Sábado, 18 de Março de 2017

O DIA DE INÊS NEGRA

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    INÊS NEGRA

 

 

Três vivas à Inês Negra

brava mulher de Melgaço

que venceu a Arrenegada

e lhe meteu grande cagaço

 

Três vivas à Inês Negra

que fez descer a terreiro

a sua crença valente

sem ter armas de guerreiro

 

Três vivas à Inês Negra

que mostrou à Arrenegada

a força que tem a alma

de uma pátria libertada

 

Três vivas à Inês Negra

neste largo arraial

onde se joga em duelo

a sorte de Portugal

 

Três vivas à Inês Negra

com o estandarte de Aviz

e a festa dos soldados

reconquistando o país

 

Três vivas à Inês Negra

por ser guerreira e mulher

e por ter no dia certo

a força que faz vencer

quem sabe tomar partido

quem tem razão para escolher

 

José Jorge Letria

1995 

 


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Sábado, 11 de Março de 2017

OLINDA CARVALHO, UMA GRANDE CONTADORA DE HISTÓRIAS III

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(continuação)

 

Lá estavam eles, agarrados como cães, ela quase sem roupa e ele com as calças e as ceroulas enroladas aos pés. Seu badalhoco, era ali, então, o ensaio final do desfile! Ela dava-lhes já o ensaio, mas era a rameira que ela queria tratar, queria-lhe ver as fuças primeiro. Iam-lhe caindo os queixos com a surpresa: então não é que a descarada era uma moça nova, airosa, quase de casamento aprazado com um vizinho que tinha ido para a França, havia menos de um mês! Sua galdéria, ia ver o que acontecia a quem se metia com seu homem. Os seus ouvidos ficaram surdos para o que um e outra diziam, dominava a sua voz alterada e fazendo apelo a todos os insultos que lhe acorriam. Deu um empurrão ao homem que se agarrou às calças e deitou a mão aos cabelos da Joaquina, fazendo tenção de a arrastar para o exterior, sem lhe permitir que se vestisse. Imune aos gritos da rapariga e aos apelos tímidos do Peres, puxou-a pelos cabelos para o caminho e começou a gritar, que acudissem, para verem com os próprios olhos a sem vergonha que se metera debaixo do seu homem, com vadias daquelas por perto mulher alguma podia estar descansada, era um desaforo, uma afronta, o mundo às avessas.

Acudiam as vizinhas mais próximas e a ofendida a sacar de uma tesoura da algibeira e a lançar-se, assanhada, às tranças da rapariga. Era assim, para que vissem, que se tratava uma vadia daquela espécie. Insensível aos gritos da ré, também de nada valeu a interferência das velhas que aconselhavam calma, já chegava, que a deixasse, para vergonha já tinha a sua conta. Só quando a cabeleira estava reduzida a uns escassos centímetros de comprimento, várias peladas a espaços, diminuiu a força bruta contra a jovem, olhou-a da cabeça aos pés e largou-a. Estava satisfeita, tinha a honra vingada, a dela e a de todas que se deixavam enganar por valdevinas sem eira nem beira, que não sabiam manter-se no seu lugar.

A Joaquina recolheu-se no palheiro até ao cair da noite, quando a patroa a foi buscar. O guarda Peres retornou ao seu lugar de plantão no posto e aí pernoitou, comprometendo de certa maneira os festejos do entrudo ao recusar terminantemente o seu prestimoso contributo. Não se falava de outra coisa, velhos, novos e crianças tinham algo a acrescentar ao que alguém contava sobre o caso inusitado da criada da tia Rosa apanhada no palheiro a retouçar com o guarda Peres e vítima da fúria vingativa da mulher exercendo castigo pelas próprias mãos.

A Joaquina não aguentou a pressão e voltou para casa da mãe poucos dias depois do escândalo. O casório mais ou menos falado com o Alberto foi à vida, o rapaz ficou anos sem pôr os pés na terra e nunca mais ninguém o ouviu falar do assunto. A coitada também não teve muita sorte na terra dela e acabou por voltar de cabeça baixa ao local do crime, depois de o Peres ter sido promovido a cabo e se ter mudado com a família para outro posto. De toda aquela confusão perdura a sanha vingativa da mulher enganada e a vitória dos de Andorinho que aproveitaram a desistência do Peres para dar mais brilho ao seu desfile de Carnaval.

