmo com solteironas que já não estavam para festas, mas carnaval é carnaval. Em geral só mulheres de meia idade, viúvas de maridos emigrados, é que não participavam na dança. A muitas não faltava a vontade, mas o recato impunha distância daquelas alegrias e, estando por perto, gozavam os olhos, já era bem bom.

Quando menos se esperava, ora com introdução a preceito, fazendo-se anunciar, ora de rompante, eis que fazem parar o baile. Entravam os mascarados, com um número ensaiado para animar, para fazer rir, às vezes até às lágrimas. Era mister que a identidade dos entrudos não fosse descoberta. Ele era ver o médico que assistia ao nascimento de uma criança e fazia sair um ser horrendo debaixo de uma saia branca manchada de vermelho, ele era o mesmo médico a fazer uma intervenção cirúrgica e a extrair um chouriço que deveria ser o apêndice, ele era o casalinho que pretendia dar o nó e o padre se recusa porque o noiva é mais alta do que o noivo e este precisa de crescer e depois aparecer.

 

(continua)

 

 


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Sábado, 11 de Fevereiro de 2017

UMA CARTA IRÓNICA

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ANA CORREIA FEIJÓ

  

Nasceu na Casa da Cordeira em 8 de Julho de 1832 e cinco dias depois foi baptizada na igreja paroquial de Rouças.

Os seus paraninfos foram Frei Bento do Pilar, D. Abade do Mosteiro de Tibães e Geral da Congregação Beneditina do reino e D. Ana Joaquina de Castro Sousa e Meneses, da Casa de Galvão, e impuseram-lhe o singelo nome de Ana, mas pela vida fora os próprios pais lhe chamaram Ana Cândida numas ocasiões e Ana Joaquina noutras.

Assim, quando em 14 de Fevereiro de 1852 a mãe encarregou o filho padre em Ponte de Lima a representar na escritura de nomeação de prazos em sua posse, deu-lhe o nome da madrinha – Ana Joaquina – e dois anos depois, numa outra escritura, a impôs como Ana Cândida.

Enquanto, porém, não passou de menina toda a gente a tratou por Ana e assim aparece ela em baptizados ao lado dos irmãos José Agostinho, P.e António e Manuel.

Os feitos de Ana e Manuel associaram-nos na vida e não é, por isso, de admirar encontrá-los juntos em 11 de Outubro de 1832 a vender em comum a José Albano Dantas, dos Carvalhos de Rouças, a propriedade de Cecrinhos, de pão e vinha, sita no lugar do comprador, não importa dizer agora por quanto.

Também foi a eles ambos que a mãe doou por escritura de 23 de Dezembro de 1872 todas as propriedades por ela possuídas no lugar da Boa Vista; formavam uma quinta que valia bem oitocentos mil réis e rendia por ano dez por cento.

Actos menos reflectidos de Manuel Feijó contristaram e amarguraram muitas vezes o coração fraterno do clérigo e se, na verdade, a D. Ana interveio sempre entre os arrufos dos dois manos como anjo da paz, nem sempre a sua inteligência conseguiu forjar a frase exacta para acalmar a irritação e levar o preciso conforto moral a Santo Estevão da Facha ou alcançou afastar de si e do Manuel as justas recriminações do padre.

E a prova está nesta carta a exibir a tristeza sob a capa da ironia:

 

       Ex.ma Senr.ª

12-2-84     D. Ana Corr.ª Feijó

 

Apenas me cumpre dizer q V. Exª decerto se esqueceu de uma carta que me escreveu no anno de 1883, dizendo que recebera de seu mano Manuel trinta libras, com que comprara uns touros e bois se me não engano; porq se disto se lembrara não vinha dizer agora a ha tres annos não tinha recebido um real, quando desde aquella época até hoje apenas tem decorrido um anno. Ora se falla verd.e nesta última carta então mentiu na primeira, e se disse na primeira uma verdade neste cazo mentiu nesta, q me escreveu agora. Peço que resolva este problema, e q applique a sua pessoa o nome que lhe compete. Tambem tenho em meu poder outra carta do seu mano Manuel do mesmo anno, em que declara levar mais pª Melgaço 25 mil reis pª tratar dos foros, e V. Ex.ª declara agora que não sabe desse drº

