Sábado, 30 de Setembro de 2017

O MOSTEIRO DE S. SALVADOR DE PADERNE

 

 

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Quando, há um ano, se procedia à inventariação e catalogação dum acervo precioso de documentos avulsos dos séculos XVII e XVIII existentes na Secção de Manuscritos do Arquivo Distrital de Braga, descobrimos, num maço de prazos de casas sitas em Ponte de Lima, uma «Carta de Sentença» de 1627 e relativa à demanda que opôs, como autor, o Mosteiro de S. Salvador de Paderne ao réu Gregório de Mogueimas Fajardo, senhor da Quinta de Pontiselas e descendente do «primeiro comendatário de Paderne», segundo Felgueiras Gaio.

Testemunho inédito desta demanda até agora ignorada, o documento descoberto possui também outras informações relevantes, que justificam plenamente a sua análise e que podem ser incluídas em três grupos: no primeiro estão os dados de carácter económico envolvidos na descrição do valor e natureza da renda causadora do litígio; no segundo temos as referências à localização e origem das Casas da Quinta de Pontiselas, que ainda hoje existem apesar das grandes alterações sofridas e que constituem na sua singeleza uma peça valiosa do património arquitectónico melgacense e no terceiro encontram-se os nomes, os quais serviram de ponto de partida ao esboço genealógico da família do réu.

Seguindo a peugada dos teóricos da «História Nova» convém defender o uso, no âmbito da historiografia nacional, da análise globalizante dos documentos, que consiste em extrair das fontes a trama de relações, problemas e referências aí contida.

 


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Sábado, 23 de Setembro de 2017

UMA SENHORA DA SOCIEDADE

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rua de baixo - vila

 

 

O ANTIGAMENTE

 

 

O passado está sempre presente no dia a dia das pessoas, especialmente daquelas que já passaram da conta. Não há nada que aconteça que não tenha já acontecido, noutro contexto e com outra roupagem, é claro.

Detalhes do quotidiano, principalmente os que nos aborrecem, despertam-nos algo parecido, semelhante ou então a repetição exacta do já acontecido.

Então acontece que os resmungos da minha mulher além de me enfastiarem lembram momentos parecidos connosco e com outros. Inerente a quem já ultrapassou a fase de pular muros, regatos, etc., implica involuntariamente, com o que possa estar no chão. Daí que os entendidos recomendam retirar tapetes, passadeiras, até jornais dos pisos onde circulam as pernas cansadas. Apesar das recomendações as mulheres gostam dos detalhes que possam dar-lhes satisfação pela beleza decorativa que proporcionam às suas casas. Sempre conservam um tapete ou passadeira e o que é pior, esticadinha. Ao passarmos, sem darmos conta, o trapo ou serapilheira que seja, que está no chão, vai na frente, enrugando-se. Ela ou elas reclamam, não só por serem dois anos mais novas, mas por fazerem hidroginástica e anda levantarem melhor as pernas.

Um dia destes, lembrou-me o Dr. Rocha. No início dos anos trinta do século passado (é claro), havia na Vila de Melgaço uma figura muito conhecida, respeitada que gozava da simpatia geral, pelo menos do meu tio Emiliano com quem eu vivia na altura, era o Dr. Rocha, pessoa já idosa, para mim que teria no máximo sete anos. Segundo concluí mais tarde, seria o Notário ou Conservador do Registo Civil, não lembro bem, vivia com a esposa, acho que não tinham filhos, naquela casa do lado esquerdo de quem estava na Câmara, entre a cabine de electricidade e a avenida, na Feira Nova. Mais tarde quem viveu nessa casa durante alguns anos foi o Sr. Alvim com a esposa, D. Alzira e os filhos.

A esposa do Dr. Rocha (nunca lhe soube o nome completo) era uma senhora toda empertigada, o tipo de matrona, tanto física como autoritária, da idade do marido, de nome D. Adelaide, que sempre era evocada como D. Adelaide Rocha, não para a diferenciar de outras Adelaides, que por acaso na altura não as havia, mas porque o seu porte imponente e postura fidalga assim recomendavam. A rigor, tal procedimento mais imanava da subserviência do povo que endeusava quem se arrogasse socialmente superior. Sempre se apresentava em público rigorosamente trajada e ajaezada com as suas jóias apaparicada pelas outras senhoras da sociedade. Este tipo de pessoas para mais se evidenciarem transformavam pequenos actos rotineiros em casos extraordinários. Um domingo, a D. Adelaide Rocha precisou deslocar-se não sei onde e para tal chamou o Emiliano que no seu carro de praça costumava servir o casal. No regresso a D. Adelaide Rocha desembarcou (saiu do carro) no terreiro onde outras senhoras da sua categoria passeavam exibindo-se. Correu para elas afobada, pedindo para ser abraçada e lamuriando: “O patife do Emiliano quase me matou!”, e contou o sucedido. Tinha desenvolvido enorme velocidade. E era verdade! O Emiliano que geralmente não passava dos quarenta quilómetros com o seu Andorinha (Ford modelo A), naquela tarde, aproveitando uma das poucas e pequenas rectas que existiam na estrada, chegou aos cinquenta quilómetros.