 

                       Olinda Carvalho

 

Publicado em A Voz de Melgaço

Fevereiro 2015

 

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Sábado, 4 de Março de 2017

OLINDA CARVALHO, UMA GRANDE CONTADORA DE HISTÓRIAS II

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(continuação)

 

Estes são alguns exemplos das peças preparadas ano após ano para serem executadas no espaço do baile, mas havia representações mais elaboradas que saíam desse local e tomavam outra dimensão. Os números de contrabandistas em fuga de guardas que os perseguiam aos tiros, muitas vezes reais, eram muito aplaudidos pelo povo em geral, mas assustavam as crianças que tomavam a ficção pela realidade. Os entrudos a fazer as suas partidas a velhos e novos, muitas vezes sem sensibilidade nenhuma para com o receio, quiçá temor verdadeiro, espelhado no rosto e nas lágrimas das crianças mais temerosas. Eram esperados com impaciência e eram eles que levavam as mulheres mais velhas e menos dadas a divertimentos ao espaço público do baile ou ao desfile quando este tinha lugar.

A troca de género era muito comum e nesta quadra muitos fatos de homem, guardados em armários ou arcas durante todo o ano, tresandando a naftalina, faziam as delícias de mulheres e raparigas que com eles se mascaravam de homem e se faziam acompanhar por matrafonas de grandes seios e não menos avantajados traseiros, papeis encarnados por homens. A identidade dos mascarados escondia-se atrás de rendas ou mascarilhas costuradas a preceito e era um feito conseguir enganar a assistência. Às vezes, discutia-se durante dias quem seria um ou outro mascarado e não se chegava a descobrir ou então isso acontecia quando o interesse pelo assunto já tinha arrefecido. Havia quem levasse tão longe o espírito carnavalesco que pessoas que estavam nos seus afazeres se viam obrigadas a larga-los pela interferência dos entrudos. Tanto podiam tirar a roupa às mulheres que lavavam na fonte, como fugir com um saco de grão que alguém levava para o moinho, ou soltar as vacas que puxavam um arado e levá-las para o pasto, obrigando o dono a deixar o trabalho e ir para o baile. Qualquer atividade que afastasse as pessoas do espaço comum de divertimento podia ser objeto da intrusão dos mascarados e a sua interferência era em geral respeitada, ninguém levava a mal.

Nesse ano, em que tinham contratado um tocador para todas as noites e um vizinho que se ajeitava com a concertina dava o seu contributo à animação geral, a folia prometia não faltar. Desde o jantar da noite de Reis que parte da mocidade se preparava para desafiar o pessoal do lugar mais próximo e ver quem levava a melhor em máscaras e trapalhadas. Era uma tradição antiga mas há anos que não se juntavam os dois lugares para entrarem em despique. Os de Vilarinho iriam no domingo a Andorinho, os daqui iriam a Vilarinho na terça feira. Sempre à tarde, o estômago bem aconchegado pelas carnes que nesses dias eram menos escassas, nas vésperas de uma quaresma que chegava em auxílio da dona de casa que se via mal para fazer chegar o conduto até à matança seguinte. Também era o dia das últimas guloseimas até à Páscoa, em nenhuma mesa faltavam as rabanadas, nalgumas acolitadas por arroz doce ou aletria, dependendo mais da vontade de festejar do que das posses, pois sobremesas mais humildes não há.

Para a posteridade não haveria de ficar o confronto entre os dois lugares, a mocidade a dar o seu melhor para ultrapassar relatos de comemorações passadas e perpetuar a rivalidade que só existia à superfície. Estavam os participantes do desfile de Vilarinho na garagem do tio Canteiro a combinar os últimos preparos e a repetir as deixas do teatro, quando chegou uma missão para o guarda Peres. Devia estar de plantão, mas fizera-se substituir por um colega, já que lhe cabia o papel principal na encenação do desfile. Sentia-se muito ufano da sua imaginação e capacidade de organização e à conta desta esgueirara-se logo depois do jantar, como acontecia há tempos nos domingos à tarde. A mulher andava com a pulga atrás da orelha, eram ensaios a mais para o seu gosto, com aquelas Marias alevantadas todas de volta dele, era bom que estivesse atenta. Mandou um petiz dar-lhe o recado, mas o rapazinho voltou com a informação de que o senhor Peres não estava na garagem. A Benvinda mandou o miúdo para a eira, depois de lhe dar um rebuçado que tirou da algibeira e, a remoer as pragas que lhe ocorriam em surdina, fingindo uma calma que não sentia, bateu com a porta e saiu sem pressa, indagando a si mesma para onde se dirigir. Haveria de dizer que foram as pernas que a conduziram, que chegou a palheiro da tia Brasileira sem dar por isso. A porta estava apenas encostada, o fecho descorrido, sinal de que quem entrara ainda não saíra. Entrou sem ruído, a habituar os olhos à escuridão, perscrutando para lá das frinchas da porta e do janelo que dava para o caminho da Cangosta.

