Sábado, 11 de Novembro de 2017

ANIVERSÁRIO DO BLOG e O HOMEM E A TERRA

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de

MELGAÇO, DO MONTE À RIBEIRA

 

 

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O PELOURINHO DE CASTRO LABOREIRO

 

(…)

Embora Castro Laboreiro fosse erecta Vila e sede de concelho por foral concedido por D. Afonso III, em 1271, o que correspondia ao direito de pelourinho, o actual monumento, desta antiga Vila, data de 1560, tendo-lhes sido concedido novo foral por D. Manuel I em 1513. Constituído por três degraus, uma base, fuste, gola e capitel, rematado por pequena pirâmide, presidiu aos destinos desta região desde 1560 até 1860, data na qual foi apeado do seu legítimo lugar e dispersos todos os seus elementos para naquele local se construir uma casa particular. Os degraus desapareceram para sempre, não havendo possibilidade da sua recuperação. A base consegui descobri-la a fazer parte de um muro de um quinteiro. O fuste encontrei-o a servir de lintel ou padieira na chaminé da casa construída onde ele se encontrava antes de ser destruído. Preocupado com a sua restauração continuei sempre em investigações para descobrir o seu capital. Depois de numerosas pesquisas, fui encontrá-lo a servir de óculo de luz numa casa em ruínas, a uns trezentos metros do local, onde outrora se levantava este monumento. Colocado à altura de uns seis metros num muro dobrado e de alvenaria irregular, dificilmente se poderia verificar se era pertença do pelourinho ou não. Facilitou-me o seu reconhecimento o facto de ser trabalhado a pico fino e de ter a gola circular voltada para fora. Somente em 1978 me foi possível desmontá-lo do respectivo muro com o auxílio dos pedreiros reconstrutores das muralhas do Castelo. Depois do mesmo se encontrar no solo pude averiguar que era verdadeiramente o capitel do antigo pelourinho de Castro Laboreiro, pelo facto de na face interior ostentar uma gola circular com a espessura de 5 centímetros aproximadamente; e na superior um rebaixe de uns 4 centímetros, onde poisava a pirâmide que rematava este pelourinho. Não me foi possível descobrir a pequena pirâmide.

Os trabalhos de investigação para reunir os três principais elementos constitutivos desta preciosa relíquia do passado, prolongaram-se durante vinte e quatro anos. Mas como saber o estilo e forma deste pelourinho para a total identificação dos seus elementos e sua restauração?

Mercê dos trabalhos de investigação do estudante Soeiro de Carvalho no Arquivo Distrital de Viana do Castelo, conseguiu descobrir-se um esboço muito perfeito deste pelourinho, efectuado pelo sr. coronel Fernando Barreiras, em Julho de 1917, data em que fez uma visita de estudo a Castro Laboreiro; e que, servindo-se das preciosas informações de Castrejo sr. Melchior Gonçalves, que ajudara a desmontar e a destruir este antigo pelourinho em 1860, conseguiu com muita precisão representar a lápis este monumento no artístico esboço de todas as peças constitutivas do mesmo, descrevendo com bastante aproximação as respectivas medidas de cada um dos seus elementos, que acompanha este trabalho.

Foi com este referido esboço e memória descritiva de todas as peças de que este monumento constava, que consegui levar a Direcção dos Edifícios e Monumentos Nacionais do Norte a reconhecer como autênticos todos os elementos descobertos podendo assim solicitar àquela entidade a sua imediata restauração.

Quero manifestar publicamente o meu sincero agradecimento a todos os donos das propriedades urbanas, onde as peças em referência se encontravam, pela cedência voluntária das mesmas. Não posso deixar de expressar, como filho de Castro Laboreiro e humilde estudioso destes monumentos, raízes desta região, o meu eterno agradecimento aos meus estimados amigos, sr. dr. Oliveira e Silva, digníssimo Governador Civil de Viana do Castelo; ao sr. engº José Maria Moreira da Silva digníssimo Director do Parque Nacional Peneda-Gerês; ao sr. arquitecto Roberto Leão, do Planeamento do Porto; ao sr. professor Carlos Alves, digníssimo Presidente da Câmara Municipal de Melgaço, e ao sr. Adelino Esteves, digníssimo Presidente da Junta de Freguesia de Castro Laboreiro, por todo o auxílio e apoio que tiveram a bondade de me dispensar, patrocinando uns, a sua imediata restauração; e outros, além do seu contacto com as entidades responsáveis, a oferta do seu auxílio pecuniário. Bem hajam por todo o interesse que me concederam. A imediata restauração de tão belo e histórico monumento será a recompensa bem merecida de todos estes auxílios e trabalhos a bem da cultura nacional, que tão precisada anda de trabalhos de tamanha monta.

 

Castro Laboreiro, 10 de Fevereiro de 1979

Padre Aníbal Rodrigues

 

Retirado de:

http://www.gib.cm-viana-castelo.pt

 


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Sábado, 2 de Setembro de 2017

