Quinta-feira, 7 de Março de 2013

CARTA DO MESTRE AEC

 

 

Carta de mestre António El Cambório a seu amigo e compadre Dom Cambório Refugiado Lusitanus ou como viviam uns melgacenses em terras de Bracara Augusta nos idos de 972.

 

   Caro amigo: as suas perguntas são verdadeiramente interessantes e impertinentes. Agradeço-lhe imenso por ter pensado em mim para esclarecê-lo.

   Se a minha memória me não atraiçoa, creio que esses singulares companheiros de uma época muito apreciada por nós eram três: dois irmãos e um primo, nativos da modesta vila de Vinhais, terras dos nossos progenitores da Casa de Bragança.

   Pessoas simplórias, bastante rudes, eram possuidoras daquele vilão lapso distintivo das criaturas primitivas que tentam, claudicantemente, modelar e escamotear as maneiras grosseiras que as caracterizam.

   Um deles, como Vossa Senhoria legitimamente mencionou, permitia-se conceber uma hipotética integração no restrito círculo do universo espacial assim como uma improvável presença nos jogos olímpicos de Munique. Pobre plebeu!

   Mas o mais vil, o mais apócrifo era, sem controvérsia, o primo. Havia que ver como ele agarrava nos talheres mal a Dona Adelaide, ex-rameira no chique bairro da nossa graciosa Sé, pousava a travessa com o restrito conteúdo de massa com frango habitual! Que Vossa Senhoria me perdoe, mas parecia o toureiro que esperava o animal para lhe cravar as “banderillas” no lombo. Depois do “Sirvam-se” consuetudinário, ao qual nós respondíamos com a devida e reverente cortesia : “Primeiro vocês”, o ignominioso indivíduo, sem hesitar, cravava o forcado nas duas pernas de frango como se fossem dois trofeus merecidos. Assim passaram semanas sem sabermos qual era o prazer proporcionado pela delicada e refinada carne das pernas dos galináceos. Nem pelos seus congéneres que, como nós, apenas as viam passar, formulava a mais sucinta consideração. Mas para nós, pessoas com princípios e cultas, que vínhamos de terras onde a deferência é rainha, a afronta não podia perdurar.

   Foi graças à perspicácia de Vossa Senhoria que, determinado dia, não podendo suportar mais o seu arrojo grosseiro, usou as mesmas armas que o vil indivíduo, ou seja, não retribuiu a gentileza ao túrbido plebeu e apropriou-se das duas suculentas gambetas do galináceo servindo-se prioritariamente. Lembro-me da careta de contrariedade, de exasperação incontidas que a sua desprezível fisionomia exteriorizou naquele instante e que se traduziu por uma ausência deliberada de vénias para connosco durante um período assaz longo. Coisa que não foi nada desagradável nem perturbadora para pessoas discretas, de valores e de nobre linhagem como nós.

   Ah! A graciosa donzela, a filha da Dona Adelaide, estava no coração de todos nós sem excepção. Quantas vezes a minha frágil mão direita cedeu aos caprichos de uma verga escaldada e endurecida pela atracção que esta excitante e inebriante polposa criatura exercia sobre o meu instável equilíbrio libidinal! Apesar da sua errónea e frígida indiferença, éramos todos escravos do seu charme.

   Vossa Senhoria, as minhas humildes e limitadas reminiscências têm, apesar de tudo, uma distante ideia do amigo da Dona Adelaide que eu, modestamente, designaria de proxeneta, título honorífico nas camadas da plebe.

   Espero sinceramente ter trazido todos os esclarecimentos às delicadas questões que importunavam Vossa Senhoria. Fico, todavia, à Vossa inteira disposição se por acaso uma das respostas o não satistaz.

 

   Rogo-lhe, Vossa Senhoria, que acredite na expressão das minhas mais sinceras e cordiais saudações de benevolência.

 

   Seu vassalo, António El Cambório, Conde de Parada do Monte.  

