Sábado, 24 de Junho de 2017

PAISANOS, FRADES E CLÉRIGOS

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MINISTERIO DOS NEGOCIOS DE JUSTIÇA

 

 

Ouvi tambem, que entre os facciosos vinha parte de huma quadrilha de salteadores que há na Galiza, e que alguns erão Portuguezes, que la se achão refugiados. Nesta ocasião tenho a maior gloria em levar ao conhecimento de V. Magestade que esta Comarca se mostrou com a maior firmeza de caracter olhando os facciosos como huns amotinadores, e inimigos da paz, acolhendo benigna todos os bons Hespanhoes que se retiravão á furia dos malvados, o que tudo levo ao conhecimento de V. Magestade que mandará o que for servido.

O Juiz de Melgaço, diz que em 14 do corrente (Maio de 1882) déra parte dos acontecimentos que tiverão lugar na parte da Galiza, fronteiro áquelle districto, e agora tem a satisfação de participar, que os revoltosos na tarde do dia 14 nos lugares de Arbo, Cella e Barcella forão dispersados por huma partida de Tropa, que para esse fim tinha sido mandada de Vigo, sendo mortos huns cem Paisanos, Frades e Clérigos, entrando neste numero os prizioneiros que matarão nos dias 14 e 15, os Soldados roubárão todas as Povoações, não deixando nem as camisas aos mortos, o que tem feito que aquelles Habitantes tenhão desamparado as suas casas, e se tenhão querido refugiar neste Reino, ao que elle Juiz de Fóra tem obstado, por isso que a segurança publica pode ser atacada, não se poupando a toda, e qualquer e qualquer deligencia para se prenderem todos os revoltosos que se encontrarem, asseverando por fim que o espírito dos Habitantes do seu districto he o mais conforme com o Systema que felizmente nos rege.

 

Valença, 18 de Maio de 1882

O Corregedor da Comarca

João de Sá Pinto Abreu Sotto-maior.

 

http://books.google.pt

 


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Sábado, 17 de Junho de 2017

O AVARENTO DE MELGAÇO

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O AVARENTO

 

 

Havia um homem duma aldeia de Melgaço que, ainda novo, saltou para França e por lá andou a labutar como mineiro. Sendo o trabalho duro e pouco saudável, acabou por voltar quando tinha alguns francos no bolso. Vendeu as fragas que lhe couberam em herança e comprou por tuta-e-meia uma quintarola ao pé de Braga de antigos senhores arruinados.

Vivia sozinho em casa e a sua vida era o amanho contínuo das leiras e das hortas à volta. Uma vaca, galinhas, alguns coelhos e um cão eram as únicas companhias. À excepção dos trabalhos mais pesados, como o das vindimas e o da ceifa, em que tinha de pedir ajuda, evitava o contacto com a vizinhança.

Viam-no por vezes nos caminhos a vergar ao peso de um fardo de palha ou de um carrego de mato, pois carroça não tinha e não usava. Dizia-se que comia caldo aziumado de uma semana e carne de porco gorda, para poupar. E constava-se que com aquela sovinice toda devia ter uma boa maquia debaixo do colchão.

Uma vez por semana ia ao mercado da cidade a pé vender uma dúzia de ovos, uns quilos de batatas, a fruta que lhe sobejava porque não gastava desses luxos e uma galinha gorda. Até que um dia cegou e foi graças aos gritos de desespero que os vizinhos lhe foram acudir.

Alguns mais gananciosos, aproveitaram a ocasião para procurar debaixo do colchão. Mas não encontraram nada. O homem, ou meteu o dinheiro no banco, ou escondeu-o nalgum buraco da casa.

Morreu pouco depois, deixando a quinta aos sobrinhos de Melgaço que mal o conheciam e o deixaram morrer como cão abandonado. Porque não se entendiam entre si quanto às partilhas, a quinta e a casa foram deixadas ao Deus dará.

