Sábado, 17 de Fevereiro de 2018

Fragmentos de vidas raianas, 1978 a 1981 - IV

 

 

Continuação do post do 03 de fevereiro de 2018.

 

 

Uma vez chegado ao fim da ponte, fez uma curta pausa e resfolegou com ansiedade. Meio aquietado, consultou o velho Longines de pulso. Havia uns minutos que as sete e meia tinham ficado para trás, mas o Manel guiava-se sempre pela velha. Deu uma olhadela medrosa à casa situada no limite da ponte, o café-loja do Manolo.

Depois da meia hora da carreira, embora descendente, e daquela eternidade de transe e de quebranto psíquico, estava lavado da hora revigorante saboreada na tienda do Perfecto. Umas tigelas eram incontornáveis para se restabelecer.

Tanto no café como na loja, a iluminação ainda não fora extinta. Tinha horários, mas encerrava quando lhe dava na gana. Atendendo à hora incerta e tardia a que habitualmente saía da ponte, a ideia de deparar com o café fechado angustiava-o, espavoria-o. O café do Manolo era o mais chegado à sua casa e o único da Frieira da província de Ourense.

Quando se aproximou, reparou que o carrinho de mão e o moinho eléctrico – modelos que o Manolo expunha todos os dias para promover a venda – ainda estavam colados à parede do edifício. «Hoje está atrasado», pensou. Sossegado, esboçou um sorriso furtivo. Tinha tempo de se refazer sucintamente a fim de voltar à casa com serenidade. Gostava de acabar o dia assim, com remanso.

Desceu o pequeno acidente entre a estrada e o espaço cimentado existente diante do modesto prédio, e arrimou a enxada contra o banco de madeira azul, disposto do lado esquerdo da porta do café. Várias vezes consertado, aquele assento fazia parte dos raros objectos que tinham subsistido aos trespasses regulares do estabelecimento.

Com assiduidade, aos sábados de tarde, desde que aquela casa fora estruturada, as comadres da aldeia sucediam-se nele: mexericavam e perscrutavam os vizinhos portugueses que ali se deslocavam para fazer compras. Uns palmos acima do banco, uma grande vidraça deixava transparecer o interior do café.

Na sala, a uma das mesas – três, como na tienda do Perfecto, mas bastante maiores – com armadura férrea e tampo de fórmica avermelhada, estava sentada a Maribel, esposa do Manolo. Não havia mais ninguém.

Como era sua usança familiar, cumprimentou a patroa com um canoro «Muito boa tarde, minha senhora!» A mulher não respondeu nem desviou os grandes olhos pretos da astronómica televisão, instalada à direita da porta. Não estava ali. De cabeça erguida, devorava abstractamente o ecrã que expelia uma imagem alterada e estremecida.

Para captar a melhor imagem fazível – a Frieira ficava numa aba –, tiveram de posicionar o televisor no ângulo de duas paredes, colado ao forro, o que, inicialmente, suscitou uns consequentes problemas de adaptação às cervicais dos mirones mais fervorosos.

A Maribel estava imersa na segunda telenovela do dia, o refúgio idílico das donas-de-casa ociosas, insatisfeitas. Nas mãos, um saquinho de pipas – sementes de girassol – que ia decorticando e mastigando como um autómato, atirando descaradamente com as cascas para o chão.

Mesmo num meio conformista como aquele, as telenovelas subornavam e colonizavam os espíritos femininos mais pueris e romanescos. Algumas mulheres, as mais sortudas financeiramente, tinham um televisor, apesar de a imagem não ser fenomenal. Durante as longas horas de claustro caseiro em que tinham de fazer avalanchas de tarefas enfadonhas, valiam-ses destes folhetins sentimentais – nos quais umas se urdiam bucolicamente e outras, em parte, até se identificavam – como um subterfúgio analéptico.

Indolente, o Manel dirigiu-se para o balcão, pouco mais curto do que o comprimento do bar.

— Mais um dia, não, Manel? – saudou-o alegremente o dono do café.

Surgira de trás da cortina que fazia ofício de porta entre o café e uma pequena cozinha, a partir da qual – e do mesmo jeito – podia alcançar a loja, de onde viera. A irrupção de uma pessoa, como qualquer outro facto circundante, não escapava aos seus sentidos atentivos, estivesse num ou noutro lado. 

O Manel, cordial, sorriu-lhe, descalçando os dentes denegridos. Lerdamente, apoiou o cotovelo esquerdo por cima do balcão, afectando interessar-se pelo que o titânico televisor difundia.

A animosidade que enfrentava ao passar sobre o rio amputava-lhe qualquer desejo de cavaquear durante uns quantos minutos. Era-lhe primordial revivificar-se. O Manolo não estranhava e havia muito que deixara de puxar conversa. Conhecia-o bem e cedia a seu bel-prazer ao particularismo do Manel.

Não teve de pedir. Como de costume, encheu-lhe a tigela de tinto e sumiu-se por de trás da cortina.

Molhou o bico, e as papilas, como por magia, horripilaram-se intuitivamente. Ainda que não houvesse mais clientes no bar, como pessoa atenciosa que se orgulhava de ser, fez, com recato, um ignóbil trejeito. O vinho que o Manolo vendia havia umas semanas deixava um intenso sabor avinagrado no gasganete. «É criminal», lamuriou-se sub-repticiamente pela centésima vez. Portanto, tinha muitos adeptos, e ele sabia por quê: era uma pinga capitosa como poucas vezes bebera, da qual meia dúzia de tigelas punham qualquer homem cargado – ébrio – durante umas horas. Por isso, todos lhe perdoavam o agressivo paladar.