 

   A. E. C. correu a Europa a nosso pedido e com cartas de Sua Majestade Senhor de Melgaço e afins. A passagem por Bracara Augusta levou-o a terras de Santiago e, mais tarde, às terras Gaulesas onde desenvolveu a arte da escrita e da musica e, em seguida, a de fazer filhos em nome de Nosso Senhor Jesus Cristo. Encontrou na sua viagem grandes nomes como Carlos de Valença, Arturinho de Monção ou Zé Pequeno de Cousso, todos eles  destacados e irrefragáveis botânicos, pioneiros na exploração e na experimentação das plantas canabináceas, com os quais celebrou tratados herbáceos,  culminando estes na classificação das subespécies do canábis sativa L. e, por conseguinte, no desenvolvimento da kaya em terras da hespaniola. Actualmente, recolhido em terras de Val-de-Marne.

 

António El Cambório

 

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LARÁPIO: PROFISSÃO ÁRDUA II

 

 

    Resolvi regressar a Melgaço onde, se tudo corresse bem, o Moisés me preveniria por telegrama, e aproveitar para reconstituir o meu capital bancário que tinha sofrido um desgaste considerável durante aquelas duas semanas. Assim foi.

   Uma semana depois do Ano Novo, recebi o telegrama tão esperado que confirmava o meu ingesso nos TLP.

   Regresso à capital e à rua da Emenda, onde fiquei quase cinco meses. Não ganhava grande coisa, mas chegava para comer e sobrava para ninharias. Os tios do meu amigo nunca quiseram dinheiro por estar no mesmo quarto que o sobrinho e dormirmos na mesma cama.

   O pai do Moisés era sócio da gráfica que havia em Melgaço, onde era imprimido um jornal local, o Notícias de Melgaço e na qual trabalhava. Então, mensalmente, recebia convites para visionar os filmes mais importantes em estreia em Portugal a fim de poder fazer a respectiva crítica no jornal. Como não tinha tempo, enviava os bilhetes para o filho em Lisboa. Durante os poucos meses que estive na capital, vi mais filmes do que no resto da minha vida.

   Uma tarde, depois de uma sessão no São Jorge, descemos a avenida pelo mesmo lado até ao fundo dos Restauradores e fomos merendar a um grande café que ali havia. Já não era a primeira vez e, portanto, conhecíamos bastante bem o ambiente e o género de pessoas que o frequentavam. Havia de tudo: casais de namorados, pseudo-intelectuais, prostitutas, chulos, aposentados, junkies, larápios e pessoas banais, sem interesse, como nós. Era a mistura destas diversidades que nos atraía para aquele café de vez em quando.

   Na mesa ao lado da que nós estávamos sentados, encontravam-se recreados três indivíduos com pouco mais de vinte anos, bem vestidos, camisa com os dois últimos botões desapertados e colarinhos por fora dos casacos, exibindo cordões e pulseiras onerosos e dourados. De cabelos bem penteados e lacados, tinham todo o aspecto de chulos. Mas não o eram.

   Nesse momento, aproximou-se da mesa outro indivíduo igualmente pimpante mas com ar contrariado, quase irritado. Puxou a quarta cadeira e, apenas sentado, perguntou aos outros três com um ar importunado:

   — Ó pá, qual de vós trabalhou ontem à noite na calçada da Estrela ?

   Os três homens olharam uns para os outros, intrigados com a pergunta, e, por fim, um deles pronunciou-se.

   — Fui eu, pá, por quê ?

   — Não gamaste um Opel 1604 S branco com jantes especiais ?

   — Gamei, pois, e foi precisamente por causa das jantes, pá !

   — Pois olha, vais pô-lo no mesmo sítio o mais rapidamente possível porque roubaste o carro da minha irmã, pá ! Estava tão bem na cama hoje de manhã, depois de ter passado uma noite atroz a trabalhar, pá, quando a minha irmã, a chorar, me vem dizer que lhe roubaram o automóvel ! Ó pá, é uma chatice do diabo ! Tem que haver respeito  pelos amigos, carambas !

   Eu e o Moisés, que não perdêramos uma migalha da conversa, tínhamos grandes dificuldades em controlar a vontade incoercível de rir.

