Sábado, 19 de Agosto de 2017

CERTO NEGÓCIO DE SERVIÇO D'EL REI

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DOMINGOS GOMES DE ABREU COELHO DE NOVAIS

 

Filho legítimo de Domingos Gomes de Abreu e D. Francisca Coelho, de nº 4, nasceu em Melgaço a 21 de Janeiro de 1668 e seguiu a carreira militar falecendo no posto de capitão de uma das companhias do terço do capitão-mor Pedro de Sousa Gama, fundador do morgado da Serra.

………………………………………….

Fez-se armar cavaleiro da Ordem de Cristo em 31 de Dezembro 1698 na igreja da Senhora da Conceição em Lisboa e professou no ano seguinte aos 9 de Fevereiro, no convento de Tomar, nas mãos de Fr. Fernando de Morais, superior do referido convento, renunciando primeiro o ano e o dia do seu noviciado e aprovação.

Frei Domingos Gomes de Abreu casou aos 28 de Novembro de 1700 em Lapela, termo da vila de Monção, com D. Isabel de Faria.

No ano de 1701 aos 30 de Maio tomou posse da Feitoria Geral das Alfândegas da Província do Minho, tocante aos portos secos, molhados e vedados, cargo que exerceu por três anos.

………………………………………….

E em 14 de Março de 1703 comprou a Maria Domingues, viúva e suas filhas e genro, Francisca de Magalhães e Maria de Magalhães, ambas solteiras, moradoras na vila e Águeda Domingues e marido Sebastião Fernandes, moradores no Telheiro, freguesia de Rouças, «a sua mettade do Moinho chamado da Ponte apedrinha que he telhado e preparado e aparelhado com seu pico assim e da maneira que elles vendedores o possuião e parte do nascente com terras de Domingos Esteves Sereiro e do poente com monte delas do monte de prado» por trinta mil réis em moedas de prata correntes no reino.

Pouco depois, um ou dois meses decorridos, pelo conde da Atalaia, Governador das Armas da Província do Minho, foi Frei Domingos de Abreu enviado ao reino da Galiza a certo negócio de serviço de el-rei.

Por razões, que hoje ignoramos, mas que é lícito filiar em questões da Guerra da Sucessão ao trono de Espanha em que el-rei D. Pedro II se envolveu em 1701, o Governador de Vigo prendeu este mensageiro do conde da Atalaia em sua casa e durante cinco dias o meteu nas minas do castelo do Crasto; dali o passou para o castelo de Santo António na Corunha e por fim para o cárcere real para lhe «darem questão de tormento».

Foi nestes aflitivos transes que o familiar do Santo Ofício lembrando-se dos inumeráveis milagres feitos naqueles sítios pela Senhora da Pastoriza, cujo santuário e piedade dos galegos erguera a seis quilómetros da cidade no caminho de Finisterra; foi nesses transes bem dolorosos para seu espírito esclarecido, que o ilustre melgacense a invocou e lhe pediu amparo, prometendo-lhe levantar-lhe capela privativa na sua terra, no vistoso sítio do Coto da Pedreira, se aquela Virgem permitisse a ela voltar dentro de um ano.

E como passados cinco meses e cinco dias em virtude de um decreto especial foi degredado para fora dos limites de Espanha, nunca mais esqueceu o seu voto e se mais cedo o não cumpriu, foi por andar ocupado na Guerra da Sucessão, que naqueles dias se desenrolaram neste termo.

De facto, Frei Domingos Gomes de Abreu, português de lei, patriota exaltado, militar brioso e aguerrido, nunca permitiria que os galegos nos ofendessem impunemente e, por isso, durante esta guerra permaneceu sempre de ouvido à escuta, sempre pronto a fazer pagar caro aos vizinhos da fronteira os tormentos infligidos ao seu corpo e ao seu espírito nas longas e sombrias horas de cárcere.

 

 

O MEU LIVRO DAS GERAÇÕES MELGACENSES

Volume I

Augusto César Esteves

Edição da Nora do Autor

Melgaço

1989

pp. 67-72

 


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Sábado, 11 de Fevereiro de 2017

UMA CARTA IRÓNICA

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ANA CORREIA FEIJÓ

  

Nasceu na Casa da Cordeira em 8 de Julho de 1832 e cinco dias depois foi baptizada na igreja paroquial de Rouças.

Os seus paraninfos foram Frei Bento do Pilar, D. Abade do Mosteiro de Tibães e Geral da Congregação Beneditina do reino e D. Ana Joaquina de Castro Sousa e Meneses, da Casa de Galvão, e impuseram-lhe o singelo nome de Ana, mas pela vida fora os próprios pais lhe chamaram Ana Cândida numas ocasiões e Ana Joaquina noutras.

Assim, quando em 14 de Fevereiro de 1852 a mãe encarregou o filho padre em Ponte de Lima a representar na escritura de nomeação de prazos em sua posse, deu-lhe o nome da madrinha – Ana Joaquina – e dois anos depois, numa outra escritura, a impôs como Ana Cândida.

Enquanto, porém, não passou de menina toda a gente a tratou por Ana e assim aparece ela em baptizados ao lado dos irmãos José Agostinho, P.e António e Manuel.

Os feitos de Ana e Manuel associaram-nos na vida e não é, por isso, de admirar encontrá-los juntos em 11 de Outubro de 1832 a vender em comum a José Albano Dantas, dos Carvalhos de Rouças, a propriedade de Cecrinhos, de pão e vinha, sita no lugar do comprador, não importa dizer agora por quanto.

Também foi a eles ambos que a mãe doou por escritura de 23 de Dezembro de 1872 todas as propriedades por ela possuídas no lugar da Boa Vista; formavam uma quinta que valia bem oitocentos mil réis e rendia por ano dez por cento.

Actos menos reflectidos de Manuel Feijó contristaram e amarguraram muitas vezes o coração fraterno do clérigo e se, na verdade, a D. Ana interveio sempre entre os arrufos dos dois manos como anjo da paz, nem sempre a sua inteligência conseguiu forjar a frase exacta para acalmar a irritação e levar o preciso conforto moral a Santo Estevão da Facha ou alcançou afastar de si e do Manuel as justas recriminações do padre.

