Sábado, 9 de Dezembro de 2017

UM PINTOR DO BARRAL

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O PINTOR DO BARRAL

 

Foi uma pessoa bem conhecida pelos trabalhos que deixou em todas as freguesias do nosso concelho.

Seu nome de baptismo era Justino José Gomes, e seu nome popular era o de Pintor do Barral, pela actividade profissional que exercia e pelo lugar de nascimento.

Nasceu em 12 de Dezembro de 1879 e faleceu em 15 de Dezembro de 1965. Casou com Constança da Conceição Afonso, e do casal houve sete filhos: 4 rapazes e 3 raparigas.

Os rapazes cultivaram a profissão do pai: pintor. Dos quatro – Américo, Álvaro, Edmundo e Bento só o último é vivo.

Justino José Gomes era um auto-didacta. Não frequentou nenhum curso. Os filhos aprenderam com o pai.

Justino José Gomes deixou obra em todas as igrejas e capelas do nosso concelho: pinturas e douramentos. Daí lhe veio a designação de Pintor do Barral.

Como outros artistas da nossa terra, Justino José Gomes destacou-se pelas suas qualidades inatas de artista, que cultivou e aprimorou no decorrer do tempo.

A fama deste artista – pintor ultrapassou os limites do Concelho de Melgaço. Chegou à cidade do Porto onde deixou trabalho valioso.

Mário refere o artista nesta efeméride:

«Em 18 de Julho de 1899, foi entronizada na Matriz da nossa Vila a linda imagem do Sagrado Coração de Jesus, cuja imagem foi encomendada em Braga e adquirida por subscrição pública. O elegante e perfeito altar onde a mesma se acha foi feito há precisamente vinte e cinco anos por um exímio artífice de Riba de Mouro, cujo nome agora me não ocorre, sendo a pintura da autoria do consagrado Mestre sr. Justino Gomes, do Pontilhão».

 

P.e Júlio Apresenta : Mário

P.e Júlio Vaz

Edição: Autor

1996

p. 294

 


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Sábado, 2 de Dezembro de 2017

MELGAÇO, CONTRABANDO DE VOLFRÂMIO

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MEMÓRIA DO CONTRABANDO e EMIGRAÇÃO CLANDESTINA EM MELGAÇO: PATRIMONIALIZAÇÃO E MUSEALIZAÇÃO

 Lidia Aguiar

 

Exploração de volfrâmio

 

Em Melgaço, como em tantos outros concelhos do norte e centro do país, a exploração do volfrâmio veio proporcionar um novo alento para as economias locais. Para as populações, a exploração deste minério constituiu uma segunda fonte de rendimentos (a primeira era o contrabando), abrindo, mesmo que momentaneamente, expectativas de melhores condições de vida.

Em Castro Laboreiro a exploração do volfrâmio teve uma maior dimensão, do que em outros lugares. Terá começado já durante o período da I Guerra Mundial, tendo tido um grande pico durante a II Guerra. Neste caso foi levada a cabo predominantemente por populares, que acorriam ao Planalto de Castro Laboreiro, no lugar de Seara, onde foram abrindo várias galerias.

Os populares vendiam-no no contrabando, maioritariamente já em Espanha. Verificou-se, no entanto, que durante o período da II Guerra, foram os Alemães os grandes compradores. Eles aguardavam os homens no sopé do planalto com os seus camiões prontos para carregar o minério. Cada homem alcançava um rendimento médio de 8 contos por dia. Este montante subiria bastante mais se ele tivesse a sorte de encontrar um bom filão.

Segundo o informante Filipe Esteves, morador em Castro Laboreiro, as mulheres tiveram nesta época um papel primordial. Dirigiam-se em grupos para as zonas mineiras, onde apanhavam as pedras que caiam das grandes cargas, ou algumas que elas próprias conseguiam apanhar, por se encontrarem mais à superfície. Dirigiam-se, então, para uma levada, onde lavavam e peneiravam o volfrâmio. Este mineral, preparado pelas mulheres, era vendido exclusivamente a um dos mais conhecidos contrabandistas da zona: o Mareco, ligado a um dos grandes consórcios.

No ano de 1955, estas minas acabam por ser registadas pela Companhia Mineira de Castro Laboreiro, com sede no Porto. O manifesto mineiro foi de João Cândido Calheiros, morador na freguesia de Prado, encontrando-se, este registo, no Arquivo Municipal de Melgaço, no Livro de Registos (Volfrâmio).

