Sexta-feira, 8 de Março de 2013

GALIZA, ARBO EM 1905

 

Estação de Arbo

 

Fotografia de Guillermo Gonzalez

 

 

GALIZA,  1905

 

    Arbo – Gente do tipo pequeno e provincial rústico; senhores de barbaças negras e lunetas ou óculos, e chapéu mole e fatos largos de aldeia. Galegas feias e fétidas, de botas. Da gare de Arbo vê-se, por cima do rio que muge, uma escapada de culturas que vão até às montanhas; das casuchas da encosta agricultada saem fumos; nas encostas pascem bois; ribas mais próximas, de pinheiros; a água faz ondulações espumantes, quebrando-se nas pedras e muros dos açudes, faz uma pele de réptil, viscosa, bolhosa, verde e respirante. Uma galega que me vê escrever, põe em mim grandes olhos desconfiados. Uma barca a distância, gente do outro lado, à espera de passar. Em Arbo dois ou três chalés. Grande desfiladeiro de rochedos, com pequeno túnel; vinhedos sobre a direita, admirável escapada de vales e de outeiros, de casas e agriculturas, e montanhas. Uma ribeira cuja ponte passamos, confluente do Minho. Rampas de rocha viva. Canaviais nas encostas ou ribas que vão ao rio, grande corrente neste, ínsuas de rochas trágicas, açudes, barcos nos pontos sossegados. Agrava-se o campo. Uma região dura, sem culturas, curta; grande robleda da via-férrea ao rio, verde e de sombra, com grandes quebradas. Desfiladeiro enorme de penedia. Robleda. O rio afasta-se, com açudes, ondeando. Desfiladeiro de rochas. Cai água do alto. Túnel curto: montes, povitos rústicos, quebradas violentas à esquerda, outeiros áridos de rocha, e urze e mato. Da direita, grandes montes escalonados de fincas e vinhas e bosques. Menos rochedos nas margens, mais sossego nas águas. É o Douro, com arvoredos frondosos e vegetação nas terras. De novo margens de penedos, agora enormes e terríveis, alternativamente ocultos e descobertos pelos desfiladeiros que penetramos. A cada momento muralhas a suster a via. Da esquerda, montanhas de pedra, e de vinhedos e de pinhal. Da direita o rio, de margens abruptas, ínsulas de rocha, escarpas piramidais, donde brotam árvores a flux. O rio é todo ziguezagueando entre outeiros de pedra que nós imaginamos ou cortamos por túneis ou desfiladeiros, conforme calha; grandes montanhas altíssimas se adivinham aos dois lados por trás dessas ravinas, ou se vêem, se acaso nos voltamos para trás, a olhar entre dois montes ou desfiladeiros, os anfiteatros verdes, de casas, culturas e igrejotas.

 

 

FIALHO DE ALMEIDA

 

CADERNOS DE VIAGEM. GALIZA,  1905

 

EDICIÓNS LAIOVENTO, SANTIAGO DE COMPOSTELA

 

1ª EDIÇÃO

 

 Retirado de:

 

FIALHO DE ALMEIDA

 

GALIZA, 1905

 

EDIÇÃO DE LOURDES CARITA

 

O INDEPENDENTE

 

2001

 

pp. 80 – 81

 


publicado por melgaçodomonteàribeira às 23:03
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LOS PETROGLIFOS DE ARBO

 

 

CAVADA DO REI

 

 

   Un día que prometia ser soleado y resultó frío e invernal; muy frío en la montaña de Arbo, enfrente de Melgaço y viendo la nieve en las partes altas de las montañas de Castro Laboreiro.

   Una nueva excursión guiada por Antonio Fernandez Iglesias. Se trataba de visitar algunos de los petroglifos publicados hace ya muchos años por Castor Perez Paredes y M. Santos Estevez, en la revista “Castrelos”, del museo municipal de Vigo. Antonio hizo en su día un trabajo exhauxtivo pues todos o casi todos de los tal vez mas de 40 rocas com grabados descubiertas fueron por él localizadas y señalizadas perfectamente en un plano.