E a prova está nesta carta a exibir a tristeza sob a capa da ironia:

 

       Ex.ma Senr.ª

12-2-84     D. Ana Corr.ª Feijó

 

Apenas me cumpre dizer q V. Exª decerto se esqueceu de uma carta que me escreveu no anno de 1883, dizendo que recebera de seu mano Manuel trinta libras, com que comprara uns touros e bois se me não engano; porq se disto se lembrara não vinha dizer agora a ha tres annos não tinha recebido um real, quando desde aquella época até hoje apenas tem decorrido um anno. Ora se falla verd.e nesta última carta então mentiu na primeira, e se disse na primeira uma verdade neste cazo mentiu nesta, q me escreveu agora. Peço que resolva este problema, e q applique a sua pessoa o nome que lhe compete. Tambem tenho em meu poder outra carta do seu mano Manuel do mesmo anno, em que declara levar mais pª Melgaço 25 mil reis pª tratar dos foros, e V. Ex.ª declara agora que não sabe desse drº

porq no questou que o não gastou; mas neste cazo como elle está ahi na sua companhia, q lhe declare pª q foi tal quantia, a mim só me compete dizer a todo mundo e não só ao Antº do Pombal, q desde o anno de 1881 mandei pª Melgaço 961$550, apesar de V. Ex.ª me recomendar q não o diga a pessoa alguma que ha tres annos lhe tenho dado. Enq.to ao seu mano Manuel ter gasto a renda de sua Prima Maria eu nada tenho com isto, porq felismente não preciso q ninguem me ajude a fazer as minhas obras. Se seu mano fes torres no ar eu não lhas mandei fazer, por q não lhe encomendei tão grande sermão, e se lá não vou, ainda mais queria fazer, já se sabe a minha custa. O que elle fes foi muitos calotes, e não pequenos, um de cincoenta mil reis ao negociante em Ponte, que se não lembrou de pagar e outro de onze livras a uma mulher de Darque segundo me consta, e por último deixou tudo arrazado, muros na chão, paredes e latas no m.mo gosto e dep.s de tudo isto V. Ex.ª deita a berrar q seu mano Manoel tem sofrido muito. A isto respondo que ninguem mais tem sofrido do q a minha bolsa; mas pª que seu mano não sofra mais q se deixe estar com sua Ex.ma Mana, porq na sua companhia está muito bem. Deste modo não cauzamos encommodos uns aos outros, e m.mo V. Ex.ª assim o estima e assim o quer e deseja. Pois bem está a sua vontade feita. Entre tanto diga a seu mano que me remetta já a letra do Coelho antes que se perca aquelle drº p.r q p.a perjuizo já basta, e eu irei tomar conta do que é meu, p.ª não encomodar as suas pessoas. Creio q nisto lhe faço um grande serviço, visto lamentar V. Ex.ª tanto trabalho, q lhe tem cauzado os bens de seu irmão padre. Deste modo ficão terminadas todas as questões.

                                                              Seu mano

                                                                Antº

 

Note bem: Ha um anno q foram 30 libras, e por isso esteve calada até agora, sem falar em segurança do drº e como não foram este anno outras tantas, então já berra. Pois olhe q tem então m.to que berrar».

 

Foi esta senhora que em Rouças faleceu no dia 22 de Setembro de 1885, embora o assento de óbito lavrado pelo pároco na ocasião do decesso de D. Ana não corresponda à verdade inteira. Era solteira e faleceu s. g.

 

O MEU LIVRO DAS GERAÇÕES MELGACENSES

Volume I

Augusto César Esteves

Edição da Nora do Autor

Melgaço

1998

pp. 176-178

 

 


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Sábado, 17 de Setembro de 2016

INDISCIPLINA CLERICAL

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LUCAS DE ABREU MAGALHÃES (P.e)

 

Filho de Pedro Gomes de Abreu e Ana Gomes, Nº 9 do Costado Magalhães de S. Julião de Baixo, foi presbítero e morou no lugar do Viso da freguesia de Chaviães e durante muitos anos prestou os serviços à Misericórdia local como capelão.

Faleceu em 6 de Agosto de 1737 e ao seu funeral anda ligada uma triste e flagrante prova da indisciplina clerical desses tempos.

Foi este um dos muitos padres melgacenses marcados com o ferrete da imprudência por à sombra da fragilidade humana sacrificar nos altares de Afrodite como qualquer leigo. Assim ferreteado decerto não deixou de ser vítima dos costumes sociais por ter sido empurrado para o breviário, quando o corpo lhe pedia matrimónio.

De qualquer das formas é certo não ter sido cauto o padre e como deste seu proceder deixou ficar provas no mundo melgacense, aqui se invocam para ficarem conhecidos alguns dos seus descendentes.

Embora no seu testamento apenas refira duas amantes – Maria Fernandes, galega e Camila Rodrigues, portuguesa e de Paços – três foram os seus aconchegos de solteirão, porquanto naquele número de amásias também se deve incluir a Maria Gomes, solteira, de Chaviães.

 

O MEU LIVRO DAS GERAÇÕES MELGACENSES

Volume II

Augusto César Esteves

Edição da Nora do Autor

Melgaço

1991

pp. 101-102


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Quarta-feira, 18 de Novembro de 2015

O CRUZEIRO DA ORADA

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Cruzeiro da Orada 

 

CRUZEIROS

 

 

Aparentando maior antiguidade outro cruzeiro se levantou na Orada, à margem da estrada macadamizada e precisamente no sítio onde se tocam as extremas das freguesias de Santa Maria da Porta e Santa Maria Madalena de Chaviães. Colocado noutros tempos junto da Capela de Nossa Senhora da Orada para o actual sítio foi transferido por ocasião da abertura da estrada nacional de Melgaço para São Gregório.

Como então o deixaram bem junto à parede do suporte do terreno onde fora colocado e só com muita dificuldade as procissões religiosas andavam à sua volta, a junta de freguesia da vila em sessão de 15 de Fevereiro de 1898 deliberou colocá-lo no centro do pequeno recinto e em consequência mandou terraplanar o terreno e encarregou um dos vogais de proceder à nova colocação deste modesto monumento, símbolo da religião cristã do nosso povo.

À arte nada deve o cruzeiro e entrementes a imagem do Cristo crucificado, de bárbara e tosca configuração, contorcido e sem proporções, afinal um aborto saído das mãos de ignorado lapicida, tem muitos e muitos devotos.