“Lembro-me bem do tempo do minério. Vieram para cá muitos homens, de muitos lados, apanhar aquelas pedras. Eram assim umas pedras muito negras, tão lindas que elas eram. Eles ficavam cá a dormir. Ganharam muito dinheiro naquele tempo. E as mulheres daqui também lá iam, coitadinhas. Era contudo, um trabalho muito pesado, pois apanhavam as mais pequenitas e iam lavá-las ao regato. Deram-lhes um dinheirinho, ai eu sei bem que deu.” Rosalina Fernandes – Castro Laboreiro – 29-10-2013

Com a Companhia Mineira de Castro Laboreiro a dominar a larga maioria das minas, a população, em geral, perdeu os lucros avultados que até então conseguira.

Este fenómano pode-se constatar em muitas outras zonas mineiras, ligadas ao volfrâmio, do norte e centro do país. Findo o negócio do volfrâmio, a população habituada a ter uma vida melhor, não mais a encontra no contrabando. Continuava a ser uma activvidade plena de riscos e da qual não era possível obter um rendimento certo. Ao trabalho duro, o melgacense não tinha medo. Com a fronteira mesmo ao lado, com horizontes mais alargados, o convite à emigração era forte.  Encontrou-se, deste modo, a grande alavanca para a mobilidade social (Castro & Marques, 2003).

 

Memória do Contrabando e Emigração Clandestina em Melgaço

 

PERCURSO & IDEIAS

ISCET

Cadernos de Turismo

Turismo.pdf

 


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Sábado, 25 de Novembro de 2017

MANJARES DA NOSSA TERRA

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INTRODUÇÃO À ARTE CULINÁRIA DO CONCELHO DE MELGAÇO

 

 

Ao procurar confiar ao papel algumas despretensiosas palavras acerca das mais importantes iguarias, tradicionalmente usadas pelas nobres gentes que, desde recuados tempos, constituem a população do mui notável e ilustre berço de Inês Negra, a Heroína, sem ascendência conhecida que, no Sagrado Altar da Pátria, ofertou a sua própria vida, não posso deixar de me embalar pelas canções ternas que as águas puras e cristalinas vão cantarolando através das encostas, dos vales e vergeis.

É uma região de extrema beleza, desde a variedade das suas paisagens, únicas no mundo até à multiplicidade da tonalidade das suas cores. É um canteiro de flores regado pelas águas frias da serra, onde vicejam o rosmaninho, o jasmim, o alecrim, a urze, a giesta, o piorro e o lírio silvestre do campo. Enfeitiçado pelo encanto das suas lindas serras, pela amenidade do clima, o Melgacense aqui se fixou e nunca mais abandonou o rincão que lhe serviu de berço. Como todos os povos, cuja origem se esconde com o segredo do tempo, a sua primitiva e frugal alimentação iniciou-se com a caça e a pesca, bem como a existência de várias plantas, arbustos e árvores que os abasteciam e lhes garantiam a sua rudimentar subsistência.

Devido à falta de conhecimentos pormenorizados de condimentos e maneiras de preparar as suas frugais refeições, tanto as carnes como os peixes eram assados nos braseiros e a seguir utilizados e acompanhados com castanha e bolotas do reble, a servirem-lhes de pão.

Com a evolução lenta dos tempos, estes caçadores e pescadores domesticaram todos os animais de grande porte, que povoavam a selva e transformaram-nos em auxiliares maravilhosos, quer na alimentação e vestuário, quer no trabalho do amanho, custoso, da terra-mãe.

Das rês miúda fizeram as vezeiras que se apascentavam nas excelentes ervas, misturadas de carquejas, quirejas, tojo, urzes, rosmaninho e variedade indefinida de plantas, dando à carne de cabrito um sabor extraordinário, devido à alimentação primorosa, que utilizam.

Assim uma das mais célebres iguarias do nosso concelho é, sem a menor dúvida, o cabrito assado ou guisado. Para conservar as suas deliciosas qualidades, deve ser assado no forno de cozer o pão e não nas cozinhas de ferro, gás botano ou electricidade. Pela alta qualidade de suas carnes é um prato indispensável em todos os almoços desta localidade.