Não se podia comparar minimamente com o vinho da tienda do Perfecto que, indubitável ambrosia, quanto mais bebia, mais o corpo adjurava que lhe desse. Para ele, essa é que era a boa pinga. Por muito que ingerisse – e só Deus se inteirava dos seus excessos –, tinha a impressão de permanecer sóbrio.

Interpelado pelos vivos protestos de uma voz feminina, alteou o olhar para a televisão, mas foi incapaz de distinguir o que quer que fosse. Habitava-o uma antipatia paroxísmica por este chisme – objecto inútil.

Nunca se comovera com estas incrédulas absurdidades, nem se sentia concernido pelas figurações idiotas, ridículas, sofisticadas e irreais que ali faziam desfilar todos os dias. Era um mundo tão discordante, tão esparso e afastado do seu e do da gente com a qual convivia... O pouco que, de modo estocástico, fora vendo naquele ecrã apenas concorrera para o confortar nas suas predilecções.

«Aplicam-se a meter-nos os dedos nos olhos. E há quem caia nela. A história é sempre a mesma. Tolices!», sentenciava.

 

Continua.

 


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Sábado, 10 de Fevereiro de 2018

O VASCO, O MANEL E A CENTRAL DE MELGAÇO

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manuel f. igrejas

 

O ANTIGAMENTE

 

Nos anos quarenta do século passado, como meu primeiro emprego foi ser ajudante do Vasco, na Central. O Despacho Central de Melgaço ficava no térreo da casa das senhoras Teixeiras, ao lado da caneja da Fonte da Vila. O meu pai queria fazer de mim alfaiate como fez com meus irmãos, mas o Dr. Sá, que cuidara da minha tuberculose e reconheceu que não foram tanto os remédios que me curaram… convenceu o Augusto do Félix a não me fazer alfaiate que sobrecarregava muito o peito. Uma profissão ao ar livre, talvez lavrador, seria o ideal. Gostei de não ser alfaiate mas não gostei da ideia de agricultor, ainda bem que meu pai não tinha terrenos. Como já estava espigadote não ficava bem andar vagabundando. O Bino do João Lima fora demitido do cargo de ajudante do Vasco. O Augusto do Félix pediu a intervenção do Dr. Suíça (Esteves) vizinho e amigo, para pleitear do Sr. Teixeira o cargo para o seu Manelzinho.

Antes do Vasco quem gerenciou a Central foi um tal Vieira, cidadão forasteiro indicado pela CP (Companhia Portuguesa de Caminhos de Ferro) a que a Central estava ligada. Este Vieira, além daquele departamento de despacho e recebimento de mercadorias, assumiu a Pensão que anteriormente fora Vila Verde, ali na Calçada em frente à barbearia do João do Gabriel, e mais tarde foi do Zeca da Pureza (o Estica). Quem administrava a Pensão era uma irmã do Vieira, matrona rechonchuda, o tipo de beleza que os papalvos apreciavam naquela época, acho que solteira pois aceitava a corte dos mancebos que a bajulavam e lhe ofereciam presentes. Alguns casados que a título de ir beber uma pinguinha na taberna da Pensão, passavam os fins de tarde naquelas reuniões. Um primo nosso, casado e com filhos, ia todas as tardes ao sair do trabalho, penteado e perfumado para a Pensão. Mais tarde gabou-se que lhe oferecera umas meias e lhas calçara.

O Sr. Teixeira, co-proprietário da Auto Viação Melgaço Lda., atacadista de mercadorias com galpão no largo da Calçada que chamávamos garagem, também era o responsável pela Central, autorizou a minha admissão. O Vasco gostou pois conhecia-me muito bem. Éramos vizinhos com as casas geminadas. Aliás, essas casas tinham sido uma única vivenda em época anterior. Então fui ser ajudante na Central sem ganhar coisa alguma. Naquela época quem se iniciava numa profissão ou comércio, trabalhava de graça, às vezes por anos. Além de não ter vencimento ainda ganhava raspanetes bem ásperos. O Sr. Teixeira aparecia de surpresa e reclamava por a Central estar desarrumada e sem varrer. Foi aí que percebi que além da parte burocrática também tinha de varrer. Mas não o fazia, os rapazes que perambulavam por ali na expectativa da chegada da camioneta que de Monção trazia as mercadorias, iam comunicar aos comerciantes destinatários que lhes davam uns tostões para as transportarem após desembaraçadas, varriam por mim a troco de lhe indicar de quem eram as mercadorias. Quem mais varreu foi o Álvaro da Conceição (Facadas) e o Manel da Rosa Nabeiro que até hoje agradeço.

Após algumas semanas estava senhor de todo o serviço da Central, pois o Vasco que iniciava o romance com a Biti, ausentava-se várias vezes ao dia e eu ainda tinha de mentir caso o Sr. Teixeira aparecesse dizendo que fora resolver na Câmara, assunto da Central. De tal modo conhecia todos os trâmites do serviço que fiquei sozinho com toda a responsabilidade quando o Vasco adoeceu por alguns meses, e nessa altura apareceu um fiscal da CP para avaliar o funcionamento daquele departamento que elogiou o meu desempenho. E eu continuando com o mesmo salário: nenhum! Naquele tempo como por certo todos os tempos, quem se prevalece do trabalho gratuito de alguém, será muito ingénuo não pensar que o ajudante gracioso não irá tirar proveito doutra maneira. O Vasco que não devia ganhar muito bem fazia pequenas trapalhadas com as mercadorias. Eu aprendi. Quando fiquei responsável pela Central fui abordado sigilosamente por um comerciante conhecido que disse, antes da minha actuação, terem-lhe violado uma encomenda de sapatos. No trajecto do comboio e na estação de Monção era frequente o sumiço de parte das mercadorias. A propósito, uma tarde o Pianho ajudante avulso na mecânica das camionetas, apareceu na Central procurando faca ou objecto cortante, que cheirava. Não achou nada que incriminasse. Esclareceu que investigava quem comeu meio queijo do Reino, aquele feito bola vermelha, que faltou numa encomenda. Mais tarde o motorista e o ajudante da camioneta gabaram-se que tinham feito uma merenda e tanto.