Datado de 1567 ele é um ex-voto dos melgacenses daquela era, ali colocado naquele ano de peste, para agradecer a Deus ter poupado Melgaço aos seus horrores ou a pedir um Pai nosso por alma dos ceifados por ela nestas redondezas. Muitos e mui fervorosos devotos teve este cruzeiro, mas foi a sua inércia e o seu desinteresse pela letra de forma quem conseguiu travar uma campanha jornalística encetada num semanário local para aquela imagem de Cristo ser dali arrancada e substituída por outra trabalhada com arte flamejante e resplandecente. No jornal defendiam-se as belas-artes, mas inadvertidamente se atacavam a crença e a tradição e como o povo mal sabia ler, esta obra dos nossos maiores não foi profanada.

 

(Publicado em Notícias de Melgaço de 18/3/1956)

 

Obras Completas

Augusto César Esteves

Volume I  tomo 2

Edição Câmara Municipal de Melgaço

p. 552

 


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Sábado, 10 de Outubro de 2015

MELGAÇO, NOIVOS EM 1745

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S. Gregório, início do século XX

 

JERÓNIMO RIBEIRO

 

Capitão, cavaleiro professo da Ordem de Cristo e Fidalgo da Casa Real. Casou com D. Guiomar Nunes de Figueiredo, irmã do Rev.º P.e José Gonçalves de Figueiredo, abade de Cristoval e filho de António Gonçalves de Figueiredo e mulher Maria Rodrigues, assistentes nesta freguesia desde os tempos de seu filho P.e Domingos, mas oriundos de Moselos no termo de Paredes de Coura.

A noiva foi dotada pelo irmão e pela mãe em doze mil cruzados, incluindo-se nesta quantia a legítima da moça mas ainda a deixa do já referido P.e Domingos Gonçalves de Figueiredo, que também fora o abade de Cristoval e o terço deixado pelo pai quer em móveis quer em bens de raiz.

Mas aquele seu irmão P.e José forçou a nota do amor fraternal ao dotá-lo ainda com mais três mil cruzados a pagar dentro de seis anos à razão de duzentos mil réis cada um e ao prometer-lhe reservar apenas duzentos e quarenta mil réis para o bem de alma e deixar-lhe tudo o mais quando Deus o levasse deste mundo.

Além disto permitia aos noivos viverem na residência conjuntamente com ele e em tal caso lhes dava dois criados, uma criada e um cavalo, tudo sustentado à sua custa e por ele pago; no entanto se em casa separada preferissem morar, então só lhe faria estas franquezas passados os seis anos em que estava obrigado ao pagamento dos três mil cruzados.

E, afora tudo isto, anualmente lhes daria cem mil réis para os ajudar a suportar a carga do matrimónio.

E se tão liberalmente dotava a sua irmã era

«por o beneficio e abadia de que é abade ser de bastante rendimento, que passa de tresentos mil réis, alem dos passais com o qual se pode sustentar muito bem, conforme sua pessoa, sem prejuízo do dote que faz a sua irmã dos bens do património e dos mais que tem adquirido. Os passais e a renda do seu beneficio rendiam um por outro quinhentos mil réis».

Nesta altura da vida ainda o abade de Cristoval estava livre das peias, que mais tarde lhe poderiam ter tolhido os últimos movimentos do altruísmo, se lhe não tivesse sido dado o sacudi-las de cima de suas costas por esta escritura de 27 de Junho de 1745:

«que elle por fragelidade humana houvera de Maria Souto, solteira, filha de Francisco do Souto já defunto e de sua mulher Antonia Pires, do lugar do Ranhado desta mesma freguezia coatro filhos por nome Jeronimo, Agostinho, Narcizo e Francisco a quem por direito devia dar estado de casados para descargo de sua consciência e como a dita Maria do Souto se achava contratada para haver de se selebrar o dito sacramento de matrimónio com Manuel Marques, filho de Domingos Marques, do lugar de Sobreiro, desta dita freguezia e para haver de sustentar as cargas do matrimónio com a dita Maria do Souto lhe dava e dotava de hoie para todo o sempre jamais a coantia de carenta moedas cada huma de coatro mil e oitocentos reis a coal coantia lhe dará dentro de dois Annos depois do feitio desta, a saber vinte moedas em cada hum Anno e com a condiçam que os ditos coatro filhos os coais alimentara também com o dote que elle reverendo Autorgante dotava e com esta obrigação he que lhe fas o dito dote the o tempo em que elles seião capazes em idade para tomarem estados ou officios os coais estados ficão por conta delle reverendo Autorgante».

 

Os noivos viveram em Cristoval e aí faleceu o capitão Jerónimo Ribeiro em 1745, indo a Confraria da Misericórdia assistir-lhe aos funerais e dar seu corpo à sepultura.

 

O MEU LIVRO DAS GERAÇÕES MELGACENSES

Volume I

Edição da Nora do Autor

Melgaço

1989

pp. 504-505

 


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Sábado, 26 de Setembro de 2015

GUERRILHA EM MELGAÇO NO SÉCULO XIX - II

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(continuação)

 

Dias antes perseguido outra vez pela tropa, fôra ele encontrado no caminho de São Bento do Cando, em 11 de Julho. Apanhada a guerrilha de surpresa, pode ela, contudo, escapar-se das garras da força pública, mas deixou ficar no sítio vários objectos e um cavalo, que a tropa apreendeu.

Este insucesso foi também imputado ao cirurgião e, para salvar a vida, remiu-o pagando uma segunda indemnização: 99$800 reis.

Mas como a tal luta de morte não acabara ainda, nos primeiros dias de fevereiro do ano seguinte o Comandante da 4ª Divisão Militar, com o conhecimento e aplausos do Governo de Sua Magestade a Rainha, anunciou às autoridades locais que, brevemente, uma força militar sob o comando do Major de Caçadores 4, José de Figueiredo Frazão «vai occupar esse Concelho, o de Monsão e Valladares, com o importante fim de conseguirem o extermínio ou dispersão da Quadrilha de salteadores que tantos males tem causado aos seus infelizes habitantes, e de que é chefe o malvado Cangostas.»

Poucos dias volvidos sobre este aviso, Paderne foi ocupada por trinta baionetas da Ordem, de propósito mandadas por autoridades superiores para efectuarem o extermínio da fera humana.

Por este mesmo tempo, no monte de Montrigo, na própria freguesia de São Paio, casualmente vieram à fala Tomaz Codeço e Manuel de Caldas e dessa conversa saiu o empréstimo de cinco libras de ouro, feito por aquele para este governar a sua vida.

Em março de 1838 «com muita violência e ameaças de vida» foram-lhe ainda exigidos mais sessenta alqueires de milho.