   Em casa a D. Adelaide também primava pelo esmero. Naquela época, naquelas paragens, não se conhecia a cera para soalhos, daí que o chão das casas era lavado com água, escovão e sabão amarelo, de joelhos. Uma mulher, criada, contratada ou a dona da casa, molhava, esfregava e enxugava o chão dos aposentos. Era uma tarefa cansativa. A D. Adelaide mandava semanalmente esfregar o chão de sua moradia, e ai de quem naquele dia pisasse fora das passadeiras. O Dr. Rocha que, além do gabinete oficial no edifício dos Paços do Concelho, tinha seu escritório em casa que várias vezes ao dia precisava consultar e, distraído, pisava onde não devia, o que lhe custava intermináveis sermões e admoestações pouco lisonjeiras.

Ano após ano, revoltado com tão enervante rotina, resolveu fazer valer seus direitos de dono de casa. Num dia em que o chão fora esfregado, antes de entrar em casa, encharcou as botas na lama do rego que passava em frente e nos dejectos dos cães e triunfalmente passeou por todos os cómodos da casa. Ninguém soube o que aconteceu depois, mas continuaram a viver harmoniosamente.

 

   Rio, Fevereiro de 2013

                                                                                                                 Manuel Igrejas

 

Publicado em: A Voz de Melgaço   

                                               


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Sábado, 9 de Setembro de 2017

TRAGÉDIA A CAMINHO DE FRANÇA

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NOTÍCAIS DE MELGAÇO Nº 1201, DE 10/6/1956

 

 

Pelos diários de Lisboa soube-se aqui na passada sexta-feira, à tarde, a triste notícia de na fronteira franco-espanhola, próximo da povoação de Tostela e na estrada de Figueras para a França, terem sido avistados pela Guardia Civil dois automóveis de matrícula portuguesa e a escaparem-se à sua fiscalização, e porque não obedeceram às suas ordens balearam-nos, furando os pneus a um dos veículos e ferindo os passageiros do outro. Neles iam emigrantes indocumentados portugueses e espanhóis e dessas balas dois deles vieram a falecer, os nossos conterrâneos de Alvaredo, José Diogo Fernandes (casado) e Bento Fernandes (solteiro, irmão do José Diogo), estando no hospital de Gerona gravemente ferido José Abreu Barreiros (nascido a 3/8/1931), e dois outros, cuja gravidade dos ferimentos se desconhece, Francisco Fernandes Domingues (nascido a 10/6/1928, solteiro, da Sobreira) e António Abreu Gonçalves (nascido a 21/9/1933). Nas cadeias de Gerona encontram-se ainda os nossos conterrâneos, José Augusto Afonso Domingues, Eduardo Besteiro (nascido a 2/11/1924), Franklim Lopes Rodrigues (nascido a 28/2 1927) e Augusto Vilarinho, que morava em Felgueiras. Estes e os feridos seriam mais tarde julgados em Portugal em tribunal militar.(1)

 

  • Eram todos melgacenses.

 

 

Retirado de:

                   Dicionário Enciclopédico de Melgaço

                   Volume I

                   Joaquim A. Rocha

                   Edição do autor

                   2009

                   p- 222

 


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Sábado, 2 de Setembro de 2017

PONTES ROMANAS E ROMÂNICAS DE CASTRO LABOREIRO

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Ao escolher este tema para o meu primeiro caderno sobre a história e arte das magníficas Pontes que ligam as margens do rio Laboreiro e seus Afluentes, o meu coração de Castrejo bateu mais apressadamente do que é normal: pois tomei uma tremenda responsabilidade perante os meus conterrâneos, quando resolvi soletrar algumas das mais belas páginas do seu rico património histórico e artístico, cujas folhas, constituídas por duro granito da região, continuam a desafiar o tempo e cujas idades se medem por 20 e 8 séculos respectivamente. Apesar da sua já longa existência guardam na sua própria estrutura a mesma grandeza do passado. Por elas passaram os Castrejos de, há já 2.000 anos, e ainda hoje as utilizam para transporem os volumosos cursos de água, no inverno, e os caudais límpidos no Verão. Situada numa grande bacia hidrográfica, esta vetusta freguesia conserva no seu longínquo passado lindas e numerosas pontes que a ligam às civilizações Celta, Romana e Medieval. Embora a sua maior parte haja sido classificada pelo Instituto Português do Património da Cultura, umas como Monumentos Nacionais e outras como Imóveis de Interesse Público, estou certo de que vale a pena descrevê-las em todos os seus pormenores, fazendo o levantamento fotográfico da cada uma, especificando o estilo utilizado na sua construção, com as medidas precisas de altura, comprimento e largura, as vias de comunicação que ligavam e o tempo aproximado da sua construção. É uma tarefa bastante custosa para mim, mas faço-o com o máximo interesse e carinho; pois estas obras de arte e história fazem parte do povo, de quem nasci, e cujo curriculum vitae constitui para mim motivo de orgulho. Os meus defeitos, as suas virtudes estão intimamente ligados ao meu carácter, à minha personalidade. São raízes de um passado, que não volta. Pelo estudo dos seus históricos Monumentos podemos facilmente aquilatar a grandeza e antiguidade da sua civilização. Esperançado em que este meu despretensioso trabalho concorra para um conhecimento mais completo e profundo das antiguidades de Castro Laboreiro, das suas paisagens e das suas gentes, vou iniciar o meu trabalho.