   En nuestra visita había mucha maleza y camiños o referéncias que podían ser nuevas. Hubo algún extravío, pero finalmente llegamos a los lugares seleccionados para una primera visita, tanto por la entidad de los grabados como por los magníficos emplazamientos.

   Una viña en un lugar recogido y a mucha altura sobre el Miño, donde hay sobretodo un gran forma circular. Y el castro de San Martiño, en la parte alta Stª Marina de Sela donde hay sobretodo varias rocas con grandes coviñas o cazoletas, en muchos casos intercomunicadas por surcos.

 

Retirado de:

 

Rutas y Paisages. El Laberinto Atlántico

 

http://jlgalovart.blogspot.com/2008_12_01_archive.html

 


publicado por melgaçodomonteàribeira às 18:59
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ARBO, A CAÑIZA E MELGAÇO

 

 

ARBO, A CAÑIZA Y MELGAÇO PACTAN COMPARTIR


INSTALACIONES DEPORTIVAS

 

   Los tres concellos acercan posturas para firmar el convenio en octubre

 

    L Miguez

    Arbo/La Voz

    17/09/2011

 

   El primer paso de un futuro común. Sur de Galicia y Norte de Portugal estrechan relaciones y las ponen sobre el papel con el objeto de oferecer servicios a sus vecinos que serían impensables de otro modo en la actual crisis. Por eso Arbo, A Cañiza y Melgaço han decidido sentarse a la mesa y compartir. El primer peldaño serán las instalaciones deportivas. De hecho, el concejal arbense Pepe Alvarez se trasladó hasta el municipio luso para conocer de cerca las prestaciones existentes. En la actualidad los 10.000 vecinos portugueses disfrutan de una piscina climatizada, otra exterior, un centro de entrenamiento con campo de hierba artificial y natural, gimnasio, pistas de tenis, area de tratamientos con agua y un polodeportivo. En la actualidad existe una tarifa para los locales y otra para los vecinos de fuera, que se rebajaría para Arbo y A Cañiza. “Ter a uns poucos kilómetros estas instalacións é unha vantaxa da que podemos sair beneficiados”, apuntó el edil de Deportes.

 

   El plán de la Cámara Municipal de Melgaço es aumentar la inversión y construir un edificio dependiente de la Universidad para ofrecer una titulación de monitor deportivo, además de crear um campo de golf, entre otros proyectos. Por eso la búsqueda de usuarios fuera de sus fronteras se ha convertido en un importante reto.

 

   Estas primeras reuniones esperan sentar las bases del acuerdo que se firmaría el mes de octubre y al que no descartan unir otros municipios de la comarca de A Paradanta, aunque de momento no se han iniciado más negociaciones.

 

PARQUE DE BOMBEROS

 

   “Estamos na primeira fase, recollendo datos e información. É un xeito de ofrecerlles aos veciños máis servizos, algo complexo coa crise. A nós o tema que mais nos interesa é o do parque de bombeiros, outro dos temas que se tratou co presidente da Cámara”, relata el teniente alcalde de A Cañiza, Tomás da Silva. En la actualidad la comarca echa mano de los efectivos de Ponteareas, puesto que carecen de un parque proprio. En ocasiones se alerta a los compañeros de Ourense o Portugal, aunque no existe ningún convenio al respecto. “Queremos chegar a un acordo pronto, porque en inverno é a época de maiores incendios. Ali teñen un parque grande e queda moito máis preto que Ponteareas ou O Porriño. Así cambiaria o protocolo para que os avisos de 112 lles chegaran de xeito directo”, recuerdan desde el gobierno de A Cañiza.

 

Retirado do jornal: La Voz de Galicia.es

 

http://www.lavozdegalicia.es/vigo/2011/09/17/0003_201109V17C10991.htm

 


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Quinta-feira, 7 de Março de 2013

ARBO 1809-2009

 

 

BICENTENARIO DE BATALLA EN EL PUENTE DE MOURENTÁN

 

ARBO (1809 – 2009)

 

 

   La batalla de Mourentán tuvo lugar los dias 16, 17 y 18 de febrero, participaron más de 10 000 personas, donde los gallegos contaron com la ayuda de portugueses de otro lado del Miño.