   — Concordo contigo, pá, é muito aborrecido, tens toda a razão, mas também deves  perceber que eu não podia adivinhar que o carro era da tua irmã, pá !

   — Prontos, o assunto está arrumado. Quando saires daqui vais pôr o carro no sítio e não se fala mais no caso.

   O outro, contrariado com a facécia, e para temperar o mau humor do colega, disse-lhe alegremente:

   — Não penses mais nisso e vamos mas é tomar alguma coisa. Só é corte porque me encomendaram jantes deste modelo há muito tempo e, para encontrá-las, pá, é um inferno do caraças !

   O outro, que acendera um SG gigante e o guardara no canto da boca, deu duas grandes chupadelas e respondeu-lhe, cansado:

   — Não mo digas, meu ! Por isso fiquei chateado. Nem imaginas as voltas que tive que dar por Lisboa para encontrar estas para a minha irmã, pá ! Isto é um problema...

   Não pudemos aguentar mais. Como se não tivesse nada que ver com a conversa deles, rimos descaradamente, durante uns bons momentos. Estava visto que a profissão de larápio era bem mais difícil e contrariante do que nós pensávamos. Pagámos e regressámos à rua da Emenda.

 

Março de 2010.

 

A. E. C. 

 


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Terça-feira, 5 de Março de 2013

O ENTERRO DO ESTUDANTE X

 

 

A irmã da D. Maria era a D. Rosa … E quem é que não conhecia a D. Rosa na cidade? A Rosa dos fretes, a maior p*ta da cidade.

A irmã da D. Maria, mão na anca, como boa mulher que se preze da sua profissão, bate com o pé no chão e desata a guinchar:

— Ah se fosse comigo! Isto não ficava assim, não.

D. Maria, apanhando o ritmo, gritou:

— A Minha filha já foi chamar a polícia.

O Fininho, “expert” em fugas, já ia a meio caminho pelas escadas quando aparece o cívico, olhar duro e voz fanhosa:

— Já sei o que se passa. Paguem. Paguem a garrafa.

O Fininho e o amigo, obrigados a subirem a escada; as megeras a gritar e o Louro a sair do quarto, berrando:

— Acabem com essa m*rda. Quero dormir e, além do mais, não tenho nada a ver com isso.

E, olhando para o Fininho, logo grunhiu:

— E tu, ainda aqui estás?

O Fininho volta-se para o cívico e atira:

— Sr. guarda não tenho nada a ver com isto. Vou para a minha terra e quem quiser que se entenda, percebeu?

Com o cívico a não saber para que lado se havia de virar, Fininho e amigo logo descem as escadas em direcção à estrada que os há-de levar ao almoço, 100 km depois.

Entretanto a guerra, dentro de casa, continua.

Aninhas, a filha, resolve botar faladura. E de que maneira:

— O Pequeno não tem nada a ver com isso. O malandro é o Padeiro.

O cívico, a D. Maria, a filha, a D. Rosa …

O Padeiro:

— Não me chateiem, deixem-me dormir …

— Que m*rda é esta, não posso dormir? – grita o Louro.

Do Pequeno nem ai nem ui …

O cívico tirou o boné, limpou a testa, e declarou:

— Entendam-se, por favor.

Não voltou a haver notícias da D. Maria, filha e irmã.

O Fininho fez desaparecer, uns dias mais tarde, um copo e uma garrafa vazia de Porto e essa foi a última vez que se intitulou estudante. Nem ele nem os outros, daqui não saiu nenhum doutor.

Algures, por essa Europa, andam estes quatro e, de certeza que no dia em que se encontrarem, quatro frangos não chegam.

Um grande abraço Fininho, Louro, Pequeno e Padeiro. A vossa irreverência, a vossa força, o vosso dizer não, também ajudaram aquele 25 que ninguém poderá esquecer.

 

Camborio Refugiado

 


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O ENTERRO DO ESTUDANTE IX

 

 

O Louro bem resmungou, mas lá teve que voltar a entrar pelo janelo da casa de banho e colocar o “pirata” dentro da caixa.