PONTES ROMANAS E ROMÂNICAS DE CASTRO LABOREIRO

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Ao escolher este tema para o meu primeiro caderno sobre a história e arte das magníficas Pontes que ligam as margens do rio Laboreiro e seus Afluentes, o meu coração de Castrejo bateu mais apressadamente do que é normal: pois tomei uma tremenda responsabilidade perante os meus conterrâneos, quando resolvi soletrar algumas das mais belas páginas do seu rico património histórico e artístico, cujas folhas, constituídas por duro granito da região, continuam a desafiar o tempo e cujas idades se medem por 20 e 8 séculos respectivamente. Apesar da sua já longa existência guardam na sua própria estrutura a mesma grandeza do passado. Por elas passaram os Castrejos de, há já 2.000 anos, e ainda hoje as utilizam para transporem os volumosos cursos de água, no inverno, e os caudais límpidos no Verão. Situada numa grande bacia hidrográfica, esta vetusta freguesia conserva no seu longínquo passado lindas e numerosas pontes que a ligam às civilizações Celta, Romana e Medieval. Embora a sua maior parte haja sido classificada pelo Instituto Português do Património da Cultura, umas como Monumentos Nacionais e outras como Imóveis de Interesse Público, estou certo de que vale a pena descrevê-las em todos os seus pormenores, fazendo o levantamento fotográfico da cada uma, especificando o estilo utilizado na sua construção, com as medidas precisas de altura, comprimento e largura, as vias de comunicação que ligavam e o tempo aproximado da sua construção. É uma tarefa bastante custosa para mim, mas faço-o com o máximo interesse e carinho; pois estas obras de arte e história fazem parte do povo, de quem nasci, e cujo curriculum vitae constitui para mim motivo de orgulho. Os meus defeitos, as suas virtudes estão intimamente ligados ao meu carácter, à minha personalidade. São raízes de um passado, que não volta. Pelo estudo dos seus históricos Monumentos podemos facilmente aquilatar a grandeza e antiguidade da sua civilização. Esperançado em que este meu despretensioso trabalho concorra para um conhecimento mais completo e profundo das antiguidades de Castro Laboreiro, das suas paisagens e das suas gentes, vou iniciar o meu trabalho.

 

Castro Laboreiro, 10 de Julho de 1984

 

Padre Aníbal Rodrigues

 

 

PONTES ROMANAS E ROMÂNICAS DE CASTRO LABOREIRO

 

Autor: Padre Aníbal Rodrigues

 

Edição: Cadernos da Câmara Municipal de Melgaço nº 2

             CÂMARA MUNICIPAL DE MELGAÇO

1985

 


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Sábado, 3 de Junho de 2017

S. ROSENDO, D. AFONSO HENRIQUES E O CASTELO DOS MONTES LABOREIRO

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CASTELO

DOS MONTES LABOREIRO

José Domingues

 

O castelo dos Montes Laboreiro ou do Laboreiro (fr. Castro Laboreiro, c. Melgaço) é a segunda fortaleza mais setentrional de Portugal – a primeira é o vizinho castelo de Melgaço (fr. Vila, c. Melgaço). Situa-se em frente do lugar da Vila de Castro Laboreiro, no alto dum cabeço rochoso da cordilheira montanhosa de Entre-Lima e Minho – na época medieval identificada com os Montes Laboreiro, topónimo que ainda perdura do lado galego – servindo de sentinela avançada de toda a raia seca entre estes dois rios.

Trata-se de um castelo medieval de tipologia roqueira, que, não fugindo à regra dos seus homólogos, nos aparece de improviso no fio cronológico do tempo, mudo como uma esfinge, ocultando o segredo das suas origens. Sem embargo, é tanta a sua antiguidade que se não guardou memória autêntica da sua fundação. Não surpreende, por isso, que desde o dealbar do século XVII, pelo menos, os documentos manuscritos e impressos, com alguma assiduidade, tributem a fundação da esculca do Laboreiro a S. Rosendo da Celanova ou à sua família – e não será de todo despiciendo que, do outro lado da raia, ainda hoje continuem a chamar-lhe o castelo de S. Rosendo.

Reza a lenda que D. Afonso III de Leão – o Magno – terá doado, a título hereditário, o monte Laboreiro – “leporarium momtem” – ao conde Hermenegildo Mendo, avô de S. Rosendo, a título de recompensa por lhe ter submetido um grande opositor. Por morte de seu avô passou para seu pai, o conde Guterres Mendo, e, sucessivamente, para S. Rosendo.

Mas todo o período lendário tem o seu aspecto histórico: (I) esta doação e consecutiva transmissão já aparecem registadas em manuscrito do século XII, que relata a vida do cenóbio de Celanova; (II) se efectivamente se pode identificar a arcaica terminologia “monte”, que aparece nos documentos do século X, com as estruturas defensivas muito rudimentares levantadas para as populações se abrigarem dos ataques muçulmanos, normandos e eventuais violências internas, desde esse recuado século que está documentada a existência do castelo do Laboreiro em expressões como “subtus mons leporario” e similares; (III) finalmente, não há dúvida de que o castelo do Laboreiro fazia parte do património do mosteiro galego de Celanova, conforme consta do contrato de permuta outorgado em Zamora, no ano de 1241, entre D. Sancho II de Portugal e o dito mosteiro de Celanova, cedendo este último o castelo do Laboreiro ao monarca luso, que por sua vez lhe liberou a igreja de Monte Córdova (c. Santo Tirso).

Contra o que tem seguido a corrente historiográfica tradicional, mais lendária parece ser a tomada deste castelo pela força das armas, no tempo de D. Afonso Henriques. Tudo por conta e crédito da carta de couto que, no dia 16 de Abril de 1141, o mesmo monarca outorgou ao mosteiro de Paderne, em compensação do tributo de dez éguas com suas crias, trinta moios de vinho, um cavalo avaliado em quinhentos soldos e cem moedas de ouro, que a abadessa Elvira Sarracine lhe tinha prestado durante a tomada do castelo do Laboreiro – “istum pretium et servitium fuit datum quando tomavit dominus rex castellum do Laborario”. Este diploma afonsino vem confirmar a existência do castelo na primeira metade do século XII.