   Los franceses llegaron a incendiar Mourentán y todavia hay como las dejaron ellos.

   Los franceses consiguieron avanzar a pesar de que perdieron muchos soldados.

   El enfrentamiento fue dirigido polo abad del Couto Maurício Troncoso. De esta batalla nació la gloriosa ‘División Miño’ que llegó a perseguir a los franceses hasta Francia.

 

www.vigometropolitano.com

 

 

Camborio Refugiado

 

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MITOS DO RIO MINHO

 

Batela do rio Minho

 

 

   Entes dos rios, mui topadas entre Arbo e Melgaço, representam o desejo tentador pelo inexplorado – a riqueza e o prazer, também a fatalidade – em oposição ao controlado – a ordem, mas com a escassez de cada dia -, o pagão antagonista do cristão.

 

   A primeira vez que passavam, sobre todo ós rapaces da montanha, diciamos-lhe:

   - Mete uma pedra na boca e nom a quites hasta chegar ó outro lado. Tes que meter um coio senom afunde-se a lancha …

 

Barcas do Minho

 

 

   … a primeira ponte erguida, a da língua comum, para combater o mito das feiticeiras engaioladoras que viven no rio Miño, entre Arbo e Melgaço, que intentan seducir a quen quere pasar a nado dun a outro país. Antes, os mozos que tal pretendían tiñan que meter um coio na boca para non verse obrigados a responder á provocacion….

 

   … a cuarta ponte, a da xustiza, se cadra para rememorar as fazañas fo mítico bandoleiro galego-portugués Xan das Congostras, quen roubaba a quen tiña para aliviar a quen no tiña. Na Pena de Anamán, na raia, que nos xurge pola serra do Leboreiro, hai un epígrafe que di:

 

                              Os pobres non o tem

                              e os ricos non o dan,

                              quen quixer asentar praza

                              veña á Pena de Anamán.

 

www.vieiros.com

 

 

 

   A ideia de atravessar rios, inicialmente sacrílega, cotinuou a inquietar até tarde a alma do povo, porque nas ‘’constituições’’ episcopais de Évora, de 1534, ordena-se que não se pratiquem bênções mágicas com epada que atravessa-se o Douro e Minho três vezes. Aqui a superstição estendia-se pois a outros rios interamnenses, e entra nela o numero três, sempre fatídico. Há anos ouvi contar no Peso de Melgaço que quando uma pessoa precisa de atravessar o rio Minho, para ir a Arbo, povoação galega que faz fronteira, há-de levar até lá um seixinho na bôca, para durante a travessia não poder falar, senão as Feiticeiras metem-se com ela. O ‘’silencio’’ é outro grande agente ritual nas cousas da magia e da religião.

 

J. Leite de Vasconcellos

 

Revista Lusitana

 

http://cvc.instituto-camões.pt

 

 

Camborio Refugiado

 


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FESTA DA LAMPREIA IX

 

 

   — A instrução é uma razão e uma obrigação suplementares para não violarem as leis. A instrução e a cultura são uma grande chance, que nem todos têm, para podermos perceber o Mundo e vivermos em harmonia e comunhão. Como é que vocês querem, um dia mais tarde, ser eventualmente chamados para desempenhar funções relevantes, no seio de instituições que hoje desrespeitam  ? Não pode ser ! Creio que sou claro, ou não ?

   — Como a água – retorquiu o João.

   Tive que desviar o olhar da cara do tipo e esforçar-me para reter o riso que me tentava.

   Bufou docilmente. Seria pela resposta ou por estar a exaurir ? Tanto nos dava. Silenciosos, esperamos. Fez estalar os dedos das mãos. A missa estava dita. Respirou profundamente e cruzou os dedos, por cima da secretária desta vez. Levantou em seguida a cabeça e estudou atentamente o tecto, à procura de uma solução, como se estivesse face a um dilema. Lembrei-me que já vira esta cena múltiplas vezes em diversos filmes policiais.  Era a hora da verdade. Tinha uma  importante sentença a arbitrar.