 

(continua)

 

 


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Sábado, 25 de Fevereiro de 2017

OLINDA CARVALHO, UMA GRANDE CONTADORA DE HISTÓRIAS I

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Um Carnaval na Memória Coletiva

 

Como tantas coisas do passado também o Carnaval suscita mil lembranças, mil e uma evocações nostálgicas de um tempo que foi muito melhor do que o presente. Porque associado à juventude, a mais saúde, a um convívio mais são? É o que se diz. Será, porém, verdadeiro? Do que eu me lembro, a pressão social era, há uma dezena de anos, muito mais pesada do que hoje e ai de quem pisasse o risco! Alguém que desse azo a andar nas bocas do mundo só de lá saía quando a novidade ou amplitude de outro deslize lhe arrebatasse o lugar. O esquecimento podia nunca acontecer, de vez em quando algo voltava a surgir para apoucar sicrana ou beltrana, eram, são quase sempre as mulheres as vítimas das línguas viperinas do povo. Os homens, mesmo que o discernimento delas os coloque no seu devido lugar, merecem geralmente muito mais tolerância e favores das mulheres. Postas a refletir, elas confessam-se mais capazes, mas assumem no outro género méritos maiores do que os que a prática lhes conferem, os que a tradição instituiu.

O Carnaval era a festa por excelência em que novos, velhos e crianças se divertiam. Para muitas rapariguinhas era uma espécie de passaporte para aceder aos bailes destinados às mais velhas, em idade de namorar e procurar o almejado pretendente, sendo este o objetivo de uma vida. Depois de participar, um ou dois anos seguidos, em todos os bailes, de sábado à tarde até à madrugada de quarta-feira de cinzas, qualquer moçoila se sentia com direito a reivindicar participar em todas as posteriores folias carnavaleiras. As mães deixavam-se convencer com mais ou menos facilidade, de acordo com as alegrias do coração, as filhas limitavam-se a reproduzir o que se tinha passado com elas, quando tinham a mesma idade. Os pais eram pouco tidos para a decisão, a maioria porque estava ausente e, se não era o caso, deixavam as coisas difíceis para as mulheres, além de as parirem também tinham de as criar para ninguém ter nada de nada a apontar-lhes.

Naquele ano queriam que os festejos fossem de arromba. Um ano antes, tinha havido dois enterros nas vésperas e ninguém se atrevera a lembrar a época festiva, por respeito para com as famílias dos falecidos. Se a morte do tio Manuel da Marmeleira foi aceite naturalmente, pois já não esperava pela idade e estava acamado há tempo, fez-lhe Deus favor, o mesmo não se pode dizer da partida inesperada do Francisco Americano, vítima fulminante de um garrotilho que o levou em menos de oito dias, tinha vinte e três anos. Foi uma dor de alma naquele lugar e nos adjacentes, nunca até àquela data um enterro foi mais concorrido. Ouvir a mãe e as irmãs a gritarem por ele entranhava-se no coração mais empedernido, até os homens deixavam as lágrimas correr sem se esconderem, tamanha dor tinha de ser partilhada, nem que fosse apenas para aliviar um pouquinho a noite negra que caíra sobre aquela família.

