Sábado, 4 de Junho de 2016

A FRONTEIRA DE SÃO GREGÓRIO

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ESTADO CEDEU QUATRO EDIFÍCIOS POR CINQUENTA ANOS

 

CÂMARA DE MELGAÇO FICA COM CASAS DE FRONTEIRA 

 

Os quatro edifícios da antiga Estação Fronteiriça de São Gregório, em Cristóval, freguesia mais a norte do território nacional, foram cedidos pelo Estado à Câmara de Melgaço, gratuitamente e por cinquenta anos.

De acordo com o município liderado pelo socialista Manoel Batista, os imóveis, que durante muitos anos constituíam o posto fronteiriço de ligação a Espanha, «vão ser requalificados e devolvidos à comunidade».

Manoel Batista assegurou «já ter projetos para os quatro edifícios, atualmente em avançado estado de degradação», mas que «só divulgará oportunamente».

Com a assinatura do contrato de concessão de utilização da antiga Estação Fronteiriça de São Gregório, e após «inúmeras diligências junto do Ministério das Finanças», a autarquia vê «concretizada uma aspiração antiga».

«Foi já assinado entre o município e o Ministério das Finanças o contrato de concessão que cede, a título gratuito, e por um período de 50 anos, o imóvel do Estado denominado por Antiga Estação Fronteiriça de São Gregório, em Cristóval, Melgaço», adiantou a autarquia.

Para Manoel Batista, «esta medida vai permitir recuperar um património de elevado interesse a nível local e regional, retirando esses edifícios de um processo de degradação contínua».

 

                                                                                                                    Redação/Lusa

 

Diário do Minho, 26.5.2016

 


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Sábado, 14 de Maio de 2016

ALVAREDO

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COROGRAFIA PORTUGUEZA, E DISCRIPÇAM TOPOGRAFICA DO FORMOSO REYNO DE PORTUGAL

 

 S. Martinho de Alvaredo,

que algum tempo se chamou de Paderne, he Curado annual com titulo de Vigairaria do Mosteiro de S. Fins dos Padres da Companhia, com oito mil reis de ordenado, ao todo cincoenta mil reis, & para os Padres cento & vinte mil reis: tem cento & sessenta visinhos. Onega Fernandes senhora principal sendo viúva, & tendo habito de Religiosa, deu a quarte parte desta Igreja a Dom Affonso Bispo de Tuy, & àquella Sé em 13. de Abril da era de 1156. que he anno 1118. na qual confirmaõ seu filho Payo Dias, & sua filha Aragonta Dias. Ha nesta Freguesia duas Torres com alguma renda, chamase a huma de Villar, outra a Torre somente, & de ambas saõ senhores os Marquezes de Tenorio. A que está defrôte de Galliza he Solar dos Marinhos, que se entende haver sido do Dom Froyão, fidalgo Italiano, que veio a este Reyno com o Conde Dom Mendo ajudar a expulsar os mouros delle. Entendese que elle, ou algum filho fez esta Torre, & Casa solariega de sua família, & não faz contra isto o que diz o Conde Dom Pedro, & outros Gallegos, que o segue, que os Marinhos são naturaes de Galliza; porque naquella era andava com ella mistica a nossa Provincia. Casou com Dona Marinha, de que teve Dom Joaõ Frojás Marinho, que de sua mulher houve a Payo Annes, Dom Gonçalo Annes, Dom Pedro Annes, Dom Joaõ Annes, & Martim Annes, que todos se apellidàraõ Marinhos; de hum sahiu o Solar de Olloa, de outro o de Imra, & delles vem os Condes dos Mollares, Adiantados de Andaluzia, os Duques de Alcalá, & por aqui os mayores de Espanha. Outros ficáraõ em Portugal, dos quaes eraõ aquelles dous irmaõs, que serviraõ no Paço a ElRey Dom Affonso o Terceiro, onde lhe succedeu com Dom Vasco Martins Pimentel a pendência, que conta o Conde Dom Pedro. Alguns dos já ditos passáraõ a Galliza por casamentos, de que descendem muitas Casas daquelle Reyno, & nesta ribeira do Minho, Ponte de Lima, & outras partes. Este Solar parece que passou a Pedro Alvares de Sotomaior, por casar com Dona Elvira Annes, filha de Joaõ Pires Marinho, neta de Dom Pedro Annes Marinho, bisneta de Dom Joaõ Frojás Marinho, & terceira neta do dito Dom Froyão, do qual matrimonio nasceo Dona Elvira Pires, mulher de Fernão Gonçalves de Pias, senhor do Solar de Pias, que entendemos ser a Torre de Sobreyra em Santiago de Pias, de que fallamos em Monção, suposto outros o levão ao Reyno de Galliza. Tem os Marinhos por Armas em campo verde cinco flores de Liz de prata em aspa, & por timbre huma serea de sua cor com cabellos de ouro. Alguns trazem em campo de prata tres ondas azues, & de fóra do escudo duas sereas de p´r tendo maõ nelle. Assim estaõ em humas casas na rua de S. Joaõ dentro dos muros de Ponte de Lima, & saõ dos descendentes de Vasco Marinho, filho de Álvaro Vaz Bacellar de Monçam, & por sua mãy dos Marinhos de Galliza, senhor da Casa de Goyannes, junto à Ilha de Salvora no Arcebispado de Santiago, em que fizeraõ Solar, porque desta Provincia pssáraõ para aquelle Reyno, aonde trazem quatro ondas na mesma forma com a serea por timbre, & outros em campo azul cinco meyas flores de Liz de ouro em aspa. A alguns pareceo tomarem este apellido, & Armas por descenderem de huma mulher marinha, ou serea, mas he fabula: o certo foy por trazerem sua origem do Romana Cayo Mário, & desta familia he o nosso Santo Portuguez S. Marino, que em Cesaria padeceo martyrio em 10. de Julho, imperando Juliano.