 

Castro Laboreiro, 10 de Julho de 1984

 

Padre Aníbal Rodrigues

 

 

PONTES ROMANAS E ROMÂNICAS DE CASTRO LABOREIRO

 

Autor: Padre Aníbal Rodrigues

 

Edição: Cadernos da Câmara Municipal de Melgaço nº 2

             CÂMARA MUNICIPAL DE MELGAÇO

1985

 


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Sábado, 19 de Agosto de 2017

CERTO NEGÓCIO DE SERVIÇO D'EL REI

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DOMINGOS GOMES DE ABREU COELHO DE NOVAIS

 

Filho legítimo de Domingos Gomes de Abreu e D. Francisca Coelho, de nº 4, nasceu em Melgaço a 21 de Janeiro de 1668 e seguiu a carreira militar falecendo no posto de capitão de uma das companhias do terço do capitão-mor Pedro de Sousa Gama, fundador do morgado da Serra.

………………………………………….

Fez-se armar cavaleiro da Ordem de Cristo em 31 de Dezembro 1698 na igreja da Senhora da Conceição em Lisboa e professou no ano seguinte aos 9 de Fevereiro, no convento de Tomar, nas mãos de Fr. Fernando de Morais, superior do referido convento, renunciando primeiro o ano e o dia do seu noviciado e aprovação.

Frei Domingos Gomes de Abreu casou aos 28 de Novembro de 1700 em Lapela, termo da vila de Monção, com D. Isabel de Faria.

No ano de 1701 aos 30 de Maio tomou posse da Feitoria Geral das Alfândegas da Província do Minho, tocante aos portos secos, molhados e vedados, cargo que exerceu por três anos.

………………………………………….

E em 14 de Março de 1703 comprou a Maria Domingues, viúva e suas filhas e genro, Francisca de Magalhães e Maria de Magalhães, ambas solteiras, moradoras na vila e Águeda Domingues e marido Sebastião Fernandes, moradores no Telheiro, freguesia de Rouças, «a sua mettade do Moinho chamado da Ponte apedrinha que he telhado e preparado e aparelhado com seu pico assim e da maneira que elles vendedores o possuião e parte do nascente com terras de Domingos Esteves Sereiro e do poente com monte delas do monte de prado» por trinta mil réis em moedas de prata correntes no reino.

Pouco depois, um ou dois meses decorridos, pelo conde da Atalaia, Governador das Armas da Província do Minho, foi Frei Domingos de Abreu enviado ao reino da Galiza a certo negócio de serviço de el-rei.

Por razões, que hoje ignoramos, mas que é lícito filiar em questões da Guerra da Sucessão ao trono de Espanha em que el-rei D. Pedro II se envolveu em 1701, o Governador de Vigo prendeu este mensageiro do conde da Atalaia em sua casa e durante cinco dias o meteu nas minas do castelo do Crasto; dali o passou para o castelo de Santo António na Corunha e por fim para o cárcere real para lhe «darem questão de tormento».

Foi nestes aflitivos transes que o familiar do Santo Ofício lembrando-se dos inumeráveis milagres feitos naqueles sítios pela Senhora da Pastoriza, cujo santuário e piedade dos galegos erguera a seis quilómetros da cidade no caminho de Finisterra; foi nesses transes bem dolorosos para seu espírito esclarecido, que o ilustre melgacense a invocou e lhe pediu amparo, prometendo-lhe levantar-lhe capela privativa na sua terra, no vistoso sítio do Coto da Pedreira, se aquela Virgem permitisse a ela voltar dentro de um ano.

E como passados cinco meses e cinco dias em virtude de um decreto especial foi degredado para fora dos limites de Espanha, nunca mais esqueceu o seu voto e se mais cedo o não cumpriu, foi por andar ocupado na Guerra da Sucessão, que naqueles dias se desenrolaram neste termo.

De facto, Frei Domingos Gomes de Abreu, português de lei, patriota exaltado, militar brioso e aguerrido, nunca permitiria que os galegos nos ofendessem impunemente e, por isso, durante esta guerra permaneceu sempre de ouvido à escuta, sempre pronto a fazer pagar caro aos vizinhos da fronteira os tormentos infligidos ao seu corpo e ao seu espírito nas longas e sombrias horas de cárcere.

 

 

O MEU LIVRO DAS GERAÇÕES MELGACENSES

Volume I

Augusto César Esteves

Edição da Nora do Autor

Melgaço

1989

pp. 67-72

 


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Sábado, 12 de Agosto de 2017

CASTRO LABOREIRO, SÉCULOS DE HISTÓRIA QUE NÃO PODE MORRER

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    MONTES LABOREIRO

 

GLOSSÁRIO

 

 

Abocanhar – Parar de chover

Acadar – Tocar o gado

Acequiar – Largar a urina sob pressão, num jacto forte

Acevar – Incitar cães a lutar. Acirrar cães à luta.

Acompanhamento – Enterro fantástico, noturno, anunciando a morte de alguém.

Adelha – Caixa de madeira em forma de pirâmide invertida, para receber o grão.

Adelhão – Canal feito habitualmente de madeira que conduz o grão de centeio, da adelha até ao pé de moinho, para ser moído pela pedra.

Agachado – De cócoras. Escondido.

Aguilhada – Vara, dotada de aguilhão, para acadar as vacas.

Alcroque – Digitalina, planta ervácia venenosa e de cor roxa.

Alemedar – Levar o gado ao pasto depois do trabalho.