A garrafa mais o copo foram parar à mala do Fininho que já estava pronta para arrancar.

Carnaval à vista, férias para gozar, estudante “morto” …

O Fininho tinha encontro marcado com um amigo para se fazerem à estrada na manhã seguinte. E a manhã começou com murros na porta …

O Fininho, de cara molhada, na casa de banho, quase pronto para fazer 100 km à boleia e ainda ir comer as papinhas da mamã, fica espantado com a barulheira que vai pela casa.

— Ladrões, ladrões, é o que eles são …

D. Maria, aquele toucinho todo a abanar, bata azul e branca aos quadradinhos e com a caixa dourada na mão:

— Ladrões, são uns ladrões … Filha, telefona já à tua tia que estes ladrões não saem daqui.

Já a filha gritava:

 — É o Padeiro mãe, é o Padeiro, que eu bem vi a lata da laca no quarto dele.

Arremeteram as duas para o quarto do Padeiro que estava com a porta fechada e quando se preparavam para o barulho, abre-se a porta e eis que aparece, tronco nu e olho azul a faiscar, o nosso amigo. Com dois berros acaba com a confusão:

— Fora, fora do meu quarto.

O Louro, sonolento como sempre, ergue-se da cama, vira-se para o Fininho, esfrega os olhos e pergunta:

— Quando é que te piras? Já não se pode dormir em paz?

Entretanto chega a irmã da D. Maria …

O silêncio era de chumbo …

 

(continua)



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O ENTERRO DO ESTUDANTE VIII

 

 

Ficou deliberado e pronto a ser executado que o Louro atacava o janelo existente entre a casa de banho e a sala interdita, pousando a sua pata no armário, qual cristaleira, que iria servir de base ao assalto e amortecer o barulho da entrada no santuário da megera.

O Louro, indisciplinado de nascença, olhou com ar de gozo as fechaduras dos armários interditos:

— Foi por causa desta m*rda que eu tive que passar pela janela?!

— Cabrão, abre isso. Queremos beber.

— Salta tu por aqui, se tens tomates.

— Chiu, chiu … Filho da p*ta, se a gorda aparece …

O Louro reaparece com uma caixa de Porto na mão e um mar de desculpas na ponta da língua:

— Só Porto. Não havia outra …

O Padeiro mirou, remirou e logo cagou sentença:

— Caixa desta não destoaria em garrafeira minha.

— Meia dúzia de camarões, garrafa de Porto em caixa dourada … Será que isto chega para pagar a fome que passámos aqui?

O mote estava dado. E depois do marisco comido com Porto à mistura só faltava uma “boca”, qual rastilho incendiário, para o gozo ser total.

— A caixa tem que voltar para o lugar.

Quando o Padeiro levantava a voz era certo e sabido que havia treta na costa. Entrou no quarto, peito saliente, qual pide a tempo inteiro, e aparece logo de seguida com uma embalagem de laca, rótulo fora, folha de caderno na mão, a gritar:

— Cola isso aí …

Era só o desenho de uma caveira muito cabeluda, pala no olho direito, que iria ocupar o lugar da garrafa de Porto.

 

(continua)



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O ENTERRO DO ESTUDANTE VII

 

 

Logo o Louro teve que pagar as favas, porque se não fosse o mijo dele estar tão carregado de tinto e cerveja a nossa situação não estaria tão mal.

E a filha a quem nunca pusemos o olho em cima? Bem, o problema da filha estava ultrapassado, também era só o olho.

Agora o problema do estômago, já era outra conversa. Amigos, amigos, mas fazer da casa um campo de concentração, ainda por cima pago, essa é que não.

E como quatro cabeças pensam melhor que uma, falava-se, falava-se e aguardava-se o dia em que …

Férias! Férias de Carnaval!

Contas feitas à vida, o insucesso escolar mais do que esquecido, só havia o problema dos velhos pagarem ou não, mas quem é que vai pagar para um menino teso ser grande entre os grandes? Férias na cidade? Não há nada para ninguém.