   He Conde desta Villa de Valladares por mercé delRey Dom Pedro O Segundo Dom Miguel Luis de Menezes, cuja illustre varonia he a seguinte.

  Dom Antonio de Noronha foy filho segundo de Dom Pedro Menezes, primeiro Marquez de Villa Real, & de sua mulher a Marqueza Dona Brites de Bragança; fiou seu pay delle sendo de dezoito annos o negocio de mayor importancia, & foy, que indo fogindo do furor delRey Dom Joaõ o Segundo Dom Alvaro de Ataíde, & seu filho, que eraõ dos mais culpados na conjuraçam do Duque de Viseu, o Marquez movido a lastima os poz a salvo, & mandou pelo dito Dom Antonio de Noronha seu filho seguralos até a raya de Castella, & depois foy dar conta a ElRey do que fizera em satisfaçaõ de sua lealdade; o que o dito Dom Antonio obrou com tal modo, que admirado elRey em sogeito de tam pouca idade  tal prudencia , & valor, o fez de seu Conselho, dandose por satisfeito de sua lealdade, & do Marquez seu pay; & aos que diziaõ, tam poucas barbas naõ eraõ capazes de lugar de tanta confiança, respondeo ElRey: Os filhos da Casa de Villa Real nascem emplumados: & confiou delle o substituir a seu pay no lugar de Ceuta, aonde o succedeo, estando hum dia no campo passeando, dando guarda aos da Cidade, sahirlhe pelas costas hum Leaõ, que dando nas ancas do cavallo, o fez em pedaços, & Dom Antonio pegando nos braços do Leaõ, o sustentou, até que hum flecheiro atirandolhe huma setta, com que lhe deu em huma perna, o fez virar para onde o feriraõ, & deu tempo a que Dom Antonio tirando de hum punhal, o metesse pela barriga do Leaõ, & ganhasse a vitoria de tam espantosa luta. Achouse na tomada, & sítios de algumas praças de Africa, (& em varias Armadas) & lá fez algumas entradas com feliz successo, mas descontouse; porque vindo de huma entrada, deraõ os Mouros nelle, & ficou cativo: resgatouse por Halibarache; ElRey Dom Manoel o fez seu Escrivaõ da Puridade, & foy Procurador do dito Rey para se effeituar o casamento da Emperatiz Dona Isabel, & o fez Conde de Linhares, dandolhe cento & sessenta mil reis de assentamento pelo particularizar mais aos outros Condes, & em lugar do tal assentamento, por lhe fazer mercé inda com mais ventagem, lhe deu em treze de Janeiro de 1502. a dizima nova, & velha do pescado de Atouguia, a qual dizima trespassou a Dom Affonso de Ataíde no anno de 1518. comprou com licença delRey a Affonso de Almeyda a Alcaydaria mór de Linhares; & a Francisco de Caceres de Mello as Villas de Algodres, Penaverde, & Fornellos: casou com Dona Joanna da Sylva, filha de Dom Diogo da Sylva, primeiro Conde de Portalegre, & de sua mulher Dona Maria de Ayala, de que teve, entre outros filhos, a