O comerciante em questão propôs fazer uma grande encomenda de calçado sob seguro e quando chegasse eu assinava a guia atestando a violação e a falta de vários pares de sapatos que o seguro iria cobrir, em troca ele dava-me um par de sapatos novos. Mas é claro que aceitei! Quando fui reclamar os meus sapatos quis-me dar um par encalhado que eu não gostei. Escolhi uns de camurça, os melhores que tinha na loja. Relutou mas dizendo-lhe que ou aqueles ou não queria nenhum, acabou cedendo.

Quando calcei aqueles sapatos a primeira vez o meu pai observou: estás calçando sapatos melhores que o teu patrão. Patrão simbolicamente pois não me pagava nada!

Mas este antigamente todo é para recordar alguns dos muitos ensinamentos da vida que o Vasco me passou. Um dia chamou-me a atenção para o seguinte: “já reparaste, Manel, que a nossa terra é puta mãe e boa madrasta?” E passamos o resto daquele dia enumerando os forasteiros que se radicaram em Melgaço e se deram bem: Até fizeram fortuna!

 

Rio, Abril de 2012

Manuel Igrejas

 

Publicado em: A Voz de Melgaço

 


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Sábado, 3 de Fevereiro de 2018

Fragmentos de vidas raianas, 1978 a 1981 - III

 

 

Continuação do post do 20 de janeiro de 2018.

 

 

Com a pesada enxada ao ombro, o passo abúlico e o olhar fixado em permanência na outra margem como se estisesse a auto-hipnotizar-se, decidiu, mais uma vez, fazer face à dramática travessia da extensa ponte pelo centro, o modo menos aflitivo para ele. Como mais alguns, não se servia dos passeios laterais, protegidos por barreiras metálicas, como justamente recomenda o bom senso.

Uma quinzena de metros abaixo da ponte, a água do rio fronteira golpeava com fragor tudo o que se empenhava em dirimir o seu galope. Esporeado pela brutalidade da água que duas comportas liberavam constantemente, evadia-se da omnipotência da represa. Numa luta perpétua, assediava os escolhos abundantes e os calhaus que o flanqueavam. Estes infindáveis blocos pétreos dimanavam das explosões impostas pelas fundações do açude. Passado este bulício, as águas do rio perseguiam o seu caminho murmurando.

O vácuo assustador entre a ponte e o dilúvio de água, assim como a barulheira retumbante, provocavam-lhe vágados abomináveis. As tigelas de vinho deglutidas frequentemente depois do trabalho acentuavam-lhe rudemente o terrível sentimento de pânico.

Quando, por causas laborais, era obrigado a mudar de margem, só assentia por mérito do lavrador ou se não tivesse outra alternativa.

Este suplício era escamoteado com a mais peremptória cupidez por ele. Ninguém, rigorosamente ninguém, estava ao corrente da sua incapacitante fobia. Era um problema de amor-próprio, de ufania. Não queria, de modo nenhum, ser a risada dos outros. Fazia parte dos inconfessáveis segredos que o laceravam.

Embora não fosse com desopilante prazer, havia quatros dias que trabalhava para um casal de lavradores do Freixo. A primeira vez fora há meia dúzia de anos, quando as rugas os tolhera de assegurar a lida dos terrenos e das cepas. Os três herdeiros da parelha viviam na Suiça e esperavam regressar um dia. Entretanto...

O Freixo era um lugar próspero e gracioso da margem direita. Ficava a nordeste da Frieira, sito a meio do monte cuja falda o Manel descera. As habitações – decalque das dos países onde os mais jovens ganhavam a vida –, ressuscitadas ou construídas com os haveres vindos de fora, espelhavam o prestígio dos seus donos.

As parreiras acompanhavam os contornos dos campos, hortados com subtileza, que gozavam de uma exposição solar privilegiada. Esta prerrogativa fazia com que as suas vides produzissem uma uva cujo néctar dava vida a uns vinhos – branco e tinto – inqualificáveis, mas de uma qualidade extra. Apadrinhavam maravilhosamente os peixes nobres do rio e o fumeiro local. Estes produtos, cuja reputação excedera os confins do concelho, faziam a vanidade dos seus habitantes.

O Manel só tinha boas razões para anuir ao trabalho dos idosos lavradores. Com amenidade, preparavam-lhe uma alimentação a seu gosto, sápida e em quantidade mais do que correcta. No entanto, como o conheciam e eram pessoas de incontestável sensatez, acautelavam-se delicadamente na bebida, a fim de prevenir repercussões que se fariam, talvez, reverberar na actividade ou, mesmo, quem sabe, nas relações pessoais.

Por sorte, depois de terminado o dia de labor, tinha à mão onde afogar a sua sofreguidão cíclica. No coração do lugar, o Perfecto, um viúvo de oitenta e dois anos, proprietário da única tienda – loja – da aldeia, ostentava, no andar térreo da sua casa, uma pinga caseira de prodigiosa categoria. Três mesas quadradas, cheias de laivos de vinho tinto e de queimadelas de pitillos – cigarros –, doze cadeiras e um balcão obsoleto – tudo de madeira avelhantada –, mobilavam o negócio.