Outra iguaria de igual valor nutritivo e de sabor delicioso é o presunto de Castro Laboreiro e de Fiães, utilizado frio, partido em finas lascas, fritado ou cozido, acompanhado sempre da deliciosa batata de Castro Laboreiro e do seu pão centeio, cozido nos célebres fornos comunitários desta linda e histórica freguesia.

Qual o motivo deste presunto ser o mais saboroso e melhor deste País? Em primeiro lugar tem um papel importante o clima, no qual o porco é criado e a sua alimentação, constituída pela farinha centeia e deliciosa batata desta região castreja. Concorrem também para esta excelente qualidade o frio intenso, que se faz sentir nestas elevadas paisagens e o fumo da giesta, do piorno e da urze, com o qual é curado e fumado.

Não esgotei o que pretendia dizer. Oxalá que as preciosas receitas da Culinária Melgacense, agora pela primeira vez reunidas num Caderno do Pelouro da Cultura da Câmara Municipal de Melgaço, possa concorrer para o melhor conhecimento desta linda terra e torná-la mais visitada, são os meus ardentes votos.

 

Castro Laboreiro, 17 de Junho de 1986

(Padre Aníbal Rodrigues)

 

 

MANJARES DA NOSSA TERRA

 

Autor: vários

 

Edição: Cadernos da Câmara Municipal de Melgaço nº 4

             Serviços Culturais

             CÂMARA MUNICIPAL DE MELGAÇO

 

1987

 


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Sábado, 18 de Novembro de 2017

OS PRESUNTOS DE MELGAÇO

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NOITES DE INSOMNIA, OFFERECIDAS A QUEM NÃO PODE DORMIR

 

 

- Os pobres aceitam, não escolhem – disse Álvaro.

- Mau! – replicou José Maria Guimarães – Mau! Ou bem que somos francos um com o outro, ou não temos nada feito. Eu cá sou assim!

- Então quer v.srª…

- Deixemo-nos de senhorias. Eu sou filho de um almocreve, e neto e bisneto de burriqueiros; e o snr. Álvaro Pacheco é descendente de capitães-mores a quem meus avós traziam presuntos de Melgaço nas suas recovas de machos. Deixemo-nos de senhorias. Vamos à questão. Onde quer a sua casa.

 

de: Camillo Castello Branco

 

Livraria Internacional de Ernesto Chardron

 

Retirado de: http://www.gutenberg.org/files/25114/25114-8.txt

 

 

José Augusto Vieira, em 1886 dizia sobre o Presunto de Melgaço “(…) O Presunto de Melgaço! Que epopeia seria nacessária para descrever-lhe o paladar fino e delicado, o aroma gratíssimo, a cor rosa escarlate, a frescura viçosa da fibra (…) Houvera-o provado Brillat-Savarin (…) e a sua Physiologia do gosto teria hoje de certo o mais soculento e o mais brilhante de todos os seus capítulos! Alimento sólido e forte, puxavante do verde, (…) o Presunto de Melgaço, conhecido em todo o país é por assim dizer a syntese da phisiologia local. Válido, robusto, ágil, com o sangue puro bem oxygenado a estalar-lhe nas bochechas rosadas, o melgacense genuíno destaca-se dos habitantes dos outros concelhos próximos, a ponto de ser entre estes vulgar a phrase de : - Ter a cara do Presunto de Melgaço . quando se  falla de alguem com as boas cores de saúde (…) Mais à frente, quando se referia à freguesia de Fiães dizia “O presunto, aquele magnífico Presunto de Melgaço, cujas deliciosas qualidades te descrevi, leitor amigo, é especialmente curado em Fiães, onde o preparam sem sal, receita talvez d’algum monge epicurista, que a graves lucubrações se entregou para mimosiar o paladar delicado de qualquer D. Abade do mosteiro, ou de alguns dos príncipes ou infantes, que ali estivera de visita”.