   Dom Antonio de Menezes, que foy Alcayde mór de Viseu, & morreo na batalha de Alcacere; casou com Dona Joana de Castro, filha de Dom Jeronymo de Castro, Governador da Casa do Civel, & senhor do Paul do Buquilobo, & de sua primeira mulher Dona Cecilia Henriques (que era filha de Rui de Mello, chamado o Punho, Alcayde mór de Evora, & Alegrete, Commendador de Proença, & de sua mulher Donna Joana Henriques, que era filha de Dom Carlos Henriques, & de sua mulher Dona Cecilia de Brito, filha de Artur de Brito, Alcayde mór de Beja, & Dona Catherina de Almada,) teve o dito Dom Antonio de Menezes de sua mulher Dona Joanna de Castro, entre outros filhos, a

   Dom Carlos de Noronha, que foy grande letrado, Presidente da Mesa da Consciencia, & Commendador de Mouraõ na Ordem de Aviz: casou com D. Antonia de Menezes, filha de Dom Miguel de Menezes, Segundo Duque de Caminha, & de Dona Maria de Sousa, mulher nobre, natural de Ceuta, com quem casou, como declara o seu testamento, & a legitimaçaõ feita a sua filha em Abril do anno de 1634. de que teve a

   Dom Miguel Luis de Menezes, que he hoje Conde de Valladares, Commendador de S. Joaõ de Montenegro, de Saõ Joaõ da Castanheira, & da Commenda da Granja junto a Loures termo de Lisboa: casou com Dona Magdalena de Alencastre, filha herdeira de Dom Alvaro de Abranches & Camera, & de sua mulher Dona Maria de Alencastre, de que teve, entre outros filhos, a Dom Carlos de Noronha, & a Dom Alvaro de Abranches, Bispo de Leiria, Prelado de grandes letras, & virtude, & a Dona Francisca Ines de Alencastre, que foy casada com Pedro de Figueiredo, de que ha geraçaõ,

   Dom Carlos de Noronha he herdeiro da Casa de seus pays, casou com Dona Maria de Alencastre, filha de Luis da Cunha de Ataíde, senhor de Povolide, & de sua mulher Dona Guiomar de Alencastre, a quem teve Dom Miguel de Menezes, Dona Guiomar, Dona Magdalena, & Dona Joanna.            

 

 P. Antonio Carvalho da Costa

Na officina de VALENTIM DA COSTA DESLANDES

Impressor de sua Magestade, & à sua custa impresso.

Com todas as licenças necessarias. Anno M. DCC. VI

 

Retirado de: http://books.google.pt

 


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Sábado, 7 de Maio de 2016

O MESTRE DA PEDRA

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cruzeiro do regueiro

 

MESTRE REGUEIRO 

 

Em terras de Melgaço, é de crer que nenhum outro artista tenha deixado de si tantas e tão belas memórias escritas no duro granito da região como as que deixou Manuel José Gomes vulgo Mestre Regueiro, canteiro distinto que de toscas e rudes pedras obrou maravilhas. Os seus trabalhos quer pela solidez e perfeição de acabamento, quer pela pureza e harmonia de linhas denotam ter sido ele não só um artista consumado, como também um homem consciencioso e de vistas largas. Não era ceguinho… e no Alto Minho, apenas o deve ter igualado, igualado, mas não excedido, Mestre Francisco Luís Barreiros, de Ponte do Mouro, autor do célebre «Pedro Macau» deste lugar, do sumptuoso e formosíssimo escadório da Santuário da Peneda e de suas respectivas estátuas e de muitos outros não menos apreciados lavores.

