Sábado, 23 de Setembro de 2017

UMA SENHORA DA SOCIEDADE

62 c2 - r baixo melgaço.JPG

rua de baixo - vila

 

 

O ANTIGAMENTE

 

 

O passado está sempre presente no dia a dia das pessoas, especialmente daquelas que já passaram da conta. Não há nada que aconteça que não tenha já acontecido, noutro contexto e com outra roupagem, é claro.

Detalhes do quotidiano, principalmente os que nos aborrecem, despertam-nos algo parecido, semelhante ou então a repetição exacta do já acontecido.

Então acontece que os resmungos da minha mulher além de me enfastiarem lembram momentos parecidos connosco e com outros. Inerente a quem já ultrapassou a fase de pular muros, regatos, etc., implica involuntariamente, com o que possa estar no chão. Daí que os entendidos recomendam retirar tapetes, passadeiras, até jornais dos pisos onde circulam as pernas cansadas. Apesar das recomendações as mulheres gostam dos detalhes que possam dar-lhes satisfação pela beleza decorativa que proporcionam às suas casas. Sempre conservam um tapete ou passadeira e o que é pior, esticadinha. Ao passarmos, sem darmos conta, o trapo ou serapilheira que seja, que está no chão, vai na frente, enrugando-se. Ela ou elas reclamam, não só por serem dois anos mais novas, mas por fazerem hidroginástica e anda levantarem melhor as pernas.

Um dia destes, lembrou-me o Dr. Rocha. No início dos anos trinta do século passado (é claro), havia na Vila de Melgaço uma figura muito conhecida, respeitada que gozava da simpatia geral, pelo menos do meu tio Emiliano com quem eu vivia na altura, era o Dr. Rocha, pessoa já idosa, para mim que teria no máximo sete anos. Segundo concluí mais tarde, seria o Notário ou Conservador do Registo Civil, não lembro bem, vivia com a esposa, acho que não tinham filhos, naquela casa do lado esquerdo de quem estava na Câmara, entre a cabine de electricidade e a avenida, na Feira Nova. Mais tarde quem viveu nessa casa durante alguns anos foi o Sr. Alvim com a esposa, D. Alzira e os filhos.

A esposa do Dr. Rocha (nunca lhe soube o nome completo) era uma senhora toda empertigada, o tipo de matrona, tanto física como autoritária, da idade do marido, de nome D. Adelaide, que sempre era evocada como D. Adelaide Rocha, não para a diferenciar de outras Adelaides, que por acaso na altura não as havia, mas porque o seu porte imponente e postura fidalga assim recomendavam. A rigor, tal procedimento mais imanava da subserviência do povo que endeusava quem se arrogasse socialmente superior. Sempre se apresentava em público rigorosamente trajada e ajaezada com as suas jóias apaparicada pelas outras senhoras da sociedade. Este tipo de pessoas para mais se evidenciarem transformavam pequenos actos rotineiros em casos extraordinários. Um domingo, a D. Adelaide Rocha precisou deslocar-se não sei onde e para tal chamou o Emiliano que no seu carro de praça costumava servir o casal. No regresso a D. Adelaide Rocha desembarcou (saiu do carro) no terreiro onde outras senhoras da sua categoria passeavam exibindo-se. Correu para elas afobada, pedindo para ser abraçada e lamuriando: “O patife do Emiliano quase me matou!”, e contou o sucedido. Tinha desenvolvido enorme velocidade. E era verdade! O Emiliano que geralmente não passava dos quarenta quilómetros com o seu Andorinha (Ford modelo A), naquela tarde, aproveitando uma das poucas e pequenas rectas que existiam na estrada, chegou aos cinquenta quilómetros.