O tempo mostrou-se amigo, esquecido da neve, apenas uma chuva miudinha na segunda à tarde. Assim, em espaços abertos, os entrudos podiam resultar os variados números, muitas vezes preparados de longe, outras deixados ao improviso e a sugestões do momento, algumas limitando-se a reproduções por demais conhecidas, mas que faziam sempre rir, que mais não fosse pelo conhecimento antecipado da coisa. Depois do almoço de sábado, onde a mesa era ainda frugal, as carnes e outras iguarias eram para domingo e terça feira gorda, acorria o povo à eira do meio. As crianças não paravam, chegava o tocador, as velhas e velhos acomodavam-se nos bancos que iam surgindo de um canto e de outro, alguns improvisados com o que estava à mão, as raparigas punham-se de um lado, os rapazes, sempre em menor número do que elas, de outro. Começava a concertina na sua função e de seguida os pares a rodopiar, sob os olhares atentos, perscrutadores de mães, pais, avós, vizinhos em geral. Todos dançavam com todos, as raparigas que ficavam sem par iam buscar os velhotes que saíam para o terreiro, o entrudo é assim mesmo, alguns rapazes faziam o mesmo com solteironas que já não estavam para festas, mas carnaval é carnaval. Em geral só mulheres de meia idade, viúvas de maridos emigrados, é que não participavam na dança. A muitas não faltava a vontade, mas o recato impunha distância daquelas alegrias e, estando por perto, gozavam os olhos, já era bem bom.

Quando menos se esperava, ora com introdução a preceito, fazendo-se anunciar, ora de rompante, eis que fazem parar o baile. Entravam os mascarados, com um número ensaiado para animar, para fazer rir, às vezes até às lágrimas. Era mister que a identidade dos entrudos não fosse descoberta. Ele era ver o médico que assistia ao nascimento de uma criança e fazia sair um ser horrendo debaixo de uma saia branca manchada de vermelho, ele era o mesmo médico a fazer uma intervenção cirúrgica e a extrair um chouriço que deveria ser o apêndice, ele era o casalinho que pretendia dar o nó e o padre se recusa porque o noiva é mais alta do que o noivo e este precisa de crescer e depois aparecer.

 

(continua)

 

 


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Sábado, 18 de Fevereiro de 2017

UMA MULHER DE BARBA RIJA

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ANA HOME

 

O seu nome verdadeiro era Ana Fernandes. Nasceu em 1876 e faleceu na Vila de Melgaço a 5/4/1947, com 71 anos. Ficou com a fama de hermafrodita, por ser virago, mulher de pulso rijo. Em certa ocasião, num monte da Galiza, desarmou um carabineiro que dias antes lhe tirara o contrabando, uns míseros gramas de tabaco e duas barras de sabão, e com a própria carabina deu-lhe uma tremenda sova, deixando-o ali estendido como um morto. Depois remeteu a espingarda para o posto onde o ferrabrás estava afecto. O caso deu brado! E não foi só aquele que experimentou a “lenha” com que ela se aquecia, mas muitos outros homens pseudo valentes. Era tesa! Fazia todos os trabalhos normalmente atribuídos ao sexo masculino: podar, sulfatar, lavrar, etc. Fumava, vício que em Portugal só os homens tinham. No “Notícias de Melgaço” nº 1 de 6/3/1924, na secção DIZ-SE, alguém escreveu «que a Ana Home no domingo último, numa entrudada que neste dia se fez em Cristóval, vestiu-se com traje masculino, caracterizando-se com pêra e bigode; que a certa altura do divertimento montou num cavalo como qualquer homem, fazendo algumas evoluções para afastar o povo, o qual a elogiou.» Foi mãe solteira de dois filhos: o António Maria, conhecido por “Olharapo”, jornaleiro, o qual morreu na Vila (SMP), tuberculoso, a 27/3/1951; e o José, que depois da tropa ingressou na GNR, atingindo o posto de cabo. Carlos Afonso escreveu: «…embora não tendo “barba rija” tinha força e coragem para enfrentar quem a quisesse importunar. Poderia até equiparar-se à lendária Inês Negra, isto se os tempos fossem semelhantes e as oportunidades fossem as mesmas. (…) Eu conheci a “Ana Home”;… um irmão dela foi meu tio por afinidade. Mulher forte, de meia estatura e de voz grave. Trajava roupa de tecido grosso, como antigamente se usava em Castro Laboreiro, e dizia-se que por lá viveu algum tempo. Creio ter sido, talvez, da 2ª geração de uma família galega, de Desteriz, ali junto a S. Gregório, que aí por volta de 1850 veio para Melgaço, trabalhar para a Quinta chamada de Santo Preto. Em Melgaço, os descendentes dessa família, tinham por alcunha “os noivos”… Andava sempre armada com um varapau da sua altura e, dizia-se, não sei se com alguma ou total verdade, que usava “faca na liga”. Creio que a alcunha… lhe foi dada por ter a voz grossa, ou mais pelo facto de ela fumar, tal como os homens. Uma mulher a fumar, há mais de 70 anos atrás, era mesmo coisa de outro mundo…» (VM 1116, de 15/5/1999).