Havia muito que o Perfecto apenas vendia produtos vitais, de última hora, para a alimentação; o pouco que os habitantes do Freixo compravam faziam-no num verdadeiro comércio. Mas, para o Perfecto, a tienda e ele faziam um.

As paredes do seu comércio estavam, quase na totalidade, revestidas de amplos programas anunciadores da festa de San Roque e da  Romaria do Cruceiro Quebrado, as duas manifestações festivas que, anualmente,  faziam trepidar o lugar. O mais antigo, como muitos outros, descorado e amarelecido como uma bola de unto rançoso, datava de mil novecentos e trinta e três e publicitava a Romaria do Cruceiro Quebrado, celebrada o primeiro domingo de Julho. Nesse ano, calhara o dia dois.

Naquela sala grotesca, reuniam-se quotidianamente os mais ancianos do lugar. Num ou noutro programa, todos eles viam e reviviam instantes folgazões, lascivos e imortais da sua vida. Era um passado que os cingia, que os acaparava e ao qual se agarravam jovialmente; um passado catequizado todos os dias num presente artificioso, que lhes ciciava, mudamente, que o futuro se ia reduzindo à medida que o tempo escoado se estirava.

Por turnos e com buliço, jogavam às cartas, o passatempo popular ao qual se consagrava a pluralidade dos galegos. Para eles, o jogo era um rito que veneravam. Para o Perfecto, que os exortava e se presumia numa arena, era o meio de dar vida ao dia, de testilhar a derrelicção.   

Os jogadores, fitando-se, acatavam fielmente o mutismo durante a partida, mas, uma vez perfeita, a tradicional algazarra de críticas e de regozijo rebentava. O folclore associado tinha muita mais importância para eles do que o jogo.

Para os espectadores esporádicos, como o Manel, esgotados pelo estafante trabalho da lavoura, este cenário equivalia a uma relaxação revulsória. Encostado ao sumário balcão, sem que ninguém lhe prestasse atenção, seguia, religiosamente, aquela brincadeira com franca satisfação. Achava-lhes muita piada. Dizia que eram castiços, dicção que propalava as suas raízes forâneas. Enquanto ia esvaziando tigelas e mordiscando azeitonas saídas dum molho generosamente apimentado, contorcia pouco a pouco o músculo risório. Radioso, externava inocentemente uns dentes cheios de sarro e num estado avançado de apodrecimento.

Era um homem superficial que fazia tudo para não complicar a humilde vida. «Como não sabemos o que vamos descobrir mais tarde, acho que o melhor é não nos apoquentarmos com isto», gostava de filosofar.

Um dito insulso punha-o a rir até se mijar. Acomodava-se perfeitamente com coisas simplistas, como ele, como tudo o que tinha conseguido discernir até ali; com o dia-a-dia que, frivolamente, se tinha modelado e com o qual se contentava plenamente. O Manel era, à sua maneira, um homem feliz, um homem para quem um dia chuvoso era sempre ensolarado.

 

Continua.

 


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Sábado, 27 de Janeiro de 2018

VOLTA A PORTUGAL

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VOLTA A PORTUGAL

 

De bicicleta ou no Google Earth, dar voltas em Portugal constitui um modo de (re)conhecimento perfeito para preencher curiosidades ou estranhamentos acerca da exótica geografia da terra dos portugueses. Dizem-nos e demonstram-no de maneira variada que tal terra existe mesmo; que tem uma certidão de nascimento, um corpo, uma alma, uma identidade. Não tem nem tem de ter. Muito se insistiu no Portugal dos marinheiros, dos fados, da bola no jardim à beira-mar plantado – um território, o nevoeiro dos antepassados, os mitos, o império, a língua, a saudade e a ruína, aquele que os deuses amam e visitam, o bom povo cosmopolita ou burro de trabalho repartido pelo mundo. Pode ser tudo isso e muito mais e mudar no dia a seguir ou perder-se no caminho; pode dar um execrável programa na televisão, um elaboradíssimo ensaio, um solene discurso patriótico ou uma frenática crepitação nas redes sociais.

Se existe, pode-se-lhe tirar o retrato, variar a pose e os humores do seu território, a sua casa comum. É um caleidoscópio dos cumes do Pico ou da Estrela até aos lodos da ria que é formosa. Não há como congelar tudo numa imagem e as palavras estão cheias de ecos. Não há um fio condutor, um roteiro. Vai-se pela terra fora. Convocam-se palavras de muitas vozes e tempos. Alguma lhe servirá melhor que outras.

Fim do mundo

Foto de Álvaro Domingues

 

Álvaro Domingues (Melgaço, 1959) é Geógrafo, douturado em Geografia Humana e professor associado da Faculdade de Arquitectura da Universidade do Porto (FAUP), nos cursos de mestrado integrado e doutoramento e do curso de doutoramento Arquitectura dos Territórios Metropolitanos Contemporâneos do ISCTE, em Lisboa. É investigador do Centro de Estudos de Arquitectura e Urbanismo (CEAU-FAUP). Foi colaborador da Porto 2001, Capital Europeia da Cultura.

Entre outras obras, é autor de Território Casa Comum (com Nuno Travasso, FAUP), A Rua da Estrada (Dafne), Políticas Urbanas I e II (com Nuno Portas e João Cabral, Fundação Calouste Gulbenkian) e Cidade e Democracia (Argumentum). Publica regularmente (texto e fotografia) em jornais e revistas generalistas e especializadas e participa em conferências, exposições e eventos de divulgação científica e de performance artística, como as Quintas de Leitura. Enquanto ensaísta, interessa-se sobretudo pela metamorfose recente da sociedade e do território portugueses, um mosaico instável de fusão/tensão entre contextos de pré e pós-modernidade, de localismo e conservadorismo, mas também de cosmopolitismo e globalização. A condição tripla de geógrafo, ensaísta e fotógrafo ajustam-se particularmente a este trabalho que procura organizar evidências e sinais dessas mudanças.