Mas o último dia tinha que ser comemorado … todos sabiam que depois das férias tudo seria diferente.

Recolhida a nota, dava para comprar cem gramas de gambas. Feita a compra, o Pequeno saltitava, irritante como sempre. “E beber? Bebemos o quê?”

O Padeiro fez-se sério, não fosse aquela cidade que deu origem à ditadura e, num abrir de braços, declarou:

— Vamos para casa; é lá que bebemos.

Ao subir a rua ninguém esquivou um olhar de lado para o Quartel da Polícia, quase lado a lado com a casa.

Polícia de Segurança Pública, PIDE, DGS … se outros nomes não arranjaram foi porque não tiveram tempo para tal.

Fosse o que fosse, na cabeça do Padeiro o grito de guerra era um por todos, todos por um e prejudicados daquela treta toda ou era a D. Maria, ou o magarefe, ou a dita filha, porque os verdadeiros culpados, isto é, os hóspedes pagantes, não podiam ter nada a ver com o assunto.

Reunião ….

 

(continua)



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O ENTERRO DO ESTUDANTE VI

 

 

Voltou murcho, branco, branco … muito mais branco do que a cera que era queimada na capela em baixo. Três caras horrorizadas perante aquela cara amiga, amiga de todos os dias que acaba de nos deixar com a fome no rosto. Fome antiga, companheira e aparece como um fantasma.

— Qual é a tua?

— O que é que aconteceu?

O Fininho desata a rir… rir … mãos na barriga e nada o faz parar de rir…

— A garrafa … huf …! A garrafa de Porto está em cima da mesa …. Ah … ah … ah ….

— O quê? …. A garrafa? … Qual garrafa?

Já ninguém se entendia. A garrafa de Porto, mamada há dias, já não passava pela cabeça daqueles meninos.

O Fininho resolve pôr tento na desorganização que reinava no quarto e sem levantar a voz:

— Meus senhores, todos bebemos; é hora de todos enfrentarmos a fera. Vamos para a sala.

— P’ra mesa - ouve-se.

O grunhido foi de tal maneira forte que ninguém pensou duas vezes.

Acabou a música e ficou no ar o aparvalhado da situação em que temos muito para dizer, mas abrir a boca é que não. Sentados, mui direitinhos, nos lugares que previamente tinham escolhido, quatro pares de olhos, mui solenemente, fixos na garrafa do mijo.

Ouvidos, quais radares por inventar, ligados à cozinha. Daí vem o perigo. Perigo? Qual perigo? Daí vem o sermão. E que sermão!

— Eu – discursou, berrou e etc. a D. Maria – que sempre os tratei como autênticos filhos, por quem os vossos pais têm a maior consideração, que me encarregaram de os acompanhar, quer na educação, quer nos estudos, não merecia da vossa parte tamanha patifaria. Sim patifaria, porque não tenho outra palavra para dizer o que senti quando bebi o vinho do Porto. Os meninos não só beberam o vinho como se deram ao luxo de encher a garrafa com água de sabão …

Os olhares entre os quatro eram de espanto. Em tempo de guerra-fria, espiões dos E.U.A. ou U.R.S.S., James Bond incluído, não teriam feito melhor. Nem um músculo bulia na cara daqueles descarados … esfomeados.

— Porque eu provei!

Ninguém se riu. Ninguém olhou ninguém. Ninguém sabe o que se passou.

Com o silêncio, as culpas foram assumidas e, como tudo na vida, o dia a dia recomeçou. Com fome, alguma fome, digamos, e as portas da casa de D. Maria todas aferrolhadas, acesso à casa de banho e é um pau.

 

(continua)

 

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publicado por melgaçodomonteàribeira às 21:38
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O ENTERRO DO ESTUDANTE V

 

 

Crise atrás de crise e a cozinha da nossa querida anfitriã voltou a ser o alvo a atacar.

Porta da cozinha fechada, só restava, na sala do nosso descontentamento, uma garrafa, meia, de Porto.

— É nossa, gritou-se.