Não contente com este canastro, segundo parece sempre aberto para fornecer de brôa os guerrilheiros, em 26 de agosto recebeu o Tomaz das Quingostas cento e cinco mil reis por um cavalo, que lhe levara o Izidoro, alferes de voluntários e, em 17 de Outubro, uma clavina, entregue pelo Caldas na sua própria casa ao buscador Caetano Manuel Meleiro, da Granja.

Como sempre o Caldas de Real foi o bode expiatório; por aquele cavalo apreendido pelo alferes de voluntários tinha-lhe sido pedida avultada indemnização de 207$800 reis e para tanto lhe não pagar «se valeu de alguns amigos que o compuzeram pella quantia de sento e sinco mil rs e huma clavina de vallor de sinco mil rs.»

Roubado, perseguido, procurado de dia e de noite, o cirurgião Caldas resolveu sair de São Paio e refugiou-se na vila, porque o Tomaz era «Homem destemido, ladrão e matador, que roubaba de dia e de noite e quando se lhe não desse ou fezesse o que elle queria logo entimava a penna de vida e assim o executava» e «depois de indultado se fez mais temível cometendo mortes e vários roubos como foi na romaria da Sr.ª da Peneda em 7 de setembro de 1838, Riba de Mouro, andando em todo o monte temível, muito armado e com a cometiva da sua quadrilha que a todos ameação e todos temiam pellas suas dezordens.»

Mas se tudo isto se articulou no tribunal, nos mesmos autos se escreveu, que entre Tomaz Codeço e o Cirurgião tinha havido toda a familiaridade e bom entendimento e, por vezes, dos dinheiros do Tomaz se valeu o Caldas nas suas aflições e ainda hoje se pode ler num papel esta passagem:

 

«P, que o A, antes de fallecer o filho da Re Tomaz Joaquim Codeço foi por elle demandado e afinal fizerão por intervenção de Pessoas na prezença das quaes já mais o A, podia recear máos tratamentos e ahte nesse tempo o filho da Re andava andava com a guia que lhe passou o Conde das Antas e tanto respeitava a Ley que para haver o que o A, Manuel José de Caldas lhe devia, o chamou à Justiça e o fez citar para as acçõens competentes.»

 

E antes do Tomaz das Quingostas chamar ao juízo conciliatório o cirurgião Caldas, diligências se fizeram para tirar a corda da garganta deste devedor, como ressalta desta carta:

 

   «Quingostas 19 de Abril de 1838

                Il.mo Sñr. Juis

 

Dezejo a sua saude geralmente a tudo o quanto lhe pertence a ?? he ofreço no seu serbiço &

                Il.mo Sñr

 

No dia de onte findou o nosso contrato com o serujião i por isso Rogo a V S.ª o favor de me não pedir mais por semelhante patife; por isso antes quero que V S.ª fique com elle de o tal maroto; para quem entende bai isto. Fico pronto para tudo o quanto lhe prestar

   Sou seu v

                           Thomaz Joaquim Codeço

  1. S. os trinta mil reis que recebi ficão a comta da obrigação que tenho delle.»

 

E esta carta entende-se, ligando-a com a tentativa de conciliação feita na Casa e Quinta da Cerdeira em 9 de Junho de 1838 perante o cidadão Joaquim Thomaz Correia Feijó, juiz da paz e órfãos no círculo das freguesias de São Paio, Vila e anexas, diligência a que não compareceu Manuel José de Caldas.

A morte levou Tomaz das Quingostas sem lhe dar tempo para fechar as contas com os fornecedores da sua casa, nem com os credores e como seu pai, José Codeço, já tinha falecido, herdou-lhe os bens a mãe, a quem todos eles foram pedir a liquidação dos débitos.

Aceite a herança a título de inventário, foi no tribunal que se ajustaram as contas, tendo os jurados reduzido ao justo valor várias das verbas pedidas.

Pequena quantia foi reclamada pelo crédor Dom Pedro Vasques de Puga, da Casa e Quinta da Moreira, na Galiza e apenas 63$940 reis foi a soma exigida por António Luís Pereira, negociante, do lugar dos Moinhos, da freguesia de Paderne, proveniente de vários fornecimentos feitos ao Tomaz das Quingostas, tais como maços de cigarros, caixas de fósforos, queijo, bacalhau, 15 kilos de açúcar, verbas de dinheiro emprestado, como 1$440 e 2$400 reis, um tinteiro e areeiro de louça, um par de luvas de troçal de sêda preta e outro de seda azul, chumbo de caça, uma importância de fogo paga ao fogueteiro de Santa Cristina, 14$000 reis, a maior verba lida nesta conta.

 

(continua)

 

 


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Quarta-feira, 23 de Setembro de 2015

GUERRILHA EM MELGAÇO NO SÉCULO XIX - I

51 c2 - cast lab.jpgterras castrejas

 

      PORQUE A LENDA DO TOMAZ DAS QUINGOSTAS ESTÁ FEITA…

 

 

«P. que no anno de mil e oitocentos e vinte e seis o A. Francisco José Pereira, e sua molher, ainda viva, Ana Maria d’Araujo, temendo-se das Guerrilhas que naquella Época ameaçavam esta Villa, aonde chegarão a entrar por vezes, derão a guardar ao Reverendo Manoel José Esteves, do logar da Sella, do concelho de Valadares, toda a mobília e trastes preciosos, que possuião.

  1. que tendo o ditto Padre Manoel José Esteves, os dittos trastes e mobília do A. em sua caza Thomaz Joaquim Codeço, filho da R. assuciado com huns facinorosos ladrons e destemidos, de propósito e cazo pençado se forão na noute de 17 para 18 do mez de Fevereiro do anno de 1827 a caza do ditto Padre Manoel José Esteves, e sem que este podesse resistir a tanta força Armada lhe roubou o ditto Thomaz toda a mobília e trastes constantes da Relação junta, que requerem se leia as Testemunhas; e para que o mesmo Thomaz não acabasse de roubar o mais que ali existia pertencente aos AA. teve o mencionado Padre de dar ao mesmo Thomaz em moeda corrente a quantia de 34$080 reis que o A. dezembolçou para endemenizar o Padre.
  2. que além disso em 12 de Maio de 1828 veio o dicto Thomaz a casa do A. e o constrangeo a que lhe deçe da sua Loja as fazendas e dinheiro constante da mesma Relação; tornando-lhe a pedir em 25 de Fevereiro de 1836 cinco côvados de Baeta que o A. teve de Comprar, e lha remeteo pelo mesmo portador que a veio pedir e buscar; emportando tudo na quantia de 280$100 reis preço em que os AA. o estimão, ou por aquillo que se liquidarem respeito a mobília e trastes».