A casa, com a falta de uso, começou a arruinar-se e hoje em dia dizem que está assombrada com a alma penada do dono, que anda por ali a guardar o dinheiro escondido. Há quem afirme ter visto de noite luzes dentro de casa. Muitos dizem ser mentira, pois as portadas das janelas estão sempre fechadas e, se houvesse luz dentro de casa, não se veria cá de fora.

 

 

 

Fonte: AA.VV., - Literatura Portuguesa de Tradição Oral

                             Projecto Vicial – Univ. Trás-os-Montes e Alto Douro

  1. p.AP14

 

Retirado de: www.lendarium.org/narrative/o-avarento/?category=28

 

Centro de Estudos Ataíde de Oliveira

 


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Sábado, 10 de Junho de 2017

MELGAÇO QUESTIONA O REI

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O BISPO D. GIL PERES DE CERVEIRA, D. AFONSO III E OS

MUNICÍPIOS DO ALTO MINHO

 

 

   Melgaço regulava-se por um antigo foral, outorgado por volta de 1185, a que serviu de referência o de Ribadávia, na vizinha Galiza. Estava este foral em vigor quando, em 29 de Abril de 1258, D. Afonso III subscreveu uma nova carta em que se lhe outorgava um foral idêntico ao de Monção: “do vobis forum de Monçom” (32). Este novo foral, que tinha entre as testemunhas o delegado do prelado de Tui, Rodericus Iohanis Magister Scholarum tudensis, não agradou, porém, à gente de Melgaço, porque introduzia modificações a que os moradores teriam dificuldade em se adaptarem, designadamente em relação ao censo anual que deviam pagar ao monarca (33). O rei acolheu com compreensão as reclamações dos melgacenses, que desejava continuar a ter por aliados e sentinelas da fronteira. E assim repôs o estado anterior das coisas, outorgando, em 9 de Fevereiro de 1261, com pequenos ajustamentos, uma confirmação do foral concedido por D. Afonso Henriques.

 

(32) T.T., Ch. D. Af. III, liv. I, fls. 27 v.º-28 v.º.

 

(33) Com efeito, esse tributo tinha sido fixado no tempo de D. Sancho II em 1000 soldos leoneses, a pagar em três prestações, ao longo do ano. No novo foral estipulava-se um tributo anual de 350 morabitinos velhos, também em três prestações nas datas acostumadas. Este valor seria fixado na previsão do pagamento de um morabitino por morador, o que fazia com que se elevasse para 350 os moradores na vila. Essa mudança do panorama demográfico obrigaria a uma redistribuição das terras reguengas que o rei tinha doado ao concelho, a qual, para além de outras perturbações no que dizia respeito às benfeitorias introduzidas pelos seus exploradores, forçosamente diminuiria as parcelas, perspectiva suficiente para provocar uma onda de descontentamento.

 

António Matos Reis

Museu Municipal de Viana do Castelo

 

O Bispo D. Gil Peres de Cerveira, D. Afonso III

e os Municípios do Alto Minho

 

Retirado de:

http://ler.letras.up.pt/uploads/ficheiros/4813.pdf

 


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Sábado, 3 de Junho de 2017

S. ROSENDO, D. AFONSO HENRIQUES E O CASTELO DOS MONTES LABOREIRO

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CASTELO

DOS MONTES LABOREIRO

José Domingues

 

O castelo dos Montes Laboreiro ou do Laboreiro (fr. Castro Laboreiro, c. Melgaço) é a segunda fortaleza mais setentrional de Portugal – a primeira é o vizinho castelo de Melgaço (fr. Vila, c. Melgaço). Situa-se em frente do lugar da Vila de Castro Laboreiro, no alto dum cabeço rochoso da cordilheira montanhosa de Entre-Lima e Minho – na época medieval identificada com os Montes Laboreiro, topónimo que ainda perdura do lado galego – servindo de sentinela avançada de toda a raia seca entre estes dois rios.