A cronologia documental conhecida impõe que, para se aceitar o sucesso bélico do nosso primeiro monarca, se acredite na conquista da fortaleza roqueira do Laboreiro duas vezes consecutivas, no Inverno de 1140 – uma por Leão e outra por Portugal. Esta ideia torna-se assaz improcedente tendo em conta: (I) a situação geográfica do castelo e a defesa natural proporcionada pela escabrosidade dos colossais penhascos que a natureza cinzelou; (II) os invernos rigorosos no âmago destas montanhas; (III) a morosidade, os riscos e as práticas de sitiar castelos em pleno século XII.

Assim sendo, o mais plausível é que, primeiro, o castelo do Laboreiro tenha tomado voz por Afonso VII, quando este por aqui passou a caminho de Valdevez, e depois, após o Bafordo de Valdevez e consecutivo armistício entre os dois reinos, tenha ficado do lado de Portugal, aproveitando o monarca luso a proximidade geográfica para o visitar e tomar posse. O convento de Paderne, por sua vez e tal como outros congéneres, ter-se-á limitado a comprar ao soberano a carta de couto para o seu mosteiro, pagando o respectivo preço.

Regressando ao hodierno, o “viajante” do Prémio Nobel da Literatura, José Saramago, ficou surpreendido com o nome da porta deste castelo voltada para o casario actual da vila – porta do Sapo – referindo que “alguma coisa daria o viajante para saber a origem deste nome”. Numa tentativa de satisfazer essa curiosidade, é bem plausível que a explicação esteja na formação granítica, em forma de tartaruga, que fica mesmo em frente a essa porta. A verdade é que por estas bandas, plausível legado do Galaico-Português, a tartaruga ainda é o sapo concho ou sapo com concha.

 

José Domingues – Historiador e jurista. Professor e investigador do CEJEA na Universidade Lusíada. Fundador do Núcleo de Estudos e Pesquisa dos Montes Laboreiro. Autor de As Ordenações Afonsinas e de muitos outros trabalhos da história da região do concelho de Melgaço.

 

 

LUGARES INESQUECÍVEIS DE PORTUGAL

Viagens com Alma

Edição Paulo Alexandre Loução

Julho 2011

pp. 417-419

 


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Sábado, 27 de Maio de 2017

DE AQUÍ NOM PASSAM - RELATO DE UM CASTREJO

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ribeiro de baixo, castro laboreiro

 

                     

A FALA GALEGO-PORTUGUESA

DA BAIXA LIMIA

E CASTRO LABOREIRO

 

Integrado no Projecto para a declaraçom de Património da

Humanidade da Cultura Imaterial Galego-Portuguesa

 

 

I.E.S. AQUIS QUERQUERNIS

BANDE – OURENSE

 

José Manuel Gonçáles Ribeira

 

 

 

OS FUGIDOS

 

Recolha gravada em 07/05/2003

Sexo: Home

Idade: 78 anos

Lugar: Ribeiro de Baixo, Castro Laboreiro

 

 

   - … e entom estuverom …… numha ocasion um… era eu rapá novinho .. porque as autoridades portuguesas tinham que os prender… tamém… eram mandados polo governo para os arremeter à Espanha. E um que era d’A Ilha botou-se ao rio… niste rio… a fugir-lhe aos portugueses e atravessou o rio e fugiu pró outro lado… um espanhol fugido. I… e bueno… i outros, tú vês acolá aquela carbalheira daquel monte, estuverom ali seis meses numha lapa debaixo de umha fraga, chamámos-lhes nós umha lapa, debaixo dumha fraga, hai ali umha fraga grande e estuverom alí fugidos… Ouuh! E talvez até perto do ano, alí fugidos, claro, eles tinham que comprar a comidinha pra comer, mas tuverom que estar alí para fugir às autoridades, compreendes?... é por eso que che eu digo que aquí passarom (…)… mui mal cando a guerra… e passámo-la nós tamém!!... que era eu pequenotinho havía que, chegado o caso, andar cumhas zoquinhos de pau e correas, de inverno

   - sei, sei como som…

   - o caramba… aquilo… bueno… olha… porque tudo que pudesse passar prá Espanha, ia prá Espanha, claro, tinha uma miséria moito grande porque a guerra durou para aí dous anos

   - dous anos e meio…

   - ou isso…

   - … case três…

   - bueno i… nom havia lá que comer… entóm o milhinho ía para lá, entendes?... o milhinho ía para lá… e aqui nom havia…pronto!... porque ao ir para lá, falhava aqui, compeendes?, aquilo alí foi uma miséria, já che digo, se for, se a gente vai a contare… bom… depois, bom…(………….)e eu… cando prenderom os espanhois prenderon-os alí, e o caminho vem por ali e vinha um caminhinho porque prá baixo e asi aquí nesta voltinha foi onde se juntou o povo…, a capelinha está ali abaixo e tocou-se o sino, tú sabes o que é o sino?... juntou-se aquí e eu tamém tinha um tio que era tamém destes que nom eram, nom tinha medo e assim que ouviu a campana véu para aí para arriba de… Eu tinha uma mãe… e as autoridades espanholas aqui!... (…) e pararon aquí nesta voltinha,… eu tinha uma mãe que se pôs à frente das autoridades espanholas e dixo “de aquí nom passam!”… e eles côas espingardas: “que a mato!” mas é que eles nom podiam disparar para os portugueses… compreendes

   - …

   - ooh… ai que nom!, … nom podiam!... e o remedio foi deixa-los, mas depois é quando eles andarom a atirar tiros para cá, eles… é por isso que che eu digo

 

Ler o trabalho completo em:

 

http://www.agal-gz.org/pdf/falabaixalimia.pdf


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Sábado, 22 de Abril de 2017

UMA IDA À VILA II

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coriscadas - castro laboreiro

 

(continuação)

 

Despiu o casaco claro e, sempre ao lado da mãe, ia descobrindo Melgaço. Sentia-se abafado. A roupa vestida era quente. Os rapazes da Vila andavam vestidos de calções, e em camisa de meia manga, enquanto ele trazia calças de pana e uma camisa de manga comprida.