   Em casa a D. Adelaide também primava pelo esmero. Naquela época, naquelas paragens, não se conhecia a cera para soalhos, daí que o chão das casas era lavado com água, escovão e sabão amarelo, de joelhos. Uma mulher, criada, contratada ou a dona da casa, molhava, esfregava e enxugava o chão dos aposentos. Era uma tarefa cansativa. A D. Adelaide mandava semanalmente esfregar o chão de sua moradia, e ai de quem naquele dia pisasse fora das passadeiras. O Dr. Rocha que, além do gabinete oficial no edifício dos Paços do Concelho, tinha seu escritório em casa que várias vezes ao dia precisava consultar e, distraído, pisava onde não devia, o que lhe custava intermináveis sermões e admoestações pouco lisonjeiras.

Ano após ano, revoltado com tão enervante rotina, resolveu fazer valer seus direitos de dono de casa. Num dia em que o chão fora esfregado, antes de entrar em casa, encharcou as botas na lama do rego que passava em frente e nos dejectos dos cães e triunfalmente passeou por todos os cómodos da casa. Ninguém soube o que aconteceu depois, mas continuaram a viver harmoniosamente.

 

   Rio, Fevereiro de 2013

                                                                                                                 Manuel Igrejas

 

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Sábado, 3 de Dezembro de 2016

SAGRADO E PROFANO

19 c2 - anos 30 XII.jpg

                                 texto e desenho de manuel igrejas

 

O SAGRADO E O PROFANO EM MELGAÇO NOS ANOS 30 DO SÉCULO XX

 

Tradição enraizada na fé do povo da Vila de Melgaço, era, em Maio, a devoção ao Sagrado Coração de Maria quando acontecia festividade e a Primeira Comunhão das crianças.

Naquele ano a preparação em torno dos preparativos no que respeita à solenidade eucarística, foi fora do comum.

As famílias empenharam-se ao máximo para que as suas crianças fizessem boa figura. Tanto mais importante que o sacramento que pela primeira vez as crianças iam partilhar era o exibicionismo nas roupagens. Nos rapazes não dava para variar muito nas calças e na camisa branca e em alguns com casacos. Já nas raparigas era ver o luxo nos tecidos e modelos dos vestidos.

A maioria da rapaziada aprendia as orações obrigatórias em casa com a família, geralmente as mães; a doutrina, os princípios teológicos, eram ensinados pelas catequistas, as Donas Leonor e Emília Durães, com ajuda de outras senhoras, durante algumas semanas, diariamente, à tarde. O Padre Firmino que paroquiava as freguesias de Prado e da Vila, aparecia raramente para dar ênfase aos pecados e ameaçar com o fogo do inferno. Numa das prelecções, quando frisava que o fogo do inferno era eterno, o Manel do Jacob observou: - então a gente acaba por se habituar…

No domingo da festa, logo cedo, o Augusto do Félix chamou o seu pimpolho para se arranjar com esmero. O Manel e o Rogério, ambos fazendo a sua primeira comunhão, vestiam a rigor com fatos pretos confeccionados especialmente. Era o Manelzinho o mais novo da turma entre rapazes e raparigas. A maioria ou a totalidade daquelas crianças, por serem muito novas, não tinham a verdadeira noção do que iam fazer, e o Manel, a par da vaidade que a sua figura proporcionava aos parentes sofria tremenda expectativa ao pensar que não iria corresponder às recomendações. O primeiro dilema já fora no dia anterior quando voltou da confissão e em meio a uma brincadeira mandou o irmão à merda. O Ná, que trabalhava na alfaiataria, para o arreliar disse-lhe que a palavra era pecado.

Foi preciso o pai dizer-lhe que não era tão pecado assim, para o sossegar.