Quatro e meia garrafa de Porto … dez minutos depois … com cabeça quente, com cabeça fria… alguém lembrou que a garrafa tinha que ir novamente para o lugar dela, mas não podia ir vazia!

— Mija-se dentro.

O Louro, de garrafa na mão, desaparece na casa-de-banho, e quando volta, solenemente coloca a dita no seu devido lugar e todos os outros concordam, sem margem para dúvidas, que o liquido estava no mesmo nível…

Há sempre um artista onde menos se espera …

Hora de jantar foi coisa que nunca existiu naquela casa, a não ser que o Louro ou o Fininho, guitarra eléctrica e viola nas mãos, e se bateria houvesse não ficava esquecida, para lembrar a existência daquelas pobres criaturas de Deus, sempre esfomeadas, à espera de uma côdea há muito paga, sabe-se lá com que sacrifícios paternos.

Diariamente o ritual era cumprido e, com mais ou menos música, cinco minutos depois do início do concerto, dois murros na porta do quarto. Quais trombetas a saudar César! Faziam com que a sala vazia se enchesse de olhos vorazes e estômagos ávidos de todos os ossos e ossinhos, peles e carninha com que teriam de se contentar até ao dia seguinte. A menos que…

É verdade que o jogo está a dar, mas até quando?

Têm aparecido uns clientes para a perna de frango, mas até quando?

 Poderá haver um descuido da D. Maria, no frigorifico, mas até quando?

Chegou o dia em que o despertar musical da cozinheira resultou em silêncio em vez dos ansiados murros na porta.

— Apanhas com os Doors - rosnava o Louro.

— Canto Joplin que ninguém aguenta - atirava o Fininho.

O Padeiro e o Pequeno, que sempre esperaram pelos murros na porta dos outros dois, impelidos pela fomeca de sempre, atiraram-se pelo quarto adentro:

— Mas que m*rda é esta? Não pagámos já o mês? Será que o chulo teve direito a almoço e jantar à custa do que pagámos adiantado?

O barulho era infernal dentro daquele quarto. A música saída do gira-discos, do amplificador da viola, dos estômagos esfomeados, das gargantas feridas pela falta de respeito no cumprimento do horário.

— Pago, quero comer. Vou ver o que se passa - palavras do Fininho.

 

(continua)



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O ENTERRO DO ESTUDANTE IV

 

 

Logo começou a lição:

— O dinheiro está no bolso dos outros. Os outros querem o nosso dinheiro. Nós temos que ganhar para ficar com o dinheiro dos outros.

O professor sabia do assunto, os alunos eram aplicados e não demorou nada que, num conceituado restaurante da cidade, à uma hora da manhã, cinco senhores, rapazes da aldeia, encomendassem o seu bife, bebessem a sua caneca de cerveja, gorjeta ao empregado e toca a ir dormir porque a cidade não dá para mais e a nota está a chegar ao fim.

Depressa o Bicho passou de professor a mais um dentro do grupo e, também os resultados do jogo diminuíram. Menos restaurante, mais tasca; troca-se a ceia, pela coxa de frango e tigela de tinto no Bar Januário da Rua de S. Marcos, como complemento da dieta imposta pela D. Maria.

A fartura, tal como diz o nosso povo, geralmente dá em fome. E, para quem pagava para comer, qual janela, qual porta fechada, para chegar ao objectivo, ou seja, ao frigorifico da D. Maria, toda a arma servia.

Grupo reunido, depois de três ou quatro noites em que a jogatina mal dava para cigarros, comprados avulso, e às tigelas nem tínhamos acesso, decidimos que quem paga come e esperar pelo dia seguinte era mais uma noite de barriga vazia.

Democraticamente foi decidido que no dia X,o mais cedo possivel, depois de encontrada a hora do ataque, era irreversível o assalto final à casa forte da megera que nos chupava até ao tutano. 

Chegar a casa, depois das voltas na cidade, entrar e devorar tudo o que estivesse à mão de semear e logo se veria, porque o outro dia até é outro dia, com mais problemas para resolver, com mais cigarros para fumar, tigelas e cervejas para beber.