Nas lojas onde entravam havia sempre muita gente e tinham de esperar para serem atendidas. Antes de a mãe e as vizinhas comprarem qualquer coisa havia muita conversa e tinha a sensação incomodativa de estar sob constante observação das pessoas. Na rua fazia um calor de abrasar e mesmo à sombra transpirava. Estava sequioso mas aquela água de Melgaço parecia caldo e quanto mais bebia mais sede tinha. Já enfastiado disse à mãe para o deixar num banco cá fora, enquanto fazia o resto das compras. Passado algum tempo levantou-se do banco e pôs-se a admirar a torre do Castelo mesmo ali à sua frente, igualzinha à desenhada no livro da escola. Pensou como seria bonito o Castelo de Castro, naquele monte tão alto, se tivesse uma torre daquelas.

Estava na praça central da Vila e resolveu espreitar a montra da loja da frente onde estavam expostos vários relógios e artigos em ouro. Ao lado ficava a Escola Primária e através dos vidros viu algumas crianças da sua idade sentadas nas carteiras, enquanto o professor, de fato e gravata, escrevia números no quadro preto.

Finalmente apareceram todas para irem comer, mas antes a mãe tinha de cambiar uns francos enviados pelo pai, por um conhecido. Para isso tinha de passar na Loja Nova, junto à estrada de Castro Laboreiro.

Sentaram-se num banco corrido de madeira, frente a uma mesa tosca, debaixo de uma latada com uma fonte de água fresca, onde finalmente conseguiu dominar a sede. Como era a hora de calor resolveram aproveitar a fresquidão para fazerem uma sesta até porque dali a uma horas teriam de meter os pés a caminho, e agora era sempre a subir.

Terminado o descanso foram buscar os retratos e o resto das compras e albardaram a mula. Às cinco da tarde, ainda com muito calor, iniciaram o regresso.

Passada a primeira hora já estava todo derreado, embora não se queixasse.

Pararam num sítio com uma fonte para descansarem um pouco e beberem. A mãe notou o cansaço do filho e disse à vizinha para arranjar um espaço em cima da mula, onde, enrolado num cobertor colocado dentro de um berço de vime, fora instalada a criança. Conseguiu ajeitar-se em cima da albarda e retomaram a marcha.

Inicialmente, achou interessante a passagem debaixo das latadas, quando atravessaram os lugares, mas o andar desengonçado da mula, tentando escolher o melhor sítio para colocar as patas, e o constante roçar da cabeça pelas silvas e ramos atravessados no caminho acima da altura do animal depressa o convenceram ser preferível ir a pé. Assim, passada uma hora daquele bambolear permanente, e de alguns arranhões, pediu à mãe para o ajudar a descer. A parte mais íngreme do caminho também já estava percorrida. Seguia-se uma tirada por um carreiro rodeado de mato de pequena inclinação, finda a qual iriam merendar porque faltava menos de metade do caminho.

A partir de Alcobaça foi tomado pelo cansaço provocando-lhe uma senolência na qual as pernas pareciam movimentar-se sem dar por isso. Só com uma sacudidela provocada pelo tropeçar numa pedra solta ou pelo colocar do pé nalgum buraco do leito inacabado da estrada, voltava à realidade. Finalmente, com o sol a esconder-se atrás da Fraga da Franqueira, alcançaram Portelinha onde pararam. O ar fresco do fim da tarde, o cheiro da erva e o badalar dos chocalhos das vacas a recolherem ao eido, fê-lo despertar.

Daí até às Coriscadas foi revivendo o dia. No caminho para Melgaço vira coisas novas e fê-lo quase sem dar por isso. Na Vila tinha gostado do Castelo e de algumas lojas com muitas novidades para ele. Melgaço era muito quente e abafado e as pessoas pareceram-lhe desconfiadas, mas agora podia responder aos outros rapazes quando falavam com vaidade por conhecerem a Vila. Além disso vira as videiras em latadas e o Rio Minho, ao longe.

 

O PEGUREIRO E O LOBO

Estórias de Castro Laboreiro

MANUEL DOMINGUES

Edição Núcleo de Estudos e Pesquisa dos Montes Laboreiro

2005

pp. 69-75


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Sábado, 15 de Abril de 2017

UMA IDA À VILA I

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O PRIMEIRO RETRATO

 

Um dia o pai escreveu a dizer que não viria a casa tão cedo. Embora já tivesse os documentos em ordem era necessário aproveitar o tempo, porque as coisas estavam a correr bem. Por isso gostaria de ter uma fotografia do filho, para andar com ela na carteira.

O Manuel perguntou à mãe aonde se tirava o retrato.

- Em Melgaço – respondeu. Nos dias de feira aparece na Vila um que tira retratos à “la minuta”, mas ao fim de pouco tempo ficam apagados. Por isso, só o Pires em Melgaço é de confiança.

- E quando podemos ir? – perguntou.

- Talvez no mês de Maio, porque os dias são grandes e dão para ir e voltar com sol.

- E por onde vamos?

- Alguns vão a pé, pela estrada em construção, até Lamas e depois apanham uma camioneta, mas às vezes é preciso esperar muito tempo antes de aparecer alguma. Outros, ao chegarem ao fundo das Lobagueiras, viram para a Alcobaça e seguem o caminho antigo, pelo Outeiro da Loba. Embora ruim, é quase metade da distância e há muitas sombras. Vou falar com a filha do tio Albano e se nos juntarmos três ou quatro ela pode levar a mula, aproveitando para trazer coisas necessárias à loja do pai. Quando te sentires cansado podes montar a cavalo.