 

Melgaço Rural

Associação de Produtores Locais

 


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Sábado, 11 de Novembro de 2017

ANIVERSÁRIO DO BLOG e O HOMEM E A TERRA

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de

MELGAÇO, DO MONTE À RIBEIRA

 

 

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O PELOURINHO DE CASTRO LABOREIRO

 

(…)

Embora Castro Laboreiro fosse erecta Vila e sede de concelho por foral concedido por D. Afonso III, em 1271, o que correspondia ao direito de pelourinho, o actual monumento, desta antiga Vila, data de 1560, tendo-lhes sido concedido novo foral por D. Manuel I em 1513. Constituído por três degraus, uma base, fuste, gola e capitel, rematado por pequena pirâmide, presidiu aos destinos desta região desde 1560 até 1860, data na qual foi apeado do seu legítimo lugar e dispersos todos os seus elementos para naquele local se construir uma casa particular. Os degraus desapareceram para sempre, não havendo possibilidade da sua recuperação. A base consegui descobri-la a fazer parte de um muro de um quinteiro. O fuste encontrei-o a servir de lintel ou padieira na chaminé da casa construída onde ele se encontrava antes de ser destruído. Preocupado com a sua restauração continuei sempre em investigações para descobrir o seu capital. Depois de numerosas pesquisas, fui encontrá-lo a servir de óculo de luz numa casa em ruínas, a uns trezentos metros do local, onde outrora se levantava este monumento. Colocado à altura de uns seis metros num muro dobrado e de alvenaria irregular, dificilmente se poderia verificar se era pertença do pelourinho ou não. Facilitou-me o seu reconhecimento o facto de ser trabalhado a pico fino e de ter a gola circular voltada para fora. Somente em 1978 me foi possível desmontá-lo do respectivo muro com o auxílio dos pedreiros reconstrutores das muralhas do Castelo. Depois do mesmo se encontrar no solo pude averiguar que era verdadeiramente o capitel do antigo pelourinho de Castro Laboreiro, pelo facto de na face interior ostentar uma gola circular com a espessura de 5 centímetros aproximadamente; e na superior um rebaixe de uns 4 centímetros, onde poisava a pirâmide que rematava este pelourinho. Não me foi possível descobrir a pequena pirâmide.

Os trabalhos de investigação para reunir os três principais elementos constitutivos desta preciosa relíquia do passado, prolongaram-se durante vinte e quatro anos. Mas como saber o estilo e forma deste pelourinho para a total identificação dos seus elementos e sua restauração?

Mercê dos trabalhos de investigação do estudante Soeiro de Carvalho no Arquivo Distrital de Viana do Castelo, conseguiu descobrir-se um esboço muito perfeito deste pelourinho, efectuado pelo sr. coronel Fernando Barreiras, em Julho de 1917, data em que fez uma visita de estudo a Castro Laboreiro; e que, servindo-se das preciosas informações de Castrejo sr. Melchior Gonçalves, que ajudara a desmontar e a destruir este antigo pelourinho em 1860, conseguiu com muita precisão representar a lápis este monumento no artístico esboço de todas as peças constitutivas do mesmo, descrevendo com bastante aproximação as respectivas medidas de cada um dos seus elementos, que acompanha este trabalho.

Foi com este referido esboço e memória descritiva de todas as peças de que este monumento constava, que consegui levar a Direcção dos Edifícios e Monumentos Nacionais do Norte a reconhecer como autênticos todos os elementos descobertos podendo assim solicitar àquela entidade a sua imediata restauração.

Quero manifestar publicamente o meu sincero agradecimento a todos os donos das propriedades urbanas, onde as peças em referência se encontravam, pela cedência voluntária das mesmas. Não posso deixar de expressar, como filho de Castro Laboreiro e humilde estudioso destes monumentos, raízes desta região, o meu eterno agradecimento aos meus estimados amigos, sr. dr. Oliveira e Silva, digníssimo Governador Civil de Viana do Castelo; ao sr. engº José Maria Moreira da Silva digníssimo Director do Parque Nacional Peneda-Gerês; ao sr. arquitecto Roberto Leão, do Planeamento do Porto; ao sr. professor Carlos Alves, digníssimo Presidente da Câmara Municipal de Melgaço, e ao sr. Adelino Esteves, digníssimo Presidente da Junta de Freguesia de Castro Laboreiro, por todo o auxílio e apoio que tiveram a bondade de me dispensar, patrocinando uns, a sua imediata restauração; e outros, além do seu contacto com as entidades responsáveis, a oferta do seu auxílio pecuniário. Bem hajam por todo o interesse que me concederam. A imediata restauração de tão belo e histórico monumento será a recompensa bem merecida de todos estes auxílios e trabalhos a bem da cultura nacional, que tão precisada anda de trabalhos de tamanha monta.