Almorço – Primeira refeição da manhã.

Amanso – Prova difícil (competição entre rapazes da mesma faixa etária.

Amigados – Casal vivendo maritalmente sem serem casados.

Ancho, a – Largo (largura)

Andaço – Pequena epidemia

Andengues – Propriedade sem grande importância.

Apeladoiro – Acessório do carro de bois.

Arado de pau – Arado medieval, feito de pau, cujo sulco era pouco profundo.

Arcaz – Arca de madeira para guardar o centeio.

Argana – Espinha, parte da espiga de centeio, em forma de agulhas, que protege o grão.

Arreeiro (a) – Conduz uma besta de carga.

Arreitar – mijar para o alto, para longe. Acequiar.

Arremedar – Imitar a voz e gestos de outro.

Assapar – Bater, fornicar, calcar.

Ateiró – Acessório do arado que permitia regular a profundidade do rego.

Avecas – Acessório do arado que permitia alargar ou estreitar o rego.

Bacolha – Parasita do carvalho.

Bagar – Tempo livre

Bailhe – Baile, dança.

Bam-bam – Baloiço.

Barbeito – Campo destinado a centeio ou batata.

Bezerro – Vitelo.

Bigote – Bigode.

Bico – Beijo.

Bocanho – Intervalo entre aguaceiros. Aberta.

Bofanda ou Gofanda – Cachecol feito de lã.

Bota – Pequeno odre feito de pele, para transportar o vinho.

Bouça – Terreno onde crescem giestas.

Bram – Verão

Branda – Lugar de habitação durante o “bram” verão.

Brandejo – Habitante das brandas.

Burgueiro – Pequena meda de centeio, feita nos barbeitos antes do transporte para a eira. Cada burgueiro igual a uma carrada.

Burra – Designação genérica para os muares.

Cabaço – Medida equivalente a doze litros.

Cabirto – Cabrito.

Cachear – Revistar, apalpar, procurar algo escondido.

Cadelo – Cachorro.

Calbo – Jogo semelhante ao da malha. As malhas e marcos eram habitualmente de pedra.

Caldeira – Poço profundo, cavado pela água ao cair das cascatas e cataratas.

Cajata – Cajado.

Calçons – Polainos feitos de burel ou picote.

Camarro – Habitante do Pedroso, povoações da margem esquerda do rio Laboreiro.

Cambom – Peça de madeira, extensão do cabeçalho, quando se utilizam duas juntas de gado.

Campo – Terreno destinado à pastagens de animais. Na primavera retiram-se os animais e a erva cresce. Depois de segada e seca é armazenada no palheiro e utilizada no reforço da alimentação dos animais durante o inverno ou na altura dos trabalhos agrícolas, sem tempo para irem pastar.

Candeias – Estalactites de gelo nos beirais.

Caniço – Armação de madeira, que recebe o calor e o fumo da lareira, para curar as carnes.

Carabunha – Caroço.

Caretas – Máscaras de papel utilizadas durante o Entroido.

Carrilheiras – Trilhos nas propriedades para passagem de carros de bois.

Carvalheira – Carvalhal.

Castrejo ou Crastejo – Habitante de Castro Laboreiro.

Cerilha – Fósforo.

Cincha – Correia que segura a albarda ao muar.

Chavelha – Torno situado na ponta do cabeçalho, permite fixar o tomoeiro à canga.

Chalina – Cachecol de seda em cetim.

Chedas – Acessório de carro de bois.

Chambra – Blusa, peça de vestuário feminino.

Chito – Jogo infantil, jogado com uma moeda grande, e uma caixa de fósforos.

Chuçar – Fornicar.

Codo – Gelo, água gelada nos charcos e caminhos.

Codifelas - fungos esbranquiçados, existentes em troncos de carvalho e nalguns cotos.

Coiracho – Courato.

Cogordo – cogumelo.

Cogufela – cogumelo aberto, venenoso.

Colmaça – Cobertura de casa feita de colmo.

Colmo – Palha de centeio utilizada para as colmaças.

Çoque, Soque – Calçado com sola de madeira, fechado, feito de cabedal.

Corga – Pequeno ribeiro.

Corossa – Capa feita de juncos para abrigar da chuva e do frio.

Corucho – Cobertura feita de palha em forma de cone, para proteger as colmeias.

Côrte – Estábulo destinado aos animais.

Coto – Penedo grande mais ou menos isolado.

Cubo do moinho – Depósito em forma de cubo, para armazenar a água, cuja pressão, ao sair pelas sateiras, vai impulsionar o rodízio.

Cucha – Secreto, escondido (namoro à cucha).

Cuitelo – Cutelo.

Cunca – Malga tosca feita de madeira.

Eido – Lugar onde se situa a habitação. Recinto familiar.

Engaço – Ancinho.

Eirado – Porção de centeio que se deita de uma só vez na eira, para malhar com malhos.

Entroido – Entrudo, carnaval, figurante de carnaval, actor palhaço carnavalesco.

Esborralhar – Esmoronar, desfazer, escangalhar.

Escaleira – Escada.

Escangalhar – Desconjuntar, destruir, arrebentar.

Escaralhar – Arrebentar, partir tudo, foder tudo.

Escano – Banco de madeira com recosto até ao chão para abrigar as costas.

Escorna-bois. Insecto. “Vaca-Loira”.