 

VOLTA A PORTUGAL

Álvaro Domingues

Contraponto

1ª Edição

Novembro de 1917

 


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Sábado, 20 de Janeiro de 2018

Fragmentos de vidas raianas, 1978 a 1981 - II

 

 

Continuação do post do 06 de janeiro de 2018.

 

 

Media mais de um metro e oitenta – era conhecido pelo Manel Grande –, tinha uns ossos ricamente cobertos e uma grande e oblonga cabeça, cujo cabelo, sempre bem rapadinho, deixava sobressair umas orelhas colossais e descoladas. Durante o ano, fosse qual fosse o tempo, uma camisola interior de alças e uma camisa branca de nylon eram a única vestimenta que lhe cobria o tronco; as mangas, sempre arregaçadas, desvelavam umas veias bem irrigadas; os dois primeiros botões desapertados auspiciavam um peito firme e imberbe. Barrigudo, conformemente à maioria dos campónios da sua idade, caminhava de maneira ronceira e inabalável, com aparente pena, o que não deixava dúvidas sobre a massa bruta que era.

Imbróglios, aborrecimentos eram as coisas que ele menos procurava. Era um luxo que não se podia permitir. Primeiro, por serem termos que não faziam parte do seu temperamento deferente e pacato; segundo, e antes de tudo, por não estar documentado.

No dia já longínquo que, com a mulher, passara o regato e se estabelecera em terra alheia, fizera a promessa de nunca indispor ou prejudicar os seus anfitriões, facto que, fortuitamente, podia colocá-lo em situação embaraçosa. Viera para Espanha trabalhar e não aventurar-se, fosse no que fosse. Sempre respeitara a liberdade dos próximos e acreditava que cada qual era o julgador absoluto e imparcial dos seus actos e, consequentemente, o único imputável. Nunca se incomodara com a vida dos outros, detestava que se imiscuissem na dele e jamais tentara ilibar-se das suas responsabilidades, ainda que fossem meras futilidades. Até aquela data, felizmente, não tivera quaisquer desarmonias ou mal-entendidos notáveis com os seus semelhantes.

Honesto e trabalhador como poucos, os maiores lavradores da região rivalizavam para lograr os seus serviços durante as temporadas de azáfama. Nunca estivera um dia inactivo sem que fosse por vontade sua.

Havia muitíssimos anos que vivia na Frieira:  vinte, vinte e três, vinte e cinco. Talvez mais, talvez menos... Já não sabia, nem queria saber. Cada vez que retrocedia no tempo, o seu espírito era invadido de imediato por remembranças excruciantes.

Menosprezava a servidão, a vileza a que tivera de se sujeitar na terra natal. Tinha sido o preço a pagar para comer umas batatas insossas que nem com um fio de azeite podia condimentar, falta de meios.

A lembrança – ainda que momentânea – destes tempos obrigava-o a cerrar os punhos com força e a ranger os dentes. Era uma reacção convulsiva, de incomensurável asco. O senhorio para o qual trabalhara, pessoa despicienda que vira poucas vezes, nem a mão se dignava apertar-lhe, como se fosse uma besta, um ser sarnento. Fora um capítulo horrível da aurora da sua vida, uma submissão cobarde, abjecta que, hoje, o enojava e indignava visceralmente por ter sido tão adinâmico.

Apesar da miséria, da repugnância de que era alvo, renunciar ao único, mas mais belo pedaço de terra onde viera ao mundo, aos colegas de infância e de adolescência, tão miseráveis como ele, fora um rasgo ardente. Chegou a outra terra, mais pobre do que a sua, com outra gente, visivelmente inospitaleira; mas, como a sociabilidade e a sensibilidade são os fusíveis do nosso destino, a sua visão foi-se agudizando e o rasgo, passo a passo, colmatou-se.

O Manel, depois de dar o salto, fora contemplado com a lógica suspicácia habitual das pessoas que se desconhecem; fora, nem mais nem menos, acolhido como qualquer forasteiro que chega a uma aldeia. Graças ao seu carácter expansivo e à sua exemplaridade, não precisara de temporizar muito para que o aceitassem, para que o considerassem, para se integrar. Era como se tivesse vindo ao mundo ali.

Desde o dia que, apreensivo e desconsiderando os imprevisivos percalços, resolvera  saltar o regato, não podia dizer que a sua vida fosse tão ingrata. Não era por aí além, nem pensar, mas era certamente bem mais luminosa e copiosa do que a que até ali suportara. Continuava a ser o homem cândido que vendia a sua pujante força braçal aos agricultores, aos proprietários das melhores terras, mas ganhava para apaziguar a fome e ainda lhe sobrava. Só por olharem para ele com decência e humanismo, já se sentia realizado, embora soubesse que também era apreciado por ser uma pessoa laboriosa e prestadia.

Não deplorava, de modo nenhum, a decisão dilacerante que tivera de tomar. E, hoje, se por ventura a conjuntura o forçasse, não teria a menor hesitação em voltar a fazê-lo noutras direcções. Ficara a saber que todo ser, onde quer que tenha nascido, corre atrás das mesmas imprescindibilidades fulcrais. Para ele, o essencial era ter um pouco a fim de viver em harmonia com os demais. Não tinha inveja de ninguém, não, nem dos ricos para os quais trabalhava. «O que já tem muito e mais quer nunca será rico nem feliz. Rico e feliz é aquele a quem basta o que têm. Como eu», alegava.