- Está bem, mai. Antes quero ir pelo caminho porque não gosto de me encafuar na caixa da camioneta, debaixo do toldo, no meio dos pipotes e dos animais, cheio de calor e sem ver nada.

- Então vou combinar com ela o dia e falar com as irmãs Pinheiro, porque há tempo falaram em irmos todas. Depois trata-se do problema dos animais.

A viagem tinha de ser cuidadosamente preparada, porque estando um dia inteiro fora de casa era necessário informar a pegureira para abrir a porta da côrte e juntar a rez ao rebanho colectivo que iria pastorear. Ao fim da tarde, no regresso, teria de recolher os animais e fechar a porta.

Por outro lado, as vacas não podiam ficar encerradas todo o dia. Falaria com a tia Calças para as levar a pastar com as dela. Quanto aos restantes animais deixava-lhes comida para o dia todo.

Entretanto as duas irmãs confirmaram a ida e em conjunto acordaram o dia, combinando a saída para muito cedo, a fim de evitar a força do calor, sobretudo por causa das crianças.

Na véspera, à noite, a mãe preparou a merenda com presunto, peixe frito, chouriço e pão centeio, juntando uma bota com água, colocando tudo numa cestinha de vime.

Ainda de noite, a mãe acordou-o porque tinha de se vestir. A muito custo conseguiu levantar-se, lavou-se e, ajudado pela mãe, vestiu a roupa nova. Em seguida comeram o almorço, feito de papas de pão e batatas cozidas no molho dos torresmos fritos e bem tostados, espalhando um cheiro apetitoso. Apesar da hora madrugadora, a mãe recomendou-lhe para comer também o caldo de leite, pois só deveriam voltar a comer cerca das 9 horas, quando já tivessem percorrido grande parte do caminho.

Muito antes do romper do dia as quatro mulheres e as duas crianças estavam a caminho de Picotim, em direcção a Portelinha e daí rumo a Alcobaça seguindo o leito da estrada em fase adiantada da construção. Já tinham ultrapassado aquele lugar quando o sol nasceu.

Olhava com alguma curiosidade para o vale do rio Trancoso que nascia em Portelinha e, demarcando a fronteira com a Galiza, corria encosta abaixo até lançar-se no Rio Minho. Uma névoa azulada deixava ver algumas povoações espalhadas ao longo das encostas. Do lado português a configuração do terreno limitava o campo de visão, só deixando aperceber as aldeias quando já estavam muito próximos, enquanto na encosta espanhola o declive era menos acentuado e permitia alcanças as povoações distribuídas ao longo da mesma, com telhados e paredes de tijolo de cores desbotadas.

Iam descendo e reparava nas mudanças da vegetação. Além das giestas e silvas, começaram a aparecer muitos pinheiros e castanheiros, em vez dos carvalhos e vidos, únicas árvores grandes abundantes em Castro.

A determinada altura do trajecto, depois de abandonarem o vale do rio fronteiriço, surgiu à sua frente uma paisagem diferente. A encosta apresentava-se escalonada em patamares de verdura. O primeiro, formado pelas latadas das videiras, continuava a um nível mais baixo, pelos campos de milho, hoetas e batatais, ladesdos por tufos de pinheiros e várias árvores de fruto, que formavam o terceiro nível. De vez em quando o relógio de uma torre batia as horas. Mais abaixo avistava-se um conjunto grande de casas à volta do castelo, com uma torre, e cercado por um cordão espesso de nevoeiro. Era Melgaço! Por cima daquele rolo, aparecia outra encosta verdejante e também pejada de casas. Escondido pelo nevoeiro cerrado corria o Rio Minho, marcando a fronteira e por isso a encosta em frente era galega, explicou a mãe.

A curta distância até Melgaço, sempre a descer, foi percorrida em pouco tempo por caminhos atravessados de cobertos de videiras amarradas a postes de pedra e arames, formando as latadas. Finalmente, entraram em Melgaço! O caminho com mais de três léguas fora percorrido em menos de quatro horas.

Dirigiram-se a uma conhecida onde iriam comer porque dispunha de um quintal para guardar a mula enquanto tratavam dos assuntos objecto da sua deslocação à Vila. Aproveitaram para descansar um pouco e compor as roupas das crianças em total desalinho devido à longa viagem. O Manuel transpirava por todos os lados, trazia a camisa branca encharcada.

A mãe ajudou-o a lavar-se e penteou-lhe o cabelo rebelde, amaciando-o com um pouco de água com açúcar. Já com melhor aspecto dirigiram-se ao atelier do Pires onde teve de submeter-se a novos retoques, determinados pelo fotógrafo.

- Ó senhor Pires, este é o primeiro retrato do rapaz, para mandar para França. Veja se fica em condições! – recomendou a mãe.

- Muito bem. Vamos então tratar disso. Bom…Bom…Chegate aqui. Começamos por colocar esta gravata. Fica melhor, não? Perguntou à mãe. Agora vais subir para aquele banquinho O Pires olhou através da máquina e concluiu faltar mais um acerto.

- Segura neste ramo – disse, entregando-lhe um galho de cameleira. Endireita as costas e olha para aquele canto por cima da máquina. Quando eu disser fazes um sorriso.

Apesar do esforço o artista não conseguiu fazè-lo sorrir. O cansaço da viagem e o pouco à vontade, juntamente com o calor, não ajudavam a aparência de uma satisfação não sentida. Ao fim de várias tentativas o Pires disparou a máquina.