Esgatiar – Gritar com sons muito agudos, berrar.

Espabilar – Pôr-se alerta, diligente, pôr-se fino.

Esgordar – Luta entre cães.

Esparrunhar – Esgravatar. As galinhas esparrunham.

Espido – Despido.

Espulgar (batatas) – Descascar.

Estaca – Forquilha de dentes de ferro.

Estadulho – Fueiro.

Estrar – Botar o estrume ou palha nas côrtes.

Estrume – Mato.

Esterco – Adubo biológico feito pelo gado.

Estântega – Fantasma.

Estrema – Delimitação de uma propriedade, com marcos ou paredes.

Estremar – Separar, apartar (o gado, a rez)

Estrume – Mato.

Fachuco – Pequeno feixe de palha, cuja chama acendida numa extremidade, iluminava o caminho nas noites escuras de inverno.

Farrangalheiro – Farrapeiro.

Faveca – Vagem.

Fateiro – Faixa de tecido para aconchegar os bebés e transportá-los ao colo da mãe.

Fento – Feto.

Ferram – centeio muito jovem, ainda em erva, para nutrir o gado.

Fôlgo – Fôlego, ar dos pulmões, ar.

Foloado – Tecido de lã, feito em teares locais.

Frincha – Fenda.

Funga-gatos – Brinquedo de rapaz, feito de madeira, cujo movimento sobre si-próprio, imita o fungar de um gato.

Gabilam – Gavião.

Galheira – Estaca ou forquita de três dentes, um em oposição aos outros dois, e recurvado.

Gando – Gado.

Gango – carícia, meiguice.

Garda-sol – Guarda-sol.

Gofanda – Cachecol feito de lã.

Guichar – Espreitar. Indagar secretamente.

Gavela – Pedaço de estrume ou mato, confeccionado para ser agarrado de uma só vez, pela estaca.

Guiço – Madeira de urze, esbranquiçada, cuja chama ardia como uma candeia.

Gocho ou Goche – Papão (linguagem infantil), sarronco.

Inverneiras – Lugar onde os brandejos passam o inverno.

Jugo – Espécie de canga utilizada com a molida.

Jaqueta – Casaco.

Labor – Pedaço de terra desbravada no monte e semeada normalmente com centeio.

Ladrais – Acessório de carro de bois, utilizado para segurar e proteger a carga.

Lândia – Lande

Lavradio – Giestal ainda jovem.

Leitaruga – Espécie de erva com aspecto de salada, muito boa para a alimentação  dos suínos e outros animais.

Loita, Loitar – Luta, Lutar.

Lugar – Povoação, Eido.

Mamoa – Dolmen ou anta enterrado.

Mandenlo – Peça de roupa usada e pouco elegante.

Mandil – Avental.

Manlhe – Malho (composto de mangueira e pirtirgo).

Mecheiro – Isqueiro, Acendedor utilizando uma torcida ou mecha.

Messe – Centeio, Centeio ainda com a espiga.

Mexil – Acessório que permite apertar ou alargar as avecas.

Molida – Forma peculiar de junguir o gado. (à canga ou à molida).

Molido ou Rodilha – Almofada circular usada pela mulher Para proteger e equilibrar as coisas transportadas à cabeça.

Monlho – Molho, pequeno feixe.

Moras – Amoras.

Mossete – Entalhe, pequena mossa.

Musgar – Falhar, não conseguir o objectivo.

Natal – Mês de Dezembro.

Nicar ou Zicar – Fornicar.

Ousear – Acompanhar alguém, mantendo o contacto auditivo, perante o distanciar de outem.

Olheiro – Nascente brotando directamente da terra ou da rocha. Olho de água.

Pana – Bombazina.

Pam leve – Pão-de-ló.

Pantano – Represa de água feita para irrigação.

Pecho, Pechadura – Fecho de madeira, Fechadura.

Peldrachas – Carnes flácidas.

Perracha – vulva (popular).

Perrancho – Sem roupa.

Perrutcha – Enfeite, adorno.

Pesco – Pancada, castigo.

Pegureiro – Pastor.

Pelica, Peilam – Pessoas não castrejas.

Picanhas – Utensílio de ferro com dois dentes utilizado para cavar o esterco.

Picote – Tecido de lã já bem elaborado.

Pita – Galinha.

Pitos – Pintainhos.

Presa – Açude, represa.

Quinxouso ou Quinchouso – Pequena leira de terra, próxima do eido.

Quingosta – Congosta.

Quiro – Porco, suíno.

Rageira – Sol de inverno.

Ramboia – Contrabando.

Raposa das murraças – Grito de aflição dos rapositos, perdidos expressamente pela mãe, com intuitos educativos.

Reixa – Ódio, raiva.

Reixelo – Cabrito, anho.

Retonhar – Rebentar, as árvores retonham na primavera, quando cortadas pelo homem ou animal.

Rez – Gado ovino ou caprino.

Robez – Invez, ao contrário.

Robige – Inquietação.

Ronda – Deslocação a um lugar vizinho, por um grupo, para um baile ou divertimento.

Rondar – Ir à ronda.

Sacha, Sachola – Pequena enxada frequentemente com orelha.

Sacho – Enxada.

Sam Miguenle – Mês de Outubro.

Sam Joam – Mês de Junho.

Sandar – Sarar, cuidar, curar.

Santos – Mês de Novembro.