Associado com seu irmão António bom artista também, mas muito longe de chegar às solas daquele Mestre Regueiro, deixou no concelho uma obra vastíssima, entre ela os prédios do sr. dr. Pedro Augusto dos Santos Gomes, na Praça da República, do sr. dr. António Cândido Esteves, na Rua Nova de Melo (1873); o que foi do médico Francisco Luís Rodrigues Passos, na Vinha das Serenadas (1885), e o que foi de Joaquim Luís Esteves, na Rua da Calçada; o edifício do Hospital (iniciado em 1875); o «Asilo Pereira de Sousa», em Eiró; o frontal, ou melhor a escadaria, da igreja de Prado (1884) e pouco depois a de Remoães; o artístico e aprimorado cruzeiro do Regueiro (1859) e a capelinha da Senhora dos Aflitos no mesmo lugar (1866); o cruzeiro de Fiães (1875), a pia baptismal e uma imagem em pedra da igreja de S. Paio, cuja perfectibilidade e acabamento dão a impressão de terem sido feitas em mármore, etc., etc.

Porém, o seu maior título de glória, é o falado cruzeiro do Regueiro, onde o artista atingiu, por assim dizer, o sublime. O seu maior título de glória é este, é; mas… ainda assim… tenho para mim que há outra obra à sua autoria atribuída que, se não iguala aquela, pouco lhe ficará a dever. E esta é, nem mais nem menos, do que o arrebatador e elegantíssimo fontenário da Casa do Reguengo (1875) uma jóia… uma maravilhazinha em pedra lavrada, desconhecida ou quase da maioria dos Melgacenses…….

 

P. Júlio Vaz Apresenta Mário

P. Júlio Vaz

Edição do autor

1996

pp. 91, 92

 


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Sábado, 9 de Abril de 2016

CRISTÓVAL NO INÍCIO DO SÉCULO XX

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A FÉ É A QUE NOS SALVA

 

O povo de Cristóval foi sempre hospitaleiro e crente, amigo do diálogo e acolhedor. Gosta de conviver e do diálogo. Eu lembro com muita saudade os conselhos dados pelos mais idosos, que nós ouvíamos com atenção e depois púnhamos em prática. Eram grupos de pessoas que se juntavam atrás dum muro tosco nas Arroteias, que lhes impedia o vento de lhes tirar o lenço da cabeça que, a fazer de boné, puxando para a testa, não permitia que o sol lhes queimasse o rosto. Que saudades eu tenho desses tempos, Deus meu! O povo de Cristóval era humilde e trabalhador. Porque não havia fábricas nem qualquer indústria, dedicavam-se os seus habitantes ao cultivo da terra e do contrabando. Semeava-se milho, feijão, centeio, batata, cultivava-se o linho, etc. Porém, em anos de prolongada seca e quando os lavradores viam as suas colheitas ameaçadas, chorando, imploravam a protecção Divina e, em profundo silêncio, organizavam a Procissão de Penitência. Então, era tirado o Senhor dos Passos e a Senhora das Lágrimas – que só saiam dos altares em ocasiões de grandes crises – , e cada imagem, ao ombro de quatro homens valentes, saiam da Igreja acompanhados de enorme multidão, formada por jovens e adultos, homens e mulheres, todos descalços, que seguiam em procissão por caminhos difíceis desde Cristóval até S. Gregório, donde seguiam depois pela estrada, que os conduzia de novo à igreja. Eu era ainda criança porém recordo que, numa dessas procissões, saímos da igreja com sol escaldante e, quando regressamos, já chovia copiosamente. Que milagre, Deus meu! Admiráveis tempos esses, em que uma sardinha era partida para quatro (isto foi apreciado por mim em alguns vizinhos) e se ia para o monte, saboreando com o naco de broa, na sacola, e uns cachos de uvas, roçar o mato para a corte do gado. A vida era difícil, mas todo o trabalho era feito ao som de alegres cantigas. O contrabando de ovos, galinhas, sabão, café, pentes, etc., levado para Espanha, também era modo de vida que ajudava os mais necessitados a viver com mais conforto. Porém, era difícil e arriscada a vida do contrabandista. Recordo pelo menos dois vizinhos meus que naqueles tempos se dedicavam a passar contrabando para Espanha e que morreram baleados por um carabineiro espanhol. De Melgaço para S. Gregório não se podia transportar nada, sem a licença da Guarda Fiscal. Então uma pobre mãe de dois filhos, arriscou-se a trazer uma galinha de Melgaço até casa. Foi porém vista por um guarda fiscal que a obrigou a acompanhá-lo até ao Posto de Cevide, a 2 Km de distância, onde havia de pagar uma multa ou ir para a cadeia. A pobre vítima, com a galinha debaixo do braço, seguia a autoridade. Porém, quando chegou ao Posto onde se encontrava o Sargento que iria dar a sentença, a galinha ia morta, porque a portadora, muito silenciosamente, tinha-lhe retorcido o pescoço. Tempos difíceis sem dúvida, mas que apesar de tudo, se ultrapassavam as mágoas, cantando e rindo.