Trata-se de um castelo medieval de tipologia roqueira, que, não fugindo à regra dos seus homólogos, nos aparece de improviso no fio cronológico do tempo, mudo como uma esfinge, ocultando o segredo das suas origens. Sem embargo, é tanta a sua antiguidade que se não guardou memória autêntica da sua fundação. Não surpreende, por isso, que desde o dealbar do século XVII, pelo menos, os documentos manuscritos e impressos, com alguma assiduidade, tributem a fundação da esculca do Laboreiro a S. Rosendo da Celanova ou à sua família – e não será de todo despiciendo que, do outro lado da raia, ainda hoje continuem a chamar-lhe o castelo de S. Rosendo.

Reza a lenda que D. Afonso III de Leão – o Magno – terá doado, a título hereditário, o monte Laboreiro – “leporarium momtem” – ao conde Hermenegildo Mendo, avô de S. Rosendo, a título de recompensa por lhe ter submetido um grande opositor. Por morte de seu avô passou para seu pai, o conde Guterres Mendo, e, sucessivamente, para S. Rosendo.

Mas todo o período lendário tem o seu aspecto histórico: (I) esta doação e consecutiva transmissão já aparecem registadas em manuscrito do século XII, que relata a vida do cenóbio de Celanova; (II) se efectivamente se pode identificar a arcaica terminologia “monte”, que aparece nos documentos do século X, com as estruturas defensivas muito rudimentares levantadas para as populações se abrigarem dos ataques muçulmanos, normandos e eventuais violências internas, desde esse recuado século que está documentada a existência do castelo do Laboreiro em expressões como “subtus mons leporario” e similares; (III) finalmente, não há dúvida de que o castelo do Laboreiro fazia parte do património do mosteiro galego de Celanova, conforme consta do contrato de permuta outorgado em Zamora, no ano de 1241, entre D. Sancho II de Portugal e o dito mosteiro de Celanova, cedendo este último o castelo do Laboreiro ao monarca luso, que por sua vez lhe liberou a igreja de Monte Córdova (c. Santo Tirso).

Contra o que tem seguido a corrente historiográfica tradicional, mais lendária parece ser a tomada deste castelo pela força das armas, no tempo de D. Afonso Henriques. Tudo por conta e crédito da carta de couto que, no dia 16 de Abril de 1141, o mesmo monarca outorgou ao mosteiro de Paderne, em compensação do tributo de dez éguas com suas crias, trinta moios de vinho, um cavalo avaliado em quinhentos soldos e cem moedas de ouro, que a abadessa Elvira Sarracine lhe tinha prestado durante a tomada do castelo do Laboreiro – “istum pretium et servitium fuit datum quando tomavit dominus rex castellum do Laborario”. Este diploma afonsino vem confirmar a existência do castelo na primeira metade do século XII.

A cronologia documental conhecida impõe que, para se aceitar o sucesso bélico do nosso primeiro monarca, se acredite na conquista da fortaleza roqueira do Laboreiro duas vezes consecutivas, no Inverno de 1140 – uma por Leão e outra por Portugal. Esta ideia torna-se assaz improcedente tendo em conta: (I) a situação geográfica do castelo e a defesa natural proporcionada pela escabrosidade dos colossais penhascos que a natureza cinzelou; (II) os invernos rigorosos no âmago destas montanhas; (III) a morosidade, os riscos e as práticas de sitiar castelos em pleno século XII.

Assim sendo, o mais plausível é que, primeiro, o castelo do Laboreiro tenha tomado voz por Afonso VII, quando este por aqui passou a caminho de Valdevez, e depois, após o Bafordo de Valdevez e consecutivo armistício entre os dois reinos, tenha ficado do lado de Portugal, aproveitando o monarca luso a proximidade geográfica para o visitar e tomar posse. O convento de Paderne, por sua vez e tal como outros congéneres, ter-se-á limitado a comprar ao soberano a carta de couto para o seu mosteiro, pagando o respectivo preço.

Regressando ao hodierno, o “viajante” do Prémio Nobel da Literatura, José Saramago, ficou surpreendido com o nome da porta deste castelo voltada para o casario actual da vila – porta do Sapo – referindo que “alguma coisa daria o viajante para saber a origem deste nome”. Numa tentativa de satisfazer essa curiosidade, é bem plausível que a explicação esteja na formação granítica, em forma de tartaruga, que fica mesmo em frente a essa porta. A verdade é que por estas bandas, plausível legado do Galaico-Português, a tartaruga ainda é o sapo concho ou sapo com concha.