O sol, cansado, do qual dois terços já se tinham ofuscado a oeste, por detrás dos montes da margem direita, arrojava os últimos clarões. Ainda que langorosos, galvanizavam poeticamente os primeiros cem metros do percurso internacional das águas do Minho que dali se descortinavam.

Nas janelas das casas esboroadas pelas duas margens do rio, já se apercebiam algumas luzes. Frouxas e pálidas, anunciavam o fim do dia de trabalho e, para quase todos, o começo da vida caseira. Para esta gente, como para toda a desta condição, onde quer que se estivesse, o tempo livre era tão escasso como algumas iguarias em cima da mesa.

O Manel era dos últimos a chegar à casa.

Deixou-se ficar inerte uns segundos e coçou energicamente a traseira do crânio com a boina sebosa; depois, ajustou-a de novo na cabeça e olhou para um e outro lado do tabuleiro da ponte, como quem quer persuadir-se de alguma coisa. Com as costas da mão polposa, limpou umas gotas de suor que lhe atapetavam a testa. «Raio de calor!», queixou-se de modo falacioso. A transpiração obstinada que, àquela hora e naquele momento, ressumbrava da parte superior do seu rosto não era originada pela temperatura ambiental, mas pela forte sensação de estresse que o assolava.

Como hoje, cada vez que se avizinhava o momento fatídico de traspassar a ponte, reproduzia, incondicionalmente, as mesmas invectivas, as mesmas gesticulações, as mesmas pantomimas. Esta iniciativa transtornava-o psiquicamente, engendrando-lhe distúrbios físicos. Homem de uma robustez extraordinária, temia, no entanto, mais este instante do que a própria morte: as mãos tremiam-lhe, o coração latejava-lhe e um pânico potente submergia-o, intrincando-lhe a respiração. Uma autêntica paranóia. Cuspiu para o chão, nauseado, e grunhiu a meia voz: «Rio do caralho!» O Manel sofria de acrofobia severa.

 

Continua.

 


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Sábado, 13 de Janeiro de 2018

PROFESSOR DOUTOR CÓNEGO JOSÉ MARQUES

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José Marques, nasceu a 12 de Agosto de 1937, em Roussas, no concelho de Melgaço. Fez a instrução primária na terra natal, seguindo os estudos no Seminário da Arquidiocese, em Braga, onde se ordenará em 1961, sendo logo chamado a exercer no Seminário Conciliar (1961-1970).

Entre (1969-1974) faz a licenciatura em História na Faculdade de Letras da Universidade do Porto, e de imediato a frequência e conclusão de curso de Bibliotecário-Arquivista na Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra (1976) e especialização como Bibliotecário-Arquivista.

Realizou provas de Doutoramento com o trabalho intitulado A Arquidiocese de Braga no século XV, em 1982, na Faculdade de Letras da Universidade do Porto, onde ascendeu a Professor Catedrático (depois das provas de agregação de 1989-90) com a Lição de Síntese, sobre a Assistência aos peregrinos no Norte de Portugal durante a Idade Média, tendo-se aposentado em 2003.

Colaborou com as Universidades Portuguesas de Coimbra, Açores, Universidade Católica de Braga (Faculdade de Filosofia e Teologia), com a Fluminense de Niterói – Rio de Janeiro Brasil, e com a Universidade de Louvain-la-Neuve.

Foi Diretor da Faculdade de Letras da Universidade do Porto (1982-1985).

Foi coordenador desde 1984 até 1998 da Revista da Faculdade de Letras, nas séries de História, Filosofia e Línguas e Literaturas Modernas.

Membro do Centro de História da Faculdade de Letras do Porto (co-fundador em 1982, da Academia Portuguesa da História (sócio de número e atual vice-presidente), do Instituto Galaico-Minhoto (também co-fundador em 1982), da Real Academia de la Historia de Madrid (sócio correspondente), das Sociedades de Estudos Medievais, portuguesa (de que é sócio fundador, 1985) e espanhola, do Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro (sócio correspondente), da Comission Internationalle de Diplomatique (membro desde Outubro 1986, seu vice-presidente em 2008) e do Comité International de Paléographie Latine (desde 1989).

Os seus Estudos Históricos fixam-se, no período da História Medieval Portuguesa, no quadro cronológico que concentra a montante e a jusante do séc. XV. Tem como quadro geográfico de principal concentração e referência a Arquidiocese de Braga, que é o Minho e Trás-os-Montes e que por ele, em estudos extensivos e comparativos se alarga a outros territórios diocesanos. E como território de fronteira extremamento ativo e participativo, se estende e alarga às vicissitudes de outros territórios (e dioceses) de fronteira.

 


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Sábado, 6 de Janeiro de 2018

Fragmentos de vidas raianas, 1978 a 1981 - I

 

 

Pouco faltava para ser noite quando o Manel emergiu da floresta. Essencialmente povoada de pinheiros e eucalíptos, toldava a maior parte da encosta íngreme do monte. De modo despreocupado, empreendeu a descida do sinuoso caminho que findava na extremidade direita da ponte da Frieira. Esta superestrutura recente, sobranceira ao rio Minho, unia dois lugares galegos homónimos que pertenciam a concelhos e províncias diferentes.

Ambas províncias confrontavam com Cevide, o lugar luso mais hiperbóreo. A da margem direita, a Província de Pontevedra, estava separada dele pelo rio Minho; a da margem esquerda, a Província de Ourense, pelo rio Trancoso, um simples arroio.

O nome adequado das duas aldeias era A Frieira, mas todos proferiam e escreviam Frieira. Até nos epígrafes da estação do caminho de ferro.