 

                                                                         Cristóval – Betty

 

Retalhos de Vidas

Edição: Câmara Municipal de Melgaço

Outubro 2002

pp. 63-64

 

 


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Sábado, 6 de Fevereiro de 2016

FRONTEIRAS A SALTO

 

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primeiros metros dum país, primeiros metros da nossa terra

 

O escritor neo-realista Assis Esperança publicou, em 1963, o romance Fronteiras, cujo título denuncia o tema. Aventura e drama continuavam a misturar-se no forçado exílio para que arrastado o trabalhador do campo e da cidade, maioritariamente compelido a buscar em terra estranha as condições de vida que a pátria não lhe proporcionava. Na Europa, a França, Luxemburgo e Alemanha perfilavam-se como destinos procurados. A emigração clandestina, tentada a salto apesar do forte controle ditatorial salazarista, constituía o recurso de que grande parte se via forçada a servir-se. As redes e caminhos do contrabando ofereciam-se por todo lado. Do litoral ao interior do país, alimentava-os esmagadora procura de trabalho para mão de obra não especializada. No romance de Assis Esperança se confirma que os engajadores não paravam de recrutar «homens da Beira Litoral e do Alto Minho, os de Castro Laboreiro numa percentagem ainda tão razoável que (…) levava a pensar que naquela e, possivelmente noutras regiões serranas apenas acabariam por ficar algumas mulheres, os velhos e as crianças». A obra oferece a surpresa de ser uma mulher, e com alguma escolaridade, a protagonista que vai demandar trabalho além fronteiras.

 

Retirado de:

Estudos em Homenagem a Luís António de Oliveira Ramos

Universidade do Porto

 

http://books.google.pt

 


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Quarta-feira, 23 de Dezembro de 2015

NÃO SÃO SÓ VELHOS EM MELGAÇO

 

 


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Sábado, 12 de Dezembro de 2015

UMA LIÇÃO SOBRE O BICHO DA SEDA

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AS MINHAS CARTAS

 

Precisamente na situação da indústria paliteira está a indústria da sericicultura, com o centro principal e antigo em Mirandela e um secundário e novo para os lados de São João da Madeira. Com ela não se arranja uma fortuna rápida, mas leva-se melhor a vida e merece a pena experimentar se da mesma se faz ou pode fazer dentro duma dezena de anos uma ocupação doméstica entre as populações rurais de Melgaço.