Saramela – Salamandra.

Sarronco – Papão, gocho (linguagem infantil).

Sateira – Orifício situado no fundo do cubo do moinho.

Segadas – Mês de Julho.

Segar – Ceifar.

Senguidalho – Peça de vestuário muito antiga.

Soga – Correia de couro, utilizada para guiar as vacas.

Sopengo – Pessoa rude, bruta, tosca.

Sorradas – Águas pluviais que correm nos caminhos, quando chove.

Sorregar – Bater com força.

Taramitan – Acessório do moinho.

Tarratcha – Acessório de ferro para apertar os apeladoiros.

Troula – Passar o tempo tagarelando, brincando.

Torresmo – Bifinhos de toucinho ou de presunto.

Tolas – Pequenos regos para conduzir a água.

Touba – Quantidade de pessoas, ajuntamento.

Treixe – Aguaceiro, cuvasco.

Truita, Troita – Truta.

Tulhas – Buracos redondos feitos na terra, para aí guardar as batatas no inverno.

Turquesas – Tenazes.

Tus, Tussa – Cão, cadela.

Uzeira – Urze.

Vencelho – Vencilho, atilho feito da palha do centeio para atar os molhos.

Vido – Vidoeiro, bétula.

Xambra, Chambra – Blusa.

Xerelo – Peixe pequeno.

Zabrucada – Caída, queda aparatosa.

Zobra – Chuva impelida com violência pelo vento.

 

 

ECOS DOS MONTES LABOREIRO

ANTÓNIO BERNARDO

EDIÇÃO DO AUTOR

2008

 

O PEGUREIRO E O LOBO

estórias de castro laboreiro

MANUEL DOMINGUES

NÚCLEO DE ESTUDOS E PESQUISA DOS MONTES LABOREIRO

2005

 


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Sábado, 5 de Agosto de 2017

VERTIGENS

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    (…)

    E aí, de novo, entronca sem dúvida a ideia de “circulação”, desde os sentimentos, repete-se, à estrutura mobilizante de coisas, produtos e mercadorias, da fábrica que se perfila no horizonte económico possuído e a desenvolver (a tinturaria de Sérgio), às relações entre personagens donde nunca está ausente o factor económico, mais ou menos condicionante (à excepção da personagem João Parra) das suas vidas.

    (…)

    Nos seus esforços de “integração” ou adaptação a um quotidiano banal de onde não sabe bem como sair, mas adquirindo sobre isso a firme noção de querer sair e ter de sair, a fuga pelo devaneio desemboca sem consumação no incesto latente, potencial porque sempre sufocado e escamoteado mas que dir-se-ia quase desejado, numa cena (das mais poderosas do livro) em que a dimensão onírica da escrita e da sua descrição fazem surgir um dos mais impressivos e fortes momentos de todo o romance.

    (…)

 

                                                                                                                                    (do Prefácio)

 

 

Vertigens

 

Manuel Beites

 

Edições Triunvirato

 

2005

 


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Sábado, 1 de Julho de 2017

O BARQUEIRO DE S. MARCOS

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JORNAL DE MELGAÇO Nº 1174, DE 8/9/1917

 

 

Há dias apareceu por aqui um fulano da Beira que, depois de ter casado com uma mulher de Orense resolveu emigrar para Buenos Aires; uma vez aí trabalhou e economizou de tal maneira que em pouco tempo conseguiu juntar 550 pesos; até aqui bem foi; mas… depois, sente-se doente, vai consultar um médico que lhe diz estar tuberculoso, e por isso tem de recuar imediatamente; o infeliz retira, trazendo consigo o dinheiro que só o acompanha até Lisboa, pois aí, com um pequeno descuido, fica sem dinheiro, sem conhecimento algum e sem roupa, além da que traz vestida. Como viajar nestas condições? Aí vem o desgraçado a pé desde Lisboa, mendigando uma esmola de porta em porta. E sabem o que o traz a Melgaço? A recordação de que em tempos mais felizes por aqui andou ele a trabalhar, e por isso encontraria por cá alguns dos seus amigos daquele tempo. Infeliz! Doente, e com fome talvez, ninguém o conhece! Dirige-se ao rio Minho para o passar a nado, mas vê que se encontra sem forças e nessas condições tal tentativa equivaleria ao suicídio. Em vista disso, aproxima-se do barqueiro e diz-lhe que desejava transitar para Espanha, mas que não tinha dinheiro para lhe pagar. Em virtude duma declaração tão franca, o barqueiro mandou-o entrar para a barca e não só o conduz gratuitamente à outra margem, como ainda na estação de Arbo promove uma subscrição que excede a importância do bilhete que no caminho de ferro lhe dá passagem até Orense; aliás, teria de fazer esse trajecto a pé e mendigando como de Lisboa a Melgaço. Quereis, leitores, que o nome desse barqueiro figure na lista dos benfeitores que vós conheceis? É o barqueiro do posto de S. Marcos, e chama-se Ponciano Ferreira.

 

 

Retirado de: Dicionário Enciclopédico de Melgaço

                     Volume I

                     Joaquim A. Rocha

                     Edição de autor

                     2009

                     pp. 241, 242

 

Joaquim A. Rocha edita o blog  Melgaço, Minha Terra

 


publicado por melgaçodomonteàribeira às 00:04
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Sábado, 15 de Abril de 2017

UMA IDA À VILA I

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O PRIMEIRO RETRATO

 

Um dia o pai escreveu a dizer que não viria a casa tão cedo. Embora já tivesse os documentos em ordem era necessário aproveitar o tempo, porque as coisas estavam a correr bem. Por isso gostaria de ter uma fotografia do filho, para andar com ela na carteira.