Seguiram-se outras fotografias e ainda uma de conjunto entre os companheiros de viagem. As fotografias estariam prontas por volta das duas da tarde. Saíram para fazer as compras e depois almoçarem. Na rua, afrontado pelo calor, admitiu nunca ter imaginado que tirar um retrato fosse tão complicado!

 

(continua)

 


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Sábado, 11 de Março de 2017

OLINDA CARVALHO, UMA GRANDE CONTADORA DE HISTÓRIAS III

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(continuação)

 

Lá estavam eles, agarrados como cães, ela quase sem roupa e ele com as calças e as ceroulas enroladas aos pés. Seu badalhoco, era ali, então, o ensaio final do desfile! Ela dava-lhes já o ensaio, mas era a rameira que ela queria tratar, queria-lhe ver as fuças primeiro. Iam-lhe caindo os queixos com a surpresa: então não é que a descarada era uma moça nova, airosa, quase de casamento aprazado com um vizinho que tinha ido para a França, havia menos de um mês! Sua galdéria, ia ver o que acontecia a quem se metia com seu homem. Os seus ouvidos ficaram surdos para o que um e outra diziam, dominava a sua voz alterada e fazendo apelo a todos os insultos que lhe acorriam. Deu um empurrão ao homem que se agarrou às calças e deitou a mão aos cabelos da Joaquina, fazendo tenção de a arrastar para o exterior, sem lhe permitir que se vestisse. Imune aos gritos da rapariga e aos apelos tímidos do Peres, puxou-a pelos cabelos para o caminho e começou a gritar, que acudissem, para verem com os próprios olhos a sem vergonha que se metera debaixo do seu homem, com vadias daquelas por perto mulher alguma podia estar descansada, era um desaforo, uma afronta, o mundo às avessas.

Acudiam as vizinhas mais próximas e a ofendida a sacar de uma tesoura da algibeira e a lançar-se, assanhada, às tranças da rapariga. Era assim, para que vissem, que se tratava uma vadia daquela espécie. Insensível aos gritos da ré, também de nada valeu a interferência das velhas que aconselhavam calma, já chegava, que a deixasse, para vergonha já tinha a sua conta. Só quando a cabeleira estava reduzida a uns escassos centímetros de comprimento, várias peladas a espaços, diminuiu a força bruta contra a jovem, olhou-a da cabeça aos pés e largou-a. Estava satisfeita, tinha a honra vingada, a dela e a de todas que se deixavam enganar por valdevinas sem eira nem beira, que não sabiam manter-se no seu lugar.

A Joaquina recolheu-se no palheiro até ao cair da noite, quando a patroa a foi buscar. O guarda Peres retornou ao seu lugar de plantão no posto e aí pernoitou, comprometendo de certa maneira os festejos do entrudo ao recusar terminantemente o seu prestimoso contributo. Não se falava de outra coisa, velhos, novos e crianças tinham algo a acrescentar ao que alguém contava sobre o caso inusitado da criada da tia Rosa apanhada no palheiro a retouçar com o guarda Peres e vítima da fúria vingativa da mulher exercendo castigo pelas próprias mãos.

A Joaquina não aguentou a pressão e voltou para casa da mãe poucos dias depois do escândalo. O casório mais ou menos falado com o Alberto foi à vida, o rapaz ficou anos sem pôr os pés na terra e nunca mais ninguém o ouviu falar do assunto. A coitada também não teve muita sorte na terra dela e acabou por voltar de cabeça baixa ao local do crime, depois de o Peres ter sido promovido a cabo e se ter mudado com a família para outro posto. De toda aquela confusão perdura a sanha vingativa da mulher enganada e a vitória dos de Andorinho que aproveitaram a desistência do Peres para dar mais brilho ao seu desfile de Carnaval.

 

                       Olinda Carvalho

 

Publicado em A Voz de Melgaço

Fevereiro 2015

 

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Sábado, 4 de Março de 2017

OLINDA CARVALHO, UMA GRANDE CONTADORA DE HISTÓRIAS II

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(continuação)

 

Estes são alguns exemplos das peças preparadas ano após ano para serem executadas no espaço do baile, mas havia representações mais elaboradas que saíam desse local e tomavam outra dimensão. Os números de contrabandistas em fuga de guardas que os perseguiam aos tiros, muitas vezes reais, eram muito aplaudidos pelo povo em geral, mas assustavam as crianças que tomavam a ficção pela realidade. Os entrudos a fazer as suas partidas a velhos e novos, muitas vezes sem sensibilidade nenhuma para com o receio, quiçá temor verdadeiro, espelhado no rosto e nas lágrimas das crianças mais temerosas. Eram esperados com impaciência e eram eles que levavam as mulheres mais velhas e menos dadas a divertimentos ao espaço público do baile ou ao desfile quando este tinha lugar.

A troca de género era muito comum e nesta quadra muitos fatos de homem, guardados em armários ou arcas durante todo o ano, tresandando a naftalina, faziam as delícias de mulheres e raparigas que com eles se mascaravam de homem e se faziam acompanhar por matrafonas de grandes seios e não menos avantajados traseiros, papeis encarnados por homens. A identidade dos mascarados escondia-se atrás de rendas ou mascarilhas costuradas a preceito e era um feito conseguir enganar a assistência. Às vezes, discutia-se durante dias quem seria um ou outro mascarado e não se chegava a descobrir ou então isso acontecia quando o interesse pelo assunto já tinha arrefecido. Havia quem levasse tão longe o espírito carnavalesco que pessoas que estavam nos seus afazeres se viam obrigadas a larga-los pela interferência dos entrudos. Tanto podiam tirar a roupa às mulheres que lavavam na fonte, como fugir com um saco de grão que alguém levava para o moinho, ou soltar as vacas que puxavam um arado e levá-las para o pasto, obrigando o dono a deixar o trabalho e ir para o baile. Qualquer atividade que afastasse as pessoas do espaço comum de divertimento podia ser objeto da intrusão dos mascarados e a sua interferência era em geral respeitada, ninguém levava a mal.