Nessa noite todos pensámos no estômago cheio de nada e nos petiscos da D. Maria para o magarefe. Qual ataque de D. Nuno! Acabar com o mouro na primeira investida era a táctica a seguir.

Abre-se a porta, saco de fruta no fim e no frigorífico … nada!

Até amanhã que hoje não temos nada.

Foi como limpar o cu a meninos, não fosse o Padeiro lembrar-se que a carne que estava congelada dava uns óptimos bifes. Realmente, acalmar um físico daqueles era trabalho, não para quatro, antes para um regimento.

Claro está que a operação não passou despercebida e D. Maria pensou “casa roubada, trancas à porta”.

O jogo foi dando umas notas. Os pregos no prato às duas da manhã, umas moelas no snack-bar e, por vezes, umas coxas de frango e tigelas a acompanhar, equilibravam o edifício em ruínas que era a relação entre as refeições em casa e aquelas quatro barrigas na flor da idade ávidas de mantença, mas nem sempre o “amigo” estava disposto a colaborar.

 

(continua)



publicado por melgaçodomonteàribeira às 21:22
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O ENTERRO DO ESTUDANTE III

 

 

Com nota fresca no bolso, cinquenta paus mais uns trocos, porque era o primeiro dia, farejaram-se os locais já velhos conhecidos de tradição na terrinha e descobriu-se, ao fim de grandes voltas, o que passou a ser o nosso El Dourado: Coxa de frango, um pão e duas tigelas de tinto, dez paus. O tinto puxava um tanto ou quanto para o maduro mas não dava direito a reclamações.

O Louro deu o mote logo no dia da apresentação:

— Desculpe, minha senhora, mas eu não como cabelos.

A interpelada, dona e cozinheira da casa, não morreu de apoplexia, mas vermelha como um bom tomate maduro, bufou uma, bufou duas e… a sala estremeceu:

— Agora que comeu é que diz isso?

O Louro, muito calmamente, retirou o cabelo da coxa de frango e retorquiu:

— Desculpe, sou louro. Este cabelo é preto e comprido e todos os meus colegas usam cabelo curto.

Chegou-se a um consenso, veio mais uma coxa de frango para o Louro e tigelas extras para o resto da comitiva e, a partir desse dia, além de amigos, haveria sempre uma tigela amiga, quando cara nova, com dinheiro, nos acompanhasse.

Curtindo uma música e fazendo o primeiro balanço à vida estudantil, na velha cidade, sem os remoques de séculos em cima das costas, logo constatámos que, estudos à parte, tínhamos encontrado uma mina.

Uma mina! Logo no primeiro dia! Só faltava era dinheiro para a explorar. Dinheiro, dinheiro! Sempre a palavra mágica. E onde estava o dinheiro? No bolso dos outros, é claro! O problema era lá chegar. Chegar como chegam os outros, cara levantada e sem receio de mostrar o que temos, porque filhos de gente honrada somos nós.

No fim da semana, com lutas civis pelo meio, tesos e dependentes da morte lenta ou holocausto que eram as refeições da D. Maria, esfomeados até à última, apareceu, enfim, o anjo negro da sorte. Filho da cidade, mas agarrado à terrinha quanto baste, porque nove meses sempre deram lugar a mais um, o Bicho aparece em cena com o melhor dos cenários:    - Meus amigos, eu sou o melhor encenador p´ra peça que querem pôr em cena.

Com muitas horas roubadas aos estudos, dias e dias a fio, ficámos a saber como se joga à “lerpa”, se esfolam cabritos na cidade e os novos-ricos, cheios de pesetas do seu trabalho diário, no contrabando na terrinha. Uns patinhos mamados por putos!

O primeiro problema do Bicho prendia-se com o lugar para dormir. Lógico, será dizer, que entre o Louro e o Fininho desabou grande tempestade, como se não se soubesse de antemão que uma das camas seria para o Bicho! Era o único quarto independente da casa e o Bicho casado de fresco!

 

(continua)



publicado por melgaçodomonteàribeira às 21:15
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