 A entrada para a igreja, mal comparando, teve alguma semelhança com o desfile de carnaval. Os adultos já superlotavam a nave da matriz da Vila. As crianças assumiram os lugares que lhe estavam reservados em bancos corridos a todo o comprimento da igreja. As pessoas em pé ou ajoelhadas na hora apropriada (ainda não existiam os bancos). Como era missa de festa, solene, como determinava o protocolo, teve sermão. O padre Artur, de Penso, o mais consagrado orador da região, inspiradíssimo, como sempre, arrebatou os fiéis em prolongada dissertação, em dado momento exortou as crianças a pedirem perdão aos pais. Foi uma tremenda confusão. As crianças procuravam o pai ou a mãe empurrando as pessoas. O Manel tinha visto o pai no coro, ia ser difícil passar pelo meio das criaturas e subir lá, sorte que a mãe estava perto e ele não vira, ela é que veio dar-lhe um abraço. Ao receber a comunhão empertigou-se numa atitude solene. A hóstia colou-se no céu da boca e ele não conseguia despegá-la sem que tocasse nos dentes o que lhe fora advertido ser pecado. Assustado, estava a ponto de chorar quando lhe valeu o António Toca, também conhecido por Nossa Senhora, que vinha com um copo d’água auxiliar as crianças naquela dificuldade. Durante o dia tudo foi festa: procissão, banda de música e muita gente andando para cá e para lá. Era gostoso o Melgaço naquele tempo.

A juventude melgacense quando sentia falta em que se ocupar fora dos seus ofícios organizava grupos de futebol. O Sport Club Melgacense fora reorganizado duas ou três vezes mas por pouco tempo vingava. O Toninho do Augusto do Félix que aparecia como adolescente promissor, líder dos rapazes na sua faixa de idade, com o João do Padeiro, fundou um grupo de futebol a que deu o pomposo título de União Artística Melgacense. As novidades sempre empolgavam e logo adquiriram o equipamento, um jogo de camisolas com listas verdes e brancas, verticais. Sobravam rapazes naquele tempo. Os irmãos, Carriço e Mi da Amália, mais o Carlota e outros, organizaram um grupo adversário, Atlético Club Melgacense, de início com as camisolas do extinto Sport. Logo se manifestou grande rivalidade no campo de jogo e muito mais fora dele. O povo da terra também por não ter  em que se envolver acudia por um ou por outro grupo, conforme o parentesco ou amizade com os jogadores. Segundo comentavam, antigamente as disputas eram entre os partidos políticos, diversão proibida naquela época. Jogaram algumas vezes entre si, ganhava um e ganhava o outro. Para aquilatar a soberania fora do campo organizavam bailes ao despique no carnaval. O União promovia os seus bailes na sala da Chico da Serra, ali no início da rua Direita, em frente à igreja, encostada à Farmácia Barreiros. No terreno o João Cataluna acabava de montar a Pensão Olímpia. O Atlético promoveu seus bailes no Salão Pelicano. Mais que os próprios bailes a sensação que os rapazes do Atlético imprimiram os seus carnaval foram os cortejos que antecediam.

O Sr. Silva, o mestre da marinha, pessoa grada e muito respeitada atendeu aos apelos e envolveu-se nos desfiles do Atlético. Foi ele o responsável pelos temas, organização e ensaios dos cortejos. Demonstrou grande capacidade de coreografia que redundou no grande sucesso dos desfiles. No largo da Calçada, onde tinha a bomba de gasolina do Sr. Teixeira, reunia-se a turma e se organizava conforme o tema a desenvolver no desfile. Rapazes e raparigas fantasiados de acordo, saíam cantando rua abaixo, Terreiro, rua Direita até ao Salão Pelicano. Durante quatro sábados apresentaram cortejos em temas e canções. O último foi uma apoteose. Uma réplica do castelo, iluminada por dentro, transportada como um andor, encheu os olhos do povo e muito aplaudido. A música entoada por todos os componentes fantasiados e sacudindo enfeites nas mãos, com letra brejeira sobre a música duma canção em voga, que em dado trecho dizia: Meu patrão mandou-me embora, mas não foi por roubar nada, foi só por molhar a pena, no tinteiro da empregada…

Como acontecera com outras manifestações também esta feneceu. A empolgação inicial logo dava lugar ao desânimo pela monotonia da repetição. Era como uma doença endémica.