porq no questou que o não gastou; mas neste cazo como elle está ahi na sua companhia, q lhe declare pª q foi tal quantia, a mim só me compete dizer a todo mundo e não só ao Antº do Pombal, q desde o anno de 1881 mandei pª Melgaço 961$550, apesar de V. Ex.ª me recomendar q não o diga a pessoa alguma que ha tres annos lhe tenho dado. Enq.to ao seu mano Manuel ter gasto a renda de sua Prima Maria eu nada tenho com isto, porq felismente não preciso q ninguem me ajude a fazer as minhas obras. Se seu mano fes torres no ar eu não lhas mandei fazer, por q não lhe encomendei tão grande sermão, e se lá não vou, ainda mais queria fazer, já se sabe a minha custa. O que elle fes foi muitos calotes, e não pequenos, um de cincoenta mil reis ao negociante em Ponte, que se não lembrou de pagar e outro de onze livras a uma mulher de Darque segundo me consta, e por último deixou tudo arrazado, muros na chão, paredes e latas no m.mo gosto e dep.s de tudo isto V. Ex.ª deita a berrar q seu mano Manoel tem sofrido muito. A isto respondo que ninguem mais tem sofrido do q a minha bolsa; mas pª que seu mano não sofra mais q se deixe estar com sua Ex.ma Mana, porq na sua companhia está muito bem. Deste modo não cauzamos encommodos uns aos outros, e m.mo V. Ex.ª assim o estima e assim o quer e deseja. Pois bem está a sua vontade feita. Entre tanto diga a seu mano que me remetta já a letra do Coelho antes que se perca aquelle drº p.r q p.a perjuizo já basta, e eu irei tomar conta do que é meu, p.ª não encomodar as suas pessoas. Creio q nisto lhe faço um grande serviço, visto lamentar V. Ex.ª tanto trabalho, q lhe tem cauzado os bens de seu irmão padre. Deste modo ficão terminadas todas as questões.

                                                              Seu mano

                                                                Antº

 

Note bem: Ha um anno q foram 30 libras, e por isso esteve calada até agora, sem falar em segurança do drº e como não foram este anno outras tantas, então já berra. Pois olhe q tem então m.to que berrar».

 

Foi esta senhora que em Rouças faleceu no dia 22 de Setembro de 1885, embora o assento de óbito lavrado pelo pároco na ocasião do decesso de D. Ana não corresponda à verdade inteira. Era solteira e faleceu s. g.

 

O MEU LIVRO DAS GERAÇÕES MELGACENSES

Volume I

Augusto César Esteves

Edição da Nora do Autor

Melgaço

1998

pp. 176-178

 

 


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Sábado, 3 de Dezembro de 2016

SAGRADO E PROFANO

19 c2 - anos 30 XII.jpg

                                 texto e desenho de manuel igrejas

 

O SAGRADO E O PROFANO EM MELGAÇO NOS ANOS 30 DO SÉCULO XX

 

Tradição enraizada na fé do povo da Vila de Melgaço, era, em Maio, a devoção ao Sagrado Coração de Maria quando acontecia festividade e a Primeira Comunhão das crianças.

Naquele ano a preparação em torno dos preparativos no que respeita à solenidade eucarística, foi fora do comum.

As famílias empenharam-se ao máximo para que as suas crianças fizessem boa figura. Tanto mais importante que o sacramento que pela primeira vez as crianças iam partilhar era o exibicionismo nas roupagens. Nos rapazes não dava para variar muito nas calças e na camisa branca e em alguns com casacos. Já nas raparigas era ver o luxo nos tecidos e modelos dos vestidos.

A maioria da rapaziada aprendia as orações obrigatórias em casa com a família, geralmente as mães; a doutrina, os princípios teológicos, eram ensinados pelas catequistas, as Donas Leonor e Emília Durães, com ajuda de outras senhoras, durante algumas semanas, diariamente, à tarde. O Padre Firmino que paroquiava as freguesias de Prado e da Vila, aparecia raramente para dar ênfase aos pecados e ameaçar com o fogo do inferno. Numa das prelecções, quando frisava que o fogo do inferno era eterno, o Manel do Jacob observou: - então a gente acaba por se habituar…

No domingo da festa, logo cedo, o Augusto do Félix chamou o seu pimpolho para se arranjar com esmero. O Manel e o Rogério, ambos fazendo a sua primeira comunhão, vestiam a rigor com fatos pretos confeccionados especialmente. Era o Manelzinho o mais novo da turma entre rapazes e raparigas. A maioria ou a totalidade daquelas crianças, por serem muito novas, não tinham a verdadeira noção do que iam fazer, e o Manel, a par da vaidade que a sua figura proporcionava aos parentes sofria tremenda expectativa ao pensar que não iria corresponder às recomendações. O primeiro dilema já fora no dia anterior quando voltou da confissão e em meio a uma brincadeira mandou o irmão à merda. O Ná, que trabalhava na alfaiataria, para o arreliar disse-lhe que a palavra era pecado.