 

José Domingues – Historiador e jurista. Professor e investigador do CEJEA na Universidade Lusíada. Fundador do Núcleo de Estudos e Pesquisa dos Montes Laboreiro. Autor de As Ordenações Afonsinas e de muitos outros trabalhos da história da região do concelho de Melgaço.

 

 

LUGARES INESQUECÍVEIS DE PORTUGAL

Viagens com Alma

Edição Paulo Alexandre Loução

Julho 2011

pp. 417-419

 


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Sábado, 27 de Maio de 2017

DE AQUÍ NOM PASSAM - RELATO DE UM CASTREJO

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ribeiro de baixo, castro laboreiro

 

                     

A FALA GALEGO-PORTUGUESA

DA BAIXA LIMIA

E CASTRO LABOREIRO

 

Integrado no Projecto para a declaraçom de Património da

Humanidade da Cultura Imaterial Galego-Portuguesa

 

 

I.E.S. AQUIS QUERQUERNIS

BANDE – OURENSE

 

José Manuel Gonçáles Ribeira

 

 

 

OS FUGIDOS

 

Recolha gravada em 07/05/2003

Sexo: Home

Idade: 78 anos

Lugar: Ribeiro de Baixo, Castro Laboreiro

 

 

   - … e entom estuverom …… numha ocasion um… era eu rapá novinho .. porque as autoridades portuguesas tinham que os prender… tamém… eram mandados polo governo para os arremeter à Espanha. E um que era d’A Ilha botou-se ao rio… niste rio… a fugir-lhe aos portugueses e atravessou o rio e fugiu pró outro lado… um espanhol fugido. I… e bueno… i outros, tú vês acolá aquela carbalheira daquel monte, estuverom ali seis meses numha lapa debaixo de umha fraga, chamámos-lhes nós umha lapa, debaixo dumha fraga, hai ali umha fraga grande e estuverom alí fugidos… Ouuh! E talvez até perto do ano, alí fugidos, claro, eles tinham que comprar a comidinha pra comer, mas tuverom que estar alí para fugir às autoridades, compreendes?... é por eso que che eu digo que aquí passarom (…)… mui mal cando a guerra… e passámo-la nós tamém!!... que era eu pequenotinho havía que, chegado o caso, andar cumhas zoquinhos de pau e correas, de inverno

   - sei, sei como som…

   - o caramba… aquilo… bueno… olha… porque tudo que pudesse passar prá Espanha, ia prá Espanha, claro, tinha uma miséria moito grande porque a guerra durou para aí dous anos

   - dous anos e meio…

   - ou isso…

   - … case três…

   - bueno i… nom havia lá que comer… entóm o milhinho ía para lá, entendes?... o milhinho ía para lá… e aqui nom havia…pronto!... porque ao ir para lá, falhava aqui, compeendes?, aquilo alí foi uma miséria, já che digo, se for, se a gente vai a contare… bom… depois, bom…(………….)e eu… cando prenderom os espanhois prenderon-os alí, e o caminho vem por ali e vinha um caminhinho porque prá baixo e asi aquí nesta voltinha foi onde se juntou o povo…, a capelinha está ali abaixo e tocou-se o sino, tú sabes o que é o sino?... juntou-se aquí e eu tamém tinha um tio que era tamém destes que nom eram, nom tinha medo e assim que ouviu a campana véu para aí para arriba de… Eu tinha uma mãe… e as autoridades espanholas aqui!... (…) e pararon aquí nesta voltinha,… eu tinha uma mãe que se pôs à frente das autoridades espanholas e dixo “de aquí nom passam!”… e eles côas espingardas: “que a mato!” mas é que eles nom podiam disparar para os portugueses… compreendes

   - …

   - ooh… ai que nom!, … nom podiam!... e o remedio foi deixa-los, mas depois é quando eles andarom a atirar tiros para cá, eles… é por isso que che eu digo

 

Ler o trabalho completo em:

 

http://www.agal-gz.org/pdf/falabaixalimia.pdf


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Sábado, 20 de Maio de 2017

UM MELGACENSE NA RADIO BRASILEIRA

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Eurico António Crispim da Silva, nasceu em Melgaço em 16 de Setembro de 1900, foi actor, director de cinema e dramaturgo luso-brasileiro, célebre autor de radionovelas durante a era do rádio.