 

 

                                                                                                                       Manuel Igrejas

 

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Sábado, 2 de Maio de 2015

MELGAÇO, DÉCADA DE 70 DO SÉCULO PASSADO

Cabeçalho d'A VOZ de MELGAÇO de 1 de Maio de 1974

 

 

DESINTERESSE DO SR. PRESIDENTE? …

 

O Secretário Nacional da Informação e Turismo visitou recentemente o Distrito de Viana do Castelo. Pelos relatos da imprensa soubemos que o Presidente da Câmara de Melgaço só pediu uma coisa: um subsídio para as Festas da Vila, também denominadas do Concelho. E vem um membro do Governo à Província com o objectivo de auscultar as necessidades dependentes do seu departamento, e há um Presidente de Câmara que lhe apresenta uma ajuda para as Festas!...

Vendo nos mesmos relatos da Imprensa, que nada mais dizem a respeito de pedidos feitos pelo Presidente da Câmara de Melgaço, achamos que devemos defender a honra da nossa terra, posta em causa, sem dúvida inconscientemente, pelo dr. Sidónio. Não seria mais objectivo pedir um auxílio para a Escola de Música, que se criou na nossa vila com tantos auspícios?

Não estaria de acordo com o Departamento de Informação e Turismo, pedir ajuda para o recheio do Museu, onde um lobo embalsamado guarda as paredes? Não há documentos a fotocopiar que dizem respeito à História de Melgaço? Não há obras publicadas que se devem adquirir? Não há quadros de Jaime Murteira e fotos de Sampayo que devem figurar nesse museu?

Não carece Melgaço de uma Pousada, já que a de Castro não resolveu o problema central do Concelho e os hotéis do Peso encerram no Outono e Inverno?

Não havia, por imposição das exigências do Turismo, que pedir a influência do Secretário de Estado, que nos visitou, junto do Governo Português para que este interviesse em Madrid, a fim de que as barragens do rio Minho fossem construídas de forma a permitir o acesso do peixe – salmão, sável, lampreia e truta – e assim se evitaria o desaparecimento de tão delicioso peixe?

Não seria oportuno falar na estrada do Mezio de forma a ligá-la à de Lamas de Mouro, abrindo desta forma Melgaço ao turismo nacional, através das lindas serras que nos dominam com entrada por Castro? Fazendo-o não concorria para se criar o verdadeiro circuito do Minho: Braga, Arcos, Melgaço, Monção, Valença, etc.?

E sabendo-se que os Hotéis do Peso servirão, um dia, de apoio ao turismo do Parque Nacional «Peneda – Gerês», porque razão o dr. Sidónio não levantou o problema tanto mais que a Empresa pensa em construir um hotel?

Como classificar a atitude do Presidente da Câmara que esqueceu todos os verdadeiros problemas turísticos de Melgaço?

Não podem os representantes do Governo adivinhar. Estes factos levam-nos a perguntar: se o Governo Civil e o Ministério do Interior podem estar satisfeitos com um colaborador destes.

O Concelho não está, e a ajuizar pelos relatos da imprensa referentes à atitude do dr. Sidónio perante o Secretário de Estado de Informação e Turismo, mais uma razão e grave veio avolumar o seu descontentamento. Ninguém gosta de ser esquecido, sobretudo quando tem direito a ser lembrado. E o representante dos nossos direitos regionais não cumpriu.

Com vista aos srs. Governador Civil e Ministro do Interior.