 

DICIONÁRIO ENCICLOPÉDICO DE MELGAÇO II

Joaquim A. Rocha

Edição do Autor

2010

p. 18

 

Joaquim A. Rocha edita o blog MELGAÇO, MINHA TERRA

 

 


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Sábado, 11 de Fevereiro de 2017

UMA CARTA IRÓNICA

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ANA CORREIA FEIJÓ

  

Nasceu na Casa da Cordeira em 8 de Julho de 1832 e cinco dias depois foi baptizada na igreja paroquial de Rouças.

Os seus paraninfos foram Frei Bento do Pilar, D. Abade do Mosteiro de Tibães e Geral da Congregação Beneditina do reino e D. Ana Joaquina de Castro Sousa e Meneses, da Casa de Galvão, e impuseram-lhe o singelo nome de Ana, mas pela vida fora os próprios pais lhe chamaram Ana Cândida numas ocasiões e Ana Joaquina noutras.

Assim, quando em 14 de Fevereiro de 1852 a mãe encarregou o filho padre em Ponte de Lima a representar na escritura de nomeação de prazos em sua posse, deu-lhe o nome da madrinha – Ana Joaquina – e dois anos depois, numa outra escritura, a impôs como Ana Cândida.

Enquanto, porém, não passou de menina toda a gente a tratou por Ana e assim aparece ela em baptizados ao lado dos irmãos José Agostinho, P.e António e Manuel.

Os feitos de Ana e Manuel associaram-nos na vida e não é, por isso, de admirar encontrá-los juntos em 11 de Outubro de 1832 a vender em comum a José Albano Dantas, dos Carvalhos de Rouças, a propriedade de Cecrinhos, de pão e vinha, sita no lugar do comprador, não importa dizer agora por quanto.

Também foi a eles ambos que a mãe doou por escritura de 23 de Dezembro de 1872 todas as propriedades por ela possuídas no lugar da Boa Vista; formavam uma quinta que valia bem oitocentos mil réis e rendia por ano dez por cento.

Actos menos reflectidos de Manuel Feijó contristaram e amarguraram muitas vezes o coração fraterno do clérigo e se, na verdade, a D. Ana interveio sempre entre os arrufos dos dois manos como anjo da paz, nem sempre a sua inteligência conseguiu forjar a frase exacta para acalmar a irritação e levar o preciso conforto moral a Santo Estevão da Facha ou alcançou afastar de si e do Manuel as justas recriminações do padre.

E a prova está nesta carta a exibir a tristeza sob a capa da ironia:

 

       Ex.ma Senr.ª

12-2-84     D. Ana Corr.ª Feijó

 

Apenas me cumpre dizer q V. Exª decerto se esqueceu de uma carta que me escreveu no anno de 1883, dizendo que recebera de seu mano Manuel trinta libras, com que comprara uns touros e bois se me não engano; porq se disto se lembrara não vinha dizer agora a ha tres annos não tinha recebido um real, quando desde aquella época até hoje apenas tem decorrido um anno. Ora se falla verd.e nesta última carta então mentiu na primeira, e se disse na primeira uma verdade neste cazo mentiu nesta, q me escreveu agora. Peço que resolva este problema, e q applique a sua pessoa o nome que lhe compete. Tambem tenho em meu poder outra carta do seu mano Manuel do mesmo anno, em que declara levar mais pª Melgaço 25 mil reis pª tratar dos foros, e V. Ex.ª declara agora que não sabe desse drº