Nesse ano, em que tinham contratado um tocador para todas as noites e um vizinho que se ajeitava com a concertina dava o seu contributo à animação geral, a folia prometia não faltar. Desde o jantar da noite de Reis que parte da mocidade se preparava para desafiar o pessoal do lugar mais próximo e ver quem levava a melhor em máscaras e trapalhadas. Era uma tradição antiga mas há anos que não se juntavam os dois lugares para entrarem em despique. Os de Vilarinho iriam no domingo a Andorinho, os daqui iriam a Vilarinho na terça feira. Sempre à tarde, o estômago bem aconchegado pelas carnes que nesses dias eram menos escassas, nas vésperas de uma quaresma que chegava em auxílio da dona de casa que se via mal para fazer chegar o conduto até à matança seguinte. Também era o dia das últimas guloseimas até à Páscoa, em nenhuma mesa faltavam as rabanadas, nalgumas acolitadas por arroz doce ou aletria, dependendo mais da vontade de festejar do que das posses, pois sobremesas mais humildes não há.

Para a posteridade não haveria de ficar o confronto entre os dois lugares, a mocidade a dar o seu melhor para ultrapassar relatos de comemorações passadas e perpetuar a rivalidade que só existia à superfície. Estavam os participantes do desfile de Vilarinho na garagem do tio Canteiro a combinar os últimos preparos e a repetir as deixas do teatro, quando chegou uma missão para o guarda Peres. Devia estar de plantão, mas fizera-se substituir por um colega, já que lhe cabia o papel principal na encenação do desfile. Sentia-se muito ufano da sua imaginação e capacidade de organização e à conta desta esgueirara-se logo depois do jantar, como acontecia há tempos nos domingos à tarde. A mulher andava com a pulga atrás da orelha, eram ensaios a mais para o seu gosto, com aquelas Marias alevantadas todas de volta dele, era bom que estivesse atenta. Mandou um petiz dar-lhe o recado, mas o rapazinho voltou com a informação de que o senhor Peres não estava na garagem. A Benvinda mandou o miúdo para a eira, depois de lhe dar um rebuçado que tirou da algibeira e, a remoer as pragas que lhe ocorriam em surdina, fingindo uma calma que não sentia, bateu com a porta e saiu sem pressa, indagando a si mesma para onde se dirigir. Haveria de dizer que foram as pernas que a conduziram, que chegou a palheiro da tia Brasileira sem dar por isso. A porta estava apenas encostada, o fecho descorrido, sinal de que quem entrara ainda não saíra. Entrou sem ruído, a habituar os olhos à escuridão, perscrutando para lá das frinchas da porta e do janelo que dava para o caminho da Cangosta.

 

(continua)

 

 


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Sábado, 25 de Fevereiro de 2017

OLINDA CARVALHO, UMA GRANDE CONTADORA DE HISTÓRIAS I

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Um Carnaval na Memória Coletiva

 

Como tantas coisas do passado também o Carnaval suscita mil lembranças, mil e uma evocações nostálgicas de um tempo que foi muito melhor do que o presente. Porque associado à juventude, a mais saúde, a um convívio mais são? É o que se diz. Será, porém, verdadeiro? Do que eu me lembro, a pressão social era, há uma dezena de anos, muito mais pesada do que hoje e ai de quem pisasse o risco! Alguém que desse azo a andar nas bocas do mundo só de lá saía quando a novidade ou amplitude de outro deslize lhe arrebatasse o lugar. O esquecimento podia nunca acontecer, de vez em quando algo voltava a surgir para apoucar sicrana ou beltrana, eram, são quase sempre as mulheres as vítimas das línguas viperinas do povo. Os homens, mesmo que o discernimento delas os coloque no seu devido lugar, merecem geralmente muito mais tolerância e favores das mulheres. Postas a refletir, elas confessam-se mais capazes, mas assumem no outro género méritos maiores do que os que a prática lhes conferem, os que a tradição instituiu.

O Carnaval era a festa por excelência em que novos, velhos e crianças se divertiam. Para muitas rapariguinhas era uma espécie de passaporte para aceder aos bailes destinados às mais velhas, em idade de namorar e procurar o almejado pretendente, sendo este o objetivo de uma vida. Depois de participar, um ou dois anos seguidos, em todos os bailes, de sábado à tarde até à madrugada de quarta-feira de cinzas, qualquer moçoila se sentia com direito a reivindicar participar em todas as posteriores folias carnavaleiras. As mães deixavam-se convencer com mais ou menos facilidade, de acordo com as alegrias do coração, as filhas limitavam-se a reproduzir o que se tinha passado com elas, quando tinham a mesma idade. Os pais eram pouco tidos para a decisão, a maioria porque estava ausente e, se não era o caso, deixavam as coisas difíceis para as mulheres, além de as parirem também tinham de as criar para ninguém ter nada de nada a apontar-lhes.