Mudou-se para o Brasil em 1916, e em 1919 iniciou a carreira de actor com a peça “O Mártir do Calvário”, apresentada no teatro Carlos Gomes, sendo o autor Eduardo Garrido.

A mudança para o Rio de Janeiro dera-se por ter ali alguns amigos padeiros, mas logo Silva se interessa pelo meio artístico.

A primeira das 15 peças que escreveu estreou em 1932, pela companhia de Procópio Ferreira, para quem traduziu outras tantas.

Em 1930 transferiu-se para o rádio, actuando no programa Teatro em Casa da Rádio Nacional como actor e produtor.

Com a estreia da Televisão, é um dos redatores das novelas da Rede Tupi, onde escreveu Olhos que Amei.

No cinema foi roteirista parceiro de J. Rui em filmes como Não adianta chorar.

 

http://pt.wikipedia.org/wiki/Eurico_Silva


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Sábado, 13 de Maio de 2017

RESENHA HISTÓRICA DE PARADA DO MONTE

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PARADA DO MONTE, HISTÓRIA

 

 

A ocupação humana do Vale do Mouro no Neolítico está provada pela existência de um núcleo dolménico em Couço referido na Carta Geológica de Portugal e na mamoa da Mina da Mota na zona de Travassos.

Da idade do Ferro poderão subsistir povoados castrejos em algumas cristas dos montes envolventes a Parada ainda não objecto de escavações arqueológicas. Relativamente próximo encontram-se casas redondas nas elevações que se perfilam no curso inferior do rio Mouro (Monte da Ascensão, Senhora da Graça, Tangil, Trute). A montante e a SW de Castro Laboreiro, que está assente num velho Castro proto-histórico, também existe à cota 1033, outro Castro. Parada do Monte poderá ter sido um núcleo da cultura castreja. Só a arqueologia o revelará.

Dos tempos da Romanização não existem vestígios descobertos mas não será de excluir a hipótese de as legiões romanas terem subido o Vale do mouro para dominarem os povos do Laboreiro utilizando uma via partindo das margens do Minho e passando por Messegães, Valadares, Riba de Mouro e Gave. Parada seria um ‘entreposto, local de paragem a caminho de outros locais.

Por esta via também teriam passado os cavaleiros da Reconquista em luta com os Muçulmanos e D. Afonso Henriques quando tomou o castelo de Laboreiro.

A fixação de ordens militares depois da expulsão da mourama está compreendida na política da estabilização e povoamento do território dos nossos primeiros reis. Lamas de Mouro, freguesia próxima de Parada do Monte, esteve ocupada pelos Templários. Houve também interesse régio em colocar na raia do Minho, cavaleiros fiéis concedendo-lhes vastos domínios. D. Afonso Henriques coutou a terra de Valadares que incluía o Vale do Mouro e as povoações de Badim, Cousso, Paderne e Fiães.

Parada do Monte era ainda uma pequena aldeia, de casas cobertas a colmo, rodeada de algumas herdades pertencentes aos monges de Fiães que procuraram ampliar os seus domínios para além do couto que lhes havia sido concedido pelo nosso primeiro rei. Uma das formas que utilizaram foi a de receberem terras por doação testamentária.

Bernardo Pintor ao estudar a documentação existente no Arquivo Distrital de Braga, encontrou uma escritura no ‘Cartulário’ do Mosteiro de Fiães, datada de 1194, referindo Parada do Monte como estando situada ‘subtus mons leporario’, ou seja, sob os Montes Laboreiro.