porq no questou que o não gastou; mas neste cazo como elle está ahi na sua companhia, q lhe declare pª q foi tal quantia, a mim só me compete dizer a todo mundo e não só ao Antº do Pombal, q desde o anno de 1881 mandei pª Melgaço 961$550, apesar de V. Ex.ª me recomendar q não o diga a pessoa alguma que ha tres annos lhe tenho dado. Enq.to ao seu mano Manuel ter gasto a renda de sua Prima Maria eu nada tenho com isto, porq felismente não preciso q ninguem me ajude a fazer as minhas obras. Se seu mano fes torres no ar eu não lhas mandei fazer, por q não lhe encomendei tão grande sermão, e se lá não vou, ainda mais queria fazer, já se sabe a minha custa. O que elle fes foi muitos calotes, e não pequenos, um de cincoenta mil reis ao negociante em Ponte, que se não lembrou de pagar e outro de onze livras a uma mulher de Darque segundo me consta, e por último deixou tudo arrazado, muros na chão, paredes e latas no m.mo gosto e dep.s de tudo isto V. Ex.ª deita a berrar q seu mano Manoel tem sofrido muito. A isto respondo que ninguem mais tem sofrido do q a minha bolsa; mas pª que seu mano não sofra mais q se deixe estar com sua Ex.ma Mana, porq na sua companhia está muito bem. Deste modo não cauzamos encommodos uns aos outros, e m.mo V. Ex.ª assim o estima e assim o quer e deseja. Pois bem está a sua vontade feita. Entre tanto diga a seu mano que me remetta já a letra do Coelho antes que se perca aquelle drº p.r q p.a perjuizo já basta, e eu irei tomar conta do que é meu, p.ª não encomodar as suas pessoas. Creio q nisto lhe faço um grande serviço, visto lamentar V. Ex.ª tanto trabalho, q lhe tem cauzado os bens de seu irmão padre. Deste modo ficão terminadas todas as questões.

                                                              Seu mano

                                                                Antº

 

Note bem: Ha um anno q foram 30 libras, e por isso esteve calada até agora, sem falar em segurança do drº e como não foram este anno outras tantas, então já berra. Pois olhe q tem então m.to que berrar».

 

Foi esta senhora que em Rouças faleceu no dia 22 de Setembro de 1885, embora o assento de óbito lavrado pelo pároco na ocasião do decesso de D. Ana não corresponda à verdade inteira. Era solteira e faleceu s. g.

 

O MEU LIVRO DAS GERAÇÕES MELGACENSES

Volume I

Augusto César Esteves

Edição da Nora do Autor

Melgaço

1998

pp. 176-178

 

 


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Sábado, 4 de Fevereiro de 2017

UMA VÍTIMA DO MIGUELISMO MELGACENSE

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JOSÉ MANUEL GOMES DE ABREU

 

Foi uma das vítimas do miguelismo local, pois longos dias viu coar-se a luz do dia através das grades das cadeias onde o encarceraram; mas debaixo desta vil perseguição ao homem talvez estivesse e se escondesse uma inconfessada luta de interesses patrimoniais movida pelo ódio de melgacenses poderosos malquistados com o progenitor deste desditoso moço.

Viu-se contudo compensado após D. Maria II ser aclamada em Melgaço Rainha de Portugal pois por carta real de 4 de Novembro de 1843 foi-lhe confirmada a nomeação de escrivão camarário, cargo que ocupou sempre com muita proficiência e grandeza de isenção.

Casou com D. Joaquina de Jascão, nascida do casamento de José Cardoso de Campos e de Joana da Purificação, moradores na cidade do Porto, mas naturais, ele da freguesia da Senhora da Piedade e ela da de S. João Baptista de Ruivás, pertencentes ambas à diocese de Lamego.

Moraram de princípio no lugar da Corga da vila e depois na Rua de Baixo e não obstante o desempenho aturado do cargo administrativo e da chefia do registo da alfândega de Monção em terras de Melgaço, nunca a fortuna o bafejou, porquanto, «por causa das suas molestias, e pela calumnia que se lhe tiña feito por quatro requerentes em sessão de Camara, disendo que ouvera suborno na arrematação da obriga da carne, quando ella foi legalmente arrematada em Praça em gerencia da Camara então existente, arguindo-lhe a elle Ex Escrivão da Camara que tinha recebido sinco peças de sete mil e quinhentos do arrematante», renunciou ao cargo camarário em 11 de Agosto de 1843.

Camaristas, contudo, o defenderam da desprimorosa acusação e embora alguns propugnassem para ele reassumir as funções interrompidas, José Manuel foi vencido pela desgraça e embora continuasse a levar uma vida de honestidade e de pobreza, como um pobre de Cristo de finou em 23 de Junho de 1848.

António Máximo, que não só conhecia a dignidade e inteireza de ânimo, mas também admirava a nobreza de carácter deste seu irmão, respeitou também a sua memória quando a morte o levou, pois deu-se ao trabalho de quebrar os dentes às más línguas locais, mandando rezar por alma do mesmo no dia 1 de Julho um ofício de dezasseis padres.

Escondem hoje os seus ossos os velhos muros da igreja da Misericórdia; não sei, no entanto, se aí jazem os da sua viúva, que muitos mais anos aturou neste vale de lágrimas, visto só ter entregado a alma ao Criador no dia 1 de Março de 1871.