 

Não apurei a causalidade, mas o Tomaz das Quingostas foi preso para as cadeias da Relação do Porto e essa prisão só podia ter sido efectuada depois de 1828.

Saído «das cadeias do Porto em 1832 pela entrada do Senhor D. Pedro naquela cidade» e, na verdade todos os historiadores daquele período da luta fratricida confirmam terem as forças desembarcadas em Pampelido, à sua chegada ao Porto, aberto as prisões e soltado os presos, indultando-os assim, veio o Tomaz para São Paio, sem aguardar para a escápula a caricata aventura de Carlos Napier.

Sua mãe tinha no lugar de Baratas uma casinha onde fôra feito, dizia-se, o património do primo do seu filho, o P.e Manuel António Pereira Codesso, morador no lugar do Cruzeiro, mas comprada pelo seu marido era ainda solteiro.

O Tomaz, ao chegar à terra, fôra-se logo com machadas e verrumas, cravos e martelos à referida casa e, à valentona, lhe cravará as portas, ficando até, alegou o padre, dentro fechadas umas suas sobrinhas.

Com este acto de violência parece ter atemorisado muita gente e especialmente aquele clérigo, pois sempre ele se disse receoso de perder a vida às mãos do parente.

Perde-se-lhe a pista no resto daquele ano, mas não repugna a suposição de ter gasto esses meses na formação de uma guerrilha ou a reorganisar a malta de facinorosos e atrevidos ladrões, acusada como já existente nos tempos anteriores à prisão.

Perto das Baratas vivia o Cirurgião de Real, Manuel José de Caldas, casado e com filhos, a prestar os seus serviços por aquelas redondezas em troca das avenças dos fregueses, quase todas em milho, e por isso havia bom passadio no seu lar.

Ora em Janeiro de 1834 o Tomaz das Quingostas exigiu do cirurgião quarenta e sete alqueires e meio de milho e em Julho do ano seguinte mais cincoenta alqueires e tres quartos.

Pouco dias antes desta última data a Prefeitura do Minho iniciara a caça ao Homem, oficiando aos sub-inspectores de Melgaço e Monção para lhe ser feita guerra de morte, com «a suspeita que sejão um fermento de guerrilha notrindo rellaçõens com os faciosos do reino vizinho» e no princípio do último trimestre deste mesmo ano secundara a caça o Governo Civil de Viana, mas confessando, abertamente, haverem-se «tornado infructíferas todas as medidas adoptadas para este fim, pelo auxílio que os mesmos Povos dão a este chefe, fazendo-se por isso tão cúmplices como os referidos Salteadores…»

Tomaz das Quingostas nem assim transferiu o seu quartel general para outra região, mas os acontecimentos políticos desenrolados no país e, sobretudo no distrito, dele distraíram as atenções dos diversos dirigentes da nação, durante o ano de 1836.

Á vontade, portanto, o Tomaz continuou a campear em Melgaço e em 7 de Maio de 1836 fez ao cirurgião Caldas a nova exigência de setenta e dois alqueires de milho e, como tantos não havia em casa, levou-lhe o rol das avenças e foi cobrar a maior parte do cereal à casa dos próprios fregueses.

O Tomaz das Quingostas foi então perseguido pela tropa e, desconfiando do cirurgião, considerando-o único espia dos seus actos, recebeu em agosto como indemnização: um cavalo, levado das Baratas pelo seu companheiro bem conhecido pela alcunha «O Casal de Sante» e em outubro um touro, tangido desde ali pelo João Ferreiro, de Baratas.

 

(continua)

 


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Terça-feira, 12 de Março de 2013

AUGUSTO CÉSAR ESTEVES IV

 

 

Uma obra impressa nas folhas do Notícias de Melgaço, órgão e voz de uma mescla de juristas, de professores, de funcionários públicos e de negociantes bem sucedidos conotados com posições e sobretudo com interesses contrários aos defendidos e representados pelos Padres Vaz e seus amigos na Voz de Melgaço, que ainda hoje se publica.

Num oportuno artigo intitulado Os lugares vistos de dentro: estudos e estudiosos locais do século XIX português, Augusto Santos Silva começa por tentar explicar os factores que motivaram o interesse pelos estudos locais no Portugal oitocentista, apontando de um lado a tradição da memória e do levantamento histórico, corográfico e administrativo do território, cujas raízes podem ser remontadas a Quinhentos, mas se afirma sobretudo no fim do Antigo Regime; do outro, a mudança cultural e doutrinária trazida pela primeira geração romântica no modo de ver, interpretar e identificar a Nação, essa nova realidade em formação, pelo cruzamento da tradição histórica e da sociedade liberal; e, por último a acção específica do Estado constitucional e, em particular, a construção do quadro político, administrativo e social pós-absolutista. É sabido, porém, que estes factores não se impuseram imediata e solidamente. Foi preciso esperar pelo amadurecimento de condições estruturais e conjunturais para que irrompesse o clima intelectual e ideológico no qual se formará uma nova fileira de conhecimentos – os estudos locais e regionais – um novo perfil técnico e intelectual – o erudito ou estudioso local – e uma nova legitimação e racionalização da pesquisa sobre o País – o bairrismo ou “amor da terra” própria. E o autor que estamos a citar oferece-nos de seguida uma visão panorâmica através da qual “arruma” a produção monográfica, anterior às duas últimas décadas do séc. XIX, em três grupos: o primeiro descende directamente das tradicionais pesquisas corográficas, topográficas e estatísticas; o segundo incluiu textos de diversa intencionalidade e natureza, que não assumem a forma de estudos, em sentido estrito, mas consideram e destacam factos e atributos reputados característicos de espaços sociais locais ou regionais; e o terceiro engloba o interesse da erudição e da análise propriamente dita concretizada na história lacunar e parcelar, que se justifica e engrandece, porém, como propósito de fixação e difusão pública, de arquivo, de inscrição na memória de factos, feitos, figuras, e patrimónios, para testemunho dos presentes e benefício da posteridade. Os livros intitulam-se, em consonância, esboços, memoriais, compêndios de notícias, apontamentos, subsídios, etc., perseguem sobretudo fins morais e cívicos (…) Quando procura maior fôlego e efeito, o estudioso pode aproximar-se do registo para-literário.