Todos conhecem a seda animal, esse tecido leve e sempre lindo, muito usado e apreciado pelas senhoras e cavalheiros, pobres ou ricos sejam eles. É o produto da baba dum bichinho que muda de pele quatro vezes e se alimenta apenas de folhas de amoreira, o bicho da seda. Esta cultura, em si, é fácil, embora demande cuidado: eu e alguns outros já cá na terra os cultivamos, como mera curiosidade e se com esse trabalho, quase todo entregue às crianças, não ganhamos um real, isso foi devido tão somente a nenhum de nós ter posto a mira no lucro. Mas, que eu saiba, o mais antigo cultor melgacense do bicho da seda foi o Sr. Cândido Augusto dos Santos Lima, aqui vice cônsul de Espanha, porque eu recordo-me de ir à sua casa dias depois do seu falecimento – teria então os meus nove anos – e detrás da porta da entrada ver e admirar pela primeira vez a sua sirgaria: três ou quatro tabuleiros de fasquias de tabuado ou forro onde os bichinhos pacatamente devoravam as folhas das amoreiras. Sem dificuldades de maior quem quer, pois, os pode cultivar. Questão é de curiosidade e de arranjar quanto antes as árvores fornecedoras das folhas em número suficiente e conseguidas estas comprarem um ou dois gramas de sirgo para aprenderem o traquejo desta indústria caseira.

Tempo é dinheiro, dizem os ingleses, e por isso não aconselho ninguém começar esta melhoria de vida pelo seminário de amoreiras brancas, as melhores para o efeito, quer sejam das variedades Moreti e Multicaule, quer das Selvática e Rosa. Não aprovo também a plantação de estacas, aliás bom meio para a reprodução destas árvores industriais, e não recomendo nem aprovo estes sistemas por serem demorados.

O caminho a seguir é requisitá-las aos viveiros do Estado, especialmente aos de Mirandela, porque em troca de meia dúzia de escudos correspondentes às despesas de transporte recebem-se árvores cresciditas, próprias para passados meia dúzia de anos já darem boa ramada aproveitável. Qualquer casinhoto com água e luz, seco e situado em rua pacata, onde perto não bata o martelo de ferreiro e semelhantes, onde não haja ratos nem entrem as galinhas e seus parentes, serve para a criação. O essencial é saber dirigir os serviços, muitos dos quais podem ficar a cargo das crianças e mulheres da casa.

O sirgo compra-se barato também nas estações oficiais das regiões onde mais desenvolvida está esta indústria, limpo e seleccionado; se contudo alguém preferir raça de fora, rústica e de riqueza sedosa também a adquire com relativa facilidade por intermédio dos serviços de O Labrador. Não é aconselhável principiar a aprendizagem desta indústria por uma ou duas onças de semente porque lá está a sabedoria das nações a lembrar: - grande nau, grande tormenta; ou não vá o asno dar com as cangalhas no chão por levar carga de mais. De resto para a alimentação de 30.000 ou 60.000 bichos da seda são precisas muitas e boas amoreiras.

Deve principiar-se por um a cinco gramas de sirgo e se houver cuidado e higiene com os bichinhos não se admire o cultivador se no fim de dois meses de trabalho, Abril e Maio por exemplo, não receba 200$00 a um conto de réis, pois o grama de semente costuma dar dois quilos de casulos, quilo. Ora, representando o bicho da seda um arremedeio para os pobres, por que Melgaço não há-de experimentar a sericultura e depois implantá-la como indústria concelhia?

 

Publicado em Notícias de Melgaço, 8/4/1956

 

Obras Completas

Augusto César Esteves

Vol. I  tomo 2

Edição Câmara Municipal de Melgaço

2002

pp. 564, 565

 


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Sábado, 5 de Dezembro de 2015

ÉRAMOS NOVE IRMÃOS.

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Cristóval

 

SALVARAM-ME A VIDA

 

Nasci no dia 3 de Maio de 1919. Éramos nove irmãos.

Actualmente, só eu e a minha irmã estamos vivas.

Não cheguei a conhecer o meu pai. Eu e a minha irmã não somos filhas do matrimónio e esta (minha mãe?) nunca nos disse quem era o meu pai, sei, segundo fontes, que já morreu.

Cedo comecei a trabalhar. Como vivo na zona de fronteira, comecei cedo a ganhar o meu sustento através do contrabando.

Comecei a fazer contrabando de galinhas, de ovos e depois nas sardinhas.

Quando andávamos na rambóia das galinhas, tínhamos que passar o rio, para isso tínhamos que cortar uma árvore para passarmos.