Num outro documento também do século XII são definidos os limites de Parada do Monte os quais para aquele investigador corresponderiam aos da freguesia.

Uma doação testamentária feita por Afonso Pais e mulher Urraca Dias ao Mosteiro de Fiães, datada de Setembro de 1221, cita uma herdade correspondente à ‘oitava parte de Parada’ com os limites: ‘Pelo Mourilhão até ao Curro de Abril e daí a Fervença e daí ao Parte Águas daí desce pelo rio Menduro e fecha no Mouro…’ Bernardo Pintor em ‘A voz de Melgaço’, de 1 de Novembro de 1947, explica que Curro de Abril se chama hoje Cruz de Abril e fica entre as brandas de Mourim e de Covelo. Fervença é junto à branda de Bouça talvez um nada afastado dos actuais limites. Rio Menduro é o Medoira…….

As Inquirições de 1258 são omissas a Parada do Monte mas ao referirem-se a S. Pedro de Mouro (hoje Riba de Mouro) ‘disseram que quando houver guerra hão de guardar as travessas (travessias) do Monte de Laboreiro. Os habitantes de Parada do Monte estavam também obrigados a prestar tal serviço pois o seu território integrava-se no de Riba de Mouro. Havia ainda o costume antigo de prestarem ‘rogos’ quando algumas pessoas da Galiza casavam e que eram ‘o mesmo que ‘geiras’ ou prestações de serviços agrícolas e cada geira do campo, sendo completa, constava de cinquenta homens de cava. Este costume causava a ruína dos lavradores conforme se aludia numa petição dirigida pelo conselho de Valadares a D. Afonso V. Em 1462, o Rei decidiu que taes rogas nom aver nem se darem nem irem dar a Gualiza nem virem de la os dar cá, tendo fixado a multa de 1000 reais aos que infringissem esta directiva.

Na ocupação humana do território sob os Montes Laboreiro e em particular do Vale do Mouro exerceu importância significativa a circulação de pessoas e bens por estradas e caminhos.

Existia uma via vindo de Valadares pelo Monte da Cumieira e que se dirigia para Cousso, Pomares, Cubalhão e Lamas de Mouro. Daqui continuava para Alcobaça e Porto de Cavaleiros onde atravessava a fronteira. Uma outra derivação atingia Portelinha ramificando-se para o Soajo, Castro Laboreiro e Entrimo. Era o eixo do comércio do gado pela raia seca referido em documentos. Também permitia a circulação do carvão, mel, cera e caça.

Parada do Monte comunicava com aqueles destinos através do percurso pela branda de Travassos, de difícil progressão dado o relevo do terreno, ou então atravessando o Mouro pela ponte da Minhoteira e subindo a Pomares. Era também nesta direcção que se ia à feira em Melgaço com passagem por Paderne, lugar de Moinhos, Ponte da Folia e Remoães. O percurso estabelecia também ligação com S. Marcos onde existia uma barca de passagem do rio Minho permitindo a entrada na Galiza por Arbo.

Havia ainda o caminho seguindo pela margem esquerda do rio Mouro com passagem por Gave, Riba de Mouro até Valadares sede do concelho. Era por ele que se fazia um importante trânsito de pessoas e mercadorias, particularmente nos dias em que havia feira em Valadares.

 

 

PARADA DO MONTE, História e Património

Antero Leite

Mª Antónia Cardoso Leite

 

http://acer-pt.org


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Sábado, 6 de Maio de 2017

MILMANDA E MELGAÇO

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ALCÁZAR DE MILMANDA

 

(Milmanda – concelho de Celanova)

  

O castelo foi palco de confrontos entre Pedro I de Castela e Henrique de Trastâmara. Quando faleceu Pedro em Montiel a maior parte da nobreza galega reconheceu como sucessor a Fernando I de Portugal, genro de Pedro I, o qual estabeleceu sua corte neste castelo e realizou uma campanha de ocupação de muitas vilas e cidades do país galego.