   — Errar é próprio do homem, como devem saber. Toda a gente tem direito a uma segunda oportunidade. Espero, para vocês, que seja a primeira e a última vez. De outro modo, as consequências seriam bem mais fastidiosas. Perceberão que não vale a pena perguntar-lhes se fui claro.

   O homem tinha humor. Não valia a pena, não. Consentimos com a cabeça. Já sabíamos qual era a repercussão.

   — Não sei se é a decisão mais adequada0 mas vou ser clemente para com vocês. Desejo, unicamente, não ter que deplorá-la um dia. Mas isso, só o tempo mo dirá.

   Esperou uma reacção de reconhecimento ou, pelo menos, de alívio da nossa parte. Nada. Ficámos inexpressivos, como até ali.

   — É evidente que conto com a vossa absoluta discrição relativamente à minha determinação. Creio que é inutil dizer-lhes que nada deve transpirar daqui.  Nem há razões para tal, não é verdade ?

   Aquiescemos naturalmente. Nada tínhamos que agradecer. O favor era vendido  bastante caro. Para o Pachorrego e para o Pepe o preço fora o mesmo: o primeiro vira o seu açambarcamento pelos pides aumentar e o segundo sabia que, um dia, estava sujeito a ter que exercer os seus talentos como pintor de automóveis gratuitamente. No nosso caso, era como um investimento a longo prazo que não necessitava de capital inicial. Um futuro engenheiro e um futuro qualquer coisa eram sempre uns bons trunfos nos momentos propícios ou necessários.

   Com a mão aberta, indicou-nos a porta. Levantamo-nos e saimos sem uma palavra. O móvel que estava por detrás dele ia ter mais duas fichas nas gavetas com as letras C e L.

   Nenhum de nós imaginava que, dentro de um ano, a instituição que ele representava e outras que defendia, deixariam de existir, levando-lhe por água abaixo a rede de interesses.

   Passados uns dias, eu e o Pepe encontramo-nos à noite no café Estrela com o Pacho. A conversa depressa derrapou para a peripécia que, na adega do Telmo, o tinha contrariado.

   — Num tens vergonha, és um chupista de merda. Num poupas ninguém. Mas, agora, se t'apanham em Arbo Alfredo... – preveniu-o o Pepe.

   — E, por cima, estragou um quilo de café – acrescentei.

   Acabou a aguardente que lhe restava e disse-nos seguro de si:

   — Num vos preocupeis comigo qu'eu sei desenrascar-me. Ide mas é perguntar ó Daniel quanto pagou pela lampreia e, depois, dai-me notícias. Ainda tendes muito qu'aprender, rapazes – concluiu.

   A intonação da voz e o cintilar malicioso dos olhos lembravam-me qualquer coisa. E, curvado como sempre, saiu do café.

   Olhei para o Pepe, receoso. Creio que, nesse momento, compartilhava comigo o abominável pressentimento que me invadira.

   — Ai, ai, tu queres ver qu'ele fodeu-nos ?

   O Pepe não imaginava quanto estava certo.

   No outro dia, fui à loja do Daniel. As lampreias não custavam mais de seiscentas pesetas. Vígaro maquiavélico ! Confessou-nos, mais tarde, que combinara tudo com os indivíduos dos dois bares enquanto nós ficáramos na praça a admirar os ranchos. Comeu lampreia à nossa custa ! Lembrei-me, então, das palavras que ele pronunciara quando estávamos com o Daniel no café: "... o último que me fodeu num nasceu onte..." Nesse momento, já a burla estava em marcha. Em parte, a culpa fora nossa pois não cessáramos de provoca-lo. Não obstante, o Pepe tinha mais do que razão quando dizia: "este gajo é mesm'um cabróm".

   Não sabiamos por que razão ainda o frequentávamos. Já tínhamos dado voltas e mais voltas à cabeça para tentarmos elucidar a perseverança e o gosto que tinha pela vigarice sem obtermos resultado algum.