Muitas vezes, fomos apanhados pelos carabineiros e éramos obrigados a deixar as galinhas atrás e fugir a sete pés.

Uma vez, quando tentava ir para Espanha, os carabineiros começaram aos tiros contra nós. Eu, para fugir, meti-me no rio e fiquei presa em dois cotos, lembro-me que levava uns soques novos e um foi pelo rio abaixo. Quando os carabineiros nos viram, pegaram-me pelos cabelos e salvaram-me a vida, levando-me para a berma do rio. Já estava a afogar-me. Entretanto, levaram-me para Monte Redondo e apresentaram-me ao cabo que os mandou entregar-me à guarda de Pousa Foles. Estes entregaram-me à minha mãe. Ouvi dizer que o carabineiro que me salvou ganhou um prémio.

Durante a minha mocidade, para além de trabalhar, namorava muito. Era muito bonita, tinha um cabelo extraordinário. Durante os bailes as minhas amigas zangavam-se comigo, porque os rapazes só queriam dançar comigo pois dançava muito bem. Um dia conheci o meu marido num baile e mais tarde casamos.

Entretanto foi para Lisboa trabalhar e eu fiquei grávida, tendo que trabalhar para me sustentar. O meu marido nunca mais voltou. Segundo me disseram, arranjou uma amante e eu tive de criar a nossa filha sozinha.

Passei muita fome, mas à minha filha não lhe faltou nada.

A minha mãe para me ajudar a matar a fome até moía os casulos para fazer a bica. No entanto, um meu vizinho que conhecia as minhas necessidades e fraquezas quis casar comigo e tomar conta de mim. Casámos e ele sempre me estimou muito, tal como à minha filha. Actualmente, a minha filha Palmira Já tem 63 anos e já tenho dois netos e um bisnetinho.

Eu tenho 82 anos, estou viúva, vivo sozinha. Porém, quase cega e com poucos anos para viver continuo com muita esperança e fé em Deus.

 

                                                           Elvira Domingues – Cristóval

 

Retalhos de Vidas

Edição: Câmara Municipal de Melgaço

Outubro 2002

Pág. 21-22

 


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Quarta-feira, 18 de Novembro de 2015

O CRUZEIRO DA ORADA

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Cruzeiro da Orada 

 

CRUZEIROS

 

 

Aparentando maior antiguidade outro cruzeiro se levantou na Orada, à margem da estrada macadamizada e precisamente no sítio onde se tocam as extremas das freguesias de Santa Maria da Porta e Santa Maria Madalena de Chaviães. Colocado noutros tempos junto da Capela de Nossa Senhora da Orada para o actual sítio foi transferido por ocasião da abertura da estrada nacional de Melgaço para São Gregório.

Como então o deixaram bem junto à parede do suporte do terreno onde fora colocado e só com muita dificuldade as procissões religiosas andavam à sua volta, a junta de freguesia da vila em sessão de 15 de Fevereiro de 1898 deliberou colocá-lo no centro do pequeno recinto e em consequência mandou terraplanar o terreno e encarregou um dos vogais de proceder à nova colocação deste modesto monumento, símbolo da religião cristã do nosso povo.

À arte nada deve o cruzeiro e entrementes a imagem do Cristo crucificado, de bárbara e tosca configuração, contorcido e sem proporções, afinal um aborto saído das mãos de ignorado lapicida, tem muitos e muitos devotos.

Datado de 1567 ele é um ex-voto dos melgacenses daquela era, ali colocado naquele ano de peste, para agradecer a Deus ter poupado Melgaço aos seus horrores ou a pedir um Pai nosso por alma dos ceifados por ela nestas redondezas. Muitos e mui fervorosos devotos teve este cruzeiro, mas foi a sua inércia e o seu desinteresse pela letra de forma quem conseguiu travar uma campanha jornalística encetada num semanário local para aquela imagem de Cristo ser dali arrancada e substituída por outra trabalhada com arte flamejante e resplandecente. No jornal defendiam-se as belas-artes, mas inadvertidamente se atacavam a crença e a tradição e como o povo mal sabia ler, esta obra dos nossos maiores não foi profanada.