 

O MEU LIVRO DAS GERAÇÕES MELGACENSES

Volume I

Augusto César Esteves

Edição da Nora do Autor

Melgaço

1989

pp. 92-94

 

 


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Sábado, 28 de Janeiro de 2017

OS FORAIS DE MELGAÇO

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A cultura tem constituído preocupação primária na nossa política municipal. A Câmara de Melgaço tem investido na recuperação do património e na criação de infra-estruturas e equipamentos, assim como na acção cultural e na publicação de livros e textos que registam passagens importantes da nossa história colectiva.

Com a concessão do primeiro foral em 1183, D. Afonso Henriques deu estatuto jurídico e administrativo a Melgaço, fundando assim o nosso concelho.

Ao longo da Idade Média e Moderna foram concedidos mais dois forais, um em 1258 por D. Afonso III e o outro em 1513 por D. Manuel I, vendo assim Melgaço reconhecida a sua autoridade concelhia.

Estando a decorrer a passagem dos 820 anos do primeiro foral de Melgaço, considerou a Câmara Municipal que a publicação dos três forais constituía um investimento cultural que se impunha por se tratar de documentos que são autênticos símbolos de autoridade concelhia e de grande valor patrimonial que marcam três fases importantes da vida da nossa terra.

Ao darmos a conhecer aos Melgacenses e ao exterior marcos tão importantes da nossa história estamos a preservar as nossas raízes e a promover o nosso concelho.

Uma palavra final de agradecimento sincero ao ilustre Melgacense Prof. Doutor José Marques que com esta publicação presta mais um enorme serviço ao nosso Município.

Continuamos a construir o futuro de Melgaço, preservando e engrandecendo os valores da nossa cultura.

 

                      O Presidente da Câmara Municipal

 

 

Os Forais de Melgaço

José Marques

Edição Câmara Municipal de Melgaço

2003

 


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Sábado, 21 de Janeiro de 2017

O CAGARRÃO DO EMILIANO

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O TI EMILIANO

 

Por motivos nunca devidamente esclarecidos entre a opinião pública o Emiliano e o Pires desentenderam-se. Cada um foi para seu lado fazendo-se concorrência com carro de praça. Cada um comprara um Ford modelo A, 1929.

O Emiliano habilitou-se e ganhou a concorrência para cobrar o imposto indirecto devido à Câmara Municipal pelos comerciantes e negociantes. Por cada mercadoria entrada no concelho e as artesanalmente confeccionadas e vendidas, teria de ser pago um tributo estimado em percentagem sobre o valor de venda. A Câmara Municipal atribuía a essas transacções para efeito de orçamento, um valor global que o arrematante teria de pagar em tantas parcelas quanto fosse convencionado. O Emiliano com a ajuda de cobradores ha-doc exercia fiscalização rigorosa e cobrança imediata a tendeiros e vendedores avulsos nos dias de feira e festas, e mensalmente do comércio regular estabelecido. O lucro deixado por essa actividade deu ao Emiliano um status de prosperidade nunca antes visto naquela terra. O bafo da riqueza era patente. A circulação de mercadorias era intensa mormente aquelas destinadas ao contrabando: galinhas, ovos, chocolate, cigarros, sabão e outras, tão necessárias na vizinha Espanha que se envolvera em guerra civil.

Por vários anos o Emiliano renovou o contrato, sempre aumentando o valor do lance na concorrência para afastar outros concorrentes. Tudo caminhava a contento, contento demais que impelia o Emiliano a exagerar na ostentação de riqueza. A sua casa denominada Cagarrão pendurada nos fojos da muralha transformou-se numa deslumbrante vivenda agora debruçada sobre a nova e panorâmica avenida que a administração municipal sob a presidência do Dr. João Durães, havia construído. Tudo que o modernismo proporcionasse, comodidade e luxo, pusera o Emiliano em sua requintada casa. Rádio, ventilador para os dias de calor e calorífero para os dias de inverno, água encanada com bomba eléctrica para a puxar do poço. Construiu um grande galpão anexo à casa destinado a garagem e oficina. Um belo jardim e pomar embelezavam a fachada virada para a avenida nova. O térreo da casa era uma grande adega onde grandes pipas cheias do melhor vinho da região estavam à disposição do enorme grupo de “amigos” que frequentavam a sua casa. Comprou o casarão no Rio do Porto onde, até há pouco funcionara o quartel do Bombeiros; reformou-o completamente, ficou sem utilidade definida.