   Foram os anos, unicamente, que o amainaram. Hoje, passa os dias à porta do que foi a sua barbearia, sentado numa cadeira. É um ponto estratégico por onde quase toda a gente é obrigada a passar. Vive com o rico passado, com as reminiscências e com a visita ocasional dos numerosos amigos que, apesar de tudo, lhe são fiéis. Para nós que o frequentamos, faz parte de uma espécie endémica. Ele e o castelo são os dois monumentos de Melgaço mais conhecidos. Os seus numerosos feitos de dolo, únicos no género, contribuiram para difundir o nome da Vila e mereciam, consequentemente, uma homenagem e um reconhecimento sem par da parte dos melgacenses.

 

Junho de 2009

 

A. El Cambório

 


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Quarta-feira, 6 de Março de 2013

FESTA DA LAMPREIA VIII

 

Bomba de gasolina do Pigarra

 

 

   Em menos de meia hora deixou-nos junto da bomba do Pigarra, em frente do posto fronteiriço espanhol. Não havia ninguém. Do lado  português, na casota colada à pontinha, encontrava-se um guarda fiscal. Viu o Pachorrego e riu-se. Dissemos-lhe de onde vínhamos e, sem mais, mandou-nos seguir.

   Subimos, rumo a São Gregório, acompanhados pelo canto refrescante da água do regato. A rua Verde levou-nos à capela. Fomos bater à porta do senhor Augusto Seixo, o taxista do lugar.  Disponível de dia e de noite, não conhecia domingos nem feriados. Dizia-se mesmo que dormia vestido. Às três da madrugada estávamos na Vila.

   Quando me levantei na terça-feira de manhã, a minha mãe deu-me o recado. Tinha vindo um guarda republicano dizer-lhe que me devia apresentar de tarde no posto fronteiriço do Peso, munido do passe que pedira no domingo passado. O passe ! Esquecera-me completamente dele.

   Fui apanhar a camioneta das duas à Calçada. A barbearia do Pacho estava fechada. Ao fundo da camioneta sentado, o João. Também se esquecera de dar a entrada ao passe. Estávamos apreensivos. Nunca se sabia do que eram capazes os pides.

   Íamos na recta final da estrada do rio, donde já se avistava o posto, quando discernimos o Pacho e o Pepe que desciam as escadas. O esquecimento fora geral. Uns metros antes de nos cruzarmos e sempre em andamento, o Pacho mormurou-nos :

   — Passastes sozinhos pelo regato, percebestes ? Id'ide, qu'ides ouvir sermóm e missa cantada.

   A mixórdia não devia ser muito problemática, senão tinha-nos prevenido. Quanto a dizermos que passáramos no regato era evidente que não íamos incriminar o amável guarda fiscal.

   Subimos as escadas e pouco ou nada gostamos do olhar que o polícia nos deitou quando entramos. Não era o mesmo que nos tinha feito os passes. Devia ter uns trinta anos. A idade de querer ganhar galões. Acompanhamo-lo para um reduzido compartimento, situado por detrás do balcão onde carimbavam os passaportes. Sentou-se numa confortável cadeira de braços, por detrás de uma secretária, e indicou-nos duas outras, normais, para nós. Detrás dele, do lado direito, uma cómoda com uma dúzia de gavetas. Pela fachada, via-se que o conteúdo estava guardado por ordem alfabética. O ficheiro, certamente.

   — Vocês sabem porque é que estão aqui, não é verdade ?

   Abanamos a cabeça afirmativamente. Mostrou-nos os passes que lhe tínhamos dado quando chegamos e, apontando com o dedo uma linha do fundo, perguntou :

   — O que é que diz aqui ? - não esperou resposta - Sabem ler ou não ? "Este passe é válido vinte e quatro horas" ! - e martelou bem "vinte e quatro horas".

   Silêncio. Optamos pela táctica do simplório. Pegou numa das várias esferográficas que, juntamente com alguns carimbos, decoravam a secretária, e fê-la deslizar entre os dedos da mão direita.

   — Por onde passaram ?

   Deixei responder o João, era o mais velho. Respondeu o que o Pachorrego nos mandara.

   — Pelo regato ? - admirou-se - Com o Alfredo Pachorrego, sem dúvida.