Daquele lado da ponte, num discreto remanso retirado da estrada cerca de dois metros, havia uma casinhola de metal laminado. Durante o dia, e a qualquer hora, a probabilidade de nela se encontrarem dois guardas civis era inconstante, mas depois de se implantar o lusco-fusco, a possibilidade convertia-se numa asserção. O verde azeitona original das placas do abrigo – o mesmo que o do uniforme dos ocupantes –, apesar da persistente inclemência do tempo que o fora carcomendo, ainda preponderava. Um jipe Land Rover, igualmente verde, apenas mais escuro, estacionado em frente daquela guarita, denunciava a presença evidente dos guardas fronteiriços.

Vistoriavam os veículos e os respectivos ocupantes em busca de contrabando e de eventuais emigrantes clandestinos que experimentavam, por todos os meios, atingir os países europeus onde o emprego pululava. Observavam e vigiavam, em paralelo, a escada férrea situada diante do tugúrio, necessariamente utilizada por todos aqueles que, vindos da margem esquerda, tinham de ir apanhar o comboio à estação. Os passageiros procedentes de Madrid, de Barcelona e, mormente, de Irun – País Vasco –, que ali se apeavam, eram alvo do maior reparo. Fotos dos principais membros operacionais da ETA e do GRAPO decoravam uma das paredes do casebre.

Aquele espaço restrito era o ponto mais decisivo, mais problemático e mais delicado que determinava a vida e, por conseguinte, os recursos de muitos habitantes da margem ourensana do rio Minho, assim como dos das beiras do rio Trancoso.

Naquela região, onde as terras galaico-minhotas se entestavam, o contrabando – como em qualquer outra zona fronteiriça do mundo – era um afazer intrínseco, arraigado, filho da raia. Fazia de tal maneira parte da vida das pessoas que acabara por ciselar e normalizar as suas exigências, as suas obrigações, as suas asperezas e, em geral, a sua existência. Exceptuando um período quase industrial, principiado com a Guerra Civil Espanhola e finalizado com a capitulação dos Alemães, podia dizer-se que o contrabando, embora considerável, se transformara, ao longo dos anos, num contrabando artesanal, familiar, de necessidade e facilidade. Grande parte dos raianos extirpava diariamente uns dolorosos dividendos mais do que indispensáveis do petate – contrabando.

A partir de 1965, e quase durante uma dezena de anos, a construção da barragem – inaugurada em 1970 – e, depois, da ponte, com tudo o que vai de par, atraíra uma infinidade de pessoas heterogéneas para aqueles povoados; fizera daquelas e de mais algumas aldeolas vizinhas uns centros de comércio, consentindo aos nativos ganhar uns inesperados duros – antiga moeda espanhola de 5 pesetas. Esta profusão alastrou-se, sendo gratificante para muitos portugueses da raia, especialmente para os argutos comerciantes.

Dos consideráveis trabalhadores recrutados para a ocasião, um grande número – os menos qualificados – tinha vindo do outro lado. Foi desta maneira que muitos portugueses esbarraram com a sua alma gémea, fundaram uma família e abraçaram outra terra que, para alguns, não era mais do que o prolongamento da deles.

A ponte e o posto de controlo foram inaugurados conjuntamente.

A consumação destas obras – gigantescas para a região – pusera, inevitável e definitivamente, fim ao eldorado de vários anos de convivialidade, de partilhas e de saudável fartura. Os raianos, sem outra opção, voltaram, pois, a engalfinhar-se nos retrospectivos e corriqueiros negócios que, durante os anos de exuberância, tinham gerido ao ralenti, relegado para um plano secundário ou, muito simplesmente, esquecido.

Instintivamente, o Manel constatou que o Land Rover dos guardas civis não estava ali. Era-lhe igual visto não ter nenhum motivo para revelar o mais pequeno receio ou, ainda que fosse, se precaver das autoridades locais. Neste aspecto sentia mesmo uma deliberada displicência que muito o orgulhecia.

O contrabando nunca fora um capricho, uma fidedigna preocupação ou uma fonte de dinheiro para ele. Ajudava ocasionalmente um africano a atravessar o regato que passava ao lado da sua casa, quando este, em regra geral no inverno, se tornava difícil e pernicioso de transpor. No sítio mais acessível, que distava uns passos da foz, a corrente já se tinha mostrado capciosa, traiçoeira, e até fatal, para alguns aventureiros, aos quais o imenso desespero e sofrimento impulsaram a desafiá-la incautamente. Mas ele conhecia-lhe umas falhas, uns vaus...

Desde as bandas de Portelinha, a torrente do riacho ia engrossando com a água das chuvas ou o derretimento das nevadas; auxiliada pelo desnivelamento do solo, roborava gradualmente, activando-se com pertinácia durante os últimos metros, para se aliviar com estrondo no rio Minho. 

Mas era mais por solidariedade do que pela remuneração, embora o gesto nunca o deixasse indiferente, que o Manel corria o risco de transgredir. Não ignorava que a desesperança podia, de maneira imponderada, perturbar a razão e conduzir as pessoas mais sensíveis ou carenciadas por caminhos desvastadores. Por esta razão, na medida do possível, esforçava-se por fazer o que podia para alijar as angústias dos que, do outro lado do ragato, por vezes, imploravam que lhes estendesse a mão.

Os guardas civis estavam ao corrente da sua prática efémera – tudo era trivial num lugar daqueles –, mas nunca lhe tinham manifestado qualquer contrariedade ou desagrado pelo facto. Compreendia muito bem que quem era pago para combater e sancionar infracções não podia tolerá-las. Achava que era uma elementar questão de sobriedade e de deferência. Não, não os desaprovava, sempre tinham sido bastante afáveis e benevolentes para com ele.

 

Continua.