Filia-se neste terceiro grupo o modelo que haverá de projectar-se sobre quase todo o séc. XX e no qual se enquadra facilmente Augusto César Esteves e a sua obra, apesar de ter optado por “fragmentos” monográficos em vez de ousar a monografia integral num ou em vários volumes como aconteceu em muitos concelhos deste Portugal de norte a sul, de oeste a leste. Convém, por isso, que atentemos, à guisa de síntese final, nos traços principais do referido modelo condensados por Santos Silva de forma precisa e esclarecedora: Desde logo, é um tipo próprio de intelectual e de intelectualidade que se afirma – e marcará a vida institucional e cultural local do nosso século XX. Pároco, literato, homem de leis, funcionário da administração, professor ou líder político, o estudioso é uma figura cada vez mais presente no círculo intelectual que cada cidade ou vila da “Província” portuguesa pode gerar. Escolarizado ou autodidacta, amador ou semi-profissional da erudição, tornar-se-á um interlocutor incontornável das instituições políticas e administrativas e dos poderes municipais e uma espécie de garante e avalizador da apresentação pública de si que uma localidade pode forjar – a projecção e rentabilização pública do seu “carácter” singular. Depois, é toda uma retórica que tem aqui uma das suas bases e expressões principais. O bairrismo – que, em poucos casos, pode chegar a conceber-se como um regionalismo – é a representação-tipo das razões e finalidades do trabalho do estudioso. Amor, e glória da terra, para usar os termos mais frequentes. Eis o que define o empreendimento analítico, o que desculpa as suas falhas, o que gratifica o seu auto, o que singulariza e engrandece o lugar no conjunto dos lugares de que se faz a nossa história e a nossa identidade nacional.

O estudioso Augusto César Esteves pertence indiscutivelmente ao perfil traçado e a sua escrita, imbuída de bairrismo, esteve sempre ao serviço da identidade e da singularidade do local dos seus afectos, das atenções e voluntarismos do benemérito – a criação dos Bombeiros Voluntários foi a mais saliente –, atingindo, a partir daí, do singular, a afirmação da plenitude nacional. Não admira, por isso, que o aparo afiado que alinhava em folhas inteiras ou em linguados de trinta e cinco linhas textos de denúncia, de defesa, de pedagogia cívica, de elogia e de crítica viperina acolhidos no Notícias, alinhava também longas transcrições com abreviaturas e grafismo arcaico arrancados ao empoeirado dos cartórios, dos arquivos e do olvido mais cruel, rabiscando, assim, a História desconhecida de Melgaço que quase ninguém antes dele, ressalvadas as notícias corográficas elaboradas desde o séc. XVIII, ousara desvendar. Dizemos quase ninguém, porque na lista incompleta de estudos monográficos sobre Melgaço que inserimos no levantamento feito em 1990-91 tínhamos referência ao opúsculo de Almeida Silvano intitulado As Águas de Melgaço: notícia histórica e prática (1896) com uma genérica contextualização corográfica e histórica do espaço termal. Mas este exemplo é pálido e insuficiente para sustentarmos a tese de estudos anteriores ao contributo de Augusto Esteves que, por sua vez, será o pioneiro e despoletador da produção monografista em que vão pontificar o P.e Manuel Bernardo Pintor, P.e Júlio Vaz e o Doutor José Marques a par de outros autores mais esporádicos.

Num estilo que articula o para-literário com o jargão jurídico de antanho e alfinetadas várias em tom ora jocoso, ora ofensivo, a concatenação de elementos e de citações colhidas tanto numa boa biblioteca erudita que acumulou ao longo dos anos e acabou, após a sua morte, por ser vendida, como em inúmeras centenas de folhas de documentos encontrados ao pé ou localizados em Arquivos Públicos nacionais e espanhóis, para onde dirigiu pedidos de transcrição e de ajuda paleográfica – essa concatenação, dizíamos, não obedeceu a um plano muito sistemático como ficará patente já neste primeiro volume e nos seguintes, reservados, à excepção do último, para a reedição integral dos livros que publicou em vida. Postumamente, foi já possível editar a obra monumental que preparou com esmero e deixou pronta para impressão pouco antes de falecer. Referimo-nos ao O Meu livro das gerações Melgacenses (2 vols., 1989-1991). O plano destaobra surgiu naturalmente anunciado no seu jornal e, por isso, aparecerá adiante neste volume inaugural de um projecto editorial modesto, mas urgente e imprescindível ao aprofundamento dos estudos melgacenses que não se podem esgotar apenas na História em stictu sensu – a faceta em queo contributo de Augusto César Esteves mais se centra – , podendo e devendo abranger também a Etnografia, a Arqueologia, a Arquitectura Civil e Religiosa, etc.

 

  1. Homenagem e desafio – o projecto editorial que tardava…

 

Pelas razões acima expressas tínhamos de principiar este projecto de (re)edição da Obra completa do Dr. Augusto César Esteves com a colecta de todos os artigos impressos nas paginas do Notícias de Melgaço. Daí o título inevitável que se impôs sem margem para hesitações e alternativas. Mais complexa, ainda que perfeitamente superável, foi a classificação temática que fomos burilando a fim de agruparmos de forma coerente e próxima da lógica originária os múltiplos artigos que ao longo de mais de duas décadas tiveram espaço cativo nas colunas do dito periódico. Apesar da variedade temática e do empenho do autor em assuntos actuais e polémicos, é flagrante a destacada quantidade de artigos sobre história local, artigos esses que acabavam compilados em livro, como foi o caso, incluído neste primeiro volume, do opúsculo de 46 páginas editado em 1960 e intitulado O Ensino da História de Melgaço na Escola Primária.

Foi o que aconteceu com Melgaço e as Invasões Francesas, 1807-1814 (1ª edição, 1950) e que será o próximo volume desta colecção.

Seguir-se-á Melgaço, Sentinela do Alto-Minho, editado em 1957 com uma primeira parte com um só volume, e uma segunda parte dividida em dois volumes. Manteremos a divisão dada pelo autor, o que significa que esta obra será dada à estampa em três volumes.

No mesmo ano de 1957 foram reunidos em livro os artigos dedicados à Santa Casa de Melgaço.