   Devia ter uma séria contenda com este. Fixou atentamente o João que, antes de responder, deixou propositadamente o silêncio prolongar-se. Queria que o polícia vacilasse, fazendo-lhe crer uns instantes que o silêncio era  sinal de resposta afirmativa.

   — Eu e o meu colega só conhecemos o Pachorrego de vista. Não temos confiança com ele. Passamos unicamente os dois no regato.

   Ainda bem que no dia anterior o polícia de serviço não nos quis fazer um passe para todos! Dissera não em vez de "num" ou "nam", à maneira da Vila. O efeito procurado foi alcançado. Deu uma ligeira tossida. Ajeitou-se na cadeira, pousou os cotovelos nos braços desta e cruzou as mãos, brincando com os polegares. O olhar passava lentamente de um para o outro. Sustentando-lho, esperamos com calma e indiferença. Tínhamos tempo.

   — Recapitulemos. Um, não deram entrada aos passes no prazo estipulado. Dois, entraram ilegalmente no território nacional – fez uma curta pausa – Neste país existem instituições com leis que há que respeitar, que honrar. Eu faço parte de uma delas e a minha função é velar para que assim seja. Por causa de uma festa, infringiram a lei e arriscaram-se a uma multa consistente. Não sei se me fiz perceber. Que seria de nós se cada um pudesse fazer o que lhe apetece ? Digam-me !

   Calou-se. Fora o sermão. O seu mestre, o indígena de Santa Comba, podia repousar consolado. Os discípulos asseveravam elegantemente. Dei aos ombros. Que percebesse o que  quisesse. O João ia  deitar a mão aos caracois  da nuca  mas desistiu. Era  uma  falta de  atenção,  devia  ter pensado. Limitou-se a coçar a cabeça e a bocejar imperceptivelmente.

   — O que é que vocês fazem ? - indagou, ao constatar a nossa inércia.

   — Eu ando em engenharia, no Porto - disse o João.

   — E eu no liceu, em Braga.

   Pegou novamente na esferográfica e, pausadamente, bateu com ela na escrivaninha uns longos segundos. Era dono da situação. De certo que procurava as palavras para ripostar. Não tardou em encontrá-las.

 

(continua)

 


publicado por melgaçodomonteàribeira às 23:02
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FESTA DA LAMPREIA VI

 

Alfredo do Paço mais conhecido por Pachorrego

 

 

   — Que bem me soub'esta lampreia, rapazes ! – disse-nos com aparente êxtase e admiração o Alfredo – Nem podeis imaginar ! Num me lembra de me ter sabido tanto !

   Ninguém respondeu. Estávamos em letargia, estávamos a digerir. Eu não ouvia ninguém, pensava. A gente passava diante do café e, automaticamente, olhava para quem lá estava. Eram pessoas simples, trabalhadoras, que só mudavam de roupa aos domingos. As mais idosas de entre elas eram camponeses. Para estes casais e para os pais, quando estes ainda podiam andar, as festas e a missa dominical eram a única ocasião de sairem juntos. A partida de cartas semanal entre amigos, num bar do "pueblo", aos domingos de tarde, era o exclusivo  e o mais apreciado momento dos homens.  Entre duas partidas, falavam das dificuldades que um ou outro encontrava na vida diária e aconselhavam-se mutuamente. Apesar das terras ali serem mais generosas do que noutros lados, o trabalho dos campos não passava de um paliativo; o remédio era migrar ou imigrar. Assim, muitos jovens iam trabalhar para as cidades galegas mais importantes ou para as outras grandes cidades espanholas. Os mais corajosos, desenraizavam-se e iam enfrentar todas as dificuldades que se podiam encontrar numa terra alheia e com uma língua desconhecida. Por isto, muitas famílias passavam as festas incompletas. As coisas eram similares de ambos lados do rio.

   Ouviu-se o "un dos, un dos" característico das orquestas e dos grupos musicais. Estavam a regular o som dos microfones e o baile não ia tardar em recomeçar. Principiei a sair da minha letargia. A praça estava a encher-se novamente. Apesar do alarido, as andorinhas, numerosas na praça, passavam por cima da gente em vôo planado e faziam um chilreio enorme.  O sol deitara-se mas a gente estava mais quente do que de tarde. O verdinho, em qualquer lado, fazia andar e cantar toda a gente.