 

(Publicado em Notícias de Melgaço de 18/3/1956)

 

Obras Completas

Augusto César Esteves

Volume I  tomo 2

Edição Câmara Municipal de Melgaço

p. 552

 


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Quarta-feira, 11 de Novembro de 2015

CASTRO LABOREIRO HOJE II

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Ribeiro de Baixo, Castro Laboreiro

 

 

CTT na Junta e escola a 16 quilómetros

Há pouco mais de um ano, Castro Laboreiro quase perdia o posto dos CTT. Em protesto, a população cortou a única estrada que liga a freguesia à sede do concelho. A estação acabou mesmo por fechar, mas os serviços foram transferidos para um balcão na junta de freguesia, que funciona três horas por dia. É lá que se fazem os pagamentos das contas, que se recebem as reformas. Isso e pouco mais.

Crianças, nem vê-las. Elisabete Sousa, funcionária do posto de turismo e Secretária da Junta de Freguesia, explica: “As poucas que temos aqui são obrigadas a ir à escola em Pomares”. Desde o ano 2000 que o Ministério da Educação decidiu que Castro Laboreiro não tinha crianças em número suficiente para frequentar as seis escolas espalhadas pelo extenso território da freguesia.

Francelina é proprietária de um dos restaurantes de Castro Laboreiro e tem duas filhas na escola em Pomares. Todos os dias, sujeitam-se a mais de 30 quilómetros de estrada, entre ida e volta. No Inverno, “a preocupação é muito maior”, diz. É que a neve bloqueia a estrada “e o autocarro não arrisca vir por aí acima para vir buscar as crianças”. A solução? “Ou vai lá o meu marido levá-las de propósito ou, então, não vão às aulas”.

A todos os transtornos, acrescenta-se o cansaço das filhas que “saem de casa muito cedo de manhã e só regressam já noite cerrada”. Ficam, muitas vezes, “tão exaustas que nem conseguem fazer os trabalhos de casa”.

Do jardim-de-infância ao quarto ano de escolaridade, é a Pomares que todos vão parar. De lá, os miúdos migram para Melgaço. Depois, chega a hora da universidade. Adultos para se fixar na terra? “Infelizmente, não”, responde Elisabete, com o sorriso amargo de quem antecipa o definhar da terra que a viu nascer.

Vão resistindo os negócios do turismo e da restauração, o principal cartão-de-visita desta zona que beneficia da envolvente do Parque Nacional Peneda-Gerês, mas que se debate com défices que, não sendo tão prioritários como os serviços essenciais, condicionam o dia-a-dia de quem cá vive ou visita a aldeia.

 

Sem telemóveis nem multibanco

Das três operadoras móveis nacionais, só duas funcionam mais ou menos bem e não em toda a freguesia. E o multibanco “só em Melgaço”, diz Fernando, dono de um hotel que também é restaurante e café. Este empresário de hotelaria diz que o estabelecimento “até nem trabalha mal”, mas “nota-se uma quebra no poder de compra” dos clientes, “que são, sobretudo, os espanhóis e os portugueses que viajam com cada vez menos dinheiro”.

É aqui que a crise entra na conversa. Fernando procura empregados para trabalhar na recepção e no serviço à mesa. “Fala-se tanto de desemprego e eu não encontro ninguém que queira trabalhar. Alguma coisa não bate certo”.

Vítor também entra na conversa. É cliente habitual e amigo do dono do hotel. Sempre que pode, vem de Salvaterra de Magos a Castro Laboreiro. É um amante da fotografia, da beleza natural e dos trilhos para as caminhadas. “Por isso, aqui juntei o útil ao agradável. Pena é que as nossas autoridades não estejam atentas ao potencial inesgotável de Castro Laboreiro”.

Fernando concorda. Diz que o turismo em Portugal está viciado por lugares comuns. “No nosso país, o turismo é todo canalizado para as zonas mais evoluídas, como o Algarve. Nós, os pequenos, acabamos sempre esquecidos”. Ou quase sempre. “Aqui só se lembram de nós quando é para pagar os impostos”, desabafa.

 

(continua)

 

 


publicado por melgaçodomonteàribeira às 01:18
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