O Manuel perguntou à mãe aonde se tirava o retrato.

- Em Melgaço – respondeu. Nos dias de feira aparece na Vila um que tira retratos à “la minuta”, mas ao fim de pouco tempo ficam apagados. Por isso, só o Pires em Melgaço é de confiança.

- E quando podemos ir? – perguntou.

- Talvez no mês de Maio, porque os dias são grandes e dão para ir e voltar com sol.

- E por onde vamos?

- Alguns vão a pé, pela estrada em construção, até Lamas e depois apanham uma camioneta, mas às vezes é preciso esperar muito tempo antes de aparecer alguma. Outros, ao chegarem ao fundo das Lobagueiras, viram para a Alcobaça e seguem o caminho antigo, pelo Outeiro da Loba. Embora ruim, é quase metade da distância e há muitas sombras. Vou falar com a filha do tio Albano e se nos juntarmos três ou quatro ela pode levar a mula, aproveitando para trazer coisas necessárias à loja do pai. Quando te sentires cansado podes montar a cavalo.

- Está bem, mai. Antes quero ir pelo caminho porque não gosto de me encafuar na caixa da camioneta, debaixo do toldo, no meio dos pipotes e dos animais, cheio de calor e sem ver nada.

- Então vou combinar com ela o dia e falar com as irmãs Pinheiro, porque há tempo falaram em irmos todas. Depois trata-se do problema dos animais.

A viagem tinha de ser cuidadosamente preparada, porque estando um dia inteiro fora de casa era necessário informar a pegureira para abrir a porta da côrte e juntar a rez ao rebanho colectivo que iria pastorear. Ao fim da tarde, no regresso, teria de recolher os animais e fechar a porta.

Por outro lado, as vacas não podiam ficar encerradas todo o dia. Falaria com a tia Calças para as levar a pastar com as dela. Quanto aos restantes animais deixava-lhes comida para o dia todo.

Entretanto as duas irmãs confirmaram a ida e em conjunto acordaram o dia, combinando a saída para muito cedo, a fim de evitar a força do calor, sobretudo por causa das crianças.

Na véspera, à noite, a mãe preparou a merenda com presunto, peixe frito, chouriço e pão centeio, juntando uma bota com água, colocando tudo numa cestinha de vime.

Ainda de noite, a mãe acordou-o porque tinha de se vestir. A muito custo conseguiu levantar-se, lavou-se e, ajudado pela mãe, vestiu a roupa nova. Em seguida comeram o almorço, feito de papas de pão e batatas cozidas no molho dos torresmos fritos e bem tostados, espalhando um cheiro apetitoso. Apesar da hora madrugadora, a mãe recomendou-lhe para comer também o caldo de leite, pois só deveriam voltar a comer cerca das 9 horas, quando já tivessem percorrido grande parte do caminho.

Muito antes do romper do dia as quatro mulheres e as duas crianças estavam a caminho de Picotim, em direcção a Portelinha e daí rumo a Alcobaça seguindo o leito da estrada em fase adiantada da construção. Já tinham ultrapassado aquele lugar quando o sol nasceu.

Olhava com alguma curiosidade para o vale do rio Trancoso que nascia em Portelinha e, demarcando a fronteira com a Galiza, corria encosta abaixo até lançar-se no Rio Minho. Uma névoa azulada deixava ver algumas povoações espalhadas ao longo das encostas. Do lado português a configuração do terreno limitava o campo de visão, só deixando aperceber as aldeias quando já estavam muito próximos, enquanto na encosta espanhola o declive era menos acentuado e permitia alcanças as povoações distribuídas ao longo da mesma, com telhados e paredes de tijolo de cores desbotadas.

Iam descendo e reparava nas mudanças da vegetação. Além das giestas e silvas, começaram a aparecer muitos pinheiros e castanheiros, em vez dos carvalhos e vidos, únicas árvores grandes abundantes em Castro.

A determinada altura do trajecto, depois de abandonarem o vale do rio fronteiriço, surgiu à sua frente uma paisagem diferente. A encosta apresentava-se escalonada em patamares de verdura. O primeiro, formado pelas latadas das videiras, continuava a um nível mais baixo, pelos campos de milho, hoetas e batatais, ladesdos por tufos de pinheiros e várias árvores de fruto, que formavam o terceiro nível. De vez em quando o relógio de uma torre batia as horas. Mais abaixo avistava-se um conjunto grande de casas à volta do castelo, com uma torre, e cercado por um cordão espesso de nevoeiro. Era Melgaço! Por cima daquele rolo, aparecia outra encosta verdejante e também pejada de casas. Escondido pelo nevoeiro cerrado corria o Rio Minho, marcando a fronteira e por isso a encosta em frente era galega, explicou a mãe.

A curta distância até Melgaço, sempre a descer, foi percorrida em pouco tempo por caminhos atravessados de cobertos de videiras amarradas a postes de pedra e arames, formando as latadas. Finalmente, entraram em Melgaço! O caminho com mais de três léguas fora percorrido em menos de quatro horas.