 

Castro Laboreiro, 10 de Fevereiro de 1979

Padre Aníbal Rodrigues

 

Retirado de:

http://www.gib.cm-viana-castelo.pt

 


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Sábado, 4 de Novembro de 2017

UM ALFERES DESTEMIDO

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rio minho - pintura de murteira

 

DOMINGOS GOMES DE ABREU

 

Filho legítimo de Maria Gomes de Abreu e marido Domingos da Assureira, de nº 3, foi militar brioso e valente, que numa das companhias de ordenanças da vila de Melgaço serviu com o posto de alferes desde 1675 a 1697 ou seja durante vinte e dois anos e sete meses.

Faleceu em 22 de Setembro de 1697 tendo sido nomeado um pouco antes capitão da sua companhia. A folha de serviços militares atesta a sua coragem e o seu patriotismo. É uma bonita página da história da nossa vila digna de recordar-se.

Quando em 1662 durante a Guerra da Restauração Don Baltazar Pantoja encontrou barrado o caminho de Braga no concelho de Arcos de Valdevez, aquele ilustre militar deixou o quartel de Giela e andando pelos fortes dos Pereiros e Mouriga veio parar aos montes de Lordelo aquartelando o exército em Barbeita entre Monção e o forte da Foz de Mouro; quando aí veio parar e pensou ocupar Melgaço nos começos de Outubro, o alferes Domingos Gomes de Abreu fazia parte da sua guarnição, que obrigou os inimigos a desistirem do projectado cerco, tão valorosamente pelejou.

Destemido mas prudente, corajoso mas sereno, fora o homem escolhido pelo governador da praça de Melgaço para prender Romão Valasquez, havido como traidor à coroa portuguesa e com risco da vida, nesse mesmo ano de 1661, um pouco acima do forte levantado junto da foz do rio Mouro, em vão atravessou o Minho a nado para fazer a referida prisão.

Em 1662 bateu-se com o inimigo no lugar de Valadares nuns paços vizinhos ao rio de S. Lourenço e atravessando outra vez o Minho, já na Galiza, perseguindo-o por entre penhascos até o render, aí prendeu o capitão João Esteves, outro traidor a Portugal.

O seu brio, porém, andava ferido pelas proezas de Romão Valasquez e, por isso no ano seguinte, para o colher às mãos, fez-lhe uma emboscada junto ao forte da Ponte do Mouro e sendo o primeiro que o avistou, sobre ele correu até ao rio Mouro, em cujas águas Valasquez se afogou.

Em seguida foi à Galiza, ao lugar de Padrenda, tomar língua de uma tropa de cavalos, conseguindo trazer consigo três soldados com montadas e armas e ao lugar de Queirão, a cujo saque assistiu e onde, no ano seguinte, 1664, pelejou valentemente.

Foi como mercê por estes serviços, que seu filho primogénito recebeu o hábito de Cristo em 28 de Agosto de 1698.

Casou com D. Francisca Coelho, viúva de Jerónimo Teixeira e filha de Francisco da Rosa e esposa D. Maria Coelho, naturais da vila de Melgaço, neta materna de Gonçalo Afonso Coelho e de sua esposa D. Violante Novais, também oriundos desta vila.

Gonçalo Afonso Coelho e Francisco da Rosa exerceram no termo altas funções como vereadores da Câmara e juízes mais velhos pela ordenação fazendo também parte de algumas mesas da Santa Casa da Misericórdia de Melgaço.

 

O MEU LIVRO DAS GERAÇÕES MELGACENSES

Volume I

Augusto César Esteves

Edição da Nora do Autor

Melgaço

1989

pp. 65-66

 


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Sábado, 28 de Outubro de 2017

VIL PERSEGUIÇÃO A UM ADVOGADO POR UM DELEGADO DO M. PÚBLICO

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DURAS REALIDADES

 

Devido a vil e selvática perseguição que me moveu um incrível Delegado do Ministério Público foram terríveis em sofrimentos os três últimos anos, para mim e para os Meus.

Durante a desatinada perseguição fui vexado, depois preso, cometendo-se sórdidos e imperdoáveis abusos.

Minha Mulher, meu Filho, meu Irmão e meus Cunhados, com grande coragem e amizade, viveram intensamente os meus desgostos.

Minha saudosa Mãe, idosa, depois que soube da prisão, apenas me pediu que não mais repousasse, até perfeito esclarecimento do caso e castigo dos perseguidores.

Ela que tanto apreciava a conversa, nunca mais falou.

Seis horas antes da morte, fez extraordinários esforços para me dizer qualquer coisa.

Já não podia falar.