O projecto encerra com um volume final em que incluímos textos de imprensa anteriores à fase do Notícias de Melgaço, artigos desta fase que por lapso já não puderam ser inseridos neste primeiro volume, apontamentos, autógrafos e inéditos do Dr. Esteves e, ainda, críticas e comentários entretanto aparecidos e referentes a este projecto editorial.

Os projectos são para se cumprir e pela nossa parte fica, aqui, lavrada a promessa e o empenho de um cumprimento que agora começa. Esperamos dos leitores o que lhes cabe – tornar este exercício, que para nós foi de prazer e de satisfação ímpar, num bem útil e partilhável pelo maior número possível.

Bem hajam por isso.

 

Braga, Julho 2003-07-31

 

Armando Malheiro da Silva

Joaquim Rocha

 

 

Obras completas: Augusto César Esteves

 

NAS PÁGINAS DO NOTÍCIAS DE MELGAÇO

 

Recolha e Apresentação: Armando Malheiro da Silva

                                             Joaquim Rocha

 

Edição: CÂMARA MUNICIPAL DE MELGAÇO

 

2003

 


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Sexta-feira, 8 de Março de 2013

AUGUSTO CÉSAR ESTEVES III

 

 

1. A escrita ao serviço da identidade local e nacional

 

Esse testemunho merece toda a nossa atenção e engloba parcelas importantes da tua actividade como melgacense preocupado com a sua terra e o seu país, como cidadão politizado e decidido a uma intervenção pública constante, como jurista e como eterno e incansável aprendiz de historiador e monografista local.

Membro da geração do primeiro decénio de novecentos, interventiva como se infere, por exemplo, da greve académica de 1907, e influenciada, à semelhança de algumas gerações anteriores, pelo romantismo, pelo naturalismo literário, pelo positivismo (Ordem e Progresso), pelo socialismo utópico e pelo republicanismo, Augusto César Esteves não destoou do quadro geral em que podemos inseri-lo. Quer como jurista, quer  como intelectual e cidadão politizado reflectiu as preocupações sócio-políticas do seu tempo e acompanhou as sucessivas tendências e alterações mundiais com espírito simultaneamente crítico e atento. Mas fez isto tudo, saindo o mínimo possível de Melgaço e este traço merece destaque porque em certa medida proporcionou que, a partir sobretudo da década de quarenta, intensificasse a recolha de informação histórica e trabalhasse o caudal crescente de dados a fim de firmar créditos como o único monografista sistemático do seu concelho natal.

A passagem por Braga e sobretudo por Coimbra, num período curto de viragem político-institucional – a instauração da Republica em 1910 - , foi importante para a sua postura ideo-política e para o seu perfil de intelectual progressivamente seduzido e embrenhado nos estudos históricos (desde o período medieval até ao séc. XIX). Militou no Partido Republicano Português/Partido Democrático (1911-1926) liderado por Afonso Costa e após 1919 pelo Eng. António Maria da Silva, embora não tenhamos ainda podido colher na imprensa regional vestígios claros desse seu militantismo partidário, vindo depois a situar-se na barricada dos que opondo-se ao Estado Novo não podiam hostilizá-lo se queriam continuar com o emprego público e a residir onde desejavam. Em contrapartida, é mais fácil compreender e explicar as linhas de força que orientaram o publicista e o historiador amador de Melgaço.

Temos mais de um milhar de páginas escritas em que estas facetas complementares se derramam e evidenciam. Merece, aliás, destaque a dedicatória à sua mulher com que abre o primeiro livro impresso: Esmeralda/ Porque nem tu receias a linda rival, nem eu temo se aniche no teu peito o ciúme provocado por esta amante, para mim tão cara e feiticeira, avalia tu própria os meus novos amores, lendo com atenção estas páginas ligeiras, escritas quase todas a teu lado. /Para isto t’as ofereço e confiadamente, as deponho no teu ragaço, beijando-te a mão. / Teu/ Augusto 1. E logo a seguir, sob o título Conversemos, deixou gravados os propósitos que o levaram a escrever, anos antes, os artigos sobre história local nas páginas do jornal Notícias de Melgaço destinadas aos seus patrícios: Mas como o Autor não aspira à imortalidade apetecida pelo historiador ou pelo purista da língua, pois se contenta com as honras de pequeno cabouqueiro da história local, votado a carrear elementos, para outros, mais tarde, sáfaro e ingrato, inicia-se mesmo assim a publicação de Melgaço e as Invasões Francesas.

Os valores republicanos que perfilhou – um exacerbado nacionalismo e patriotismo de matiz regionalista, um claro apego à liberdade, à democracia e à justiça social e um indelével intransigência moral – emergem claramente da sua prosa de publicista e da pena do publicista saíram a “tinta” e as cores políticas e ideológicas mescladas, sempre, com a defesa intrépida dos interesses locais. Significa isto que o político, o ex-militante republicano e o cidadão zeloso de seus direitos e dos seus conterrâneos perpassa nas páginas históricas tecidas num estilo com concessões frequentes ao subjectivismo literário e ao constante remoque moralista, social e político. Não é, assim, possível separar o publicista do monografista, mas é deste que nos temos de ocupar porque ele se agigantou e deixou obra.

 

 

(continua)

 


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AUGUSTO CÉSAR ESTEVES II

 

 

Augusto Esteves logo que começou a abrir os olhos para a vida, o que viu?

Qual Buda viu crianças expostas, viu a miséria de caseiros e jornaleiros, viu gente a morar em casas minúsculas, tugúrios inóspitos e horríveis – enfim, viu uma feira de vergonhas, de situações aberrantes e indignas do ser humano. Ele viu tudo isto, porque como o próprio deixou dito: cresci (…)  ao ar livre. E à medida que foi crescendo afastou-se paulatinamente do modelo: viu, tornou a ver, mas seguiu outros caminhos.

As primeiras letras aprendeu-as com o P.e João Nepomuneceno Vaz, sacerdote e professor do ensino primário, doutrinador exímio, um verdadeiro Santo Agostinho em miniatura. Frequentou também a escola de D. Maria Augusta de Passos Brito, professora oficial da instrução primária, nascida em Monserrate, Viana do Castelo, e casada em Melgaço com o proprietário Manuel José da Costa, de São Paio. Augusto César convenceu-se de que com ela perdera ingloriamente o seu tempo. Conviveu muito com seu pai, que o levava a passar serões na Loja Nova e aí se entreteve com os jovens caixeiros, enquanto os adultos falavam da lavoura, da política, de câmbios, de fortunas e azares em terras longínquas, etc.