   O entorpecimento provocado pela lampreiada e do qual acabara de me liberar lentamente, impedira-me de reparar na ausência do Pachorrego. Estava encostado ao balcão a falar com o Gúlin de Padrenda e uns amigos. Conhecia-o da Notária. Vira-o repetidas vezes no bar do cinema. Diante do Pacho, uma copa. Não havia dúvidas sobre o pagador. O Pepe disse-me que lhe tinha ido pedir boleia para todos. Claro ! Nada fazia ao acaso e sem proveito. O Gúlin era carteiro em Padrenda. Sucedera ao pai que, agora, ajudava a mulher na "tienda" que lá possuiam. Quando havia uma festa (estava em todas) ou que o filho queria sair com uns amigos, emprestava-lhe a carrinha que, ordinariamente, utilizava para os serviços da loja. Alto e forte, sempre de  peito bem saido, era um grande e provocante brincalhão. O pai tinha imenso gosto nele. Além de ser filho único e tardio, contava que se casasse com a "maestra" da aldeia, com quem namoriscava há tempos.

   O Alfredo veio sentar-se.

   — Está tud'arranjado, pessoal. À uma e meia, encontramo-nos aqui no café. Deixa-nos ficar na Ponte, junto da bomba do Pigarra. Os conhecimentos têm que servir pr'alguma coisa, num achais ? –  gostava de mostrar que tinha relações, amizades.

   O Pepe respondeu-lhe com o riso trocista do Woody Woodpecker, o pica-pau dos desenhos animados, que imitava perfeitamente. No meio da algazarra geral, passou despercebido.

   Fui pagar, era a minha rodada. Eu a sentar-me e o Alfredo a chamar bem alto, virado para a porta:

   — "Alcalde", "alcalde", por aqui !

   Dois homens sorridentes, um deles cabo da Guardia Civil, de chapéu de três bicos na cabeça, aproximaram-se de nós. Pelo estilo, via-se que estavam abituados a apertar mãos e a olhar de cima. Entre os dedos fumegava-lhes um bruto "puro". Tinham os olhos brilhantes e a tez rosadinha, premissas de nobre funçanada O "alcalde", ao mesmo tempo que cumprimentava o Pacho, informava o guarda civil.

   — Es Alfredo, el "periodista" de Melgaço ! Qué tal, hombre ?

   À medida que o "alcalde" nos apertava a mão, o Pacho ia fazendo as apresentações. O João já era engenheiro, o Pepe era proprietário de um stande de venda de automóveis na Vila (coisa que nem existia) e eu andava na faculdade de direito em Coimbra. Não piamos, tanta foi a surpresa. Depois das cerimónias de cortesia, insistiu com as duas autoridades para que se sentassem e tomassem algo na nossa companhia, o que os dois homens, complacentes, aceitaram amavelmente.

   Vieram seis conhaques Carlos I, o melhor do género. Entre os golinhos do famoso conhaque e as chupadas no não menos conhecido havano, os dois dignitários escutaram o Pachorrego expor-lhes o trabalho que executara como jornalista correspondente do jornal "A Voz de  Melgaço". O programa dos dias de festa fora publicado na edição do dia quinze. Conjuntamente,  um artigo que fazia um majestoso e destacado elogio a Arbo e à região,  à sua gastronomia e, em particular, à lampreia do rio Minho. No início de maio, outro artigo daria conta do desenrolamento e da afluência das festas. O "alcalde" ficou hipnotizado pelo relato, movendo apenas o traseiro na cadeira, com o qual fazia um balé. Os elogios que fez ao Pacho eram superlativados. Até gaguejava ao procurar as palavras para lhe exaltar e gratificar o trabalho. O Pacho comprometeu-se a enviar-lhe as duas edições do jornal. A figura não sabia que os seus favores tinham um gosto amargo. Era tarde, o que tinha comido e o que tinha bebido saciara-lhe o estômago, mas, quando o apanhasse na Vila, até a alma lhe havia de comer.

 

(continua)

 


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