Dirigiram-se a uma conhecida onde iriam comer porque dispunha de um quintal para guardar a mula enquanto tratavam dos assuntos objecto da sua deslocação à Vila. Aproveitaram para descansar um pouco e compor as roupas das crianças em total desalinho devido à longa viagem. O Manuel transpirava por todos os lados, trazia a camisa branca encharcada.

A mãe ajudou-o a lavar-se e penteou-lhe o cabelo rebelde, amaciando-o com um pouco de água com açúcar. Já com melhor aspecto dirigiram-se ao atelier do Pires onde teve de submeter-se a novos retoques, determinados pelo fotógrafo.

- Ó senhor Pires, este é o primeiro retrato do rapaz, para mandar para França. Veja se fica em condições! – recomendou a mãe.

- Muito bem. Vamos então tratar disso. Bom…Bom…Chegate aqui. Começamos por colocar esta gravata. Fica melhor, não? Perguntou à mãe. Agora vais subir para aquele banquinho O Pires olhou através da máquina e concluiu faltar mais um acerto.

- Segura neste ramo – disse, entregando-lhe um galho de cameleira. Endireita as costas e olha para aquele canto por cima da máquina. Quando eu disser fazes um sorriso.

Apesar do esforço o artista não conseguiu fazè-lo sorrir. O cansaço da viagem e o pouco à vontade, juntamente com o calor, não ajudavam a aparência de uma satisfação não sentida. Ao fim de várias tentativas o Pires disparou a máquina.

Seguiram-se outras fotografias e ainda uma de conjunto entre os companheiros de viagem. As fotografias estariam prontas por volta das duas da tarde. Saíram para fazer as compras e depois almoçarem. Na rua, afrontado pelo calor, admitiu nunca ter imaginado que tirar um retrato fosse tão complicado!

 

(continua)

 


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Sábado, 11 de Março de 2017

OLINDA CARVALHO, UMA GRANDE CONTADORA DE HISTÓRIAS III

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(continuação)

 

Lá estavam eles, agarrados como cães, ela quase sem roupa e ele com as calças e as ceroulas enroladas aos pés. Seu badalhoco, era ali, então, o ensaio final do desfile! Ela dava-lhes já o ensaio, mas era a rameira que ela queria tratar, queria-lhe ver as fuças primeiro. Iam-lhe caindo os queixos com a surpresa: então não é que a descarada era uma moça nova, airosa, quase de casamento aprazado com um vizinho que tinha ido para a França, havia menos de um mês! Sua galdéria, ia ver o que acontecia a quem se metia com seu homem. Os seus ouvidos ficaram surdos para o que um e outra diziam, dominava a sua voz alterada e fazendo apelo a todos os insultos que lhe acorriam. Deu um empurrão ao homem que se agarrou às calças e deitou a mão aos cabelos da Joaquina, fazendo tenção de a arrastar para o exterior, sem lhe permitir que se vestisse. Imune aos gritos da rapariga e aos apelos tímidos do Peres, puxou-a pelos cabelos para o caminho e começou a gritar, que acudissem, para verem com os próprios olhos a sem vergonha que se metera debaixo do seu homem, com vadias daquelas por perto mulher alguma podia estar descansada, era um desaforo, uma afronta, o mundo às avessas.

Acudiam as vizinhas mais próximas e a ofendida a sacar de uma tesoura da algibeira e a lançar-se, assanhada, às tranças da rapariga. Era assim, para que vissem, que se tratava uma vadia daquela espécie. Insensível aos gritos da ré, também de nada valeu a interferência das velhas que aconselhavam calma, já chegava, que a deixasse, para vergonha já tinha a sua conta. Só quando a cabeleira estava reduzida a uns escassos centímetros de comprimento, várias peladas a espaços, diminuiu a força bruta contra a jovem, olhou-a da cabeça aos pés e largou-a. Estava satisfeita, tinha a honra vingada, a dela e a de todas que se deixavam enganar por valdevinas sem eira nem beira, que não sabiam manter-se no seu lugar.

A Joaquina recolheu-se no palheiro até ao cair da noite, quando a patroa a foi buscar. O guarda Peres retornou ao seu lugar de plantão no posto e aí pernoitou, comprometendo de certa maneira os festejos do entrudo ao recusar terminantemente o seu prestimoso contributo. Não se falava de outra coisa, velhos, novos e crianças tinham algo a acrescentar ao que alguém contava sobre o caso inusitado da criada da tia Rosa apanhada no palheiro a retouçar com o guarda Peres e vítima da fúria vingativa da mulher exercendo castigo pelas próprias mãos.

A Joaquina não aguentou a pressão e voltou para casa da mãe poucos dias depois do escândalo. O casório mais ou menos falado com o Alberto foi à vida, o rapaz ficou anos sem pôr os pés na terra e nunca mais ninguém o ouviu falar do assunto. A coitada também não teve muita sorte na terra dela e acabou por voltar de cabeça baixa ao local do crime, depois de o Peres ter sido promovido a cabo e se ter mudado com a família para outro posto. De toda aquela confusão perdura a sanha vingativa da mulher enganada e a vitória dos de Andorinho que aproveitaram a desistência do Peres para dar mais brilho ao seu desfile de Carnaval.

 

                       Olinda Carvalho

 

Publicado em A Voz de Melgaço

Fevereiro 2015

 

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