De Melgaço a Braga é um passo de anão e para lá seguiu em 1899, tendo-se matriculado na segunda classe do Colégio do Espírito Santo. Da cidade dos Arcebispos partiu para Coimbra, onde se graduou bacharel em Direito no ano de 1912.

Ainda jovem teve uma ideia oportuna e generosa: dotar Melgaço de uma corporação de Bombeiros Voluntários. A seu lado, no dia 15 de Maio de 1926, no salão nobre da Assembleia Recreio Melgacense, estiveram os notáveis da terra: Dr. Américo de Freias Coutinho Maltez, juiz de direito na comarca de Melgaço, Dr. Armando António Barbosa, delegado do Procurador da República, Ernesto Viriato Passos Ferreira da Silva, Hermenegildo José Solheiro, Dr. Joaquim de Barros Durães, Dr. Augusto César Ribeiro Lima, Dr. António Francisco de Sousa Araújo, Dr. António Cândido Esteves, médico, Abel José Nogueira Dantas, professor, José Pires Louro de Oliveira, tenente, António Joaquim Esteves, Germano Alves Carabel, Duarte Augusto Magalhães, Manuel José da Costa, padre António Manuel da Cunha e Raul Solheiro Esteves. Todos aplaudiram a excelente ideia e assim nasceram os Bombeiros Voluntários de Melgaço. O primeiro tesoureiro foi precisamente Augusto César Esteves. A Associação foi inaugurada a 14 de Abril de 1929, servindo de madrinha do baptismo do material de incêndios a menina Iracema Mendes de Araújo. Teve como 1º comandante Herculano Arsénio Gomes Pinheiro; 2º comandante Abílio Domingues; e chefe da Banda de Música Manuel Rodrigues de Morais, que fora até aí regente da Filarmónica Música Nova, e que veio a dar que falar por ter conseguido transformar a Banda de Música numa das melhores do Alto Minho.

Augusto Esteves passou alguns anos na contígua vila e termo de Monção, onde exerceu o ofício de advogado e de notário. Transferiu-se depois para o Tribunal Judicial de sua terra natal assumindo funções de Secretário e veio também a acumular cargo de ajudante do conservador do Registo Predial.

Na sua amada terrinha foi homem activo politicamente durante a I  República (1910-1926): administrou o concelho durante algum tempo, presidiu meteoricamente à Câmara Municipal de Melgaço, foi tesoureiro e provedor da Santa Casa da Misericórdia. Interveio sempre que pôde nos assuntos do concelho, mas com o advento primeiro da Ditadura Nacional (1926-193) e depois do Estado Novo salazarista (1933-1974) a sua voz e a sua acção tiveram de ser refreadas, pois as consequências de palavras “mal” ditas reflectir-se-iam inevitavelmente no seu emprego. Perdido este, teria de deixar Melgaço e isso ele não queria de forma alguma. Amava o torrão natal como poucos e era aí que queria passar a sua vida. Inteligente e hábil, soube sempre dosear a sua intervenção, de maneira a não ferir as susceptibilidade daqueles que tinham força e poder, os quais o poderiam prejudicar seriamente. Por vezes até os gabava, louvando a sua “obra”! Aos outros, embora salazaristas, atirava amíude as suas setas, embebidas em suave veneno, com uma ironia à Eça de Queirós, sabendo de antemão que daí não adviriam represálias, apenas comentários mais ou menos felinos, mas cem por cento inócuos.

Ideologicamente era republicano e democrata, mas não socialista e muito menos afecto ao comunismo, não poupando ataques ao regime soviético. Não idealizava igualdades, contudo detestava ver o povo na miséria. Não era um aristocrata, mas o seu lado burguês impelia-o ao convívio com os “grandes”. Pregava e adoptava uma postura humilde e tolerante, mas quando alguém, por maldade, lhe lembrou que a sua esposa nascera de mãe solteira, embora perfilhada posteriormente pelo pai, irritou-se, ferido no deu orgulho, tomando a afronta como grave questão de honra. Era acima de tudo humano com suas contradições, defeitos e virtudes.

Casou no ano de 1914 com Esmeralda Esteves e enviuvou em Dezembro de 1956. Não se pode afirmar que o seu casamento foi infeliz, pelo contrário. Tudo nos leva a supor que o casal viveu em harmonia e felicidade. Porém, essa felicidade foi ensombrada pela morte prematura da filha, Belarmina Cândida, nascida em 1915 e falecida a 10 de Setembro de 1936, solteira e sem geração. O filho Henrique César, nascido em 1917, fez alguns estudos, poucos, empregou-se no Grémio da Lavoura, e aí permaneceu até à aposentação, com magro salário, mantendo-se completamente à margem dos interesses políticos e culturais do progenitor. Casou, já em madura idade, com D. Clementina Rosa e tal como a sua irmã também não deixou geração.

Não tendo quem lhe continuasse o trabalho e a estirpe, Augusto Esteves foi-se refugiando cada vez mais na sua obra. Aí vingou. Nela investiu todo o seu saber, o seu amor pela terra, os seus tempos livres, tirando partido do fácil acesso aos documentos em posse de famílias melgacenses e, sobretudo desempoeirando todos os velhos papéis jazentos sob o efeito letal da indiferença nas Conservatórias, Câmara Municipal, Tribunal, Confrarias, Paróquias, Misericórdia… Abdicou de prazeres mundanos, de descansos merecidos e embrenhou-se na história de Melgaço, tentando dar aos conterrâneos uma visão de conjunto, enaltecendo os feitos dos antepassados, enquadrando-os no todo nacional, pesquisando em alguns importantes arquivos públicos do país (Braga, Coimbra e Lisboa), tudo à sua custa, sem subsídios, sem ajudas. Hermenegildo José Solheiro, aquando da sua passagem pela cadeira do poder local (1926-1931), quis dar-lhe algum dinheiro da Câmara Municipal para custear as investigações, mas Augusto César Esteves, sabendo que os cofres da edilidade andavam quase vazios, não aceitou tal dádiva.

Não era um profissional da investigação histórica, mas um apaixonado pela história da sua terra e nessa condição conseguiu transpor dificuldades e desânimos deixando um testemunho variado, desigual e meritório, que deve estar acessível, em primeira mão, a todos quantos, se orgulhem, como ele se orgulhou, de serem portugueses de Melgaço.

 

(continua)

 


publicado por melgaçodomonteàribeira às 23:32
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