 


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Sábado, 30 de Dezembro de 2017

O IRMÃO DO ALCAIDE-MOR DE MELGAÇO

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 D. JOÃO DE MELO, INQUISIDOR DO REYNO E MELGAÇO

 

Pedro Fernandes de Castro passou a Portugal, aonde casou com Dona  Maria Dade, filha de Martim Dade, Alcaide Mór de Santarem , de quem se deduz a Casa das Galveas que seu segundo neto na Varonia, Martim de Castro, Senhor de Sanguinhedo, e de Parada, Alcaide Mór de Melgaço, e Castro Laboreiro, a quem ElRey D. João I. fez algumas mercês no Termo de Guimarães no anno de 1402, casou com D. Leonor Gomes Pinheira, filha de Martim Lopes Lobo, e de Maria Esteves Pinheira, e foi segundo avô de Fernão de Castro, Alcaide Mór de Melgaço, irmão de D. João de Melo, que foy Inquisidor, e hum dos tres primeiros, que houve neste Reyno, Bispo do Algarve, Arcebispo de Évora, Regedor das Justiças, Presidente do Paço, e da Inquisiçaõ, e assim foy Presidente em todos os Tribunaes, em que havia servido, faleceo a 6 de Agosto de 1574.

 

Retirado de:

Memorias historicas e genealogicas dos grandes de Portugal, que contem a origem e antiguidade de suas famílias

Por D. Antonio Caetano de Sousa

M. DCC. LV

 

http://books.google.pt

 


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Sábado, 23 de Dezembro de 2017

NOTÍCIAS DO REENCONTRO

710 - 1 notícias.jpg

DIÁSPORA

 

Trazem a poeira longínqua das estradas

e a pressa de erguer a casa.

 

Trazem o suor das usines

e a solidão alta dos guindastes.

 

Trazem a memória de subir a corda

e cortam o pão com a mesma força

de quem vingasse um passado recente.

 

Eles são a esperança,

o peso da consciência,

a sombra de si próprios.

 

Em seu nome erguem-se as estátuas

honram-se os santos e

talvez um dia se proclamem os feriados.

 

Partem sempre depois de cada agosto

com o pintor das uvas.

 

E recomeçam.

 

 

NOTÍCIAS DO REENCONTRO

                 (Poemas)

Castro de Melgaço

Edição do autor

1991

 


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Sábado, 16 de Dezembro de 2017

O CONDE DE REGALADOS

 

festas da cultura, anos 80, séc. XX

                          

O CONDE DE REGALADOS

 

 

Entraram no senhorio de Valladares os Abreus, senhor da casa, torre e couto de Abreu, em Merufe, alcaide-mór de Lapella, Melgaço e Castro Laboreiro, em tempos de D. Pedro I e de seu filho Fernando I. Nas guerras que houve entre Portugal e Castella (por causa das pertenções de D. João I de Castella, com fundamento de ter casado com D. Beatriz, filha de D. Leonor Telles de Menezes) este Abreu, não quis entregar ao nosso D. João I, em 1385, o castelo de Melgaço, onde se achava, pelo que o rei português lhe tirou o senhorio de Valladares e outros. (Vasco Gomes de Abreu, era parente de D. Aldonça de Vasconcellos, mãe da rainha D. Leonor Telles de Menezes, e, por isso seu partidário.)

Na freguesia de Merufe há uma torre (que foi coutada) com uma aldeia chamada Pica de Abreu (Pinheiro de Abreu) solar dos Abreus, dos quais e desta torre já se acham notícias no tempo do conde D. Henrique. Era então senhor da Pica, Gonçalo Rodrigues de Abreu, que foi vassalo, e companheiro do conde nas suas batalhas, e de seu filho, Lourenço de Abreu, senhor do mesmo couto, que se achou com D. Afonso Henriques na batalha de Arcos de Vez, em 1129.

Foi este Lourenço de Abreu, que por ordem de D. Afonso Henriques, construiu o castelo e torre de Lapella, contra os gallegos.

Este couto foi do marquez de Tenorio, e cada morador lhe pagava, um alqueire de cevada. (veio à casa de Tenorio, por aquele marquez ser neto de D. Maria de Abreu Noronha, condessa de Crescente)

A alcaidaria de Lapella, andou na casa dos Abreus de Merufe, até que a venderam ao marquez de Vila Real, que a perdeu, com vida, em 1641, por traidor à pátria.

Entre as muitas e grandes quintas que os Abreus tiveram nesta ribeira, tinham também foros em Vila-Boa e Valladares, com título de direitos reais.

De Lourenço de Abreu, foi filho e herdeiro, Gonçalo Rodrigues de Abreu, rico-homem de D. Sancho I e de D. Afonso II, e se achou na tomada de Elvas, em 1225.

Dos Abreus de Merufe procedem os Abreus de Torre da Grade, os da casa de Anquião em Fornelos de Ponte de Lima, os de Atães de Moure, os de Sol, os morgados da Tábua, os de Vilar junto a Viseu, os da quinta de Cousiguem, os dos Arcos, os da Barca, os de Candoso e muitas outras famílias nobres. Na Índia foram senhores de Fenapôr.

A casa dos Abreu Lima, ramo dos que foram alcaides-mór de Lapela e senhores de Regalados, é a actual do Ameal.

Os Abreu da casa de Anquião procede de D. Rodrigo de Mello Lima, senhor comendatário de Refojos de Lima, filho segundo de D. Leonel de Lima, 1º visconde de Vila Nova de Cerveira.D. Rodrigo deu a sua casa de Anquião a sua filha, D. Joana de Mello, que casou com João Gomes de Abreu, filho segundo de Leonel de Abreu, senhor de Regalados.

 

Retirado de:

http://GeneAll.net-RE:conde de Regalados

http://Gfille:///C:/Documents

 


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