 

                                                                                    JÚLIO VAZ

 

A Voz de Melgaço, 530, Melgaço, 1 de Maio de 1974

 


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Sexta-feira, 8 de Março de 2013

ENTRUDO EM MELGAÇO NOS ANOS 30

 

Desenho de Manuel Igrejas

 

 

O CARNAVAL EM MELGAÇO

 

 

    Aquele verão estava gostoso e os anos trinta até um pouco mais de sua metade, eram fáceis de viver. Corriam suaves e até com uma certa abastança. Naquelas paragens, quem não encontrasse trabalho no lugar era só dar um pulo a Espanha e fácil arranjaria onde ganhar dinheiro. Por lá havia um surto de progresso, construção civil, estradas e caminhos de ferro. E os melgacenses se baldeavam para a Galiza ou um pouco além e, ao fim de alguns meses, voltavam com dinheiro no bolso que gastavam na terra. Diziam até que eles só vinham à terra para fazer mais um filho. E além de dinheiro traziam novos conhecimentos sobre seus ofícios que, em contacto com artífices de outras paragens, adquiriam. Também traziam novos costumes e hábitos que enriqueciam a cultura local.

    Uma demonstração de abastança fora o carnaval daquele ano. Os bailes tinham sido mais requintados com muita gente se fantasiando e, a novidade, o baile infantil à fantasia. No dia 20 de Janeiro, era o início do Carnaval e quem o anunciava era o Amadeu Rato. Vinha de Corçães, ele e os filhos da Maria Penica, rapazes e raparigas, fantasiados com roupas velhas e caras tapadas com pano de saco, fazendo a maior algazarra. Fingiam uns de contrabandistas com sacos às costas, e os outros, de guardas com espingardas de pau correndo atrás dos primeiros. Era uma cheia de rir. As crianças correndo ao lado deles divertiam-se a valer. A brincadeira terminava na taberna que lhes oferecesse vinho de graça.

    Pois nesse ano, o Entrudo teve baile infantil à fantasia. Parece que a ideia partiu do Jacob, o mais competente e habilidoso trolha da região, um grande artista na sua profissão, que andou muito tempo pela Espanha e viu isso por lá. Todas as famílias que tinham crianças aderiram à ideia e os preparativos aconteceram no maior sigilo. Todos queriam fazer surpresa com suas fantasias. Cochichava-se nos cantos, querendo adivinhar o que os outros estavam fazendo. A terça-feira de Entrudo chegou finalmente.

    Era pleno inverno com o costumado frio, mas aquela tarde parecia primaveril. O sol estava radioso e a brisa corria morninha. Até parecia que o tempo queria participar da folia fantasiado de primavera.

    À uma da tarde começaram a chegar ao terreiro, local da concentração, as famílias com as crianças. Para cada criança fantasiada vinha um montão de adultos, a família toda. A vaidade era dos grandes; os pequenos, alguns, vinham até contrariados, com as roupas espalhafatosas que os incomodavam. Rapazes e raparigas, sozinhos ou formando casais, envergavam as mais variadas fantasias. O espectáculo estava realmente bonito. Chegaram os mais esperados, de quem se comentava maravilhas naqueles cochichos de esquina, o Manelzinho do Augusto do Félix e a sobrinha, a Maria da Conceição, filha do Lucas e da Maria Natércia. Tio e sobrinha só faziam diferença entre si de pouco mais de um ano de idade. A expectativa do povo foi satisfeita. O casalzinho estava primoroso. Ele vestido de Marquês de Pombal e ela de Dama Antiga. As roupas haviam sido confeccionadas pelo Augusto do Félix com a colaboração das mulheres da família. A Mia com um vestido longo, até aos pés, muito rodado e armado com arquinhos por baixo da saia, cheio de folhos e rendas, luvas de renda, sapatos brancos de verniz e volumosa cabeleira loura, cacheada até debaixo dos ombros. O Manel, elegantíssimo, numa roupa preta, calça justa até ao joelho, jaqueta debruada de rendas brancas, também a camisa de renda com folhos na gola e na manga, saindo por baixo da manga da jaqueta, cabeleira loira, cacheada e comprida, meias brancas até aos joelhos e sapatos pretos de verniz com grandes fivelas prateadas e rendinhas à volta.

    As cabeleiras, primor de habilidade e paciência, feitas pelo pai e avô dos personagens e penteadas com grande capricho pelo João do Gabriel, barbeiro com pendores de cabeleireiro e que com cosméticos e ferro quente, conseguiu fazer na estopa aquela maravilha de caracóis caindo em cachos.