Foi preciso o pai dizer-lhe que não era tão pecado assim, para o sossegar.

 A entrada para a igreja, mal comparando, teve alguma semelhança com o desfile de carnaval. Os adultos já superlotavam a nave da matriz da Vila. As crianças assumiram os lugares que lhe estavam reservados em bancos corridos a todo o comprimento da igreja. As pessoas em pé ou ajoelhadas na hora apropriada (ainda não existiam os bancos). Como era missa de festa, solene, como determinava o protocolo, teve sermão. O padre Artur, de Penso, o mais consagrado orador da região, inspiradíssimo, como sempre, arrebatou os fiéis em prolongada dissertação, em dado momento exortou as crianças a pedirem perdão aos pais. Foi uma tremenda confusão. As crianças procuravam o pai ou a mãe empurrando as pessoas. O Manel tinha visto o pai no coro, ia ser difícil passar pelo meio das criaturas e subir lá, sorte que a mãe estava perto e ele não vira, ela é que veio dar-lhe um abraço. Ao receber a comunhão empertigou-se numa atitude solene. A hóstia colou-se no céu da boca e ele não conseguia despegá-la sem que tocasse nos dentes o que lhe fora advertido ser pecado. Assustado, estava a ponto de chorar quando lhe valeu o António Toca, também conhecido por Nossa Senhora, que vinha com um copo d’água auxiliar as crianças naquela dificuldade. Durante o dia tudo foi festa: procissão, banda de música e muita gente andando para cá e para lá. Era gostoso o Melgaço naquele tempo.

A juventude melgacense quando sentia falta em que se ocupar fora dos seus ofícios organizava grupos de futebol. O Sport Club Melgacense fora reorganizado duas ou três vezes mas por pouco tempo vingava. O Toninho do Augusto do Félix que aparecia como adolescente promissor, líder dos rapazes na sua faixa de idade, com o João do Padeiro, fundou um grupo de futebol a que deu o pomposo título de União Artística Melgacense. As novidades sempre empolgavam e logo adquiriram o equipamento, um jogo de camisolas com listas verdes e brancas, verticais. Sobravam rapazes naquele tempo. Os irmãos, Carriço e Mi da Amália, mais o Carlota e outros, organizaram um grupo adversário, Atlético Club Melgacense, de início com as camisolas do extinto Sport. Logo se manifestou grande rivalidade no campo de jogo e muito mais fora dele. O povo da terra também por não ter  em que se envolver acudia por um ou por outro grupo, conforme o parentesco ou amizade com os jogadores. Segundo comentavam, antigamente as disputas eram entre os partidos políticos, diversão proibida naquela época. Jogaram algumas vezes entre si, ganhava um e ganhava o outro. Para aquilatar a soberania fora do campo organizavam bailes ao despique no carnaval. O União promovia os seus bailes na sala da Chico da Serra, ali no início da rua Direita, em frente à igreja, encostada à Farmácia Barreiros. No terreno o João Cataluna acabava de montar a Pensão Olímpia. O Atlético promoveu seus bailes no Salão Pelicano. Mais que os próprios bailes a sensação que os rapazes do Atlético imprimiram os seus carnaval foram os cortejos que antecediam.

O Sr. Silva, o mestre da marinha, pessoa grada e muito respeitada atendeu aos apelos e envolveu-se nos desfiles do Atlético. Foi ele o responsável pelos temas, organização e ensaios dos cortejos. Demonstrou grande capacidade de coreografia que redundou no grande sucesso dos desfiles. No largo da Calçada, onde tinha a bomba de gasolina do Sr. Teixeira, reunia-se a turma e se organizava conforme o tema a desenvolver no desfile. Rapazes e raparigas fantasiados de acordo, saíam cantando rua abaixo, Terreiro, rua Direita até ao Salão Pelicano. Durante quatro sábados apresentaram cortejos em temas e canções. O último foi uma apoteose. Uma réplica do castelo, iluminada por dentro, transportada como um andor, encheu os olhos do povo e muito aplaudido. A música entoada por todos os componentes fantasiados e sacudindo enfeites nas mãos, com letra brejeira sobre a música duma canção em voga, que em dado trecho dizia: Meu patrão mandou-me embora, mas não foi por roubar nada, foi só por molhar a pena, no tinteiro da empregada…

Como acontecera com outras manifestações também esta feneceu. A empolgação inicial logo dava lugar ao desânimo pela monotonia da repetição. Era como uma doença endémica.

 

 

                                                                                                                       Manuel Igrejas

 

Publicado em: A Voz de Melgaço

 


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