Percebi que me queria repetir a sua recomendação.

 

É do conhecimento de toda a gente que todos quantos trabalham na Justiça têm muitos inimigos.

O bandido nunca mais pode perdoar ao Advogado acusador e ao Juiz que o condenou.

Mais:

É sabido que quando o Advogado recebe procuração para qualquer causa, a parte contrária fica zangada.

Esta falta de compreensão é, infelizmente, quase geral.

Inimigos ocultos, a quem sómente a cobardia faz encolher as garras, vivem agachados.

Se encontram momento para, impunemente, cevar os seus instintos, surgem, então, rugidores.

Um grande e humaníssimo Juiz de Direito, o saudoso Doutor Eduardo Marques Correia Simões, arrebatado pela morte no melhor da sua vida e carreira tinha condenado um bandido numa pena insignificante.

Quando este soube do seu falecimento, atreveu-se a bolsar infâmias contra o grande e bondoso Magistrado, calando-se logo, por ser obrigado a fazê-lo.

Cobardias deste quilate são vulgaridade.

 

Há poucos meses, no decurso de um julgamento em Tribunal de Lisboa, um Advogado foi acometido de súbita e fulminante doença.

Quando a parte contrária se apercebeu de que tinha morrido, despejou esta frase: »Bem feito».

Eu, Advogado nesta Comarca há muitos anos, tenho, como não podia deixar de ser, quem me deteste.

E não são, apenas, aqueles, a quem um dia, no cumprimento do dever profissional tivesse atacado.

Além desses há a horda dos invejosos, a pulular neste meio.

E o ódio que assenta as suas raízes na inveja é feroz.

Logo que se soube da minha prisão, deslocou-se para junto de minha casa um mulherão disforme, autêntico saco de fezes, postando-se, na ponta dos pés - uns pés fenomenais -, para ver sair minha mulher, mostrando satânica alegria na caraça hedionda.

 

Mas nem tudo é mau neste mundo.

Afinal, toda a moeda tem o seu reverso.

O vulcão, que faz cuspir a porcaria da lava, descobre, tantas vezes, preciosidades sem valor, que a Terra esconde no seu seio.

Assim nos grandes infortúnios surgem os Amigos de todas as horas, tão bons como nossos irmãos; aparecem as almas bem formadas, que expontânea e veementemente se revoltam contra as infâmias; pessoas de relações cortadas connosco tomam atitudes reveladoras de carácteres de eleição.

Se não fora o mal irreparável que os grandes infortúnios causam à vida dos Nossos e também à nossa, cifravam-se, afinal, num bem.

Ficamos a ver mais claro nesta coisa escura que é a vida social.

 

VIL PERSEGUIÇÃO A UM ADVOGADO POR UM DELEGADO DO M. PÚBLICO

 

José Joaquim de Abreu

Edição do Autor

1955

pp. 5-7

 

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dr. josé joaquim de abreu 

 


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Sábado, 21 de Outubro de 2017

UM DE CAÇADEIRA E OUTRO DE CACETE

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CORREIO DE MELGAÇO Nº 149, DE 16/5/1915

 

Um meliante qualquer, de Paderne, do qual não se sabe o nome, que trabalha há tempos em Espanha, roubou, a 14/5/1915, a Manuel José Fernandes, proprietário de Alvaredo, um redeiro, que aquele cidadão tinha a secar perto do rio Minho. Preso, com o objecto roubado, foi conduzido a esta Vila por dois cabos de polícia, daquela freguesia, um armado com espingarda caçadeira e o outro munido de um bom cacete. O atrevido gatuno, porém, ao chegar a Galvão de Cima, perto da Vila, deu ás de Vila Diogo, deixando os representantes da autoridade de cara… à banda! O cabo da polícia que trazia a arma caçadeira ainda deu ao gatilho por duas vezes, mas… cruel decepção! a arma era velha e para maior infelicidade estava descarregada, não podendo fazer fogo sobre o gatuno que – auxiliado pelas rijas gâmbias – atravessou campos e o regato de Prado, pondo-se em bom lugar. Os seus perseguidores ainda tentaram procurá-lo pelos campos de centeio, mas em vão o fizeram, pois não o viram mais. Resolveram então vir contar o caso ao administrador do concelho e fazer-lhe entrega da rede roubada, que o meliante tinha deixado como recordação.