    Os promotores da festa logo elegeram aquele casalzinho como o mais bonito, as melhores e mais belas fantasias, com aprovação unânime do povo, e por isso deviam abrir o cortejo. Mas o Jacob pleiteou e conseguiu que os seus filhos, o Manuel e o Zeca, vestidos iguais, fantasiados de gaiteiros galegos com gaitas de foles e tudo, fossem os da frente. O cortejo organizou-se desfilando com os gaiteiros soprando desesperadamente as suas gaitas de que saía um som estridente sem nexo e sem compasso, pois eles não sabiam tocar. Em frente, pela Rua Direita, lá foram mais de cinquenta crianças, emproadas, empertigadas, saracoteando a vaidade dos parentes, umas chochas e macambúzias outras. As pessoas grandes, ladeando o cortejo e fazendo grande algazarra, e uma ou outra mulher, volta e meia, entrando no meio das crianças, para compor algum detalhe que não estava a contento, no seu pirralho, tal como faziam nas procissões. As poucas criaturas que ficaram nas casas aplaudiam à passagem. Gente das aldeias também tinham vindo apreciar a novidade.

    Chegados ao Salão Pelicano subiram à sala de cima onde se ia realizar o baile. Daquela multidão que acompanhara o desfile, nem todos entraram. O recinto não comportava. Os que conseguiram entrar acotovelavam-se uns aos outros. A orquestra do Avelino do Peso já estava no estrado que servia de palanque e atacou uma bonita marchinha muito em voga na época, música essa, cujos acordes ainda agora soam na mente de algumas ex-crianças. O que devia ser uma dança virou uma balbúrdia. A meninada, muito novinha, a maioria, não sabia o que era dançar, agarravam-se umas às outras balançando-se, atropelando-se e caindo, para desespero dos adultos que viam as fantasias amarrotar-se. O Jacob e outros promotores entraram no meio tentando organizar a coisa. Aquela confusão. O baile prolongou-se por uma hora e como não havia maneira de dar jeito, resolveram reorganizar o cortejo e voltar para o terreiro onde as crianças poderiam divertir-se à sua maneira sem ter de obedecer ao compasso da música. E assim foi e a miudagem gostou. O Augusto do Félix e o resto da família estavam aborrecidos com o comportamento do Manelzinho. Ele, que normalmente parecia que tinha o bicho carpinteiro, sempre o mais espevitado, nesse dia estava sorumbático e arredio. Não queria brincar e não dizia o que tinha. Seria que se achava por demais bonito e enfeitado com medo que o desfizessem de algum detalhe da sumptuosa fantasia ? Já no desfile repararam que ele andava mansinho, como quem pisa em ovos, com medo de estragar os sapatos…

    E os grandes da família empurravam o rapazinho para o meio dos outros para pular e brincar. Ele ia e voltava. O tio Emiliano resolveu tirar a limpo o que estava acontecendo.

    — Esse rapaz deve ter alguma coisa nas pernas ou nos pés! Vem cá Manel, senta aqui no banco!

    Verificou as calças, as meias, tirou-lhe os sapatos. Ora vejam! Dentro dos sapatos, nas pontas, uns chumaços de papel, que eram usados enquanto novos para manter firmes as biqueiras e haviam-se esquecido de os tirar. Era aquilo o tormento do rapaz!

    Livre dos empecilhos, ninguém segurou o Manelzinho! Parecia uma sardanisca! Dali a pouco a situação estava invertida: os grandes reclamando do rapazinho. A primeira coisa de que se livrou foi a cabeleira.

    Aquele Entrudo famoso durou até ao anoitecer para as crianças. À noite foi a vez dos adultos.

    Foi mais uma página feliz, um bonito retalho na vida daquelas crianças da Vila de Melgaço.

 

                                                                           

                                                                          Manuel Igrejas

 

Publicado em: A Voz de Melgaço

 


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