Um dos senhores, o senhor de Vilardecãs Francisco Feijoo Sotelo, foi protagonista de um célebre feito:

   Ocorrera que um fidalgo de Milmanda foi julgado à força e condenado na vila portuguesa de Melgaço. O senhor de Vilardecãs reuniu 40 homens armados e atacou o cárcere resgatando o condenado. Como resposta a esta provocação o duque de Bragança juntou 6 000 homens e, em resposta a este, o conde de Benavente juntou outros 6 000, começando deste jeito a guerra entre Espanha e Portugal, que só terminou com a condição de que o senhor de Vilardecãs deixasse o mando do Alcázar de Milmanda.

O derradeiro nobre que possuiu o castelo foi Suero Eanes de Prada, partidário de Pedro I, que com a morte do monarca partiu a Portugal para não voltar mais. Conta a lenda que nenhuma outra casa da nobreza voltou a possuir o castelo.

 

Retirado de: Wikipédia

 

http://pt.wikipedia.org/wiki/alcazar_de_milmanda


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Sábado, 29 de Abril de 2017

VI CENTENÁRIO DA TOMADA DO CASTELO DE MELGAÇO

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A Câmara Municipal, a Região de Turismo do Alto Minho e «A Voz de Melgaço» promoveram a celebração do VI Centenário da Tomada do Castelo de Melgaço aos Castelhanos em 3 e 4 de Março de 1989, quando se encerrava o ano centenário.

A celebração deste acontecimento histórico de expressão local e nacional processou-se em três momentos soleníssimos: p Militar, o Cívico e o Religioso.

O primeiro momento viveu-se dentro das muralhas do Castelo; o segundo, na Sessão Académica, efectuada no Salão Nobre do Município; o terceiro desenrolou-se no vetusto e histórico mosteiro de Santa Maria de Fiães.

Neles se apresentaram notáveis trabalhos históricos, que, de per si, para além do acontecimento festejado, são dados fundamentais da nossa história, bem como dignos e merecedores de estudo como se de uma bíblia se tratasse.

A imprensa local publicou-os integralmente, e a imprensa não local apresentou sínteses.

Entendeu, a Comissão Organizadora, que só a publicação em livro poderia registar, devidamente, o valor, a importância e o interesse dos trabalhos com um duplo objectivo: dignificar a História local e proporcionar aos melgacenses – estudantes, professores e quantos o desejem – um instrumento válido e oportuno de cultura e de saber. Por isso se edita o volume que intitulámos: «O VI Centenário da Tomada do Castelo de Melgaço».

Para ambientar o leitor, inserimos, também, a entrevista que o Doutor José Marques, professor da Universidade do Porto, concedeu a «A Voz de Melgaço» de 15 de Janeiro de 1989.

Ocorreu-nos, ainda, uma decisão que julgamos ajudar a viver intelectualmente o acontecimento: a publicação do texto da Crónica de D. João I – (2ª parte) – de Fernão Lopes, visto ser o trabalho – base dos historiadores e, portanto, dos oradores que enobreceram, sobremaneira, a celebração que havíamos projectado.

Finalmente, arquivamos, pela sua beleza literária, colorido e sensibilidade, a composição «Inês Negra – A Heroína de Melgaço» do Conde de Sabugosa que, em síntese espectacular, escreveu um hino harmonioso e solene dos acontecimentos.

 

Edição da responsabilidade de:

    - Câmara Municipal de Melgaço

    - Região de Turismo do Alto Minho

    - «A Voz de Melgaço»

 

1991


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Sábado, 22 de Abril de 2017

UMA IDA À VILA II

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coriscadas - castro laboreiro

 

(continuação)

 

Despiu o casaco claro e, sempre ao lado da mãe, ia descobrindo Melgaço. Sentia-se abafado. A roupa vestida era quente. Os rapazes da Vila andavam vestidos de calções, e em camisa de meia manga, enquanto ele trazia calças de pana e uma camisa de manga comprida.