 

 

CORREIO DE MELGAÇO, 14/12/1916

 

Na noite de quinta-feira, 14/12/1916, foram lançadas duas bombas, uma à porta da estação telégrafo-postal e administração do concelho, outra à porta de casa da residência do administrador do concelho.

Foi, sob prisão, à administração do concelho, Manuel José Fernandes, por se suspeitar que estivesse ligado ao atentado de 14/12/1916 contra o administrador Joaquim de Sousa Alves; voltou para casa horas depois.

 

 

Retirado de:

                  Dicionário Enciclopédico de Melgaço

                  Volume I

                  Joaquim A. Rocha

                  Edição do autor

                  2009

                  p.227

 

Joaquim A. Rocha é o editor do blog Melgaço, Minha Terra

 

 


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Sábado, 14 de Outubro de 2017

MESTRE MORAIS

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MANUEL RODRIGUES DE MORAIS

 

Conhecido e admirado na nossa terra como «Mestre Morais», Manuel Rodrigues de Morais era um amante da música: aprendeu-a, cultivou-a, amou-a, e deixou discípulos e admiradores.

Nos grandes acontecimentos locais, fossem festivos, fossem lutuosos, estamos a ver a Banda dos Bombeiros Voluntários de Melgaço, a desfilar garbosa ou em passo cadenciado em marchas fúnebres com que se associava às lágrimas de familiares que choravam os seus, ou dos amigos que sentiam a perda de alguém que estimavam.

Era de porte austero e solene, e sabia ensinar os seus colaboradores musicais.

Mestre Morais deu glória à sua terra e levou o nome de Melgaço a terras longínquas de Portugal.

Manuel Rodrigues de Morais, filho de João Lúcio de Rodrigues de Morais e de Maria Basteiro, nasceu em Golães, Paderne, no ano de 1890.

Até aos 18 anos, frequentou a Casa Maria Pia, em Lisboa, onde aprendeu música e tirou o curso comercial e com essa idade ingressou, voluntário, no Exército, chegando, como músico, ao posto de sargento. Mais tarde foi para a Marinha de Guerra, sendo promovido a 1º sargento.

Quando a marinha homenageou Gago Coutinho e Sacadura Cabral, foi ao Brasil.

Em serviço, esteve, durante alguns anos, em Lourenço Marques e ainda na América do Norte.

Tirou o curso de violino no Conservatório de Música.

Reformou-se e regressou a Melgaço, tendo vivido até à morte no lugar de Bacelos, em Paderne.

Na terra natal, deu à mesma o concurso do seu talento e do seu amor bairrista: refundou, ensaiou, e regeu a Banda dos Bombeiros Voluntários, que tanta glória deu à nossa terra e muito concorreu para a formação musical de verdadeiros artistas.

O resto da vida passou-o na sua casa de Bacelos, onde faleceu a 3 de Maio de 1971, e donde assistiu desgostoso à morte da sua querida Banda, lamentando-se do abandono a que a Direcção dos Bombeiros a votara e, ainda, do desrespeito e da indisciplina de alguns músicos.

 

P.e Júlio Apresenta: Mário

P.e Júlio Vaz

Edição do Autor

1996

pp. 295-296

 


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Sábado, 7 de Outubro de 2017

VIDA E MORTE DE TOMÁS JOAQUIM

moinho, lamas

 

TOMÁS DAS QUINGOSTAS

 

Na noite de 17 para 18 de Fevereiro de 1827, o Tomás das Quingostas e seus sequazes assaltaram a residência do reverendo Manuel José Esteves, na Cela de Cousso, donde roubaram toda a mobília e outros objectos pertencentes ao comerciante da Vila de Melgaço, Francisco José Pereira, que o mesmo tinha ali a guardar. E para que a razia não fosse completa, aquele sacerdote foi constrangido a dar ao dito Tomás a quantia de 34$080 reis em moeda corrente.

Em 12 de Maio de 1828, Tomás Joaquim Codeço, o famigerado Tomás das Quingostas, apresentou-se, na Vila, no estabelecimento de Francisco José Pereira, do Campo da Feira, compelindo-o a que lhe desse da sua loja dinheiro e determinadas mercadorias, ao que aquele comerciante de bom ou mau grado, teve de aceder. Embora sem provas, tenho para mim que entre aquele comerciante e Tomás das Quingostas devem ter existido as melhores boas relações… e isto cá por contas.