O Emiliano e a Ana tiveram uma filha, a Ausenda, que faleceu com poucos anos de idade. Posteriormente voltou a Ana a engravidar com a agravante de ter-se manifestado nas trompas. Estaria condenada não tivesse o Emiliano os necessários recursos e os pais dela morando no Porto. Transferiu-se para aquela cidade onde se submeteu a delicada cirurgia. Depois de prolongada internação e demorado restabelecimento ficou a Ana quase nova em folha não fosse a sequela que impossibilitava novas gestações e a ausência de prazer no acto sexual.

O Emiliano era louco por crianças. Rodeava-se de sobrinhos, especialmente os rapazes que na altura eram três do irmão Augusto, quatro da irmã Amália, por serem os mais jovens, outros sobrinhos já casados com família não gozavam tanto dos carinhos do Emiliano, mas era vê-los, uns e outros, nos dias de romaria farreando alegremente, espalhando alegria. Era a troupe do Emiliano como lhe chamava o povo. Corriam os últimos anos trinta e primeiros anos quarenta.

 

                                                                                                                                        MANUEL IGREJAS


publicado por melgaçodomonteàribeira às 00:06
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Sábado, 14 de Janeiro de 2017

UMA CASA FIDALGA

23 a2 - casa ferreira silva.JPG

 

 

CASA DO RIO DO PORTO

 

 

 Sita na freguesia da Vila, SMP. As armas foram concedidas, a 1/9/1793, ao Dr. João Manuel Gomes de Abreu Cunha Araújo. O primeiro membro dessa família a residir no Rio do Porto parece que foi o Dr. João António, nascido no século XVIII, filho de Bento da Cunha Araújo e de Maria Gonçalves, ou Maria Martins (moradores na Rua do Campo, depois Rua do Espírito Santo, perto da igreja matriz da Vila), casado com D. Maria Gomes de Abreu, ou D. Mariana Gomes Figueiroa (ver “O Meu Livro das Gerações Melgacenses”, vol. I, p. 409). Na obra citada, p. 410, lê-se: «Ora em 17/5/1748 D. António da Glória, mestre doutor de Sagrada Teologia na Universidade de Coimbra e Prior Donatário do Real Mosteiro do Salvador de Paderne e os mais padres conciliares emprazaram por três vidas aos fidalgos da Casa do Rio do Porto o prazo das Serenadas, que pertencera à família da mulher.» No entanto, quem solicitou à rainha D. Maria I a justificação de nobreza e mandou colocar as pedras de armas no frontispício da Casa foi o Dr. João Manuel Gomes de Abreu Cunha Araújo, filho do Dr. João António de Araújo e de D. Mariana Gomes de Abreu, neto paterno de Bento da Cunha Araújo e de D. Maria Martins, e bisneto de Gonçalo da Cunha Araújo e de D. Catarina Esteves; e neto materno de João Gomes de Abreu e de D. Maria Gomes de Figueiroa, e bisneto de Manuel Gomes de Abreu e de D. Jerónima de Castro. Este Dr. João Manuel casou, a 6/8/1768, com D. Isabel Maria, filha do capitão Manuel Luís Pereira da Gama e de Maria de Araújo, moradores no Campo da Feira de Fora, SMP, e faleceu em 1813.

 É curioso que esta Casa Solar tenha sido adquirida, na década de vinte do séc. XX, pelo então secretário de finanças em Melgaço, Ernesto Viriato dos Passos Ferreira da Silva, de Braga, casado em Melgaço a 21/9/1918 com Margarida Maria, neta ilegítima do fidalgo da dita Casa, Caetano José de Abreu Cunha Araújo, e de Margarida Carolina de Castro Álvares de Barros. O acontecimento gerou polémica, pois Ernesto Viriato era o chefe dos republicanos no concelho, e foi Governador Civil de Viana em 1925. Acusaram-no de monárquico, mas ele argumentou publicamente que comprara aquela Casa fidalga porque estava em ruínas e queria recuperá-la. O certo é que ali viveu com a família, com o peso daqueles brasões à porta de entrada.

 

Dicionário Enciclopédico de Melgaço II

Joaquim A. Rocha

Edição do autor

2010

p.127

 

Joaquim A. Rocha é o editor do blog Melgaço, Minha Terra

 


publicado por melgaçodomonteàribeira às 00:14
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