Naquele ano queriam que os festejos fossem de arromba. Um ano antes, tinha havido dois enterros nas vésperas e ninguém se atrevera a lembrar a época festiva, por respeito para com as famílias dos falecidos. Se a morte do tio Manuel da Marmeleira foi aceite naturalmente, pois já não esperava pela idade e estava acamado há tempo, fez-lhe Deus favor, o mesmo não se pode dizer da partida inesperada do Francisco Americano, vítima fulminante de um garrotilho que o levou em menos de oito dias, tinha vinte e três anos. Foi uma dor de alma naquele lugar e nos adjacentes, nunca até àquela data um enterro foi mais concorrido. Ouvir a mãe e as irmãs a gritarem por ele entranhava-se no coração mais empedernido, até os homens deixavam as lágrimas correr sem se esconderem, tamanha dor tinha de ser partilhada, nem que fosse apenas para aliviar um pouquinho a noite negra que caíra sobre aquela família.

O tempo mostrou-se amigo, esquecido da neve, apenas uma chuva miudinha na segunda à tarde. Assim, em espaços abertos, os entrudos podiam resultar os variados números, muitas vezes preparados de longe, outras deixados ao improviso e a sugestões do momento, algumas limitando-se a reproduções por demais conhecidas, mas que faziam sempre rir, que mais não fosse pelo conhecimento antecipado da coisa. Depois do almoço de sábado, onde a mesa era ainda frugal, as carnes e outras iguarias eram para domingo e terça feira gorda, acorria o povo à eira do meio. As crianças não paravam, chegava o tocador, as velhas e velhos acomodavam-se nos bancos que iam surgindo de um canto e de outro, alguns improvisados com o que estava à mão, as raparigas punham-se de um lado, os rapazes, sempre em menor número do que elas, de outro. Começava a concertina na sua função e de seguida os pares a rodopiar, sob os olhares atentos, perscrutadores de mães, pais, avós, vizinhos em geral. Todos dançavam com todos, as raparigas que ficavam sem par iam buscar os velhotes que saíam para o terreiro, o entrudo é assim mesmo, alguns rapazes faziam o mesmo com solteironas que já não estavam para festas, mas carnaval é carnaval. Em geral só mulheres de meia idade, viúvas de maridos emigrados, é que não participavam na dança. A muitas não faltava a vontade, mas o recato impunha distância daquelas alegrias e, estando por perto, gozavam os olhos, já era bem bom.

Quando menos se esperava, ora com introdução a preceito, fazendo-se anunciar, ora de rompante, eis que fazem parar o baile. Entravam os mascarados, com um número ensaiado para animar, para fazer rir, às vezes até às lágrimas. Era mister que a identidade dos entrudos não fosse descoberta. Ele era ver o médico que assistia ao nascimento de uma criança e fazia sair um ser horrendo debaixo de uma saia branca manchada de vermelho, ele era o mesmo médico a fazer uma intervenção cirúrgica e a extrair um chouriço que deveria ser o apêndice, ele era o casalinho que pretendia dar o nó e o padre se recusa porque o noiva é mais alta do que o noivo e este precisa de crescer e depois aparecer.

 

(continua)

 

 


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Sábado, 10 de Dezembro de 2016

CASTRO LABOREIRO E O CINEMA

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CASTRO LABOREIRO

UN DOCUMENTAL DE RICARDO COSTA, 1979

 

Xulio Medela

“Há mais poesia num grão de realidade do que no cérebro dos poetas"

Marcel Mauss

 

As terras arraianas do Laboreiro son eterna fonte de inspiración fílmica. De Lobos da serra a Viagem ao princípio do mundo, pasando pola mítica A cruz de ferro, non é estraño que Ricardo Costa tivese reparado neste universo para crear aquí un dos catro filmes que produciu para a serie da RTP O homem montañes.

Doutor en letras pola Universidade de Lisboa, e depois dunha primeira etapa como editor e investigador de textos sociolóxicos, Ricardo Costa logo se tornou realizador, guionista e produtor, inseríndose plenamente no movemento denominado ‘Novo Cinema Português’, sendo un dos máximos representantes do subxénero coñecido como ‘docuficción’ ou ‘etnoficción’ inspirado directamente pola obra do antropólogo francês Marcel Mauss e do etnocineasta Jean Rouch.

Castro Laboreiro foi proxectado publicamente, se cadra pola primeira vez, nas xornadas que cada agosto organiza o Núcleo de Estudos e Pesquisas dos Montes Laboreiro. Cunha duración de 85’, Costa articula o filme en tres partes: “Inverneiras”, “Transumâncias” e “Brandas”, que reflicten con exactitude (ainda que con certo manierismo, no estilo de António Jorge Dias en Vilarinho das Furnas) o modus vivendi e operandi dunha comunidade en dificilísimo equilíbrio cunha hostil contorna natural, sendo a emigración a consecuencia lóxica desa constante perda de equilíbrio en favor da ‘montaña’ e en detrimento do ‘homem’.

Ricardo Costa realiza unha obra non exenta dun fondo sentido poético, mesmo con momentos de abstracción. Coñecedor da obra de Mauss, o filme aparece ‘impregnado’ de sentido etic, en que a expresión pura, científica e núa da realidade prima sobre calquera intención ou propósito, mesmo o de ‘preservar’ un modo de vida condenado á extinción irremediable. De aí a extrema calidade desta obra.

Este filme, cheo de encanto, é unha marabillosa xoia que resulta da loita entre cinema directo e tentativa ficcional. Recomendamos encarecidamente o seu visionado e agradecemos aos xerentes do Núcleo de Estudos e Pesquisa dos Montes Laboreiro a súa laboriosa e complicada localización e recuperación e a oportunidade que tivemos de poder gozar dun produto cultural trás do que había tanto tempo que andabamos.

 

Retirado de:

 www.academia.edu/6875499/_Montes_Laboreiro_Palmilhando_uma_raia_carregada_de_séculos

 


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