Em 25 de Fevereiro de 1836, o dito Tomás das Quingostas mandou um seu «emissário» à Vila, ao estabelecimento do tal Francisco José Pereira, com «credenciais» intimativas para este comerciante lhe remeter cinco côvados de baeta o qual, por não ter na sua loja, foi obrigado a comprar algures para assim satisfazer o pedido de Sua Ex.ª o «Leão das Montanhas».

Em 7 de Maio de 1836, o Tomás das Quingostas apresentou-se em Real, em casa do cirurgião Manuel José de Caldas e exigiu-lhe a entrega de setenta e dois alqueires de milho e, como aquele físico tantos não tinha em casa, levou-lhe o rol das avenças e foi cobrar a maior parte do cereal à casa dos próprios fregueses.

Em 11 de Julho de 1837, o Tomás das Quingostas e sua quadrilha, encontrando-se na romaria de São Bento do Cando, foram aqui surpreendidos e perseguidos pela força pública, deixando na fuga vários objectos e um cavalo que lhes foram apreendidos.

Em 9 de Junho de 1838, o juiz de paz e órfãos no círculo das freguesias de S. Paio, Vila e suas anexas, Joaquim Tomás Correia Pimenta Feijó, da Casa e Quinta da Cordeira, convocou ao cirurgião de Real, Manuel José de Caldas, e a Tomás Joaquim Codeço – o famigerado Tomás das Quingostas – ambos da referida freguesia de S. Paio, para comparecerem em sua casa, a fim de os conciliar sobre certos diferendos que entre ambos havia. O cirurgião, certamente por medo, não compareceu a esta citação, pelo que a causa em questão subiu ao tribunal, mas cujo desfecho ignoro.

Em 17 de Outubro de 1838 o cirurgião de Real, Manuel José de Caldas, foi compelido a entregar a Caetano Manuel Meleiro, da Granja, uma clavina avaliada em 5$000 reis para ser entregue a Tomás das Quingostas.

Em 7 de Setembro de 1838, na romaria da Peneda, numa desordem, motivada ao que parece por uma questão de «cães e rapazes», Tomás Joaquim Codeço, o famigerado Tomás das Quingostas, matou com um tiro de clavina Joaquim Cerqueira, o «Amarelo», da Gavieira, um dos melhores jogadores de pau do seu tempo. Esta desordem começou em frente da antiga capela, que ficava mais ou menos, ao centro do actual terreiro, e terminou no sítio que hoje denominamos Largo do Pretório, onde o valente João Amarelo foi assassinado.

Ninguém se pôde chegar ao pé da vítima. Somente à viúva e aos filhos da mesma o Tomás consentiu que velassem o cadáver até ao dia seguinte, em que foi enterrado no próprio local do crime.

Diz o Evangelho (Mat. XXVI-52) quem a ferro mata a ferro morre. É uma verdade.

De facto, menos de cinco meses depois, o Tomás foi também assassinado, a tiro, na Ponte de Alote, pela escolta militar que antes o capturara no estabelecimento de Policarpo José de Fontes, do lugar do Cruzeiro.

A título de curiosidade acrescentarei que há dois anos ainda viviam na Gavieira dois bisnetos do tal João Amarelo: o Manuel Alves Cerqueira, de 82 anos, e o primo deste, Manuel Vieites, de 74 anos.

E em 30 de Janeiro de 1839, quando Tomás Joaquim Codeço, o famigerado Tomás das Quingostas, se encontrava a cavaquear no estabelecimento dum vizinho de nome Policarpo foi surpreendido por inesperada escolta militar que ia para o capturar. Dizem que o Tomás ainda tentou fugir trepando por um alçapão que dava para o primeiro andar; mas os militares agarraram-no pelas pernas, cortaram-lhe os suspensórios e assim o levaram. Também dizem que ao chegar à Ponte de Alote o prisioneiro exclamou: - «foi ali que eu pratiquei o primeiro crime» e ao mesmo tempo voltou-se bruscamente pisando os calos a uma praça da escolta. Não foi preciso mais nada. O comandante não esteve com meias medidas: - Mandou-o fuzilar, perdão, mandou-o assassinar à queima-roupa.

Foi sepultado nas traseiras da capelinha de S. Bento da Barata.

 

P. Júlio Apresenta Mário

P. Júlio Vaz

Edição do autor

1996

pp. 252 a 254

 


publicado por melgaçodomonteàribeira às 01:00
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