Nas lojas onde entravam havia sempre muita gente e tinham de esperar para serem atendidas. Antes de a mãe e as vizinhas comprarem qualquer coisa havia muita conversa e tinha a sensação incomodativa de estar sob constante observação das pessoas. Na rua fazia um calor de abrasar e mesmo à sombra transpirava. Estava sequioso mas aquela água de Melgaço parecia caldo e quanto mais bebia mais sede tinha. Já enfastiado disse à mãe para o deixar num banco cá fora, enquanto fazia o resto das compras. Passado algum tempo levantou-se do banco e pôs-se a admirar a torre do Castelo mesmo ali à sua frente, igualzinha à desenhada no livro da escola. Pensou como seria bonito o Castelo de Castro, naquele monte tão alto, se tivesse uma torre daquelas.

Estava na praça central da Vila e resolveu espreitar a montra da loja da frente onde estavam expostos vários relógios e artigos em ouro. Ao lado ficava a Escola Primária e através dos vidros viu algumas crianças da sua idade sentadas nas carteiras, enquanto o professor, de fato e gravata, escrevia números no quadro preto.

Finalmente apareceram todas para irem comer, mas antes a mãe tinha de cambiar uns francos enviados pelo pai, por um conhecido. Para isso tinha de passar na Loja Nova, junto à estrada de Castro Laboreiro.

Sentaram-se num banco corrido de madeira, frente a uma mesa tosca, debaixo de uma latada com uma fonte de água fresca, onde finalmente conseguiu dominar a sede. Como era a hora de calor resolveram aproveitar a fresquidão para fazerem uma sesta até porque dali a uma horas teriam de meter os pés a caminho, e agora era sempre a subir.

Terminado o descanso foram buscar os retratos e o resto das compras e albardaram a mula. Às cinco da tarde, ainda com muito calor, iniciaram o regresso.

Passada a primeira hora já estava todo derreado, embora não se queixasse.

Pararam num sítio com uma fonte para descansarem um pouco e beberem. A mãe notou o cansaço do filho e disse à vizinha para arranjar um espaço em cima da mula, onde, enrolado num cobertor colocado dentro de um berço de vime, fora instalada a criança. Conseguiu ajeitar-se em cima da albarda e retomaram a marcha.

Inicialmente, achou interessante a passagem debaixo das latadas, quando atravessaram os lugares, mas o andar desengonçado da mula, tentando escolher o melhor sítio para colocar as patas, e o constante roçar da cabeça pelas silvas e ramos atravessados no caminho acima da altura do animal depressa o convenceram ser preferível ir a pé. Assim, passada uma hora daquele bambolear permanente, e de alguns arranhões, pediu à mãe para o ajudar a descer. A parte mais íngreme do caminho também já estava percorrida. Seguia-se uma tirada por um carreiro rodeado de mato de pequena inclinação, finda a qual iriam merendar porque faltava menos de metade do caminho.

A partir de Alcobaça foi tomado pelo cansaço provocando-lhe uma senolência na qual as pernas pareciam movimentar-se sem dar por isso. Só com uma sacudidela provocada pelo tropeçar numa pedra solta ou pelo colocar do pé nalgum buraco do leito inacabado da estrada, voltava à realidade. Finalmente, com o sol a esconder-se atrás da Fraga da Franqueira, alcançaram Portelinha onde pararam. O ar fresco do fim da tarde, o cheiro da erva e o badalar dos chocalhos das vacas a recolherem ao eido, fê-lo despertar.

Daí até às Coriscadas foi revivendo o dia. No caminho para Melgaço vira coisas novas e fê-lo quase sem dar por isso. Na Vila tinha gostado do Castelo e de algumas lojas com muitas novidades para ele. Melgaço era muito quente e abafado e as pessoas pareceram-lhe desconfiadas, mas agora podia responder aos outros rapazes quando falavam com vaidade por conhecerem a Vila. Além disso vira as videiras em latadas e o Rio Minho, ao longe.

 

O PEGUREIRO E O LOBO

Estórias de Castro Laboreiro

MANUEL DOMINGUES

Edição Núcleo de Estudos e Pesquisa dos Montes Laboreiro

2005

pp. 69-75


publicado por melgaçodomonteàribeira às 00:07
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